Capítulo VII
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O Sol entrou-lhe pelo quarto sem pedir permissão. A claridade acabou por o despertar. Nos últimos tempos tinha tendência a acordar aos primeiros sinais de luz, mas naquela manhã deixou-se dormir. Deitara-se à hora do costume. O seu consciente lembrou-o que tinha uma hóspede. Será que ainda estaria a dormir? Não seria de estranhar, o dia da viagem fora cansativo. Evitaria fazer barulho para não a incomodar.
Saiu da cama nu. Sempre dormira nu. Vestiu o robe, apesar de o ambiente climático do apartamento ter todas as divisões com a temperatura automaticamente afinada pelo ar condicionado. Encurtou a distância para os vidros, o seu quarto tinha a janela na mesma direcção que a vista da sala. Adorava ver o Sol a nascer, mas naquela manhã o astro já ia numa subida bem avançada. Regressou à cama e sentou-se no colchão. Pegou no telemóvel, desbloqueou-o e viu se havia novidades. Apenas emails de trabalho e chamadas que não ouvira por ter o aparelho no silêncio. Nada que merecesse a sua atenção urgente. Foi tomar um duche.
Aquele seria o primeiro dia de Íris em Toronto. Por isso, ele determinara na sua agenda que iria trabalhar donde estivesse e não estaria disponível para nada que não fosse importante. Deixou os fatos no armário e vestiu uma calças clássicas às quais juntou uma camisa e um pulôver de malha. Por fim, calçou um par de sapatos a conjugar com o resto.
Ao abrir a porta, sentiu o cheiro agradável a café e torradas. Há quanto tempo não sentia aquele cheirinho ali? Ah.... Pois... Nunca sentira. Saiu para o átrio. A porta do quarto onde Íris dormira estava aberta e o espaço arrumado. Ouviu movimento na sala. Caminhou até lá.
Íris estava sentada num dos bancos altos com a atenção no seu computador portátil, ligado ao lado do de Gabriel que ali ficara desligado na noite anterior. Ela estava concentrada a ler algo no Facebook e nem deu pela chegada dele. Gabriel observou-a, satisfeito por notar que ela se instalara sem cerimónias. Vestia uma camisola de lã, calções curtos e estava descalça. Tinha umas pernas lindas, magníficas como as da mãe.
Merda! Tinha de parar com aquilo. Tinha de parar de pensar na mãe dela.
Sentindo a sua presença, Íris voltou-se e brindou-o com um sorriso fascinante.
— Bom dia, Gabriel!
— Bom dia, Arco-íris.
Enquanto se aproximava, ela saltou do banco. Olhou-o hesitante.
— Posso dar-te um beijo?
— Claro que sim, Arco-íris.
Íris beijou-o e abraçou-o.
— Dormiste bem?
— Maravilhosamente. — confirmou satisfeita, contornando o balcão. — Acordei às cinco da manhã. Não tinha sono e levantei-me. Espero não te ter acordado ou feito barulho que te incomodasse.
— Não. Eu até acordei mais tarde que o costume.
No lado oposto do balcão, ela aproximou-se da máquina do café.
— Posso fazer um para ti? — Gabriel anuiu. — Como queres?
— Expresso.
— E para acompanhar? Posso fazer-te uma torrada.
— Não é preciso.
— Nunca ouviste que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia?
— O meu médico repete-me isso sempre que me vê.
— Então, vai sair uma torrada. — decidiu ela sem dar hipóteses de recusa.
Gabriel encostou-se ao balcão e ficou a olhar distraidamente para o ecrã do portátil dela, vendo uma foto em que Íris estava na companhia de uma amiga.
— Quem é? — perguntou por perguntar.
Íris fez um ar culpado, meio envergonhado. Não respondeu logo, talvez a ponderar se haveria de lhe contar. Acabou por ser totalmente sincera.
— É a minha ex-namorada.
— Ex-namorada? — interrogou ele, pensando não ter ouvido bem.
— Sim. — confirmou com uma expressão envergonhada. — Chocado?
— Chocado?
— Chocado pela minha orientação sexual?
Gabriel abanou a cabeça.
— Chocado não. Surpreendido, nada mais.
— Mas, é algo que te incomode? — questionou ela, muito séria.
— Nadinha, Arco-íris. — Gabriel soltou uma gargalhada que não conseguiu controlar. — Nunca o nome te assentou tão bem.
— Eu sei. — confirmou, correspondendo ao sorriso. — Lembras te de te contar da gargalhada que dei, quando li o teu primeiro email? Sim, foi saudade, mas mais que isso, foi pela analogia. Arco-íris tem uma simbologia especial, como bem sabes.
— Que não restem dúvidas. Não me incomoda minimamente. Além disso, irás descobrir que Toronto é uma cidade muito... como se diz? Acho que o termo inglês é o que descreve melhor. É muito gay friendly.
— Fico feliz que penses assim. E desculpa! Devia ter-te contado, antes de vir.
— Não, não devias. Nem precisavas de me dizer agora. Ninguém tem nada com a tua vida íntima e privada.
Íris anuiu, estava feliz.
— Queres o pão muito ou pouco torrado?
— Pouco.
Ela retirou a fatia de pão da torradeira, colocou-a num prato pequeno e foi buscar a manteiga ao frigorífico. Movia-se como se vivesse ali há muitos anos. Juntou-lhe uma faca e empurrou tudo na direcção dele, dizendo:
— Só falta o café.
Gabriel estava encantado por a ter ali, mas repetia mentalmente que não devia deixar-se entusiasmar com aquilo. Seria algo muito efémero na sua vida e, quanto mais se deixasse enredar por aquela amizade, mais sofreria depois.
— Ora aqui está. — disse ela, entregando-lhe a pequena chávena com o café. — Deseja mais alguma coisa, caro senhor?
— Não, obrigado, cara menina.
Ambos sorriram com gosto.
Íris regressou ao seu lugar no banco defronte do computador. A seu lado, Gabriel mastigava silenciosamente o pão e bebia o café.
— Foi por vires para o Canadá? — interrogou ele do nada.
Arregalando os olhos, resgatada da distracção do computador, Íris olhou para ele.
— Não percebi, desculpa.
— A tua ex-namorada. Terminaram porque tu vinhas para o Canadá?
— Não. — negou sem revelar se o assunto era ou não doloroso. — Acabou antes disso, muito antes.
Silenciou-se, como se revisse algo na sua memória.
— Não quero estar a intrometer-me.
— Não tem mal, Gabriel. Não me importo de falar nisso. Namorámos durante três anos. Por isso... Como deves calcular, foi alguém muito especial na minha vida.
— Porque é que acabou?
Íris fez um sorriso atípico que em nada combinava com ela, era um sorriso sofrido, triste.
— Eu amava-a profundamente. Terminei o Ensino Superior, tinha perspectivas de emprego. Por isso, quis casar. — Encolheu os ombros. — Pedi-a em casamento.
Gabriel fez uma expressão confusa. Ela descodificou a dúvida dele.
— Em Portugal, as pessoas do mesmo sexo já podem casar.
— E ela?
— Disse-me que não. Nem pensou. Ou se pensou, deve ter sido para aí uns cinco segundos. Percebi logo que aquilo nunca seria mais que... Peço que me desculpes a honestidade, mas não há outra palavra, era só sexo. — Atento, ainda surpreendido e curioso, Gabriel escutava-a com toda a atenção. — Sabes. Talvez isto possa ser estranho para a maioria das pessoas. Não levo a mal que até possa ser estranho para ti. Mas, o facto de ser lésbica não invalida que não queira casar. Mais, até. Eu queria casar e que adoptássemos uma criança. Sim, também já é possível os casais homossexuais adoptarem crianças em Portugal.
— Acho perfeitamente lícitas as tuas expectativas para o futuro.
— Pois... Mas, ela não as partilhava. E quando percebi isso, terminei a relação.
Gabriel olhou para o ecrã.
— Ainda a amas?
— Amo aquilo que tivemos, as recordações. — respondeu, olhando para a foto. — É isso que faço quando venho ver as nossas fotos, permitir-me a recordar o que passámos, consciente que já não a quero na minha vida.
— Bolas. Revelas uma maturidade muito acima da tua idade.
Íris sorriu e agradeceu o elogio.
— E tu, Gabriel?
— Eu?
— Sim. Existe alguém?
Ele baixou o olhar para o fundo da chávena, como se procurasse algo nos restos de café.
— Não. — respondeu num tom distante, tornando a apreciar as amêndoas lindas que o observavam. — Não tenho tempo para isso.
Íris falou com a frontalidade que começava a habituar-se a ter com ele:
— É assunto tabu?
— Outro "elefante na sala"? — retorquiu, esboçando um sorriso. Ela assentiu. — Não, não é. Nem seria correcto que não fosse tão honesto contigo, como estás a ser comigo. — Pousou a chávena no balcão. — Não faço vida de padre. Mas, assumo que não voltei a ter uma relação séria, desde que vim para o Canadá. — Íris pareceu ir fazer uma pergunta, ele adivinhou qual seria. — Sim, agora seria entrar no assunto tabu.
— A minha mãe... — sussurrou.
Ele anuiu.
Íris passou o polegar e o indicador pelos lábios como quem simula o fechar de um zipper. Não iriam falar naquilo.
— Tens planos para hoje? — perguntou Gabriel.
— Não tinha pensado em nada. Talvez vá começar a fazer mais umas pesquisas.
— Pensei que talvez pudéssemos passear pela cidade, que achas?
— Eu ia adorar. — confessou com entusiasmo. Depois, ficou séria. — Não quero estar a atrapalhar a tua vida, Gabriel. Sei que és um homem ocupado.
— Vou ter um dia calmo, hoje. — inventou. — Gostava de te mostrar Toronto.
A felicidade voltou a irradiar no seu rosto.
— Vou só mudar de roupa.
Os calções foram trocados por calças de ganga, a camisola de lã por uma mais fina de malha. Calçara as sapatilhas, segurava o blusão no braço e tinha uma malinha pequena pendurada no ombro oposto.
Desceram o elevador até à garagem.
— É o teu carro? — interrogou Íris boquiaberta a olhar para o Ferrari.
Gabriel confirmou como se aquele fosse o automóvel mais comum a qualquer pessoa.
— Entra. — convidou, enquanto contornava o veículo para se sentar ao volante. — Confortável?
— Estás a gozar comigo, Gabriel? Claro. Até tenho medo de tocar nalguma coisa.
Ele riu, divertido com o fascínio e estupefacção dela.
O motor rosnou, como se um trovão tivesse irrompido pelo subsolo do prédio. Íris assustou-se. Gabriel arrancou devagar e saiu para o trânsito citadino.
Com o olhar no exterior, Íris ia fascinada com a cidade e sentia-se o centro das atenções por estar dentro do Ferrari F8 Tributo, o qual roubava olhares em todo o lado por onde passavam.
— Os prédios são enormes. É com cada torre... Parece Nova Iorque, não achas, Gabriel?
— Já foste a New York?
— Não. Digo isto pelo que vejo na televisão.
— New York tem edifícios ainda mais altos.
— Estes já metem respeito.
Gabriel conduziu pelo mesmo percurso que fazia quando ia para o escritório. Iria deixar o carro estacionado no lugar do costume e passear com Íris pela cidade. Claro que aproveitou para lhe mostrar o seu espaço no Bay-Adelaide.
Francis ficou deslumbrado com Íris, como se lhe tivesse entrado na recepção a Miss Universo. Gabriel apresentou-os. Francis levantou-se e estendeu-lhe a mão que ela apertou com simpatia protocolar.
— Adorava trabalhar num sítio assim. — confidenciou Íris, observando o exterior do gabinete dele, através dos vidros enormes.
— Um dia trabalharás num sítio ainda melhor.
Íris caminhou pelo gabinete, demorando-se nas estantes com inúmeras molduras.
— Desculpa a minha ignorância, mas quem são? — questionou, apontando para as várias fotos em que ele aparecia com outros indivíduos.
— São jogadores de basquetebol, hóquei e basebol. Ah... Este é de futebol americano. Foi um dos poucos negócios que fiz na modalidade, mas rendeu mais que muitos dos outros.
Ela olhou para ele, trocista.
— Não se ganha lá muito bem na tua actividade, pois não? A avaliar pelo carro.
Gabriel riu-se.
— Pouco acima do ordenado mínimo. — ironizou. — Ganha-se muito bem, Íris. Tenho noção da sorte que tenho, nesse aspecto.
— Costumas passar aqui os dias?
— Não. Ando sempre de um lado para o outro, principalmente, nas semanas em que se podem negociar os contratos dos jogadores. Nem sempre se pode abordá-los, depois os clubes precisam que eu... Enfim...
Gabriel fez um gesto de que não interessava continuar a dissertar sobre aquilo. Íris assentiu novamente com o olhar na vista.
— Isso é tudo muito confuso, mas também nunca liguei muito a desporto, Gabriel.
Francis apareceu na entrada do gabinete, trazendo uns papéis para Gabriel e com interesse em Íris. Observou-a directamente, sorrindo-lhe, enquanto entrava e saía.
— Parece que ganhaste um admirador. — assinalou Gabriel com humor.
Ela ironizou no mesmo tom.
— Ainda nem cá estou há vinte quatro horas e já parto corações?
Sorriram um para o outro.
— Então? Onde me vais levar?
— Por aí.
O Sol continuava a brilhar intenso. Claro que na Bay Street era complicado que os raios solares chegassem directamente aos transeuntes, por causa dos gigantescos prédios. Gabriel e Íris caminharam pelo passeio em direcção a norte, subindo a rua. Ele explicou-lhe que aquela zona era conhecida como Old Toronto e estavam a deslocar-se pelo centro da cidade. No cimo da Bay Street avistava-se um edifício de arquitectura mais antiga, paradoxal à maioria daqueles que o rodeavam.
Enquanto esperavam permissão do semáforo para atravessar a Queen Street, Gabriel apontou para a torre com o relógio e disse:
— Este é o Old City Hall, a antiga... como é que dizemos em português? Ah... a Câmara da cidade.
Os automóveis pararam e eles puderam atravessar, seguindo para noroeste, continuando na Bay Street e entrando numa praça com um lago artificial onde haviam sido colocadas na margem oposta as letras grandes com a palavra "TORONTO".
— É mais bonito à noite. — explicou Gabriel. — As letras acendem e fazem efeitos luminosos.
— E aquilo? — perguntou Íris, apontando para as duas gigantescas torres atrás das letras, as quais se encaravam num formato concavo, o que lhes dava um efeito circular, vistas do céu.
— É o City Hall actual.
— Acho o antigo mais bonito.
— Acredita que não deves ser a única.
Caminharam um pouco pelo relvado envolvente. O verde bonito era espicaçado pelo Sol que incidia intenso na praça. Muitas pessoas circulavam de um lado para o outro. Pelo meio, muitos turistas a metralhar fotos.
— Já comia qualquer coisa. Ainda estou com os horários todos baralhados.
Gabriel olhou para o relógio.
— É meio-dia. Em Portugal estarias a lanchar.
— Não costumo lanchar, Gabriel.
— O meu médico diz que se deve comer de três em três horas.
— O teu médico preocupa-se contigo.
— É um chato. E ainda lhe pago para isso.
Ele sugeriu que atravessassem a Bay Street e entrassem no centro comercial. Enquanto caminhavam pelos corredores de lojas, Gabriel explicou:
— Em Toronto temos uma coisa a que chamamos The Path. É uma rede de túneis pedestres que ligam a grande maioria dos edifícios da cidade. Podes ir desde aqui até à Union Station, à zona residencial nas margens do lago, à CN Tower... Enfim, são quilómetros de passagens. Criaram isso porque no Inverno, o frio não dá tréguas. Se seguires pelo The Path, consegues ir a imensos sítios sem meteres o nariz na rua.
— Coisas de cidades evoluídas. Costuma nevar aqui?
— Sim.
— Se neva aqui, imagino em Montreal.
— Não te preocupes, Íris, também existe um Path em Montreal.
Ela anuiu, mas a informação não a deixou muito entusiasmada.
— Já estive a ver alguns preços. Acho que vou ter de encontrar algo nos subúrbios de Montreal, num lugar que me permita ter transportes para a McGill. Não creio que essa coisa... esse Path vá tão longe.
— Montreal tem uma boa rede de transportes. Não conheço de memória o Path de Montreal, mas calculo que se tiveres transporte para o centro da cidade, tens o Path daí até à McGill.
— Quando for lá, vou começar por passar na Universidade para saber se me podem indicar alguma residência para estudantes.
Alcançaram a zona de restauração. Ainda era cedo e os espaços comerciais de comida estavam a abrir. No interior dos restaurantes não se viam muitos clientes e os poucos que lá estavam davam ar de turistas. Para além disso, era dia de semana, dia de trabalho, e as pessoas que trabalhavam nas centenas de escritórios, ali à volta, preferiam passar num take-away e comprar algo simples para comer na esplanada do centro comercial, nos jardins exteriores ou mesmo no local de trabalho.
— Tens preferência?
— O que é que o teu médico recomenda que comas? — interrogou provocadora.
— Fazes-me parecer um velho.
— Estou a meter-me contigo.
— Essencialmente, couves.
— O quê?
— Quer que coma vegetais.
— Queres comer vegetais? — Ele atirou-lhe uma expressão torcida. — Bem me parecia.
Escolheram um restaurante de comida tradicional.
Um funcionário recebeu-os com simpatia e indicou-lhes que escolhessem uma mesa. Apenas duas tinham clientes. Optaram por uma aleatória e sentaram-se.
— Como é que estás a pensar fazer, em relação a Montreal? Quando é que vais?
— Hoje de manhã, dei uma olhadela na Internet. Pesquisei pequenos apartamentos para alugar. Mas, é tudo tão caro... Eu já tinha visto que não era barato viver em Montreal, mas não contava ter de ir para tão longe do centro da cidade. Por isso, é que me lembrei de ir à Universidade pedir informações. Podia contactá-los daqui, mas tenho de ver... Não posso deixar isso para quando me for embora para lá.
— Sim, concordo contigo. Convém ires ver, antes.
— Estive a ver a melhor forma para viajar até Montreal? E tenho de reservar quarto num hotel. Pelo menos, uma noite terei de passar lá. Pensei em ir e vir de avião, mas é muito caro... Bom, para mim é caro. — O funcionário trouxe-lhes os pedidos. — Vou de comboio. Estive a ver e fica mais em conta. Claro que são seis horas para lá e seis para cá. Daí ter de passar, pelo menos, uma noite em Montreal.
Gabriel olhava-a atento e ia anuindo às suas ideias. Quando ela terminou, indagou com naturalidade:
— Queres que vá contigo?
Ela sorriu.
— Não posso pedir-te isso. Já estou a ocupar em demasia a tua vida.
— Não digas isso, por favor. — pediu ele sério. — Não me ocupas minimamente e tenho muito gosto em ajudar-te.
— Seis horas... Doze horas de comboio é um suplício, não te posso fazer isso.
— Sim, tens razão. — concordou ele. — Sendo assim, não vou contigo.
Ela pareceu surpreendida, até decepcionada, por ele desistir da ideia tão rapidamente. Aceitou a decisão, mas ele riu-se.
— Convido-te a vir comigo a Montreal.
— Como assim?
— Como sou eu que convido, sou eu que escolho o transporte. Vamos de avião. A viagem é pouco mais de uma hora.
— Não posso, Gabriel. Não tenho dinheiro para isso.
— Sou eu que convido.
— Não, Gabriel, não posso aceitar. Tu já estás a fazer tanto por mim.
— Vais recusar o meu convite?
— Gabriel...
— Arco-íris! Vais?
Ela sorriu afectuosa.
— Sabes bem que não.
— Então é só escolheres quando queres ir.
— Vou apontar os gastos. Um dia irei pag...
— Não, não vais. — A recusa dele revelou-se séria e intransigente. — És uma miúda espectacular, admirável. — Desviou o olhar para o lado. — Sabes, quando eras uma criança, eu acreditava que poderia acompanhar o teu desenvolvimento. Nunca quis ser um pai para ti, nem tu precisavas porque felizmente o teu pai sempre esteve muito presente no tempo em que eu e a... e a tua mãe namorámos. — Íris fez uma expressão de surpresa por ele abordar o tabu. Não disse nada e ouviu-o. — Achava que seriamos amigos. Tínhamos empatia, nessa altura, e sinto que ainda a temos. — Íris sorriu e confirmou que sim. — Quando... No fim da... Quando acabou, acreditei que talvez te reencontrasse quando crescesses, quando fosses maior de idade e pudéssemos reatar a nossa amizade. Parece parvo, estar a falar assim de amizade entre uma menina de nove anos e um gajo de trinta e tal...
— Pelo contrário, Gabriel. Acho muito querido da tua parte.
— Seja como for, quando tomei a decisão de vir para o Canadá, aceitei que nunca mais te veria. — Abriu um sorriso satisfeito. — Mas, tu estás aqui. E como teu amigo, farei tudo o que estiver ao meu alcance para te ajudar.
As amêndoas lindas cravaram-se nele. Íris ficou em silêncio, simplesmente a observá-lo.
— Eu chorei quando foste embora. — disse de repente. — Mesmo quando o meu pai voltou a viver com a minha mãe, eu chorava por ti. Eles não sabiam, eu não deixava que vissem. À noite, na minha cama, sentia saudades tuas e chorava. — Gabriel ficou surpreso com a revelação. — Eras muito importante para mim. Tens razão, não eras um pai porque eu já tinha um, mas eras alguém muito presente na minha vida. — Abanou a cabeça. — Não te teres despedido de mim também não ajudou.
— A tua mãe...
— Eu sei. Ela só me contou alguns anos mais tarde que tu quiseste ver-me uma última vez. — Encarou-o honesta. — Não disse que tu foste embora sem querer saber de mim, mas só após esses anos é que me contou a verdade, que não te deixara despedires-te de mim.
— Nunca pensei que... a minha ausência tivesse tido esse impacto em ti.
Íris encolheu os ombros.
— Também não sei explicar, mas teve.
Ficaram a olhar os olhos um do outro por alguns instantes, em silêncio, sem assunto, mas confortáveis. Pareciam encontrar-se neles, como se um fosse o espelho do outro.
O momento foi interrompido pelo aproximar do funcionário para levantar os pratos vazios. Sugeriu algumas sobremesas, mas eles só quiserem café.
O passeio prosseguiu pela Yonge Street até à Dunda Street onde Gabriel lhe mostrou a Dundas Square, uma praça ampla vocacionada para eventos audiovisuais, uma espécie de Times Square de Nova Iorque mais humilde. O lugar tinha imensos turistas e, como era local de paragem dos autocarros de passeios turístico, estes juntavam-se em filas para entrar nos veículos. Íris ficou encantada pelo aspecto moderno futurista dos ecrãs colossais com vídeos de publicidade, promoções de acontecimentos e reportagens.
Desceram pela Yonge Street até à Richmond Street, a qual percorreram a dialogar, a apontar para os edifícios e indiferentes a quem passava por eles. Novamente na Bay Street, a caminhada terminou no Bay Adelaide. Entraram no átrio que dava acesso aos escritórios, mas Gabriel não pretendia regressar ao seu e ambos desceram no elevador para a garagem, onde o Ferrari os esperava.
— Algum sítio que queiras ver? — indagou ele, ao chegarem.
— Não sei... Não conheço nada, nem fiz pesquisa sobre Toronto como uma turista. Dediquei-me mais a conhecer virtualmente Montreal.
— Posso levar-te a conhecer as arenas e pavilhões de Toronto. — sugeriu na brincadeira, consciente que era coisa que não lhe interessava.
Íris olhou-o de lado e sorriu-lhe.
— Qual é a outra hipótese?
— Hoje está um dia bonito. Que me dizes a uma bebida na varanda do meu apartamento.
— Acho uma óptima ideia. — concordou ela, sentando-se novamente com receio de tocar o interior do veículo. — Mas, podes levar me a um supermercado primeiro?
— Um supermercado?
— Sim. Tu não tens nada em casa. E eu quero cozinhar, quero fazer-te o jantar.
— Podemos encomendar. Não precisas de estar com trabalho...
— Um supermercado, Gabriel. Pleeeeeeese!
Ele anuiu e iniciou a marcha para fora do estacionamento.
Quando o F8 já roncava pelas ruas de Toronto, Gabriel tinha já um novo destino para levar Íris. Ainda era cedo e o St. Lawrence Market ainda deveria estar aberto. Tinha a certeza de que ela ia gostar do local.
Não era um lugar onde fosse fácil estacionar, mas ele conseguiu lugar na Front Street. Poderia levar Íris a qualquer espaço comercial, mas quis mostrar-lhe um lugar diferente.
O edifício datava do início do século XX, o qual fora restaurado na década de setenta. Apresentava os traços típicos da época e ganhava destaque pela diferença e cariz histórico. Íris adorou-o.
No interior, cerca de uma centena de bancas de comerciantes dividiam-se por dois pisos, vendedores das mais diversas áreas, desde comida, utilidades, lembranças...
Íris passeou pelas bancas, algumas já desprovidas de muitos produtos, uma vez que de manhã é que era o ponto alto de venda. Circulou atenta, interessada, comprando uma coisa aqui e outra ali. Para Gabriel, aquilo era novidade, comprava tudo o que precisava na Internet, a comerciantes que lhe entregavam em casa.
Ao longo de quase uma hora, Íris comprou tudo o que considerou necessário para ter em casa dele e recusou as muitas vezes que Gabriel insistiu em pagar.
— Era o que faltava, Gabriel. Já basta não me cobrares a estadia.
O Ferrari nunca transportou tantas mercearias.
Íris receou que o cheiro das frutas, legumes, pão e outros ficasse no carro. Gabriel descansou-a. É para isso que existem empresas de limpeza de veículos.
O manto aquático do lago parecia uma placa imóvel, somente cortada pelas linhas provocadas pelos trajectos dos barcos que navegavam pelo lago Ontário. O Sol começava a desaparecer e a intensidade de luz, vinda do lado contrário do prédio, ia diminuindo.
Na larga varanda, Gabriel e Íris repousavam em duas cadeiras, ele com um copo de whisky na mão e ela com um sumo de pêssego.
O som da cidade ouvia-se ténue, vindo da mesma direcção que os raios solares a enfraquecer. Não estava frio e soprava uma brisa vinda do lago. Íris voltara a trocar de roupa, enfiando-se na camisola de lã e nos calções curtos que lhe destacavam as pernas. Ele manteve-se igual a como chegara da rua.
— Podemos ir a Montreal depois de amanhã? — sugeriu ela com o olhar na paisagem. — Quero orientar as coisas o mais rápido possível.
Gabriel pegou no telemóvel e marcou um número ao mesmo tempo que dizia que sim. Ligou para Francis e pediu-lhe que marcasse voo de ida para Montreal daí a dois dias, duas noites de estadia num hotel e regresso depois disso.
— Duas noites? — interrogou ela, quando ele desligou.
— Para ficarmos com tempo para o que for preciso.
— Estou a ficar-te muito cara e a consumir-te muito tempo.
— Estou a apontar tudo. — fingiu, divertido.
Ela atirou-lhe uma expressão torcida, consciente que ele não lhe cobraria nada. E ele sabia que ela sabia disso.
Ficaram em silêncio alguns momentos, a desfrutar da vista e a escutar os sons da cidade de Toronto. Ao fundo, o céu ganhava tonalidades cada vez mais escuras.
— É uma vista fabulosa, Gabriel.
— Foi por ela que comprei o apartamento.
Íris apontou para o lago.
— O que fica do outro lado?
— Ali. — indicou para sul. — Ainda é o Canadá. — Rodou o braço para norte. — Para ali já é os Estados Unidos. A margem de lá é dividida pelo rio Niágara.
— E as cascatas?
— Ficam no seguimento do rio. A corrente do rio Niágara vem desaguar ao Lago Ontário, vinda do Lago Erie. Se houver oportunidade, um dia levo-te às Cataratas do Niágara.
— Combinado. — concordou, levantando-se. — Vou preparar o jantar.
Gabriel não se recordava de alguma vez ter jantado tão cedo. Porém, Íris ainda estava a adaptar-se ao jet lag. Comeram sentados nos bancos altos com a mesa posta sobre o balcão que dividia a sala da cozinha.
— Eu trato da louça. — avisou Gabriel no final da refeição, vendo a pegar no prato, e sem aceitar recusas.
Íris não o contrariou, revelando um ar cansado. Era uma hora da madrugada em Portugal.
— Acho que vou para a cama. Não te importas?
— Claro que não.
Contornando o balcão, Íris aproximou-se dele e abraçou-o com ternura.
— Obrigado por tudo, Gabriel.
Ele recebeu-a nos braços, permanecendo sentado no banco.
— Vais agradecer-me a cada frase?
— Nunca é demais.
Beijou-lhe a face e despediu-se com um "boa noite".
Gabriel ficou sozinho na sala, sentado no banco, imóvel a pensar em tudo. Repetia mentalmente que deveria evitar habituar-se àquilo. Tinha noção que era por momentos daqueles que afastava toda a gente de si, para evitar a hora em que tudo acabava e ele voltava a ficar sozinho. Infelizmente, não conseguira fugir ao enredo que ele próprio criara. Afinal, se não a tivesse convidado para Toronto, nada daquilo estaria a acontecer. Íris tinha tudo para ser a amiga que ele julgara que um dia ela seria, quando ainda namorava com a sua mãe. A empatia entre eles era incrível. Reencontraram-se havia pouco mais de vinte e quatro horas e ninguém diria que tinham passado quinze anos sem se verem.
Saltou do banco e levou a louça para a máquina de lavar. Evitou pensar que a solidão voltaria a ser a sua única companhia, quando Íris partisse em definitivo para Montreal, caso contrário, a angústia aproveitaria a brecha para o deprimir.
Sentou-se no sofá e ligou a televisão sem som para ver as notícias, mas nem prestou muita atenção nas imagens a passar. Olhou para o relógio do smartwatch. Que horas seriam em Seattle?
Desbloqueou o smartphone pressionando o polegar no ecrã. Procurou o número e carregou no ícone verde.
— Que surpresa. — disse a voz que o atendeu.
— Olá, Rachel! Espero que seja uma boa surpresa.
— Sabes bem que sim.
— Estás em Seattle?
— Não. Mas, não estou longe. Estou num hotel em Vancouver.
— Como estás?
— Bem. — respondeu, distanciando o tom. — Até ouvir o telemóvel a tocar e ver o teu nome, pensei que te tivesses esquecido que eu existo.
— Já sabes como sou.
— Sei. — apressou-se a confirmar. — Foi um desabafo. Não estou a cobrar nada. E fico feliz que me tenhas ligado.
— Estás sozinha ou estou a interromper alguma coisa?
— Ligaste mesmo no momento em que estou na cama com um tipo que conheci no bar do hotel. — informou séria. Depois, brindou-o com uma gargalhada melodiosa. — Estou a brincar. Não está aqui ninguém comigo.
— Podia estar.
— Somos dois solitários, Gabriel.
— Sabes como combato isso, não sabes?
— Não estou a pensar em contratar prostitutos, Gabriel.
— Queres conversar um bocado?
— Que se passa?
— Nada.
— Onde estás?
— Em casa.
— Estás sozinho?
— Sim.
Sim, estava sozinho na sala. Gabriel não encontrou uma justificação imediata para o fazer, mas não quis partilhar a existência de Íris com ela. Poderia dar uma ideia errada, fazê-la pensar algo absurdo... Que interessava a opinião de Rachel? Talvez não interessasse... Talvez ele não lhe quisesse dizer que permitira a alguém, algo que recusara a ela, entrar na sua vida pessoal. Talvez um dia lhe contasse, mas não por telefone.
— Então?
— Então o quê? — repetiu ele, percebendo que se distraíra.
— Perguntei se nenhuma delas estava disponível esta noite.
— Quem?
— Tu sabes quem.
— Não sei se estão. Não as procurei.
Houve um silêncio breve, como se ambos procurassem assunto para falar. Gabriel queria ouvi-la, queria falar com ela, mas não sabia o que haveria de dizer. Acabou por escolher o que tinham em comum:
— Como têm corrido os negócios?
— Ligaste-me para saber de compra e venda de jogadores?
— Liguei-te porque... — Travou-se, percebendo que iria fazer uma confissão. Teria importância? Talvez não. — Não liguei para saber de negócios.
— Então?
— Tem de haver uma razão?
— Normalmente há. Mais não seja "cliquei sem querer no teu número".
— Não foi o caso.
Novo silêncio. Ele ouvia a respiração dela no outro lado. Não sabia o que dizer e calculou que ela o tomaria por um idiota com aquela atitude. Contudo, Rachel surpreendeu-o:
— Podemos ficar em silêncio, se quiseres.
— Sinto-me ridículo. Telefonei-te e agora... Acho que só queria ouvir a tua voz.
— Que tem isso de ridículo?
— Não sei...
— Fazemos assim. Como queres ouvir a minha voz, eu conto-te o que tenho feito. Quando estiveres farto, avisas e desligamos.
Gabriel sorriu.
— Parece-me bem.
Rachel iniciou o relato do seu trabalho nos últimos dias. A sua vida profissional estava cada vez mais centralizada em Seattle e na costa oeste. O futuro novo clube da NHL oferecera-lhe um contrato de colaboração irrecusável e ela teria de passar os próximos tempos entre a capital do estado de Washington, Seattle, e a Califórnia por causa da equipa satélite sediada em Palm Springs. Estava muito satisfeita e ainda mais realizada profissionalmente.
— Pensas vir a Toronto em breve? — perguntou Gabriel, interrompendo o relato.
— Não. — A resposta foi dada sem nenhuma entoação especial, não revelando qualquer emoção. — Nem tenho nada previsto que me faça viajar até à costa leste.
— Se vieres, avisas-me?
— Achas que se fosse a Toronto, não te dizia nada?
— Não.
Mais silêncio. Gabriel tinha receio que se aqueles silêncios se repetissem muitas vezes, ela desistiria e a chamada terminava. Ele não queria que isso acontecesse.
— Queres que vá a Toronto?
A pergunta apanhou-o de surpresa.
— Se quero que venhas a Toronto?
— Acho que não falei chinês, Gabriel.
— Não de propósito. — recusou com distanciamento. — Só mesmo se tivesses algo a fazer por aqui.
— Gostavas que tivesse?
— Como assim?
Rachel suspirou no outro lado da linha.
— Não consegues responder sem fazer uma pergunta?
— Ok. Desculpa. — pediu ele, aproveitando para não responder, para não confessar que gostava que ela fosse a Toronto.
Isso pareceu exasperar Rachel.
— Sei que não o admites, mas a mim não me custa admiti-lo. Tenho saudades tuas e gostava de te voltar a ver. Tenho pena que não estejamos mais próximos, geograficamente. — Fez uma pausa, esperando que ele comentasse. Gabriel permaneceu mudo. — Se eventualmente tiveres que viajar à conta oeste, se quiseres... se tiveres interesse nisso, podemos encontrar-nos.
— Sim...
Só "sim"? Só um "sim" deslavado, desprovido de emoção? Não és capaz de mais que isso, Gabriel? Tentou dizer algo, mas a voz de Rachel travou-o:
— Olha! Vou ter de desligar...
— Ok.
— Liga sempre que quiseres, Gabriel.
— Ok.
— Beijinhos. Fica bem!
— Tu também.
E desligou.
Saiu da cama nu. Sempre dormira nu. Vestiu o robe, apesar de o ambiente climático do apartamento ter todas as divisões com a temperatura automaticamente afinada pelo ar condicionado. Encurtou a distância para os vidros, o seu quarto tinha a janela na mesma direcção que a vista da sala. Adorava ver o Sol a nascer, mas naquela manhã o astro já ia numa subida bem avançada. Regressou à cama e sentou-se no colchão. Pegou no telemóvel, desbloqueou-o e viu se havia novidades. Apenas emails de trabalho e chamadas que não ouvira por ter o aparelho no silêncio. Nada que merecesse a sua atenção urgente. Foi tomar um duche.
Aquele seria o primeiro dia de Íris em Toronto. Por isso, ele determinara na sua agenda que iria trabalhar donde estivesse e não estaria disponível para nada que não fosse importante. Deixou os fatos no armário e vestiu uma calças clássicas às quais juntou uma camisa e um pulôver de malha. Por fim, calçou um par de sapatos a conjugar com o resto.
Ao abrir a porta, sentiu o cheiro agradável a café e torradas. Há quanto tempo não sentia aquele cheirinho ali? Ah.... Pois... Nunca sentira. Saiu para o átrio. A porta do quarto onde Íris dormira estava aberta e o espaço arrumado. Ouviu movimento na sala. Caminhou até lá.
Íris estava sentada num dos bancos altos com a atenção no seu computador portátil, ligado ao lado do de Gabriel que ali ficara desligado na noite anterior. Ela estava concentrada a ler algo no Facebook e nem deu pela chegada dele. Gabriel observou-a, satisfeito por notar que ela se instalara sem cerimónias. Vestia uma camisola de lã, calções curtos e estava descalça. Tinha umas pernas lindas, magníficas como as da mãe.
Merda! Tinha de parar com aquilo. Tinha de parar de pensar na mãe dela.
Sentindo a sua presença, Íris voltou-se e brindou-o com um sorriso fascinante.
— Bom dia, Gabriel!
— Bom dia, Arco-íris.
Enquanto se aproximava, ela saltou do banco. Olhou-o hesitante.
— Posso dar-te um beijo?
— Claro que sim, Arco-íris.
Íris beijou-o e abraçou-o.
— Dormiste bem?
— Maravilhosamente. — confirmou satisfeita, contornando o balcão. — Acordei às cinco da manhã. Não tinha sono e levantei-me. Espero não te ter acordado ou feito barulho que te incomodasse.
— Não. Eu até acordei mais tarde que o costume.
No lado oposto do balcão, ela aproximou-se da máquina do café.
— Posso fazer um para ti? — Gabriel anuiu. — Como queres?
— Expresso.
— E para acompanhar? Posso fazer-te uma torrada.
— Não é preciso.
— Nunca ouviste que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia?
— O meu médico repete-me isso sempre que me vê.
— Então, vai sair uma torrada. — decidiu ela sem dar hipóteses de recusa.
Gabriel encostou-se ao balcão e ficou a olhar distraidamente para o ecrã do portátil dela, vendo uma foto em que Íris estava na companhia de uma amiga.
— Quem é? — perguntou por perguntar.
Íris fez um ar culpado, meio envergonhado. Não respondeu logo, talvez a ponderar se haveria de lhe contar. Acabou por ser totalmente sincera.
— É a minha ex-namorada.
— Ex-namorada? — interrogou ele, pensando não ter ouvido bem.
— Sim. — confirmou com uma expressão envergonhada. — Chocado?
— Chocado?
— Chocado pela minha orientação sexual?
Gabriel abanou a cabeça.
— Chocado não. Surpreendido, nada mais.
— Mas, é algo que te incomode? — questionou ela, muito séria.
— Nadinha, Arco-íris. — Gabriel soltou uma gargalhada que não conseguiu controlar. — Nunca o nome te assentou tão bem.
— Eu sei. — confirmou, correspondendo ao sorriso. — Lembras te de te contar da gargalhada que dei, quando li o teu primeiro email? Sim, foi saudade, mas mais que isso, foi pela analogia. Arco-íris tem uma simbologia especial, como bem sabes.
— Que não restem dúvidas. Não me incomoda minimamente. Além disso, irás descobrir que Toronto é uma cidade muito... como se diz? Acho que o termo inglês é o que descreve melhor. É muito gay friendly.
— Fico feliz que penses assim. E desculpa! Devia ter-te contado, antes de vir.
— Não, não devias. Nem precisavas de me dizer agora. Ninguém tem nada com a tua vida íntima e privada.
Íris anuiu, estava feliz.
— Queres o pão muito ou pouco torrado?
— Pouco.
Ela retirou a fatia de pão da torradeira, colocou-a num prato pequeno e foi buscar a manteiga ao frigorífico. Movia-se como se vivesse ali há muitos anos. Juntou-lhe uma faca e empurrou tudo na direcção dele, dizendo:
— Só falta o café.
Gabriel estava encantado por a ter ali, mas repetia mentalmente que não devia deixar-se entusiasmar com aquilo. Seria algo muito efémero na sua vida e, quanto mais se deixasse enredar por aquela amizade, mais sofreria depois.
— Ora aqui está. — disse ela, entregando-lhe a pequena chávena com o café. — Deseja mais alguma coisa, caro senhor?
— Não, obrigado, cara menina.
Ambos sorriram com gosto.
Íris regressou ao seu lugar no banco defronte do computador. A seu lado, Gabriel mastigava silenciosamente o pão e bebia o café.
— Foi por vires para o Canadá? — interrogou ele do nada.
Arregalando os olhos, resgatada da distracção do computador, Íris olhou para ele.
— Não percebi, desculpa.
— A tua ex-namorada. Terminaram porque tu vinhas para o Canadá?
— Não. — negou sem revelar se o assunto era ou não doloroso. — Acabou antes disso, muito antes.
Silenciou-se, como se revisse algo na sua memória.
— Não quero estar a intrometer-me.
— Não tem mal, Gabriel. Não me importo de falar nisso. Namorámos durante três anos. Por isso... Como deves calcular, foi alguém muito especial na minha vida.
— Porque é que acabou?
Íris fez um sorriso atípico que em nada combinava com ela, era um sorriso sofrido, triste.
— Eu amava-a profundamente. Terminei o Ensino Superior, tinha perspectivas de emprego. Por isso, quis casar. — Encolheu os ombros. — Pedi-a em casamento.
Gabriel fez uma expressão confusa. Ela descodificou a dúvida dele.
— Em Portugal, as pessoas do mesmo sexo já podem casar.
— E ela?
— Disse-me que não. Nem pensou. Ou se pensou, deve ter sido para aí uns cinco segundos. Percebi logo que aquilo nunca seria mais que... Peço que me desculpes a honestidade, mas não há outra palavra, era só sexo. — Atento, ainda surpreendido e curioso, Gabriel escutava-a com toda a atenção. — Sabes. Talvez isto possa ser estranho para a maioria das pessoas. Não levo a mal que até possa ser estranho para ti. Mas, o facto de ser lésbica não invalida que não queira casar. Mais, até. Eu queria casar e que adoptássemos uma criança. Sim, também já é possível os casais homossexuais adoptarem crianças em Portugal.
— Acho perfeitamente lícitas as tuas expectativas para o futuro.
— Pois... Mas, ela não as partilhava. E quando percebi isso, terminei a relação.
Gabriel olhou para o ecrã.
— Ainda a amas?
— Amo aquilo que tivemos, as recordações. — respondeu, olhando para a foto. — É isso que faço quando venho ver as nossas fotos, permitir-me a recordar o que passámos, consciente que já não a quero na minha vida.
— Bolas. Revelas uma maturidade muito acima da tua idade.
Íris sorriu e agradeceu o elogio.
— E tu, Gabriel?
— Eu?
— Sim. Existe alguém?
Ele baixou o olhar para o fundo da chávena, como se procurasse algo nos restos de café.
— Não. — respondeu num tom distante, tornando a apreciar as amêndoas lindas que o observavam. — Não tenho tempo para isso.
Íris falou com a frontalidade que começava a habituar-se a ter com ele:
— É assunto tabu?
— Outro "elefante na sala"? — retorquiu, esboçando um sorriso. Ela assentiu. — Não, não é. Nem seria correcto que não fosse tão honesto contigo, como estás a ser comigo. — Pousou a chávena no balcão. — Não faço vida de padre. Mas, assumo que não voltei a ter uma relação séria, desde que vim para o Canadá. — Íris pareceu ir fazer uma pergunta, ele adivinhou qual seria. — Sim, agora seria entrar no assunto tabu.
— A minha mãe... — sussurrou.
Ele anuiu.
Íris passou o polegar e o indicador pelos lábios como quem simula o fechar de um zipper. Não iriam falar naquilo.
— Tens planos para hoje? — perguntou Gabriel.
— Não tinha pensado em nada. Talvez vá começar a fazer mais umas pesquisas.
— Pensei que talvez pudéssemos passear pela cidade, que achas?
— Eu ia adorar. — confessou com entusiasmo. Depois, ficou séria. — Não quero estar a atrapalhar a tua vida, Gabriel. Sei que és um homem ocupado.
— Vou ter um dia calmo, hoje. — inventou. — Gostava de te mostrar Toronto.
A felicidade voltou a irradiar no seu rosto.
— Vou só mudar de roupa.
Os calções foram trocados por calças de ganga, a camisola de lã por uma mais fina de malha. Calçara as sapatilhas, segurava o blusão no braço e tinha uma malinha pequena pendurada no ombro oposto.
Desceram o elevador até à garagem.
— É o teu carro? — interrogou Íris boquiaberta a olhar para o Ferrari.
Gabriel confirmou como se aquele fosse o automóvel mais comum a qualquer pessoa.
— Entra. — convidou, enquanto contornava o veículo para se sentar ao volante. — Confortável?
— Estás a gozar comigo, Gabriel? Claro. Até tenho medo de tocar nalguma coisa.
Ele riu, divertido com o fascínio e estupefacção dela.
O motor rosnou, como se um trovão tivesse irrompido pelo subsolo do prédio. Íris assustou-se. Gabriel arrancou devagar e saiu para o trânsito citadino.
Com o olhar no exterior, Íris ia fascinada com a cidade e sentia-se o centro das atenções por estar dentro do Ferrari F8 Tributo, o qual roubava olhares em todo o lado por onde passavam.
— Os prédios são enormes. É com cada torre... Parece Nova Iorque, não achas, Gabriel?
— Já foste a New York?
— Não. Digo isto pelo que vejo na televisão.
— New York tem edifícios ainda mais altos.
— Estes já metem respeito.
Gabriel conduziu pelo mesmo percurso que fazia quando ia para o escritório. Iria deixar o carro estacionado no lugar do costume e passear com Íris pela cidade. Claro que aproveitou para lhe mostrar o seu espaço no Bay-Adelaide.
Francis ficou deslumbrado com Íris, como se lhe tivesse entrado na recepção a Miss Universo. Gabriel apresentou-os. Francis levantou-se e estendeu-lhe a mão que ela apertou com simpatia protocolar.
— Adorava trabalhar num sítio assim. — confidenciou Íris, observando o exterior do gabinete dele, através dos vidros enormes.
— Um dia trabalharás num sítio ainda melhor.
Íris caminhou pelo gabinete, demorando-se nas estantes com inúmeras molduras.
— Desculpa a minha ignorância, mas quem são? — questionou, apontando para as várias fotos em que ele aparecia com outros indivíduos.
— São jogadores de basquetebol, hóquei e basebol. Ah... Este é de futebol americano. Foi um dos poucos negócios que fiz na modalidade, mas rendeu mais que muitos dos outros.
Ela olhou para ele, trocista.
— Não se ganha lá muito bem na tua actividade, pois não? A avaliar pelo carro.
Gabriel riu-se.
— Pouco acima do ordenado mínimo. — ironizou. — Ganha-se muito bem, Íris. Tenho noção da sorte que tenho, nesse aspecto.
— Costumas passar aqui os dias?
— Não. Ando sempre de um lado para o outro, principalmente, nas semanas em que se podem negociar os contratos dos jogadores. Nem sempre se pode abordá-los, depois os clubes precisam que eu... Enfim...
Gabriel fez um gesto de que não interessava continuar a dissertar sobre aquilo. Íris assentiu novamente com o olhar na vista.
— Isso é tudo muito confuso, mas também nunca liguei muito a desporto, Gabriel.
Francis apareceu na entrada do gabinete, trazendo uns papéis para Gabriel e com interesse em Íris. Observou-a directamente, sorrindo-lhe, enquanto entrava e saía.
— Parece que ganhaste um admirador. — assinalou Gabriel com humor.
Ela ironizou no mesmo tom.
— Ainda nem cá estou há vinte quatro horas e já parto corações?
Sorriram um para o outro.
— Então? Onde me vais levar?
— Por aí.
O Sol continuava a brilhar intenso. Claro que na Bay Street era complicado que os raios solares chegassem directamente aos transeuntes, por causa dos gigantescos prédios. Gabriel e Íris caminharam pelo passeio em direcção a norte, subindo a rua. Ele explicou-lhe que aquela zona era conhecida como Old Toronto e estavam a deslocar-se pelo centro da cidade. No cimo da Bay Street avistava-se um edifício de arquitectura mais antiga, paradoxal à maioria daqueles que o rodeavam.
Enquanto esperavam permissão do semáforo para atravessar a Queen Street, Gabriel apontou para a torre com o relógio e disse:
— Este é o Old City Hall, a antiga... como é que dizemos em português? Ah... a Câmara da cidade.
Os automóveis pararam e eles puderam atravessar, seguindo para noroeste, continuando na Bay Street e entrando numa praça com um lago artificial onde haviam sido colocadas na margem oposta as letras grandes com a palavra "TORONTO".
— É mais bonito à noite. — explicou Gabriel. — As letras acendem e fazem efeitos luminosos.
— E aquilo? — perguntou Íris, apontando para as duas gigantescas torres atrás das letras, as quais se encaravam num formato concavo, o que lhes dava um efeito circular, vistas do céu.
— É o City Hall actual.
— Acho o antigo mais bonito.
— Acredita que não deves ser a única.
Caminharam um pouco pelo relvado envolvente. O verde bonito era espicaçado pelo Sol que incidia intenso na praça. Muitas pessoas circulavam de um lado para o outro. Pelo meio, muitos turistas a metralhar fotos.
— Já comia qualquer coisa. Ainda estou com os horários todos baralhados.
Gabriel olhou para o relógio.
— É meio-dia. Em Portugal estarias a lanchar.
— Não costumo lanchar, Gabriel.
— O meu médico diz que se deve comer de três em três horas.
— O teu médico preocupa-se contigo.
— É um chato. E ainda lhe pago para isso.
Ele sugeriu que atravessassem a Bay Street e entrassem no centro comercial. Enquanto caminhavam pelos corredores de lojas, Gabriel explicou:
— Em Toronto temos uma coisa a que chamamos The Path. É uma rede de túneis pedestres que ligam a grande maioria dos edifícios da cidade. Podes ir desde aqui até à Union Station, à zona residencial nas margens do lago, à CN Tower... Enfim, são quilómetros de passagens. Criaram isso porque no Inverno, o frio não dá tréguas. Se seguires pelo The Path, consegues ir a imensos sítios sem meteres o nariz na rua.
— Coisas de cidades evoluídas. Costuma nevar aqui?
— Sim.
— Se neva aqui, imagino em Montreal.
— Não te preocupes, Íris, também existe um Path em Montreal.
Ela anuiu, mas a informação não a deixou muito entusiasmada.
— Já estive a ver alguns preços. Acho que vou ter de encontrar algo nos subúrbios de Montreal, num lugar que me permita ter transportes para a McGill. Não creio que essa coisa... esse Path vá tão longe.
— Montreal tem uma boa rede de transportes. Não conheço de memória o Path de Montreal, mas calculo que se tiveres transporte para o centro da cidade, tens o Path daí até à McGill.
— Quando for lá, vou começar por passar na Universidade para saber se me podem indicar alguma residência para estudantes.
Alcançaram a zona de restauração. Ainda era cedo e os espaços comerciais de comida estavam a abrir. No interior dos restaurantes não se viam muitos clientes e os poucos que lá estavam davam ar de turistas. Para além disso, era dia de semana, dia de trabalho, e as pessoas que trabalhavam nas centenas de escritórios, ali à volta, preferiam passar num take-away e comprar algo simples para comer na esplanada do centro comercial, nos jardins exteriores ou mesmo no local de trabalho.
— Tens preferência?
— O que é que o teu médico recomenda que comas? — interrogou provocadora.
— Fazes-me parecer um velho.
— Estou a meter-me contigo.
— Essencialmente, couves.
— O quê?
— Quer que coma vegetais.
— Queres comer vegetais? — Ele atirou-lhe uma expressão torcida. — Bem me parecia.
Escolheram um restaurante de comida tradicional.
Um funcionário recebeu-os com simpatia e indicou-lhes que escolhessem uma mesa. Apenas duas tinham clientes. Optaram por uma aleatória e sentaram-se.
— Como é que estás a pensar fazer, em relação a Montreal? Quando é que vais?
— Hoje de manhã, dei uma olhadela na Internet. Pesquisei pequenos apartamentos para alugar. Mas, é tudo tão caro... Eu já tinha visto que não era barato viver em Montreal, mas não contava ter de ir para tão longe do centro da cidade. Por isso, é que me lembrei de ir à Universidade pedir informações. Podia contactá-los daqui, mas tenho de ver... Não posso deixar isso para quando me for embora para lá.
— Sim, concordo contigo. Convém ires ver, antes.
— Estive a ver a melhor forma para viajar até Montreal? E tenho de reservar quarto num hotel. Pelo menos, uma noite terei de passar lá. Pensei em ir e vir de avião, mas é muito caro... Bom, para mim é caro. — O funcionário trouxe-lhes os pedidos. — Vou de comboio. Estive a ver e fica mais em conta. Claro que são seis horas para lá e seis para cá. Daí ter de passar, pelo menos, uma noite em Montreal.
Gabriel olhava-a atento e ia anuindo às suas ideias. Quando ela terminou, indagou com naturalidade:
— Queres que vá contigo?
Ela sorriu.
— Não posso pedir-te isso. Já estou a ocupar em demasia a tua vida.
— Não digas isso, por favor. — pediu ele sério. — Não me ocupas minimamente e tenho muito gosto em ajudar-te.
— Seis horas... Doze horas de comboio é um suplício, não te posso fazer isso.
— Sim, tens razão. — concordou ele. — Sendo assim, não vou contigo.
Ela pareceu surpreendida, até decepcionada, por ele desistir da ideia tão rapidamente. Aceitou a decisão, mas ele riu-se.
— Convido-te a vir comigo a Montreal.
— Como assim?
— Como sou eu que convido, sou eu que escolho o transporte. Vamos de avião. A viagem é pouco mais de uma hora.
— Não posso, Gabriel. Não tenho dinheiro para isso.
— Sou eu que convido.
— Não, Gabriel, não posso aceitar. Tu já estás a fazer tanto por mim.
— Vais recusar o meu convite?
— Gabriel...
— Arco-íris! Vais?
Ela sorriu afectuosa.
— Sabes bem que não.
— Então é só escolheres quando queres ir.
— Vou apontar os gastos. Um dia irei pag...
— Não, não vais. — A recusa dele revelou-se séria e intransigente. — És uma miúda espectacular, admirável. — Desviou o olhar para o lado. — Sabes, quando eras uma criança, eu acreditava que poderia acompanhar o teu desenvolvimento. Nunca quis ser um pai para ti, nem tu precisavas porque felizmente o teu pai sempre esteve muito presente no tempo em que eu e a... e a tua mãe namorámos. — Íris fez uma expressão de surpresa por ele abordar o tabu. Não disse nada e ouviu-o. — Achava que seriamos amigos. Tínhamos empatia, nessa altura, e sinto que ainda a temos. — Íris sorriu e confirmou que sim. — Quando... No fim da... Quando acabou, acreditei que talvez te reencontrasse quando crescesses, quando fosses maior de idade e pudéssemos reatar a nossa amizade. Parece parvo, estar a falar assim de amizade entre uma menina de nove anos e um gajo de trinta e tal...
— Pelo contrário, Gabriel. Acho muito querido da tua parte.
— Seja como for, quando tomei a decisão de vir para o Canadá, aceitei que nunca mais te veria. — Abriu um sorriso satisfeito. — Mas, tu estás aqui. E como teu amigo, farei tudo o que estiver ao meu alcance para te ajudar.
As amêndoas lindas cravaram-se nele. Íris ficou em silêncio, simplesmente a observá-lo.
— Eu chorei quando foste embora. — disse de repente. — Mesmo quando o meu pai voltou a viver com a minha mãe, eu chorava por ti. Eles não sabiam, eu não deixava que vissem. À noite, na minha cama, sentia saudades tuas e chorava. — Gabriel ficou surpreso com a revelação. — Eras muito importante para mim. Tens razão, não eras um pai porque eu já tinha um, mas eras alguém muito presente na minha vida. — Abanou a cabeça. — Não te teres despedido de mim também não ajudou.
— A tua mãe...
— Eu sei. Ela só me contou alguns anos mais tarde que tu quiseste ver-me uma última vez. — Encarou-o honesta. — Não disse que tu foste embora sem querer saber de mim, mas só após esses anos é que me contou a verdade, que não te deixara despedires-te de mim.
— Nunca pensei que... a minha ausência tivesse tido esse impacto em ti.
Íris encolheu os ombros.
— Também não sei explicar, mas teve.
Ficaram a olhar os olhos um do outro por alguns instantes, em silêncio, sem assunto, mas confortáveis. Pareciam encontrar-se neles, como se um fosse o espelho do outro.
O momento foi interrompido pelo aproximar do funcionário para levantar os pratos vazios. Sugeriu algumas sobremesas, mas eles só quiserem café.
O passeio prosseguiu pela Yonge Street até à Dunda Street onde Gabriel lhe mostrou a Dundas Square, uma praça ampla vocacionada para eventos audiovisuais, uma espécie de Times Square de Nova Iorque mais humilde. O lugar tinha imensos turistas e, como era local de paragem dos autocarros de passeios turístico, estes juntavam-se em filas para entrar nos veículos. Íris ficou encantada pelo aspecto moderno futurista dos ecrãs colossais com vídeos de publicidade, promoções de acontecimentos e reportagens.
Desceram pela Yonge Street até à Richmond Street, a qual percorreram a dialogar, a apontar para os edifícios e indiferentes a quem passava por eles. Novamente na Bay Street, a caminhada terminou no Bay Adelaide. Entraram no átrio que dava acesso aos escritórios, mas Gabriel não pretendia regressar ao seu e ambos desceram no elevador para a garagem, onde o Ferrari os esperava.
— Algum sítio que queiras ver? — indagou ele, ao chegarem.
— Não sei... Não conheço nada, nem fiz pesquisa sobre Toronto como uma turista. Dediquei-me mais a conhecer virtualmente Montreal.
— Posso levar-te a conhecer as arenas e pavilhões de Toronto. — sugeriu na brincadeira, consciente que era coisa que não lhe interessava.
Íris olhou-o de lado e sorriu-lhe.
— Qual é a outra hipótese?
— Hoje está um dia bonito. Que me dizes a uma bebida na varanda do meu apartamento.
— Acho uma óptima ideia. — concordou ela, sentando-se novamente com receio de tocar o interior do veículo. — Mas, podes levar me a um supermercado primeiro?
— Um supermercado?
— Sim. Tu não tens nada em casa. E eu quero cozinhar, quero fazer-te o jantar.
— Podemos encomendar. Não precisas de estar com trabalho...
— Um supermercado, Gabriel. Pleeeeeeese!
Ele anuiu e iniciou a marcha para fora do estacionamento.
Quando o F8 já roncava pelas ruas de Toronto, Gabriel tinha já um novo destino para levar Íris. Ainda era cedo e o St. Lawrence Market ainda deveria estar aberto. Tinha a certeza de que ela ia gostar do local.
Não era um lugar onde fosse fácil estacionar, mas ele conseguiu lugar na Front Street. Poderia levar Íris a qualquer espaço comercial, mas quis mostrar-lhe um lugar diferente.
O edifício datava do início do século XX, o qual fora restaurado na década de setenta. Apresentava os traços típicos da época e ganhava destaque pela diferença e cariz histórico. Íris adorou-o.
No interior, cerca de uma centena de bancas de comerciantes dividiam-se por dois pisos, vendedores das mais diversas áreas, desde comida, utilidades, lembranças...
Íris passeou pelas bancas, algumas já desprovidas de muitos produtos, uma vez que de manhã é que era o ponto alto de venda. Circulou atenta, interessada, comprando uma coisa aqui e outra ali. Para Gabriel, aquilo era novidade, comprava tudo o que precisava na Internet, a comerciantes que lhe entregavam em casa.
Ao longo de quase uma hora, Íris comprou tudo o que considerou necessário para ter em casa dele e recusou as muitas vezes que Gabriel insistiu em pagar.
— Era o que faltava, Gabriel. Já basta não me cobrares a estadia.
O Ferrari nunca transportou tantas mercearias.
Íris receou que o cheiro das frutas, legumes, pão e outros ficasse no carro. Gabriel descansou-a. É para isso que existem empresas de limpeza de veículos.
O manto aquático do lago parecia uma placa imóvel, somente cortada pelas linhas provocadas pelos trajectos dos barcos que navegavam pelo lago Ontário. O Sol começava a desaparecer e a intensidade de luz, vinda do lado contrário do prédio, ia diminuindo.
Na larga varanda, Gabriel e Íris repousavam em duas cadeiras, ele com um copo de whisky na mão e ela com um sumo de pêssego.
O som da cidade ouvia-se ténue, vindo da mesma direcção que os raios solares a enfraquecer. Não estava frio e soprava uma brisa vinda do lago. Íris voltara a trocar de roupa, enfiando-se na camisola de lã e nos calções curtos que lhe destacavam as pernas. Ele manteve-se igual a como chegara da rua.
— Podemos ir a Montreal depois de amanhã? — sugeriu ela com o olhar na paisagem. — Quero orientar as coisas o mais rápido possível.
Gabriel pegou no telemóvel e marcou um número ao mesmo tempo que dizia que sim. Ligou para Francis e pediu-lhe que marcasse voo de ida para Montreal daí a dois dias, duas noites de estadia num hotel e regresso depois disso.
— Duas noites? — interrogou ela, quando ele desligou.
— Para ficarmos com tempo para o que for preciso.
— Estou a ficar-te muito cara e a consumir-te muito tempo.
— Estou a apontar tudo. — fingiu, divertido.
Ela atirou-lhe uma expressão torcida, consciente que ele não lhe cobraria nada. E ele sabia que ela sabia disso.
Ficaram em silêncio alguns momentos, a desfrutar da vista e a escutar os sons da cidade de Toronto. Ao fundo, o céu ganhava tonalidades cada vez mais escuras.
— É uma vista fabulosa, Gabriel.
— Foi por ela que comprei o apartamento.
Íris apontou para o lago.
— O que fica do outro lado?
— Ali. — indicou para sul. — Ainda é o Canadá. — Rodou o braço para norte. — Para ali já é os Estados Unidos. A margem de lá é dividida pelo rio Niágara.
— E as cascatas?
— Ficam no seguimento do rio. A corrente do rio Niágara vem desaguar ao Lago Ontário, vinda do Lago Erie. Se houver oportunidade, um dia levo-te às Cataratas do Niágara.
— Combinado. — concordou, levantando-se. — Vou preparar o jantar.
Gabriel não se recordava de alguma vez ter jantado tão cedo. Porém, Íris ainda estava a adaptar-se ao jet lag. Comeram sentados nos bancos altos com a mesa posta sobre o balcão que dividia a sala da cozinha.
— Eu trato da louça. — avisou Gabriel no final da refeição, vendo a pegar no prato, e sem aceitar recusas.
Íris não o contrariou, revelando um ar cansado. Era uma hora da madrugada em Portugal.
— Acho que vou para a cama. Não te importas?
— Claro que não.
Contornando o balcão, Íris aproximou-se dele e abraçou-o com ternura.
— Obrigado por tudo, Gabriel.
Ele recebeu-a nos braços, permanecendo sentado no banco.
— Vais agradecer-me a cada frase?
— Nunca é demais.
Beijou-lhe a face e despediu-se com um "boa noite".
Gabriel ficou sozinho na sala, sentado no banco, imóvel a pensar em tudo. Repetia mentalmente que deveria evitar habituar-se àquilo. Tinha noção que era por momentos daqueles que afastava toda a gente de si, para evitar a hora em que tudo acabava e ele voltava a ficar sozinho. Infelizmente, não conseguira fugir ao enredo que ele próprio criara. Afinal, se não a tivesse convidado para Toronto, nada daquilo estaria a acontecer. Íris tinha tudo para ser a amiga que ele julgara que um dia ela seria, quando ainda namorava com a sua mãe. A empatia entre eles era incrível. Reencontraram-se havia pouco mais de vinte e quatro horas e ninguém diria que tinham passado quinze anos sem se verem.
Saltou do banco e levou a louça para a máquina de lavar. Evitou pensar que a solidão voltaria a ser a sua única companhia, quando Íris partisse em definitivo para Montreal, caso contrário, a angústia aproveitaria a brecha para o deprimir.
Sentou-se no sofá e ligou a televisão sem som para ver as notícias, mas nem prestou muita atenção nas imagens a passar. Olhou para o relógio do smartwatch. Que horas seriam em Seattle?
Desbloqueou o smartphone pressionando o polegar no ecrã. Procurou o número e carregou no ícone verde.
— Que surpresa. — disse a voz que o atendeu.
— Olá, Rachel! Espero que seja uma boa surpresa.
— Sabes bem que sim.
— Estás em Seattle?
— Não. Mas, não estou longe. Estou num hotel em Vancouver.
— Como estás?
— Bem. — respondeu, distanciando o tom. — Até ouvir o telemóvel a tocar e ver o teu nome, pensei que te tivesses esquecido que eu existo.
— Já sabes como sou.
— Sei. — apressou-se a confirmar. — Foi um desabafo. Não estou a cobrar nada. E fico feliz que me tenhas ligado.
— Estás sozinha ou estou a interromper alguma coisa?
— Ligaste mesmo no momento em que estou na cama com um tipo que conheci no bar do hotel. — informou séria. Depois, brindou-o com uma gargalhada melodiosa. — Estou a brincar. Não está aqui ninguém comigo.
— Podia estar.
— Somos dois solitários, Gabriel.
— Sabes como combato isso, não sabes?
— Não estou a pensar em contratar prostitutos, Gabriel.
— Queres conversar um bocado?
— Que se passa?
— Nada.
— Onde estás?
— Em casa.
— Estás sozinho?
— Sim.
Sim, estava sozinho na sala. Gabriel não encontrou uma justificação imediata para o fazer, mas não quis partilhar a existência de Íris com ela. Poderia dar uma ideia errada, fazê-la pensar algo absurdo... Que interessava a opinião de Rachel? Talvez não interessasse... Talvez ele não lhe quisesse dizer que permitira a alguém, algo que recusara a ela, entrar na sua vida pessoal. Talvez um dia lhe contasse, mas não por telefone.
— Então?
— Então o quê? — repetiu ele, percebendo que se distraíra.
— Perguntei se nenhuma delas estava disponível esta noite.
— Quem?
— Tu sabes quem.
— Não sei se estão. Não as procurei.
Houve um silêncio breve, como se ambos procurassem assunto para falar. Gabriel queria ouvi-la, queria falar com ela, mas não sabia o que haveria de dizer. Acabou por escolher o que tinham em comum:
— Como têm corrido os negócios?
— Ligaste-me para saber de compra e venda de jogadores?
— Liguei-te porque... — Travou-se, percebendo que iria fazer uma confissão. Teria importância? Talvez não. — Não liguei para saber de negócios.
— Então?
— Tem de haver uma razão?
— Normalmente há. Mais não seja "cliquei sem querer no teu número".
— Não foi o caso.
Novo silêncio. Ele ouvia a respiração dela no outro lado. Não sabia o que dizer e calculou que ela o tomaria por um idiota com aquela atitude. Contudo, Rachel surpreendeu-o:
— Podemos ficar em silêncio, se quiseres.
— Sinto-me ridículo. Telefonei-te e agora... Acho que só queria ouvir a tua voz.
— Que tem isso de ridículo?
— Não sei...
— Fazemos assim. Como queres ouvir a minha voz, eu conto-te o que tenho feito. Quando estiveres farto, avisas e desligamos.
Gabriel sorriu.
— Parece-me bem.
Rachel iniciou o relato do seu trabalho nos últimos dias. A sua vida profissional estava cada vez mais centralizada em Seattle e na costa oeste. O futuro novo clube da NHL oferecera-lhe um contrato de colaboração irrecusável e ela teria de passar os próximos tempos entre a capital do estado de Washington, Seattle, e a Califórnia por causa da equipa satélite sediada em Palm Springs. Estava muito satisfeita e ainda mais realizada profissionalmente.
— Pensas vir a Toronto em breve? — perguntou Gabriel, interrompendo o relato.
— Não. — A resposta foi dada sem nenhuma entoação especial, não revelando qualquer emoção. — Nem tenho nada previsto que me faça viajar até à costa leste.
— Se vieres, avisas-me?
— Achas que se fosse a Toronto, não te dizia nada?
— Não.
Mais silêncio. Gabriel tinha receio que se aqueles silêncios se repetissem muitas vezes, ela desistiria e a chamada terminava. Ele não queria que isso acontecesse.
— Queres que vá a Toronto?
A pergunta apanhou-o de surpresa.
— Se quero que venhas a Toronto?
— Acho que não falei chinês, Gabriel.
— Não de propósito. — recusou com distanciamento. — Só mesmo se tivesses algo a fazer por aqui.
— Gostavas que tivesse?
— Como assim?
Rachel suspirou no outro lado da linha.
— Não consegues responder sem fazer uma pergunta?
— Ok. Desculpa. — pediu ele, aproveitando para não responder, para não confessar que gostava que ela fosse a Toronto.
Isso pareceu exasperar Rachel.
— Sei que não o admites, mas a mim não me custa admiti-lo. Tenho saudades tuas e gostava de te voltar a ver. Tenho pena que não estejamos mais próximos, geograficamente. — Fez uma pausa, esperando que ele comentasse. Gabriel permaneceu mudo. — Se eventualmente tiveres que viajar à conta oeste, se quiseres... se tiveres interesse nisso, podemos encontrar-nos.
— Sim...
Só "sim"? Só um "sim" deslavado, desprovido de emoção? Não és capaz de mais que isso, Gabriel? Tentou dizer algo, mas a voz de Rachel travou-o:
— Olha! Vou ter de desligar...
— Ok.
— Liga sempre que quiseres, Gabriel.
— Ok.
— Beijinhos. Fica bem!
— Tu também.
E desligou.