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OS CORVOS DE SÃO JORGE - Ventos do Passado

Escrito em 2024 👁 2 021 leituras ≈ 16h 28m de leitura

E se a Regionalização tivesse sido aprovada no referendo de 1998? Em 1998 realizou-se em Portugal um referendo que tinha como objectivo que os portugueses decidissem se queriam ou não que o território nacional continental fosse administrativamente dividido em regiões autónomas. O Referendo da Regionalização, como ficou registado para a História, teve um índice de abstenção acima de 50% e o "não" venceu com cerca de 60% dos votantes. A Regionalização fora chumbada pelo povo. Os Corvos de São Jorge - Ventos do Passado decorre numa realidade alternativa, muitos anos depois deste referendo, tendo como simples pressuposto a vitória do "sim" nesse mesmo referendo.

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Capítulos

Capítulo 1

Nota do autor

Em 1998 realizou-se em Portugal um referendo que tinha como objectivo que os portugueses decidissem se queriam ou não que o território nacional continental fosse administrativamente dividido em regiões autónomas. O Referendo da Regionalização, como ficou registado para a História, teve um índice de abstenção acima de 50% e o "não" venceu…

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Capítulo 2

0.1

12 de Junho. Lisboa. A noite de céu limpo num tom cinza-azulado, clareado pelo meio luar intenso, fazia sobressair a Lua que iluminava a cidade já por si mergulhada em luzes urbanas. A noite era de festa, era a noite de Santos Populares, a noite de Santo António, o pináculo de um mês tradicionalmente dedicado à diversão na capital. Por to…

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Capítulo 3

1.1

Muito se dissertou acerca do resultado que deu a vitória aos defensores da Regionalização, principalmente o elevado número de abstenções que servia de argumento aos derrotados para a repetição do referendo. Outra das questões era saber se o povo estava, de facto, a par do que era a Regionalização, no que se baseava e quais as suas consequ…

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Capítulo 4

1.2

A manhã de Inverno era de Sol e Pinto Henriques observava o exterior através da janela do seu gabinete no Palácio de São Bento. Perto de completar sessenta anos, Pinto Henriques era um homem de porte austero, rosto fechado e imagem fria como aço. Usava o cabelo penteado para trás, onde as têmporas grisalhas avançavam numa área cada vez ma…

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Capítulo 5

1.3

A chuva caía abundantemente, embatendo nos vidros do luxuoso Jaguar que circulava pelas ruas de Londres, rumo às vias rápidas exteriores. O destino era Heathrow. O veículo fora alugado com motorista para transportar o seu cliente entre o centro da cidade e o aeroporto. No banco traseiro, o cliente, Rafael Guerra, um empresário português d…

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Capítulo 6

1.4

— É a primeira vez que te vejo sorrir. — apontou Rafael, encantado. O sorriso desapareceu do rosto de Clara, quase como se sentisse que um sorriso não era permitido a uma filha que perdera o pai. Nem deram pelo tempo passar. Sentados na esplanada com a mesa entre eles, conversavam havia quase duas horas e toda a realidade que os rodeava p…

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Capítulo 7

1.5

O elevador subia vagarosamente para o quinto piso do hotel. Rafael encostara-se a um dos lados e olhava com ternura para Clara que retribuía o olhar, encostada na parede oposta. Entre eles, um funcionário do hotel com a bagagem de ambos agia com o profissionalismo de tentar ser invisível. Na chegada ao hotel, o motorista acompanhara-os à…

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Capítulo 8

2.1

— É exequível ou não? A pergunta era do engenheiro Pinto Henriques e dirigida ao seu ministro da Defesa, o marechal Costa Almeida, o qual observava um mapa da região metropolitana de Lisboa. A reunião acontecia no gabinete do primeiro-ministro, à volta da mesa arredondada instalada para assuntos que não exigissem todo o concelho de minist…

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Capítulo 9

2.2

O ambiente era sempre muito movimentado naquele bar, mas ele gostava do espaço, onde a clientela não era excessiva nem se corria o risco de ficar envolvido numa calma entediante. Por norma, o balcão era o local de aterragem, um dos bancos altos, o mais próximo possível do ecrã amplo sempre ligado no canal de desporto. Presença regular, co…

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Capítulo 10

2.3

Não houve qualquer diálogo ao longo da viagem. Coube aos altifalantes do rádio a missão de fazer ambiente ao longo do trajecto pelas ruas quase desertas da capital. Só já perto do Parque das Nações é que Kayla falou para dar indicações do caminho para a sua morada. — É aqui. — informou ela, apontando para um prédio recente numa rua do bai…

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Capítulo 11

2.4

Acontecera duas décadas antes... Conceição tinha treze anos, tantos quantos os que vivia no orfanato, onde uma noite alguém a deixara recém-nascida. A instituição era gerida por freiras, as quais a recolheram com um misto de pena e recriminação por quem cometera a insensibilidade de abandonar um bebé na noite fria de Lisboa, mesmo que o t…

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Capítulo 12

2.5

Aquela manhã deixara-a estranha. Primeiro fora o despertar com um desejo descomunal de sexo, o que só não resultou num erro do qual se arrependeria porque o jovem que dormira no seu sofá já lá não estava. Depois, o bilhete amoroso que ele lhe deixara, que a tornara receptiva a voltar a encontrá-lo para uma relação completamente diferente…

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Capítulo 13

2.6

A cidade de Braga estava a ser fustigada por uma chuva miudinha, um daqueles chuviscos que aborreciam mais que aquilo que molhavam. A caravana de carros oficiais do governo do país partira da cidade do Porto e tinha como destino a cidade dos arcebispos, três viaturas de alta cilindrada que avançaram pelo asfalto da A3 como se fossem em so…

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Capítulo 14

2.7

A residência da família Henriques localizava-se numa moradia perto do Palácio de Serralves, no Porto. Foi para lá que o primeiro ministro regressou após a reunião com o arcebispo de Braga. Encontrou a esposa na sala, a qual cumprimentou de forma distante, e fechou-se no seu escritório. A conversa com Rathesleon perturbara-o mais que aquil…

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Capítulo 15

3.1

Os Maia eram uma família de classe média-alta que vivia no último andar de um prédio na Avenida de Roma, um apartamento com quatro quartos, uma sala enorme, uma cozinha, duas casas de banho privadas e uma geral. Não era qualquer agregado familiar que poderia ter um domicílio assim em Lisboa, naquele lugar, uma das zonas mais caras da capi…

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Capítulo 16

3.2

Sónia saiu da estação de metropolitano da Cidade Universitária pelo lado mais próximo do Hospital de Santa Maria. A viagem entre a sua casa e o hospital era relativamente curta, três paragens, com o único inconveniente de ter de mudar de linha na estação do Campo Grande. A sua cabeça vinha perdida em pensamentos centrados na noite anterio…

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Capítulo 17

3.3

O facto de o colégio ser caro era também a principal razão para ser procurado pelas famílias ricas que com isso pretendiam afastar as suas crianças das outras de um estrato social mais baixo. Claro que nem Ivo nem Sónia pensaram desta forma, querendo apenas que as raparigas tivessem a melhor educação possível, evitando as cada vez maiores…

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Capítulo 18

3.4

Ivo estava aborrecido com aquele dia, para não dizer que estava mesmo irritado. Tinha diversos assuntos para tratar e as entrevistas às candidatas a substituir Clotilde privavam-no de tempo precioso. Durante a manhã, tivera duas dessas reuniões. A primeira fora com uma mulher com um currículo impressionante, secretariara directores de uma…

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Capítulo 19

3.5

Naquela manhã, Paula foi sozinha para a escola. Benedita teve de faltar às aulas para acompanhar a avó a uma consulta no centro de saúde. Claro que Genoveva não queria que a neta se ausentasse da escola, mas Benedita estava preocupada e não abdicou de o fazer. Era raro qualquer uma delas faltar às aulas, daí que se poderiam contar pelos d…

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Capítulo 20

3.6

— Estás bem? A pergunta foi feita por Benedita que estranhara algo na amiga, quando a viu nesse dia. Paula anuiu de forma despreocupada. — Porquê? — Não sei... Pareces ausente. Aconteceu alguma coisa na escola? A imagem de Patrícia surgiu no pensamento de Paula, a cena daquela manhã, a neta do presidente a puxá-la contra sua vontade, viol…

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Capítulo 21

3.7

Sexta à noite. A melhor altura para a diversão juntamente com as noites de sábado e de véspera de feriado. Contudo, Afonso não era dado a idas a discotecas, preferindo aqueles jantares semanais de amigos. Afonso estudava Ciências Políticas e, com as suas vinte e duas primaveras, via o último ano do curso a aproximar-se e ponderava seguir…

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Capítulo 22

4.1

Rafael Guerra vivia num hotel do Porto, um hotel do qual ele era dono. Os negócios obrigavam-no a andar sempre em viagem ou então com pouco tempo para se preocupar com coisas como a governação de uma casa. E, ao invés de ter um apartamento desarrumado ou contratar uma empregada doméstica, preferia ter para si uma das suites do hotel e usa…

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Capítulo 23

4.2

Foi como se o chão lhe tivesse fugido debaixo dos pés. A surpresa atingira-o de tal forma que não teve reacção. Meio aparvalhado, olhou para a mulher na sua frente, uma jovem de cabelos claros a emoldurar um rosto choroso, envergando um vestido negro austero e comprido até aos pés. — Clara??? Que fazes aqui? — conseguiu perguntar. Ela par…

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Capítulo 24

5.1

Apesar de o SIALE exercer alguma opressão sobre os movimentos sindicais, estes ainda continuavam a ter força suficiente para organizar greves e manifestações nas ruas. O povo estava cada vez mais descontente com o governo de Pinto Henriques e os protestos multiplicavam-se com o passar das semanas. Bem tinha razão Raimundo Antunes ao alert…

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Capítulo 25

5.2

A família Craveiro Assunção vivia numa moradia na zona do Restelo, um lote generoso localizado perto de algumas embaixadas e organizações importantes que sediavam por ali as suas representações. O edifício de dois pisos era composto por vários quartos, um salão de estar e refeições e um escritório que era partilhado pelos donos da casa, a…

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Capítulo 26

5.3

O motorista da família Craveiro Assunção deixou Bruna Drake defronte do seu prédio, conforme ela lhe indicara. A noite caíra por completo e as luzes alaranjadas coloriam uma rua de sentido único sem vivalma nos passeios. Bruna saiu do carro e o motorista arrancou logo em seguida. Por detrás daquela postura forte que demonstrava nas funçõe…

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Capítulo 27

6.1

A tarde cinzenta trouxera consigo um ambiente triste e um frio ténue insuficiente para causar incómodo. As nuvens espessas cobriam o céu e ameaçavam repetir a chuva dos dias anteriores. Clara aproveitara a manhã para sair e caminhar pela propriedade da família. Desde a morte do pai, só vestia negro, calças negras, botas negras, casaco neg…

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Capítulo 28

6.2

Começava a cair uma chuva miudinha, quando Clara regressou a casa vinda do seu passeio pelos terrenos da família. Fora mesmo a tempo, pois se tivesse demorado mais uns minutos não se livraria de se molhar. Entrou em casa, sendo recebida por Maria das Dores que a ouvira chegar. — D. Artur está na sala. — informou. Clara avançou pelo átrio…

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Capítulo 29

6.3

Era mais uma tarde horrível de chuva a norte do país. O céu tenebroso de nuvens escuras não atenuava nem um pouco, fustigando a estrada com um dilúvio de proporções bíblicas. Rafael conduzia o Porsche com precaução, mais uma contrariedade, pois gostava de pisar no acelerador sempre que escolhia aquela máquina para viajar. O dia estava a s…

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Capítulo 30

6.4

A rigidez do colchão dificultara-lhe a entrada no sono. Contudo, uma vez adormecido, Rafael dormira uma noite maravilhosa que só terminou quando o despertador do telemóvel o acordou. Era um homem habituado a levantar-se cedo e a deitar-se tarde. Saltou da cama com energia, vendo a claridade exterior que adivinhava um dia sem chuva e algum…

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Capítulo 31

6.5

— Adorei o dia de hoje. — confessou Clara, sentada no sofá ao lado de Rafael. — Acho que desde a morte... do pai. Desde que ele partiu que não tinha um dia decente. Obrigada por isso, Rafael. O salão estava com um ambiente confortável, agradavelmente quente com uma fogueira de cavacos a arder intensamente na lareira. Dois candeeiros de pé…

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Capítulo 32

7.1

Amaro Carneiro não escondia a apreensão, sentado no banco traseiro da viatura do partido que era conduzida por um motorista privado. Ao lado do condutor, um homem de fato e óculos escuros com uma expressão fria, típica de um segurança. — Ainda nos seguem? — questionou. — Sim, doutor Carneiro. — confirmou o motorista após uma espreitadela…

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Capítulo 33

7.2

A manhã na capital revelava-se acolhedora e solarenga, mesmo que o frio permanecesse. Contudo, no gabinete de Pinto Henriques, as coisas estavam mais enevoadas. Laurentino Pinto aparecera de surpresa para expor os seus problemas ao chefe de governo. — Estou a dizer-lhe, Henriques, não há como ter orçamento para o financiamento que o meu c…

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Capítulo 34

7.3

Octávio Simões sentia-se cada vez mais uma ilha no grupo parlamentar do MPP, uma vez que a sua voz contestatária acerca do poder regional centralizado em Lisboa só lhe trazia inimigos no partido. Os colegas do parlamento não lhe perdoavam que continuasse a manifestar-se contra Diogo Pereira, um homem do MPP que presidia o governo regional…

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Capítulo 35

7.4

A noite no Porto estava fria e sentia-se a humidade no ar. Chovera toda a manhã e toda a tarde. Ao entardecer, as nuvens dissiparam e o Sol quase deu um ar da sua graça. A chuva não voltou e o frio intensificou-se. Amaro Carneiro observava a iluminação nocturna do interior do seu carro, através do vidro da porta traseira. Viu as pessoas a…

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Capítulo 36

8.1

Fora mais um dia extenuante de trabalho para Valério. Não tanto pelas tarefas, se bem que se sentia a estupidificar naquele lugar. Era mais pelas pessoas, aquela gente que se avaliava pela posição social, pelo dinheiro e pelo que vestia. Pelo menos, não tivera o desprazer de se cruzar com o patrão. A noite já caíra na cidade, pouco passav…

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Capítulo 37

8.2

Teve dificuldade em encontrar uma roupa que lhe parecesse adequada a um encontro com Kayla. Tudo lhe parecia velho, despropositado, feio... Até ponderou se deveria trocar a roupa interior... Não sejas parvo, pá! Ela deixou claro que isso não iria acontecer. Escolheu uma camisola de malha e umas calças de ganga lavadas. Calçou sapatos em v…

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Capítulo 38

8.3

Enviara-lhe uma mensagem quando chegou a casa. Ela não lho pedira. Vá lá saber-se porquê, Valério achou que ela gostaria de saber. Ou então, era só uma forma de falar mais um pouco com ela. Viu que a mensagem fora lida, mas não recebeu qualquer resposta. No dia seguinte, abstraiu-se de pensar em Kayla. Ela que tivesse a iniciativa de o co…

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Capítulo 39

8.4

Sentiu-se a rever um filme repetido, uma daquelas cenas cansativas que já sabia como ia terminar. Estava a conduzir no trânsito lisboeta, avançando pela CRIL para contornar mais de metade da capital até ao lado oriental. Kayla não faltara ao combinado e enviara-lhe uma mensagem pela manhã a combinar a hora do jantar. Desta vez, Valério nã…

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Capítulo 40

9.1

O apartamento de Amaro ficava situado na zona da Boavista, num prédio predominantemente de habitantes de classe alta. Vivia num dos últimos andares, aqueles que tinham mais divisões, apesar de morar sozinho. Estava sentado no escritório com o robe vestido e o olhar vago na janela por onde observava uma manhã enevoada. As virilhas incomoda…

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Capítulo 41

9.2

Como era usual, Manuel Teixeira envergava um dos seus elegantes fatos, acentuando a sua imagem formal de deputado e político consagrado. Preparava-se para sair de casa, do seu apartamento em Almada. Pegou na mala de trabalho e entrou na sala, onde outro homem lia com atenção as notícias num iPad. — Alguma novidade, Romeu? — indagou, aprox…

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Capítulo 42

9.3

Sentia-se uma tranquilidade no horizonte, enquanto Manuel Teixeira conduzia o seu carro pela ponte 25 de Abril rumo a norte. Como presidente do partido, tinha direito a viatura de serviço e motorista particular, mas acabava por preferir ser ele a conduzir e a usar o seu automóvel. A travessia do rio Tejo era algo tão habitual para si que…

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Capítulo 43

10.1

Pinto Henriques aguardava resposta à pergunta que fizera a Raimundo Antunes. — Não te preocupes, Henriques. Sei de fonte segura que o idiota do Flávio de Melo não se deixou convencer pelo Manuel Teixeira e pela sua suspeita de que iríamos fazer um golpe de estado. — É mesmo idiota, esse velho. — concordou o primeiro-ministro. — Mas, temos…

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Capítulo 44

10.2

O hemiciclo estava a compor-se, as bancadas do anfiteatro iam enchendo-se de deputados e as galerias tiveram uma afluência grande de pessoas curiosas com o que se iria discutir na assembleia naquele dia. A zona reservada aos jornalistas não tinha um lugar vazio, uma vez que a proposta de lei que iria subir ao plenário atraía muito interes…

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Capítulo 45

10.3

Diogo Pereira assistia ao debate parlamentar em sua casa, sentado no sofá, a observar o ecrã da televisão com imagens da ARTV, o canal oficial da Assembleia da República que transmitia em directo as sessões do plenário. Aos cinquenta e cinco anos, ele era presidente do governo regional de Lisboa e Setúbal, um cargo que conquistara ao bate…

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Capítulo 46

10.4

José Carlos comparecera no gabinete do reitor, tal como outros membros de direcções estudantis convocadas para o mesmo efeito. Foi lhes dito de forma clara que deveriam apresentar a demissão dos seus cargos e que a reitoria indigitaria os elementos a presidir essas mesmas associações. O reitor foi muito honesto com todos eles, referindo q…

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Capítulo 47

10.5

José Carlos, Carla e Inês estavam na estação de metropolitano do Campo Grande a aguardar notícias. Aguardavam ansiosos por novidades de Afonso que se comprometera a mantê-los a par do que sucedesse na reitoria. Lá fora, a noite começava a cair. Eles estavam os três sentados num dos bancos do apeadeiro, em doloroso silêncio. Viram composiç…

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Capítulo 48

11.1

Um charuto cubano e um copo de whisky Jameson. O som da chuva miudinha a cair na noite escura a chegar aos ouvidos como uma melodia calmante. A luz interior reflectida na janela revelava os pontinhos húmidos que iam polvilhando os vidros. Raimundo Antunes repousava descontraidamente na poltrona do seu escritório, bebendo e fumando como se…

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Capítulo 49

11.2

Nunca gostara de fumar. Se gostasse, teria provado um dos charutos do chefe com a certeza de que ele não se importaria. Segurava o copo com Jameson, o segundo que bebia. Tinha nervos de aço e orgulhava-se da frieza com que via a vida. Mesmo assim, precisava de uma bebida para esquecer o destino das mercadorias que trazia para o seu patrão…

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Capítulo 50

11.3

Uma semana. Conforme se havia comprometido, Vylka reuniu a sua equipa numa semana, cinco agentes confiáveis, para dar vida a um suposto grupo terrorista que pretendia combater a ideologia do PNL. Raimundo Antunes ficou satisfeito com a eficiência da sua agente, nada que o surpreendesse, não fosse ela o seu melhor activo. Ligou a Filipe Ma…

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Capítulo 51

12.1

Ivo ia a caminho de mais um dia de trabalho. Era início de semana e o fim de semana não correra muito bem entre ele e Sónia. Deu por si a pensar em Anabela, a secretária cuja contratação autorizara para o lugar da saudosa Clotilde. A jovem começara a trabalhar no dia seguinte à entrevista, sob supervisão e formação de Clotilde, a qual se…

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Capítulo 52

12.2

A hora tardia resultava num ambiente calmo no restaurante quase vazio. O ambiente era tranquilo e notava-se nos funcionários a descompressão após mais uma refeição movimentada. Ivo e Anabela estavam sentados numa mesa ao canto do espaço, só mais três mesas entre umas trinta tinham clientes. Anabela aceitara o convite com agrado e surpresa…

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Capítulo 53

12.3

Sónia chegara a casa cansada como era normal, mas com um peso arrasador na alma. Não costumava chegar tão tarde e contava encontrar o marido na sala. Ele também ainda não tinha chegado, talvez fosse melhor assim, receava que ele lhe lesse no rosto aquilo que ela queria esconder. Ouviu movimento em casa, percebendo que as filhas estavam ca…

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Capítulo 54

12.4

Ivo chegou ao escritório pela manhã, questionando-se se a noite anterior alteraria a relação profissional que tinha vindo a construir com a sua secretária. Apesar de querer que tudo se mantivesse como antes, com as devidas distâncias, Ivo sentia um certo calor por a encontrar. — Bom dia, Anabela! — cumprimentou da mesma forma que sempre f…

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Capítulo 55

12.5

Havia uma mancha no tecto, uma mancha escura. Seria sujidade ou algum buraco? Aqueles prédios antigos tinham problemas de infiltrações e humidade. A claridade da tarde ainda era suficiente para iluminar o quarto. A cama era de solteiro, mas albergava bem dois adultos. Aquelas manchas... A mobília era antiga, propriedade do senhorio, não d…

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Capítulo 56

13.1

Tal como era esperado, a nova lei de cidadania foi vetada por Flávio de Melo. Em horário nobre num directo emitido por todos os telejornais, o Presidente da República explicou aos portugueses as razões do veto. Algumas figuras nacionalistas lusitanas apressaram-se a reagir, contestando as razões do homem que ocupava o cargo mais alto da n…

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Capítulo 57

13.2

Diogo Pereira recebeu Amaro Carneiro com um forte abraço. Manuel Teixeira já lá estava e também o abraçou. Mais que colegas partidários, eram amigos de longa data. — Como estão as coisas lá para cima? — questionou Manuel Teixeira, sentando-se numa poltrona da sala de trabalho do presidente do governo regional de Lisboa e Setúbal. Amaro se…

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Capítulo 58

13.3

Ivo seguia a sua rotina diária, era um homem de padrões, os seus dias seguiam parâmetros que lhe evitavam esquecimentos. Sempre fora assim, gostava de tudo organizado e arrumado. Saiu do elevador da empresa e caminhou pelo corredor que atravessava os gabinetes envidraçados. Entrava na caixa de vidro da sua secretária com as mesmas palavra…

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Capítulo 59

13.4

A sede do MPP ficava num edifício pombalino, perto da Rua do Ouro. A Baixa de Lisboa era dos piores sítios para levar o carro a meio de um dia de semana. Ivo não estava na disposição de andar a procurar um buraco para estacionar ou caminhar pelas ruas movimentadas de turistas, se largasse o veículo num dos parques subterrâneos ali perto.…

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Capítulo 60

13.5

— É melhor não chegarmos juntos à empresa. — sugeriu Anabela. Estavam ambos no vestíbulo do pequeno apartamento dela, vestidos e prontos a sair. — Eu não vou já para a empresa, tenho de ir a um lugar primeiro. — informou Ivo, olhando-a com deleite. Adorara a noite que passara com ela. E ficara loucamente surpreendido com a forma como ela…

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Capítulo 61

14.1

A tarde de Sol em Lisboa convidava a um passeio. Nas zonas mais turísticas da capital, as pessoas aglomeravam-se entre endémicos e forasteiros. A maior cidade de Portugal era um lugar com uma afluência cada vez maior de pessoas. Um dos lugares mais procurados pelos turistas era o Castelo de São Jorge. Manuel trabalhava para uma empresa de…

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Capítulo 62

14.2

A chuva caía com abundância sobre Lisboa, num dia de Abril que mais parecia de Dezembro. O debate semanal na Assembleia da República fora mais uma batalha de palavras entre o partido do governo e o MPP perante a inércia dos restantes partidos da oposição. Aquelas sessões já não traziam nada de novo para além da consciencialização das pess…

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Capítulo 63

14.3

A estrada molhada obrigava a atenção redobrada na condução. Parara de chover, mas as rajadas de vento sentiam-se na mota, fazendo-a estremecer e seria fácil despistar-se num qualquer movimento mal calculado. Contudo, Cristina não trocava o prazer de pilotar uma mota por conduzir um carro. Só havia uma coisa que lhe fazia o corpo vibrar ma…

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Capítulo 64

14.4

A chuva não a largara todo o caminho, desde a A1 até Aveiro, onde desviou para a A17. O vento também não se mostrou seu amigo, soprando com intensidade ao longo da autoestrada do litoral. A A17 deu lugar a uma estrada estreita de dois sentidos sem que a chuva ou vento abrandassem. Cristina sentia que iria chegar completamente encharcada.…

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Capítulo 65

14.5

A investigação jornalística era o seu mundo, a sua razão de viver, nada a fazia sentir mais realizada. Desde pequena que queria ser jornalista e com o amadurecimento da idade, percebeu especificamente a área que mais se identificava consigo. Vanessa Leal tinha quarenta e quatro anos e era uma espécie de justiceira dos desprotegidos, dos d…

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Capítulo 66

15.1

A manhã clareava devagar com o Sol a incidir sobre os terrenos verdejantes, anunciando mais um dia agradável. Rafael já não dispensava começar o dia com aquele quadro que se avistava da janela do seu quarto. Quando se mudara para a Herdade dos Jordões, não tinha prazo de estadia, mas calculara que não permaneceria por muitos dias, limitan…

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Capítulo 67

15.2

A tarde ventosa trouxera consigo as nuvens e a ameaça de chuva. Clara pedira a um dos funcionários da herdade que fizesse o papel de seu motorista e a levasse até à propriedade do seu padrinho. Rafael oferecera-se para a levar, mas ela recusara, respeitando o pedido de Artur para que ele não a acompanhasse. E era mais simples encarregar u…

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Capítulo 68

15.3

A tarde aproximava-se do fim. Pela janela do seu quarto, Rafael via a luminosidade diminuir espalhando uma tonalidade alaranjada lá fora. Estivera muito tempo no escritório da casa a analisar assuntos relacionados com os vinhos, na ausência de Clara. Para se concentrar nos seus próprios negócios, preferia a privacidade do seu quarto. Feli…

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Capítulo 69

16.1

A tarde aproximava-se do fim. Pela janela do seu quarto, Rafael via a luminosidade diminuir espalhando uma tonalidade alaranjada lá fora. Estivera muito tempo no escritório da casa a analisar assuntos relacionados com os vinhos, na ausência de Clara. Para se concentrar nos seus próprios negócios, preferia a privacidade do seu quarto. Feli…

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Capítulo 70

16.2

A única coisa decente que Cuba dava ao Mundo eram os charutos. Pelo menos, esta era a opinião de Raimundo Antunes. Tudo o resto naquela ilha poderia ser arrasado, principalmente o seu regime comunista merdoso. Razão tinha o Hitler em ter dado caça aos comunistas, tal como fizera Franco, Mussolini... Enfim, já não se faziam líderes assim.…

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Capítulo 71

17.1

A embaixada dos Estados Unidos da América estava localizada em Lisboa, na Avenida das Forças Armadas, entre a Avenida dos Combatentes e a Estrada das Laranjeiras. Era um dos locais mais vigiados e bem guardados da cidade, um pouco como acontecia em todas as cidades mundiais com uma embaixada daquele país. Não era um lugar demasiado movime…

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Capítulo 72

17.2

As pessoas depositavam a sua atenção no casal, o embaixador e a embaixatriz. Pinto Henriques observava atento, ainda a recuperar do choque de reencontrar alguém que julgara que nunca mais veria na vida. Conseguiu disfarçar, apesar de o seu fiel ministro Raimundo Antunes ter reparado em algo estranho no engenheiro sem saber o que era. A pr…

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Capítulo 73

17.3

A noite não tinha luar, mas a luminosidade da cidade permitia algum vislumbre da realidade nos pontos mais escuros. No topo de um prédio, Vylka observava paciente as movimentações na embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. Ao fim de algumas horas em que não se passava nada no exterior do edifício, as movimentações dos automóveis indicaram…

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Capítulo 74

17.4

Cansado seria um eufemismo para definir aquilo que Pinto Henriques sentia pela capital do país. O primeiro-ministro estava farto das deslocações à capital no exercício das suas funções governamentais. Seria muito mais simples ter casa em Lisboa ou arredores, mas ele abominava a região e não a trocaria pela sua Invicta, nem que para isso t…

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Capítulo 75

18.1

O calor ao fim da manhã era agradável e deixava a adivinhar uma tarde bem quente, própria da época. A cidade mergulhada nos raios solares convidava a passeios pelas ruas, sendo que a grande maioria das pessoas que circulava pelos passeios ou nos veículos que cruzavam as estradas estivessem a trabalhar. Era um dia de semana como tantos out…

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Capítulo 76

18.2

A noite estava com laivos tropicais. No seu apartamento, Kayla retocava a maquilhagem defronte do espelho, preparando-se para mais um encontro com um cliente. Afastou-se do espelho, caminhando pelo quarto somente com as cuecas minúsculas de fio dental e o sutiã rendado que lhe apertava os seios. Vestiu uma saia curta que pouco mais cobria…

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Capítulo 77

19.1

As redes sociais foram ganhando importância na vida das pessoas ao longo dos anos, desde o seu início no começo do século XXI. Em Portugal, muitos analistas consideram-nas como factor determinante para o rápido crescimento da doutrina nacionalista lusitana e do seu partido. Não havia dúvidas que, talvez inspirados nos exemplos estrangeiro…

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Capítulo 78

19.2

A noite chegava cada vez mais tarde e a claridade permanecia intensa em horas a que semanas antes a escuridão já envolvia o ambiente. A Primavera estava no auge e cheirava cada vez mais a Verão, apesar de estarmos a meio de Abril. José Carlos conduzia o seu carro no trânsito citadino da capital, paciente sem solução alternativa a ter de e…

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Capítulo 79

19.3

As políticas do governo contra os estrangeiros a viver em Portugal eram cada vez mais condicionantes para estes. A nova lei da cidadania, como o PNL a baptizara, era o expoente máximo da vertente xenófoba do regime, mas ao longo da legislatura nacionalista lusitana, diversas adendas e inclusão de artigos nas leis tornavam a vida muito com…

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Capítulo 80

19.4

Manuel estava de folga naquela tarde enevoada de Primavera. Continuava a não ter resposta às suas mensagens nem os seus telefonemas eram atendidos por Ana. Por isso, decidiu ir ao seu encontro, esperá-la à saída do emprego. O escritório de advogados localizava-se perto do Parque Eduardo VII, numa linha de edifícios onde existiam escritóri…

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Capítulo 81

19.5

Aquele jantar dos Corvos era especial, uma vez que para além do encontro de amigos, eles iriam festejar o aniversário de Afonso. Desta feita, a escolha para se reunirem foi um restaurante na zona norte do Parque das Nações, junto do Jardim Garcia de Orta, perto da Torre Vasco da Gama. Cada vez escurecia mais tarde e as noites iam sendo ma…

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Capítulo 82

19.6

Desejava que chovesse. Isso ou outra coisa qualquer que pudesse servir de desculpa para se furtar àquele encontro que a irmã decidira arranjar-lhe. Não percebia o que passara pela cabeça da irmã para insistir tanto em que ela fosse ao cinema com aquele rapaz que Paula nem conhecia. Não que ele fosse desagradável, até fora simpático com el…

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Capítulo 83

20.1

Bárbara tinha uma vida que poderia ser vista por muitas pessoas como sendo pouco convencional, uma mulher solteira que trabalhava no Palácio de São Bento como assessora do primeiro-ministro. No entanto, porque haveria alguém achar isto pouco convencional? Na verdade, só teria essa opinião quem conhecesse a real relação que Bárbara mantinh…

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Capítulo 84

20.2

O governo de Portugal costumava reunir-se no edifício da Presidência do Concelho de ministros, em Campo de Ourique. Porém, na realidade, os verdadeiros concelhos de ministros realizavam-se no gabinete do primeiro-ministro no Palacete de São Bento com a presença somente de Pinto Henriques e Raimundo Antunes, os que verdadeiramente mandavam…

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Capítulo 85

20.3

A investigação da vida de Helena na sua juventude rapidamente desembocou num beco sem saída. Rafael pegara nos dados da primeira investigação, a qual fora bastante básica em relação à esposa do embaixador, e prosseguira com maior atenção nesse ponto, esmiuçando o que fosse possível. Porém, pouco mais conseguiu saber que aquilo que já sabi…

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Capítulo 86

20.4

Vanessa Leal olhava para a fachada do orfanato com uma expressão séria. Causava-lhe repulsa pensar que um lugar que fora criado para acolher e proteger crianças órfãs ou negligenciadas permitia acesso a gente desequilibrada que obtinha prazer em abusar delas. Iria ser recebida pela responsável da instituição, uma freira austera que já ger…

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Capítulo 87

20.5

— Não conseguimos. É um beco sem saída. — explicou Raimundo a Pinto Henriques, entregando a folha com o relatório dos últimos dados obtidos com a busca pela filha abandonada por Helena. — Ela fugiu da instituição aos dezasseis anos. Mas, conseguimos o nome. — Pinto Henriques arregalou os olhos, como se estivesse prestes a ver uma foto da…

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Capítulo 88

20.6

Não se via um veículo pelas estradas de Lisboa. Numa noite tão escura, se não fosse a iluminação urbana, não se veria um palmo à frente do nariz. Ken circulava pelo Eixo Norte-Sul montado na sua mota, acelerando sem preocupação pela velocidade, pois a matrícula de corpo diplomático dava-lhe toda a protecção para não ser incomodado pela po…

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Capítulo 89

21.1

Ivo nunca tivera uma amante. Poderia ter tido fantasias, pensar nessa possibilidade, mas amava tanto Sónia que jamais a trairia. Depois, apareceu Anabela. No entanto, não foi por ela ter menos vinte e poucos anos e fazê-lo sentir mais novo, não foi por ela ser extremamente sensual e atraente, talvez nem tivesse sido pela inteligência na f…

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Capítulo 90

21.2

José Carlos sabia que aquela noite fora um erro, não deveria ter pressionado a namorada e agora sofria as consequências disso com o visível afastamento de Carla. Não voltaram a abordar o sucedido e ela justificou o distanciamento com a necessidade de se concentrar numa fase importante dos estudos. Carla não evitava o namorado e na Faculda…

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Capítulo 91

21.3

A tristeza habitual no rosto de Paula adquirira maior intensidade com o namoro da amiga. Benedita apaixonara-se por Dinis e era correspondida, pelo que estava imensamente feliz com aquele acaso. Porém, Paula não estava triste por Dinis ter escolhido a amiga, até porque fora ela quem não lhe dera a mínima oportunidade. E Dinis acabou por a…

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Capítulo 92

21.4

— Temos que acabar com isto! — avisou de forma assertiva, olhando para o jovem nu na sua frente. — Isto não pode continuar, eu sou casada. — E? — questionou ele, olhando para os seios firmes dela apontados para si. Sorriu divertido. — Não estou à espera que te divorcies. Sónia estava sentada na cama de um hotel barato em Lisboa com as per…

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Capítulo 93

22.1

A cúpula do Partido Nacionalista Lusitano era composta por pessoas muito inteligentes, logo à cabeça com o primeiro-ministro Pinto Henriques e o seu mais próximo ministro, Raimundo Antunes. Contudo, apesar de todo o plano elaborado que tinham para o seu futuro de poder absoluto em Portugal, obtiveram também o factor sorte com a conjuntura…

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Capítulo 94

22.2

A manhã de Sol convidava a um passeio pela propriedade, uma herdade extensa onde se criavam cavalos e gado, para além da produção de mel e azeite. Ficava situada entre Nisa e Castelo de Vide, o local que os pais de Jorge Smith haviam escolhido para viver quando se mudaram para Portugal em plena II Guerra Mundial, fugindo aos bombardeament…

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Capítulo 95

22.3

O escritório era um espaço confortável iluminado por duas janelas pequenas viradas a sul, composto por uma secretária de trabalho com um cadeirão atrás, um sofá e duas poltronas. As paredes vazias continham somente algumas molduras com referências a notícias sobre os cavalos criados na propriedade. O mobiliário era simples e apenas para a…

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Capítulo 96

Nota do autor

Nesta nota de autor, pretendo esclarecer alguns pontos desta história que me parecem importantes, a fim de evitar confusões ou interpretações erróneas que se possam formar de um livro que pretende apenas e unicamente ser uma obra de ficção e um bom momento de leitura. Como referi anteriormente, qualquer semelhança entre as personagens e p…

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