CONTO V - O teu nome é Leonor. E jurei ficar a teu lado.
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Cada dia era um passo lento na tentativa de ultrapassar a depressão que a perda de Mafalda me deixara. Consegui controlar o ímpeto inicial que tive em me espetar com a mota contra um muro ou acelerar com ela para lá do limite de um precipício. Sim, tive tendência para o suicídio. E se aquela conversa com Vânia atenuara um pouco a mágoa, o seu afastamento injustificado fez tremer a minha fraca estabilidade. Felizmente, a lucidez prevaleceu.
Encarei cada manhã como um desafio, cada tarde como uma etapa, cada noite como uma meta. Usei o melhor trunfo que encontrei para sobreviver aos últimos meses de dor, entregar-me ao trabalho. Voltei ao contacto com as agências de modelos, agências de publicidade e comecei a fazer trabalhos de reportagem fotográfica em espectáculos e eventos desportivos. Mantive-me o mais ocupado que pude.
Não me sentia como um homem de trinta e seis anos, sempre me vi mais novo que a real idade inscrita no meu cartão do cidadão. Porém, ao olhar para o reflexo no espelho, os sinais resultantes do último ano eram evidentes, mais rugas, mais cabelos brancos. Mantive-me solitário, vivendo sozinho em Miramar. Cheguei a ponderar o regresso a Almada, mas todo o meu círculo de clientes se localizava a norte. Também equacionei um regresso a Edimburgo, só que iria à procura de algo que tivera o seu tempo. Se algum dia voltasse, seria apenas como turista.
Vesti a pele do fotógrafo altamente profissional, reservado e com um escudo invisível impenetrável a quem quisesse entrar no meu mundo privado. Não queria novas personagens na minha história, evitaria ter mais contos que pareciam terminar todos da mesma forma. Rejeitei convites para confraternizações de colegas, tentativas de sedução, interesses emocionais, ofertas de prazer sem compromisso. Rejeitei tudo, tudo e tudo.
No meio deste conflito interior, desta vontade férrea de manter o mundo afastado, reapareceu na minha história um velho amigo a quem nunca fecharia a porta, o meu irmão de coração, parceiro e mentor, Peter.
Peter telefonou-me para partilhar a novidade de que viria passar uma temporada a Portugal para colaborar na fundação e lançamento de uma nova revista no mercado português. Não quis revelar muito ao telefone, pois desconfiava das linhas e receava que alguém pudesse ouvir algo que ainda tinha de ser mantido em segredo.
A sua chegada aconteceu na Primavera. E apesar de ter aterrado em Lisboa, o seu destino foi o Porto, uma vez que a empresa responsável pela revista estava sediada na "Cidade Invicta". Devido às nossas agendas preenchidíssimas, não conseguimos encontrar uma vaga para nos reencontrarmos até surgir a oportunidade de o visitar durante uma sessão de fotografia que teve como cenário as caves de uma das marcas mais famosas de Vinho do Porto.
Quando cheguei ao edifício localizado perto do cais de Vila Nova de Gaia, evitei pensar nos passeios que partilhara por ali com Mafalda. Aos poucos, ia sobrevivendo à mágoa e não precisava que as lembranças me puxassem para as trevas. O Sol brilhava sobre o rio Douro e os turistas passeavam às carradas pelas margens, observando e registando cada canto que os surpreendia. Estacionei a mota num lugar apropriado e caminhei pela rua com o capacete pendurado no braço. Procurei o símbolo que identificava a marca e entrei pelas amplas portas de vidro. Um segurança informou-me que estavam fechados, mas deixou-me passar quando expliquei que vinha falar com o fotógrafo responsável pela sessão que estava a acontecer lá dentro. Outro segurança encaminhou-me pelo interior e apontou-me o acesso.
O espaço era enorme com grandes pipas de madeira arrumadas junto às paredes de pedra. Logo a seguir, estantes com centenas de garrafas escuras, completamente forradas de pó e com datas anteriores ao nascimento dos avós dos meus tios. O chão empedrado era irregular e poeirento. Pelo meio daquele cenário antigo, foram colocados focos fortes de luz, equipamento de apoio do mais moderno que existia. Numa das laterais, resguardado do restante espaço, fora estruturado um sector para a privacidade dos manequins e outro para hairstyle and make-up.
Peter estava junto ao tripé que enfrentava o cenário, afinando as definições da Canon EOS 1D X, enquanto diversos elementos da equipa de produção se atarefavam pelo espaço. Não via Peter havia cerca de dois anos e notei que a chegada aos cinquenta anos não fora cruel com ele.
— Peter! — chamei, ao entrar na catacumba de vinhos.
Ele olhou para mim e o seu rosto iluminou-se, dirigindo-se para onde eu estava e oferecendo-me um abraço carregado de saudade. Indiferentes a tudo o que nos rodeava, ficámos a conversar sobre as nossas vidas, os acontecimentos... Peter ainda estava com o dinamarquês. Não escondeu o lamento quando lhe contei do desfecho da minha relação com Mafalda. Repreendeu-me por não lhe ter ligado a contar para que me pudesse dar uma palavra de ânimo.
Por entre a conversa, vi uma rapariga a mexer na máquina de Peter. Tinha uma imagem alternativa, deveria ser uns dez centímetros mais baixa que eu. Usava o cabelo castanho comprido atrás e totalmente rapado nas laterais. Vestia uma camisola sem mangas e calças de ganga justas. Os braços estavam completamente tatuados. O corpo era atlético, musculado com as curvas trabalhadas por demasiado exercício físico, o que lhe acentuava o peito e o rabo. Calçava botas da tropa sem atacadores. E usava uns cinco piercings em cada orelha. Era o pacote completo daquilo que eu não gostava numa mulher.
— Quem é a miss tatoo? — questionei, apontando para ela.
Peter sorriu.
— É a Leo, a minha assistente. — informou. — Tal como tu, também é uma fotógrafa talentosa. Acho que ganhei o gosto em ter discípulos. — Deu uma gargalhada. — Conheci-a num workshop em Manchester. Topei-lhe logo o talento e convidei-a para trabalhar comigo.
— É inglesa?
— Luso-galesa. — corrigiu. — A mãe é portuguesa, o pai é galês.
— Parece novinha. — constatei.
— Vinte e um anos.
— Parece ter quinze. — exagerei.
Peter soltou nova gargalhada. Depois, virou-se para o cenário e chamou:
— Leo! — A rapariga virou-se. — Come here.
Leo caminhou até nós, observando-me com semblante curioso, revelando um olhar em tons de mel penetrante.
— Yes?
Percebi que deveria falar português, uma vez que Peter respondeu:
— Este é o Daniel.
— Hello! — cumprimentei.
— Olá! — retribuiu com um sotaque britânico acentuado de quem não fala regularmente a língua portuguesa.
— O Daniel é fotógrafo. — apresentou Peter. — O meu antigo delfim.
Sorri, retorquindo:
— Não digas isso assim, ainda sou obrigado a cantar "sou como um rio".
O rosto de Leo revelou a mais completa confusão, não percebendo ao que me referia. Também não se interessou e ficou a olhar para mim como se esperasse mais alguma informação que justificasse que a tivessem chamado.
— O Peter foi o meu mentor. — continuei. — Ensinou-me muito.
— Oh yes. Peter ensinar very well. Sorry... — Interrompeu-se, atrapalhada com a mistura de idiomas. — O Peter é muito bom profésser. Eu tenho aprendido muito com ele.
— Se preferires, podes falar comigo em inglês. — sugeri, percebendo o seu esforço e notando que o piercing na língua também não ajudava.
— No, no. — recusou. — Quero treinar more o meu portuguese.
Alguém chamou Peter e ele afastou-se. Para minha surpresa, Leo deixou-se ficar a meu lado.
— Também vais trabalhar with us. Sorry... connosco?
As suas trocas divertiam-me. Sorri-lhe e respondi:
— Não. Vim só visitar o Peter. Já não o via há uns tempos.
— O Peter falar muito em ti. — contou ela, coçando o cotovelo. — But... Eu já tinha ouvido about... sobre teu trabalho. — Lançou-me um olhar curioso. — Fotografaste mesmo a supermodel Tânia quando she... quando ela era teenager?
— Sim. — confirmei. — Fomos colegas na escola.
— Oh. — espantou-se. — Eu ver muito trabalhos teus. Gostar muito da forma como tu shoot... fot... fotoin...
— Como eu fotografo?
— Yes. Thank you. — agradeceu numa mistura de embaraço e diversão.
— Já te disse que podes falar em inglês.
— És muito simpático, Daniel. — O meu nome na sua boca soava a algo parecido com "deinial". — E giro!
Percebi o piropo, mas fiz de conta que não ouvi. Desviei a atenção para os manequins que desfilaram para o cenário. Leo afastou-se para junto de Peter sem dizer mais nada.
Fiquei a assistir a toda a sessão fotográfica. Por vezes, Peter desafiava-me a dar uma sugestão, mas eu não aceitei o desafio por uma questão de cortesia profissional. As horas que ali passei foram agradáveis e desanuviaram-me o espírito, apesar de não ser eu quem se ocupava das fotos.
Muitos dos manequins já me conheciam, já tinham sido fotografados por mim. Uma das raparigas, uma loura deslumbrante de ascendência russa, pediu a um assistente para me entregar um papel. Li nele o seu número de telemóvel e um convite para sairmos. Sabia o que ela pretendia com isso, qualquer homem se sentiria afortunado por ter a possibilidade que ela me abria. Atirei-lhe um beijo discreto e pisquei-lhe o olho. Ela sorriu agradada, respondendo com um lamber de lábios. O papel foi parar ao lixo, quando saí dali.
No final da sessão, despedi-me de Peter.
— Vê lá se não ficas tanto tempo sem dar notícias, Daniel.
— Prometo que ligo, Peter. Os últimos tempos é que foram muito complicados.
— Eu compreendo.
Partilhámos um abraço forte.
Quando estava perto da saída para o átrio do edifício, ouvi uma voz chamar-me. Virei-me e vi Leo numa passada rápida atrás de mim.
— Ias embora sem dizer goodbye?
A questão pareceu-me despropositada. Mal a conhecia, que importância tinha se me despedia dela ou não? Contudo, não fui indelicado ao ponto de o verbalizar.
— Desculpa! Estavas ocupada e eu tenho de ir andando.
— I like... Gostava de conversar more contigo. — Franzi o rosto, denotando que não via qual o objectivo. — É sempre bom poder conversar com bons fotógrafers. — Encolhi os ombros, um gesto que ela interpretou como tentativa de encontrar uma oportunidade. — Queres beber um copo? Later? Não sei se vives no Porto...
— Não.
O meu "não" era resposta ao viver no Porto. Leo escutou-o como uma recusa ao seu convite. A decepção que se lhe estampou no rosto, afectou-me. Insurgi-me contra mim. Bolas, a rapariga só queria aprender mais coisas sobre fotografia. Nem tudo o que usa saias te quer comer, Daniel! Bom, ela não usava saia. Se todos fossem tão intransigentes como eu estava a ser, talvez não tivesse aprendido tanto sobre fotografia. Se o Peter tivesse sido assim, eu nunca teria chegado onde cheguei.
— Não, não vivo no Porto. Vivo em Gaia.
O rosto de Leo iluminou-se.
— Oh... Here?
— Não, mais perto da costa.
— Não conheço nada in Portugal. — lembrou, repetindo o tique nervoso de coçar o cotovelo. — Então? Bebemos um copo?
Tive uma ideia que certamente a faria desistir da bebida comigo. Ela não conhecia nada em Portugal, por isso...
— Estou um pouco cansado. Mas, se quiseres, podes passar por minha casa. — Pedi um papel e uma caneta ao recepcionista. Escrevi o endereço do meu apartamento. — Esta é a minha morada.
Leo recebeu o papel, meio perdida. Sorri-lhe como quem ficava a ansiar pela sua chegada e abandonei o local, certo que nunca mais a veria na vida.
Tal como em tantas outras noites, ali estava eu na sala, sentado no sofá, sozinho, a ver o canal Fashion TV na televisão. Gostava de ver os diversos clipes de sessões fotográficas, as reportagens, as conversas com os fotógrafos. Nunca me senti dominador de todo o conhecimento e procurava sempre saber mais e obter novas ideias para a fotografia. O meu serão foi interrompido pelo soar da campainha. Quem seria àquela hora? Alguém a chatear, certamente, algum entregador de panfletos de publicidade. Caminhei até à porta e peguei no intercomunicador.
— Quem é?
— Deinial?
Pela pronúncia, reconheci de imediato a jovem assistente de Peter. Encostei a cabeça à parede, agastado pelo fracasso da minha ideia dessa tarde.
— Sim. — respondi.
— É a Leo. — informou num tom alegre.
Carreguei no botão para abrir a porta do prédio, tendo depois aberto a do apartamento. Ouvi os seus passos rápidos a subir a escada até surgir diante de mim.
Leo vestia um blusão de aspecto militar e uns calções tão curtos que era possível ver a totalidade das suas pernas tatuadas até entrarem nas mesmas botas da tropa sem atacadores.
— Olá! — cumprimentou, adicionando dois beijos como se fossemos amigos de longa data. Sorriu feliz. — Consegui cá chegar.
Entrou sem esperar convite e despiu o casaco, revelando o top justo, estilo caicai, com desenhos de bonecos infantis. O tecido era tão fino que lhe conseguia notar o relevo dos mamilos, uma vez que não tinha dúvidas que era a única peça que vestia da cintura para cima.
— Queres beber alguma coisa? — ofereci, conduzindo-a para a sala.
— Foi para isso que vim. — retorquiu na brincadeira, observando tudo à sua volta. — O que tens to drink?
Não tinha muita coisa, apenas cervejas no frigorífico e algumas garrafas de vinho tinto na garrafeira do balcão da cozinha. Ela escolheu o vinho. Abri uma garrafa de Douro, a mais baratinha que guardava, e trouxe dois copos de pé alto. Leo aguardava sentada no sofá. Servi o vinho e entreguei-lhe o seu copo, sentando-me a seu lado.
— Cheers! — desejou, tocando com o copo no meu.
Bebemos um pouco e Leo começou a falar sobre como gostava de fotografia, relatando a forma como surgira a paixão pela captação de imagens, os estilos com que mais se identificava. Por entre misturas de idiomas e sotaque acentuado, dei por mim a ouvi-la com interesse. Acabei por partilhar a minha história de como aquele passatempo se tornara em profissão, falei dos projectos que realizei, os estilos que mais preferia em contraponto com o que menos apreciava. Sem que me lembre bem como, a conversa foi dar a Tânia.
— I adore her. — confessou, fascinada. — Tânia ser uma mulher muito pretty. — Sorriu envergonhada. — Tenho uma... crush por ela.
— Ela é muito bonita. — concordei, evitando referir que já dormira com ela. Nem sequer falei no namoro da escola. — Não a vejo há anos.
Notei o interesse cada vez mais intenso na expressão de Leo. Não sei se era sede de conhecimento ou efeito dos três copos de vinho.
— Gostei muito daquele photoshoot... — prosseguiu, estendendo-me o copo para que o enchesse novamente. Eu ainda beberricava o primeiro. — Com aquela actress...
Leo referia-se a um trabalho fotográfico que eu fizera para uma revista masculina, onde fotografei uma actriz de telenovelas em topless numa produção nas piscinas de um hotel do Porto. Na altura, fiquei aparvalhado ao saber a fortuna que ela cobrou para ser fotografada assim. Bom... na verdade, o que me chocou foi a revista se ter disposto a pagar semelhante quantia.
Para minha surpresa, Leo esvaziou o copo e pediu:
— Gostava de ser fot... fotógrafade por ti.
Não me importei de satisfazer o seu desejo e fui buscar a minha máquina fotográfica. Puxei uma cadeira para frente do sofá, defronte dela, e sentei-me, observando-a através da lente. Fiz alguns disparos ao seu rosto sorridente, algo inebriado. A seguir, tornei a sentar-me a seu lado e mostrei-lhe as fotos. Ela ficou muito agradada com o resultado, apesar de eu achar que estavam normalíssimas.
— Can you... — Notei que o álcool lhe estava a dificultar a organização das frases, misturando cada vez mais o inglês com o português. — Podes fazer de all body?
Para a fotografar de corpo inteiro, a sala não era o melhor lugar. Por isso, convidei-a a acompanhar-me ao segundo quarto da casa, o qual me servia de mini-estúdio. Nunca fotografara lá ninguém, para além de Mafalda. Não era um espaço muito grande, mas as paredes de cor sólida serviam bem para cenário. Devolvi a máquina ao tripé e indiquei a Leo que pousasse como entendesse defronte dela.
Ela seria muito melhor fotógrafa que modelo, pois não tinha grande empatia com a lente. Fez algumas poses simples e eu fotografei-a sem grande pormenor às definições. A cada disparo, Leo vinha até mim para espreitar o resultado e tornava a afastar-se satisfeita. Ao fim de várias fotos, pediu:
— Podemos tirar one together?
— Sim. — concordei, afinando o ângulo para que coubéssemos ambos no plano. Peguei no comando à distância, que me permitia fazer o disparo longe da máquina, e fui para o lado dela.
— Posso? — pediu, olhando para o comando.
Disse-lhe que sim, entregando-lhe o pequeno objecto e explicando onde deveria carregar. Leo pediu que me colocasse atrás de si. Eu era mais alto que ela, pelo que os meus olhos ficavam acima da sua cabeça. Ela encostou-se ao meu peito. Atrás dela, a minha postura era semelhante a um soldado numa parada militar.
— Do you mind... Sorry. Importares-te que seja one foto sexy? — indagou sem se virar.
Sem saber muito bem o que ela consideraria uma foto sensual, concordei, dizendo:
— É como tu quiseres.
Com gestos decididos, Leo levou as mãos ao cimo do top e puxou-o para baixo até à cintura. Não conseguia ver do ângulo onde estava, mas não tinha dúvidas que nada lhe cobria os seios. A seguir, colocou as mãos nas ancas, segurando o comando de forma discreta para que não se notasse na foto. pensei que ia disparar, quando ouvi novo pedido:
— Can you put your hands in my boobs? — Hesitei. E ela insistiu. — Gostava que tu put tuas mãos nos meus mamas... Pleeease?!
Que se lixe. Não ia ser desmancha-prazeres. Passei os braços por entre os seus, que se mantinham apoiados nas ancas, e coloquei cada mão aberta a agarrar um seio. Senti os seus peitos como dois rochedos, certo que havia silicone neles. Nas palmas das mãos, ao toque frágil dos mamilos, juntou-se a sensação fria de dois aros metálicos que calculei lhos perfurassem.
Antes de carregar no botão, questionou num tom provocador:
— Do you like touch my boobs?
— Please, take the picture! — pedi, desconfortável.
Leo fez o disparo, registando o momento. E eu retirei as mãos logo de seguida, ao que ela respondeu com o puxar do top novamente para a posição original.
Aproximámo-nos ao mesmo tempo da máquina. Eu carreguei nalguns botões para fazer um preview... Bolas, já pareço a Leo a falar. Para fazer a pré-visualização da foto. Ela encostou-se intencionalmente a mim e analisou a imagem com agrado. Depois, olhou-me nos olhos e disse:
— I love your work. — O tom era meloso. — Tu és muito... sweet... querido.
Antes que tivesse tempo para qualquer reacção, Leo beijou-me.
Apesar de ter imensas características que eu não gostava numa mulher, as tatuagens, os piercings, o silicone, os músculos muito salientes... ela não deixava ser atraente.
Não me recordo muito bem dos momentos imediatamente a seguir ao beijo. Só já recordo estar deitado no chão do pequeno estúdio, completamente nu, a olhar para Leo igualmente nua a chupar-me entusiasmada. Todo o seu corpo tinha tatuagens, à excepção do peito, barriga, topo das costas, entre as pernas e nas nádegas.
Estava a saber-me bem, fazendo-me perceber que o meu organismo precisava daquilo, reclamando que há demasiado tempo que estava sem sexo. Tentei abstrair-me do "prego" que ela tinha na língua que me provocava uma sensação diferente. Se tivesse pensado nisso antes, julgaria que aquilo me iria magoar. Mas, não. Para além disso, Leo sabia o que fazia.
Ao fim de algum tempo, parou. Olhou para mim visivelmente ébria, ou melhor, bêbeda. Os copos de vinho faziam o seu efeito e ela exagerara na quantidade que bebera antes das fotos. Sorriu divertida. As suas mãos acariciavam-me os genitais. Com a voz entaramelada, sussurrou:
— Tens condoms?
Confesso que mesmo com a minha fluência em inglês, no meio daquela excitação, pensei que me estivesse a perguntar se eu era dono de condomínios. Porém, rapidamente percebi ao que se referia e respondi que não tinha preservativos.
Ao ouvir a resposta, Leo tornou a sorrir e largou-me. Levantou-se do chão, meia cambaleante, e procurou a roupa caída no chão. Pensei que a resposta tivesse sido um turn off do momento. Talvez fosse melhor assim. Aproveitei o seu afastamento para me levantar. Ao ver-me, ela travou-me com um gesto para que esperasse. Ainda bastante excitado, aguardei, observando-a com desejo.
Leo encontrou os calções minúsculos que trouxera vestidos. Procurou o bolso pretendido e retirou uma embalagem imaculada contendo a borrachinha. Malandra, pensei, tinha tudo planeado, a miúda.
Sem perder o sorriso alcoolizado, regressou para junto de mim, ajoelhando-se no chão e segurando o quadrado prateado. Retomou a posição anterior, tocando-me o ombro para que me voltasse a estender ao comprido e rasgou a embalagem com os dentes.
— Can I? — ofereceu-se.
Assenti e vi-a retirar uma borracha redonda verde do invólucro. Com uma ternura bêbeda e dificuldade em acertar, depositou a borracha na extremidade da minha excitação. Desenrolou um centímetro, olhando-me nos olhos com uma expressão lânguida. Piscou o olho esquerdo e baixou a cabeça para continuar com os lábios. Constatando que estava no lugar, Leo elevou-se ligeiramente, desequilibrando-se e quase caindo para o lado, não fosse eu tê-la segurado. Deu uma gargalhada divertida e esforçou-se para não parecer tão ébria.
Não me senti a fazer o mais correcto, parecia que me estava a aproveitar de uma miúda bêbada que tinha uma atracção por mim. É certo que o sexo fora iniciativa dela, mas cabia-me a mim, pela idade e lucidez, ter-lhe posto juízo na cabeça e ter colocado imediatamente um fim naquilo. No entanto, a cena fizera-me perceber que o sexo me fazia falta e ela já me deixara tão excitado que seria difícil parar por ali. Para além disso, estava farto de me preocupar com moralidades, afinal, a vida insistia em lixar-me constantemente, roubando-me as pessoas que mais amava. Borrifei-me para o certo ou errado e deixei que Leo prosseguisse na sua tentativa de acoplarmos.
— Come! — convidou, abrindo as pernas sobre mim.
Ao vê-la assim, a conduzir-me para ela, a imagem de Mafalda atormentou-me a cabeça. Estremeci. Leo não se apercebeu. Subitamente, tive noção que não conseguiria encarar outra mulher, senão ela, para fazer aquilo. Tinha a certeza que, se tentasse continuar e a ver um rosto que não o de Mafalda, o mais certo seria perder a vontade.
— Espera! — pedi, quando ela estava quase a aterrar.
Surpresa, olhou-me com uma expressão confusa.
— Assim não. — expliquei sem grandes explicações. — Levanta-te, por favor. — Ela não se moveu de imediato, esperando mais esclarecimentos. — Quero fazer noutro sítio, não aqui.
Leo sorriu provocadora.
— Oh... Ok. Seu naughty boy.
A imagem de Mafalda continuava na minha cabeça. Que merda, parecia que o seu espírito me queria atormentar e impedir de obter a gratificação daquela cena. Levantei-me do chão, defronte do olhar atento de Leo, expectante para saber o que eu queria. Segurei-lhe na mão, irritado, não com ela, mas com a mulher que mais amara em toda a minha vida e que me afastara de si, impedindo-me de, pelo menos, uma despedida. Sem me aperceber, puxei Leo atrás de mim. Ao sair do estúdio, olhei para o meu quarto. Não! Ali seria o último sítio onde o faria com outra mulher, aquele fora o nosso ninho de amor, o meu e de Mafalda.
Avançámos pelo corredor em direcção à sala. Larguei-a junto ao balcão que separava a sala da cozinha. Leo ficou a olhar para mim com uma expressão de desejo, mordiscando o lábio inferior e com a respiração acelerada.
Eu também estava com a respiração acelerada, excitado, enraivecido e furioso. Tentava afastar para longe do pensamento o rosto de Mafalda sem sucesso. Todo o meu corpo se consumia em desejo pela miúda na minha frente e em ódio pela vida, pela realidade que me roubara o amor da minha vida.
Leo encostou-se ao balcão, apoiando as mãos no tampo de pedra, pensando, talvez, se deveria sentar-se nele.
— Podes virar-te? — sugeri como um pedido que só quereria uma resposta. Sabia que não conseguiria prosseguir se tivesse que encarar um rosto que não fosse o de Mafalda. Por isso, queria que Leo ficasse de costas para mim.
Não vendo qualquer mal nisso, Leo rodou e virou-se para o balcão. Eu puxei-a suavemente pelas ancas, demonstrando o que pretendia. Ela não compreendeu e recusou:
— Not in the ass, Deinial.
Não respondi. Ou melhor, a minha resposta foi encostar a ponta da borracha à sua vagina.
— Sim. — murmurou como um assentimento agradado.
Penetrei-a com a delicadeza de um carroceiro. Ela soltou um gemido que pareceu algo arranhado, mais doloroso que gostoso. Mas, não se queixou. Pouco me importou. Continuava irritado, corroído pela necessidade de extravasar o desejo e consumido por estar a fazer aquilo com alguém que não era Mafalda. Leo não tinha culpa, mas naquele instante era-me meramente um objecto para a finalidade, uma vagina para foder, tão boa como qualquer outra. Assim que me acomodei dentro dela, agarrei Leo pelos ombros e marquei o ritmo.
Não sei se estaria a ser bom para ela, nem me importei. Acho que fui tudo aquilo que sempre achei que um homem não deveria ser num momento íntimo com uma mulher. Ela estava debruçada no balcão, apoiando os cotovelos no tampo e pressionada entre mim e o móvel. Talvez nem estivesse confortável. Mas, não se queixou.
A imagem de Mafalda não me abandonou. Tudo aquilo se tornou desconfortável, não me conseguia concentrar nem obter um prazer decente para além do esvaziar da excitação. Dei por mim a querer que tudo terminasse o mais depressa possível. Intensifiquei o ritmo
No silêncio da sala com a cozinha, o único som era a minha respiração e a voz dela.
— Oh yeah... — ouvi-a gemer.
Larguei-lhe os ombros. Agarrei-a pelo cabelo e enfiei a outra mão por baixo do seu braço, procurando-lhe o seio mais próximo. Continuei a investir brutamente contra ela, dentro dela.
— Oh yes... yes... oh... yes. — A voz dela ecoava pelo espaço amplo. Fechei os olhos, imaginando que era Mafalda quem ali estava. Era sujo, eu sei. Só mesmo um traste é capaz de estar com uma mulher a pensar noutra. Concentrei a atenção nas sensações de prazer, tentando abstrair-me de a escutar. — Yes... oh yes... fuck me Deinial... yes... oh... fuck me... fuck me hard.
A voz dela desconcentrava-me e dava-me a estúpida sensação de atrasar o orgasmo. Soltei-lhe os cabelos que segurava como se fossem um puxador e deslizei a mão pelo seu pescoço, pelo queixo, pela boca e cobri-lhe os lábios para a calar.
Leo levantou um dos braços com que se apoiava e levou a mão à minha, puxando-me o pulso. Não conseguiu e os seus gemidos tornaram-se mudos, amordaçados pelos meus dedos.
Aquilo só durou mais alguns minutos. Para mim foram como horas intermináveis, mas calculo que para Leo não tivesse passado de uma escassa meia dúzia de minutos. Quando atingi o auge, os espasmos percorreram-me o corpo e o ritmo foi desacelerando até ficarmos imóveis. Saí de dentro dela sem qualquer sensibilidade, afastando-me sem uma palavra e com a certeza que o prazer dela naquilo fora pouco mais que zero.
A lucidez do pós-orgasmo fizera-me cair na realidade, de como fora tudo aquilo que sempre achei que um homem não deveria ser num momento íntimo com uma mulher. Não consegui encará-la de imediato e, quando ela se começou a voltar para mim, eu virei costas e refugiei-me na casa de banho.
Não foi nada que se assemelhasse a fazer amor com Mafalda. Talvez por isso mesmo, porque não estávamos a fazer amor, estávamos a fazer sexo. Fiquei sentado na sanita a pensar como agir, o que fazer. Não me orgulhava de ter sido tão insensível, mas também não dera muita importância a isso. Na verdade, estava mais desiludido com a minha postura que propriamente com aquilo que Leo pudesse pensar ou sentir. Ouvi os seus passos no corredor. Pelo som, percebi que fora ao estúdio buscar a roupa. Para fazer tempo, entrei no polibã e passei o corpo por água, desejando que ela tivesse a cortesia de se ir embora antes de eu sair da casa de banho. Cortesia? Mereceria eu cortesia?
Não ouvi nada, quando fechei a água. Enrolei uma toalha à volta da cintura e saí para o corredor. Não tive sorte, Leo permanecia na sala, já vestida, em pé com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão neutra, aguardando que eu reaparecesse.
—I have to go. — disse sem se importar em falar unicamente inglês, quebrando a ausência de sons.
Já era tarde, muito tarde. O relógio indicava que as duas da madrugada já haviam ficado para trás.
O Daniel de um tempo anterior ao desaparecimento de Mafalda teria ficado preocupado com uma rapariga em trajes reduzidos que teria de apanhar um táxi, onde raramente passaria um, para regressar ao hotel. Esse Daniel, teria imediatamente oferecido boleia para a transportar em segurança, teria pedido que ela esperasse um pouco, ia vestir-se, emprestava-lhe um capacete e faria com ela a pequena viagem. Porém, esse Daniel parecia ter morrido juntamente com Mafalda.
Para quê preocupar-me com a segurança dos outros, proteger, evitar que corressem perigos, se do nada aparecia a merda de uma doença e decepava-me de quem eu mais amava? Não voltaria a ter esse tipo de preocupações, muito menos com uma semidesconhecida que não passara de uma foda.
— It's late. I have to go. — repetiu, não sei se à espera que lhe desse uma solução.
Anuí indiferente e disse:
— É melhor chamares um táxi, antes. Não costumam passar por aqui, a menos que os chamem para cá.
O seu rosto demonstrou decepção. Que queria ela? Que lhe dissesse "se quiseres, podes ficar, podes dormir cá, esta noite"?
Foi a vez de ela assentir indiferente.
— Tens algum táxi number?
Abanei a cabeça e não me mostrei disponível a ajudá-la. Estava a ser um autêntico crápula. Ela percebeu. Aliás, era evidente que a queria dali para fora o quanto antes.
— Can you... — Abanou a cabeça, refilando consigo. — Podes enviar fotos para meu email? — Esboçou um sorriso. — Gostei muito de fazer fotos contigo. E do resto...
Não sei muito bem o que me fez "descer à terra", tomar consciência que estava a ser uma vergonha de ser humano. Do nada, imaginei o que diriam os meus tios se vissem aquele meu comportamento. Não se orgulhariam, tenho a certeza. Para além disso, havia algo de frágil e magoado na voz de Leo.
— Claro que sim. — concordei. — Qual é o teu email?
Leo informou o endereço e eu escrevi-o nas notas do meu telemóvel. Tornou a esboçar um sorriso e despediu-se:
— Goodbye Deinial!
— Espera! — pedi, cada vez mais lúcido. Leo ficou imóvel a encarar-me com expectativa. — Desculpa! — Ela pareceu confusa. — I'm sorry!
Eu não disse mais nada. Leo teve a simpatia de anuir sem que eu tivesse necessidade de justificar o pedido.
— Não precisas desculpas. — respondeu, fazendo um aceno de despedida.
— Espera! — pedi de novo, ao mesmo tempo que olhava para o telemóvel. — Deixa-me chamar-te um táxi.
A sua resposta foi uma expressão agradecida.
Pesquisei rapidamente, na Internet, um serviço de táxis que estivesse disponível vinte e quatro horas e que abrangesse aquela zona. Ao encontrar, marquei o número e solicitei o transporte, explicando a minha localização e o destino do passageiro.
— Chega em dez minutos. — informei-a, ao desligar. — Podes esperar aqui, não precisas de ir lá para baixo.
Leo recusou a oferta. Percebi que tinha pressa em sair dali. O desconforto era recíproco. Pensei em oferecer-me para pagar o táxi, mas tive a decência de não o fazer, uma vez que depois do que havíamos feito junto àquele balcão, isso seria quase como estar a pagar a uma prostituta.
— Prefer esperar no rua. — adicionou.
Não a contrariei e acompanhei-a à porta, tendo o cuidado que a toalha não caísse com os meus passos. Abri a saída e sorri-lhe simpaticamente.
Ela retribuiu o sorriso e pediu:
— Can I kiss you?
— Sim. — respondi, baixando-me ligeiramente e dando-lhe um beijo nos lábios.
Foi como uma espécie de trégua, um acordo tácito de que estava tudo bem e não haveria cobranças pelo que fora bom ou não, naquela noite. Antes de sair, acariciou-me o peito nu com ternura.
— Posso return... — Riu atrapalhada. — What a hell... Estou sempre a mix o english com o portuguese.
— Não faz mal, eu percebo-te. — retorqui, cansado. — E já te disse que podes falar sempre em inglês.
Acho que o beijo de despedida lhe criou expectativas que eu não tivera intenção.
— Posso voltar tomorrow, if you want... se quiseres.
Apesar de tudo, Leo queria repetir. Eu fora um péssimo amante. Ela não merecia que eu a tivesse usado daquela forma, só para expurgar os demónios da minha alma e saciar a fome sexual. Não queria fazê-la passar pelo mesmo. E seria isso que aconteceria se ela voltasse. No entanto, Leo era uma mulher interessante, se me abstraísse de toda a pintura e espetos que carregava na pele, e o meu lado mais animalesco não se importaria de repetir... Mas, não ali, não na casa onde vivera os momentos mais felizes da minha vida. Talvez num outro cenário, Mafalda não aparecesse na minha mente. Abanei a cabeça.
— Aqui não. — recusei sério. — Vou ter contigo ao hotel, se quiseres. — Ela sorriu com a sugestão. — Não precisas de vir de táxi como hoje. Vou lá ter contigo.
Olhou para mim numa mistura de carinho e desejo. Anuiu, soprou-me um beijo e foi-se embora.
Não tinha sono, quando fui para a cama. Não conseguia deixar de pensar em Mafalda, imaginando que ela me observava do Céu, ferida, magoada, triste por a ter traído com outra. Senti a tristeza abater-se sobre mim, intensificando ainda mais a escuridão do quarto onde não conseguia habituar-me a dormir sozinho, desde a última noite que Mafalda lá dormira. Ao fim de muitas voltas na cama, acabei por adormecer.
Acordei com o toque do telemóvel, a meio da manhã, despertado por um cliente que me queria contactar. Não atendi para não revelar a voz de sono com que falaria com ele e só retribuí o telefonema mais tarde. Pelo menos, servira para me despertar. Uma hora depois, já estava na cozinha a tomar o pequeno-almoço e a rever as fotos da noite anterior na máquina fotográfica, relembrando o compromisso que assumira com Leo de lhas enviar por email. A minha análise às fotos foi interrompida quando o meu telemóvel voltou a tocar, desta vez um amigo. Não me recordo a razão do telefonema do Peter, apenas aquilo que o tornou importante, o que se cruzou no nosso diálogo.
Peter estava a dizer-me algo, quando pediu:
— Espera um pouco, Daniel. A Leo acabou de chegar e tenho um recado para ela.
Aguardei, ouvindo-o a chamá-la. Entres eles falavam sempre em inglês e, como ele não tapou o microfone, eu ouvi o recado. A mensagem traduzida foi algo do género "o teu marido ligou, diz que tentou contactar-te várias vezes sem sucesso e pede para lhe ligares".
Disfarcei a surpresa, quando Peter regressou à linha.
— Marido? — interroguei. — A Leo é casada?
— Sim, porquê? — confirmou, desconfiando da pergunta.
— Por nada. Parece tão nova.
— Vá lá, Daniel. A miúda tem vinte e um anos. Não é assim tão anormal estar casada.
Pois não. Anormal é ser casada e ter relações sexuais com outro homem.
Ao fim da tarde, fui de mota até ao hotel onde Peter e Leo estavam hospedados. De capacete na mão, dirigi-me ao recepcionista e pedi para avisar a fotógrafa que eu chegara. Eficiente, ele pegou no telefone e ligou para o quarto dela.
— Ela diz para o senhor subir. — informou.
Recusei.
— Desculpe, mas diga-lhe que prefiro que ela desça.
O funcionário voltou a encostar o aparelho ao ouvido e transmitiu o meu pedido.
— Ela desce já. — disse, pousando o auscultador.
— Obrigado.
Caminhei até aos sofás do átrio e sentei-me.
Leo apareceu com uma indumentária semelhante à da noite anterior. Trocara apenas os calções por calças. Revelou alguma estranheza na expressão, quando me viu, quase como se interrogasse o porquê de ter-me recusado a subir. Acho que o meu rosto deve ter denunciado que algo não estava bem, uma vez que ela parou a um metro de mim e cumprimentou distante:
— Hi!
— Olá!
— Não quereres subir? Fiquei com ideia que vires para... — Fez uma expressão de "sabes ao que me refiro" e coçou o cotovelo.
— Tu és casada? — atirei com rudeza.
A pergunta fê-la arregalar os olhos, talvez questionando-se como eu descobrira. Pelo menos, teve a decência de não tentar negar ou inventar uma patranha qualquer.
— You don't ask. Tu no...
— Não precisas traduzir. — interrompi num tom ríspido. — Não achas que me devias ter dito?
Perante a minha agressividade, Leo correspondeu com um semblante agreste.
— Foi only... apenas sex. — afirmou, fulminando-me com o olhar. — E foi... How do you say? Rough sex. — Pela primeira vez, deixava claro que eu não fora nada meigo e fora sexualmente rude e agreste com ela. Notei que uma certa raiva lhe crescia na voz, mas procurava conter-se por estarmos num lugar público. — No one... Nenhum de us quer more que isso. Apenas sex. — Atirou um sorriso escarninho. — If you... Se tu saberes que eu ser casada, no fuck me?
Percebi a irritação crescente na forma trapalhona como misturava as palavras. Calculo que tudo o que fora mau para ela, na noite anterior, ficara arrumado num canto do seu cérebro para agora vir ao de cima e enfrentar-me com algo do qual eu próprio me envergonhava.
Contudo, não dei parte fraca e falei com a mesma segurança e rispidez, mantendo igualmente o tom baixo para não atrair a atenção de outros hóspedes ou funcionários.
— Não! — afirmei seguro disso. — Não me agrada ser motivo de adultério. — A palavra não foi entendida por ela, por isso expliquei. — Que me uses para enganar o teu marido.
— Oh God!!! — exclamou exasperada. — Não deves ser tão old... tão... Shit! Qual ser a palavra...?
— Antiquado? — Mais uma que ela não compreendia. Lancei nova opção. — Conservador?
— Yes!
— Sou como sou.
Leo não quis dar-se por vencida. Olhou para cima, abanou a cabeça e suspirou.
— Seres um... — Esperei que ela concretizasse sem a ajudar a encontrar a tradução para português. — You are a fool.
Não, não era um tolo. Ou talvez fosse...
— Já te disse, sou como sou.
Houve um impasse no diálogo. Não sei o que ela esperava de mim. Nem sequer sei o que esperava eu de tudo aquilo. Enquanto a observava, concentrei-me em tudo o que ela tinha que me desagradava. Contudo, Leo não revelou encarar a situação como um ponto sem retorno, aliás, até demonstrou que tudo se poderia resolver facilmente, alterando o tom para um timbre meloso e sedutor:
— Vou ficar mais uns semanas in Portugal. Why... Porque no aproveitar? Podemos divertir a lot... muito. Meu marido não precisar saber. Forget him!
Com o sorriso amarelo, revelei o quanto estava desapontado.
— Fica bem, Leo!
E virei costas.
Leo encurtou a distância e segurou-me o braço.
— Please. Don't go.
O seu olhar revelou-se carente. Que raio? Eu não precisava daquilo. Não esperou resposta e aproximou a boca do meu rosto. Julguei que me fosse dar um beijo na face, mas ao invés, segredou-se ao ouvido:
— Please. Sobe comigo. Poderes ser... rough... bruto comigo, outra vez. I don't mind.
Afastei-a com gentileza e olhei-a nos olhos.
— Não faças isso. — pedi num tom afável. — Nunca te submetas a ser... maltratada. — Sorri numa expressão idiota. — Acho que não te maltratei, talvez tenha sido rude e não tenha feito com que fosse gratificante para ti, mas... Bolas, não te maltratei.
Apesar de falar com poucas pausas, ela compreendeu tudo o que eu disse. Abanou a cabeça e esboçou um semblante triste.
— No. Tu não me fazeres mal. — Encarou-me o olhar. — Mas, foi um lousy sex, um péssi...
— Eu percebi, Leo.
— Sobe! — exigiu. — Deveres-me isso.
— Não te devo nada. — retorqui, afastando-lhe a mão que me segurava o braço. — Fica bem, Leo.
E com aquelas palavras, deixei-a sozinha no átrio do hotel.
Peter e Leo permaneceram no Porto algumas semanas, quase até Agosto. Peter e eu conversámos muitas vezes por telefone e chegámos a encontrar-nos mais duas vezes para beber um copo e desfrutar da companhia do outro. Não voltei a cruzar-me com Leo em todo esse período. Perto da data da partida de regresso a Edimburgo, o meu amigo e mentor visitou-me em minha casa. Foi uma noite animada, recordando outros tempos, desde que nos conhecêramos, passando pela minha ida para a Escócia, o seu apoio e aprendizagem, até ao momento em que regressei a Portugal.
— Achei que eras louco. — confidenciou. — Regressar logo num ano em que a crise estava instalada cá, o resgate financeiro, a economia a cair...
— Sabes bem porque vim.
— Mafalda.
Assenti, fazendo um gesto para que falássemos sobre outro assunto.
Devemos ter estado umas quatro horas, sentados à mesa na minha sala, a dialogar sem dar pelo tempo passar, com minis de cerveja a refrescar as gargantas. Fora quase como se folheássemos um álbum de fotografias, recordações de outros tempos. Já nos conhecíamos há muitos anos.
Peter olhou para o relógio, já era tarde, mais tarde do que esperara que fosse.
— Quando é que partes?
— Amanhã à noite. — A resposta parecia trazer pendente um outro assunto, algo que ele queria falar e não sabia como começar. — Daniel! Posso fazer-te uma pergunta? Não leves a mal.
— Claro, Peter. Diz!
A hesitação levou-me a suspeitar que era um assunto delicado.
— Tu e a Leo... — Acho que a expressão do meu rosto respondeu por mim. — Bem me parecia.
— Não sabia que ela é casada. — apressei-me a justificar, quase como se ele fosse o marido dela. — Aconteceu uma vez.
Peter fez uma expressão de ponderação.
— A Leo é boa rapariga e tem uma grande admiração por ti. Claro que é errado enganar o marido. — Fez um sorriso torcido. — Cá para nós, não foste o único com quem ela o traiu. Já houve outros. Mas, isso agora não interessa. — Olhou para mim com um semblante maduro, alguém com quem se poderia aprender bastante, se estivesse atento. — Fizeste bem em não te voltar a envolver com ela. Mas, seria necessário ter cortado totalmente?
— Não quis arriscar a que voltasse a tentar.
— Por favor, Daniel. Já és crescidinho para saber recusar essas coisas. Ambos sabemos quantas vezes foste assediado e recusaste.
— Sim, é verdade.
— Como te disse, tirando a parte da atracção física que possa ter por ti, a Leo tem uma enorme admiração pelo profissional que és. E sei que está triste por a teres afastado de forma tão dura.
— Ok, Peter. Talvez tenhas razão. Que sugeres?
— Não a deixes ir embora sem se entenderem. Dá-lhe uma oportunidade de se manterem em contacto. Ela já percebeu que não queres nada com ela, como mulher. Mas tenho a certeza que ficaria feliz se pudesse voltar a falar contigo, que lhe deixasses a porta aberta. — Parou para que eu assimilasse a ideia. — Ela quer ser tua amiga.
— Vou pensar.
Peter levantou-se, informando:
— Saímos do hotel a meio da tarde.
Unimo-nos num abraço forte, dois irmãos que se despediam sem saber quando as vidas lhes permitiriam reencontrar-se.
As suas palavras permaneceram na minha cabeça muito depois de se ter ido embora.
O Sol brilhava quente, o Verão parecia despontar a norte, após tantos dias de calor triste. Não tinha nada agendado, daí que tivesse aproveitado a manhã para um passeio na praia. Habituara-me a caminhar pelo areal sempre que precisava de colocar as ideias em ordem.
Logo após o almoço, vesti o blusão de motociclista que usava sempre, estivesse frio ou calor, quando andava de mota. Peguei no capacete e preparei-me para sair de casa. Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Não reconheci o número, por isso não atendi, mantendo a concentração na missão que destinara para mim. Desci as escadas e saí para a rua com novo toque do mesmo número. Voltei a não atender. Subi para a mota e liguei o motor potente que começou a roncar, fazendo-se ouvir bem longe. Coloquei o capacete na cabeça e arranquei rumo ao Porto.
O hotel não tinha quase movimento nenhum. Àquela hora, os turistas andavam a passear pela cidade e quem viera em trabalho estaria nos seus afazeres. Entrei com o capacete na mão e depositei-o sobre o balcão, aguardando que alguém aparecesse. Uma recepcionista carregada de simpatia protocolar interpelou-me para saber em que me poderia ser útil. Pedi para ligar para o quarto de Leo e a informasse que eu estava ali.
— Ela pergunta se quer subir. — transmitiu a funcionária, após fazer a ligação ao quarto.
Não seria boa ideia ir até ao quarto dela.
— Diga-lhe que prefiro que desça.
A minha decisão foi transmitida.
— Ela diz que desce já. — informou, desligando o telefone. — Se quiser, pode aguardar no bar. Eu digo-lhe que a espera lá.
Agradeci e afastei-me para a porta indicada. Entrei num espaço mais recatado, completamente vazio de pessoas, e sentei-me ao balcão. Um outro funcionário do hotel materializou-se através de uma porta de serviço.
— Quer tomar alguma coisa, senhor?
— Pode ser um café.
A espera foi mais longa que o expectável. Deu para beber o café e começar a pensar se a recepcionista lhe dera a indicação certa ou se lhe chegara mesmo a dizer alguma coisa. Porém, ao fim desse tempo, Leo entrou no bar com o olhar a procurar-me, o que não foi difícil já que eu era a única vivalma ali. Trazia o rosto fechado, muito séria, o cabelo preso com um elástico e vestia uma t-shirt escura gasta com o símbolo de uma banda e calças de ganga cheia de buracos. Escusado será dizer que calçava as botas do costume. Dirigiu-se a mim, coçando o cotovelo.
— Hi! — cumprimentou, parando atrás do banco a meu lado. Manteve o semblante rígido e o tom era duro. — Que surprise. Não esperar voltar a te ver.
— Caíste? — questionei, olhando para as suas calças. Leo desmanchou-se a rir. Eu gostava daquele sorriso. — Não queria que fosses embora sem nos despedirmos.
Leo retomou a postura séria, mas perdeu a dureza na voz.
— I... Eu pensara que tu don't... no querias voltar a ver-me.
— Senta-te. — convidei. Ela aceitou e ocupou o banco vago. — Queres tomar alguma coisa? — Abanou a cabeça. — Quero conversar contigo. Acho que exagerei. Não precisava de ter sido tão duro.
— I like... — ripostou escarninha. — Eu gostar de te ver duro.
Eu ia a explicar, quando percebi o seu trocadilho.
— Pára com isso. — pedi, retribuindo o sorriso que despontara no seu rosto. — Sabes ao que me refiro. — Ela anuiu. — Tu és uma tipa fixe. Tens esse ar maluco, mas eu gosto de ti.
— Vou embora daqui a few hours. — lembrou, mantendo o tom humorado. — You had your chance. Ter tua oportunidade antes.
— Pára com isso, Leo! — Baixei o tom para que o empregado não ouvisse. — Não estou a falar de sexo.
— Rough sex. — lembrou, desviando o olhar para o balcão.
— Já pedi desculpa por isso.
— Eu sei. Just kidding.
— Gostava que pudéssemos ser amigos. — sugeri.
— With benefits?
— Não. Nem coloridos.
— Ok. I try.
Partilhámos uma gargalhada.
— Quis vir aqui dizer-te isto, que adorava que mantivéssemos o contacto. — Retirei um cartão do bolso e entreguei-lho. — Tens aí o meu número de telemóvel, o email e o meu Facebook.
Leo pareceu ficar emocionada. Disfarçou, puxando o telemóvel do bolso das calças. Digitou o número que leu no cartão e carregou no "verde". O meu telemóvel tocou e ela desligou.
— Ser o meu mobile. At home, enviar um email para tu... para ti. And add you to my Facebook friend's list.
— Ok.
Leo levantou-se.
— Can I... Posso dar-te um hug... um abraço?
— Claro.
Saltou do banco onde estava sentada e aproximou-se de mim. Envolveu os braços no meu pescoço e apertou-me com carinho. Eu envolvi-a pela cintura e fi-la sentir-se querida.
Junto à minha orelha, sussurrou:
— Can I kiss you?
Afastei-a e apontei para a minha face. Ela abanou a cabeça.
— Please... — Apontou para os seus lábios. — A goodbye kiss.
Não sei porquê, olhei em volta. Foi um movimento reflexo. Acho que não queria que Peter aparecesse ali e me visse a dar-lhe o beijo que ela queria. Leo aguardou, olhando igualmente em redor. Apenas nós ali estávamos. Puxei-a pela cintura e partilhámos um último beijo na boca.
— Thanks! — sussurou, afastando-se. — Obrigado!
Abandonámos o bar e caminhámos para o átrio. Perto da recepção, parámos conscientes que era o momento em que cada um seguiria um caminho diferente. Mas, talvez um dia nos reencontrássemos como bons amigos. Sorrimos um para o outro. Abracei-a uma última vez. Dei-lhe um beijo terno no rosto.
— I will call you! — prometeu, despedindo-se.
— Leo! — chamei, curioso. — Leo é o teu nome verdadeiro?
Ela abanou a cabeça.
— É um... Como dizem em portuguese? Small name?
— Alcunha?
Leo fez um gesto com a mão de "mais ou menos".
— Diminutivo?
— Sim.
— Qual é o teu nome?
— Leonarda. Leonarda Redfield.
Um nome que se tornaria famoso na fotografia mundial daí a uns anos.
Ao regressar a casa, o meu telemóvel voltou a ecoar, anunciando o número que eu não conhecia e que já me ligara antes. Poderia ser um cliente novo, alguém com uma proposta de trabalho. Agora que o assunto "Leo" já não me ocupava a mente, decidi atender.
— Daniel? — questionou uma voz rouca, feminina, que não reconheci.
— Sim...
— Olá, Daniel! É a Kátya.
A surpresa foi total, seguida da alegria de voltar a ter notícias dela, algo que se atenuou ao recordar-me da sua última mensagem, afastando-se e pedindo para que nunca a procurasse.
— Olá! — cumprimentei num tom seco.
— Como estás?
A sua voz fazia-me alguma confusão, ecoava arrastada, dorida.
— Estou bem. E tu?
A resposta foi:
— Ainda vives em Edimburgo?
— Não. Regressei a Portugal há uns tempos.
Houve uma pausa, o que acentuou a minha curiosidade pelo seu telefonema. O que a levaria a telefonar-me depois de vários anos sem dar notícias?
— Daniel. Preciso conversar contigo.
— Diz.
— Pelo telefone, não. Será que nos podíamos encontrar?
Suspirei sem vontade de fazê-lo. Ainda me sentia magoado por ela me ter abandonado.
— Kátya... Tu deixaste bem claro, na tua última mensagem, que não me querias por perto.
— Eu sei, Daniel. Só que... É um assunto muito complicado, preciso da tua ajuda. Sei que parece egoísta, pedir-te ajuda, tendo partido sem me despedir... Quando te contar, irás perceber.
As suas palavras não alteraram a minha vontade.
— Estou com muito trabalho. Daqui a umas semanas, isto acalma e eu ligo-te a combinar. — sugeri como desculpa sem intenção de lhe telefonar.
— Por favor, Daniel... É um assunto urgente.
Notei algum desespero na voz, crente que isso se iria tornar em súplica. Apesar de tudo, seria incapaz de lhe negar auxílio.
— Onde te queres encontrar?
— Será que me podias visitar?
— Ir a tua casa? — interroguei, imaginando-a a viver na região de origem, o Algarve.
— Voltaste para Almada? — questionou, como se não tivesse ouvido a pergunta.
— Ainda tenho lá casa, mas actualmente vivo em Gaia.
Escutei um suspiro vencido no outro lado.
— Sei que é muito o que te peço, mas precisava mesmo que viesses a sul. — insistiu, tossindo e respirando devagar. — Eu estou a viver em Palmela. Achas que conseguias vir cá? Ainda esta semana?
Honestamente, não me custava nada fazer trezentos quilómetros de mota. Sempre fui um espírito livre em cima das duas rodas e sempre que podia, ia levar os duzentos cavalos a passear. Contudo, não encaixava no interesse que poderia haver em tornar a vê-la. Tal como Kátya escrevera, nós fomos uma fase bonita na vida um do outro. Só que essa fase já fora arquivada nas nossas histórias, anos atrás.
— Vou ver o que posso fazer.
— Por favor, Daniel...
— Não podes ao menos dizer a razão de tanta urgência?
— Pelo telefone, não.
Em nome de tudo o que havíamos partilhado, acabei por concordar em viajar para sul daí a dois dias.
A manhã despontou com um Sol forte, brilhando pela costa arenosa. No meu terraço, avistei o mar, bebendo um café e já vestido para a viagem. Gostava daquele lugar, a tranquilidade, o conforto. O apartamento estava cheio de recordações de Mafalda e era o lugar onde eu fora tão feliz com ela. Tinha outro apartamento alugado, o de Almada, a casa onde nasci e onde os meus tios me haviam criado. Contudo, esse parecia ser uma recordação distante, algo que passara e talvez já não se justificasse mantê-lo. Iria começar a pensar em deixar aquela casa? Sim, pensaria melhor nisso, no regresso.
Vesti o blusão e pendurei o capacete no cotovelo, segurando as chaves de casa e certificando-me que desligara tudo o que não era necessário na minha ausência. Contava retornar ao fim do dia. Desci as escadas e saí para a rua, caminhando para a mota ao mesmo tempo que colocava a protecção na cabeça. Liguei a ignição e o potente motor rosnou, ansioso, como se adivinhasse o longo percurso de que iria desfrutar.
Segui dentro dos limites de velocidade pelas estradas até alcançar a A29, a qual não ficava muito longe. Entrei no acesso para sul e acelerei, saboreando a potência da máquina, atento a potencias radares de velocidade escondidos. Cruzei-me com a A41 na zona de Espinho e alguns minutos mais tarde, seguia numa linha paralela perto da principal auto-estrada do país. Percorri-a até ao fim, até ao momento que me obrigou a entrar na A25 e escolher a direcção de Aveiro. Poderia ter feito todo o percurso pela A1, mas circular pelas auto-estradas do litoral implicava menos trânsito. O trajecto na A25 foi curto e serviu somente para o Sol se esconder. Como não desviei para a cidade, a A25 deu lugar à A17 sem que tivesse de modificar a minha linha de estrada. Com a via veloz a aproximar-se mais da costa, o Sol tornou a despontar, ultrapassando as nuvens. Em menos de uma hora, estava na região de Leiria e trocava a A17 pela A8. Estava tão habituado a andar de mota que não senti necessidade de parar, indo contra o bom senso de pausar a viagem a cada duas horas. Cerca de mais uma hora e duas portagens, novo desvio na placa que indicava o acesso à Ponte Vasco da Gama. Poderia eventualmente continuar e ir pela A2, atravessando a Ponte 25 de Abril, mas assim encurtava caminho. Fui desembocar ao Túnel do Grilo já com indicações da A12 e, passando este, avistei os altos pilares da ponte mais comprida do país ao fundo. Quase como um míssil, a mota cruzou o rio Tejo pelas mais de dezena e meia de quilómetros. Chegado à margem sul, que não era a minha Margem Sul, fiz a primeira paragem na estação de serviço.
Passava do meio-dia e o Sol escondera-se por completo atrás do manto cinza-claro de nuvens. A fome apertara e o meu destino foi o restaurante para lá das bombas de combustível. Comi umas sandes de carne e bebi uma cola sem querer perder demasiado tempo.
Novamente no asfalto, avancei pela A12 rumo a Setúbal. Quase não havia trânsito. Mais uma portagem... Constatei que já deveria ter feito uma boa soma de contribuição para as concessionárias. No final desta via, desviei para a saída de Setúbal e logo a seguir para a seta de Palmela. Nunca andara por ali e só a atenção evitou que tivesse ido mesmo para a terra do choco frito. A viragem para Palmela fez-me entrar na A2, rumo a norte, como se estivesse a voltar para trás. Porém, a saída seguinte não enganava, uma curva de duzentos e setenta graus para uma rotunda de formato esquisito, tipo uma oval que levara uma pancada num flanco. As indicações da primeira saída não me diziam nada, pelo que continuei a contornar até à segunda. Lá estava a placa a apontar Palmela. Avancei pela estrada nacional com o acelerador mais leve, atravessando um lugar chamado Volta da Pedra, uma recta grande que terminava num cruzamento. A seta para a direita era Palmela, mas perto de entroncar com a outra estrada, vi Aires na direcção oposta. Numa manobra rápida que não evitou uma buzinadela, virei para sul.
Kátya estava a viver na região de Palmela, mas não na vila. E neste caso, uma coisa e outra ficavam em pontas opostas. Desci a nacional 252, vendo o aglomerado de casas a descer, à minha esquerda. Não fazia a menor ideia onde ela morava, apenas o nome da rua e que era num prédio de apartamentos. Aires tinha mais moradias que apartamentos, à primeira vista, pelo que não deveria ser difícil. Virei no primeiro semáforo, o que foi um erro. Desci a estrada sempre em frente. Um entroncamento dava indicações que não me interessavam. Continuei em paralelo com a linha de comboio e fui dar a outra rotunda, muito mais pequena, junto da estação ferroviária. Ali não havia nada, senão carros e qualquer comboio que passasse. Prossegui para a zona habitacional, atravessando uma outra zona onde as moradias pareciam estar a despontar em lotes para venda. Vi uma escola e várias ruas de moradias que se cruzavam com a via principal. Virei naquilo que me pareceu ser uma espécie de avenida, ladeada por prédios de princípio ao fim. Mais ou menos a meio, vi uma pequena pastelaria. Pareceu-me um bom sítio para perguntar pelo nome da rua. Fiz a transgressão de passar com a mota por cima do passeio, parei-a a uns metros da porta e entrei no estabelecimento, colocando o capacete no topo da cabeça.
O empregado do café informou-me que a morada que eu procurava ficava exactamente atrás daquela avenida, uma rua paralela. Simpático, questionou se eu sabia o número.
— 110.
— Está com sorte. — retorquiu com um sorriso. — Aqui ao lado está uma passagem para essa rua, a porta do prédio fica aí. Essa pessoa deve viver aqui por cima.
Agradeci as informações e saí. Estacionei a mota melhor, numa zona de carros, e caminhei na direcção que me indicara. A linha de prédios era cortada por um túnel que ligava a avenida com a rua.
Toquei à campainha.
— Quem é? — perguntou uma voz entre os estalidos do intercomunicador.
— Sou eu, Kátya. O Daniel.
A fechadura estalou e a porta destrancou-se. Entrei num átrio amplo com umas escadas largas e com muita luz natural. Sabia que ia rever Kátya dentro de segundos e senti o recalcamento por todos os anos decorridos desde que ela se afastara. Estava desejoso de a confrontar, querer saber porque o fizera, porque estivera tanto tempo sem dar notícias, porque exigira que nunca a procurasse... E agora vinha pedir-me auxílio? Subi as escadas de rosto fechado, podia entender-me com ela, voltar a ser seu amigo, mas tinha umas quantas coisas para lhe descarregar antes que isso acontecesse. Porém, tudo isso se esfumou, quando a vi à minha espera, apoiada na ombreira da entrada do apartamento.
Nada me poderia ter preparado para a ver naquele estado. Kátya estava muito magra, mais magra que quando eu a resgatara da rua, da vida de sem-abrigo. Vestia uma camisola escura, demasiado larga, e umas calças de ganga gastas. Contudo, o que mais me chocou foi o lenço na cabeça. Já vira aquela imagem noutra pessoa e conhecia demasiado bem a causa.
Kátya sorriu e eu sorri-lhe. Não disse nada, nem ela, e limitei-me a abraçá-la com cuidado para o capacete na mão não a magoar. Percebi instantaneamente a urgência da minha visita. A expressão no olhar revelava que os sentimentos por mim não tinham desaparecido. Beijei-lhe a face. Ela convidou-me a entrar para um corredor pequeno e escuro.
— Há quanto tempo estás doente? — indaguei, vendo-a fechar a porta.
— Algum...
— Onde é...? — interroguei sem precisar de completar.
— Nos pulmões.
Podia estar enganado, mas infelizmente confirmara-se o que tantas vezes lhe repetira, "o tabaco ainda te vai matar".
— Agora percebo a urgência.
Kátya fez um sorriso cansado e disse:
— Não, não percebes.
Convidou-me a segui-la pelo corredor até uma porta larga, o acesso à sala, onde o som da televisão ecoava forte em frente a duas poltronas, uma mesa e três cadeiras. Tudo normal, não fosse a minha atenção ter sido captada para a criança que brincava no chão, vendo os desenhos animados no ecrã. A menina deveria ter uns quatro ou cinco anos, de cabelos escuros e expressão muito parecida com a de Kátya, olhou para mim e ficou petrificada.
— É tua filha?
Kátya sorriu para ela e, passando por mim, confirmou:
— Sim, Daniel. É minha filha... e tua.
Fiquei em choque, sem qualquer reacção. Nem sequer a consegui questionar, mas também conhecia Kátya o suficiente para saber que ela jamais brincaria com um assunto assim.
— Leonor! — chamou-a. — Anda cá. Vem dar um beijinho ao Daniel.
Penso que o meu choque assustou a pequena que ficou com medo em se aproximar. Sorri-lhe e baixei-me perto dela.
— Olá!
— Olá! — respondeu, receosa.
— Dás-me um beijinho?
O olhar tinha a intensidade do da mãe. Deu dois passos e beijou-me a face. A seguir, voltou atrás para o local donde me viera. Kátya voltou a chamá-la e pediu:
— Leonor, vai brincar um bocadinho para o quarto. A mãe precisa de conversar com o Daniel.
Obediente, a menina saiu a correr da sala, aliviada por se afastar.
— Como...?
Kátya apontou-me uma das poltronas e sentou-se na outra, dizendo:
— Sim, Daniel, na única vez que tivemos relações sexuais tu conseguiste engravidar-me.
A minha cabeça repassou aquela época, o tempo que ligou o casamento de Mafalda à partida de Kátya.
— Quando tivemos aquela conversa em Carlton Hill, já sabias? — Ela assentiu com a cabeça. — E não disseste nada?
— Disse-te tudo o que sentia por ti e percebi que tu não me querias na tua vida... Pelo menos, não como eu queria estar nela. — explicou, entrelaçando os dedos. — Se te dissesse, tenho a certeza que terias ficado comigo, se calhar até casavas comigo. Mas também sei que nunca serias feliz. Não te quis aprisionar, Daniel.
— Não tinhas o direito de me esconder que tinha uma filha.
— Foi por isso que me vim embora de Edimburgo. — prosseguiu, ignorando a minha indignação. — Se ficasse mais tempo, seria impossível esconder a gravidez.
— Devias ter-me contado, Kátya. — repeti, furioso. O tom tornou-se mais agreste que o pretendido. — Porquê agora? Porque me contas agora?
Kátya fez uma expressão escarninha, apontando para o lenço, puxando-o e revelando a cabeça lisa.
— Penso que não preciso de responder. A Leonor não tem mais ninguém na vida para além de mim. E eu não sei quanto tempo... — Voltou a colocar o lenço. — Não te vou enganar, Daniel. Se isto não tivesse acontecido, eu nunca te teria contado. Aceito que estejas furioso comigo, até podes nem querer olhar-me para a cara nunca mais. Eu compreendo. Só peço que tomes conta da nossa filha, quando eu...
Comecei a ter real noção dos acontecimentos. De nada serviria remexer no passado. Num timbre menos rude, inquiri:
— É assim tão grave? — Ela anuiu. — Quanto tempo? — Encolheu os ombros. — Pareces resignada.
— Já ultrapassei a fase de negação.
— E a Leonor? Sabe que sou o seu pai?
— Sim. — confirmou. — Sempre lhe falei no pai e lhe expliquei que não nos vinha visitar porque estava a viver muito longe.
— Justificação de merda. — Foi o que me saiu.
— Foi o que me lembrei. — retorquiu magoada. Instalou-se um silêncio incómodo. — Nunca lhe quis passar uma má imagem tua. Quando crescesse, iria contar-lhe a verdade e incentivá-la a procurar-te, se quisesse.
Estiquei o braço e segurei-lhe a mão.
— Deves ter passado um mau bocado.
— Sobrevivi. E nunca faltou nada necessário à Leonor.
— Ela parece assustada comigo.
— Não te conhece, Daniel. Tens de ter paciência.
O silêncio entre nós voltou, sonorizado pelas canções infantis na televisão. Sem me aperceber, a minha mão continuou na dela.
— Sempre conseguiste? — interrogou de súbito. Não compreendi. — Tu e a Mafalda?
Assenti com a cabeça, denunciando a tristeza e percebendo que aquela malvada doença pela terceira vez me levaria alguém importante.
— E então? — insistiu, querendo saber mais.
— Ela divorciou-se do marido, dois anos depois do casamento. — relatei. — Depois aproximámo-nos e aconteceu.
— Estás a ver? Agora imagina que estavas comigo e com a Leonor quando soubeste que o amor da tua vida se ia divorciar? Ias odiar-me! — Não a contrariei. Ela confirmou que tinha razão, já o sabia, mas isso não o tornava menos doloroso. — Como é que ela reagiu a teres vindo visitar-me?
A resposta não saiu de imediato. Houve uma névoa, um acentuar de dores que eu conseguira reprimir nos últimos meses. Contudo, aquele ambiente, aquela revelação e aquele assunto pareciam despoletar tudo.
— A Mafalda faleceu no início deste ano. — informei com a voz algo embargada, olhando para Kátya e vendo o seu rosto contorcer-se numa expressão de choque.
— Lamento, Daniel. Lamento tanto. Oh... meu querido.
Fiz um gesto de que o pior já tinha passado.
— Que aconteceu?
— Não interessa. — respondi, consciente que a última coisa que um doente com cancro precisa é que lhe falem em alguém que morreu disso.
Leonor apareceu na porta, espreitando curiosa. Kátya chamou-a para perto de nós. A criança aproximou-se devagar, passando por mim e encostando-se à mãe. Como é lógico, no tempo que permaneci lá, pouca ou nenhuma confiança lhe consegui ganhar. Eu era o pai que nunca conhecera, uma figura abstracta, estranha. Não seria fácil e tinha de lhe dar espaço para se habituar a mim.
Ao fim da tarde, despedi-me da pequena apenas com um aceno, pois não queria que encarasse uma obrigação de beijar o estranho que aparecera do nada.
— Voltas hoje para cima? — questionou Kátya, levando-me para a saída.
— Não. Vou até Almada. Fico por lá esta noite.
— Que pensas fazer?
— Sobre?
Kátya atirou-me um olhar exasperado e apontou para dentro de casa.
— A Leonor.
— Não te preocupes. — Forcei um sorriso. — Tu podes ter-te resignado, mas eu ainda acredito. — Ela abanou a cabeça. — Se tu... Se partires, eu cuidarei da Leonor.
— Obrigado.
— Não agradeças, Kátya. Sou pai dela. Só lamento que não me tenhas deixado sê-lo mais cedo.
Ela baixou o olhar, comprometida.
Eu abracei-a com força e despedi-me.
Tinham passado alguns anos, desde a última vez que entrara na minha casa de Almada. Porém, estava tudo como deixara. Afastei com cuidado os lençóis que cobriam as mobílias, evitando levantar pó. Sentei-me no sofá da sala e fechei os olhos, repousando e pensado em como aquele dia alterara a minha vida.
As alterações não foram imediatas, mas foram tão profundas que trocaram toda a minha realidade. Em breve, aquela criança seria uma responsabilidade exclusiva minha. Fosse como fosse, por enquanto iria dar o máximo de apoio a Kátya e permanecer por ali algum tempo. Contactei os clientes com quem trabalhava regularmente e suspendi a nossa relação profissional, explicando que me vira obrigado a fazê-lo por motivos pessoais. Quando tornei a visitar Kátya e Leonor. Expliquei à mãe da minha filha a decisão e li o alívio no rosto dela, ao perceber que já não estava sozinha.
As nossas casas distanciavam uns trinta quilómetros. Mesmo assim, recusei a sua proposta para que me mudasse para lá. Saía cedo, chegava à hora a que Kátya saía de casa para levar Leonor à escolinha, e acompanhava-as, tornando-me conhecido das funcionárias. Isso também ajudou a que Leonor se habituasse à minha presença. Ficava com Kátya até uma ambulância de transporte de doentes a vir buscar para a levar aos tratamentos. As horas sozinho em casa dela eram os momentos mais difíceis, pois tudo me metralhava os pensamentos. Por fim, ela chegava e íamos buscar a pequena. Mais duas a três horas e regressava a Almada. Este passou a ser o meu dia a dia.
Uma vez por mês, eu regressava a Miramar, só para ver se estava tudo em ordem e manter a casa em condições.
Algumas semanas mais tarde, Kátya informou-me que a equipa médica gostaria de falar comigo, agora que sabiam que o pai da filha dela voltara. Sim, nunca me livrei da imagem do gajo que a emprenhou e deu à sola.
O médico quis falar comigo em privado, enquanto Kátya estava no tratamento. Era um homem alto, robusto e sendo simpático não perdia aquela arrogância típica dos médicos que falam connosco como se fossemos de inteligência inferior.
— Nós temos feito o que podemos, mas a Kátya está a piorar. — explicou num tom muito austero que me parecia só servir para acentuar a tragédia. — Devem preparar-se para o pior.
Não sabia o que dizer. Preparar para o pior? Conseguirá alguém preparar-se para morte de quem se gosta?
Nessa noite, ao chegar a casa, tive consciência que preparar o pior não era preparar a perda de uma amiga, mas sim preparar a perda da mãe pela filha. A partir desse dia, Leonor passaria a ser responsabilidade exclusiva minha, por isso, tinha de começar a planear integrá-la na minha vida.
Certa manhã, segui de mota por Almada até um lugar que conhecia desde miúdo. Estacionei e caminhei pelo passeio, parando defronte de um stand de automóveis. Entrei com o capacete na mão e fui recebido por um funcionário simpático que se prontificou a ajudar-me.
— Tenho uma mota e pretendia vendê-la para comprar um carro.
Foi a mudança que mais me custou, a mota. Se precisasse de transportar Leonor, a mota poderia ser viável, mas implicava perigos desnecessários. Por isso, decidi vendê-la e comprar um automóvel. Escolhi um Renault Clio porque me fazia lembrar Mafalda, uma vez que ela tivera um quando estivéramos juntos. No entanto, foi muito complicado a alguém que adorava a liberdade de andar numa mota ver-se confinado ao interior de um carro.
Com o passar dos dias, apesar dos tratamentos, Kátya revelava maior desgaste à doença. Acabei por alterar a minha rotina diária, passando a noite lá em casa. Dormia com Kátya na sua cama, mas nunca houve qualquer intimidade entre nós. Partilhávamos o colchão como dois irmãos.
Leonor habituou-se à minha presença, aceitando-me no mundo delas, convidando-me a brincar, vivendo com naturalidade sempre que a mãe era transportada aos tratamentos no hospital.
Como as minhas idas a Almada diminuíram, voltei a ponderar a ideia que considerara antes. Por isso, numa manhã, logo após deixarmos Leonor na escola, eu decidi ir à minha primeira casa.
Como já referi antes, a casa de Almada tinha dois quartos, o meu e o que outrora fora dos meus tios. Eu não gostava de entrar naquele quarto, havia sempre muitas lembranças e muita dor nas recordações. A minha tia falecera vinte e três anos antes, o meu tio catorze. E eu continuava a fazer o luto. Abri a porta do quarto e acendi a luz. Tirando o pó, estava tudo igual ao dia em que o meu tio foi internado.
— Olá, tio! Olá, tia! — disse eu para as memórias. Caminhei pelo quarto até à janela. Abri as persianas. — Hoje está um dia bonito, está Sol. Um pouco mais fresco que o habitual. — Peguei na moldura com uma foto do casamento deles. — Gostava que me pudessem ver hoje, ver onde cheguei. Ah... Tenho a certeza que me vêem aí de cima. — Avancei e sentei-me ao fundo da cama. — Tanta coisa aconteceu. — Olhei em volta. — Mantive este quarto como um mausoléu, uma homenagem a ambos. Só que acho que chegou a hora de vos deixar partir. — Sorri para ninguém sem perceber que uma lágrima me escorria em cada face. — Vocês iam gostar de conhecer a Leonor. Sim, tenho uma filha. Desculpem não ter contado antes, mas eu próprio só o soube há pouco tempo. — Funguei e limpei o nariz com as costas da mão. — Iam amá-la como me amaram a mim, incondicionalmente. Por isso, acho que concordam com a decisão que tomei. — Calei-me como se eles estivessem ali comigo e lhes estivesse a dar um momento para ficarem atentos. — A mãe da Leonor é uma grande amiga minha. E em tempos... Bom, nós... Não interessa os pormenores. Infelizmente, a Kátya está muito doente e... Temo que não dure muitos meses. Espero que possam recebê-la e cuidar dela. — Nova pausa. — A Leonor virá viver comigo para a minha casa... E é por isso que estou aqui. Tomei uma decisão. — Tornei a olhar para a envolvência do quarto. — Esta foi a minha... a nossa casa durante muitos anos. E foi minha depois de o tio partir. Só que hoje, eu tenho um outro espaço, um lugar onde também fui muito feliz. Tenho a minha vida estruturada lá e... E não penso voltar a viver aqui. — Olhei para o tecto, para o candeeiro aceso. — Tio! Tia! Obrigado por tudo. Obrigado por me terem criado, por me terem permitido viver, por nunca deixarem que me faltasse o essencial. Espero que tenham orgulho naquilo que sou. — Fechei os olhos sem controlar as lágrimas. — Chegou a hora de eu largar esta casa, de vos deixar partir. Estou a sair da vida que tivemos aqui, mas vocês nunca sairão do meu coração.
A partir daquele dia, arrumei as coisas que me eram importantes, as lembranças, as recordações, as fotos, uma ou outra peça especial... Não me apeguei demasiado a nada. Entreguei todas as mobílias a uma associação de apoio a pessoas carenciadas, bem como outros objectos e roupas. Ainda estavam em bom estado e poderiam ser aproveitados. O resto foi para o lixo. Juntei o que queria levar comigo no meu quarto e ficou tudo arrumado, a aguardar o dia em que regressasse ao norte.
Certa noite, a temperatura arrefecera, lembrando que o Inverno chegaria em breve. Tal como fazíamos diariamente, a seguir ao jantar, deitámos Leonor na cama para dormir e viemos para a sala, sentando-se cada um numa poltrona.
— Acho que não tomei as melhores opções na minha vida. — confidenciei, obtendo de Kátya um olhar de surpresa e curiosidade. — Andei atrás de um amor que acabou por me fazer sofrer e desperdicei uma vida contigo.
— Tu não me amavas, Daniel.
— Porque estava apaixonado pela Mafalda.
Kátya esboçou um sorriso, questionando:
— Teria sido diferente, se ela não tivesse existido na tua vida?
— Não sei. Eu sempre gostei muito de ti, sempre foste especial. Se não vivesse obcecado...
— Não estavas obcecado, Daniel. — interrompeu para me corrigir. — Tu estavas apaixonado. As tuas decisões foram perfeitamente normais.
— Devia ter-te dado uma oportunidade, Kátya. — cobrei-me. — Talvez tivéssemos sido felizes, eu teria lutado contigo para te fazer deixar de fumar. E tu...
— Não sabes, Daniel. Foi isto, poderia ser outra coisa. Todos temos o nosso caminho traçado. Não estávamos destinados a ficar juntos.
— Sinto-me culpado
— Salvaste-me a vida, Daniel. Há sete anos, tu tiraste-me da rua, ajudaste-me a ter um lar. — Sorriu com carinho. — Recorda-me como alguém que te é grata. Não te culpo de nada, nem teria esse direito.
Encarei a sua expressão terna.
— Vou ter saudades tuas. — Parei para a observar, transmitindo-lhe na voz o quanto gostava dela. — Eu amei-te naquela noite.
— Eu sei, Daniel. Só muito amor concebe o ser maravilhoso que está a dormir naquele quarto.
— Prometo-te... Juro-te que cuidarei dela. Nunca lhe faltará nada. E falarei sempre muito em ti, guardarei o máximo de memórias e a Leonor há-de saber como a mãe foi uma mulher extraordinária.
No rosto de Kátya, decifrei a paz, o descanso pela filha que já não corria o risco de ser institucionalizada, como tanto temera, uma vez que seria esse o desfecho se não houvesse mais familiares para tomar conta da pequena. Permitiu-se a descansar.
Eu não sou médico e a minha opinião é mera especulação. Porém, acho que esse descanso baixou as defesas, a luta que Kátya travava com a doença. E infelizmente a doença atacou-a ainda mais.
Não quero relatar muitos pormenores sobre os dias que se seguiram, uma vez foram muito complicados, difíceis e de muito sofrimento. O estado de saúde de Kátya piorou, tossia mais, revelava-se mais fraca e tinha crises complexas que quase a derrubavam. Numa das últimas, teve problemas respiratórios e tive de chamar ajuda médica para a socorrer.
Para além deste cenário dramático, procurava evitar ao máximo que Leonor testemunhasse estas situações, mas era quase impossível. Recordo-me que nesta última, enquanto os médicos do INEM a observavam, vi Leonor a chorar, espreitando na porta do quarto, onde a mãe sofria sobre o colchão da cama. Corri para ela e peguei-lhe ao colo, abraçando-a e levando-a para o seu quarto. Sentei-a na cama e disse:
— Tem calma, pequenina. Não chores.
— A mãe vai morrer?
A sua pergunta surpreendeu-me, pois não considerara que, tão nova, Leonor já pudesse ter noção do que era a morte. Calculo que não tivesse a mesma que um adulto, talvez fosse mais um conceito de perda eterna. Também não sabia quem lhe falara no assunto, se a mãe ou a educadora na escola, uma vez que todas as funcionárias tinham conhecimento do drama familiar.
Que haveria eu de responder? Não lhe queria mentir, mas também não a queria perante a realidade até ser inevitável.
— Aqueles senhores estão a fazer tudo para ajudar a tua mãe.
— Não quero que a mãe morra. — insistiu, chorando compulsivamente.
Abracei-a com muita força.
— Eu também não quero que a tua mãe morra. — Afastei-me um pouco para a olhar nos olhos. — Temos de ser fortes para a ajudar, está bem? — Leonor fez beicinho e anuiu. — Percebo como estás triste, Leonor. E estou aqui para te ajudar.
O médico chamou-me. Pedi a Leonor que ficasse no quarto até eu voltar. Entrei no outro quarto. Kátya estava sonolenta, talvez sedada e com uma máscara de oxigénio. Esperei que me pusessem ao corrente. Ele disse que o estado dela era muito grave e que seria melhor levá-la para o hospital.
Kátya foi transportada para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Ficou internada dois dias, sendo depois transferida para uma unidade de cuidados paliativos.
A partir desse dia, Leonor passou a ser exclusivamente responsabilidade minha, tal como sabíamos que iria acontecer mais tarde ou mais cedo. Tentei que a sua rotina mantivesse alguma normalidade, o que era complicado. Expliquei-lhe que, por enquanto, não poderia visitar a mãe para a poupar a ver o estado debilitado dela, optando por a deixar na escola como era habitual e ia eu sozinho visitar Kátya. Não era fácil, vê-la numa cama, entubada e com muita dificuldade em falar. A equipa responsável pelos cuidados falou comigo e informou-me da forma mais eufemística que conseguiu que a mãe da minha filha não iria viver muito mais tempo e que seria melhor prepararmo-nos para nos despedirmos dela.
Foi muito duro. Contudo, não tão duro como foi levar Leonor a ver a mãe. Não lhe disse como era grave o estado de Kátya, explicando-lhe apenas que a mãe estava muito doente. Antes de receber a filha, Kátya pediu que lhe retirassem os tubos e a máscara para o seu aspecto não assustar a pequena.
No quarto, após entrar com Leonor pela mão, a pequena correu para a mãe. Kátya falou com imenso amor a cada palavra. Pelo diálogo, percebi que fora ela quem explicara o conceito de morte à menina, pois explicou-lhe que o dia que haviam falado estava a chegar. Leonor desabou num pranto que me dilacerou. Kátya também chorava, mas mantinha-se forte. Senti uma lágrima no meu rosto.
Os médicos pediram para que a visita fosse curta, de forma a não a cansar demasiado. Leonor não quis sair de perto da mãe, mas Kátya convenceu-a a ir com a enfermeira e que poderia voltar no dia seguinte. Ao ficarmos sozinhos naquele espaço, ela pediu num tom rouco:
— Cuida dela, Daniel.
— Não te preocupes, Kátya. — disse eu, segurando-lhe a mão. — Juro-te que ficarei sempre a seu lado.
— Obrigado, meu amor. — agradeceu com um sorriso cansado e uma expressão de verdadeiro sentimento.
Percebi a dimensão do nosso amor. Não era um amor carnal, um amor de casal. Éramos duas almas que se amavam espiritualmente, uma ligação transcendental. Dei-lhe um beijo na testa e prometi voltar na manhã seguinte.
Isso não aconteceu.
Nessa noite, recebi um telefonema. Kátya adormecera o sono eterno.
Não acordei Leonor para lhe dar a triste notícia, haveria tempo na manhã seguinte. Mal dormi, a pensar em tudo aquilo, na segunda vez que perdia Kátya na minha vida. Senti-me perdido na forma como haveria de dizer à criança que a mãe morrera.
Pela manhã, quando fui acordar Leonor, abracei-a com força e disse-lhe baixinho:
— A tua mãe... Lamento, pequenina.
Leonor afastou-se, olhando-me com uma expressão confusa.
— A minha mãe?
Não havia forma de o dizer sem ser doloroso, Leonor não era um adulto para perceber entre linhas o que eu lhe queria dizer.
— A tua mãe já não está viva. — foi a melhor forma que encontrei.
Leonor começou a chorar. Tentei abraçá-la, mas ela bateu-me com os punhos fechados frágeis no peito. Deixei-a descarregar toda a dor em mim. Cansada, abraçou-me o pescoço com força, continuando num pranto desesperado, como se temesse que eu também desaparecesse.
— Calma, pequenina. O pai está aqui.
— Quero a minha mãe, quero a minha mãe... — repetia entre lágrimas. — Quero a minha mãe!
Paciente, aguardei que chorasse tudo o que quisesse, mantendo-a nos braços e transmitindo-lhe segurança. Leonor acalmou-se aos poucos, fechando-se numa cápsula invisível de tristeza.
Nesse dia não a levei à escola, preferindo tê-la sempre por perto. Coube-me a horrível tarefa de tratar dos procedimentos relativos à ida de Kátya para a sua última morada.
O funeral aconteceu no dia seguinte, um dia cinzento e chuvoso, tão ilustrativo do nosso estado de espírito. Leonor assistiu a tudo com a mão segura na minha. Para além de nós, somente algumas funcionárias da escola que quiseram despedir-se daquela mãe que, sem quererem, viram definhar aos poucos. Também compareceram duas vizinhas que nunca foram bater à nossa porta para saber como estava Kátya, mas acharam por bem ir ao funeral. É sempre mais fácil dizer adeus aos mortos que se preocupar com os vivos.
No final, a educadora de Leonor na escola acercou-se de nós para repetir o seu pesar e indagou:
— Quando é que a pequena vai voltar à escola? Vamos tentar ajudá-la a ultrapassar esta fase, sendo que nunca se substitui uma mãe.
— Obrigado pela sua disponibilidade. — agradeci. — Mas, eu não vou ficar cá, vou regressar a minha casa.
A senhora compreendeu e despediu-se, dizendo:
— Desejo-vos as maiores felicidades.
Leonor tornou-se uma criança triste, não voltei a ver-lhe um sorriso no rosto. Ao regressarmos à casa da mãe, expliquei-lhe que iríamos deixar aquele local e ajudei-a a arrumar todas as suas coisas. Também juntei todas as recordações da mãe, fotos, objectos, algumas roupas, entre outras coisas.
A manhã seguinte surgiu com um Sol tímido. Carreguei o automóvel com tudo o que era para levar para norte, sempre com Leonor a meu lado, ora subindo, ora descendo as escadas, envergando o vestido quente por baixo do blusão comprido e almofadado, collants de lã e um par de galochas com bonecos desenhados. O senhorio, conforme tínhamos combinado na noite anterior, passou por lá para receber a chave do apartamento.
— Infelizmente, não me foi possível ir ao funeral. — desculpou-se sem que eu percebesse porque haveria ele de ir, se em todo o tempo que ali estive nunca o vi telefonar ou passar por lá para saber como estava a inquilina.
Apesar do ambiente solarengo, o vento soprava e intensificava o frio. Abri a porta do carro para Leonor entrar para o banco traseiro e sentar-se no seu banquinho. Prendi-a com o cinto de segurança e contornei o veículo para ocupar o meu lugar ao volante.
— Estás pronta? — perguntei, vendo-a pelo retrovisor e sorrindo-lhe. Ela assentiu de semblante alheado.
Partimos de Aires a meio da manhã. Tinha ainda uma paragem a fazer, antes de seguir o meu destino. Entrei na A2 rumo a Almada, uma viagem de pouco mais de meia hora. Estacionei na rua onde cresci e trouxe Leonor até à casa que fora dos meus tios.
— Eu cresci aqui. — expliquei-lhe, entrando no apartamento vazio.
Ela olhou curiosa, mas não se manifestou.
Nos últimos tempos, eu preparara a minha saída definitiva daquela casa. O que poderia interessar a alguém fora dado, o lixo levado e somente algumas coisas sem importância ali permaneciam, para além dos caixotes que levaria comigo para Miramar. Tal como em Aires, Leonor não me largou enquanto eu subia e descia para arrumar no carro o que fora buscar. Por fim, toquei à campainha do rés-do-chão, onde vivia uma senhora que representava o senhorio do prédio. Atendeu-me com a simpatia habitual, elogiando a menina que se escondia atrás de mim e recordando a memória dos meus tios. Lamentou que estivesse a deixar a casa, sabendo eu que tanto ela como os senhorios estavam muito felizes com isso, pois era um espaço que poderiam alugar no futuro por valores muito acima daqueles que eu estava a pagar.
Assim, após esta última etapa, Leonor e eu regressámos ao carro.
A viagem prosseguiu pela saída da cidade rumo à Ponte 25 de Abril, onde atravessámos o rio Tejo. Segui as indicações A1 Norte, mas acabei por desviar para o caminho inverso que me trouxera de Miramar, quando vim reencontrar Kátya, optando pela A8. Ia sempre a espreitar Leonor pelo espelho e encontrava-a sempre com o olhar vago e triste na paisagem. Deixando Lisboa para trás, ia perguntar-lhe se queria comer alguma coisa, só que ela adormecera. Não a despertei, pois sabia que precisava de descansar da dor que a corroía pela perda da mãe.
Perto de Leiria, a chuva começou a cair com intensidade. As gotas fortes a embater no pára-brisas e as escovas a lutar com elas faziam um barulho incómodo. Porém, Leonor permanecia tranquila, dormindo embalada pela viagem. Quando cruzámos o rio Mondego, as nuvens não derramavam mais que simples aguaceiros. Na zona de Aveiro, houve mais intensidade de água. E para lá de Espinho o Sol tornou a trespassar as nuvens com pequenos focos de raios de luz. Leonor despertou no momento em que abandonei a A29 na direcção de Miramar.
— Olá pequenina! Isso é que foi dormir. — disse-lhe pelo retrovisor. — Estamos quase a chegar.
Leonor espreguiçou-se e tornou a olhar para o exterior com o rosto estremunhado. Era tal e qual a expressão da mãe, quando acordava ensonada.
Estacionei na minha rua, a alguns metros do prédio onde vivia, o lugar de estacionamento mais perto disponível. Saí do carro, pedindo a Leonor que vestisse o blusão, pois estava muito vento naquela zona costeira. Ajudei-a a descer do carro e dei-lhe a mão, conduzindo-a até à entrada. Ela segurava sempre a minha mão como se temesse que a largasse. Conforme andávamos, expliquei-lhe que a praia ficava perto e que podíamos ir brincar lá, quando estivesse bom tempo. Abri a porta do prédio e subimos as escadas. Leonor subia sozinha, curiosa, apoiada no corrimão. Seguiu-se a porta do apartamento.
A minha filha ficou a olhar. Pareceu hesitante, talvez receosa de que estivesse lá mais alguém. Notava que, depois da morte da mãe, ela evitava todas as pessoas, excepto eu.
— Podes entrar. — disse-lhe, encaminhando-a com a minha mão nas suas costas. — Bem-vinda à minha casa, Leonor! Esta agora é também a tua casa.
fim do conto V
Encarei cada manhã como um desafio, cada tarde como uma etapa, cada noite como uma meta. Usei o melhor trunfo que encontrei para sobreviver aos últimos meses de dor, entregar-me ao trabalho. Voltei ao contacto com as agências de modelos, agências de publicidade e comecei a fazer trabalhos de reportagem fotográfica em espectáculos e eventos desportivos. Mantive-me o mais ocupado que pude.
Não me sentia como um homem de trinta e seis anos, sempre me vi mais novo que a real idade inscrita no meu cartão do cidadão. Porém, ao olhar para o reflexo no espelho, os sinais resultantes do último ano eram evidentes, mais rugas, mais cabelos brancos. Mantive-me solitário, vivendo sozinho em Miramar. Cheguei a ponderar o regresso a Almada, mas todo o meu círculo de clientes se localizava a norte. Também equacionei um regresso a Edimburgo, só que iria à procura de algo que tivera o seu tempo. Se algum dia voltasse, seria apenas como turista.
Vesti a pele do fotógrafo altamente profissional, reservado e com um escudo invisível impenetrável a quem quisesse entrar no meu mundo privado. Não queria novas personagens na minha história, evitaria ter mais contos que pareciam terminar todos da mesma forma. Rejeitei convites para confraternizações de colegas, tentativas de sedução, interesses emocionais, ofertas de prazer sem compromisso. Rejeitei tudo, tudo e tudo.
No meio deste conflito interior, desta vontade férrea de manter o mundo afastado, reapareceu na minha história um velho amigo a quem nunca fecharia a porta, o meu irmão de coração, parceiro e mentor, Peter.
Peter telefonou-me para partilhar a novidade de que viria passar uma temporada a Portugal para colaborar na fundação e lançamento de uma nova revista no mercado português. Não quis revelar muito ao telefone, pois desconfiava das linhas e receava que alguém pudesse ouvir algo que ainda tinha de ser mantido em segredo.
A sua chegada aconteceu na Primavera. E apesar de ter aterrado em Lisboa, o seu destino foi o Porto, uma vez que a empresa responsável pela revista estava sediada na "Cidade Invicta". Devido às nossas agendas preenchidíssimas, não conseguimos encontrar uma vaga para nos reencontrarmos até surgir a oportunidade de o visitar durante uma sessão de fotografia que teve como cenário as caves de uma das marcas mais famosas de Vinho do Porto.
Quando cheguei ao edifício localizado perto do cais de Vila Nova de Gaia, evitei pensar nos passeios que partilhara por ali com Mafalda. Aos poucos, ia sobrevivendo à mágoa e não precisava que as lembranças me puxassem para as trevas. O Sol brilhava sobre o rio Douro e os turistas passeavam às carradas pelas margens, observando e registando cada canto que os surpreendia. Estacionei a mota num lugar apropriado e caminhei pela rua com o capacete pendurado no braço. Procurei o símbolo que identificava a marca e entrei pelas amplas portas de vidro. Um segurança informou-me que estavam fechados, mas deixou-me passar quando expliquei que vinha falar com o fotógrafo responsável pela sessão que estava a acontecer lá dentro. Outro segurança encaminhou-me pelo interior e apontou-me o acesso.
O espaço era enorme com grandes pipas de madeira arrumadas junto às paredes de pedra. Logo a seguir, estantes com centenas de garrafas escuras, completamente forradas de pó e com datas anteriores ao nascimento dos avós dos meus tios. O chão empedrado era irregular e poeirento. Pelo meio daquele cenário antigo, foram colocados focos fortes de luz, equipamento de apoio do mais moderno que existia. Numa das laterais, resguardado do restante espaço, fora estruturado um sector para a privacidade dos manequins e outro para hairstyle and make-up.
Peter estava junto ao tripé que enfrentava o cenário, afinando as definições da Canon EOS 1D X, enquanto diversos elementos da equipa de produção se atarefavam pelo espaço. Não via Peter havia cerca de dois anos e notei que a chegada aos cinquenta anos não fora cruel com ele.
— Peter! — chamei, ao entrar na catacumba de vinhos.
Ele olhou para mim e o seu rosto iluminou-se, dirigindo-se para onde eu estava e oferecendo-me um abraço carregado de saudade. Indiferentes a tudo o que nos rodeava, ficámos a conversar sobre as nossas vidas, os acontecimentos... Peter ainda estava com o dinamarquês. Não escondeu o lamento quando lhe contei do desfecho da minha relação com Mafalda. Repreendeu-me por não lhe ter ligado a contar para que me pudesse dar uma palavra de ânimo.
Por entre a conversa, vi uma rapariga a mexer na máquina de Peter. Tinha uma imagem alternativa, deveria ser uns dez centímetros mais baixa que eu. Usava o cabelo castanho comprido atrás e totalmente rapado nas laterais. Vestia uma camisola sem mangas e calças de ganga justas. Os braços estavam completamente tatuados. O corpo era atlético, musculado com as curvas trabalhadas por demasiado exercício físico, o que lhe acentuava o peito e o rabo. Calçava botas da tropa sem atacadores. E usava uns cinco piercings em cada orelha. Era o pacote completo daquilo que eu não gostava numa mulher.
— Quem é a miss tatoo? — questionei, apontando para ela.
Peter sorriu.
— É a Leo, a minha assistente. — informou. — Tal como tu, também é uma fotógrafa talentosa. Acho que ganhei o gosto em ter discípulos. — Deu uma gargalhada. — Conheci-a num workshop em Manchester. Topei-lhe logo o talento e convidei-a para trabalhar comigo.
— É inglesa?
— Luso-galesa. — corrigiu. — A mãe é portuguesa, o pai é galês.
— Parece novinha. — constatei.
— Vinte e um anos.
— Parece ter quinze. — exagerei.
Peter soltou nova gargalhada. Depois, virou-se para o cenário e chamou:
— Leo! — A rapariga virou-se. — Come here.
Leo caminhou até nós, observando-me com semblante curioso, revelando um olhar em tons de mel penetrante.
— Yes?
Percebi que deveria falar português, uma vez que Peter respondeu:
— Este é o Daniel.
— Hello! — cumprimentei.
— Olá! — retribuiu com um sotaque britânico acentuado de quem não fala regularmente a língua portuguesa.
— O Daniel é fotógrafo. — apresentou Peter. — O meu antigo delfim.
Sorri, retorquindo:
— Não digas isso assim, ainda sou obrigado a cantar "sou como um rio".
O rosto de Leo revelou a mais completa confusão, não percebendo ao que me referia. Também não se interessou e ficou a olhar para mim como se esperasse mais alguma informação que justificasse que a tivessem chamado.
— O Peter foi o meu mentor. — continuei. — Ensinou-me muito.
— Oh yes. Peter ensinar very well. Sorry... — Interrompeu-se, atrapalhada com a mistura de idiomas. — O Peter é muito bom profésser. Eu tenho aprendido muito com ele.
— Se preferires, podes falar comigo em inglês. — sugeri, percebendo o seu esforço e notando que o piercing na língua também não ajudava.
— No, no. — recusou. — Quero treinar more o meu portuguese.
Alguém chamou Peter e ele afastou-se. Para minha surpresa, Leo deixou-se ficar a meu lado.
— Também vais trabalhar with us. Sorry... connosco?
As suas trocas divertiam-me. Sorri-lhe e respondi:
— Não. Vim só visitar o Peter. Já não o via há uns tempos.
— O Peter falar muito em ti. — contou ela, coçando o cotovelo. — But... Eu já tinha ouvido about... sobre teu trabalho. — Lançou-me um olhar curioso. — Fotografaste mesmo a supermodel Tânia quando she... quando ela era teenager?
— Sim. — confirmei. — Fomos colegas na escola.
— Oh. — espantou-se. — Eu ver muito trabalhos teus. Gostar muito da forma como tu shoot... fot... fotoin...
— Como eu fotografo?
— Yes. Thank you. — agradeceu numa mistura de embaraço e diversão.
— Já te disse que podes falar em inglês.
— És muito simpático, Daniel. — O meu nome na sua boca soava a algo parecido com "deinial". — E giro!
Percebi o piropo, mas fiz de conta que não ouvi. Desviei a atenção para os manequins que desfilaram para o cenário. Leo afastou-se para junto de Peter sem dizer mais nada.
Fiquei a assistir a toda a sessão fotográfica. Por vezes, Peter desafiava-me a dar uma sugestão, mas eu não aceitei o desafio por uma questão de cortesia profissional. As horas que ali passei foram agradáveis e desanuviaram-me o espírito, apesar de não ser eu quem se ocupava das fotos.
Muitos dos manequins já me conheciam, já tinham sido fotografados por mim. Uma das raparigas, uma loura deslumbrante de ascendência russa, pediu a um assistente para me entregar um papel. Li nele o seu número de telemóvel e um convite para sairmos. Sabia o que ela pretendia com isso, qualquer homem se sentiria afortunado por ter a possibilidade que ela me abria. Atirei-lhe um beijo discreto e pisquei-lhe o olho. Ela sorriu agradada, respondendo com um lamber de lábios. O papel foi parar ao lixo, quando saí dali.
No final da sessão, despedi-me de Peter.
— Vê lá se não ficas tanto tempo sem dar notícias, Daniel.
— Prometo que ligo, Peter. Os últimos tempos é que foram muito complicados.
— Eu compreendo.
Partilhámos um abraço forte.
Quando estava perto da saída para o átrio do edifício, ouvi uma voz chamar-me. Virei-me e vi Leo numa passada rápida atrás de mim.
— Ias embora sem dizer goodbye?
A questão pareceu-me despropositada. Mal a conhecia, que importância tinha se me despedia dela ou não? Contudo, não fui indelicado ao ponto de o verbalizar.
— Desculpa! Estavas ocupada e eu tenho de ir andando.
— I like... Gostava de conversar more contigo. — Franzi o rosto, denotando que não via qual o objectivo. — É sempre bom poder conversar com bons fotógrafers. — Encolhi os ombros, um gesto que ela interpretou como tentativa de encontrar uma oportunidade. — Queres beber um copo? Later? Não sei se vives no Porto...
— Não.
O meu "não" era resposta ao viver no Porto. Leo escutou-o como uma recusa ao seu convite. A decepção que se lhe estampou no rosto, afectou-me. Insurgi-me contra mim. Bolas, a rapariga só queria aprender mais coisas sobre fotografia. Nem tudo o que usa saias te quer comer, Daniel! Bom, ela não usava saia. Se todos fossem tão intransigentes como eu estava a ser, talvez não tivesse aprendido tanto sobre fotografia. Se o Peter tivesse sido assim, eu nunca teria chegado onde cheguei.
— Não, não vivo no Porto. Vivo em Gaia.
O rosto de Leo iluminou-se.
— Oh... Here?
— Não, mais perto da costa.
— Não conheço nada in Portugal. — lembrou, repetindo o tique nervoso de coçar o cotovelo. — Então? Bebemos um copo?
Tive uma ideia que certamente a faria desistir da bebida comigo. Ela não conhecia nada em Portugal, por isso...
— Estou um pouco cansado. Mas, se quiseres, podes passar por minha casa. — Pedi um papel e uma caneta ao recepcionista. Escrevi o endereço do meu apartamento. — Esta é a minha morada.
Leo recebeu o papel, meio perdida. Sorri-lhe como quem ficava a ansiar pela sua chegada e abandonei o local, certo que nunca mais a veria na vida.
Tal como em tantas outras noites, ali estava eu na sala, sentado no sofá, sozinho, a ver o canal Fashion TV na televisão. Gostava de ver os diversos clipes de sessões fotográficas, as reportagens, as conversas com os fotógrafos. Nunca me senti dominador de todo o conhecimento e procurava sempre saber mais e obter novas ideias para a fotografia. O meu serão foi interrompido pelo soar da campainha. Quem seria àquela hora? Alguém a chatear, certamente, algum entregador de panfletos de publicidade. Caminhei até à porta e peguei no intercomunicador.
— Quem é?
— Deinial?
Pela pronúncia, reconheci de imediato a jovem assistente de Peter. Encostei a cabeça à parede, agastado pelo fracasso da minha ideia dessa tarde.
— Sim. — respondi.
— É a Leo. — informou num tom alegre.
Carreguei no botão para abrir a porta do prédio, tendo depois aberto a do apartamento. Ouvi os seus passos rápidos a subir a escada até surgir diante de mim.
Leo vestia um blusão de aspecto militar e uns calções tão curtos que era possível ver a totalidade das suas pernas tatuadas até entrarem nas mesmas botas da tropa sem atacadores.
— Olá! — cumprimentou, adicionando dois beijos como se fossemos amigos de longa data. Sorriu feliz. — Consegui cá chegar.
Entrou sem esperar convite e despiu o casaco, revelando o top justo, estilo caicai, com desenhos de bonecos infantis. O tecido era tão fino que lhe conseguia notar o relevo dos mamilos, uma vez que não tinha dúvidas que era a única peça que vestia da cintura para cima.
— Queres beber alguma coisa? — ofereci, conduzindo-a para a sala.
— Foi para isso que vim. — retorquiu na brincadeira, observando tudo à sua volta. — O que tens to drink?
Não tinha muita coisa, apenas cervejas no frigorífico e algumas garrafas de vinho tinto na garrafeira do balcão da cozinha. Ela escolheu o vinho. Abri uma garrafa de Douro, a mais baratinha que guardava, e trouxe dois copos de pé alto. Leo aguardava sentada no sofá. Servi o vinho e entreguei-lhe o seu copo, sentando-me a seu lado.
— Cheers! — desejou, tocando com o copo no meu.
Bebemos um pouco e Leo começou a falar sobre como gostava de fotografia, relatando a forma como surgira a paixão pela captação de imagens, os estilos com que mais se identificava. Por entre misturas de idiomas e sotaque acentuado, dei por mim a ouvi-la com interesse. Acabei por partilhar a minha história de como aquele passatempo se tornara em profissão, falei dos projectos que realizei, os estilos que mais preferia em contraponto com o que menos apreciava. Sem que me lembre bem como, a conversa foi dar a Tânia.
— I adore her. — confessou, fascinada. — Tânia ser uma mulher muito pretty. — Sorriu envergonhada. — Tenho uma... crush por ela.
— Ela é muito bonita. — concordei, evitando referir que já dormira com ela. Nem sequer falei no namoro da escola. — Não a vejo há anos.
Notei o interesse cada vez mais intenso na expressão de Leo. Não sei se era sede de conhecimento ou efeito dos três copos de vinho.
— Gostei muito daquele photoshoot... — prosseguiu, estendendo-me o copo para que o enchesse novamente. Eu ainda beberricava o primeiro. — Com aquela actress...
Leo referia-se a um trabalho fotográfico que eu fizera para uma revista masculina, onde fotografei uma actriz de telenovelas em topless numa produção nas piscinas de um hotel do Porto. Na altura, fiquei aparvalhado ao saber a fortuna que ela cobrou para ser fotografada assim. Bom... na verdade, o que me chocou foi a revista se ter disposto a pagar semelhante quantia.
Para minha surpresa, Leo esvaziou o copo e pediu:
— Gostava de ser fot... fotógrafade por ti.
Não me importei de satisfazer o seu desejo e fui buscar a minha máquina fotográfica. Puxei uma cadeira para frente do sofá, defronte dela, e sentei-me, observando-a através da lente. Fiz alguns disparos ao seu rosto sorridente, algo inebriado. A seguir, tornei a sentar-me a seu lado e mostrei-lhe as fotos. Ela ficou muito agradada com o resultado, apesar de eu achar que estavam normalíssimas.
— Can you... — Notei que o álcool lhe estava a dificultar a organização das frases, misturando cada vez mais o inglês com o português. — Podes fazer de all body?
Para a fotografar de corpo inteiro, a sala não era o melhor lugar. Por isso, convidei-a a acompanhar-me ao segundo quarto da casa, o qual me servia de mini-estúdio. Nunca fotografara lá ninguém, para além de Mafalda. Não era um espaço muito grande, mas as paredes de cor sólida serviam bem para cenário. Devolvi a máquina ao tripé e indiquei a Leo que pousasse como entendesse defronte dela.
Ela seria muito melhor fotógrafa que modelo, pois não tinha grande empatia com a lente. Fez algumas poses simples e eu fotografei-a sem grande pormenor às definições. A cada disparo, Leo vinha até mim para espreitar o resultado e tornava a afastar-se satisfeita. Ao fim de várias fotos, pediu:
— Podemos tirar one together?
— Sim. — concordei, afinando o ângulo para que coubéssemos ambos no plano. Peguei no comando à distância, que me permitia fazer o disparo longe da máquina, e fui para o lado dela.
— Posso? — pediu, olhando para o comando.
Disse-lhe que sim, entregando-lhe o pequeno objecto e explicando onde deveria carregar. Leo pediu que me colocasse atrás de si. Eu era mais alto que ela, pelo que os meus olhos ficavam acima da sua cabeça. Ela encostou-se ao meu peito. Atrás dela, a minha postura era semelhante a um soldado numa parada militar.
— Do you mind... Sorry. Importares-te que seja one foto sexy? — indagou sem se virar.
Sem saber muito bem o que ela consideraria uma foto sensual, concordei, dizendo:
— É como tu quiseres.
Com gestos decididos, Leo levou as mãos ao cimo do top e puxou-o para baixo até à cintura. Não conseguia ver do ângulo onde estava, mas não tinha dúvidas que nada lhe cobria os seios. A seguir, colocou as mãos nas ancas, segurando o comando de forma discreta para que não se notasse na foto. pensei que ia disparar, quando ouvi novo pedido:
— Can you put your hands in my boobs? — Hesitei. E ela insistiu. — Gostava que tu put tuas mãos nos meus mamas... Pleeease?!
Que se lixe. Não ia ser desmancha-prazeres. Passei os braços por entre os seus, que se mantinham apoiados nas ancas, e coloquei cada mão aberta a agarrar um seio. Senti os seus peitos como dois rochedos, certo que havia silicone neles. Nas palmas das mãos, ao toque frágil dos mamilos, juntou-se a sensação fria de dois aros metálicos que calculei lhos perfurassem.
Antes de carregar no botão, questionou num tom provocador:
— Do you like touch my boobs?
— Please, take the picture! — pedi, desconfortável.
Leo fez o disparo, registando o momento. E eu retirei as mãos logo de seguida, ao que ela respondeu com o puxar do top novamente para a posição original.
Aproximámo-nos ao mesmo tempo da máquina. Eu carreguei nalguns botões para fazer um preview... Bolas, já pareço a Leo a falar. Para fazer a pré-visualização da foto. Ela encostou-se intencionalmente a mim e analisou a imagem com agrado. Depois, olhou-me nos olhos e disse:
— I love your work. — O tom era meloso. — Tu és muito... sweet... querido.
Antes que tivesse tempo para qualquer reacção, Leo beijou-me.
Apesar de ter imensas características que eu não gostava numa mulher, as tatuagens, os piercings, o silicone, os músculos muito salientes... ela não deixava ser atraente.
Não me recordo muito bem dos momentos imediatamente a seguir ao beijo. Só já recordo estar deitado no chão do pequeno estúdio, completamente nu, a olhar para Leo igualmente nua a chupar-me entusiasmada. Todo o seu corpo tinha tatuagens, à excepção do peito, barriga, topo das costas, entre as pernas e nas nádegas.
Estava a saber-me bem, fazendo-me perceber que o meu organismo precisava daquilo, reclamando que há demasiado tempo que estava sem sexo. Tentei abstrair-me do "prego" que ela tinha na língua que me provocava uma sensação diferente. Se tivesse pensado nisso antes, julgaria que aquilo me iria magoar. Mas, não. Para além disso, Leo sabia o que fazia.
Ao fim de algum tempo, parou. Olhou para mim visivelmente ébria, ou melhor, bêbeda. Os copos de vinho faziam o seu efeito e ela exagerara na quantidade que bebera antes das fotos. Sorriu divertida. As suas mãos acariciavam-me os genitais. Com a voz entaramelada, sussurrou:
— Tens condoms?
Confesso que mesmo com a minha fluência em inglês, no meio daquela excitação, pensei que me estivesse a perguntar se eu era dono de condomínios. Porém, rapidamente percebi ao que se referia e respondi que não tinha preservativos.
Ao ouvir a resposta, Leo tornou a sorrir e largou-me. Levantou-se do chão, meia cambaleante, e procurou a roupa caída no chão. Pensei que a resposta tivesse sido um turn off do momento. Talvez fosse melhor assim. Aproveitei o seu afastamento para me levantar. Ao ver-me, ela travou-me com um gesto para que esperasse. Ainda bastante excitado, aguardei, observando-a com desejo.
Leo encontrou os calções minúsculos que trouxera vestidos. Procurou o bolso pretendido e retirou uma embalagem imaculada contendo a borrachinha. Malandra, pensei, tinha tudo planeado, a miúda.
Sem perder o sorriso alcoolizado, regressou para junto de mim, ajoelhando-se no chão e segurando o quadrado prateado. Retomou a posição anterior, tocando-me o ombro para que me voltasse a estender ao comprido e rasgou a embalagem com os dentes.
— Can I? — ofereceu-se.
Assenti e vi-a retirar uma borracha redonda verde do invólucro. Com uma ternura bêbeda e dificuldade em acertar, depositou a borracha na extremidade da minha excitação. Desenrolou um centímetro, olhando-me nos olhos com uma expressão lânguida. Piscou o olho esquerdo e baixou a cabeça para continuar com os lábios. Constatando que estava no lugar, Leo elevou-se ligeiramente, desequilibrando-se e quase caindo para o lado, não fosse eu tê-la segurado. Deu uma gargalhada divertida e esforçou-se para não parecer tão ébria.
Não me senti a fazer o mais correcto, parecia que me estava a aproveitar de uma miúda bêbada que tinha uma atracção por mim. É certo que o sexo fora iniciativa dela, mas cabia-me a mim, pela idade e lucidez, ter-lhe posto juízo na cabeça e ter colocado imediatamente um fim naquilo. No entanto, a cena fizera-me perceber que o sexo me fazia falta e ela já me deixara tão excitado que seria difícil parar por ali. Para além disso, estava farto de me preocupar com moralidades, afinal, a vida insistia em lixar-me constantemente, roubando-me as pessoas que mais amava. Borrifei-me para o certo ou errado e deixei que Leo prosseguisse na sua tentativa de acoplarmos.
— Come! — convidou, abrindo as pernas sobre mim.
Ao vê-la assim, a conduzir-me para ela, a imagem de Mafalda atormentou-me a cabeça. Estremeci. Leo não se apercebeu. Subitamente, tive noção que não conseguiria encarar outra mulher, senão ela, para fazer aquilo. Tinha a certeza que, se tentasse continuar e a ver um rosto que não o de Mafalda, o mais certo seria perder a vontade.
— Espera! — pedi, quando ela estava quase a aterrar.
Surpresa, olhou-me com uma expressão confusa.
— Assim não. — expliquei sem grandes explicações. — Levanta-te, por favor. — Ela não se moveu de imediato, esperando mais esclarecimentos. — Quero fazer noutro sítio, não aqui.
Leo sorriu provocadora.
— Oh... Ok. Seu naughty boy.
A imagem de Mafalda continuava na minha cabeça. Que merda, parecia que o seu espírito me queria atormentar e impedir de obter a gratificação daquela cena. Levantei-me do chão, defronte do olhar atento de Leo, expectante para saber o que eu queria. Segurei-lhe na mão, irritado, não com ela, mas com a mulher que mais amara em toda a minha vida e que me afastara de si, impedindo-me de, pelo menos, uma despedida. Sem me aperceber, puxei Leo atrás de mim. Ao sair do estúdio, olhei para o meu quarto. Não! Ali seria o último sítio onde o faria com outra mulher, aquele fora o nosso ninho de amor, o meu e de Mafalda.
Avançámos pelo corredor em direcção à sala. Larguei-a junto ao balcão que separava a sala da cozinha. Leo ficou a olhar para mim com uma expressão de desejo, mordiscando o lábio inferior e com a respiração acelerada.
Eu também estava com a respiração acelerada, excitado, enraivecido e furioso. Tentava afastar para longe do pensamento o rosto de Mafalda sem sucesso. Todo o meu corpo se consumia em desejo pela miúda na minha frente e em ódio pela vida, pela realidade que me roubara o amor da minha vida.
Leo encostou-se ao balcão, apoiando as mãos no tampo de pedra, pensando, talvez, se deveria sentar-se nele.
— Podes virar-te? — sugeri como um pedido que só quereria uma resposta. Sabia que não conseguiria prosseguir se tivesse que encarar um rosto que não fosse o de Mafalda. Por isso, queria que Leo ficasse de costas para mim.
Não vendo qualquer mal nisso, Leo rodou e virou-se para o balcão. Eu puxei-a suavemente pelas ancas, demonstrando o que pretendia. Ela não compreendeu e recusou:
— Not in the ass, Deinial.
Não respondi. Ou melhor, a minha resposta foi encostar a ponta da borracha à sua vagina.
— Sim. — murmurou como um assentimento agradado.
Penetrei-a com a delicadeza de um carroceiro. Ela soltou um gemido que pareceu algo arranhado, mais doloroso que gostoso. Mas, não se queixou. Pouco me importou. Continuava irritado, corroído pela necessidade de extravasar o desejo e consumido por estar a fazer aquilo com alguém que não era Mafalda. Leo não tinha culpa, mas naquele instante era-me meramente um objecto para a finalidade, uma vagina para foder, tão boa como qualquer outra. Assim que me acomodei dentro dela, agarrei Leo pelos ombros e marquei o ritmo.
Não sei se estaria a ser bom para ela, nem me importei. Acho que fui tudo aquilo que sempre achei que um homem não deveria ser num momento íntimo com uma mulher. Ela estava debruçada no balcão, apoiando os cotovelos no tampo e pressionada entre mim e o móvel. Talvez nem estivesse confortável. Mas, não se queixou.
A imagem de Mafalda não me abandonou. Tudo aquilo se tornou desconfortável, não me conseguia concentrar nem obter um prazer decente para além do esvaziar da excitação. Dei por mim a querer que tudo terminasse o mais depressa possível. Intensifiquei o ritmo
No silêncio da sala com a cozinha, o único som era a minha respiração e a voz dela.
— Oh yeah... — ouvi-a gemer.
Larguei-lhe os ombros. Agarrei-a pelo cabelo e enfiei a outra mão por baixo do seu braço, procurando-lhe o seio mais próximo. Continuei a investir brutamente contra ela, dentro dela.
— Oh yes... yes... oh... yes. — A voz dela ecoava pelo espaço amplo. Fechei os olhos, imaginando que era Mafalda quem ali estava. Era sujo, eu sei. Só mesmo um traste é capaz de estar com uma mulher a pensar noutra. Concentrei a atenção nas sensações de prazer, tentando abstrair-me de a escutar. — Yes... oh yes... fuck me Deinial... yes... oh... fuck me... fuck me hard.
A voz dela desconcentrava-me e dava-me a estúpida sensação de atrasar o orgasmo. Soltei-lhe os cabelos que segurava como se fossem um puxador e deslizei a mão pelo seu pescoço, pelo queixo, pela boca e cobri-lhe os lábios para a calar.
Leo levantou um dos braços com que se apoiava e levou a mão à minha, puxando-me o pulso. Não conseguiu e os seus gemidos tornaram-se mudos, amordaçados pelos meus dedos.
Aquilo só durou mais alguns minutos. Para mim foram como horas intermináveis, mas calculo que para Leo não tivesse passado de uma escassa meia dúzia de minutos. Quando atingi o auge, os espasmos percorreram-me o corpo e o ritmo foi desacelerando até ficarmos imóveis. Saí de dentro dela sem qualquer sensibilidade, afastando-me sem uma palavra e com a certeza que o prazer dela naquilo fora pouco mais que zero.
A lucidez do pós-orgasmo fizera-me cair na realidade, de como fora tudo aquilo que sempre achei que um homem não deveria ser num momento íntimo com uma mulher. Não consegui encará-la de imediato e, quando ela se começou a voltar para mim, eu virei costas e refugiei-me na casa de banho.
Não foi nada que se assemelhasse a fazer amor com Mafalda. Talvez por isso mesmo, porque não estávamos a fazer amor, estávamos a fazer sexo. Fiquei sentado na sanita a pensar como agir, o que fazer. Não me orgulhava de ter sido tão insensível, mas também não dera muita importância a isso. Na verdade, estava mais desiludido com a minha postura que propriamente com aquilo que Leo pudesse pensar ou sentir. Ouvi os seus passos no corredor. Pelo som, percebi que fora ao estúdio buscar a roupa. Para fazer tempo, entrei no polibã e passei o corpo por água, desejando que ela tivesse a cortesia de se ir embora antes de eu sair da casa de banho. Cortesia? Mereceria eu cortesia?
Não ouvi nada, quando fechei a água. Enrolei uma toalha à volta da cintura e saí para o corredor. Não tive sorte, Leo permanecia na sala, já vestida, em pé com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão neutra, aguardando que eu reaparecesse.
—I have to go. — disse sem se importar em falar unicamente inglês, quebrando a ausência de sons.
Já era tarde, muito tarde. O relógio indicava que as duas da madrugada já haviam ficado para trás.
O Daniel de um tempo anterior ao desaparecimento de Mafalda teria ficado preocupado com uma rapariga em trajes reduzidos que teria de apanhar um táxi, onde raramente passaria um, para regressar ao hotel. Esse Daniel, teria imediatamente oferecido boleia para a transportar em segurança, teria pedido que ela esperasse um pouco, ia vestir-se, emprestava-lhe um capacete e faria com ela a pequena viagem. Porém, esse Daniel parecia ter morrido juntamente com Mafalda.
Para quê preocupar-me com a segurança dos outros, proteger, evitar que corressem perigos, se do nada aparecia a merda de uma doença e decepava-me de quem eu mais amava? Não voltaria a ter esse tipo de preocupações, muito menos com uma semidesconhecida que não passara de uma foda.
— It's late. I have to go. — repetiu, não sei se à espera que lhe desse uma solução.
Anuí indiferente e disse:
— É melhor chamares um táxi, antes. Não costumam passar por aqui, a menos que os chamem para cá.
O seu rosto demonstrou decepção. Que queria ela? Que lhe dissesse "se quiseres, podes ficar, podes dormir cá, esta noite"?
Foi a vez de ela assentir indiferente.
— Tens algum táxi number?
Abanei a cabeça e não me mostrei disponível a ajudá-la. Estava a ser um autêntico crápula. Ela percebeu. Aliás, era evidente que a queria dali para fora o quanto antes.
— Can you... — Abanou a cabeça, refilando consigo. — Podes enviar fotos para meu email? — Esboçou um sorriso. — Gostei muito de fazer fotos contigo. E do resto...
Não sei muito bem o que me fez "descer à terra", tomar consciência que estava a ser uma vergonha de ser humano. Do nada, imaginei o que diriam os meus tios se vissem aquele meu comportamento. Não se orgulhariam, tenho a certeza. Para além disso, havia algo de frágil e magoado na voz de Leo.
— Claro que sim. — concordei. — Qual é o teu email?
Leo informou o endereço e eu escrevi-o nas notas do meu telemóvel. Tornou a esboçar um sorriso e despediu-se:
— Goodbye Deinial!
— Espera! — pedi, cada vez mais lúcido. Leo ficou imóvel a encarar-me com expectativa. — Desculpa! — Ela pareceu confusa. — I'm sorry!
Eu não disse mais nada. Leo teve a simpatia de anuir sem que eu tivesse necessidade de justificar o pedido.
— Não precisas desculpas. — respondeu, fazendo um aceno de despedida.
— Espera! — pedi de novo, ao mesmo tempo que olhava para o telemóvel. — Deixa-me chamar-te um táxi.
A sua resposta foi uma expressão agradecida.
Pesquisei rapidamente, na Internet, um serviço de táxis que estivesse disponível vinte e quatro horas e que abrangesse aquela zona. Ao encontrar, marquei o número e solicitei o transporte, explicando a minha localização e o destino do passageiro.
— Chega em dez minutos. — informei-a, ao desligar. — Podes esperar aqui, não precisas de ir lá para baixo.
Leo recusou a oferta. Percebi que tinha pressa em sair dali. O desconforto era recíproco. Pensei em oferecer-me para pagar o táxi, mas tive a decência de não o fazer, uma vez que depois do que havíamos feito junto àquele balcão, isso seria quase como estar a pagar a uma prostituta.
— Prefer esperar no rua. — adicionou.
Não a contrariei e acompanhei-a à porta, tendo o cuidado que a toalha não caísse com os meus passos. Abri a saída e sorri-lhe simpaticamente.
Ela retribuiu o sorriso e pediu:
— Can I kiss you?
— Sim. — respondi, baixando-me ligeiramente e dando-lhe um beijo nos lábios.
Foi como uma espécie de trégua, um acordo tácito de que estava tudo bem e não haveria cobranças pelo que fora bom ou não, naquela noite. Antes de sair, acariciou-me o peito nu com ternura.
— Posso return... — Riu atrapalhada. — What a hell... Estou sempre a mix o english com o portuguese.
— Não faz mal, eu percebo-te. — retorqui, cansado. — E já te disse que podes falar sempre em inglês.
Acho que o beijo de despedida lhe criou expectativas que eu não tivera intenção.
— Posso voltar tomorrow, if you want... se quiseres.
Apesar de tudo, Leo queria repetir. Eu fora um péssimo amante. Ela não merecia que eu a tivesse usado daquela forma, só para expurgar os demónios da minha alma e saciar a fome sexual. Não queria fazê-la passar pelo mesmo. E seria isso que aconteceria se ela voltasse. No entanto, Leo era uma mulher interessante, se me abstraísse de toda a pintura e espetos que carregava na pele, e o meu lado mais animalesco não se importaria de repetir... Mas, não ali, não na casa onde vivera os momentos mais felizes da minha vida. Talvez num outro cenário, Mafalda não aparecesse na minha mente. Abanei a cabeça.
— Aqui não. — recusei sério. — Vou ter contigo ao hotel, se quiseres. — Ela sorriu com a sugestão. — Não precisas de vir de táxi como hoje. Vou lá ter contigo.
Olhou para mim numa mistura de carinho e desejo. Anuiu, soprou-me um beijo e foi-se embora.
Não tinha sono, quando fui para a cama. Não conseguia deixar de pensar em Mafalda, imaginando que ela me observava do Céu, ferida, magoada, triste por a ter traído com outra. Senti a tristeza abater-se sobre mim, intensificando ainda mais a escuridão do quarto onde não conseguia habituar-me a dormir sozinho, desde a última noite que Mafalda lá dormira. Ao fim de muitas voltas na cama, acabei por adormecer.
Acordei com o toque do telemóvel, a meio da manhã, despertado por um cliente que me queria contactar. Não atendi para não revelar a voz de sono com que falaria com ele e só retribuí o telefonema mais tarde. Pelo menos, servira para me despertar. Uma hora depois, já estava na cozinha a tomar o pequeno-almoço e a rever as fotos da noite anterior na máquina fotográfica, relembrando o compromisso que assumira com Leo de lhas enviar por email. A minha análise às fotos foi interrompida quando o meu telemóvel voltou a tocar, desta vez um amigo. Não me recordo a razão do telefonema do Peter, apenas aquilo que o tornou importante, o que se cruzou no nosso diálogo.
Peter estava a dizer-me algo, quando pediu:
— Espera um pouco, Daniel. A Leo acabou de chegar e tenho um recado para ela.
Aguardei, ouvindo-o a chamá-la. Entres eles falavam sempre em inglês e, como ele não tapou o microfone, eu ouvi o recado. A mensagem traduzida foi algo do género "o teu marido ligou, diz que tentou contactar-te várias vezes sem sucesso e pede para lhe ligares".
Disfarcei a surpresa, quando Peter regressou à linha.
— Marido? — interroguei. — A Leo é casada?
— Sim, porquê? — confirmou, desconfiando da pergunta.
— Por nada. Parece tão nova.
— Vá lá, Daniel. A miúda tem vinte e um anos. Não é assim tão anormal estar casada.
Pois não. Anormal é ser casada e ter relações sexuais com outro homem.
Ao fim da tarde, fui de mota até ao hotel onde Peter e Leo estavam hospedados. De capacete na mão, dirigi-me ao recepcionista e pedi para avisar a fotógrafa que eu chegara. Eficiente, ele pegou no telefone e ligou para o quarto dela.
— Ela diz para o senhor subir. — informou.
Recusei.
— Desculpe, mas diga-lhe que prefiro que ela desça.
O funcionário voltou a encostar o aparelho ao ouvido e transmitiu o meu pedido.
— Ela desce já. — disse, pousando o auscultador.
— Obrigado.
Caminhei até aos sofás do átrio e sentei-me.
Leo apareceu com uma indumentária semelhante à da noite anterior. Trocara apenas os calções por calças. Revelou alguma estranheza na expressão, quando me viu, quase como se interrogasse o porquê de ter-me recusado a subir. Acho que o meu rosto deve ter denunciado que algo não estava bem, uma vez que ela parou a um metro de mim e cumprimentou distante:
— Hi!
— Olá!
— Não quereres subir? Fiquei com ideia que vires para... — Fez uma expressão de "sabes ao que me refiro" e coçou o cotovelo.
— Tu és casada? — atirei com rudeza.
A pergunta fê-la arregalar os olhos, talvez questionando-se como eu descobrira. Pelo menos, teve a decência de não tentar negar ou inventar uma patranha qualquer.
— You don't ask. Tu no...
— Não precisas traduzir. — interrompi num tom ríspido. — Não achas que me devias ter dito?
Perante a minha agressividade, Leo correspondeu com um semblante agreste.
— Foi only... apenas sex. — afirmou, fulminando-me com o olhar. — E foi... How do you say? Rough sex. — Pela primeira vez, deixava claro que eu não fora nada meigo e fora sexualmente rude e agreste com ela. Notei que uma certa raiva lhe crescia na voz, mas procurava conter-se por estarmos num lugar público. — No one... Nenhum de us quer more que isso. Apenas sex. — Atirou um sorriso escarninho. — If you... Se tu saberes que eu ser casada, no fuck me?
Percebi a irritação crescente na forma trapalhona como misturava as palavras. Calculo que tudo o que fora mau para ela, na noite anterior, ficara arrumado num canto do seu cérebro para agora vir ao de cima e enfrentar-me com algo do qual eu próprio me envergonhava.
Contudo, não dei parte fraca e falei com a mesma segurança e rispidez, mantendo igualmente o tom baixo para não atrair a atenção de outros hóspedes ou funcionários.
— Não! — afirmei seguro disso. — Não me agrada ser motivo de adultério. — A palavra não foi entendida por ela, por isso expliquei. — Que me uses para enganar o teu marido.
— Oh God!!! — exclamou exasperada. — Não deves ser tão old... tão... Shit! Qual ser a palavra...?
— Antiquado? — Mais uma que ela não compreendia. Lancei nova opção. — Conservador?
— Yes!
— Sou como sou.
Leo não quis dar-se por vencida. Olhou para cima, abanou a cabeça e suspirou.
— Seres um... — Esperei que ela concretizasse sem a ajudar a encontrar a tradução para português. — You are a fool.
Não, não era um tolo. Ou talvez fosse...
— Já te disse, sou como sou.
Houve um impasse no diálogo. Não sei o que ela esperava de mim. Nem sequer sei o que esperava eu de tudo aquilo. Enquanto a observava, concentrei-me em tudo o que ela tinha que me desagradava. Contudo, Leo não revelou encarar a situação como um ponto sem retorno, aliás, até demonstrou que tudo se poderia resolver facilmente, alterando o tom para um timbre meloso e sedutor:
— Vou ficar mais uns semanas in Portugal. Why... Porque no aproveitar? Podemos divertir a lot... muito. Meu marido não precisar saber. Forget him!
Com o sorriso amarelo, revelei o quanto estava desapontado.
— Fica bem, Leo!
E virei costas.
Leo encurtou a distância e segurou-me o braço.
— Please. Don't go.
O seu olhar revelou-se carente. Que raio? Eu não precisava daquilo. Não esperou resposta e aproximou a boca do meu rosto. Julguei que me fosse dar um beijo na face, mas ao invés, segredou-se ao ouvido:
— Please. Sobe comigo. Poderes ser... rough... bruto comigo, outra vez. I don't mind.
Afastei-a com gentileza e olhei-a nos olhos.
— Não faças isso. — pedi num tom afável. — Nunca te submetas a ser... maltratada. — Sorri numa expressão idiota. — Acho que não te maltratei, talvez tenha sido rude e não tenha feito com que fosse gratificante para ti, mas... Bolas, não te maltratei.
Apesar de falar com poucas pausas, ela compreendeu tudo o que eu disse. Abanou a cabeça e esboçou um semblante triste.
— No. Tu não me fazeres mal. — Encarou-me o olhar. — Mas, foi um lousy sex, um péssi...
— Eu percebi, Leo.
— Sobe! — exigiu. — Deveres-me isso.
— Não te devo nada. — retorqui, afastando-lhe a mão que me segurava o braço. — Fica bem, Leo.
E com aquelas palavras, deixei-a sozinha no átrio do hotel.
Peter e Leo permaneceram no Porto algumas semanas, quase até Agosto. Peter e eu conversámos muitas vezes por telefone e chegámos a encontrar-nos mais duas vezes para beber um copo e desfrutar da companhia do outro. Não voltei a cruzar-me com Leo em todo esse período. Perto da data da partida de regresso a Edimburgo, o meu amigo e mentor visitou-me em minha casa. Foi uma noite animada, recordando outros tempos, desde que nos conhecêramos, passando pela minha ida para a Escócia, o seu apoio e aprendizagem, até ao momento em que regressei a Portugal.
— Achei que eras louco. — confidenciou. — Regressar logo num ano em que a crise estava instalada cá, o resgate financeiro, a economia a cair...
— Sabes bem porque vim.
— Mafalda.
Assenti, fazendo um gesto para que falássemos sobre outro assunto.
Devemos ter estado umas quatro horas, sentados à mesa na minha sala, a dialogar sem dar pelo tempo passar, com minis de cerveja a refrescar as gargantas. Fora quase como se folheássemos um álbum de fotografias, recordações de outros tempos. Já nos conhecíamos há muitos anos.
Peter olhou para o relógio, já era tarde, mais tarde do que esperara que fosse.
— Quando é que partes?
— Amanhã à noite. — A resposta parecia trazer pendente um outro assunto, algo que ele queria falar e não sabia como começar. — Daniel! Posso fazer-te uma pergunta? Não leves a mal.
— Claro, Peter. Diz!
A hesitação levou-me a suspeitar que era um assunto delicado.
— Tu e a Leo... — Acho que a expressão do meu rosto respondeu por mim. — Bem me parecia.
— Não sabia que ela é casada. — apressei-me a justificar, quase como se ele fosse o marido dela. — Aconteceu uma vez.
Peter fez uma expressão de ponderação.
— A Leo é boa rapariga e tem uma grande admiração por ti. Claro que é errado enganar o marido. — Fez um sorriso torcido. — Cá para nós, não foste o único com quem ela o traiu. Já houve outros. Mas, isso agora não interessa. — Olhou para mim com um semblante maduro, alguém com quem se poderia aprender bastante, se estivesse atento. — Fizeste bem em não te voltar a envolver com ela. Mas, seria necessário ter cortado totalmente?
— Não quis arriscar a que voltasse a tentar.
— Por favor, Daniel. Já és crescidinho para saber recusar essas coisas. Ambos sabemos quantas vezes foste assediado e recusaste.
— Sim, é verdade.
— Como te disse, tirando a parte da atracção física que possa ter por ti, a Leo tem uma enorme admiração pelo profissional que és. E sei que está triste por a teres afastado de forma tão dura.
— Ok, Peter. Talvez tenhas razão. Que sugeres?
— Não a deixes ir embora sem se entenderem. Dá-lhe uma oportunidade de se manterem em contacto. Ela já percebeu que não queres nada com ela, como mulher. Mas tenho a certeza que ficaria feliz se pudesse voltar a falar contigo, que lhe deixasses a porta aberta. — Parou para que eu assimilasse a ideia. — Ela quer ser tua amiga.
— Vou pensar.
Peter levantou-se, informando:
— Saímos do hotel a meio da tarde.
Unimo-nos num abraço forte, dois irmãos que se despediam sem saber quando as vidas lhes permitiriam reencontrar-se.
As suas palavras permaneceram na minha cabeça muito depois de se ter ido embora.
O Sol brilhava quente, o Verão parecia despontar a norte, após tantos dias de calor triste. Não tinha nada agendado, daí que tivesse aproveitado a manhã para um passeio na praia. Habituara-me a caminhar pelo areal sempre que precisava de colocar as ideias em ordem.
Logo após o almoço, vesti o blusão de motociclista que usava sempre, estivesse frio ou calor, quando andava de mota. Peguei no capacete e preparei-me para sair de casa. Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Não reconheci o número, por isso não atendi, mantendo a concentração na missão que destinara para mim. Desci as escadas e saí para a rua com novo toque do mesmo número. Voltei a não atender. Subi para a mota e liguei o motor potente que começou a roncar, fazendo-se ouvir bem longe. Coloquei o capacete na cabeça e arranquei rumo ao Porto.
O hotel não tinha quase movimento nenhum. Àquela hora, os turistas andavam a passear pela cidade e quem viera em trabalho estaria nos seus afazeres. Entrei com o capacete na mão e depositei-o sobre o balcão, aguardando que alguém aparecesse. Uma recepcionista carregada de simpatia protocolar interpelou-me para saber em que me poderia ser útil. Pedi para ligar para o quarto de Leo e a informasse que eu estava ali.
— Ela pergunta se quer subir. — transmitiu a funcionária, após fazer a ligação ao quarto.
Não seria boa ideia ir até ao quarto dela.
— Diga-lhe que prefiro que desça.
A minha decisão foi transmitida.
— Ela diz que desce já. — informou, desligando o telefone. — Se quiser, pode aguardar no bar. Eu digo-lhe que a espera lá.
Agradeci e afastei-me para a porta indicada. Entrei num espaço mais recatado, completamente vazio de pessoas, e sentei-me ao balcão. Um outro funcionário do hotel materializou-se através de uma porta de serviço.
— Quer tomar alguma coisa, senhor?
— Pode ser um café.
A espera foi mais longa que o expectável. Deu para beber o café e começar a pensar se a recepcionista lhe dera a indicação certa ou se lhe chegara mesmo a dizer alguma coisa. Porém, ao fim desse tempo, Leo entrou no bar com o olhar a procurar-me, o que não foi difícil já que eu era a única vivalma ali. Trazia o rosto fechado, muito séria, o cabelo preso com um elástico e vestia uma t-shirt escura gasta com o símbolo de uma banda e calças de ganga cheia de buracos. Escusado será dizer que calçava as botas do costume. Dirigiu-se a mim, coçando o cotovelo.
— Hi! — cumprimentou, parando atrás do banco a meu lado. Manteve o semblante rígido e o tom era duro. — Que surprise. Não esperar voltar a te ver.
— Caíste? — questionei, olhando para as suas calças. Leo desmanchou-se a rir. Eu gostava daquele sorriso. — Não queria que fosses embora sem nos despedirmos.
Leo retomou a postura séria, mas perdeu a dureza na voz.
— I... Eu pensara que tu don't... no querias voltar a ver-me.
— Senta-te. — convidei. Ela aceitou e ocupou o banco vago. — Queres tomar alguma coisa? — Abanou a cabeça. — Quero conversar contigo. Acho que exagerei. Não precisava de ter sido tão duro.
— I like... — ripostou escarninha. — Eu gostar de te ver duro.
Eu ia a explicar, quando percebi o seu trocadilho.
— Pára com isso. — pedi, retribuindo o sorriso que despontara no seu rosto. — Sabes ao que me refiro. — Ela anuiu. — Tu és uma tipa fixe. Tens esse ar maluco, mas eu gosto de ti.
— Vou embora daqui a few hours. — lembrou, mantendo o tom humorado. — You had your chance. Ter tua oportunidade antes.
— Pára com isso, Leo! — Baixei o tom para que o empregado não ouvisse. — Não estou a falar de sexo.
— Rough sex. — lembrou, desviando o olhar para o balcão.
— Já pedi desculpa por isso.
— Eu sei. Just kidding.
— Gostava que pudéssemos ser amigos. — sugeri.
— With benefits?
— Não. Nem coloridos.
— Ok. I try.
Partilhámos uma gargalhada.
— Quis vir aqui dizer-te isto, que adorava que mantivéssemos o contacto. — Retirei um cartão do bolso e entreguei-lho. — Tens aí o meu número de telemóvel, o email e o meu Facebook.
Leo pareceu ficar emocionada. Disfarçou, puxando o telemóvel do bolso das calças. Digitou o número que leu no cartão e carregou no "verde". O meu telemóvel tocou e ela desligou.
— Ser o meu mobile. At home, enviar um email para tu... para ti. And add you to my Facebook friend's list.
— Ok.
Leo levantou-se.
— Can I... Posso dar-te um hug... um abraço?
— Claro.
Saltou do banco onde estava sentada e aproximou-se de mim. Envolveu os braços no meu pescoço e apertou-me com carinho. Eu envolvi-a pela cintura e fi-la sentir-se querida.
Junto à minha orelha, sussurrou:
— Can I kiss you?
Afastei-a e apontei para a minha face. Ela abanou a cabeça.
— Please... — Apontou para os seus lábios. — A goodbye kiss.
Não sei porquê, olhei em volta. Foi um movimento reflexo. Acho que não queria que Peter aparecesse ali e me visse a dar-lhe o beijo que ela queria. Leo aguardou, olhando igualmente em redor. Apenas nós ali estávamos. Puxei-a pela cintura e partilhámos um último beijo na boca.
— Thanks! — sussurou, afastando-se. — Obrigado!
Abandonámos o bar e caminhámos para o átrio. Perto da recepção, parámos conscientes que era o momento em que cada um seguiria um caminho diferente. Mas, talvez um dia nos reencontrássemos como bons amigos. Sorrimos um para o outro. Abracei-a uma última vez. Dei-lhe um beijo terno no rosto.
— I will call you! — prometeu, despedindo-se.
— Leo! — chamei, curioso. — Leo é o teu nome verdadeiro?
Ela abanou a cabeça.
— É um... Como dizem em portuguese? Small name?
— Alcunha?
Leo fez um gesto com a mão de "mais ou menos".
— Diminutivo?
— Sim.
— Qual é o teu nome?
— Leonarda. Leonarda Redfield.
Um nome que se tornaria famoso na fotografia mundial daí a uns anos.
Ao regressar a casa, o meu telemóvel voltou a ecoar, anunciando o número que eu não conhecia e que já me ligara antes. Poderia ser um cliente novo, alguém com uma proposta de trabalho. Agora que o assunto "Leo" já não me ocupava a mente, decidi atender.
— Daniel? — questionou uma voz rouca, feminina, que não reconheci.
— Sim...
— Olá, Daniel! É a Kátya.
A surpresa foi total, seguida da alegria de voltar a ter notícias dela, algo que se atenuou ao recordar-me da sua última mensagem, afastando-se e pedindo para que nunca a procurasse.
— Olá! — cumprimentei num tom seco.
— Como estás?
A sua voz fazia-me alguma confusão, ecoava arrastada, dorida.
— Estou bem. E tu?
A resposta foi:
— Ainda vives em Edimburgo?
— Não. Regressei a Portugal há uns tempos.
Houve uma pausa, o que acentuou a minha curiosidade pelo seu telefonema. O que a levaria a telefonar-me depois de vários anos sem dar notícias?
— Daniel. Preciso conversar contigo.
— Diz.
— Pelo telefone, não. Será que nos podíamos encontrar?
Suspirei sem vontade de fazê-lo. Ainda me sentia magoado por ela me ter abandonado.
— Kátya... Tu deixaste bem claro, na tua última mensagem, que não me querias por perto.
— Eu sei, Daniel. Só que... É um assunto muito complicado, preciso da tua ajuda. Sei que parece egoísta, pedir-te ajuda, tendo partido sem me despedir... Quando te contar, irás perceber.
As suas palavras não alteraram a minha vontade.
— Estou com muito trabalho. Daqui a umas semanas, isto acalma e eu ligo-te a combinar. — sugeri como desculpa sem intenção de lhe telefonar.
— Por favor, Daniel... É um assunto urgente.
Notei algum desespero na voz, crente que isso se iria tornar em súplica. Apesar de tudo, seria incapaz de lhe negar auxílio.
— Onde te queres encontrar?
— Será que me podias visitar?
— Ir a tua casa? — interroguei, imaginando-a a viver na região de origem, o Algarve.
— Voltaste para Almada? — questionou, como se não tivesse ouvido a pergunta.
— Ainda tenho lá casa, mas actualmente vivo em Gaia.
Escutei um suspiro vencido no outro lado.
— Sei que é muito o que te peço, mas precisava mesmo que viesses a sul. — insistiu, tossindo e respirando devagar. — Eu estou a viver em Palmela. Achas que conseguias vir cá? Ainda esta semana?
Honestamente, não me custava nada fazer trezentos quilómetros de mota. Sempre fui um espírito livre em cima das duas rodas e sempre que podia, ia levar os duzentos cavalos a passear. Contudo, não encaixava no interesse que poderia haver em tornar a vê-la. Tal como Kátya escrevera, nós fomos uma fase bonita na vida um do outro. Só que essa fase já fora arquivada nas nossas histórias, anos atrás.
— Vou ver o que posso fazer.
— Por favor, Daniel...
— Não podes ao menos dizer a razão de tanta urgência?
— Pelo telefone, não.
Em nome de tudo o que havíamos partilhado, acabei por concordar em viajar para sul daí a dois dias.
A manhã despontou com um Sol forte, brilhando pela costa arenosa. No meu terraço, avistei o mar, bebendo um café e já vestido para a viagem. Gostava daquele lugar, a tranquilidade, o conforto. O apartamento estava cheio de recordações de Mafalda e era o lugar onde eu fora tão feliz com ela. Tinha outro apartamento alugado, o de Almada, a casa onde nasci e onde os meus tios me haviam criado. Contudo, esse parecia ser uma recordação distante, algo que passara e talvez já não se justificasse mantê-lo. Iria começar a pensar em deixar aquela casa? Sim, pensaria melhor nisso, no regresso.
Vesti o blusão e pendurei o capacete no cotovelo, segurando as chaves de casa e certificando-me que desligara tudo o que não era necessário na minha ausência. Contava retornar ao fim do dia. Desci as escadas e saí para a rua, caminhando para a mota ao mesmo tempo que colocava a protecção na cabeça. Liguei a ignição e o potente motor rosnou, ansioso, como se adivinhasse o longo percurso de que iria desfrutar.
Segui dentro dos limites de velocidade pelas estradas até alcançar a A29, a qual não ficava muito longe. Entrei no acesso para sul e acelerei, saboreando a potência da máquina, atento a potencias radares de velocidade escondidos. Cruzei-me com a A41 na zona de Espinho e alguns minutos mais tarde, seguia numa linha paralela perto da principal auto-estrada do país. Percorri-a até ao fim, até ao momento que me obrigou a entrar na A25 e escolher a direcção de Aveiro. Poderia ter feito todo o percurso pela A1, mas circular pelas auto-estradas do litoral implicava menos trânsito. O trajecto na A25 foi curto e serviu somente para o Sol se esconder. Como não desviei para a cidade, a A25 deu lugar à A17 sem que tivesse de modificar a minha linha de estrada. Com a via veloz a aproximar-se mais da costa, o Sol tornou a despontar, ultrapassando as nuvens. Em menos de uma hora, estava na região de Leiria e trocava a A17 pela A8. Estava tão habituado a andar de mota que não senti necessidade de parar, indo contra o bom senso de pausar a viagem a cada duas horas. Cerca de mais uma hora e duas portagens, novo desvio na placa que indicava o acesso à Ponte Vasco da Gama. Poderia eventualmente continuar e ir pela A2, atravessando a Ponte 25 de Abril, mas assim encurtava caminho. Fui desembocar ao Túnel do Grilo já com indicações da A12 e, passando este, avistei os altos pilares da ponte mais comprida do país ao fundo. Quase como um míssil, a mota cruzou o rio Tejo pelas mais de dezena e meia de quilómetros. Chegado à margem sul, que não era a minha Margem Sul, fiz a primeira paragem na estação de serviço.
Passava do meio-dia e o Sol escondera-se por completo atrás do manto cinza-claro de nuvens. A fome apertara e o meu destino foi o restaurante para lá das bombas de combustível. Comi umas sandes de carne e bebi uma cola sem querer perder demasiado tempo.
Novamente no asfalto, avancei pela A12 rumo a Setúbal. Quase não havia trânsito. Mais uma portagem... Constatei que já deveria ter feito uma boa soma de contribuição para as concessionárias. No final desta via, desviei para a saída de Setúbal e logo a seguir para a seta de Palmela. Nunca andara por ali e só a atenção evitou que tivesse ido mesmo para a terra do choco frito. A viragem para Palmela fez-me entrar na A2, rumo a norte, como se estivesse a voltar para trás. Porém, a saída seguinte não enganava, uma curva de duzentos e setenta graus para uma rotunda de formato esquisito, tipo uma oval que levara uma pancada num flanco. As indicações da primeira saída não me diziam nada, pelo que continuei a contornar até à segunda. Lá estava a placa a apontar Palmela. Avancei pela estrada nacional com o acelerador mais leve, atravessando um lugar chamado Volta da Pedra, uma recta grande que terminava num cruzamento. A seta para a direita era Palmela, mas perto de entroncar com a outra estrada, vi Aires na direcção oposta. Numa manobra rápida que não evitou uma buzinadela, virei para sul.
Kátya estava a viver na região de Palmela, mas não na vila. E neste caso, uma coisa e outra ficavam em pontas opostas. Desci a nacional 252, vendo o aglomerado de casas a descer, à minha esquerda. Não fazia a menor ideia onde ela morava, apenas o nome da rua e que era num prédio de apartamentos. Aires tinha mais moradias que apartamentos, à primeira vista, pelo que não deveria ser difícil. Virei no primeiro semáforo, o que foi um erro. Desci a estrada sempre em frente. Um entroncamento dava indicações que não me interessavam. Continuei em paralelo com a linha de comboio e fui dar a outra rotunda, muito mais pequena, junto da estação ferroviária. Ali não havia nada, senão carros e qualquer comboio que passasse. Prossegui para a zona habitacional, atravessando uma outra zona onde as moradias pareciam estar a despontar em lotes para venda. Vi uma escola e várias ruas de moradias que se cruzavam com a via principal. Virei naquilo que me pareceu ser uma espécie de avenida, ladeada por prédios de princípio ao fim. Mais ou menos a meio, vi uma pequena pastelaria. Pareceu-me um bom sítio para perguntar pelo nome da rua. Fiz a transgressão de passar com a mota por cima do passeio, parei-a a uns metros da porta e entrei no estabelecimento, colocando o capacete no topo da cabeça.
O empregado do café informou-me que a morada que eu procurava ficava exactamente atrás daquela avenida, uma rua paralela. Simpático, questionou se eu sabia o número.
— 110.
— Está com sorte. — retorquiu com um sorriso. — Aqui ao lado está uma passagem para essa rua, a porta do prédio fica aí. Essa pessoa deve viver aqui por cima.
Agradeci as informações e saí. Estacionei a mota melhor, numa zona de carros, e caminhei na direcção que me indicara. A linha de prédios era cortada por um túnel que ligava a avenida com a rua.
Toquei à campainha.
— Quem é? — perguntou uma voz entre os estalidos do intercomunicador.
— Sou eu, Kátya. O Daniel.
A fechadura estalou e a porta destrancou-se. Entrei num átrio amplo com umas escadas largas e com muita luz natural. Sabia que ia rever Kátya dentro de segundos e senti o recalcamento por todos os anos decorridos desde que ela se afastara. Estava desejoso de a confrontar, querer saber porque o fizera, porque estivera tanto tempo sem dar notícias, porque exigira que nunca a procurasse... E agora vinha pedir-me auxílio? Subi as escadas de rosto fechado, podia entender-me com ela, voltar a ser seu amigo, mas tinha umas quantas coisas para lhe descarregar antes que isso acontecesse. Porém, tudo isso se esfumou, quando a vi à minha espera, apoiada na ombreira da entrada do apartamento.
Nada me poderia ter preparado para a ver naquele estado. Kátya estava muito magra, mais magra que quando eu a resgatara da rua, da vida de sem-abrigo. Vestia uma camisola escura, demasiado larga, e umas calças de ganga gastas. Contudo, o que mais me chocou foi o lenço na cabeça. Já vira aquela imagem noutra pessoa e conhecia demasiado bem a causa.
Kátya sorriu e eu sorri-lhe. Não disse nada, nem ela, e limitei-me a abraçá-la com cuidado para o capacete na mão não a magoar. Percebi instantaneamente a urgência da minha visita. A expressão no olhar revelava que os sentimentos por mim não tinham desaparecido. Beijei-lhe a face. Ela convidou-me a entrar para um corredor pequeno e escuro.
— Há quanto tempo estás doente? — indaguei, vendo-a fechar a porta.
— Algum...
— Onde é...? — interroguei sem precisar de completar.
— Nos pulmões.
Podia estar enganado, mas infelizmente confirmara-se o que tantas vezes lhe repetira, "o tabaco ainda te vai matar".
— Agora percebo a urgência.
Kátya fez um sorriso cansado e disse:
— Não, não percebes.
Convidou-me a segui-la pelo corredor até uma porta larga, o acesso à sala, onde o som da televisão ecoava forte em frente a duas poltronas, uma mesa e três cadeiras. Tudo normal, não fosse a minha atenção ter sido captada para a criança que brincava no chão, vendo os desenhos animados no ecrã. A menina deveria ter uns quatro ou cinco anos, de cabelos escuros e expressão muito parecida com a de Kátya, olhou para mim e ficou petrificada.
— É tua filha?
Kátya sorriu para ela e, passando por mim, confirmou:
— Sim, Daniel. É minha filha... e tua.
Fiquei em choque, sem qualquer reacção. Nem sequer a consegui questionar, mas também conhecia Kátya o suficiente para saber que ela jamais brincaria com um assunto assim.
— Leonor! — chamou-a. — Anda cá. Vem dar um beijinho ao Daniel.
Penso que o meu choque assustou a pequena que ficou com medo em se aproximar. Sorri-lhe e baixei-me perto dela.
— Olá!
— Olá! — respondeu, receosa.
— Dás-me um beijinho?
O olhar tinha a intensidade do da mãe. Deu dois passos e beijou-me a face. A seguir, voltou atrás para o local donde me viera. Kátya voltou a chamá-la e pediu:
— Leonor, vai brincar um bocadinho para o quarto. A mãe precisa de conversar com o Daniel.
Obediente, a menina saiu a correr da sala, aliviada por se afastar.
— Como...?
Kátya apontou-me uma das poltronas e sentou-se na outra, dizendo:
— Sim, Daniel, na única vez que tivemos relações sexuais tu conseguiste engravidar-me.
A minha cabeça repassou aquela época, o tempo que ligou o casamento de Mafalda à partida de Kátya.
— Quando tivemos aquela conversa em Carlton Hill, já sabias? — Ela assentiu com a cabeça. — E não disseste nada?
— Disse-te tudo o que sentia por ti e percebi que tu não me querias na tua vida... Pelo menos, não como eu queria estar nela. — explicou, entrelaçando os dedos. — Se te dissesse, tenho a certeza que terias ficado comigo, se calhar até casavas comigo. Mas também sei que nunca serias feliz. Não te quis aprisionar, Daniel.
— Não tinhas o direito de me esconder que tinha uma filha.
— Foi por isso que me vim embora de Edimburgo. — prosseguiu, ignorando a minha indignação. — Se ficasse mais tempo, seria impossível esconder a gravidez.
— Devias ter-me contado, Kátya. — repeti, furioso. O tom tornou-se mais agreste que o pretendido. — Porquê agora? Porque me contas agora?
Kátya fez uma expressão escarninha, apontando para o lenço, puxando-o e revelando a cabeça lisa.
— Penso que não preciso de responder. A Leonor não tem mais ninguém na vida para além de mim. E eu não sei quanto tempo... — Voltou a colocar o lenço. — Não te vou enganar, Daniel. Se isto não tivesse acontecido, eu nunca te teria contado. Aceito que estejas furioso comigo, até podes nem querer olhar-me para a cara nunca mais. Eu compreendo. Só peço que tomes conta da nossa filha, quando eu...
Comecei a ter real noção dos acontecimentos. De nada serviria remexer no passado. Num timbre menos rude, inquiri:
— É assim tão grave? — Ela anuiu. — Quanto tempo? — Encolheu os ombros. — Pareces resignada.
— Já ultrapassei a fase de negação.
— E a Leonor? Sabe que sou o seu pai?
— Sim. — confirmou. — Sempre lhe falei no pai e lhe expliquei que não nos vinha visitar porque estava a viver muito longe.
— Justificação de merda. — Foi o que me saiu.
— Foi o que me lembrei. — retorquiu magoada. Instalou-se um silêncio incómodo. — Nunca lhe quis passar uma má imagem tua. Quando crescesse, iria contar-lhe a verdade e incentivá-la a procurar-te, se quisesse.
Estiquei o braço e segurei-lhe a mão.
— Deves ter passado um mau bocado.
— Sobrevivi. E nunca faltou nada necessário à Leonor.
— Ela parece assustada comigo.
— Não te conhece, Daniel. Tens de ter paciência.
O silêncio entre nós voltou, sonorizado pelas canções infantis na televisão. Sem me aperceber, a minha mão continuou na dela.
— Sempre conseguiste? — interrogou de súbito. Não compreendi. — Tu e a Mafalda?
Assenti com a cabeça, denunciando a tristeza e percebendo que aquela malvada doença pela terceira vez me levaria alguém importante.
— E então? — insistiu, querendo saber mais.
— Ela divorciou-se do marido, dois anos depois do casamento. — relatei. — Depois aproximámo-nos e aconteceu.
— Estás a ver? Agora imagina que estavas comigo e com a Leonor quando soubeste que o amor da tua vida se ia divorciar? Ias odiar-me! — Não a contrariei. Ela confirmou que tinha razão, já o sabia, mas isso não o tornava menos doloroso. — Como é que ela reagiu a teres vindo visitar-me?
A resposta não saiu de imediato. Houve uma névoa, um acentuar de dores que eu conseguira reprimir nos últimos meses. Contudo, aquele ambiente, aquela revelação e aquele assunto pareciam despoletar tudo.
— A Mafalda faleceu no início deste ano. — informei com a voz algo embargada, olhando para Kátya e vendo o seu rosto contorcer-se numa expressão de choque.
— Lamento, Daniel. Lamento tanto. Oh... meu querido.
Fiz um gesto de que o pior já tinha passado.
— Que aconteceu?
— Não interessa. — respondi, consciente que a última coisa que um doente com cancro precisa é que lhe falem em alguém que morreu disso.
Leonor apareceu na porta, espreitando curiosa. Kátya chamou-a para perto de nós. A criança aproximou-se devagar, passando por mim e encostando-se à mãe. Como é lógico, no tempo que permaneci lá, pouca ou nenhuma confiança lhe consegui ganhar. Eu era o pai que nunca conhecera, uma figura abstracta, estranha. Não seria fácil e tinha de lhe dar espaço para se habituar a mim.
Ao fim da tarde, despedi-me da pequena apenas com um aceno, pois não queria que encarasse uma obrigação de beijar o estranho que aparecera do nada.
— Voltas hoje para cima? — questionou Kátya, levando-me para a saída.
— Não. Vou até Almada. Fico por lá esta noite.
— Que pensas fazer?
— Sobre?
Kátya atirou-me um olhar exasperado e apontou para dentro de casa.
— A Leonor.
— Não te preocupes. — Forcei um sorriso. — Tu podes ter-te resignado, mas eu ainda acredito. — Ela abanou a cabeça. — Se tu... Se partires, eu cuidarei da Leonor.
— Obrigado.
— Não agradeças, Kátya. Sou pai dela. Só lamento que não me tenhas deixado sê-lo mais cedo.
Ela baixou o olhar, comprometida.
Eu abracei-a com força e despedi-me.
Tinham passado alguns anos, desde a última vez que entrara na minha casa de Almada. Porém, estava tudo como deixara. Afastei com cuidado os lençóis que cobriam as mobílias, evitando levantar pó. Sentei-me no sofá da sala e fechei os olhos, repousando e pensado em como aquele dia alterara a minha vida.
As alterações não foram imediatas, mas foram tão profundas que trocaram toda a minha realidade. Em breve, aquela criança seria uma responsabilidade exclusiva minha. Fosse como fosse, por enquanto iria dar o máximo de apoio a Kátya e permanecer por ali algum tempo. Contactei os clientes com quem trabalhava regularmente e suspendi a nossa relação profissional, explicando que me vira obrigado a fazê-lo por motivos pessoais. Quando tornei a visitar Kátya e Leonor. Expliquei à mãe da minha filha a decisão e li o alívio no rosto dela, ao perceber que já não estava sozinha.
As nossas casas distanciavam uns trinta quilómetros. Mesmo assim, recusei a sua proposta para que me mudasse para lá. Saía cedo, chegava à hora a que Kátya saía de casa para levar Leonor à escolinha, e acompanhava-as, tornando-me conhecido das funcionárias. Isso também ajudou a que Leonor se habituasse à minha presença. Ficava com Kátya até uma ambulância de transporte de doentes a vir buscar para a levar aos tratamentos. As horas sozinho em casa dela eram os momentos mais difíceis, pois tudo me metralhava os pensamentos. Por fim, ela chegava e íamos buscar a pequena. Mais duas a três horas e regressava a Almada. Este passou a ser o meu dia a dia.
Uma vez por mês, eu regressava a Miramar, só para ver se estava tudo em ordem e manter a casa em condições.
Algumas semanas mais tarde, Kátya informou-me que a equipa médica gostaria de falar comigo, agora que sabiam que o pai da filha dela voltara. Sim, nunca me livrei da imagem do gajo que a emprenhou e deu à sola.
O médico quis falar comigo em privado, enquanto Kátya estava no tratamento. Era um homem alto, robusto e sendo simpático não perdia aquela arrogância típica dos médicos que falam connosco como se fossemos de inteligência inferior.
— Nós temos feito o que podemos, mas a Kátya está a piorar. — explicou num tom muito austero que me parecia só servir para acentuar a tragédia. — Devem preparar-se para o pior.
Não sabia o que dizer. Preparar para o pior? Conseguirá alguém preparar-se para morte de quem se gosta?
Nessa noite, ao chegar a casa, tive consciência que preparar o pior não era preparar a perda de uma amiga, mas sim preparar a perda da mãe pela filha. A partir desse dia, Leonor passaria a ser responsabilidade exclusiva minha, por isso, tinha de começar a planear integrá-la na minha vida.
Certa manhã, segui de mota por Almada até um lugar que conhecia desde miúdo. Estacionei e caminhei pelo passeio, parando defronte de um stand de automóveis. Entrei com o capacete na mão e fui recebido por um funcionário simpático que se prontificou a ajudar-me.
— Tenho uma mota e pretendia vendê-la para comprar um carro.
Foi a mudança que mais me custou, a mota. Se precisasse de transportar Leonor, a mota poderia ser viável, mas implicava perigos desnecessários. Por isso, decidi vendê-la e comprar um automóvel. Escolhi um Renault Clio porque me fazia lembrar Mafalda, uma vez que ela tivera um quando estivéramos juntos. No entanto, foi muito complicado a alguém que adorava a liberdade de andar numa mota ver-se confinado ao interior de um carro.
Com o passar dos dias, apesar dos tratamentos, Kátya revelava maior desgaste à doença. Acabei por alterar a minha rotina diária, passando a noite lá em casa. Dormia com Kátya na sua cama, mas nunca houve qualquer intimidade entre nós. Partilhávamos o colchão como dois irmãos.
Leonor habituou-se à minha presença, aceitando-me no mundo delas, convidando-me a brincar, vivendo com naturalidade sempre que a mãe era transportada aos tratamentos no hospital.
Como as minhas idas a Almada diminuíram, voltei a ponderar a ideia que considerara antes. Por isso, numa manhã, logo após deixarmos Leonor na escola, eu decidi ir à minha primeira casa.
Como já referi antes, a casa de Almada tinha dois quartos, o meu e o que outrora fora dos meus tios. Eu não gostava de entrar naquele quarto, havia sempre muitas lembranças e muita dor nas recordações. A minha tia falecera vinte e três anos antes, o meu tio catorze. E eu continuava a fazer o luto. Abri a porta do quarto e acendi a luz. Tirando o pó, estava tudo igual ao dia em que o meu tio foi internado.
— Olá, tio! Olá, tia! — disse eu para as memórias. Caminhei pelo quarto até à janela. Abri as persianas. — Hoje está um dia bonito, está Sol. Um pouco mais fresco que o habitual. — Peguei na moldura com uma foto do casamento deles. — Gostava que me pudessem ver hoje, ver onde cheguei. Ah... Tenho a certeza que me vêem aí de cima. — Avancei e sentei-me ao fundo da cama. — Tanta coisa aconteceu. — Olhei em volta. — Mantive este quarto como um mausoléu, uma homenagem a ambos. Só que acho que chegou a hora de vos deixar partir. — Sorri para ninguém sem perceber que uma lágrima me escorria em cada face. — Vocês iam gostar de conhecer a Leonor. Sim, tenho uma filha. Desculpem não ter contado antes, mas eu próprio só o soube há pouco tempo. — Funguei e limpei o nariz com as costas da mão. — Iam amá-la como me amaram a mim, incondicionalmente. Por isso, acho que concordam com a decisão que tomei. — Calei-me como se eles estivessem ali comigo e lhes estivesse a dar um momento para ficarem atentos. — A mãe da Leonor é uma grande amiga minha. E em tempos... Bom, nós... Não interessa os pormenores. Infelizmente, a Kátya está muito doente e... Temo que não dure muitos meses. Espero que possam recebê-la e cuidar dela. — Nova pausa. — A Leonor virá viver comigo para a minha casa... E é por isso que estou aqui. Tomei uma decisão. — Tornei a olhar para a envolvência do quarto. — Esta foi a minha... a nossa casa durante muitos anos. E foi minha depois de o tio partir. Só que hoje, eu tenho um outro espaço, um lugar onde também fui muito feliz. Tenho a minha vida estruturada lá e... E não penso voltar a viver aqui. — Olhei para o tecto, para o candeeiro aceso. — Tio! Tia! Obrigado por tudo. Obrigado por me terem criado, por me terem permitido viver, por nunca deixarem que me faltasse o essencial. Espero que tenham orgulho naquilo que sou. — Fechei os olhos sem controlar as lágrimas. — Chegou a hora de eu largar esta casa, de vos deixar partir. Estou a sair da vida que tivemos aqui, mas vocês nunca sairão do meu coração.
A partir daquele dia, arrumei as coisas que me eram importantes, as lembranças, as recordações, as fotos, uma ou outra peça especial... Não me apeguei demasiado a nada. Entreguei todas as mobílias a uma associação de apoio a pessoas carenciadas, bem como outros objectos e roupas. Ainda estavam em bom estado e poderiam ser aproveitados. O resto foi para o lixo. Juntei o que queria levar comigo no meu quarto e ficou tudo arrumado, a aguardar o dia em que regressasse ao norte.
Certa noite, a temperatura arrefecera, lembrando que o Inverno chegaria em breve. Tal como fazíamos diariamente, a seguir ao jantar, deitámos Leonor na cama para dormir e viemos para a sala, sentando-se cada um numa poltrona.
— Acho que não tomei as melhores opções na minha vida. — confidenciei, obtendo de Kátya um olhar de surpresa e curiosidade. — Andei atrás de um amor que acabou por me fazer sofrer e desperdicei uma vida contigo.
— Tu não me amavas, Daniel.
— Porque estava apaixonado pela Mafalda.
Kátya esboçou um sorriso, questionando:
— Teria sido diferente, se ela não tivesse existido na tua vida?
— Não sei. Eu sempre gostei muito de ti, sempre foste especial. Se não vivesse obcecado...
— Não estavas obcecado, Daniel. — interrompeu para me corrigir. — Tu estavas apaixonado. As tuas decisões foram perfeitamente normais.
— Devia ter-te dado uma oportunidade, Kátya. — cobrei-me. — Talvez tivéssemos sido felizes, eu teria lutado contigo para te fazer deixar de fumar. E tu...
— Não sabes, Daniel. Foi isto, poderia ser outra coisa. Todos temos o nosso caminho traçado. Não estávamos destinados a ficar juntos.
— Sinto-me culpado
— Salvaste-me a vida, Daniel. Há sete anos, tu tiraste-me da rua, ajudaste-me a ter um lar. — Sorriu com carinho. — Recorda-me como alguém que te é grata. Não te culpo de nada, nem teria esse direito.
Encarei a sua expressão terna.
— Vou ter saudades tuas. — Parei para a observar, transmitindo-lhe na voz o quanto gostava dela. — Eu amei-te naquela noite.
— Eu sei, Daniel. Só muito amor concebe o ser maravilhoso que está a dormir naquele quarto.
— Prometo-te... Juro-te que cuidarei dela. Nunca lhe faltará nada. E falarei sempre muito em ti, guardarei o máximo de memórias e a Leonor há-de saber como a mãe foi uma mulher extraordinária.
No rosto de Kátya, decifrei a paz, o descanso pela filha que já não corria o risco de ser institucionalizada, como tanto temera, uma vez que seria esse o desfecho se não houvesse mais familiares para tomar conta da pequena. Permitiu-se a descansar.
Eu não sou médico e a minha opinião é mera especulação. Porém, acho que esse descanso baixou as defesas, a luta que Kátya travava com a doença. E infelizmente a doença atacou-a ainda mais.
Não quero relatar muitos pormenores sobre os dias que se seguiram, uma vez foram muito complicados, difíceis e de muito sofrimento. O estado de saúde de Kátya piorou, tossia mais, revelava-se mais fraca e tinha crises complexas que quase a derrubavam. Numa das últimas, teve problemas respiratórios e tive de chamar ajuda médica para a socorrer.
Para além deste cenário dramático, procurava evitar ao máximo que Leonor testemunhasse estas situações, mas era quase impossível. Recordo-me que nesta última, enquanto os médicos do INEM a observavam, vi Leonor a chorar, espreitando na porta do quarto, onde a mãe sofria sobre o colchão da cama. Corri para ela e peguei-lhe ao colo, abraçando-a e levando-a para o seu quarto. Sentei-a na cama e disse:
— Tem calma, pequenina. Não chores.
— A mãe vai morrer?
A sua pergunta surpreendeu-me, pois não considerara que, tão nova, Leonor já pudesse ter noção do que era a morte. Calculo que não tivesse a mesma que um adulto, talvez fosse mais um conceito de perda eterna. Também não sabia quem lhe falara no assunto, se a mãe ou a educadora na escola, uma vez que todas as funcionárias tinham conhecimento do drama familiar.
Que haveria eu de responder? Não lhe queria mentir, mas também não a queria perante a realidade até ser inevitável.
— Aqueles senhores estão a fazer tudo para ajudar a tua mãe.
— Não quero que a mãe morra. — insistiu, chorando compulsivamente.
Abracei-a com muita força.
— Eu também não quero que a tua mãe morra. — Afastei-me um pouco para a olhar nos olhos. — Temos de ser fortes para a ajudar, está bem? — Leonor fez beicinho e anuiu. — Percebo como estás triste, Leonor. E estou aqui para te ajudar.
O médico chamou-me. Pedi a Leonor que ficasse no quarto até eu voltar. Entrei no outro quarto. Kátya estava sonolenta, talvez sedada e com uma máscara de oxigénio. Esperei que me pusessem ao corrente. Ele disse que o estado dela era muito grave e que seria melhor levá-la para o hospital.
Kátya foi transportada para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Ficou internada dois dias, sendo depois transferida para uma unidade de cuidados paliativos.
A partir desse dia, Leonor passou a ser exclusivamente responsabilidade minha, tal como sabíamos que iria acontecer mais tarde ou mais cedo. Tentei que a sua rotina mantivesse alguma normalidade, o que era complicado. Expliquei-lhe que, por enquanto, não poderia visitar a mãe para a poupar a ver o estado debilitado dela, optando por a deixar na escola como era habitual e ia eu sozinho visitar Kátya. Não era fácil, vê-la numa cama, entubada e com muita dificuldade em falar. A equipa responsável pelos cuidados falou comigo e informou-me da forma mais eufemística que conseguiu que a mãe da minha filha não iria viver muito mais tempo e que seria melhor prepararmo-nos para nos despedirmos dela.
Foi muito duro. Contudo, não tão duro como foi levar Leonor a ver a mãe. Não lhe disse como era grave o estado de Kátya, explicando-lhe apenas que a mãe estava muito doente. Antes de receber a filha, Kátya pediu que lhe retirassem os tubos e a máscara para o seu aspecto não assustar a pequena.
No quarto, após entrar com Leonor pela mão, a pequena correu para a mãe. Kátya falou com imenso amor a cada palavra. Pelo diálogo, percebi que fora ela quem explicara o conceito de morte à menina, pois explicou-lhe que o dia que haviam falado estava a chegar. Leonor desabou num pranto que me dilacerou. Kátya também chorava, mas mantinha-se forte. Senti uma lágrima no meu rosto.
Os médicos pediram para que a visita fosse curta, de forma a não a cansar demasiado. Leonor não quis sair de perto da mãe, mas Kátya convenceu-a a ir com a enfermeira e que poderia voltar no dia seguinte. Ao ficarmos sozinhos naquele espaço, ela pediu num tom rouco:
— Cuida dela, Daniel.
— Não te preocupes, Kátya. — disse eu, segurando-lhe a mão. — Juro-te que ficarei sempre a seu lado.
— Obrigado, meu amor. — agradeceu com um sorriso cansado e uma expressão de verdadeiro sentimento.
Percebi a dimensão do nosso amor. Não era um amor carnal, um amor de casal. Éramos duas almas que se amavam espiritualmente, uma ligação transcendental. Dei-lhe um beijo na testa e prometi voltar na manhã seguinte.
Isso não aconteceu.
Nessa noite, recebi um telefonema. Kátya adormecera o sono eterno.
Não acordei Leonor para lhe dar a triste notícia, haveria tempo na manhã seguinte. Mal dormi, a pensar em tudo aquilo, na segunda vez que perdia Kátya na minha vida. Senti-me perdido na forma como haveria de dizer à criança que a mãe morrera.
Pela manhã, quando fui acordar Leonor, abracei-a com força e disse-lhe baixinho:
— A tua mãe... Lamento, pequenina.
Leonor afastou-se, olhando-me com uma expressão confusa.
— A minha mãe?
Não havia forma de o dizer sem ser doloroso, Leonor não era um adulto para perceber entre linhas o que eu lhe queria dizer.
— A tua mãe já não está viva. — foi a melhor forma que encontrei.
Leonor começou a chorar. Tentei abraçá-la, mas ela bateu-me com os punhos fechados frágeis no peito. Deixei-a descarregar toda a dor em mim. Cansada, abraçou-me o pescoço com força, continuando num pranto desesperado, como se temesse que eu também desaparecesse.
— Calma, pequenina. O pai está aqui.
— Quero a minha mãe, quero a minha mãe... — repetia entre lágrimas. — Quero a minha mãe!
Paciente, aguardei que chorasse tudo o que quisesse, mantendo-a nos braços e transmitindo-lhe segurança. Leonor acalmou-se aos poucos, fechando-se numa cápsula invisível de tristeza.
Nesse dia não a levei à escola, preferindo tê-la sempre por perto. Coube-me a horrível tarefa de tratar dos procedimentos relativos à ida de Kátya para a sua última morada.
O funeral aconteceu no dia seguinte, um dia cinzento e chuvoso, tão ilustrativo do nosso estado de espírito. Leonor assistiu a tudo com a mão segura na minha. Para além de nós, somente algumas funcionárias da escola que quiseram despedir-se daquela mãe que, sem quererem, viram definhar aos poucos. Também compareceram duas vizinhas que nunca foram bater à nossa porta para saber como estava Kátya, mas acharam por bem ir ao funeral. É sempre mais fácil dizer adeus aos mortos que se preocupar com os vivos.
No final, a educadora de Leonor na escola acercou-se de nós para repetir o seu pesar e indagou:
— Quando é que a pequena vai voltar à escola? Vamos tentar ajudá-la a ultrapassar esta fase, sendo que nunca se substitui uma mãe.
— Obrigado pela sua disponibilidade. — agradeci. — Mas, eu não vou ficar cá, vou regressar a minha casa.
A senhora compreendeu e despediu-se, dizendo:
— Desejo-vos as maiores felicidades.
Leonor tornou-se uma criança triste, não voltei a ver-lhe um sorriso no rosto. Ao regressarmos à casa da mãe, expliquei-lhe que iríamos deixar aquele local e ajudei-a a arrumar todas as suas coisas. Também juntei todas as recordações da mãe, fotos, objectos, algumas roupas, entre outras coisas.
A manhã seguinte surgiu com um Sol tímido. Carreguei o automóvel com tudo o que era para levar para norte, sempre com Leonor a meu lado, ora subindo, ora descendo as escadas, envergando o vestido quente por baixo do blusão comprido e almofadado, collants de lã e um par de galochas com bonecos desenhados. O senhorio, conforme tínhamos combinado na noite anterior, passou por lá para receber a chave do apartamento.
— Infelizmente, não me foi possível ir ao funeral. — desculpou-se sem que eu percebesse porque haveria ele de ir, se em todo o tempo que ali estive nunca o vi telefonar ou passar por lá para saber como estava a inquilina.
Apesar do ambiente solarengo, o vento soprava e intensificava o frio. Abri a porta do carro para Leonor entrar para o banco traseiro e sentar-se no seu banquinho. Prendi-a com o cinto de segurança e contornei o veículo para ocupar o meu lugar ao volante.
— Estás pronta? — perguntei, vendo-a pelo retrovisor e sorrindo-lhe. Ela assentiu de semblante alheado.
Partimos de Aires a meio da manhã. Tinha ainda uma paragem a fazer, antes de seguir o meu destino. Entrei na A2 rumo a Almada, uma viagem de pouco mais de meia hora. Estacionei na rua onde cresci e trouxe Leonor até à casa que fora dos meus tios.
— Eu cresci aqui. — expliquei-lhe, entrando no apartamento vazio.
Ela olhou curiosa, mas não se manifestou.
Nos últimos tempos, eu preparara a minha saída definitiva daquela casa. O que poderia interessar a alguém fora dado, o lixo levado e somente algumas coisas sem importância ali permaneciam, para além dos caixotes que levaria comigo para Miramar. Tal como em Aires, Leonor não me largou enquanto eu subia e descia para arrumar no carro o que fora buscar. Por fim, toquei à campainha do rés-do-chão, onde vivia uma senhora que representava o senhorio do prédio. Atendeu-me com a simpatia habitual, elogiando a menina que se escondia atrás de mim e recordando a memória dos meus tios. Lamentou que estivesse a deixar a casa, sabendo eu que tanto ela como os senhorios estavam muito felizes com isso, pois era um espaço que poderiam alugar no futuro por valores muito acima daqueles que eu estava a pagar.
Assim, após esta última etapa, Leonor e eu regressámos ao carro.
A viagem prosseguiu pela saída da cidade rumo à Ponte 25 de Abril, onde atravessámos o rio Tejo. Segui as indicações A1 Norte, mas acabei por desviar para o caminho inverso que me trouxera de Miramar, quando vim reencontrar Kátya, optando pela A8. Ia sempre a espreitar Leonor pelo espelho e encontrava-a sempre com o olhar vago e triste na paisagem. Deixando Lisboa para trás, ia perguntar-lhe se queria comer alguma coisa, só que ela adormecera. Não a despertei, pois sabia que precisava de descansar da dor que a corroía pela perda da mãe.
Perto de Leiria, a chuva começou a cair com intensidade. As gotas fortes a embater no pára-brisas e as escovas a lutar com elas faziam um barulho incómodo. Porém, Leonor permanecia tranquila, dormindo embalada pela viagem. Quando cruzámos o rio Mondego, as nuvens não derramavam mais que simples aguaceiros. Na zona de Aveiro, houve mais intensidade de água. E para lá de Espinho o Sol tornou a trespassar as nuvens com pequenos focos de raios de luz. Leonor despertou no momento em que abandonei a A29 na direcção de Miramar.
— Olá pequenina! Isso é que foi dormir. — disse-lhe pelo retrovisor. — Estamos quase a chegar.
Leonor espreguiçou-se e tornou a olhar para o exterior com o rosto estremunhado. Era tal e qual a expressão da mãe, quando acordava ensonada.
Estacionei na minha rua, a alguns metros do prédio onde vivia, o lugar de estacionamento mais perto disponível. Saí do carro, pedindo a Leonor que vestisse o blusão, pois estava muito vento naquela zona costeira. Ajudei-a a descer do carro e dei-lhe a mão, conduzindo-a até à entrada. Ela segurava sempre a minha mão como se temesse que a largasse. Conforme andávamos, expliquei-lhe que a praia ficava perto e que podíamos ir brincar lá, quando estivesse bom tempo. Abri a porta do prédio e subimos as escadas. Leonor subia sozinha, curiosa, apoiada no corrimão. Seguiu-se a porta do apartamento.
A minha filha ficou a olhar. Pareceu hesitante, talvez receosa de que estivesse lá mais alguém. Notava que, depois da morte da mãe, ela evitava todas as pessoas, excepto eu.
— Podes entrar. — disse-lhe, encaminhando-a com a minha mão nas suas costas. — Bem-vinda à minha casa, Leonor! Esta agora é também a tua casa.
fim do conto V