Capítulo IV
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Os moradores de um edifício, ali para os lados do Arco do Cego, ficaram estupefactos com o que encontraram pela manhã. No átrio do prédio, descobriram um individuo embrulhado em jornais e restos de roupa, dormindo repousadamente no chão. O homem, “ainda por cima preto” como dissera uma das senhoras, era um mendigo que aproveitara a porta aberta para se proteger da chuva da noite e dormir, ali a um canto, sem aborrecer ninguém. O mesmo não pensaram os moradores do prédio.
─ Eh! Acorda, ó tu aí! ─ chamou um dos homens, empurrando-lhe o corpo com a sola do sapato.
─ Chamem a policia! ─ pedia outra senhora, como se o pobre sem-abrigo fosse um criminoso.
─ Não é preciso. ─ contrapôs o primeiro. ─ Eu já ponho este traste na rua.
O mendigo, Alfredo de nome, abriu os olhos, assustado com as pessoas a rodearem-no.
─ Põe-te daqui para fora, anormal! ─ ordenava um outro, mais atrás.
Perante toda a hostilidade, Alfredo pegou nos parcos pertences e afastou-se para a rua, regressando à enxurrada de água que, graças a Deus, não o incomodara naquela noite.
Alfredo era um homem na casa dos trinta e muitos, pele escura, cabelo e barba comprida, sempre com o seu barrete azul na cabeça e um sobretudo gasto de cor preta. Carregava uma espécie de saco ao ombro, onde guardava tudo o que encontrava e achava poder vir a ser útil.
Sentia a chuva a cair sobre ele como se cada gota o procurasse e o tentasse alvejar com força e fazê-lo cair. Ninguém pode imaginar o que é ser um sem-abrigo, a não ser os que o são.
Antes de almoço, a chuva voltou a cair com força, minutos depois de o Sol parecer querer espreitar entre as nuvens cinzentas.
Joana prosseguia o seu trabalho, tentando esquecer os incidentes matinais. Conseguira melhorar a sua figura e já ninguém diria a quantidade de chuva que atravessara. Raramente atendera o telefone, pois não tocara mais que umas cinco vezes, desde que ali estava. E isso enraivecia-a mais, pois constatava o absurdo que fora fazerem-na ir trabalhar em plena véspera de Natal. Felizmente, aproximava-se a hora de almoço. E a secreta esperança de que todos fossem dispensados da tarde continuava.
Olívia limava as unhas entediada com o pouco serviço. Também ela tinha aquela esperançazinha da dispensa vespertina. Lembrava-se que no ano anterior, isso acontecera. E se a memória não a atraiçoava, fora assim todos os anos, desde que ali estava.
O chefe apareceu diante delas e disse:
─ Meninas! A empresa vai encerrar da parte da tarde. Depois do almoço, podem ir para casa.
Ambas fizeram aquele semblante de falsa surpresa, perante a confirmação das suas suspeitas.
─ Você devia ficar cá de castigo. ─ continuou o homem, olhando para Joana. ─ Chegou tarde e ainda sai cedo.
Joana não respondeu. Era melhor assim, ficar calada, uma vez que não lhe poderia responder como gostaria.
Logo que o individuo desapareceu pela porta, Olívia perguntou:
─ Joana! Queres vir comigo à Baixa? Ainda tenho algumas coisas para comprar. Compras de última hora.
─ Não, obrigado.
─ Vá lá, Joana! ─ insistiu. ─ Almoçamos e passeamos um pouco.
─ Não, Olívia! ─ recusou. ─ Vou aproveitar para ir para junto das minhas crianças, em Santa Maria. Aproveitar para passar a tarde com elas. E fico com mais tempo para preparar o jantar de Natal.
Olívia encolheu os ombros, não compreendendo as preferências da colega.
Havia poucas coisas que faziam Joana sentir-se realizada. E uma dessas coisas, era o seu voluntariado com as crianças doentes do Hospital de Santa Maria.
Jacinto apontava algumas notas relativas ao seu departamento, momento em que ouviu baterem à porta. Mesmo antes que ele desse autorização para entrar, a porta abriu e por ela entrou o presidente Bragstad.
─ Bom dia, Dr. Bragstad! ─ cumprimentou, reverencialmente, Jacinto.
─ Jacinto! Vou-me embora e já não volto hoje. ─ informou o outro. ─ Não me parece que valha a pena manter grande parte dos funcionários, esta tarde. Dispense o pessoal. Sei que os fanáticos vão cá ficar. Feliz Natal, Jacinto! ─ E saiu pela porta, por onde entrou, sem esperar a retribuição do empregado.
─ Feliz Natal, Dr. Bragstad! ─ disse Jacinto para o vazio.
Para o pessoal administrativo, a dispensa da tarde era uma óptima noticia. Iam para casa mais cedo e aproveitavam para estar com a família. Já para os gestores de investimentos e correctores, a notícia não servia para nada.
Mário há muito que deixara de ter um horário a respeitar. Passava mais que as oito horas diárias no escritório, quase sempre. No entanto, aquele dia para ele era um dia perdido. Sem negócios em agenda para a tarde e com todo o desenvolvimento bolsista controlado para os seus investimentos, Mário decidira usar a tarde para uma visita ao ginásio.
Jacinto foi ao seu encontro, perto da hora a que os funcionários começavam a abandonar o edifício.
─ Vais ou ficas? ─ perguntou Jacinto.
Mário, enquanto guardava o portátil na mala, respondeu:
─ Vou almoçar. Não sei se ainda volto, mas depois vou ao ginásio. Queres ir lá ter?
─ Não obrigado.
Mário reparou no semblante de Jacinto e indagou:
─ Que se passa? Estás com uma cara.
─ Estou preocupado com a Sandrine. ─ confessou.
─ Ah! Não te preocupes, ela está bem. Garanto-te que não está a apanhar esta chuva. ─ referiu no gozo, apontado para o exterior.
─ Tu bem que podias retirar a queixa.
─ Dizes bem. Podia, mas não o faço. ─ repetiu com firmeza.
─ Que necessidade há em a fazeres passar o Natal...
Mário pegou na mala e interrompeu:
─ Já te disse que, se depender de mim, ela fica lá este e o próximo. Olha! Se estás tão preocupado, compra umas bolachinhas de água e sal. E vai lá levar-lhas. ─ E soltou uma gargalhada que repetiu, enquanto atravessava o corredor em direcção ao elevador.
Mário sentia-se o dono do Mundo. Caminhava com ar altivo e arrogante, indiferente a tudo e a todos. Só lhe importava o que tinha ganho e o que ainda podia ganhar.
Seguiu sozinho no elevador até à cave, onde ficara o seu carro estacionado. O parque estava quase deserto, claro sinal que todos haviam aproveitado aquela dispensa da tarde de véspera de Natal.
Após despir o casaco, colocou-o no banco de trás, juntamente com a mala do computador. Sentou-se no lugar do condutor e fechou a porta. Ligou a ignição, ajeitou a temperatura do ar-condicionado e carregou no play do leitor de CDs do rádio.
Retirou cuidadosamente o veículo do lugar desenhado no chão e arrancou em direcção à rampa de acesso ao exterior. Olhou lá para cima e viu o portão abrir, não escapando à sua atenção o enorme temporal.
Fazendo o motor rugir, conduziu o carro pela rampa em direcção à saída. Mal as rodas frontais tocaram o empedrado do passeio, Mário foi surpreendido pela passagem de uma mulher, à sua frente, tentando fugir ao temporal. Não conseguiu evitá-la e acabou por a tocar com o pára-choques do Audi, atirando-a ao chão.
O carro ficou metade fora, metade dentro da saída das garagens. Mário saiu do carro e, imediatamente, sentiu o frio envolver-lhe o corpo. Voltou novamente ao interior do carro para recuperar o casaco e dirigiu-se à mulher.
─ Ei! Você está bem? ─ perguntou.
O aparato da situação fez com que alguns transeuntes ficassem especados a testemunhar a situação.
No chão, a mulher de cabelos escuros compridos e embaraçados à volta da cara começou a levantar-se.
─ Você está bem? ─ insistiu na pergunta, Mário.
Definitivamente, aquele não era o dia de Joana. Depois de tudo o que lhe sucedera naquela manhã, ainda tinha de ser vítima de um atropelamento à tarde.
─ Penso que sim. ─ respondeu.
─ Você não vê por onde anda? ─ inquiriu Mário, olhando para a frente do Audi. ─ Podia ter-me amolgado o carro.
Joana compôs a roupa e puxou os fios de cabelo para longe do rosto.
─ Não me faltava mais nada. ─ disse. ─ Eu sou atropelada no passeio e o senhor ainda acha que a culpa é minha.
─ Isto é uma saída de garagem. ─ referiu Mário, falando num tom como se ela fosse anormal.
Os espectadores do acidente começavam a dividir-se e a discutir entre si sobre quem seria o responsável. Joana preferiu não lhe responder, optando por verificar se não estava magoada, nem nada dos seus pertences na mala se haviam danificado.
─ É por isto que o país não anda para a frente. ─ continuou Mário, regressando ao carro. ─ A maior parte das pessoas anda com a cabeça nas nuvens.
Ao ouvi-lo, Joana não se conteve:
─ Ó seu... É de pasmar que alguém possa achar que eu é que tive culpa.
─ Devia ter olhado, antes de passar à frente do portão.
─ Você é que devia sair com cuidado. ─ ripostou Joana. ─ Ou você, lá porque é um merdas com dinheiro, acha que pode passar por cima de toda a gente?
Mário olhou-a irritado e disse:
─ É melhor sair daí! Vou arrancar e ainda lhe passo por cima.
As pessoas assistiam à situação com semblante de incredulidade, mas deliciadas pelo espectáculo.
Joana deu um passo, mas fez um esgar de dor. Sentiu que o joelho ficara ligeiramente magoado.
─ Talvez fosse melhor levá-la ao hospital. ─ sugeriu alguém no meio da assistência.
Mário começou a ficar preocupado que ela pudesse ter sofrido consequências do acidente. Não estava preocupado com o estado dela, apenas temia que depois de partir, ela fosse queixar-se à polícia. E testemunhas não lhe faltariam. E ele seria incriminado por atropelamento e fuga, o que dá pena de prisão. Ainda ia fazer companhia a Sandrine...
─ Eu levo-a! ─ afirmou bem alto para que todos ouvissem a oferta.
─ O quê? ─ interrogou Joana. ─ Deve estar louco, você. Eu estou bem!
─ Eu insisto.
─ Só se fosse louca, aceitava boleia de um déspota como você.
Um senhor de idade aproximou-se de Joana e aconselhou:
─ É melhor ir, menina. Com a saúde não se brinca.
Como Joana estava a caminho de Santa Maria e o joelho lhe doía, acabou por aceitar com uma condição:
─ Leve-me a Santa Maria.
Mário franziu o rosto e questionou:
─ Mas o que é isto? Pensa que sou taxista?
─ Ou é Santa Maria, ou nada.
─ Como queira...
Joana coxeou ligeiramente até ao carro e entrou. Mário largou novamente o casaco no banco de trás e sentou-se no seu lugar.
─ Ponha o cinto e veja se não estraga os bancos com essa roupa molhada.
Joana lançou-lhe um olhar de ódio, enquanto ele retomava a marcha do automóvel.
A chuva abundava por toda a parte, alagando tudo e molhando as pessoas que caminhavam pelas ruas, pelas mais variadas razões. O céu ficara ainda mais cinzento e carregado, trovejando com força.
Alfredo já nem reparava na chuva que lhe caía em cima. Trouxa às costas, caminhava pelo passeio, procurando um lugar onde se proteger e descansar até alguém o expulsar de lá. A sua pele escura não ajudava na forma como era recebido pelas pessoas, mas deixava adivinhar a sua naturalidade cabo-verdiana. Viera novo para Portugal, estudar na Universidade e doutorar-se. Porém, a vida fora-lhe traiçoeira e fizera-o ficar sem nada, da noite para o dia.
Caminhava indiferente pela Avenida da República, em direcção às paragens de autocarro, onde poderia proteger-se um pouco da chuva. Sabia que teria de suportar o olhar enojado de cá lá estivesse. Mas sempre era preferível, a ficar à chuva.
Para seu espanto, quando chegou à paragem, encontrou uma jovem adolescente caída sobre o banco a gemer de dores. Reparou no tamanho da sua barriga e constatou que estava grávida. Aproximou-se mais e perguntou:
─ Posso ajudar?
A rapariga olhou para ele sem saber muito bem o que dizer. Precisava realmente de ajuda, mas ser a dele... Nos últimos minutos, ali sozinha, rezara por auxílio. As suas preces haviam sido ouvidas, mas um pouco mal interpretadas, pensou.
Por entre os gemidos de dor, disse-lhe:
─ Acho que vai nascer.
Por momentos, Alfredo não soube o que fazer. Pegou na trouxa e colocou-a debaixo da cabeça da rapariga, tentando que ela ficasse menos desconfortável. Seguidamente, avançou para o alcatrão e acenou aos carros, pedindo ajuda.
─ Como é que está o joelho? ─ perguntou Mário, após largos minutos de silêncio.
Joana olhou-o com desconfiança. Passou a mão pela saia, no local onde lhe doía, e disse:
─ Está melhor.
─ Ainda bem.
─ Porquê? Quer deixar-me aqui? ─ indagou ela. ─ Se quiser, por mim tudo bem.
O semáforo ficou verde e ele arrancou, dizendo:
─ Não me custa nada deixá-la lá.
Sempre que podia, Mário olhava-a. Achava-a teimosa e antipática. Porém, reconhecia-lhe uma invulgar beleza que não o deixava indiferente. Reparou no rosto desarranjado e no cabelo despenteado por um dia invernal. O corpo era elegante. Começou a pensar que preferia tê-la conhecido noutras circunstâncias, talvez num bar à noite, convidá-la para um copo lá em casa e...
─ Que é aquilo? ─ perguntou Joana, apontando pela janela.
Parados no trânsito da Avenida da República, Mário reparou num mendigo que acenava desesperado no meio da faixa do BUS, desviando-se dos táxis que quase o atropelavam.
─ E está ali uma mulher deitada. ─ informou Joana.
─ Alguma drogada. ─ disse Mário, não dando importância ao facto.
─ Parece grávida. Talvez precisem de ajuda.
Mário continuava atento ao trânsito e nem ligou às suas palavras.
─ Pare ali! ─ pediu Joana. ─ Vou ver o que se passa.
─ Está maluca? ─ recusou. ─ Agora vou parar para ajudar um preto e uma drogada? Pode ser uma armadilha para assaltar alguém.
─ Não diga disparates. ─ ripostou Joana. ─ Não vê que a rapariga está grávida? Olhe para a barriga dela!
─ Eu não vou ajudar o preto...
─ Você é racista! ─ afirmou Joana.
─ Eu...
Joana já nem o deixava falar. Insistiu teimosamente com ele para que parasse. Mário acabou por aceder, só para a calar.
Aproveitando não haver carros a passar na faixa do BUS, Mário desviou para a direita e parou o Audi A3 a seguir à paragem.
Mal sentiu o carro parar, Joana saiu indiferente à chuva, correndo para a jovem.
─ Que se passa? ─ perguntou à jovem, refugiando-se no toldo da paragem.
Alfredo apercebeu-se do carro que parara para ajudar e regressou para junto da rapariga.
─ Acho que está em trabalho de parto. ─ respondeu Alfredo por ela.
─ É melhor chamar o 112. ─ sugeriu Joana, retirando o telemóvel da mala.
Mário ficou a observar a cena do interior do carro. Viu Joana retirar o telemóvel da mala, marcar um número, olhar para o aparelho, abanar a cabeça e voltar a colocá-lo na mala. Seguidamente, afastou-se dos outros e regressou ao carro. Abriu a porta e pediu:
─ Pode emprestar-me o seu telemóvel? O meu está sem bateria.
─ Não chega chatear-me o juízo, agora quer usar o telemóvel. Sabe quanto custa...
─ Vá lá, homem! ─ cortou Joana. ─ É uma emergência! E telefonar para o 112 é gratuito.
Com semblante aborrecido, Mário retirou o telemóvel de onde o tinha e entregou-o a Joana. Esta atirou a mala para o banco de trás e fechou a porta, apressando-se a marcar o número e a regressar para perto da jovem.
─ Como te chamas? ─ perguntou Joana, enquanto aguardava que a atendessem.
Por entre as dores, a rapariga balbuciou:
─ Marisa!
─ Olá, Marisa! ─ cumprimentou. ─ Eu chamo-me Joana. Descansa que nós vamos ajudar-te.
A chuva caía com força e o vento soprava violento, atingindo-os com a água, apesar de estarem sob o telhado da paragem. Mal surgiu uma voz do outro lado da linha, Joana forneceu todas as informações necessárias acerca da emergência e da localização. Quase não respirou com a pressa.
Alfredo mantinha-se junto à jovem, segurando-lhe a mão e usando o seu corpo para a proteger das rajadas laterais de vento inundado.
─ Eles vêm a caminho! ─ afirmou Joana, após desligar.
Indiferente a tudo isto e entediado por estar ali à espera, Mário começou a apitar, chamando Joana. Esta, apercebendo-se dos sinais, enfrentou mais uma vez a chuva e correu até à janela do carro. Estava tão encharcada que já lhe era indiferente aquele dilúvio.
─ Ainda demora? ─ perguntou Mário, agastado.
─ Estamos à espera da ambulância. ─ relatou. ─ A miúda está grávida e prestes a dar à luz.
─ Ouça! Pessoalmente, estou a borrifar-me para isso. ─ disse com frieza. ─ Tenho mais que fazer. Vem ou fica?
Joana respondeu à sua frieza, afastando-se do carro e regressando à paragem, dizendo:
─ Adeus!
Mário ligou o carro, fez algumas manobras para se direccionar às faixas de rodagem e avançou, assim que outro carro lhe permitiu entrar na fila de trânsito.
─ Eh! Acorda, ó tu aí! ─ chamou um dos homens, empurrando-lhe o corpo com a sola do sapato.
─ Chamem a policia! ─ pedia outra senhora, como se o pobre sem-abrigo fosse um criminoso.
─ Não é preciso. ─ contrapôs o primeiro. ─ Eu já ponho este traste na rua.
O mendigo, Alfredo de nome, abriu os olhos, assustado com as pessoas a rodearem-no.
─ Põe-te daqui para fora, anormal! ─ ordenava um outro, mais atrás.
Perante toda a hostilidade, Alfredo pegou nos parcos pertences e afastou-se para a rua, regressando à enxurrada de água que, graças a Deus, não o incomodara naquela noite.
Alfredo era um homem na casa dos trinta e muitos, pele escura, cabelo e barba comprida, sempre com o seu barrete azul na cabeça e um sobretudo gasto de cor preta. Carregava uma espécie de saco ao ombro, onde guardava tudo o que encontrava e achava poder vir a ser útil.
Sentia a chuva a cair sobre ele como se cada gota o procurasse e o tentasse alvejar com força e fazê-lo cair. Ninguém pode imaginar o que é ser um sem-abrigo, a não ser os que o são.
Antes de almoço, a chuva voltou a cair com força, minutos depois de o Sol parecer querer espreitar entre as nuvens cinzentas.
Joana prosseguia o seu trabalho, tentando esquecer os incidentes matinais. Conseguira melhorar a sua figura e já ninguém diria a quantidade de chuva que atravessara. Raramente atendera o telefone, pois não tocara mais que umas cinco vezes, desde que ali estava. E isso enraivecia-a mais, pois constatava o absurdo que fora fazerem-na ir trabalhar em plena véspera de Natal. Felizmente, aproximava-se a hora de almoço. E a secreta esperança de que todos fossem dispensados da tarde continuava.
Olívia limava as unhas entediada com o pouco serviço. Também ela tinha aquela esperançazinha da dispensa vespertina. Lembrava-se que no ano anterior, isso acontecera. E se a memória não a atraiçoava, fora assim todos os anos, desde que ali estava.
O chefe apareceu diante delas e disse:
─ Meninas! A empresa vai encerrar da parte da tarde. Depois do almoço, podem ir para casa.
Ambas fizeram aquele semblante de falsa surpresa, perante a confirmação das suas suspeitas.
─ Você devia ficar cá de castigo. ─ continuou o homem, olhando para Joana. ─ Chegou tarde e ainda sai cedo.
Joana não respondeu. Era melhor assim, ficar calada, uma vez que não lhe poderia responder como gostaria.
Logo que o individuo desapareceu pela porta, Olívia perguntou:
─ Joana! Queres vir comigo à Baixa? Ainda tenho algumas coisas para comprar. Compras de última hora.
─ Não, obrigado.
─ Vá lá, Joana! ─ insistiu. ─ Almoçamos e passeamos um pouco.
─ Não, Olívia! ─ recusou. ─ Vou aproveitar para ir para junto das minhas crianças, em Santa Maria. Aproveitar para passar a tarde com elas. E fico com mais tempo para preparar o jantar de Natal.
Olívia encolheu os ombros, não compreendendo as preferências da colega.
Havia poucas coisas que faziam Joana sentir-se realizada. E uma dessas coisas, era o seu voluntariado com as crianças doentes do Hospital de Santa Maria.
Jacinto apontava algumas notas relativas ao seu departamento, momento em que ouviu baterem à porta. Mesmo antes que ele desse autorização para entrar, a porta abriu e por ela entrou o presidente Bragstad.
─ Bom dia, Dr. Bragstad! ─ cumprimentou, reverencialmente, Jacinto.
─ Jacinto! Vou-me embora e já não volto hoje. ─ informou o outro. ─ Não me parece que valha a pena manter grande parte dos funcionários, esta tarde. Dispense o pessoal. Sei que os fanáticos vão cá ficar. Feliz Natal, Jacinto! ─ E saiu pela porta, por onde entrou, sem esperar a retribuição do empregado.
─ Feliz Natal, Dr. Bragstad! ─ disse Jacinto para o vazio.
Para o pessoal administrativo, a dispensa da tarde era uma óptima noticia. Iam para casa mais cedo e aproveitavam para estar com a família. Já para os gestores de investimentos e correctores, a notícia não servia para nada.
Mário há muito que deixara de ter um horário a respeitar. Passava mais que as oito horas diárias no escritório, quase sempre. No entanto, aquele dia para ele era um dia perdido. Sem negócios em agenda para a tarde e com todo o desenvolvimento bolsista controlado para os seus investimentos, Mário decidira usar a tarde para uma visita ao ginásio.
Jacinto foi ao seu encontro, perto da hora a que os funcionários começavam a abandonar o edifício.
─ Vais ou ficas? ─ perguntou Jacinto.
Mário, enquanto guardava o portátil na mala, respondeu:
─ Vou almoçar. Não sei se ainda volto, mas depois vou ao ginásio. Queres ir lá ter?
─ Não obrigado.
Mário reparou no semblante de Jacinto e indagou:
─ Que se passa? Estás com uma cara.
─ Estou preocupado com a Sandrine. ─ confessou.
─ Ah! Não te preocupes, ela está bem. Garanto-te que não está a apanhar esta chuva. ─ referiu no gozo, apontado para o exterior.
─ Tu bem que podias retirar a queixa.
─ Dizes bem. Podia, mas não o faço. ─ repetiu com firmeza.
─ Que necessidade há em a fazeres passar o Natal...
Mário pegou na mala e interrompeu:
─ Já te disse que, se depender de mim, ela fica lá este e o próximo. Olha! Se estás tão preocupado, compra umas bolachinhas de água e sal. E vai lá levar-lhas. ─ E soltou uma gargalhada que repetiu, enquanto atravessava o corredor em direcção ao elevador.
Mário sentia-se o dono do Mundo. Caminhava com ar altivo e arrogante, indiferente a tudo e a todos. Só lhe importava o que tinha ganho e o que ainda podia ganhar.
Seguiu sozinho no elevador até à cave, onde ficara o seu carro estacionado. O parque estava quase deserto, claro sinal que todos haviam aproveitado aquela dispensa da tarde de véspera de Natal.
Após despir o casaco, colocou-o no banco de trás, juntamente com a mala do computador. Sentou-se no lugar do condutor e fechou a porta. Ligou a ignição, ajeitou a temperatura do ar-condicionado e carregou no play do leitor de CDs do rádio.
Retirou cuidadosamente o veículo do lugar desenhado no chão e arrancou em direcção à rampa de acesso ao exterior. Olhou lá para cima e viu o portão abrir, não escapando à sua atenção o enorme temporal.
Fazendo o motor rugir, conduziu o carro pela rampa em direcção à saída. Mal as rodas frontais tocaram o empedrado do passeio, Mário foi surpreendido pela passagem de uma mulher, à sua frente, tentando fugir ao temporal. Não conseguiu evitá-la e acabou por a tocar com o pára-choques do Audi, atirando-a ao chão.
O carro ficou metade fora, metade dentro da saída das garagens. Mário saiu do carro e, imediatamente, sentiu o frio envolver-lhe o corpo. Voltou novamente ao interior do carro para recuperar o casaco e dirigiu-se à mulher.
─ Ei! Você está bem? ─ perguntou.
O aparato da situação fez com que alguns transeuntes ficassem especados a testemunhar a situação.
No chão, a mulher de cabelos escuros compridos e embaraçados à volta da cara começou a levantar-se.
─ Você está bem? ─ insistiu na pergunta, Mário.
Definitivamente, aquele não era o dia de Joana. Depois de tudo o que lhe sucedera naquela manhã, ainda tinha de ser vítima de um atropelamento à tarde.
─ Penso que sim. ─ respondeu.
─ Você não vê por onde anda? ─ inquiriu Mário, olhando para a frente do Audi. ─ Podia ter-me amolgado o carro.
Joana compôs a roupa e puxou os fios de cabelo para longe do rosto.
─ Não me faltava mais nada. ─ disse. ─ Eu sou atropelada no passeio e o senhor ainda acha que a culpa é minha.
─ Isto é uma saída de garagem. ─ referiu Mário, falando num tom como se ela fosse anormal.
Os espectadores do acidente começavam a dividir-se e a discutir entre si sobre quem seria o responsável. Joana preferiu não lhe responder, optando por verificar se não estava magoada, nem nada dos seus pertences na mala se haviam danificado.
─ É por isto que o país não anda para a frente. ─ continuou Mário, regressando ao carro. ─ A maior parte das pessoas anda com a cabeça nas nuvens.
Ao ouvi-lo, Joana não se conteve:
─ Ó seu... É de pasmar que alguém possa achar que eu é que tive culpa.
─ Devia ter olhado, antes de passar à frente do portão.
─ Você é que devia sair com cuidado. ─ ripostou Joana. ─ Ou você, lá porque é um merdas com dinheiro, acha que pode passar por cima de toda a gente?
Mário olhou-a irritado e disse:
─ É melhor sair daí! Vou arrancar e ainda lhe passo por cima.
As pessoas assistiam à situação com semblante de incredulidade, mas deliciadas pelo espectáculo.
Joana deu um passo, mas fez um esgar de dor. Sentiu que o joelho ficara ligeiramente magoado.
─ Talvez fosse melhor levá-la ao hospital. ─ sugeriu alguém no meio da assistência.
Mário começou a ficar preocupado que ela pudesse ter sofrido consequências do acidente. Não estava preocupado com o estado dela, apenas temia que depois de partir, ela fosse queixar-se à polícia. E testemunhas não lhe faltariam. E ele seria incriminado por atropelamento e fuga, o que dá pena de prisão. Ainda ia fazer companhia a Sandrine...
─ Eu levo-a! ─ afirmou bem alto para que todos ouvissem a oferta.
─ O quê? ─ interrogou Joana. ─ Deve estar louco, você. Eu estou bem!
─ Eu insisto.
─ Só se fosse louca, aceitava boleia de um déspota como você.
Um senhor de idade aproximou-se de Joana e aconselhou:
─ É melhor ir, menina. Com a saúde não se brinca.
Como Joana estava a caminho de Santa Maria e o joelho lhe doía, acabou por aceitar com uma condição:
─ Leve-me a Santa Maria.
Mário franziu o rosto e questionou:
─ Mas o que é isto? Pensa que sou taxista?
─ Ou é Santa Maria, ou nada.
─ Como queira...
Joana coxeou ligeiramente até ao carro e entrou. Mário largou novamente o casaco no banco de trás e sentou-se no seu lugar.
─ Ponha o cinto e veja se não estraga os bancos com essa roupa molhada.
Joana lançou-lhe um olhar de ódio, enquanto ele retomava a marcha do automóvel.
A chuva abundava por toda a parte, alagando tudo e molhando as pessoas que caminhavam pelas ruas, pelas mais variadas razões. O céu ficara ainda mais cinzento e carregado, trovejando com força.
Alfredo já nem reparava na chuva que lhe caía em cima. Trouxa às costas, caminhava pelo passeio, procurando um lugar onde se proteger e descansar até alguém o expulsar de lá. A sua pele escura não ajudava na forma como era recebido pelas pessoas, mas deixava adivinhar a sua naturalidade cabo-verdiana. Viera novo para Portugal, estudar na Universidade e doutorar-se. Porém, a vida fora-lhe traiçoeira e fizera-o ficar sem nada, da noite para o dia.
Caminhava indiferente pela Avenida da República, em direcção às paragens de autocarro, onde poderia proteger-se um pouco da chuva. Sabia que teria de suportar o olhar enojado de cá lá estivesse. Mas sempre era preferível, a ficar à chuva.
Para seu espanto, quando chegou à paragem, encontrou uma jovem adolescente caída sobre o banco a gemer de dores. Reparou no tamanho da sua barriga e constatou que estava grávida. Aproximou-se mais e perguntou:
─ Posso ajudar?
A rapariga olhou para ele sem saber muito bem o que dizer. Precisava realmente de ajuda, mas ser a dele... Nos últimos minutos, ali sozinha, rezara por auxílio. As suas preces haviam sido ouvidas, mas um pouco mal interpretadas, pensou.
Por entre os gemidos de dor, disse-lhe:
─ Acho que vai nascer.
Por momentos, Alfredo não soube o que fazer. Pegou na trouxa e colocou-a debaixo da cabeça da rapariga, tentando que ela ficasse menos desconfortável. Seguidamente, avançou para o alcatrão e acenou aos carros, pedindo ajuda.
─ Como é que está o joelho? ─ perguntou Mário, após largos minutos de silêncio.
Joana olhou-o com desconfiança. Passou a mão pela saia, no local onde lhe doía, e disse:
─ Está melhor.
─ Ainda bem.
─ Porquê? Quer deixar-me aqui? ─ indagou ela. ─ Se quiser, por mim tudo bem.
O semáforo ficou verde e ele arrancou, dizendo:
─ Não me custa nada deixá-la lá.
Sempre que podia, Mário olhava-a. Achava-a teimosa e antipática. Porém, reconhecia-lhe uma invulgar beleza que não o deixava indiferente. Reparou no rosto desarranjado e no cabelo despenteado por um dia invernal. O corpo era elegante. Começou a pensar que preferia tê-la conhecido noutras circunstâncias, talvez num bar à noite, convidá-la para um copo lá em casa e...
─ Que é aquilo? ─ perguntou Joana, apontando pela janela.
Parados no trânsito da Avenida da República, Mário reparou num mendigo que acenava desesperado no meio da faixa do BUS, desviando-se dos táxis que quase o atropelavam.
─ E está ali uma mulher deitada. ─ informou Joana.
─ Alguma drogada. ─ disse Mário, não dando importância ao facto.
─ Parece grávida. Talvez precisem de ajuda.
Mário continuava atento ao trânsito e nem ligou às suas palavras.
─ Pare ali! ─ pediu Joana. ─ Vou ver o que se passa.
─ Está maluca? ─ recusou. ─ Agora vou parar para ajudar um preto e uma drogada? Pode ser uma armadilha para assaltar alguém.
─ Não diga disparates. ─ ripostou Joana. ─ Não vê que a rapariga está grávida? Olhe para a barriga dela!
─ Eu não vou ajudar o preto...
─ Você é racista! ─ afirmou Joana.
─ Eu...
Joana já nem o deixava falar. Insistiu teimosamente com ele para que parasse. Mário acabou por aceder, só para a calar.
Aproveitando não haver carros a passar na faixa do BUS, Mário desviou para a direita e parou o Audi A3 a seguir à paragem.
Mal sentiu o carro parar, Joana saiu indiferente à chuva, correndo para a jovem.
─ Que se passa? ─ perguntou à jovem, refugiando-se no toldo da paragem.
Alfredo apercebeu-se do carro que parara para ajudar e regressou para junto da rapariga.
─ Acho que está em trabalho de parto. ─ respondeu Alfredo por ela.
─ É melhor chamar o 112. ─ sugeriu Joana, retirando o telemóvel da mala.
Mário ficou a observar a cena do interior do carro. Viu Joana retirar o telemóvel da mala, marcar um número, olhar para o aparelho, abanar a cabeça e voltar a colocá-lo na mala. Seguidamente, afastou-se dos outros e regressou ao carro. Abriu a porta e pediu:
─ Pode emprestar-me o seu telemóvel? O meu está sem bateria.
─ Não chega chatear-me o juízo, agora quer usar o telemóvel. Sabe quanto custa...
─ Vá lá, homem! ─ cortou Joana. ─ É uma emergência! E telefonar para o 112 é gratuito.
Com semblante aborrecido, Mário retirou o telemóvel de onde o tinha e entregou-o a Joana. Esta atirou a mala para o banco de trás e fechou a porta, apressando-se a marcar o número e a regressar para perto da jovem.
─ Como te chamas? ─ perguntou Joana, enquanto aguardava que a atendessem.
Por entre as dores, a rapariga balbuciou:
─ Marisa!
─ Olá, Marisa! ─ cumprimentou. ─ Eu chamo-me Joana. Descansa que nós vamos ajudar-te.
A chuva caía com força e o vento soprava violento, atingindo-os com a água, apesar de estarem sob o telhado da paragem. Mal surgiu uma voz do outro lado da linha, Joana forneceu todas as informações necessárias acerca da emergência e da localização. Quase não respirou com a pressa.
Alfredo mantinha-se junto à jovem, segurando-lhe a mão e usando o seu corpo para a proteger das rajadas laterais de vento inundado.
─ Eles vêm a caminho! ─ afirmou Joana, após desligar.
Indiferente a tudo isto e entediado por estar ali à espera, Mário começou a apitar, chamando Joana. Esta, apercebendo-se dos sinais, enfrentou mais uma vez a chuva e correu até à janela do carro. Estava tão encharcada que já lhe era indiferente aquele dilúvio.
─ Ainda demora? ─ perguntou Mário, agastado.
─ Estamos à espera da ambulância. ─ relatou. ─ A miúda está grávida e prestes a dar à luz.
─ Ouça! Pessoalmente, estou a borrifar-me para isso. ─ disse com frieza. ─ Tenho mais que fazer. Vem ou fica?
Joana respondeu à sua frieza, afastando-se do carro e regressando à paragem, dizendo:
─ Adeus!
Mário ligou o carro, fez algumas manobras para se direccionar às faixas de rodagem e avançou, assim que outro carro lhe permitiu entrar na fila de trânsito.