QUARTZO FUMADO · Capítulo 6

Capítulo VI

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O bafo quente atingiu-os de surpresa no momento em que, pela primeira vez, tinham contacto com o exterior. O amplo passeio defronte da enorme Estação Oriente estava deserto e poucas pessoas andavam por ali. Os irmãos subiram os vários pisos, desde o apeadeiro do Metropolitano até ao nível da rua. Passava das onze e meia da noite e a temperatura deveria rondar os vinte e poucos graus.
Mikhail já se desfizera do casaco que segurava por baixo do braço e lutava com a gola alta da camisola.
Tudo parecia normal, mas mal foi atingida pelo ar quente, Ekaterina teve uma sensação estranha que a fez estremecer.
— Estás bem, Eka?
Ela encolheu os ombros.
— Não te sei explicar. Sinto algo esquisito, não sei como descrever.
— Parece que estás a regressar a casa, não é?
Ekaterina encarou o irmão pasmada.
— Como adivinhaste?
— Porque senti o mesmo, quando senti o ar da rua. — Suspirou. — Bolas, que calor…
Mal refeita do choque, ela tentou desvalorizar o assunto, habituada a que o irmão sentisse, pensasse e agisse em sintonia consigo.
— Eu disse-te que aqui as temperaturas nada tinham a ver com a nossa terra.
Mikhail perdeu a paciência e despiu a camisola de gola alta, amorfanhando-a junto com o casaco.
Ekaterina olhou em redor, sabia que o hotel ficava junto da estação. Não havia muito trânsito nas avenidas, mas os ruídos dos motores e o eco por entre as paredes dos edifícios aumentou o impacto dos sons.
— É ali! — apontou ela.
Mikhail viu o alto edifício a poente da central de transportes.
O som das rodas a rolar na calçada acompanhou-os naqueles metros até ao alojamento.
— Escolhi o hotel perto da estação porque este é o principal entreposto de transportes da cidade. Daqui podemos ir para qualquer lado.
Ele anuiu sem dar importância, deixaria os pormenores de logística com ela.
Não se via ninguém, somente no Centro Comercial Vasco da Gama se vislumbravam algumas pessoas que saiam de um espaço comercial que parecia já ter as lojas fechadas. Eles atravessaram a larga via que ladeava a estação e contornaram a esquina para entrar no hotel.
O ambiente interior era agradável e o ar condicionado funcionava de forma a que a temperatura fosse constantemente confortável. O balcão da recepção localizava-se à direita e eles dirigiram se lá.
— Boa noite! — cumprimentou Ekaterina em inglês. — Têm uma reserva em nome de Ekaterina Alienka Protasova?!
O sotaque dela tinha um arranhar que não escondia a sua origem russa.
Atrás do balcão, o funcionário envergava uma farda imaculada em castanho pesado com o nome do hotel na lapela. Deveria ter pouco mais de trinta anos e mostrou-se altivo, um requisito para trabalhar num hotel de cinco estrelas como aquele. Porém, revelou-se simpático e falava um inglês perfeito.
— Boa noite! — retribuiu, dividindo a atenção pelos dois. — Deixe me confirmar, por favor.
Mikhail aguardou, analisando o interior. Viu passar uma rapariga fardada no átrio e sorriu-lhe quando ela olhou para ele. Ekaterina manteve a atenção no funcionário que procurava a reserva no computador.
— Sim, cá está. Reserva de um quarto de casal em nome de Ekaterina Alienka Protasova. — A forma como dissera o seu nome fez lhe recordar o sotaque do marido… do ex-marido. Tornou a sorrir lhe. — Temos a indicação que iria chegar tarde.
Ekaterina anuiu, enviara um email, uns dias antes, a avisar a hora do voo e que teriam de fazer o check-in no hotel muito tarde. A reserva fora feita há muito mais tempo, quando Tiago ainda fazia parte do elenco, daí o quarto de casal.
— Fizeram boa viagem?
— Sim. Mas, cansativa. Muitas horas de voo.
— Preciso dos vossos passaportes, por favor.
Mikhail antecipou-se e depositou o seu sobre o balcão. Ekaterina retirou o seu da bolsa e colocou o livrinho com o símbolo da Federação Russa junto ao do irmão.
Enquanto verificava os documentos, o funcionário entregou-lhes uma folha para Ekaterina preencher. O questionário era bilingue e ela esforçou-se por olhar somente para o texto português, escrevendo e assinalando opções. Por fim, assinou o seu nome com uma caligrafia digna de uma iluminura.
Continuando num inglês perfeito e dividindo a atenção pelo casal, o funcionário explicou que o pequeno-almoço era servido no restaurante do primeiro piso, entre as seis e meia e as dez e meia da manhã. O hotel tinha vários restaurantes, ele recomendou uma bebida no rooftop com uma vista magnífica para o rio e a cidade. Entregou-lhes dois cartão-chave dentro de um invólucro que continha igualmente a senha para o WiFi.
— O quarto fica no décimo quarto piso. Querem ajuda com as malas?
— Obrigado. — recusou Mikhail fazendo-se ouvir pela primeira vez.
O funcionário anuiu e indicou-lhes o caminho para os elevadores.
O ambiente no hotel era silencioso, àquela hora os hóspedes estariam nos seus quartos, possivelmente a dormir. No átrio não se via mais ninguém, nem sequer funcionários. Rebocando as malas, eles encontraram os elevadores. Mikhail pressionou o botão com a seta para cima. As portas abriram de imediato.
— Estás com uma carinha…
— Estou cansada, Mika. — disse ela, deixando-se encostar ao peito dele. — E é tarde. A esta hora, em casa, há muito que estava a dormir.
Mikhail abraçou-a com ternura, vendo a contagem dos andares a aumentar. Ao “14” pararam e as portas abriram. Saíram para o corredor iluminado por apliques na parede, o chão alcatifado abafava-lhes os passos. Ekaterina caminhava na frente do irmão, atenta aos números.
— É aqui. — indicou, introduzindo um dos cartões na ranhura para o efeito.
A luzinha vermelha transformou-se em verde e um clique sinalizou que a porta fora destrancada. Ekaterina teve dificuldade em empurrar a porta pesada, devido ao cansaço, mas Mikhail abriu-a como se fosse um cortinado.
O quarto iluminou-se quando ela colocou o cartão no suporte, ligando a electricidade e fazendo ouvir-se o ténue soprar do ar condicionado. Mikhail cedeu passagem à irmã para entrar. Ekaterina caminhou curiosa, observando o espaço. Mikhail seguiu-a. As paredes eram beges, um bege mais intenso pelas lâmpadas leds amarelas ligadas. Após a entrada, o pequeno corredor tinha somente um roupeiro que ficara aberto para que os novos hóspedes vissem o interior, abaixo da segunda prateleira escondia-se um cofre. Ultrapassado o corredor, o quarto era composto, à esquerda, por uma larga cama de casal com lençóis de um branco imaculado e uma coberta preta aos pés do colchão alto. A cabeceira era baixa e tinha dois grandes almofadões encostados e outras duas almofadas mais jeitosas para dormir. Uma mesa de cabeceira de cada lado, ambas com os candeeiros ligados, compunham a cama.
Ekaterina encostou a mala à cama. Mikhail deixara a sua perto do roupeiro e parara atrás da irmã. Ela sentou-se no colchão confortável e pousou os olhos no rosto do irmão. Bateu com a mão na coberta.
— Quando fiz a reserva, ainda era suposto ser o Tiago a vir comigo. — justificou, como se ele tivesse perguntado. — Espero que não te importes de partilhar a cama comigo.
— Até parece que nunca dormimos na mesma cama. — respondeu, desvalorizando a situação.
— Éramos miúdos. — recordou ela, sorrido com alguma saudade.
— Somos irmãos, Eka. Partilhar uma cama não tem qualquer importância.
— Eu sei, Mika.
Mikhail largou o casaco e a camisola na cadeira sem braços arrumada no canto do quarto, mesmo em frente à cama e junto aos cortinados, altos blackouts fechados que escondiam as grandes janelas de três folhas com uma vista fabulosa para o rio. Ele tirou o telemóvel do bolso e digitou uma nova mensagem que a noiva só iria ler quando acordasse.
Ekaterina olhou para a porta na parede oposta às janelas. Levantou-se da cama e abriu-a, confirmando que se tratava da casa de banho. O irmão largou o telemóvel na mesa de tampo redondo baixa junto à cadeira e aproximou-se dela, colocando as mãos nos seus ombros.
— Vamos descansar?
Ela voltou-se para ele, encostou a cabeça no seu peito e abraçou lhe a cintura.
— Obrigada, Mika! Obrigada por teres vindo comigo.
Ele apertou-a nos seus braços e beijou-lhe os cabelos.
A parede que encarava a cama tinha um televisor de ecrã plano, muito fino, aparafusado entre dois espelhos de um metro de largura pela altura total do quarto. Abaixo da televisão, um pequeno móvel que escondia o minibar. Eles abriram as malas no chão, entre esse móvel e o corredor.
Ekaterina despiu o casaco de malha e descalçou as sapatilhas. Enfiou a mão na sua mala e retirou tudo o que precisava.
— Vou mudar de roupa para me deitar. — disse ao irmão que espreitava pelos cortinados para ver a noite lisboeta lá em baixo, a escuridão em que o rio se mergulhava, as luzes da Ponte Vasco da Gama e os pontinhos luminosos na margem oposta que ele não fazia a mínima ideia do que seria.
A casa de banho era forrada a azulejos azuis. O chão era em tijoleira creme, quase do mesmo tom que a alcatifa do quarto. Tinha um espelho enorme acima do lavatório em porcelana preta sobre um móvel com portas da mesma cor. A sanita fazia conjunto e ainda tinha a fita que certificava a higienização. Ao fundo do pequeno espaço, uma cabine de duche com duas portas em acrílico emolduradas entre as paredes maiores. Ekaterina teria apreciado um duche rápido, mas sentia-se demasiado cansada. Pousou o necessaire no lavatório e depositou o pijama sobre o tampo da sanita. Abriu o fecho da bolsa e retirou os artigos de higiene pessoal, bem como os medicamentos que teria de tomar para controlar o avanço do “bicho”. Largou dois comprimidos na mão e engoliu-os a seco. Respirou fundo, desejando não voltar a ter complicações de saúde que lhe pudessem estragar a estadia. Se tinha direito a algum desejo, gostava que o “bicho” lhe desse tréguas enquanto estivesse em Portugal. Diante do espelho, analisou-se e sorriu para o rosto cansado, começando a desapertar os botões da blusa.
Mikhail verificou no telemóvel se a noiva teria lido a mensagem. Não viu o visto que o confirmaria. Devia já estar a dormir. Três horas de diferença, dissera Ekaterina. Olhou para as horas no telemóvel, eram quase quatro da manhã em São Petersburgo. O cansaço também lhe pesava, por isso, permitiu-se a tombar na cama, amachucando os lençóis.
A porta da casa de banho abriu-se. Ekaterina saiu, segurando a roupa que vestira ao longo desse longo dia. O pijama era composto por uma t-shirt rosa com uma elefanta azul a sorrir, que se lhe moldava ao tronco, e uns calções brancos curtos, o traje ideal para dormir em noites de Verão. Caminhou descalça pelo quarto e largou a roupa sobre a mala. Sorriu-lhe visivelmente feliz, já sem a maquilhagem e com o longo cabelo preso no toutiço com um elástico.
Mikhail levantou-se do colchão, era a sua vez de usar a casa de banho. Também retirou os seus artigos pessoais da mala e arrumou-os com os da irmã no lavatório e no armário de apoio.
Ao retornar ao quarto, a luminosidade diminuíra significativamente. Ekaterina desligara todos os candeeiros, à excepção daquele sobre a mesa de cabeceira destinada ao irmão. Ela já estava deitada, acomodada entre os lençóis e virada de costas para ele, tendo escolhido para si o lado do colchão mais perto das janelas. Mikhail não usava pijama, dormia unicamente de boxers e foi assim que largou a sua roupa na cadeira, por cima da camisola inadequada para o clima daquele país. O respirar tranquilo da irmã revelou-lhe que já dormia. Com cuidado, afastou o lençol e enfiou-se na cama a seu lado. Espreitou por cima da sua cabeça, o rosto de olhos fechados parecia sonhar. Ele debruçou-se sobre ela e beijou-lhe a face.
— Dorme bem, maninha.
Não houve resposta, o cansaço vencera-a.
Mikhail estendeu-se no colchão, mas não se conseguiu tapar. Desligou a luz e adormeceu poucos segundos depois.

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Fim do capítulo

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Próxima publicação 18/09/2026 às 21:00 Capítulo 11 · Capítulo XI

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