QUARTZO TITÂNIO · Capítulo 32

Capítulo XXXII

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A barriga já se notava e Íris acariciava-a com orgulho, deitada na cama com Ashley a dormir tranquila a seu lado. O quarto estava envolto no escuro da noite, mas Íris não tinha sono, uma vez que a sua mente continuava a pensar em Gabriel. Nunca, em momento algum da sua vida, imaginou que pudesse sentir todos aqueles sentimentos por um homem. Amava-o com uma força brutal e, ao contrário do que pensara, o enorme amor e paixão de Ashley não lhe saciavam o desejo por ele. Talvez fosse pela gravidez que a sua líbido estava tão acicatada. A verdade incontornável era que fazer amor com Ashley não lhe apagava a saudade de ter Gabriel dentro de si.
Íris assumira o compromisso de se afastar de Gabriel e dera-lhe o espaço que ele pedira para se adaptar à realidade de que ela nunca seria sua. Contudo, Íris não conseguia afastar-se e aproveitava qualquer justificação para o contactar. A última fora naquela noite, quando lhe quisera dizer que iria dar à luz um menino. Gabriel não parecia interessado em saber, mas era compreensível, era uma defesa. No entanto, Íris não lhe queria dizer só que iria nascer um menino, queria dizer-lhe algo mais, queria dizer-lhe que desejava voltar a ser sua, ser o Arco-íris que ele pintou, que lhe dera cor e voltar a ser amada por ele sem restrições.
E Ashley?
Íris não queria deixar Ashley, amava-a tanto quanto amava Gabriel. Não iria abrir mão de nenhum deles. Era estranho, contrário aos dogmas da sociedade… Que se lixassem os outros, nunca se deixara afectar pelo que terceiros pensavam. Só lhe interessava que Ashley aceitasse Gabriel e Gabriel aceitasse Ashley e ambos a amassem como ela amava ambos.
Naquela troca de mensagens, depois de ele ter escrito “Não digas. Prefiro saber quando nascer.”, Íris escreveu:
“Um dia disseste que não te importavas que eu me relacionasse com outra mulher, se ficasse contigo. Ainda pensas assim?”
Ia para enviar, quando o telemóvel morreu por completo por falta de bateria. Que estupidez, pensara, como poderia ter sido tão distraída, o aparelho já reclamara várias vezes, mas ela esquecera-se de o ligar à corrente, durante a troca de mensagens.
Deixou o aparelho a carregar a bateria sobre o móvel da sala. Entretanto, jantara com Ashley, viram um filme e foram para a cama. Namoraram um pouco, acariciaram-se mutuamente. Nos últimos tempos, elas iam aprendendo as melhores posições para o estado de Íris que já não se sentia confortável em ter a inglesa com a cabeça entre as suas pernas. O inverso mantinha-se, Ashley adorava as sensações que Íris lhe provocava, muito mais experiente a provocar prazer no corpo de uma mulher. No entanto, naquela noite, a paixão saciou-se na troca de beijos e em dedos marotos. E depois a inglesa adormeceu a seu lado. Íris já não se deu ao trabalho de ir buscar o telemóvel. Lembrou-se que ficara uma mensagem por enviar, mas teria tempo de o fazer na manhã seguinte.
No escuro do quarto, Íris pensou na mãe. Que pensaria ela de tudo aquilo que lhe ia em mente? Olga visitara a filha em Montreal, estivera cerca de uma semana com elas. Íris não lhe contou a verdade acerca da paternidade do bebé, mantendo a mesma versão que oferecera a Ashley. Olga teve muita dificuldade em acreditar e sabia que a filha lhe escondia algo, mas jamais lhe passou pela cabeça o pai pudesse ser Gabriel. Outra coisa que Olga estranhou foi o afastamento entre a filha e o ex-namorado de há mais de dezasseis anos. Também aqui Íris não quis falar no assunto, resumindo tudo a uma discussão estúpida.
Íris mantinha em segredo as escassas mensagens que trocava com Gabriel, não queria que Ashley soubesse disso para não ter que ser confrontada com perguntas acerca do seu conteúdo.
Na noite que antecedeu o regresso de Olga a Portugal, Íris conversou longamente com a mãe. Sempre que o assunto não dizia respeito a Ashley, elas conversavam em português. Talvez por isso, nesse serão, Ashley se tenha despedido amuada e recolhido ao quarto para ir dormir.
Olga teve uma conversa muito franca com Íris, mais como duas irmãs que como mãe e filha. Falou-lhe da relação com Gabriel sem filtros, assumindo com uma sinceridade dilacerante que fora uma completa idiota, uma estúpida, por ter desperdiçado o amor daquele homem. Aquela convicção da mãe ficou a martelar na cabeça de Íris, mesmo depois da partida desta. Estaria ela a ser igualmente idiota e estúpida por abrir mão do amor dele?
As convicções vigentes dizem-nos que um ser só pode amar um outro e não mais que um. Íris começou a questionar-se se seria verdade. A lógica podia dizer isso, mas essa lógica começava a não fazer sentido para si. Não imaginava amar Ashley sem amar de igual forma Gabriel e vice versa. Entre o regresso da mãe a Lisboa e aquela noite, Íris ponderou muito bem a decisão que iria tomar, uma visão de futuro que teria de resultar para os três. Porém, iria começar por fazer algo que, até para si, seria errado. Mas, tinha de o fazer.
O intuito último da troca de mensagens com Gabriel, que a falta de carga na bateria interrompera, seria informá-lo que pretendia visitá-lo em Toronto. Ele iria recusar e ela teria de lhe confessar o porquê da visita, desejava ardentemente voltar a fazer amor com ele.
E Ashley?
Sim, iria trair Ashley. Era algo mais forte que ela. Amava-o, desejava-o. Mas, não enganaria a inglesa. Iria contar-lhe quando regressasse e dizer-lhe que queria ficar com os dois. Se Ashley recusasse, Íris iria sofrer, mas seria a inglesa a cortar a ligação entre elas.
E Gabriel?
Gabriel, um dia, dissera-lhe que não se importava… que Íris podia estar com ele e ter uma namorada. Ainda pensaria assim?
E o que é que a levava a crer que uma relação com Gabriel lhe colmataria a ausência de Ashley? Nada. Seria um salto para o vazio. Poderia estar a arruinar tudo na sua vida.
A sua mente era um turbilhão de questões. Mas, a fome sexual por Gabriel consumia-a. E se usasse com ele a desculpa de ter de ir a Toronto discutir assuntos do bebé e depois…? Íris tinha noção de como seria fácil envolverem-se sexualmente. Estaria Gabriel disposto a ser um caso extraconjugal no seu casamento com Ashley? Ser o seu amante secreto aos olhos da inglesa? O sono acabou por se apoderar dela e adormeceu sem certezas de nada na sua vida, para além do amor avassalador que nutria por Ashley e Gabriel.
Na manhã seguinte, Íris acordou com uma sensação de desconforto. A seu lado, a namorada dormia como um anjo. Procurou o telemóvel para ver as horas e recordou-se que o deixara na sala a carregar a bateria. Com cuidado para não acordar a inglesa, levantou-se da cama. Já começava a exigir algum esforço e cuidado, elevar-se com a barriga crescente. Vestiu um robe fino e caminhou silenciosa para fora do quarto.
A sala estava mergulhada na claridade do Sol da manhã, o que sabia bem depois dos últimos dias cheios de chuva e céu cinzento. Íris caminhou devagar até ao móvel, percebendo que estava cada vez mais pesada. Era por uma boa causa, disse para si mesma. Pegou no telemóvel e desligou o cabo de alimentação da corrente. A seguir, carregou no botão para voltar a dar vida ao aparelho.
A luminosidade bonita desapareceu com o avançar das nuvens exteriores que taparam temporariamente os raios solares. Íris inseriu o código de acesso, pensando se deveria enviar a mensagem que escrevera na véspera, daí que tivesse começado por abrir o WhatsApp. A sua mensagem lá estava, por enviar.
Ainda não decidira, quando ecoou pela sala silenciosa uma notificação do aparelho. Íris viu que tinha um email novo de Gabriel. Uma ansiedade angustiada fê-la abrir a aplicação do email no telemóvel. Talvez o seu inconsciente adivinhasse, talvez fosse o medo do que pudesse dali vir. Os seus dedos tremiam a dedilhar o ecrã.
O assunto era… “Adeus”.
Íris começou a chorar ainda antes de abrir a mensagem. Quando o fez, leu:
“Olá Arco-íris,
Que nos aconteceu? Acho que é a pergunta que tenho feito a mim mesmo nos últimos tempos. Tu és uma pessoa tão extraordinária, tão fenomenal, complementas-me tão bem que custa a crer que tenhas pouco mais de metade da minha idade. Há uma certeza que tenho e que quero que também tenhas, nada do que fizemos foi um erro. E apesar do sofrimento que se lhe sucedeu, voltaria a repetir tudo contigo. Nunca julguei que fosse possível amar-te como mulher até àquela noite em que fizemos amor pela primeira vez. Depois disso, eu tive a certeza que nunca amaria ninguém como te amo a ti. Só que não tenho o direito de distorcer a tua vida, desequilibrá-la, prejudicá-la e querer que tu sejas algo que é contrário à tua natureza. Não duvido do teu amor, mas percebo que não sou aquilo que aspiras para a tua vida. E não posso tornar-me um foco para a tua infelicidade. A Ashley é o teu grande amor e tu és uma afortunada por o ter encontrado e ambas se amarem incondicionalmente. Sei que não sou adversário para a Ashley, mas serei sempre uma pedra, um desequilíbrio no teu dia a dia. Tu não consegues largar-me e eu não tenho forças para continuar a afastar-te porque tenho tanta vontade de te ter longe quanto tu tens de ficar longe a mim. Daí que só me reste um caminho. É uma escolha minha, uma escolha com base nos meus erros, nas minhas lacunas e fraquezas. Não és responsável por nada. Eu já era assim, já sobrevivia nos meus desesperos antes de teres vindo para o Canadá. Se tens alguma culpa é a de me teres dado alguma felicidade e perceber o que é ser-se amado verdadeiramente.
Este texto é também uma confissão, uma revelação das coisas que não te disse e que quero que saibas. Sempre te adorei, sempre foste um ser especial. Nunca te vi como uma filha, mas adorava cuidar de ti naqueles dois anos maravilhosos em que estive com a tua mãe. Lembro-me das nossas brincadeiras em que insistias que fosse avô das tuas bonecas ou que andávamos pelo parque e eras muito curiosa com toda a fauna e flora que víssemos. Recordações de quando te ajudava com os trabalhos de casa, quando te explicava algumas matérias que foram o prenúncio da profissional em que te estás a tornar. É curioso como nos últimos tempos todas estas memórias voltaram e se tornaram tão nítidas. Por vezes, questiono-me se não me terá doído mais separar de ti que da tua mãe.
Imaginas a felicidade que foi voltar a ver-te, quando chegaste a Toronto, à minha casa? Nem eu o percebi na altura. Foi como encontrar a peça que faltava de um puzzle que não compreendia. E continuei a não perceber. Há muito coisa inexplicável entre nós e que eu também não procuro compreender em tudo o que nos liga. Naquele momento, eu não tive dúvidas que faria qualquer coisa por ti. Tu eras… Tu és, com toda a certeza do meu ser, a pessoa mais importante da minha vida.
Devo-te uma verdade que te escondi e menti. O apartamento onde vives não é de um amigo, é meu, comprei-o de propósito para ti. Não to disse porque sabia que, se soubesses a verdade, o recusarias. Por isso, menti-te e inventei o amigo que tinha uma casa em Montreal. Peço desculpa por isso, mas claro que não me arrependo. Já pensei em colocar esse apartamento em teu nome, mas não vale a pena, ele acabará por ser teu. Eu não tenho herdeiros naturais. Ou, não tenho até o teu bebé nascer. Continuarei a não ter porque isso implicaria que divulgasses a paternidade do bebé e tu não queres. E compreendo que não queiras, afinal isso poderia destruir a tua relação com a Ashley. Porém, é irrelevante. Grávida ou não, serias sempre a minha herdeira porque ninguém mais mereceria sê-lo senão tu. Se não fosse para ti, não sei para quem iria, nunca pensei muito nisso até há umas semanas. E por esta via, o teu bebé herdará um dia tudo o que é meu.
Houve outras mentiras, como dizer-te que já não eras o meu arco íris. Tu és o meu arco-íris, és as cores do meu mundo, até quando os teus arcos estão cinzentos tu emanas cor na minha vida. Sei que te magoei, que te ofendi, que te agredi verbalmente, que te ignorei, que te afastei… Sei lá, maltratei-te por culpa minha. Foram uma defesa, mas tu não merecias. Tal como disseste, não fizeste nada de tão imperdoável que merecesse o castigo.
Gostava que as coisas tivessem sido diferentes. Algumas coisas, talvez a parte final, as últimas semanas, basicamente desde que a Ashley regressou à tua vida. Teria preferido que não tivesse voltado, mas sei que não serias tão feliz comigo… Talvez a questão não seja a felicidade, tu serias feliz comigo, só não serias completa. Aconteceu o que tinha que acontecer e estou grato por tudo o resto que aconteceu, cada momento partilhado contigo e, principalmente, as duas noites em que nos amámos livremente e fomos um só. Nunca me senti tão uno com ninguém como aconteceu contigo. E não poderia haver pináculo maior de simbolismo do nosso amor que o bebé que cresce dentro de ti.
Tenho a certeza de que serás muito feliz. Sei que irás atravessar momentos de trevas por minha culpa, por aquilo que se seguirá a esta mensagem. Mas, tu és forte. Eu não sou tanto e lamento-o. Poderia fugir de ti, mas nunca conseguiria fugir de mim próprio, dos meus fantasmas, da minha angústia, da solidão que me tem vindo a matar ao longo dos anos. Parto com um sorriso nos lábios porque será o teu rosto a minha última memória. Amo-te com todas as células do meu corpo, a cada batimento do meu coração. És a mulher da minha vida. Sê feliz, tu mereces, Arco-íris, o meu arco-íris. Amo-te! Para sempre teu, Gabriel.”
Íris sentiu um pânico profundo ao ler a mensagem, um pânico desesperante que foi crescendo a cada linha de texto. Ela compreendia o significado daquilo. As lágrimas corriam-lhe abundantes pelo rosto, turvando-lhe a visão e perturbando-lhe a procura dos ícones correctos no ecrã do telemóvel. Encontrou a lista de contactos e o nome de Gabriel. Clicou no símbolo verde e encostou o aparelho à orelha.
— Por favor, meu Deus! — suplicava a uma fé em que pouco acreditava, ouvindo o toque de chamada no auscultador. — Por favor, não permitas que ele…
O toque deu lugar ao voicemail. Íris desligou e voltou a repetir a chamada. A mão tremia, a respiração acelerada era reveladora do pânico. Não, não podia acontecer, não podia terminar assim.
— Por favor, atende Gabriel!
Ao fim de mais alguns toques, ouviu atender.
— Gabriel! — chamou num lampejo de esperança. — Gabr…
A voz que lhe respondeu não era a de Gabriel e atendeu em inglês. Íris fez um esforço hercúleo para não perder a esperança. No outro lado da linha, a voz de Francis.
A notícia foi uma facada no seu coração. Talvez tivesse preferido essa mesma facada real a ouvir aquilo que ouviu. Francis tentou usar algum eufemismo, mas não havia forma de lhe dar a conhecer a tragédia sem que isso fosse terrivelmente doloroso.
Íris deixou cair o telemóvel, quando ouviu Francis dizer que encontrara Gabriel morto na sua cadeira de trabalho, nessa manhã.
Ela não lhe deu tempo para ser informada dos pormenores, mas também não queria saber, tinha noção que fora ele a acabar com a própria vida. Ainda ouviu Francis a chamar no auscultador do aparelho, mas não foi capaz de fazer nada além de se deixar cair contra o móvel e chorar desesperada.
A culpa é minha. Fui eu que o matei.
Sem conseguir parar de chorar, Íris segurou o telemóvel e desligou. A aplicação de chamadas deu lugar ao WhatsApp. Íris viu a mensagem que ficara por enviar. Dilacerada, pensou em como aquelas palavras poderiam ter evitado a tragédia, se a bateria não tivesse colapsado. Apagou a mensagem, já não valia a pena. Culpou o telemóvel pelo sucedido e começou a bater com ele no chão.
Ashley acordou com as pancadas. Surpresa e confusa, levantou-se da cama para saber o que se passava. Encontrou Íris lavada em lágrimas, literalmente, a espatifar o aparelho.
— Que aconteceu? — perguntou, ajoelhando-se a seu lado e abraçando Íris. — Que aconteceu, meu amor?
Íris deixou-se aninhar no abraço da namorada, afundou o rosto no seu pescoço e balbuciou:
— O Gabriel morreu.

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