A CAMINHO DO TEU NOME · Capítulo 9

V

≈ 13 min de leitura

O vento soprava com força na costa, levantando areia e atirando as ondas do mar que ribombavam como trovões. Não saíra de casa durante uma semana, adiando trabalhos e recusando outros. Vagueava pelo apartamento, recordava Mafalda a cada canto. Comia pouco ou quase nada. Ficava horas a ver as muitas fotos que lhe fizera. Sentia-me perdido, desmotivado e sem vontade de viver.
No entanto, naquele dia decidira fazer diferente, precisava de apanhar ar. Por isso, ali estava eu, encostado ao pontão de madeira, no mesmo local onde uma tarde Mafalda me prometera levar a novas praias, a tarde do primeiro beijo, a tarde em que fizemos amor pela primeira vez.
As gaivotas sobrevoaram-me, receosas da tempestade que parecia despontar no mar alto e refugiando-se na costa arenosa. Vi um gato correr perto de uma duna e parar, atento em mim.
— Nem penses. — disse-lhe. — Não volto a cair nessa das reencarnações. Não acredito que sejas ela num gato.
Sem compreender as minhas palavras, o animal retomou a corrida e desapareceu.
O horizonte pescou a minha atenção sem que estivesse realmente a registar o que estava a ver. A minha mente perdia-se em recordações, pensamentos, memórias... A buzina de um carro na avenida resgatou-me para a realidade. Vi o homem barafustar com outro carro e tornar a arrancar. Mais alguns minutos passaram até tomar a decisão na qual estivera indeciso desde que estacionara ali. Peguei no telemóvel, procurei o nome da pessoa e cliquei no símbolo de telefonar. Ouvi os toques de chamada, um, dois, três, quatro... Talvez não atendesse e talvez eu não voltasse a tentar. Ao quinto, a sua voz atendeu.
— Olá! Sou eu, o Daniel! Desculpa se estou a incomodar. — Ouvi-a negar o incómodo. — Estava a pensar se podíamos conversar um pouco... Não, por telefone, não. Achas que podes passar por aqui? — Questionou se estava em casa. — Não, estou perto da praia. Queres vir tomar um café?... Sim... Conheces aquela esplanada perto da praia?... Sim, essa... Espero-te lá... Tudo bem, pode ser daqui a uma hora... Ok... Beijinho. — E desliguei.
Numa passada lenta, abandonei o pontão com os passos a tombar nas tábuas desgastadas pelo tempo. Segui pelo passeio e só parei junto da esplanada, um espaço pequeno com meia dúzia de mesas e protegido do vento por lonas transparentes. Escolhi uma mesa e sentei-me numa das cadeiras. Pedi uma cerveja e esperei.
Ela não demorou uma hora, nem perto disso. Reconheci o seu carro, assim que passou na estrada, procurando um lugar para estacionar. Conseguiu um espaço a uns trinta metros. Donde estava, vi-a sair do lugar do condutor com o cabelo a rebelar-se contra o vento. Atravessou a rua para o passeio mais próximo do areal. Vestia um casaco espesso comprido que usava aberto, revelando a camisola de malha e a saia por baixo. Os collants de lã eram quase do tom exótico da sua pele e as botas aumentavam a sua imponência.
— Olá, Daniel! — cumprimentou, ajeitando o cabelo.
Levantei-me e dei-lhe um beijo na face.
— Olá, Vânia!
Eu não tinha amigos e, apesar de me sentir só, também não os procurava ter. Contudo, precisava de conversar, dialogar com alguém, falar de Mafalda com quem a conhecera.
— Como estás? — perguntou, sentando-se do lado oposto da mesa. Encolhi os ombros. — Fiquei surpresa com o teu telefonema. Mas ainda bem que ligaste. — Fez sinal ao empregado para lhe trazer um café. — Pensei em ligar-te para saber como estavas, mas... Não quis incomodar.
— Podias ter ligado.
— Eu sei. Só que... Sinto que ficaste magoado comigo.
— Já te disse que não tens culpa. Limitaste-te a cumprir a vontade dela.
Vânia anuiu e ficou a olhar para mim. E eu a olhar para ela.
— Então? Porque me ligaste?
— Queria conversar um pouco.
O empregado trouxe o café e depositou-o na mesa.
Vânia pegou no pacote de açúcar, agitou-o, abriu-o e despejou a totalidade na chávena.
— Queres conversar sobre a Mafalda? — adivinhou, mexendo o café com a colher.
— Se não te importares.
— Claro que não, Daniel. Não me importo nada. A Mafalda é uma irmã... — interrompeu-se. — ...era uma irmã.
— Também tens dificuldade em usar o passado quando te referes a ela, não é? — Vânia assentiu comprometida. — Acontece o mesmo comigo.
— Custa-me a acreditar que ela... — tornou a interromper-se. — Desculpa, não vamos falar da parte triste.
— Sinto que desperdicei dez anos em que podia ter estado com ela.
— Aconteceu quando tinha de acontecer. — sentenciou Vânia. — Recordo-me bem quando ela foi a Lisboa conhecer-te.
— Sim, a visita do pessoal da faculdade ao Hospital de Santa Maria.
Vânia sorriu.
— Ah... Ela nunca te contou.
— Contou o quê? — questionei, curioso.
Após terminar o café, Vânia prosseguiu o relato:
— Nunca houve nenhuma visita de estudo. A Mafalda foi a Lisboa de propósito para te conhecer. Não foi sozinha, é verdade. Mas quem foi com ela fui eu, não foram os colegas de curso. — Fiquei estupefacto. — Ela queria muito conhecer-te. Só que, como eras casado... ou estavas junto com outra, a Mafalda tinha receio que se te dissesse que ia de propósito a Lisboa para te ver, isso pudesse denunciar o que sentia por ti. — Fez uma pausa. — Ela sempre foi apaixonada por ti.
— Eu sei. Ela disse-mo nesse encontro.
— Pois... Ela contou-me. — confirmou, debruçando-se na cadeira. — Não era suposto. Só que tu surpreendeste-a com a tua declaração. E ela acabou por se denunciar. Arrependeu-se de o ter feito, tinha receio que pudesse ter comprometido a tua relação com a tua companheira.
— A Mafalda vincou bem a sua posição. Quis que concordássemos que nunca mais falaríamos naquilo e que eu deveria voltar para a minha mulher.
— A Mafalda disse-te isso, mas no seu íntimo, ela desejava que tivesses largado tudo e vindo atrás dela.
— Estás enganada. — contrariei. Porém, a expressão no rosto de Vânia revelava que quem estava enganado era eu. — Ela nunca me disse nada...
— Ouve, Daniel! Ninguém conhece melhor a Mafalda que eu. Ela apaixonou-se por ti, praticamente, desde que se conheceram na Internet. Só que tinha receio, tu eras cinco anos mais velho, ela era uma rapariga caseira, virgem... Podia ser humilde, mas tinha noção da sua beleza. — Tornou a sorrir. — Mandou-te a pior foto que encontrou, receosa que se a visses como ela era naquela época, tivesses vindo por aí acima atrás dela.
— Isso não teria acontecido. — lembrei, pensando em mim na época antes de Francisca. — Não conhecia nada para além de Lisboa e Almada.
— Ela falava em ti todos os dias.
— E o que é que a fez ir a Lisboa?
— Aquele ano na faculdade, em Coimbra, amadureceu-a. Não, não se envolveu com ninguém. Foi mesmo só o facto de ganhar outras liberdades e seguranças. Claro que nunca iria sozinha, daí ter pedido para a acompanhar.
Olhei para o vazio, recordando a manhã de Setembro, mais de onze anos antes, a beleza radiante de Mafalda, a confirmação que era possível alguém apaixonar-se à primeira vista.
— Apesar de o negar, a Mafalda desejava que te separasses da tua mulher e fosses atrás dela.
— Se me tivesse dito...
— A Mafalda é uma mulher de princípios bem vincados, jamais se sentiria bem em ser o motivo do fim de uma relação. — acentuou com firmeza. — Com o passar do tempo e nas conversas contigo, percebeu que isso nunca iria acontecer. Depois apareceu o Tiago na vida dela.
— E eu passei à história. — completei.
Vânia abanou a cabeça, prosseguindo:
— Não foi bem assim. Ela amava o Tiago, tinham uma relação muito forte. Ninguém namora tantos anos e casa se não se amar verdadeiramente. Só que ela nunca sentiu por ele, o que sentia por ti. — Baixou a voz para um tom cúmplice. — Claro que o Tiago nunca soube disto. E mereceu bem viver nessa ignorância, tendo em conta o crápula que foi em querer divorciar-se por ela não conseguir engravidar.
Nesse instante, o telemóvel de Vânia tocou. Ela abriu a mala e retirou o aparelho. Olhou para o ecrã com uma expressão de desinteresse e atendeu:
— Olá, amor! Não, não estou em casa... Sim... Onde?... Vim tomar um chá com a minha tia... Ok... Falamos mais logo. Beijinhos... Eu também te amo.
Desligou. Não consegui evitar um sorriso.
— Agora sou tua tia?
— Não vale a pena complicar a vida. — justificou, tornando a guardar o telemóvel. — Não estamos a fazer nada de errado, mas ele ficaria certamente ciumento se lhe dissesse que estava numa esplanada com outro homem.
Assenti com uma questão em mente.
— Compreendo. Mas, não teria ele razão para isso?
— Como assim?
— Estou a pensar no dia do casamento da Mafalda.
Vânia observou-me confusa.
— Não estou a perceber.
— Tentaste seduzir-me. — recordei.
O seu sorriso desvalorizou por completo a lembrança.
— Já nem me lembrava. Foi uma brincadeira parva. — A sua expressão alterou-se. — O facto de teres vindo acompanhado, deixou a Mafalda... Como dizer? Afectada? Sim, afectou-a. Tentou disfarçar, congratulando-se por tu voltares a ter alguém na tua vida. Mas, eu sabia o que ela sentia.
— Eu não queria vir. Só que ela colocou a minha presença como sendo tão importante para ela, para a nossa amizade, que eu acabei por vir.
— Era mais uma oportunidade para te ver. A Mafalda sabia que não teria muitas, talvez mais nenhuma, para te ver depois de casar. — Fez uma pausa. — Confesso que tive receio que o marido desconfiasse de alguma coisa, pela forma como ela olhava para ti. Felizmente, ele não a conhecia tão bem como eu.
Acenei ao empregado. Pedi mais uma cerveja, a quarta desde que ali estava. Vânia recusou a minha sugestão para pedir mais alguma bebida para si.
— Vou ser sincero contigo, Vânia. Sinto que desperdiçámos estes anos todos por culpa dela. Podíamos ter sido felizes um com o outro desde o dia em que nos conhecemos. Eu teria largado a Francisca, o que aconteceu cerca de dois anos depois do nosso encontro, ela largava o namorado e...
— Sabes bem que isso não teria sido assim tão fácil, Daniel. — interrompeu. — Quando te separaste, como era a tua vida? Onde estava a Mafalda? Ela estudava em Coimbra para ser médica. E tu?
— Trabalhava na reposição de artigos num supermercado.
Vânia fez uma expressão de "vês o que quero dizer?" e continuou:
— Que irias fazer? Ias para Coimbra sem casa nem emprego? Querias que ela largasse os estudos e fosse ter contigo?
— Sei lá... — suspirei. — Isso agora é irrelevante.
— Por isso te disse que aconteceu quando tinha que acontecer. — Ofereceu-me um sorriso afectuoso e debruçou-se na mesa. — A Mafalda ama-te... amava-te muito. Sofreu imenso por te afastar, mas não queria que a visses a definhar com a doença.
— Ela não tinha o direito de tomar essa decisão por mim.
— Tinha sim, Daniel. Tinha o direito de não sofrer mais ao ver o teu amor transformado em pena.
— Isso nunca aconteceria. — irritei-me.
— Ok. Vamos acreditar que sim. Só quero que saibas que ela nunca deixou de te amar. E todas as decisões que tomou foram para te proteger do sofrimento... ou pelos menos poupar-te ao máximo.
— Falhou! — exclamei, controlando a raiva que me voltava a instigar perante a sensação de ter sido afastado dos últimos momentos da sua vida. — Eu continuo a sofrer... E nem me pude despedir. Nem tenho um lugar, um canto, uma lápide, onde a possa homenagear, onde possa passar um tempo de reflexão... Enfim... Tu não percebes.
— Percebo, Daniel. Percebo o que queres dizer. E lamento-o. Também gostava que esse lugar existisse. — Tropeçou nas palavras, emotiva. — Ela não era especial só para ti.
Notei a humidade nos seus olhos. Estendi o braço sobre a mesa e agarrei a sua mão.
— Desculpa! — pedi, percebendo a sua mágoa. — No meio disto tudo, esqueço-me que também sofres com a mo... com o que aconteceu.
Vânia colocou a mão sobre a minha.
— Perdi mais que uma amiga, perdi uma irmã. — Acariciou-me os dedos distraidamente com o olhar vago. — Quando ela... A última vez que falámos... Ela pediu para que te dissesse que te amava muito. E que tudo o que fizera fora para te proteger. — Olhou para mim num sorriso magoado. — Foram momentos muito complicados. Não lamentes teres estado ausente. Eu percebo que quisesses tê-la acompanhado, mas... Teria sido horrível para ela, encarar-te cada vez mais doente.
— Não sei se algum dia conseguirei ultrapassar isto, tê-la perdido para sempre.
— O tempo encarrega-se de sarar todas as feridas.
— Achas? Não acredito. — assumi descrente. — A Mafalda era uma mulher extraordinária. Nunca conheci nem conhecerei ninguém como ela.
— Sim, é verdade. Também nunca conheci.
Houve uma pausa no diálogo, um silêncio que surgiu como uma homenagem espontânea à memória de Mafalda. De súbito, percebemos que estávamos a segurar as mãos um do outro e soltámo-nos, meio envergonhados.
— Talvez seja melhor ir andando.
Concordei.
O vento acalmara e a claridade diminuíra bastante, ao deixarmos a esplanada. Ofereci-me para a acompanhar ao carro. Avançámos pelo passeio que ladeava o areal numa passada vagarosa. Caminhámos em silêncio com a melodia do mar agreste a servir de banda sonora.
— O meu carro está ali. — apontou, indicando o automóvel parado no lado oposto da estrada.
Parámos e ficámos de frente um para o outro. Sentia uma atracção estranha por ela, não pela sua figura ou pela sua maneira de ser, apenas porque ela era a única pessoa que partilhava comigo o sofrimento pela morte de Mafalda.
— Posso voltar a ligar-te? — sugeri.
Vânia revelou um sorriso desconfortável. Notei a hesitação. Talvez também ela notasse em si algum clima estranho entre nós.
— Não sei se isso será boa ideia, Daniel.
— Porquê? — questionei com estranheza. Depois, consciencializei-me da realidade. — Ah... o teu namorado.
— Não, não é pelo meu namorado.
— Então?
A hesitação continuou, Vânia procurava as melhores palavras sem as encontrar. E eu, indiferente às consequências, mas algo tocado pelas quatro cervejas, sem parar para pensar e num movimento rápido, beijei-a na boca.
O beijo foi aceite e retribuído. Contudo, o beijo era injusto para ela, pois eu beijava-a e imaginava que estava a beijar Mafalda.
As minhas mãos entraram no casaco e aterraram na sua cintura. Ao sentir o meu toque, Vânia travou-me e empurrou-me devagar, pondo fim ao beijo.
— Não! — exclamou. — Não faças isso.
Fiquei atordoado, uma vez que julgara que ela estava a gostar.
— Desculpa.
Vânia acariciou-me o rosto e sorriu.
— Estás carente, Daniel. Eu percebo. — Sei que não o fez por mal, mas senti as suas palavras como pena. Ela também as sentiu da mesma forma. — Numa outra fase, num outro momento... Talvez acontecesse entre nós. Mas, não agora.
— Eu entendo, fui parvo. Tu tens namorado.
Ela soltou uma gargalhada divertida.
— Já te disse, não é pelo meu namorado. — repetiu, afastando-se para atravessar a rua. — Diz-me uma coisa, Daniel. E sê sincero. — Concordei. — Em quem estavas a pensar quando me beijaste?
Vânia não merecia que lhe mentisse.
— Na Mafalda.
Vi o seu sorriso afectuoso e um piscar de olho cúmplice. Atravessou a rua ripostando uma revelação que me surpreendeu:
— Eu também.
Tive dificuldade em assimilar aquilo, enquanto a via entrar no carro. Seria possível que... Não! O automóvel saiu do seu lugar e afastou-se para norte. Vânia e Mafalda? Não era possível. Repassei memórias de momentos partilhados. Não, nunca notara nada entre elas. Que raio, barafustei sozinho, teria a Vânia uma paixão platónica pela amiga?
Regressei a casa, sentindo os primeiros pingos de chuva a cair. Acelerei o passo para evitar ficar encharcado, caso os aguaceiros dessem lugar a uma tromba de água. Isso não aconteceu e, tão depressa como haviam começado, as gotas pararam.
Aquele momento ficou a perturbar-me as ideias. Não tanto o beijo, mas a suposta possibilidade Vânia também ter sido apaixonada pela mulher da minha vida. Percebi que aquele encontro fora terapêutico, fizera-me sentir melhor por ter com quem falar de Mafalda e partilhar memórias. Se calhar, também o teria sido para Vânia. Por isso, no dia seguinte, voltei a ligar-lhe. O sinal de chamar repetiu-se até passar para o voicemail. Não deixei mensagem e voltei a tentar mais tarde. De novo, só obtive o toque de chamar até ser encaminhado para o gravador. Desliguei. Abri o ícone de mensagens escritas e digitei:
"Podemos encontrar-nos para um café?"
A resposta surgiu quase de imediato.
"É melhor não."
Estranhei e insisti:
"Hoje não podes? E amanhã?"
A resposta demorou mais que anterior.
"É melhor não nos encontrarmos por uns tempos."
Não esperava aquela postura.
"Estás chateada com o que aconteceu ontem? Já te pedi desculpa."
O telemóvel voltou a apitar, passado um minuto.
"Não estou chateada. Só prefiro que não nos voltemos a encontrar."
Não percebi o porquê daquilo e acabei por escrever:
"Se é isso que queres..."
A resposta foi imediata:
"Sim, é isso que eu quero!"
E assim se fechava um ciclo, ignorando eu que, dias mais tarde, um novo se abriria na minha vida.

Comprar livro na FNAC

Fim do capítulo

📚 Gostaste desta história?

Descobre outro livro completo da Biblioteca NST.

Ver Livros Completos

O que achaste deste capítulo?

Sê a primeira pessoa a avaliar.

← Capítulo anterior Todos os capítulos Capítulo seguinte →