Capítulo XXVIII
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Íris acordara bastante tarde, no dia seguinte. Mas, não tinha importância, era Domingo. O telefonema terminara de madrugada com imensas juras de amor e uma fase aparvalhada de despedidas sem que nenhum tivesse vontade de desligar. Íris acordou feliz, tão feliz que sentia o coração a querer explodir-lhe do peito. Imaginou-se a viver ali com Gabriel, a partilharem o espaço, o apartamento, o quarto, a cama… Arrepiou-se com ansiedade de voltar a estar com ele. Sorriu para ninguém, sem acreditar como era possível estar tão apaixonada por um homem, ela que sempre gostara de mulheres. Porém, não tinha dúvidas, era Gabriel quem ela queria amar para o resto da vida.
Ainda deitada, pegou no telemóvel para ver as horas. Reparou que tinha uma notificação do WhatsApp. Voltou a sorrir e disse em voz alta, pensando em Gabriel:
— Ó meu amor. Já a mandar mensagens?
Contudo, ao abrir, viu o nome de Ashley e a mensagem era “I’m so stupid”.
Íris ficou sem reacção, mas também não sabia muito bem o que aquilo, de facto, queria dizer. Viu a hora a que a mensagem fora enviada, chegara de manhã. Ficou curiosa e escreveu em inglês:
“Que aconteceu?”
A resposta não demorou, a inglesa deveria estar à espera disso, com o telemóvel na mão, desde que enviara a mensagem.
“Sou estúpida por te ter perdido”
Íris elevou-se na cama, mas manteve o lençol a cobrir-lhe o peito nu, como se estivesse ali mais alguém. Questionou-se o que deveria fazer. Optou por ser rude:
“Que queres?”
“Tenho saudades tuas.”
Íris não tinha dificuldade em traduzir as ideias para inglês, já se habituara ao english diário.
“Foste tu quem quis terminar, Ashley”
“Não tens saudades minhas?”
“Não”, respondeu Íris, apesar de ser mentira. A inglesa magoara a muito, partira-lhe o coração. Não estava na disposição de ser agradável.
“Estou em Montreal. Gostava de te voltar a ver.”
Íris sentiu um choque, a sua realidade ficou abalada, ficou confusa. O desejo de a voltar a ver era imenso.
“Acho melhor não”
A resposta demorou mais algum tempo que as anteriores.
“Tens coisas minhas em tua casa. Posso ir buscá-las?”
Íris não a queria ver ou voltar a estar com ela. Não queria tanto, quanto desejava voltar a estar com ela. A saudade veio não soube donde. Lutou consigo própria para não sucumbir ao desejo.
“Dá-me uma morada. Eu mando-te tudo.”
“Não sejas assim. Estás a ser cruel.”
“Não me fales em crueldade, depois do que aconteceu em Londres.”
“Fui estúpida e arrependo-me de te ter deixado partir.”
“Que fazes em Montreal? Não disseste que não voltavas?”
“Porque achas que vim? Tens dúvidas que és a razão?”
Íris estremecia, os pensamentos perturbavam-na, a razão mandava-a terminar com aquilo de vez, o coração ansiava pelo corpo da inglesa. Antes de responder, a mensagem seguinte foi um rude golpe para a sua defesa:
“Contei à minha família que sou lésbica. E contei-lhes que tu és minha namorada.”
“Era”, corrigiu Íris.
Mais uma vez, a resposta demorou, talvez uns dois minutos. Quando chegou, dizia “Não me digas que não tens saudades disto” e trazia uma foto de Ashley a fotografar-se para um espelho em tronco nu.
O desejo começou a consumir Íris, estava a perder o controlo.
“Vou pensar no teu caso. Estou muito ocupada. Depois digo-te alguma coisa, quando poderás vir cá a casa.”
“Fico a aguardar, Íris. Amo-te!”
Íris não respondeu, mas ficou um tempo indeterminado a olhar para a foto. Tinha muitas saudades dela, daquele corpo, do amor que faziam naquela cama. Quando deu por si, o olhar continuava na foto, mas a mão entrara nas cuecas e os dedos acariciavam-lhe os lugares onde tantas vezes andara a língua de Ashley. O silêncio do apartamento foi ligeiramente perturbado pelo som ofegante. Por fim, vindo do único quarto ocupado, o gemido prolongado de alguém num momento de prazer solitário.
Íris saiu do quarto, nua, e caminhou para a casa de banho. Tomou um duche, preocupada por não ter conseguido afastar Ashley do seu pensamento. O dia estava lindo, solarengo e convidativo a um passeio. Íris não sentiu esse apelo, nem planeava sair, por isso, vestiu uns calções e uma camisola de alças para andar por casa.
Gabriel não voltara a dizer nada. Sem saber porquê, Íris desejava que ele lhe ligasse ou mandasse uma mensagem. Contudo, ela própria não teve essa iniciativa. Ainda não identificara a causa, talvez o seu inconsciente já o adivinhasse, mas ela parecia não ver, daí que a preocupação e a ansiedade a envolvessem e a deixassem apreensiva.
Nessa tarde, descontraiu no sofá a ver um filme na televisão. Lá fora, a vista da cidade de Montreal através da sua parede de vidro era magnífica. O filme terminou e ela desligou o ecrã. Consultou o telemóvel na esperança de ter alguma notificação. Nada. Fez um chá frio e deixou-se ficar no sofá relaxada e pensativa.
Subitamente, os seus pensamentos foram quebrados pelo toque da campainha. Não esperava ninguém, nem ninguém a visitava sem avisar primeiro. Julgou ser alguém a chatear e ignorou o toque. Porém, a campainha voltou a zumbir.
Irritada, largou o chá na mesinha defronte do sofá e percorreu a sala até ao pequeno átrio da entrada. Aborrecida, levantou o intercomunicador e perguntou quem era, sem conseguir distinguir o inoportuno visitante no videoporteiro.
Sentiu um arrepio na espinha, ao ver Ashley.
— Olá, Íris! Sou eu, a Ashley.
— Que queres? — questionou rude.
— Estava a passar na vizinhança e pensei em fazer-te uma visita para conversarmos.
— Eu disse-te que te ligava, quando quisesse que viesses…
— Por favor, amor. Precisamos de conversar.
Íris tinha total noção que era errado ceder ao seu pedido e ao desejo que sentia que ela subisse. O razoável era manter a recusa, mandá la embora e exigir-lhe que esperasse que ela decidisse quando poderiam conversar. Consciente de tudo isto, carregou no botão e permitiu que ela subisse. Todo o seu corpo tremia. Íris sabia como tinha dificuldade em controlar as emoções junto da inglesa. Contudo, esforçou-se por ter uma postura dura e aguardou na entrada do apartamento que a outra aparecesse.
Ashley saiu do elevador e lançou-lhe um sorriso que quase derreteu Íris. Vestia uma camisola preta apertada sem mangas e um decote sugestivo em V, a qual acompanhava com minissaia branca e sandálias. Íris deu por si a pensar que o preto sempre combinara bem com os cabelos louros da inglesa. Ashley jogava todos os trunfos, sabia as emoções que a sua imagem despertava em Íris. Fez de conta que se sentia envergonhada e encurtou a distância entre elas devagar.
— Eu disse que te ligava.
— Eu sei. Mas, tenho tantas saudades tuas.
Quando terminou a frase, Ashley estava a um passo de Íris. Fez um movimento como se a fosse beijar na boca, mas Íris desviou o rosto no último momento e ela tocou-lhe com os lábios na face.
Sem dizer nada, Íris entrou no apartamento e fez um gesto, convidando a ex-amante a entrar.
— As tuas coisas estão no teu quarto. — indicou, fechando a porta. — Podes ir buscá-las.
— Podemos conversar?
Íris cravou o olhar nela, a expressão zangada esforçava-se para aparentar o distanciamento que não queria dela.
— Não temos nada para conversar. — lembrou com o desejo a corroer-lhe o corpo, olhando para as curvas apetecíveis da outra.
— Discordo. — insistiu Ashley. Voltou-se para a sala e caminhou até ao sofá, sentando-se e cruzando as pernas de forma sensual. — Temos que falar sobre o que aconteceu.
— Talvez. — concordou Íris sem reparar que estava a andar na direcção do sofá. — Mas, não agora. — Sentou-se no sofá com uma distância que lhe pareceu segura. — É melhor ires buscar as tuas coisas e ires embora.
— Já não me amas? — Ashley ignorou o que ouvira. — Olha para mim e diz-me que já não me amas.
Íris olhou para ela.
— Ashley…
— Eu fui uma cabra contigo. — continuou, não deixando Íris falar, talvez porque julgasse que a outra ia mesmo confirmar que já não a amava. — Julguei que, ao expulsar-te da minha vida, conseguiria fugir àquilo que sou. — Íris fez um semblante interrogativo. — Só serviu para perceber o quanto te amo. E que não posso viver sem ti.
— Não me apetece continuar com relações em segredo. Quero mais!
— Compreendo. — Ashley mostrava-se vulnerável. — Compreendo que queiras mais. E eu estou na disposição de te dar mais.
— Que queres dizer com isso?
— Que estou preparada para assumir sem reservas o que sinto por ti. Já o fiz com a minha família, fá-lo-ei com todas as pessoas que queiras.
Íris sentiu-se a sucumbir ao encanto da outra. Numa tentativa desesperada de defesa, levantou-se do sofá. Ashley copiou-lhe o movimento e segurou-lhe no braço.
Sem saber como, nem porquê. Ou talvez até soubesse que fora o desespero de fugir ao destino, Íris voltou-se abruptamente, puxando o braço livre atrás e dando uma chapada no rosto de Ashley.
A inglesa ficou sem reação com a face vermelha e uma expressão se surpresa no olhar. Íris também se surpreendeu, mas não revelou qualquer arrependimento por o ter feito.
— Acho que mereço isso.
— Não, não mereces. — retorquiu Íris num tom duro. — Ninguém merece ser agredido, nem ninguém tem o direito de agredir alguém. Mas, não me arrependo.
Ashley anuiu. Sorriu triste.
— Estamos quites.
— Sim… — concordou Íris. — Estamos quites.
Do nada, Ashley avançou para Íris e agarrou-a, forçando o beijo. Atingiu-lhe a boca com os lábios e tentou envolvê-la com os braços.
Íris reagiu, empurrando-a com força para a afastar de si. Ashley caiu desamparada no sofá, mas ao tentar segurar-se, puxara a camisola de Íris e rasgara-a completamente, deixando-a com os seios nus.
— Estúpida! — atirou Íris sem se preocupar em se cobrir.
Ashley atirou-lhe um sorriso escarninho.
— Sim, sei que sou. — confirmou, puxando a camisola pela cabeça e oferecendo-lhe a visão dos seus seios.
— Cabra! — cuspiu, aproximando-se.
— Uma cabra estúpida. — O olhar da inglesa era lânguido e provocador.
— Puta!
Ashley endireitou-se no sofá e puxou-a pelos restos da camisola.
— Sim, posso ser puta, se for a tua puta.
Íris deixou-se cair sobre Ashley, aterrando as mãos nos seios da outra e beijando-lhe a boca com uma fome sexual feroz.
O que se desenrolou a seguir foi tão intenso e confuso que Íris nem registou. Quando deu por si, estava deitada na cama, nua de barriga para cima, com os braços atirados para o lado, os seios a subir e a descer numa respiração ofegante e as pernas afastadas. Entre elas, uma cabeça com uma farta cabeleira loura movia-se a seu belo prazer, uma língua marota provocava-lhe sensações deliciosas de que tantas saudades sentia. Para lá da cabeça, um rabo lindo empinado. Íris veio-se várias vezes.
A tarde estava a terminar, a luz exterior perdera muita intensidade, quando ambas se sentiram finalmente saciadas. Deitadas na cama, a olhar o tecto, mantinham as mãos dadas com os dedos entrelaçados. Respiravam calmas com sorrisos sinceros no rosto.
— Tinha tantas saudades disto. — confessou Ashley. — Amo-te tanto.
— Eu também te amo. — retribuiu Íris, apesar de a sua voz não ser tão expressiva de felicidade quanto a da outra.
— Posso voltar para ti? — pediu, virando a cabeça para a olhar. — Podemos voltar a viver juntas como antes?
Íris não respondeu, a sua mente estava semelhante a uma tempestade de sentimentos, emoções e confusões.
— Ainda não. — recusou, firme.
Ashley elevou-se na cama, apoiando-se no cotovelo e encarou-a triste.
— Pensei que…
O olhar neutro encarou a inglesa.
— Eu disse ainda não.
— Que se passa?
— Há condições.
— As que quiseres, amor.
Íris ainda procurava adaptar-se àquela Ashley que parecia um sonho tornado realidade.
— Gosto que sejas ciumenta, mas não em exagero. Tenho uma relação muito próxima de amizade com o Gabriel e não quero que faças cenas como a que aconteceu aqui ou que o trates com a indiferença que fizeste em Portugal.
Ashley anuiu, mas não deixou de dizer:
— É verdade que sinto ciúmes. Se te visses quando estás com ele… Custa a acreditar que vocês são só amigos.
E não somos, não fazes ideia daquilo que já aconteceu entre nós.
— Não é negociável.
— Ok.
Íris saltou da cama e foi procurar algo para vestir.
Ashley copiou os movimentos da amante e procurou a sua roupa. Saiu do quarto em tronco nu e foi buscar a camisola esquecida no sofá.
Menos de um minuto depois, Íris reapareceu na sala, vestindo uma camisa no lugar da camisola que a inglesa rasgara.
— Não me chegaste a responder, Íris. Quando posso voltar?
— Tenho de resolver algumas coisas antes. Terás de esperar.
Ashley franziu o rosto.
— Isso é um castigo?
É, mas não para ti. Será um castigo para mim e para a pessoa que menos o merece.
— Não se trata de nenhum castigo. Não és tu que fazes o timing.
— Ok.
— Onde estás a viver?
— Em casa de uns amigos da McGill.
Íris fez um sorriso sarcástico.
— Tens novo namorado?
— Não sejas estúpida. A minha namorada és tu.
— Já o fui antes. E tu tinhas namorado.
— É diferente.
— Já não queres homens? — questionou com um tom irónico. A inglesa abanou a cabeça. — É bom que não, eu não estou disponível para te partilhar com ninguém.
Ashley aproximou-se e parou defronte de Íris. Ficaram cara a cara. Ashley fechou os olhos e beijou-lhe os lábios com ternura. A seguir, abriu os e olhou-a intensamente.
— Casa comigo!
— O quê? — A interrogação surgiu-lhe incrédula. — Não brinques.
— Não estou a brincar, Íris. — protestou séria. — O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal no Canadá. Casa comigo!
— Vamos com calma. — pediu Íris, deliciada.
— Já te disse antes. Agora será diferente. Não será um namoro secreto, será uma relação a sério. — Fingiu-se triste. — A menos que tu não queiras.
— Parva! — chamou Íris, acariciando-lhe o rosto. — Eu amo-te!
Despediram-se com um longo e intenso beijo apaixonado.
Quando voltou a ficar sozinha no apartamento, Íris caiu em si. Estava feliz por reencontrar a mulher que a completava na totalidade. E infeliz porque tinha de magoar alguém que amava profundamente.
Gabriel…
As noites em Toronto continuavam quentes e agradáveis.
Gabriel observava o lago escuro saboreando um whisky e fazendo tempo para telefonar a Íris, seguindo aquele hábito que haviam criado nos últimos dias de ficarem a conversar noite dentro. Estava feliz, tão feliz como não se sentia há muito, mas mesmo muito tempo. Havia nele uma paz tão grande, depois daquele telefonema em que Íris lhe pediu para ir viver com ela, que se deixara dormir horas a fio, tranquilo e só acordando ao início da tarde. Quis voltar a ligar-lhe, qual miúdo apaixonado pela namorada. Porém, tinha de ser mais maduro. Íris era um sonho tornado realidade. Estava tão feliz…
Manteve-se na varanda, o ar estava ameno e não apetecia estar dentro de casa. Sentou-se numa cadeira e marcou o número de Íris. Ouviu tocar várias vezes até passar para o voicemail. Tornou a tentar e obteve o mesmo resultado. Calculou que ela tivesse o telemóvel no silêncio ou não pudesse atender de imediato. Não havia problema, sabia que lhe ligaria quando visse as suas chamadas.
Cinco minutos depois, o telemóvel apitou uma notificação. Gabriel desbloqueou o smartphone com o polegar e viu uma mensagem de Íris que abriu de imediato.
“Olá, Gabriel! Estou com uma dor de cabeça descomunal. Desculpa! Podemos falar amanhã?”
Deveria ser uma dor de cabeça horrível para nem conseguir atender o telemóvel.
“Ok. Falamos amanhã. As tuas melhoras. Amo-te, Arco-íris!”
“Obrigada. Também te amo”
Gabriel voltou para a sala e deixou o telemóvel sobre o balcão que a separava da cozinha. Não conseguiu abstrair-se daquilo, saber que ela não estava bem preocupava-o, e a distância fazia-o sentir uma impotência irritante. Coisas daquelas deixariam de ser problema quando vivessem juntos.
Durante a tarde, estivera a fazer planos de como iria modificar a sua vida profissional, quando fosse viver para Montreal. Na verdade, estava decidido a abrandar bastante a sua actividade de representante de jogadores, já ganhara o suficiente para não ter de se preocupar com dinheiro e continuar a ter uma vida de luxo. Para além disso, queria dedicar o máximo de tempo a Íris.
Ficou algum tempo sentado no sofá a ver televisão, essencialmente canais desportivos e de notícias. Quando se fartou, desligou a televisão e foi sentar-se ao balcão a usar o computador. Estava a ler algumas mensagens na caixa de email, quando viu entrar uma nova.
Um email de Íris?
Sentiu um mau presságio. Ainda para mais porque o assunto era “Perdoa-me!” Abriu e começou a ler:
“Olá Gabriel,
Começo, antes de tudo o resto, por assumir duas coisas. Primeiro, continuo a amar-te como ontem. Segundo, não tenho coragem de te dizer isto que lerás a seguir, por telefone. Não vou estar com rodeios que só nos irão martirizar aos dois. A Ashley voltou. Apareceu aqui em casa, esta tarde. Sabes o que sinto por ela. Tu, melhor que ninguém, acompanhaste tudo. Sei que talvez não acredites, mas lutei contra o que ela me faz sentir, para não falhar contigo. Só que sou fraca e sucumbi ao desejo, à paixão, ao amor. Também sei que não acreditarás, mas não a amo mais que a ti, amo a tanto como te amo a ti. Só que por mais extraordinário e maravilhoso que tu sejas, não me completas como ela o faz. Lamento-o do fundo do meu coração, não queria que isto tivesse acontecido assim. Sinto que te ofereci a felicidade e depois te puxei o tapete. Digo-te assim para que percebas que eu tenho total noção de como te estou a magoar. E estou a magoar-me a mim também, mas eu sairia sempre magoada. Quero acreditar que me possas perdoar, talvez não já, mas em breve. Amo-te profundamente, como ser humano, como homem, como amigo, como companheiro, como amante. Nada nem ninguém poderá ocupar o teu lugar na minha vida. Espero que possamos voltar ser o que éramos depois de regressar de Portugal e antes daquela primeira noite em que fizemos amor. Achas possível? Não estou a pedir, Gabriel, estou a suplicar. Estou em lágrimas, ainda não parei de chorar desde que percebi que tinha que fazer isto. Foi essa a razão de não te ter atendido, terias percebido na minha voz e irias querer saber o que acontecera. E eu não conseguiria verbalizá-lo. É melhor assim, colocar as emoções em ordem, através de texto. Desculpa ter-te mentido com a treta das dores de cabeça, foi o que me lembrei. Nunca te menti antes, nem voltarei a fazê-lo. Em relação a nós… O convite que te fiz ontem… Acho que já percebeste. Eu e a Ashley vamos reatar. Ainda estou algo insegura, mas ela jura que vai assumir a nossa relação, já se assumiu como lésbica à família. Por favor, não duvides do meu amor. Imploro-te que não saias da minha vida! Tu és especial, perder-te será como perder um braço ou uma perna. Não suporto essa ideia. Queria dizer-te muitas mais coisas, mas só me estaria a repetir. Fico a aguardar a tua resposta, meu amor. Amo-te com toda a força do meu ser. Espero que me compreendas. Beijinhos da Arco-íris, o TEU Arco-íris. Amo-te, Gabriel!”
Gabriel ficou imóvel largos minutos a olhar para o ecrã. Já vira aquele filme, dezasseis anos, quando a mulher que amava e lhe jurara amor, o desprezava para voltar para o ex. Neste caso, para a ex. Talvez tivesse sido o golpe maior, ver Íris aplicar-lhe a mesma ferida que a mãe.
Sorriu sarcástico. Continuava a ser um estúpido, uma besta. Para quê, tentar ter um relacionamento sincero com uma mulher, se podia pagar para ter quantas quisesse, sem que o magoassem?
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Gabriel ficou dilacerado com o volte-face da sua vida. Voltou ao sofá com a garrafa de whisky e o copo. Perdeu a conta a quantos bebeu. A bebedeira serviu para afogar a tristeza. Acabou por adormecer ali.
O Sol atingiu-lhe o rosto ao amanhecer. O ângulo da enorme janela de acesso à varanda embicava com o horizonte onde o Sol nascia. Gabriel pestanejou, habituando-se à claridade e procurando lembrar-se do que acontecera. A recordação da noite anterior atingiu-o quase com a mesma impiedade como a realidade na véspera. Não se lembrava como perdera os sentidos, mas tudo o resto era nítido na sua memória.
A dor de cabeça era forte, resultado da ressaca. Viu as horas no smartwatch, era cedo. Viu o telemóvel caído no chão e apanhou-o. Desbloqueou-o. Nada de novo. Deixou-o ficar no sofá e levantou-se. Foi como se lhe espetassem um pico no cérebro, a dor quase o derrubou. Percebeu que tinha de se mover mais devagar.
— Estás velho! — afirmou para o vazio.
Caminhou pela sala, despindo a camisa suada e amarrotada. Deixou-a cair no chão e entrou no quarto. Precisava de um duche.
Gabriel ficou tanto tempo debaixo do chuveiro que a pele parecia querer encarquilhar. Completamente imóvel, sentiu todos os fios de água a escorrerem pelo corpo. A tristeza pela decisão de Íris ainda ali estava no seu ser, mas conseguira controlá-la num cantinho da alma. A angústia e a solidão voltaram com a força de antes, só que algo o surpreendeu, era como se tantos golpes começassem a empedernir-lhe o coração. Quando saiu do duche, estava decidido a voltar a ser o Gabriel que chegara pela primeira vez ao Canadá e que fora anestesiado pela reentrada de Íris na sua vida.
Novamente no quarto, escolheu um dos melhores fatos para vestir. Barbeara-se e dava agora um último retoque no cabelo. Perfumou-se e olhou-se ao espelho. Era um cinquentão com enorme charme, isso era incontornável.
Voltou à sala e só parou na cozinha. Preparou um café e bebeu-o juntamente com dois comprimidos para as dores de cabeça.
O Sol entrava com mais intensidade na sala, fazendo um reflexo esquisito na parede. Gabriel percebeu que era o ricochete da luz no ecrã do seu telemóvel. Foi buscá-lo e reparou que tinha uma notificação de mensagem. Abriu o WhatsApp, sabendo que era de Íris. Dizia apenas “Bom dia, Gabriel!”
Ele não respondeu e guardou o telemóvel no bolso.
Iria ser muito complicado, mas Íris deixaria de fazer parte do seu mundo. Não seria só para ela que doeria tanto como arrancar um braço ou uma perna, mas era o melhor para ele.
O Ferrari roncou pelas ruas de Toronto. Gabriel não infringiu nenhum limite de velocidade, mas arrancou sempre com mais intensidade que o necessário com o bólide a rosnar aos outros carros.
Francis percebeu pelo rosto de Gabriel que aquele era um bom dia para se manter afastado do gabinete dele.
A manhã foi cheia de trabalho, Gabriel esforçou-se para que fosse, para que nada lhe desse tempo para pensar em Íris. Por volta da hora de almoço, Francis apareceu a oferecer-se para lhe trazer algo que comer. Gabriel aceitou que ele trouxesse qualquer coisa.
Ao início da tarde, entre telefonemas, viu nova mensagem de Íris:
“Quando puderes, diz alguma coisa.”
Ele não disse e a tarde passou da mesma forma que a manhã.
Antes de sair do escritório, ponderou escolher um dos dez nomes da lista para lhe fazer companhia nessa noite. Curiosamente, não encontrou qualquer vontade de o fazer.
O Ferrari tornou a deslizar pelas ruas citadinas em direcção ao condomínio onde Gabriel vivia, roncando com a ferocidade que consumia o espírito dele. De que serve tanto dinheiro, se há merdas que são inalcançáveis?
Ao entrar em casa, sem saber porquê, caminhou directo ao quarto que Íris usara nas vezes em que estivera em sua casa, em todas as vezes, excepto nas duas últimas noites, em que dormira na sua cama e fizera amor com ele. A fúria consumia-o. Enraivecido, entrou no quarto, desarrumou tudo, puxou as mantas e os lençóis, abriu gavetas, atirou tudo para o chão… E depois ganhou consciência de como estava a ser idiota.
A noite caiu, escurecendo a sala. Gabriel parecia uma estátua, sentado ao balcão com um copo de whisky cheio e a garrafa mal insertada. Foda-se, já nem o álcool lhe dava prazer.
O silêncio foi quebrado pela notificação do telemóvel. A própria luz de alerta foi mais intensa por o ambiente estar mergulhado no fraco crepúsculo exterior. Gabriel desbloqueou o ecrã, certo de quem seria o remetente. Abriu o WhatsApp.
“Recebeste o meu email?”
Não queria responder-lhe, não queria dialogar com ela. Seria melhor ignorá-la, como fizera ao longo do dia. Porém, ela agora fazia-lhe uma pergunta. Seria pouco educado não responder.
“Sim”
Gabriel esperava que a resposta curta e desprovida de emoção fosse suficiente para ficarem por ali. Percebeu que não ao ver as letras verdes informarem-no que Íris estava a escrever.
“E…?”
“E o quê?”, escreveu irritado.
Desta vez, viu os vistos azuis a indicar que ela lera, mas não apareceu qualquer informação de que ela estivesse a escrever. O WhatsApp desapareceu do ecrã para dar lugar a um fundo escuro com o nome “Arco íris” e fazer ecoar pelo apartamento o toque de chamada.
Gabriel pressionou o botão vermelho e rejeitou a chamada.
Íris insistiu.
Gabriel voltou a rejeitar.
Houve um breve momento em que nada aconteceu. Teria percebido a mensagem e desistido?
Nova mensagem de Íris pelo WhatsApp:
“Por favor, atende. Precisamos de falar.”
— Ontem não quiseste falar. — disse ele para o telemóvel. E escreveu-o em resposta.
Íris voltou a insistir na chamada e Gabriel tornou a rejeitar.
“Vai ser assim?”, escreveu ela.
“Vai ser como tu quiseste que fosse.”
“Não faças isso, Gabriel. Eu amo-te! Não quero que saias da minha vida.”
Gabriel deixou-a sem resposta.
Só que Íris não desistia de nada na sua vida, muito menos daquilo que era tão importante para si.
“Percebo que estejas magoado comigo, meu amor.”
Ele clicava em todas as mensagens para ter a certeza que, do outro lado, Íris veria os vistos azuis e saberia que ele não respondia porque não queria.
“Por favor, Gabriel! Não te afastes. Que merda! Sei que não agi bem contigo, mas será que é imperdoável? Bolas. Não me tires a cores, eu continuo a ser o teu Arco-íris e sê-lo-ei para o resto da vida.”
Íris finalizara a mensagem com um smile a chorar.
O amor não morrera, ele sabia-o, mesmo que acreditasse que o podia matar. Continuava a amá-la e imaginou o estado choroso em que ela deveria estar ao escrever aquelas mensagens. Por mais que tentasse amaldiçoá-la, ela era… o seu Arco-íris.
“Eu não vou sair da tua vida.”
Teve esperança de que a troca de mensagens ficasse por ali.
Não.
“Posso ligar-te?”
“Não, Arco-íris. Agora não consigo falar contigo.”
“Por favor…”
“Um dia pediste-me tempo e espaço. Agora sou eu que o quero para mim. Estou aqui para o que precisares, excepto para conviver contigo, pelo menos por enquanto.”
Íris retorquiu com um smile triste e outro a chorar.
As mensagens pararam. Gabriel deu por si envolto na penumbra de uma sala com as luzes desligadas. Respirou fundo. Pensar nela triste, partia-lhe os cacos em que Íris deixara o seu coração. Talvez por isso, escreveu:
“Espero que seja feliz com a Ashley”
Desejaria de facto isso? Sim, desejava que Íris fosse feliz, tanto quanto desejava que a inglesa fosse a atravessar a rua e lhe passassem dez camiões por cima.
“Eu amo-te, Gabriel!”
Ele olhou para última mensagem durante algum tempo. Depois, escreveu a frase que os afastaria por algum tempo:
“E eu espero conseguir deixar de te amar.”
As letras verdes apareceram e desapareceram várias vezes. Por fim, surgiu:
“Será como queres. Eu nunca deixarei de te amar.”
Ainda deitada, pegou no telemóvel para ver as horas. Reparou que tinha uma notificação do WhatsApp. Voltou a sorrir e disse em voz alta, pensando em Gabriel:
— Ó meu amor. Já a mandar mensagens?
Contudo, ao abrir, viu o nome de Ashley e a mensagem era “I’m so stupid”.
Íris ficou sem reacção, mas também não sabia muito bem o que aquilo, de facto, queria dizer. Viu a hora a que a mensagem fora enviada, chegara de manhã. Ficou curiosa e escreveu em inglês:
“Que aconteceu?”
A resposta não demorou, a inglesa deveria estar à espera disso, com o telemóvel na mão, desde que enviara a mensagem.
“Sou estúpida por te ter perdido”
Íris elevou-se na cama, mas manteve o lençol a cobrir-lhe o peito nu, como se estivesse ali mais alguém. Questionou-se o que deveria fazer. Optou por ser rude:
“Que queres?”
“Tenho saudades tuas.”
Íris não tinha dificuldade em traduzir as ideias para inglês, já se habituara ao english diário.
“Foste tu quem quis terminar, Ashley”
“Não tens saudades minhas?”
“Não”, respondeu Íris, apesar de ser mentira. A inglesa magoara a muito, partira-lhe o coração. Não estava na disposição de ser agradável.
“Estou em Montreal. Gostava de te voltar a ver.”
Íris sentiu um choque, a sua realidade ficou abalada, ficou confusa. O desejo de a voltar a ver era imenso.
“Acho melhor não”
A resposta demorou mais algum tempo que as anteriores.
“Tens coisas minhas em tua casa. Posso ir buscá-las?”
Íris não a queria ver ou voltar a estar com ela. Não queria tanto, quanto desejava voltar a estar com ela. A saudade veio não soube donde. Lutou consigo própria para não sucumbir ao desejo.
“Dá-me uma morada. Eu mando-te tudo.”
“Não sejas assim. Estás a ser cruel.”
“Não me fales em crueldade, depois do que aconteceu em Londres.”
“Fui estúpida e arrependo-me de te ter deixado partir.”
“Que fazes em Montreal? Não disseste que não voltavas?”
“Porque achas que vim? Tens dúvidas que és a razão?”
Íris estremecia, os pensamentos perturbavam-na, a razão mandava-a terminar com aquilo de vez, o coração ansiava pelo corpo da inglesa. Antes de responder, a mensagem seguinte foi um rude golpe para a sua defesa:
“Contei à minha família que sou lésbica. E contei-lhes que tu és minha namorada.”
“Era”, corrigiu Íris.
Mais uma vez, a resposta demorou, talvez uns dois minutos. Quando chegou, dizia “Não me digas que não tens saudades disto” e trazia uma foto de Ashley a fotografar-se para um espelho em tronco nu.
O desejo começou a consumir Íris, estava a perder o controlo.
“Vou pensar no teu caso. Estou muito ocupada. Depois digo-te alguma coisa, quando poderás vir cá a casa.”
“Fico a aguardar, Íris. Amo-te!”
Íris não respondeu, mas ficou um tempo indeterminado a olhar para a foto. Tinha muitas saudades dela, daquele corpo, do amor que faziam naquela cama. Quando deu por si, o olhar continuava na foto, mas a mão entrara nas cuecas e os dedos acariciavam-lhe os lugares onde tantas vezes andara a língua de Ashley. O silêncio do apartamento foi ligeiramente perturbado pelo som ofegante. Por fim, vindo do único quarto ocupado, o gemido prolongado de alguém num momento de prazer solitário.
Íris saiu do quarto, nua, e caminhou para a casa de banho. Tomou um duche, preocupada por não ter conseguido afastar Ashley do seu pensamento. O dia estava lindo, solarengo e convidativo a um passeio. Íris não sentiu esse apelo, nem planeava sair, por isso, vestiu uns calções e uma camisola de alças para andar por casa.
Gabriel não voltara a dizer nada. Sem saber porquê, Íris desejava que ele lhe ligasse ou mandasse uma mensagem. Contudo, ela própria não teve essa iniciativa. Ainda não identificara a causa, talvez o seu inconsciente já o adivinhasse, mas ela parecia não ver, daí que a preocupação e a ansiedade a envolvessem e a deixassem apreensiva.
Nessa tarde, descontraiu no sofá a ver um filme na televisão. Lá fora, a vista da cidade de Montreal através da sua parede de vidro era magnífica. O filme terminou e ela desligou o ecrã. Consultou o telemóvel na esperança de ter alguma notificação. Nada. Fez um chá frio e deixou-se ficar no sofá relaxada e pensativa.
Subitamente, os seus pensamentos foram quebrados pelo toque da campainha. Não esperava ninguém, nem ninguém a visitava sem avisar primeiro. Julgou ser alguém a chatear e ignorou o toque. Porém, a campainha voltou a zumbir.
Irritada, largou o chá na mesinha defronte do sofá e percorreu a sala até ao pequeno átrio da entrada. Aborrecida, levantou o intercomunicador e perguntou quem era, sem conseguir distinguir o inoportuno visitante no videoporteiro.
Sentiu um arrepio na espinha, ao ver Ashley.
— Olá, Íris! Sou eu, a Ashley.
— Que queres? — questionou rude.
— Estava a passar na vizinhança e pensei em fazer-te uma visita para conversarmos.
— Eu disse-te que te ligava, quando quisesse que viesses…
— Por favor, amor. Precisamos de conversar.
Íris tinha total noção que era errado ceder ao seu pedido e ao desejo que sentia que ela subisse. O razoável era manter a recusa, mandá la embora e exigir-lhe que esperasse que ela decidisse quando poderiam conversar. Consciente de tudo isto, carregou no botão e permitiu que ela subisse. Todo o seu corpo tremia. Íris sabia como tinha dificuldade em controlar as emoções junto da inglesa. Contudo, esforçou-se por ter uma postura dura e aguardou na entrada do apartamento que a outra aparecesse.
Ashley saiu do elevador e lançou-lhe um sorriso que quase derreteu Íris. Vestia uma camisola preta apertada sem mangas e um decote sugestivo em V, a qual acompanhava com minissaia branca e sandálias. Íris deu por si a pensar que o preto sempre combinara bem com os cabelos louros da inglesa. Ashley jogava todos os trunfos, sabia as emoções que a sua imagem despertava em Íris. Fez de conta que se sentia envergonhada e encurtou a distância entre elas devagar.
— Eu disse que te ligava.
— Eu sei. Mas, tenho tantas saudades tuas.
Quando terminou a frase, Ashley estava a um passo de Íris. Fez um movimento como se a fosse beijar na boca, mas Íris desviou o rosto no último momento e ela tocou-lhe com os lábios na face.
Sem dizer nada, Íris entrou no apartamento e fez um gesto, convidando a ex-amante a entrar.
— As tuas coisas estão no teu quarto. — indicou, fechando a porta. — Podes ir buscá-las.
— Podemos conversar?
Íris cravou o olhar nela, a expressão zangada esforçava-se para aparentar o distanciamento que não queria dela.
— Não temos nada para conversar. — lembrou com o desejo a corroer-lhe o corpo, olhando para as curvas apetecíveis da outra.
— Discordo. — insistiu Ashley. Voltou-se para a sala e caminhou até ao sofá, sentando-se e cruzando as pernas de forma sensual. — Temos que falar sobre o que aconteceu.
— Talvez. — concordou Íris sem reparar que estava a andar na direcção do sofá. — Mas, não agora. — Sentou-se no sofá com uma distância que lhe pareceu segura. — É melhor ires buscar as tuas coisas e ires embora.
— Já não me amas? — Ashley ignorou o que ouvira. — Olha para mim e diz-me que já não me amas.
Íris olhou para ela.
— Ashley…
— Eu fui uma cabra contigo. — continuou, não deixando Íris falar, talvez porque julgasse que a outra ia mesmo confirmar que já não a amava. — Julguei que, ao expulsar-te da minha vida, conseguiria fugir àquilo que sou. — Íris fez um semblante interrogativo. — Só serviu para perceber o quanto te amo. E que não posso viver sem ti.
— Não me apetece continuar com relações em segredo. Quero mais!
— Compreendo. — Ashley mostrava-se vulnerável. — Compreendo que queiras mais. E eu estou na disposição de te dar mais.
— Que queres dizer com isso?
— Que estou preparada para assumir sem reservas o que sinto por ti. Já o fiz com a minha família, fá-lo-ei com todas as pessoas que queiras.
Íris sentiu-se a sucumbir ao encanto da outra. Numa tentativa desesperada de defesa, levantou-se do sofá. Ashley copiou-lhe o movimento e segurou-lhe no braço.
Sem saber como, nem porquê. Ou talvez até soubesse que fora o desespero de fugir ao destino, Íris voltou-se abruptamente, puxando o braço livre atrás e dando uma chapada no rosto de Ashley.
A inglesa ficou sem reação com a face vermelha e uma expressão se surpresa no olhar. Íris também se surpreendeu, mas não revelou qualquer arrependimento por o ter feito.
— Acho que mereço isso.
— Não, não mereces. — retorquiu Íris num tom duro. — Ninguém merece ser agredido, nem ninguém tem o direito de agredir alguém. Mas, não me arrependo.
Ashley anuiu. Sorriu triste.
— Estamos quites.
— Sim… — concordou Íris. — Estamos quites.
Do nada, Ashley avançou para Íris e agarrou-a, forçando o beijo. Atingiu-lhe a boca com os lábios e tentou envolvê-la com os braços.
Íris reagiu, empurrando-a com força para a afastar de si. Ashley caiu desamparada no sofá, mas ao tentar segurar-se, puxara a camisola de Íris e rasgara-a completamente, deixando-a com os seios nus.
— Estúpida! — atirou Íris sem se preocupar em se cobrir.
Ashley atirou-lhe um sorriso escarninho.
— Sim, sei que sou. — confirmou, puxando a camisola pela cabeça e oferecendo-lhe a visão dos seus seios.
— Cabra! — cuspiu, aproximando-se.
— Uma cabra estúpida. — O olhar da inglesa era lânguido e provocador.
— Puta!
Ashley endireitou-se no sofá e puxou-a pelos restos da camisola.
— Sim, posso ser puta, se for a tua puta.
Íris deixou-se cair sobre Ashley, aterrando as mãos nos seios da outra e beijando-lhe a boca com uma fome sexual feroz.
O que se desenrolou a seguir foi tão intenso e confuso que Íris nem registou. Quando deu por si, estava deitada na cama, nua de barriga para cima, com os braços atirados para o lado, os seios a subir e a descer numa respiração ofegante e as pernas afastadas. Entre elas, uma cabeça com uma farta cabeleira loura movia-se a seu belo prazer, uma língua marota provocava-lhe sensações deliciosas de que tantas saudades sentia. Para lá da cabeça, um rabo lindo empinado. Íris veio-se várias vezes.
A tarde estava a terminar, a luz exterior perdera muita intensidade, quando ambas se sentiram finalmente saciadas. Deitadas na cama, a olhar o tecto, mantinham as mãos dadas com os dedos entrelaçados. Respiravam calmas com sorrisos sinceros no rosto.
— Tinha tantas saudades disto. — confessou Ashley. — Amo-te tanto.
— Eu também te amo. — retribuiu Íris, apesar de a sua voz não ser tão expressiva de felicidade quanto a da outra.
— Posso voltar para ti? — pediu, virando a cabeça para a olhar. — Podemos voltar a viver juntas como antes?
Íris não respondeu, a sua mente estava semelhante a uma tempestade de sentimentos, emoções e confusões.
— Ainda não. — recusou, firme.
Ashley elevou-se na cama, apoiando-se no cotovelo e encarou-a triste.
— Pensei que…
O olhar neutro encarou a inglesa.
— Eu disse ainda não.
— Que se passa?
— Há condições.
— As que quiseres, amor.
Íris ainda procurava adaptar-se àquela Ashley que parecia um sonho tornado realidade.
— Gosto que sejas ciumenta, mas não em exagero. Tenho uma relação muito próxima de amizade com o Gabriel e não quero que faças cenas como a que aconteceu aqui ou que o trates com a indiferença que fizeste em Portugal.
Ashley anuiu, mas não deixou de dizer:
— É verdade que sinto ciúmes. Se te visses quando estás com ele… Custa a acreditar que vocês são só amigos.
E não somos, não fazes ideia daquilo que já aconteceu entre nós.
— Não é negociável.
— Ok.
Íris saltou da cama e foi procurar algo para vestir.
Ashley copiou os movimentos da amante e procurou a sua roupa. Saiu do quarto em tronco nu e foi buscar a camisola esquecida no sofá.
Menos de um minuto depois, Íris reapareceu na sala, vestindo uma camisa no lugar da camisola que a inglesa rasgara.
— Não me chegaste a responder, Íris. Quando posso voltar?
— Tenho de resolver algumas coisas antes. Terás de esperar.
Ashley franziu o rosto.
— Isso é um castigo?
É, mas não para ti. Será um castigo para mim e para a pessoa que menos o merece.
— Não se trata de nenhum castigo. Não és tu que fazes o timing.
— Ok.
— Onde estás a viver?
— Em casa de uns amigos da McGill.
Íris fez um sorriso sarcástico.
— Tens novo namorado?
— Não sejas estúpida. A minha namorada és tu.
— Já o fui antes. E tu tinhas namorado.
— É diferente.
— Já não queres homens? — questionou com um tom irónico. A inglesa abanou a cabeça. — É bom que não, eu não estou disponível para te partilhar com ninguém.
Ashley aproximou-se e parou defronte de Íris. Ficaram cara a cara. Ashley fechou os olhos e beijou-lhe os lábios com ternura. A seguir, abriu os e olhou-a intensamente.
— Casa comigo!
— O quê? — A interrogação surgiu-lhe incrédula. — Não brinques.
— Não estou a brincar, Íris. — protestou séria. — O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal no Canadá. Casa comigo!
— Vamos com calma. — pediu Íris, deliciada.
— Já te disse antes. Agora será diferente. Não será um namoro secreto, será uma relação a sério. — Fingiu-se triste. — A menos que tu não queiras.
— Parva! — chamou Íris, acariciando-lhe o rosto. — Eu amo-te!
Despediram-se com um longo e intenso beijo apaixonado.
Quando voltou a ficar sozinha no apartamento, Íris caiu em si. Estava feliz por reencontrar a mulher que a completava na totalidade. E infeliz porque tinha de magoar alguém que amava profundamente.
Gabriel…
As noites em Toronto continuavam quentes e agradáveis.
Gabriel observava o lago escuro saboreando um whisky e fazendo tempo para telefonar a Íris, seguindo aquele hábito que haviam criado nos últimos dias de ficarem a conversar noite dentro. Estava feliz, tão feliz como não se sentia há muito, mas mesmo muito tempo. Havia nele uma paz tão grande, depois daquele telefonema em que Íris lhe pediu para ir viver com ela, que se deixara dormir horas a fio, tranquilo e só acordando ao início da tarde. Quis voltar a ligar-lhe, qual miúdo apaixonado pela namorada. Porém, tinha de ser mais maduro. Íris era um sonho tornado realidade. Estava tão feliz…
Manteve-se na varanda, o ar estava ameno e não apetecia estar dentro de casa. Sentou-se numa cadeira e marcou o número de Íris. Ouviu tocar várias vezes até passar para o voicemail. Tornou a tentar e obteve o mesmo resultado. Calculou que ela tivesse o telemóvel no silêncio ou não pudesse atender de imediato. Não havia problema, sabia que lhe ligaria quando visse as suas chamadas.
Cinco minutos depois, o telemóvel apitou uma notificação. Gabriel desbloqueou o smartphone com o polegar e viu uma mensagem de Íris que abriu de imediato.
“Olá, Gabriel! Estou com uma dor de cabeça descomunal. Desculpa! Podemos falar amanhã?”
Deveria ser uma dor de cabeça horrível para nem conseguir atender o telemóvel.
“Ok. Falamos amanhã. As tuas melhoras. Amo-te, Arco-íris!”
“Obrigada. Também te amo”
Gabriel voltou para a sala e deixou o telemóvel sobre o balcão que a separava da cozinha. Não conseguiu abstrair-se daquilo, saber que ela não estava bem preocupava-o, e a distância fazia-o sentir uma impotência irritante. Coisas daquelas deixariam de ser problema quando vivessem juntos.
Durante a tarde, estivera a fazer planos de como iria modificar a sua vida profissional, quando fosse viver para Montreal. Na verdade, estava decidido a abrandar bastante a sua actividade de representante de jogadores, já ganhara o suficiente para não ter de se preocupar com dinheiro e continuar a ter uma vida de luxo. Para além disso, queria dedicar o máximo de tempo a Íris.
Ficou algum tempo sentado no sofá a ver televisão, essencialmente canais desportivos e de notícias. Quando se fartou, desligou a televisão e foi sentar-se ao balcão a usar o computador. Estava a ler algumas mensagens na caixa de email, quando viu entrar uma nova.
Um email de Íris?
Sentiu um mau presságio. Ainda para mais porque o assunto era “Perdoa-me!” Abriu e começou a ler:
“Olá Gabriel,
Começo, antes de tudo o resto, por assumir duas coisas. Primeiro, continuo a amar-te como ontem. Segundo, não tenho coragem de te dizer isto que lerás a seguir, por telefone. Não vou estar com rodeios que só nos irão martirizar aos dois. A Ashley voltou. Apareceu aqui em casa, esta tarde. Sabes o que sinto por ela. Tu, melhor que ninguém, acompanhaste tudo. Sei que talvez não acredites, mas lutei contra o que ela me faz sentir, para não falhar contigo. Só que sou fraca e sucumbi ao desejo, à paixão, ao amor. Também sei que não acreditarás, mas não a amo mais que a ti, amo a tanto como te amo a ti. Só que por mais extraordinário e maravilhoso que tu sejas, não me completas como ela o faz. Lamento-o do fundo do meu coração, não queria que isto tivesse acontecido assim. Sinto que te ofereci a felicidade e depois te puxei o tapete. Digo-te assim para que percebas que eu tenho total noção de como te estou a magoar. E estou a magoar-me a mim também, mas eu sairia sempre magoada. Quero acreditar que me possas perdoar, talvez não já, mas em breve. Amo-te profundamente, como ser humano, como homem, como amigo, como companheiro, como amante. Nada nem ninguém poderá ocupar o teu lugar na minha vida. Espero que possamos voltar ser o que éramos depois de regressar de Portugal e antes daquela primeira noite em que fizemos amor. Achas possível? Não estou a pedir, Gabriel, estou a suplicar. Estou em lágrimas, ainda não parei de chorar desde que percebi que tinha que fazer isto. Foi essa a razão de não te ter atendido, terias percebido na minha voz e irias querer saber o que acontecera. E eu não conseguiria verbalizá-lo. É melhor assim, colocar as emoções em ordem, através de texto. Desculpa ter-te mentido com a treta das dores de cabeça, foi o que me lembrei. Nunca te menti antes, nem voltarei a fazê-lo. Em relação a nós… O convite que te fiz ontem… Acho que já percebeste. Eu e a Ashley vamos reatar. Ainda estou algo insegura, mas ela jura que vai assumir a nossa relação, já se assumiu como lésbica à família. Por favor, não duvides do meu amor. Imploro-te que não saias da minha vida! Tu és especial, perder-te será como perder um braço ou uma perna. Não suporto essa ideia. Queria dizer-te muitas mais coisas, mas só me estaria a repetir. Fico a aguardar a tua resposta, meu amor. Amo-te com toda a força do meu ser. Espero que me compreendas. Beijinhos da Arco-íris, o TEU Arco-íris. Amo-te, Gabriel!”
Gabriel ficou imóvel largos minutos a olhar para o ecrã. Já vira aquele filme, dezasseis anos, quando a mulher que amava e lhe jurara amor, o desprezava para voltar para o ex. Neste caso, para a ex. Talvez tivesse sido o golpe maior, ver Íris aplicar-lhe a mesma ferida que a mãe.
Sorriu sarcástico. Continuava a ser um estúpido, uma besta. Para quê, tentar ter um relacionamento sincero com uma mulher, se podia pagar para ter quantas quisesse, sem que o magoassem?
Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!
Gabriel ficou dilacerado com o volte-face da sua vida. Voltou ao sofá com a garrafa de whisky e o copo. Perdeu a conta a quantos bebeu. A bebedeira serviu para afogar a tristeza. Acabou por adormecer ali.
O Sol atingiu-lhe o rosto ao amanhecer. O ângulo da enorme janela de acesso à varanda embicava com o horizonte onde o Sol nascia. Gabriel pestanejou, habituando-se à claridade e procurando lembrar-se do que acontecera. A recordação da noite anterior atingiu-o quase com a mesma impiedade como a realidade na véspera. Não se lembrava como perdera os sentidos, mas tudo o resto era nítido na sua memória.
A dor de cabeça era forte, resultado da ressaca. Viu as horas no smartwatch, era cedo. Viu o telemóvel caído no chão e apanhou-o. Desbloqueou-o. Nada de novo. Deixou-o ficar no sofá e levantou-se. Foi como se lhe espetassem um pico no cérebro, a dor quase o derrubou. Percebeu que tinha de se mover mais devagar.
— Estás velho! — afirmou para o vazio.
Caminhou pela sala, despindo a camisa suada e amarrotada. Deixou-a cair no chão e entrou no quarto. Precisava de um duche.
Gabriel ficou tanto tempo debaixo do chuveiro que a pele parecia querer encarquilhar. Completamente imóvel, sentiu todos os fios de água a escorrerem pelo corpo. A tristeza pela decisão de Íris ainda ali estava no seu ser, mas conseguira controlá-la num cantinho da alma. A angústia e a solidão voltaram com a força de antes, só que algo o surpreendeu, era como se tantos golpes começassem a empedernir-lhe o coração. Quando saiu do duche, estava decidido a voltar a ser o Gabriel que chegara pela primeira vez ao Canadá e que fora anestesiado pela reentrada de Íris na sua vida.
Novamente no quarto, escolheu um dos melhores fatos para vestir. Barbeara-se e dava agora um último retoque no cabelo. Perfumou-se e olhou-se ao espelho. Era um cinquentão com enorme charme, isso era incontornável.
Voltou à sala e só parou na cozinha. Preparou um café e bebeu-o juntamente com dois comprimidos para as dores de cabeça.
O Sol entrava com mais intensidade na sala, fazendo um reflexo esquisito na parede. Gabriel percebeu que era o ricochete da luz no ecrã do seu telemóvel. Foi buscá-lo e reparou que tinha uma notificação de mensagem. Abriu o WhatsApp, sabendo que era de Íris. Dizia apenas “Bom dia, Gabriel!”
Ele não respondeu e guardou o telemóvel no bolso.
Iria ser muito complicado, mas Íris deixaria de fazer parte do seu mundo. Não seria só para ela que doeria tanto como arrancar um braço ou uma perna, mas era o melhor para ele.
O Ferrari roncou pelas ruas de Toronto. Gabriel não infringiu nenhum limite de velocidade, mas arrancou sempre com mais intensidade que o necessário com o bólide a rosnar aos outros carros.
Francis percebeu pelo rosto de Gabriel que aquele era um bom dia para se manter afastado do gabinete dele.
A manhã foi cheia de trabalho, Gabriel esforçou-se para que fosse, para que nada lhe desse tempo para pensar em Íris. Por volta da hora de almoço, Francis apareceu a oferecer-se para lhe trazer algo que comer. Gabriel aceitou que ele trouxesse qualquer coisa.
Ao início da tarde, entre telefonemas, viu nova mensagem de Íris:
“Quando puderes, diz alguma coisa.”
Ele não disse e a tarde passou da mesma forma que a manhã.
Antes de sair do escritório, ponderou escolher um dos dez nomes da lista para lhe fazer companhia nessa noite. Curiosamente, não encontrou qualquer vontade de o fazer.
O Ferrari tornou a deslizar pelas ruas citadinas em direcção ao condomínio onde Gabriel vivia, roncando com a ferocidade que consumia o espírito dele. De que serve tanto dinheiro, se há merdas que são inalcançáveis?
Ao entrar em casa, sem saber porquê, caminhou directo ao quarto que Íris usara nas vezes em que estivera em sua casa, em todas as vezes, excepto nas duas últimas noites, em que dormira na sua cama e fizera amor com ele. A fúria consumia-o. Enraivecido, entrou no quarto, desarrumou tudo, puxou as mantas e os lençóis, abriu gavetas, atirou tudo para o chão… E depois ganhou consciência de como estava a ser idiota.
A noite caiu, escurecendo a sala. Gabriel parecia uma estátua, sentado ao balcão com um copo de whisky cheio e a garrafa mal insertada. Foda-se, já nem o álcool lhe dava prazer.
O silêncio foi quebrado pela notificação do telemóvel. A própria luz de alerta foi mais intensa por o ambiente estar mergulhado no fraco crepúsculo exterior. Gabriel desbloqueou o ecrã, certo de quem seria o remetente. Abriu o WhatsApp.
“Recebeste o meu email?”
Não queria responder-lhe, não queria dialogar com ela. Seria melhor ignorá-la, como fizera ao longo do dia. Porém, ela agora fazia-lhe uma pergunta. Seria pouco educado não responder.
“Sim”
Gabriel esperava que a resposta curta e desprovida de emoção fosse suficiente para ficarem por ali. Percebeu que não ao ver as letras verdes informarem-no que Íris estava a escrever.
“E…?”
“E o quê?”, escreveu irritado.
Desta vez, viu os vistos azuis a indicar que ela lera, mas não apareceu qualquer informação de que ela estivesse a escrever. O WhatsApp desapareceu do ecrã para dar lugar a um fundo escuro com o nome “Arco íris” e fazer ecoar pelo apartamento o toque de chamada.
Gabriel pressionou o botão vermelho e rejeitou a chamada.
Íris insistiu.
Gabriel voltou a rejeitar.
Houve um breve momento em que nada aconteceu. Teria percebido a mensagem e desistido?
Nova mensagem de Íris pelo WhatsApp:
“Por favor, atende. Precisamos de falar.”
— Ontem não quiseste falar. — disse ele para o telemóvel. E escreveu-o em resposta.
Íris voltou a insistir na chamada e Gabriel tornou a rejeitar.
“Vai ser assim?”, escreveu ela.
“Vai ser como tu quiseste que fosse.”
“Não faças isso, Gabriel. Eu amo-te! Não quero que saias da minha vida.”
Gabriel deixou-a sem resposta.
Só que Íris não desistia de nada na sua vida, muito menos daquilo que era tão importante para si.
“Percebo que estejas magoado comigo, meu amor.”
Ele clicava em todas as mensagens para ter a certeza que, do outro lado, Íris veria os vistos azuis e saberia que ele não respondia porque não queria.
“Por favor, Gabriel! Não te afastes. Que merda! Sei que não agi bem contigo, mas será que é imperdoável? Bolas. Não me tires a cores, eu continuo a ser o teu Arco-íris e sê-lo-ei para o resto da vida.”
Íris finalizara a mensagem com um smile a chorar.
O amor não morrera, ele sabia-o, mesmo que acreditasse que o podia matar. Continuava a amá-la e imaginou o estado choroso em que ela deveria estar ao escrever aquelas mensagens. Por mais que tentasse amaldiçoá-la, ela era… o seu Arco-íris.
“Eu não vou sair da tua vida.”
Teve esperança de que a troca de mensagens ficasse por ali.
Não.
“Posso ligar-te?”
“Não, Arco-íris. Agora não consigo falar contigo.”
“Por favor…”
“Um dia pediste-me tempo e espaço. Agora sou eu que o quero para mim. Estou aqui para o que precisares, excepto para conviver contigo, pelo menos por enquanto.”
Íris retorquiu com um smile triste e outro a chorar.
As mensagens pararam. Gabriel deu por si envolto na penumbra de uma sala com as luzes desligadas. Respirou fundo. Pensar nela triste, partia-lhe os cacos em que Íris deixara o seu coração. Talvez por isso, escreveu:
“Espero que seja feliz com a Ashley”
Desejaria de facto isso? Sim, desejava que Íris fosse feliz, tanto quanto desejava que a inglesa fosse a atravessar a rua e lhe passassem dez camiões por cima.
“Eu amo-te, Gabriel!”
Ele olhou para última mensagem durante algum tempo. Depois, escreveu a frase que os afastaria por algum tempo:
“E eu espero conseguir deixar de te amar.”
As letras verdes apareceram e desapareceram várias vezes. Por fim, surgiu:
“Será como queres. Eu nunca deixarei de te amar.”