Capítulo II
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As semanas passaram numa normalidade estranha, desde que Ekaterina se encontrara com a sentença do seu destino, o diagnóstico de uma doença que lhe traçara uma linha de veto a todos os sonhos e planos que ainda estavam por concretizar. Porém, havia um desejo que ela alimentava desde há muito e sentia que ainda o poderia realizar.
Em oito anos de relação com Tiago, nunca houvera oportunidade para visitar o país dele, Portugal, do qual ele falava algumas vezes e ela apenas conhecia das imagens que visse na televisão, fotos em revistas de turismo ou por pesquisas na Internet. Queria ir ao país que ficava no lado oposto da Europa, plantado à beira do Atlântico. Por isso, a vontade dela em fazer a viagem não era nova, mas os acontecimentos recentes impulsionaram-na a marcá-la para o início do Verão seguinte. Tiago concordara. Aliás, desde que soubera da doença dela, ele parecia aceitar tudo, concordar com tudo, evitar qualquer desentendimento, se bem que na verdade raramente tivessem uma desavença e as escassas eram resolvidas em poucos minutos e quase sempre na cama.
A “cama” era outra coisa que parecia ter mudado com a revelação. Antes, Ekaterina sentia em Tiago uma tremenda fome sexual pelo seu corpo, tal como ela sempre o desejou a ele. Bolas, o sexo era tão bom com Tiago. Fazer amor de forma lenta era maravilhoso, mas ela adorava quando ele a fodia loucamente ou ela o cavalgava como uma amazona, completamente doida e insaciável. Onde estavam aqueles orgasmos violentos, quando ambos explodiam de prazer? A paixão não esmorecera uma chama que fosse em oito anos, mas depois de a saber doente, Tiago fazia amor com ela como se Ekaterina fosse uma peça de porcelana chinesa da dinastia Ming.
A chuva caía na cidade. Não estava frio, não o frio que os russos nortenhos enfrentam no Inverno, era um frio primaveril. Ekaterina conduzia a caminho do hospital, atenta para que o piso molhado não a fizesse ter um acidente. Pelo menos, já não havia gelo, mas a chuva perturbava-lhe a visão. Estacionou no parque automóvel destinado aos directores hospitalares, um lugar adjacente aos edifícios cinzentos sinistros, uma recordação soviética do tempo do comunismo e de uma época em que a cidade dava pelo nome de Leningrado. O Mercedes desportivo ficou estacionado entre um Porsche e um Tesla. Num país tão fã do petróleo, o dono do segundo arriscava-se a ser preso por insubordinação ao regime por ter um carro eléctrico.
Ekaterina riu-se do seu pensamento. A Rússia podia ser uma espécie de ditadura camuflada, mas o regime ainda não andava a controlar os seus cidadãos a esse ponto. Saiu do automóvel e abriu o guarda-chuva para se proteger. Vestia um sobretudo comprido e calçava botas de cano alto, cujos passos soavam imponentes na sua passada por entre as dezenas de automóveis ali parados, todos de gama alta, pois dirigir departamentos hospitalares não era para pelintras.
Uma vez no seu gabinete, o sobretudo ficou pendurado no cabide e substituído por uma bata branca. Não havia muito que fazer, Ekaterina apresentara a sua demissão, dias antes, e cumpria as últimas semanas de serviço. A demissão fora o primeiro passo para a sua nova vida, ou melhor, para o que restava dela. Os efeitos da doença ainda não eram visíveis, ninguém adivinharia que no corpo elegante daquela loura de olhos azuis se desenvolvia um tumor maligno que a levaria dos que amava e que a amavam. Porém, as dores faziam-se sentir, os desconfortos, e ela acabava por sucumbir à necessidade de analgésicos, os únicos medicamentos que tomava. O colega que ela consultara e que lhe dera o diagnóstico ficara chocado com a sua resistência em entregar se à quimioterapia, quase tomando-a por uma maluca que iria à procura de curas milagrosas à base de ervas e rezas. Não, nada disso, ela só não queria terminar a sua vida careca, enjoada, a vomitar, magérrima e uma sombra esbatida da mulher que era.
Sem nada melhor para fazer, Ekaterina passou o tempo a consolidar os planos da viagem que faria com o marido a Portugal. Inicialmente, ele oferecera-se para tratar de tudo, mas não tratara de nada. Tiago revelava-se mais consternado com a doença dela que ela própria. Para Ekaterina, aquela viagem teria de ser a sua despedida em grande, tentar esquecer o tumor (assim ele o permitisse) e desfrutar ao máximo daquela segunda lua-de-mel. Encarregou uma agência de viagens para tratar dos procedimentos legais, os vistos turísticos e os voos. A escolha e reserva dos hotéis ficaria por conta dela.
Tiago já não ia a Portugal há muito tempo, nem Ekaterina sabia quanto, apenas que nunca lá voltara desde que o conhecia. Em momento algum se mostrou entusiasmado com a ideia, mas nos últimos tempos não revelava entusiasmo com nada.
O telemóvel tocou, uma música dos Coldplay, a qual significava que se tratava de uma chamada do irmão.
— Olá, Mika!
— Olá, Eka! Como estás?
— Bem.
Ela estava sempre bem. Só se estivesse a contorcer-se de dores e prestes a desmaiar é que daria outra resposta. Nunca gostara que ficassem preocupados, muito menos agora, daí que transmitisse sempre uma imagem de quem estava bem, muito bem, principalmente ao irmão.
— Almoçamos?
Ekaterina riu-se para o aparelho.
— Não sei… — respondeu, fingindo ponderar o convite.
Antes da doença, poderiam passar-se alguns dias sem que os irmãos se vissem, mas falavam ao telefone ou trocavam mensagens constantemente. Desde que soubera da doença da irmã, Mikhail não deixava passar um dia sem estar com ela, mesmo nos fins de semana, convidando-a para ir lá a casa com Tiago para um café com ele e Svetlana ou então ia com a noiva ao apartamento dela só para uns minutos que fosse. Era como se quisesse aproveitar cada segundo que pudesse do resto da vida dela.
— Se estiveres ocupada, posso levar algo e comemos aí.
— Prefiro que me leves a um sítio bonito, talvez como aquele onde fomos ontem. Se bem que com esta chuva…
— Não te preocupes, arranjarei algo desse género.
O restaurante era luxuoso, digno do dono de um Porsche. A sala espaçosa abarcava dezenas de mesas, todas ocupadas por homens e mulheres de negócios ou apenas casais a desfrutar de uma refeição confeccionada por um chef. As paredes forradas a papel semelhante a veludo e motivos heráldicos pareciam querer chamar a atenção para o lado histórico da cidade. A iluminação provinha das luzes nessas mesmas paredes, uns candeeiros em forma de águias bicéfalas com lâmpadas a pender dos bicos. O tecto também tinha iluminação, faustosos lustres dourados cujos reflexos potenciavam os leds embutidos na armação. Apenas uma das paredes tinha janelas, uma linha de vidros com vista para o rio Neva, um aproveitamento do espaço se localizar no quinto andar de um hotel de cinco estrelas. Tudo ali cheirava a dinheiro.
Mikhail e Ekaterina entraram na enorme sala conduzidos por um empregado elegantemente fardado e com uma postura cerimonial. Mikhail envergava um dos seus habituais fatos caríssimos, em tom cinza, obrigatórios a quem geria uma carteira de clientes que tomava banho em dólares. Ekaterina, que tal como o irmão deixara o sobretudo na recepção, vestia uma camisola de lã roxa com gola alta e calças escuras que terminavam dentro do cano das botas.
Foram encaminhados para uma mesa junto aos vidros num canto acolhedor. Não era fácil arranjar mesa ali, nem era barato. Isso não era problema para Mikhail. O funcionário indicou a mesa, colocando-se atrás da cadeira que Ekaterina escolhera, para lhe afastar o assento, e eles sentaram-se nas cadeiras de braços, o que os fazia sentirem-se a aterrar numa espécie de trono.
— A vista é muito mais bonita em dias de Sol. — comentou ele, olhando para os olhos dela.
Ekaterina anuiu.
— Também é bonita nos dias de chuva.
Lá em baixo, o rio corria nervoso, o vento instigava-o e perturbava as árvores. Por breves segundos, ficaram ambos a olhar lá para fora. Distraidamente, Ekaterina colocara as mãos sobre a mesa, os dedos esguios de unhas pintadas a pérola a tactear o pano branco imaculado. Mikhail estendeu a mão e colocou-a sobre a dela, afagando lhe os dedos com ternura.
— Como tens passado?
Ela riu cansada, virando a mão que ele segurava e entrelaçando os dedos nos dele.
— Desde ontem? Ou desde que me fizeste essa pergunta há pouco?
O tom era brincalhão, Ekaterina procurava sempre desanuviar o ambiente, quando o assunto insidia sobre si e a sua doença. Não havia crítica ou recriminação.
— Sei que sou chato, ao estar sempre a perguntar, mas…
— Eu sei que te preocupas, Mika.
As mãos continuavam uma na outra, um gesto que lhes atribuía uma imagem de casal que não eram. Porém, eles eram mesmo assim, extremamente afectuosos entre si, amavam-se incondicionalmente como se fossem dois gémeos perfeitos que se espelhavam um no outro.
O empregado regressou, oferecendo-lhes as ementas. Mikhail pediu uma recomendação para a refeição, pois não lhe apetecia ler a lista.
— Como estão as coisas em casa? — questionou, após os pedidos feitos com base na recomendação.
Ekaterina encolheu os ombros, fazendo uma expressão desinteressada.
— O Tiago tem sido o que eu esperava dele, um marido dedicado. Tem-me ajudado, se bem que, felizmente, para já não dou muito trabalho.
O irmão conhecia-a demasiado bem para perceber que aquelas palavras escondiam algo.
— Dizes sempre isso, Eka. Parece que o queres desculpar de algo.
Desde miúdos… Desde sempre, eles nunca conseguiam ou queriam esconder o que quer que fosse do outro. Por isso, ela confessou o que a perturbava:
— Por vezes, o Tiago parece demasiado consternado com a situação. Sinto-o vencido, até parece que é ele que está doente. — Viu uma expressão condenatória no rosto do irmão e apressou-se a desculpar. — Não o levo a mal, Mika. Também não é fácil para ele.
— Tem a obrigação de te animar e não o contrário.
— Cada pessoa tem a sua maneira de lidar com isto.
Mikhail abanou a cabeça, mas não disse nada, uma vez que duas funcionárias se aproximaram para servir os pratos. O primeiro empregado que recomendara a comida, iniciava o procedimento de abrir uma garrafa de vinho tinto que Mikhail escolhera.
Fizeram um brinde silencioso, olhando-se e sorrindo para esconderem a tristeza.
— E a viagem? Mantêm-se?
— Sim. — respondeu entusiasmada. — Claro que sim.
Mikhail não queria que a irmã fizesse a viagem a Portugal. Nem a Portugal, nem a lugar nenhum, pois seria um período grande em que ela estaria afastada e tempo que ele perderia da vida dela ou do que restava dela. Contudo, nunca o verbalizou e fingiu-se animado quando ela lhe contara que a iria fazer com o marido. Porém, Ekaterina lia-o na perfeição e sabia que aquela viagem era como espinhos no coração do irmão.
— O Tiago também está assim entusiasmado?
O sorriso perdeu-se.
Ekaterina anuiu sem adiantar muito mais. Mikhail percebeu que o cunhado deveria estar com o mesmo entusiasmo que ele.
Durante alguns minutos, os irmãos desfrutaram da refeição, observando o exterior invernoso e fazendo comentários de circunstância, nada relevante. Quando outra funcionária veio levantar os pratos, Ekaterina repescou o assunto anterior.
— Isto acaba por não ser justo para o Tiago.
— Como assim?
— Ter de permanecer junto a uma esposa moribunda.
— Não fales assim, Eka. Por favor, não digas isso.
— Não é mentira.
— Não estás moribunda, Eka.
Ela abanou a cabeça e emendou:
— Pronto, ok, não estou moribunda, estou condenada.
Ele recriminou-a com o olhar, mas não foi capaz de contrapor com qualquer frase ou palavra. Ao invés, depositou a mão sobre a dela, sentindo-lhe a pele macia.
— Estás preocupada que não seja justo para o Tiago? E para ti, achas que é justo que… — A voz falhou-lhe, denunciando a emoção. — …que tenhas adoecido?
Ekaterina apertou-lhe a mão com ternura.
— Não seria justo para ninguém. Mas, não quero ser um fardo para ele. A minha consciência diz-me que devo dar abertura ao Tiago para… Bom, se ele quiser começar a planear a vida depois de mim, se eu…
— Pára, Eka! — exclamou num tom mais forte que o pretendido. — Não fales nisso. Cada vez que penso num futuro sem ti…
Ela viu-lhe os olhos a ficarem húmidos.
— Não falemos nisso. — concordou, sorrindo-lhe. Contudo, prosseguiu. — Devo isso ao Tiago. Ele tem sido um marido maravilhoso ao longo destes oito anos. Não quero prendê-lo…
— Na saúde e na doença. — interrompeu Mikhail. — Não é isso que se diz nos casamentos?
— Deve ser. — atirou ela, forçando um sorriso. — Como bem sabes, não somos verdadeiramente casados.
— É como se fossem. E se tivesses querido fazer a cerimónia que os nossos pais queriam, formalizar a relação, seria isso que teriam prometido um ao outro, diante do padre.
— Claro que sim, Mika. — Ekaterina fez uma expressão envergonhada. — Eu sei que ele vai protestar, ofender-se por lhe fazer semelhante proposta e acabará a dizer-me o quanto me ama.
— Então, para quê sugerir-lho?
— Porque não só ele gostará de sentir que lhe dou essa abertura, como eu me sentirei agradada por o ouvir verbalizar a recusa.
— Uma encenação, portanto. — Ela tornou a encolher os ombros. — Tu sabes que ao início eu não simpatizei com ele.
— Como se alguma vez tivesses simpatizado com algum namorado meu.
— Tal como tu com as minhas namoradas.
— És o meu irmão caçula, queria-te só para mim.
Mikhail correspondeu ao sorriso dela.
— E eu nunca gostei de partilhar a tua atenção com outras pessoas. Mas, não tenho problemas em admitir que o Tiago é um tipo porreiro e sei como és feliz com ele.
— A Svetlana também merece a minha aprovação. — retorquiu Ekaterina com humor. — Como se isso fosse condição para que vocês casassem.
— Sabes bem que é importante para mim que gostes da tua cunhada. Da mesma forma que aprecias que me dê bem com o meu.
— Como é que ela está? — questionou a irmã, mudando de assunto. — Não quero causar desentendimentos entre vocês.
— Porque haverias de causar isso?
— Por estares comigo, em vez de estares com ela. Por a fazeres visitar-me todos os fins de semana contigo, por ficar sozinha em casa quando o fazes sem ela ou por ter de me receber na vossa casa quando preferiria andar a passear com o noivo.
— Ela não vê isso assim.
— Seja como for, não levo a mal se falharmos uma vez ou outra…
— Estás a querer dizer-me que o teu marido não gosta das nossas visitas? — questionou Mikhail, suspeitando que era no lado dela que alguém estava descontente.
Ekaterina abanou a cabeça e respondeu com honestidade:
— Pelo contrário. As vossas visitas acabam por animar o ambiente lá em casa. O Tiago tem estado muito apático. Não tem iniciativa para nada e parece comportar-se como um enfermeiro, sempre preocupado se estou bem, mas inconscientemente não me deixa esquecer a doença.
Mikhail anuiu.
— E é com esse espírito que vão fazer a viagem?
Ela sabia que o irmão iria tentar encontrar uma forma de a convencer a desistir de ficar longe dele para fazer aquela viagem.
— As coisas serão diferentes nessa altura.
— Se tu o dizes, Eka…
— Não te preocupes, Mika. — finalizou sem ter realmente a certeza.
Uma rajada de vento soprou a chuva contra o vidro, o clima dava sinal de piorar. A luminosidade exterior também diminuíra e as nuvens escuras pareciam ainda mais pesadas, carregadas de água para continuar a fustigar quem tinha de andar pelas ruas da cidade de São Petersburgo.
— Tenho de regressar ao hospital.
— Já?
Ekaterina olhou para o relógio no pulso.
— Estamos aqui há mais de uma hora.
Mikhail encolheu os ombros, como se isso não tivesse qualquer importância.
— Devíamos fazer um fim de semana de irmãos, só os dois. Íamos para qualquer lado, sem ninguém para nos incomodar, ficávamos a conversar…
— O Tiago até talvez nem se importasse, mas não é justo fazeres isso à tua noiva.
— A Svetlana também não se importa.
Ekaterina não acreditou.
— Vá, Mika. Os nossos empregos chamam-nos.
Mikhail aceitou relutante que o almoço chegara ao fim.
Recolheram os sobretudos na entrada do restaurante e deslocaram-se para o átrio do quinto piso do hotel, onde aguardaram pelo elevador. Ekaterina era alguns centímetros mais baixa que o irmão, ele ultrapassara-a na altura aos dez anos. Enquanto esperava, encostou-se a Mikhail e deixou a cabeça descansar no seu ombro. Ele apertou-a contra si e sentiu a paz que lhe provocava estar assim.
As portas do elevador abriram-se e eles entraram para o espaço vazio. Mikhail carregou no botão com o “0”. Olharam-se e ofereceram um sorriso terno ao outro. Ela encostou-se a ele novamente e abraçou-o pela cintura, enquanto Mikhail a apertou com força contra si.
Meu Deus, como viverei eu quando ela… morrer?
Em oito anos de relação com Tiago, nunca houvera oportunidade para visitar o país dele, Portugal, do qual ele falava algumas vezes e ela apenas conhecia das imagens que visse na televisão, fotos em revistas de turismo ou por pesquisas na Internet. Queria ir ao país que ficava no lado oposto da Europa, plantado à beira do Atlântico. Por isso, a vontade dela em fazer a viagem não era nova, mas os acontecimentos recentes impulsionaram-na a marcá-la para o início do Verão seguinte. Tiago concordara. Aliás, desde que soubera da doença dela, ele parecia aceitar tudo, concordar com tudo, evitar qualquer desentendimento, se bem que na verdade raramente tivessem uma desavença e as escassas eram resolvidas em poucos minutos e quase sempre na cama.
A “cama” era outra coisa que parecia ter mudado com a revelação. Antes, Ekaterina sentia em Tiago uma tremenda fome sexual pelo seu corpo, tal como ela sempre o desejou a ele. Bolas, o sexo era tão bom com Tiago. Fazer amor de forma lenta era maravilhoso, mas ela adorava quando ele a fodia loucamente ou ela o cavalgava como uma amazona, completamente doida e insaciável. Onde estavam aqueles orgasmos violentos, quando ambos explodiam de prazer? A paixão não esmorecera uma chama que fosse em oito anos, mas depois de a saber doente, Tiago fazia amor com ela como se Ekaterina fosse uma peça de porcelana chinesa da dinastia Ming.
A chuva caía na cidade. Não estava frio, não o frio que os russos nortenhos enfrentam no Inverno, era um frio primaveril. Ekaterina conduzia a caminho do hospital, atenta para que o piso molhado não a fizesse ter um acidente. Pelo menos, já não havia gelo, mas a chuva perturbava-lhe a visão. Estacionou no parque automóvel destinado aos directores hospitalares, um lugar adjacente aos edifícios cinzentos sinistros, uma recordação soviética do tempo do comunismo e de uma época em que a cidade dava pelo nome de Leningrado. O Mercedes desportivo ficou estacionado entre um Porsche e um Tesla. Num país tão fã do petróleo, o dono do segundo arriscava-se a ser preso por insubordinação ao regime por ter um carro eléctrico.
Ekaterina riu-se do seu pensamento. A Rússia podia ser uma espécie de ditadura camuflada, mas o regime ainda não andava a controlar os seus cidadãos a esse ponto. Saiu do automóvel e abriu o guarda-chuva para se proteger. Vestia um sobretudo comprido e calçava botas de cano alto, cujos passos soavam imponentes na sua passada por entre as dezenas de automóveis ali parados, todos de gama alta, pois dirigir departamentos hospitalares não era para pelintras.
Uma vez no seu gabinete, o sobretudo ficou pendurado no cabide e substituído por uma bata branca. Não havia muito que fazer, Ekaterina apresentara a sua demissão, dias antes, e cumpria as últimas semanas de serviço. A demissão fora o primeiro passo para a sua nova vida, ou melhor, para o que restava dela. Os efeitos da doença ainda não eram visíveis, ninguém adivinharia que no corpo elegante daquela loura de olhos azuis se desenvolvia um tumor maligno que a levaria dos que amava e que a amavam. Porém, as dores faziam-se sentir, os desconfortos, e ela acabava por sucumbir à necessidade de analgésicos, os únicos medicamentos que tomava. O colega que ela consultara e que lhe dera o diagnóstico ficara chocado com a sua resistência em entregar se à quimioterapia, quase tomando-a por uma maluca que iria à procura de curas milagrosas à base de ervas e rezas. Não, nada disso, ela só não queria terminar a sua vida careca, enjoada, a vomitar, magérrima e uma sombra esbatida da mulher que era.
Sem nada melhor para fazer, Ekaterina passou o tempo a consolidar os planos da viagem que faria com o marido a Portugal. Inicialmente, ele oferecera-se para tratar de tudo, mas não tratara de nada. Tiago revelava-se mais consternado com a doença dela que ela própria. Para Ekaterina, aquela viagem teria de ser a sua despedida em grande, tentar esquecer o tumor (assim ele o permitisse) e desfrutar ao máximo daquela segunda lua-de-mel. Encarregou uma agência de viagens para tratar dos procedimentos legais, os vistos turísticos e os voos. A escolha e reserva dos hotéis ficaria por conta dela.
Tiago já não ia a Portugal há muito tempo, nem Ekaterina sabia quanto, apenas que nunca lá voltara desde que o conhecia. Em momento algum se mostrou entusiasmado com a ideia, mas nos últimos tempos não revelava entusiasmo com nada.
O telemóvel tocou, uma música dos Coldplay, a qual significava que se tratava de uma chamada do irmão.
— Olá, Mika!
— Olá, Eka! Como estás?
— Bem.
Ela estava sempre bem. Só se estivesse a contorcer-se de dores e prestes a desmaiar é que daria outra resposta. Nunca gostara que ficassem preocupados, muito menos agora, daí que transmitisse sempre uma imagem de quem estava bem, muito bem, principalmente ao irmão.
— Almoçamos?
Ekaterina riu-se para o aparelho.
— Não sei… — respondeu, fingindo ponderar o convite.
Antes da doença, poderiam passar-se alguns dias sem que os irmãos se vissem, mas falavam ao telefone ou trocavam mensagens constantemente. Desde que soubera da doença da irmã, Mikhail não deixava passar um dia sem estar com ela, mesmo nos fins de semana, convidando-a para ir lá a casa com Tiago para um café com ele e Svetlana ou então ia com a noiva ao apartamento dela só para uns minutos que fosse. Era como se quisesse aproveitar cada segundo que pudesse do resto da vida dela.
— Se estiveres ocupada, posso levar algo e comemos aí.
— Prefiro que me leves a um sítio bonito, talvez como aquele onde fomos ontem. Se bem que com esta chuva…
— Não te preocupes, arranjarei algo desse género.
O restaurante era luxuoso, digno do dono de um Porsche. A sala espaçosa abarcava dezenas de mesas, todas ocupadas por homens e mulheres de negócios ou apenas casais a desfrutar de uma refeição confeccionada por um chef. As paredes forradas a papel semelhante a veludo e motivos heráldicos pareciam querer chamar a atenção para o lado histórico da cidade. A iluminação provinha das luzes nessas mesmas paredes, uns candeeiros em forma de águias bicéfalas com lâmpadas a pender dos bicos. O tecto também tinha iluminação, faustosos lustres dourados cujos reflexos potenciavam os leds embutidos na armação. Apenas uma das paredes tinha janelas, uma linha de vidros com vista para o rio Neva, um aproveitamento do espaço se localizar no quinto andar de um hotel de cinco estrelas. Tudo ali cheirava a dinheiro.
Mikhail e Ekaterina entraram na enorme sala conduzidos por um empregado elegantemente fardado e com uma postura cerimonial. Mikhail envergava um dos seus habituais fatos caríssimos, em tom cinza, obrigatórios a quem geria uma carteira de clientes que tomava banho em dólares. Ekaterina, que tal como o irmão deixara o sobretudo na recepção, vestia uma camisola de lã roxa com gola alta e calças escuras que terminavam dentro do cano das botas.
Foram encaminhados para uma mesa junto aos vidros num canto acolhedor. Não era fácil arranjar mesa ali, nem era barato. Isso não era problema para Mikhail. O funcionário indicou a mesa, colocando-se atrás da cadeira que Ekaterina escolhera, para lhe afastar o assento, e eles sentaram-se nas cadeiras de braços, o que os fazia sentirem-se a aterrar numa espécie de trono.
— A vista é muito mais bonita em dias de Sol. — comentou ele, olhando para os olhos dela.
Ekaterina anuiu.
— Também é bonita nos dias de chuva.
Lá em baixo, o rio corria nervoso, o vento instigava-o e perturbava as árvores. Por breves segundos, ficaram ambos a olhar lá para fora. Distraidamente, Ekaterina colocara as mãos sobre a mesa, os dedos esguios de unhas pintadas a pérola a tactear o pano branco imaculado. Mikhail estendeu a mão e colocou-a sobre a dela, afagando lhe os dedos com ternura.
— Como tens passado?
Ela riu cansada, virando a mão que ele segurava e entrelaçando os dedos nos dele.
— Desde ontem? Ou desde que me fizeste essa pergunta há pouco?
O tom era brincalhão, Ekaterina procurava sempre desanuviar o ambiente, quando o assunto insidia sobre si e a sua doença. Não havia crítica ou recriminação.
— Sei que sou chato, ao estar sempre a perguntar, mas…
— Eu sei que te preocupas, Mika.
As mãos continuavam uma na outra, um gesto que lhes atribuía uma imagem de casal que não eram. Porém, eles eram mesmo assim, extremamente afectuosos entre si, amavam-se incondicionalmente como se fossem dois gémeos perfeitos que se espelhavam um no outro.
O empregado regressou, oferecendo-lhes as ementas. Mikhail pediu uma recomendação para a refeição, pois não lhe apetecia ler a lista.
— Como estão as coisas em casa? — questionou, após os pedidos feitos com base na recomendação.
Ekaterina encolheu os ombros, fazendo uma expressão desinteressada.
— O Tiago tem sido o que eu esperava dele, um marido dedicado. Tem-me ajudado, se bem que, felizmente, para já não dou muito trabalho.
O irmão conhecia-a demasiado bem para perceber que aquelas palavras escondiam algo.
— Dizes sempre isso, Eka. Parece que o queres desculpar de algo.
Desde miúdos… Desde sempre, eles nunca conseguiam ou queriam esconder o que quer que fosse do outro. Por isso, ela confessou o que a perturbava:
— Por vezes, o Tiago parece demasiado consternado com a situação. Sinto-o vencido, até parece que é ele que está doente. — Viu uma expressão condenatória no rosto do irmão e apressou-se a desculpar. — Não o levo a mal, Mika. Também não é fácil para ele.
— Tem a obrigação de te animar e não o contrário.
— Cada pessoa tem a sua maneira de lidar com isto.
Mikhail abanou a cabeça, mas não disse nada, uma vez que duas funcionárias se aproximaram para servir os pratos. O primeiro empregado que recomendara a comida, iniciava o procedimento de abrir uma garrafa de vinho tinto que Mikhail escolhera.
Fizeram um brinde silencioso, olhando-se e sorrindo para esconderem a tristeza.
— E a viagem? Mantêm-se?
— Sim. — respondeu entusiasmada. — Claro que sim.
Mikhail não queria que a irmã fizesse a viagem a Portugal. Nem a Portugal, nem a lugar nenhum, pois seria um período grande em que ela estaria afastada e tempo que ele perderia da vida dela ou do que restava dela. Contudo, nunca o verbalizou e fingiu-se animado quando ela lhe contara que a iria fazer com o marido. Porém, Ekaterina lia-o na perfeição e sabia que aquela viagem era como espinhos no coração do irmão.
— O Tiago também está assim entusiasmado?
O sorriso perdeu-se.
Ekaterina anuiu sem adiantar muito mais. Mikhail percebeu que o cunhado deveria estar com o mesmo entusiasmo que ele.
Durante alguns minutos, os irmãos desfrutaram da refeição, observando o exterior invernoso e fazendo comentários de circunstância, nada relevante. Quando outra funcionária veio levantar os pratos, Ekaterina repescou o assunto anterior.
— Isto acaba por não ser justo para o Tiago.
— Como assim?
— Ter de permanecer junto a uma esposa moribunda.
— Não fales assim, Eka. Por favor, não digas isso.
— Não é mentira.
— Não estás moribunda, Eka.
Ela abanou a cabeça e emendou:
— Pronto, ok, não estou moribunda, estou condenada.
Ele recriminou-a com o olhar, mas não foi capaz de contrapor com qualquer frase ou palavra. Ao invés, depositou a mão sobre a dela, sentindo-lhe a pele macia.
— Estás preocupada que não seja justo para o Tiago? E para ti, achas que é justo que… — A voz falhou-lhe, denunciando a emoção. — …que tenhas adoecido?
Ekaterina apertou-lhe a mão com ternura.
— Não seria justo para ninguém. Mas, não quero ser um fardo para ele. A minha consciência diz-me que devo dar abertura ao Tiago para… Bom, se ele quiser começar a planear a vida depois de mim, se eu…
— Pára, Eka! — exclamou num tom mais forte que o pretendido. — Não fales nisso. Cada vez que penso num futuro sem ti…
Ela viu-lhe os olhos a ficarem húmidos.
— Não falemos nisso. — concordou, sorrindo-lhe. Contudo, prosseguiu. — Devo isso ao Tiago. Ele tem sido um marido maravilhoso ao longo destes oito anos. Não quero prendê-lo…
— Na saúde e na doença. — interrompeu Mikhail. — Não é isso que se diz nos casamentos?
— Deve ser. — atirou ela, forçando um sorriso. — Como bem sabes, não somos verdadeiramente casados.
— É como se fossem. E se tivesses querido fazer a cerimónia que os nossos pais queriam, formalizar a relação, seria isso que teriam prometido um ao outro, diante do padre.
— Claro que sim, Mika. — Ekaterina fez uma expressão envergonhada. — Eu sei que ele vai protestar, ofender-se por lhe fazer semelhante proposta e acabará a dizer-me o quanto me ama.
— Então, para quê sugerir-lho?
— Porque não só ele gostará de sentir que lhe dou essa abertura, como eu me sentirei agradada por o ouvir verbalizar a recusa.
— Uma encenação, portanto. — Ela tornou a encolher os ombros. — Tu sabes que ao início eu não simpatizei com ele.
— Como se alguma vez tivesses simpatizado com algum namorado meu.
— Tal como tu com as minhas namoradas.
— És o meu irmão caçula, queria-te só para mim.
Mikhail correspondeu ao sorriso dela.
— E eu nunca gostei de partilhar a tua atenção com outras pessoas. Mas, não tenho problemas em admitir que o Tiago é um tipo porreiro e sei como és feliz com ele.
— A Svetlana também merece a minha aprovação. — retorquiu Ekaterina com humor. — Como se isso fosse condição para que vocês casassem.
— Sabes bem que é importante para mim que gostes da tua cunhada. Da mesma forma que aprecias que me dê bem com o meu.
— Como é que ela está? — questionou a irmã, mudando de assunto. — Não quero causar desentendimentos entre vocês.
— Porque haverias de causar isso?
— Por estares comigo, em vez de estares com ela. Por a fazeres visitar-me todos os fins de semana contigo, por ficar sozinha em casa quando o fazes sem ela ou por ter de me receber na vossa casa quando preferiria andar a passear com o noivo.
— Ela não vê isso assim.
— Seja como for, não levo a mal se falharmos uma vez ou outra…
— Estás a querer dizer-me que o teu marido não gosta das nossas visitas? — questionou Mikhail, suspeitando que era no lado dela que alguém estava descontente.
Ekaterina abanou a cabeça e respondeu com honestidade:
— Pelo contrário. As vossas visitas acabam por animar o ambiente lá em casa. O Tiago tem estado muito apático. Não tem iniciativa para nada e parece comportar-se como um enfermeiro, sempre preocupado se estou bem, mas inconscientemente não me deixa esquecer a doença.
Mikhail anuiu.
— E é com esse espírito que vão fazer a viagem?
Ela sabia que o irmão iria tentar encontrar uma forma de a convencer a desistir de ficar longe dele para fazer aquela viagem.
— As coisas serão diferentes nessa altura.
— Se tu o dizes, Eka…
— Não te preocupes, Mika. — finalizou sem ter realmente a certeza.
Uma rajada de vento soprou a chuva contra o vidro, o clima dava sinal de piorar. A luminosidade exterior também diminuíra e as nuvens escuras pareciam ainda mais pesadas, carregadas de água para continuar a fustigar quem tinha de andar pelas ruas da cidade de São Petersburgo.
— Tenho de regressar ao hospital.
— Já?
Ekaterina olhou para o relógio no pulso.
— Estamos aqui há mais de uma hora.
Mikhail encolheu os ombros, como se isso não tivesse qualquer importância.
— Devíamos fazer um fim de semana de irmãos, só os dois. Íamos para qualquer lado, sem ninguém para nos incomodar, ficávamos a conversar…
— O Tiago até talvez nem se importasse, mas não é justo fazeres isso à tua noiva.
— A Svetlana também não se importa.
Ekaterina não acreditou.
— Vá, Mika. Os nossos empregos chamam-nos.
Mikhail aceitou relutante que o almoço chegara ao fim.
Recolheram os sobretudos na entrada do restaurante e deslocaram-se para o átrio do quinto piso do hotel, onde aguardaram pelo elevador. Ekaterina era alguns centímetros mais baixa que o irmão, ele ultrapassara-a na altura aos dez anos. Enquanto esperava, encostou-se a Mikhail e deixou a cabeça descansar no seu ombro. Ele apertou-a contra si e sentiu a paz que lhe provocava estar assim.
As portas do elevador abriram-se e eles entraram para o espaço vazio. Mikhail carregou no botão com o “0”. Olharam-se e ofereceram um sorriso terno ao outro. Ela encostou-se a ele novamente e abraçou-o pela cintura, enquanto Mikhail a apertou com força contra si.
Meu Deus, como viverei eu quando ela… morrer?