CONTO IV - O teu nome é Mafalda. E fizeste escala a meu lado.
≈ 1h 14m de leitura
Ao saber do divórcio, a minha primeira vontade era meter-me num avião e viajar para Portugal. Contudo, não seria muito responsável da minha parte, tendo em conta a minha preenchida agenda de trabalho. Para além disso, que iria eu fazer? Aparecia e dizia "boa, separaste-te, já podemos ficar juntos". Não me pareceu correcto, seria desvalorizar por completo o sofrimento dela.
Antes do final daquele semestre, o divórcio foi oficializado, pouco mais de dois anos após o casamento.
Perante a previsível consumação do divórcio, organizei a minha vida para ir a Portugal, visitá-la. Estava ansioso por a rever e expectante pelos frutos que poderiam ser colhidos num reencontro em que ambos éramos descomprometidos. No entanto, antes que pudesse partilhar a hipótese com ela, recebi uma mensagem sua no email a informar que a separação a deixara muito deprimida, queria afastar-se da realidade onde estava inserida, procurar um novo rumo, descobrir um novo significado que a realizasse. E com base nisso, decidira voluntariar-se para integrar uma missão humanitária em Moçambique, colocando ao dispor das crianças locais os seus conhecimentos na área médica em que se especializara, Pediatria.
Tive vontade de partir o computador. Agora que surgia a oportunidade para ficarmos juntos, ela ia para África dar consultas? Já para não falar em todos os perigos a que estaria sujeita, tendo em conta as notícias que se viam na televisão de ataques a missões humanitárias na Nigéria, Somália, entre outros. Pensei em escrever-lhe a pedir que não fosse, mas sabia que isso seria infrutífero e poderia aborrecê-la ao ponto de querer quebrar a nossa ligação. Ao invés, elogiei o seu espírito humanitário e pedi-lhe que nos mantivéssemos em contacto quando ela fosse para lá.
Mafalda chegou a Maputo numa tarde chuvosa de final de Julho. Passou a noite num hotel da capital e na manhã posterior, juntamente com a comitiva de voluntários, iria para uma daquelas regiões com nomes esquisitos perdidas no meio da selva. Recordo-me que me ligou desse hotel, estava eu a ouvir um CD dos Travis no estúdio, para me informar que chegara. Lembrou-me que não havia Internet para onde ia e que as comunicações iriam ser difíceis. Mesmo assim, prometeu ligar sempre que fosse possível.
Durante três dias, não soube nada dela. Comecei a ficar receoso, temendo que tivesse sido vítima de algum ataque de guerrilheiros ou simples criminosos. Não queria sequer imaginar o que um grupo de malfeitores poderia fazer a uma mulher linda como ela. Tentei ligar-lhe, mas nem sequer chegava a dar sinal de chamada, era como se o telemóvel estivesse desligado.
Para meu sossego, Mafalda telefonou ao quarto dia.
— Não fiques preocupado, Daniel. Isto é tranquilo e as pessoas são muito hospitaleiras. — informou para me descansar. — O grande problema aqui é a falta de condições, as doenças que seriam facilmente tratadas aí em Portugal.
Os telefonemas tornaram-se regulares, eu ligava-lhe todas as noites. A diferença horária era de mais duas horas lá que em Edimburgo. Por isso, eu telefonava ao fim da tarde. Eram telefonemas curtos, só para saber se estava tudo bem e para lhe mandar um beijo. Parecia quase um regressar ao tempo em que nos encontrávamos nas salas virtuais da Internet para conversar quase todas as noites, quando eu trabalhava na loja em Lisboa e ela estudava para ser médica. Era sempre eu quem ligava, por causa do custo excessivo do roaming das comunicações. Não sabia se esse custo seria excessivo para ela, mas sabia que eu o poderia suportar, daí ter-lhe referido isso ao início, que eu ligaria sempre à mesma hora.
Apesar de nunca sentir aquilo como uma obrigação, tive receio que o fosse para Mafalda. Havia vezes em que me atendia visivelmente cansada. Calculei que não tivesse coragem de me pedir para não ligar tanto. Daí que, uma noite, ao fim de um mês da sua comissão em África, optei por não fazer o telefonema. Já muito tarde, quase meia-noite em Edimburgo, recebi uma sms de Mafalda:
"Está tudo bem? Não ligaste."
"Pensei que talvez quisesses algum descanso. Andas a levar comigo todos os dias."
A resposta demorou um pouco, talvez cinco minutos, o que para troca de mensagens escritas parece uma eternidade.
"Podes ligar-me?"
Marquei o número e fiz a chamada. Ao fim do primeiro toque, a sua voz surgiu num tom cansado e firme:
— Que disparate é esse?
— Disparate?
— Sim. Que se passa? Houve alguma coisa que tivesse dito ontem que te tenha levado a pensar que não gosto que ligues?
A minha mente reviu o telefonema da noite anterior, fora normal, igual a tantos outros.
— Não. Só tive receio que estivesse a ser chato, ao ligar-te todas as noites.
— Se fosses chato, eu dizia-te. E também te dizia para não ligares tanto. — esclareceu com o carinho característico da sua voz. — Isto aqui é complicado, lidamos diariamente com o sofrimento das pessoas, com a nossa impotência. — Suspirou, revelando o cansaço acumulado. — Os teus telefonemas são uma espécie de refresco, um momento de relaxe... — Ouvi um risinho. — Se calhar, eu é que te maço todas as noites.
— Agora és tu que estás a disparatar.
— Eu sei. Tu és um querido, sempre foste.
— Tu sabes o quanto eu gosto de ti.
— Sim... — Houve uma pausa, um silêncio prolongado. Ela mudou de assunto. — És a única pessoa com quem falo regularmente. Chego a estar mais de uma semana sem ligar para a família. Então com a Vânia só falei quando cheguei, de resto, só trocamos mensagens. — Mais uma pausa. — Tu és o meu elo com a civilização.
— Sabes que estou sempre contigo, mesmo estando longe.
— Sim, eu sei.
Não me importava de ficar ao telefone com ela indefinidamente, a força do amor que sentia por ela queimava-me o espírito.
— Mafalda...
— Sim?
Eu amo-te!, surgiu no meu pensamento.
— Sim, Daniel? — insistiu perante o meu silêncio.
— Já conseguiste ultrapassar o divórcio?
A resposta não foi imediata e quando veio trazia na voz um travo de amargura:
— Não. Ainda sofro com isso. Mas, pelo menos aqui, mantenho a mente ocupada. Só mesmo quando vou dormir ainda me deixo cair na tristeza.
— Ele não merece que ainda sofras por ele.
— Não sofro por ele, Daniel. — corrigiu. — Sofro por mim, sofro pelo meu fracasso em ser mãe.
— Isso não justifica um divórcio. — argumentei, pensando que só um estúpido, uma besta quadrada, poderia abdicar do amor de uma mulher como ela.
— Apesar de tudo, não o condeno, Daniel. É um direito dele, querer ser pai.
— Havia outros caminhos, Mafalda. Sei lá, adopção...
— Ele não quis. E mais uma vez admito que está no seu direito.
— Não deves sentir isso como um fracasso teu, Mafalda.
— Mas é! — afirmou convicta. — Fui eu que falhei.
— Não o vejo dessa forma. — contestei. — No lugar dele, amar-te-ia ainda mais.
Do outro lado da linha veio um riso suave.
— És um querido por tentares fazer com que me sinta melhor. — Suspirou. — Já é tarde. Tenho de ir descansar.
— Gosto muito de ti, Mafalda!
— Eu também gosto muito de ti, Daniel!
— Posso fazer uma última pergunta?
— Desde quando precisas de autorização para fazer perguntas?
— É das difíceis.
Notei alguma apreensão no seu silêncio.
— O mais que pode acontecer é eu não responder.
— Está bem. — concordei, ganhando coragem. Respirei fundo. — Ainda gostas de mim como naquela manhã em que nos encontrámos pela primeira vez?
Novo silêncio. A resposta atrasou-se indefinidamente, alguns segundos que a minha expectativa encarou como horas.
— Não te vou responder a isso. — disse séria. — Quero apenas que saibas que gosto muito de ti. Não quero pensar em relações de afecto, relacionamentos amorosos. Estou muito magoada com o que aconteceu. E volto a dizer-te, não é culpa dele. Culpo-me a mim. Neste momento, não quero nem preciso de paixões. Preciso de amigos, preciso de um amigo, um amigo com quem tenha uma relação muito forte, a mais forte de todas, alguém que me faz sentir bem, segura e confortável. Tu és o mais próximo que tenho disso. É só isso que quero. Se puderes continuar a ser esse amigo, ficarei feliz. Mas, não te vou enganar, não quero que a nossa relação algum dia vá além do que temos hoje. — Parou para analisar a minha reacção. Eu aguardei. — Percebo que possa estar a defraudar as tuas expectativas. Compreenderei se te quiseres afastar.
— Não, Mafalda, não me vou afastar. — comprometi-me. — Desejo-te uma boa noite. Amanhã à mesma hora?
— Sim. — concordou já sem o peso na voz. — E, por favor, não voltes a pensar disparates. Se algum dia, num futuro completamente surreal e improvável, estiver cansada de falar contigo, eu digo-te.
A minha vida profissional tornou-se ainda mais atarefada ao ser contratado por uma agência londrina, o que levou a que tivesse de viajar quinzenalmente para Londres e ficar lá três dias. Não havia nada melhor que trabalhar naquilo que gostava e ser ricamente pago por isso. Mais uma vez, a oportunidade era fruto da entrevista de Tânia.
No auge do Outono, no regresso a casa vindo de Londres, Peter alertou-me para algo:
— A Tio anda muito apática e come pouco.
Olhei para a gata que, ao contrário do habitual, não viera receber-me e permanecia aconchegada na sua cama. Baixei-me junto dela e acariciei-lhe o pelo, obtendo um ronronar de agrado. Fui preparar-lhe uma latinha da sua comida preferida e coloquei num pires. Mal ouvia o som da lata, ela vinha a correr para comer. Porém, desta vez, manteve-se imóvel. Levei o pratinho para perto dela. Tio lambeu um pouco e desinteressou-se.
— Estás a ver? Tem estado assim, Daniel.
— Talvez seja melhor eu levá-la ao veterinário.
Sem perder tempo, coloquei-a com cuidado na transportadora.
O veterinário que a observava regularmente ficava a dois quarteirões da nossa casa, pelo que ia sempre a pé até lá. Ele observou-a minuciosamente com semblante apreensivo. Eu via a cena com o coração nas mãos, temendo o diagnóstico. Por fim, disse-me que ela não apresentava sinais de qualquer doença, tudo se resumia a velhice. Custava a acreditar que Tio fosse já uma gata sénior, mas quando a adoptara já era uma gata adulta e vivia comigo havia uns dez anos. Numa postura austera, o veterinário recomendou que a mantivesse o mais confortável possível e... que me preparasse para o pior.
Não me quis convencer disso, Tio não poderia estar a... Não, não queria acreditar nisso. Fosse como fosse, alterei algumas rotinas, procurando estar mais tempo com a gata. Podia recusar-me a aceitar, mas o meu inconsciente encaminhava-me para esse desfecho.
Algumas noites mais tarde, fiquei sozinho no apartamento estúdio, uma vez que Peter saíra para jantar com uns amigos e chegaria tarde ou nem sequer viria passar a noite a casa. Tal como costume, telefonei a Mafalda para mais um relato do dia, partilhando as incidências do meu e ouvindo as satisfações e frustrações que uma pediatra poderia atravessar em Moçambique.
A seguir, peguei em Tio e vim para o sofá ver televisão, deitando-a no meu colo. Ela aninhou-se nas minhas pernas e permaneceu confortável, apreciando o meu pentear com os dedos do seu pelo tricolor. Ela olhou para mim, tinha um olhar mais intenso que muitos seres humanos. Quase a julguei ver sorrir. Que disparate, os gatos não sorriem. Voltou a aninhar-se no meu colo, pressionando-me suavemente com as patitas, como se dissesse "gosto muito de ti". Quero acreditar que ela estava a agradecer-me, se bem que talvez eu tivesse mais a agradecer-lhe a ela por todos aqueles anos em que muitas vezes fôramos a única companhia um do outro.
Na televisão, distraí-me com um filme de acção que rapidamente perdeu importância em conflito com o meu sono. Estava cansado de mais um dia, começava a considerar seriamente a hipótese de tirar umas férias, daí que tenha adormecido. Acordei com outra coisa qualquer a passar no ecrã.
— Vá, Tio. Vamos dormir. — disse eu à gata, acariciando-lhe a cabeça. Ela não se mexeu. — Tio! — A minha voz não provocou qualquer efeito. — Tio? — Percebi que arrefecera e não havia sinais de que respirasse. — Tio? Tio? — Sem que me apercebesse, as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Acorda, Tio! Tio! TIO!!!
Agarrei-a com força, abanei-a como se isso a pudesse trazer de regresso à vida. Claro que os seus olhos permaneceram cerrados. Abracei-a junto ao peito com força e chorei como uma criança. Ela adormecera o sono eterno...
Naquela noite não perdi uma gata, perdi uma amiga e companheira que percorrera comigo os últimos dez anos, quase desde o triste dia em que o meu tio falecera. Fora a minha companhia na solidão, a presença alegre a cada chegada minha a casa, a cúmplice de brincadeiras, ouvinte de desabafos. Tio vivera comigo em Almada, mudara-se comigo para Moscavide, regressara comigo a Almada, viajara comigo para Edimburgo... A gata era parte de mim, parte da minha vida. Um pedaço do meu ser partia com ela. E aquela casa nunca mais seria a mesma sem a sua presença. Num momento de introspecção, com Tio nos braços apertada contra mim, pensei nos meus tios e pedi-lhes que, se os seus espíritos se cruzassem, tomassem conta dela por mim.
Mafalda propusera-se a permanecer um ano em Moçambique e cumpriu. Estivera numa região que eu imaginava ser um antro de perigos, mas que não passava de um lugar calmo com inúmeras carências de recursos para quem lá vivia. Ser médica ali fora uma lição de vida para ela. Ao regressar a Portugal, Mafalda não retomou a sua função no Hospital de Coimbra, uma vez que o ex-marido exercia funções lá e ela não queria estar a cruzar-se com ele. Ao invés, pediu transferência para outro hospital e conseguiu lugar na Pediatria do Hospital de São João no Porto. Como Vânia, entretanto fora viver para Vila Nova de Gaia, Mafalda aceitou o seu convite para partilharem o apartamento.
Eu ia seguindo a sua vida à distância, conforme ela me ia relatando tudo pela Internet. Após um ano de constantes telefonemas diários, já não passávamos um dia que fosse sem falar um com o outro. Só que retomámos as conversas pelo Messenger, uma vez que era mais cómodo que falar ao telefone. Foi assim que fui ficando a par dos seus relatos.
Apesar de ela sempre ter dito que nunca seriamos mais que amigos, eu mantinha a esperança de a conquistar. E sabia que tinha de o fazer antes que outro "marido" aparecesse na sua vida. Esperei que Mafalda organizasse a sua vida no Porto, a mudança para a casa da amiga, a adaptação ao novo cargo no hospital e às consultas que começou a exercer em duas clínicas, uma no Porto e outra em Gaia. Quando senti que a sua vida encarrilara numa rotina, informei-a que tinha de ir ao Porto tratar de uns assuntos.
Mafalda ficou desconfiada.
"Vens ao Porto tratar de que assuntos?"
Um assunto chamado Mafalda.
Claro que não lhe podia dizer que ia de propósito para a ver. Iria com toda a certeza tentar demover-me de o fazer, não quereria ser foco de tal despesa ou alertar-me-ia para que não tivesse ilusões em relação a nós.
"Uma proposta de trabalho de uma agência", menti.
"Isso é bom. Espero que tenhas sucesso."
"Podemos encontrar-nos quando for aí?"
Mafalda enviou a resposta que eu calculava:
"Não sei se vai dar. Estou com muito trabalho, turnos no hospital, as clínicas."
"Só regresso a Edimburgo depois de te ver."
"Depois vemos isso. Quando vens?"
"Daqui a três dias."
Aterrei no Aeroporto Sá Carneiro numa tarde quente de início de Setembro. A cidade do Porto brilhava com um Sol forte a que já não estava habituado, quando o táxi em que segui me deixou à porta do hotel perto da Avenida dos Aliados.
Perante a evidência de que eu ia mesmo a Portugal, Mafalda acabou por concordar que nos encontrássemos. No dia seguinte à minha chegada, ela estaria de folga do hospital e não tinha consultas nas clínicas.
Almocei num restaurante perto do Coliseu, procurando abstrair-me da ansiedade por a ir reencontrar nessa tarde. Saí do estabelecimento e desci a Rua Passos Manuel fustigado pelo calor. Começava a pensar se os cincos anos a viver em Edimburgo me haviam transformado a pele ao ponto de ficar rosado como um escocês numa praia do Algarve. Virei para a Rua Sá da Bandeira, passando pelo teatro com o mesmo nome e indo desembocar à Rua 31 de Janeiro.
Nunca tinha ido ao Porto. O máximo fora a passagem por lá entre Coimbra e o Aeroporto Sá Carneiro, aquando do casamento de Mafalda. Porém, simpatizara com a cidade e com as pessoas no seu estilo próprio e muito receptivo. Não conhecia a cidade. Vira como alcançar o meu destino através do mapa no hotel e pedindo informações aos portuenses. Tive de o fazer várias vezes e em nenhuma fui tratado com antipatia ou enfado.
Atravessei a Rua da Madeira e entrei na Estação Ferroviária de São Bento por uma porta lateral, instigado pela curiosidade em ver o interior. Fiquei encantado com os painéis de azulejos em todas as paredes do átrio principal. Sem saber porquê, veio-me à cabeça a música Getting Away With It (All Messed Up) cantada pela banda James, a minha canção favorita deles. Saí pela porta principal a cantarolar "We're getting away with it all messed up. Getting away with it all messed up. That's the living". Desci a rampa onde os táxis se perfilavam a aguardar clientela e passei para o outro lado da Praça Almeida Garrett. Prossegui pela Rua Mouzinho da Silveira, na qual caminhei por largos minutos, observando tudo com noção da ansiedade crescente de quem se aproxima do destino. Cruzei a Rua da Bolsa na passadeira e entrei no Jardim do Infante Dom Henrique, circulando pelo caminho cimentado que cortava o relvado. O ponto de encontro combinado fora o Palácio da Bolsa. O edifício surgiu diante de mim após o jardim. Atravessei a Rua Ferreira Borges e dirigi-me à escadaria que dava acesso à fachada de três portas com as letras "Associação Comercial do Porto" escritas por cima.
Mafalda ainda não chegara, mas eu também estava adiantado. Não sei donde ela saiu, só a vi já no cimo da rua a subir a escadaria oposta à que eu usara. Caminhava com elegância numa passada segura a cada degrau, onde os saltos dos seus sapatos batiam com firmeza. Vestia uma camisa encarnada fresca e larga de mangas curtas e calças de ganga à sua medida. O cabelo estava mais ruivo e menos louro com os caracóis mais curtos. O rosto parcialmente tapado pelas lentes largas dos óculos escuros não esconderam o sorriso franco ao ver-me. Senti o coração palpitar com a sua aproximação, quase como se quisesse explodir-me do peito. Ela parou na minha frente e ao "olá" juntou um beijo terno na minha face. Retribuí ambos com uma vontade imensa de a abraçar.
— Já tinhas vindo ao Porto? — indagou, retirando os óculos para o topo da cabeça.
Eu ia responder que sim, no seu casamento, mas achei que referir o "casamento" não era uma boa opção.
— Não.
— E deste bem com isto?
— Como se costuma dizer, quem tem boca vai a Roma.
Mafalda sorriu, aquele sorriso cativante que me apaixonara desde o primeiro segundo em que a vira.
— Queres beber um café? — convidou. — Podemos ir até à Ribeira.
Assim que concordei, ela tornou a baixar os óculos para o rosto e avançou pela escadaria que eu subira, conduzindo-me de novo para o passeio. Na passadeira, atravessámos a Rua Infante Dom Henrique e caminhámos nela até chegar à esquina com a Rua da Alfândega por onde descemos até ao Cais da Estiva com o rio Douro a receber-nos num azul alegre e ensolarado. Escolhemos uma esplanada e sentámo-nos defronte um do outro, vendo os muitos turistas que por ali circulavam.
— Como correu a reunião, Daniel?
— Reunião? — questionei confuso.
Nesse instante, um empregado acercou-se da mesa para receber o nosso pedido.
— Dois cafés. — pediu ela. A seguir virou o rosto para mim. — Não vieste a Portugal por causa de uma reunião com uma agência ou o que era?
— Ah... Sim... Pois... — respondi, recordando-me da falsa justificação que lhe dera. — Correu bem.
Mafalda ficou séria, observando-me com a cobertura das lentes escuras.
— Não houve nenhuma reunião, pois não?
— Se te dissesse que vinha de propósito para te ver, tinhas-me dito para não vir.
Ela abanou a cabeça como se ficasse aborrecida. Depois, abriu o sorriso e disse:
— Tu és incrível. Vir de tão longe só para me visitares.
— Tinha saudades tuas.
— Falamos todos os dias, Daniel.
— Não é o mesmo que estar fisicamente contigo.
O empregado trouxe os cafés e depositou uma chávena diante de cada um. Puxei de uma nota de cinco euros e dei-lhe, dizendo:
— Fique com o troco.
— Fica um café caro. — constatou ela, após o rapaz se afastar.
— Venho com o jetlag dos preços de Edimburgo. — retorqui com humor.
Bebemos o café em silêncio. Ela evitou o meu olhar, desviando o rosto para um barco que navegava no rio. Como também estava de óculos escuros, permiti-me analisá-la. O seu rosto amadurecera, diferente da jovem que conhecera nove anos antes em Lisboa, mas mantinha toda a beleza e sensualidade. As marcas não eram mais que registos dos momentos difíceis.
— Tive dificuldade em me reabituar a isto. — afirmou, quebrando a minha análise. — Esta quantidade de gente, a confusão do trânsito, a falta de paciência das pessoas... Em Moçambique não era nada assim. — Sorriu com o semblante perdido em recordações. — A vida lá é muito mais calma.
— Tens saudades de Moçambique?
— De Moçambique propriamente não. Tenho saudades das pessoas, das crianças... Principalmente das crianças. — Fez um gesto como se fosse dizer algo absurdo. — Se pudesse, trazia-as todas. — O seu rosto ensombrou-se. — Não imaginas a falta de condições. Cá em Portugal passamos a vida a queixarmo-nos de tudo. Havias de ver como é lá. Não há quase nada e as pessoas ainda assim são gratas e percebem que fazemos o melhor que podemos.
— Pensas voltar?
Mafalda abanou a cabeça.
— Não. Foi uma fase, um propósito de fazer algo, de dar um sentido à vida. Quero continuar a ajudar as pessoas, mas irei fazê-lo aqui. Tenho falado com algumas associações e quero fazer voluntariado junto de crianças carenciadas.
— Tens um coração de ouro.
Ela encolheu os ombros.
— Acho que é uma forma de ser um bocadinho mãe. Lidar com crianças é aquilo que mais gosto de fazer. Não posso ter filhos, daí que faça o mais que posso pelos filhos dos outros. Enfim... Sei lá...
— Dá Deus nozes a quem não tem dentes. — retorqui, pensando no meu passado.
— Como assim?
— A Francisca podia ter filhos e nunca os quis ter. — recordei. — Também gostava de ser pai. — Sorri ao imaginar-me nesse papel. — Bom, a vida que levo torna a paternidade complicada, sempre de um lado para o outro. — Encarei as suas lentes escuras. — E a criança precisa de uma mãe.
— Talvez devas começar por aí. — avisou séria. — E certifica-te que ela pode ter filhos, antes de te comprometeres.
— Mafalda. — chamei com ternura. — Não sou o teu ex-marido.
Ela olhou-me surpresa e confusa.
— Que queres dizer com isso?
— Quero dizer que nunca largaria a mulher que amo só porque ela não consegue engravidar.
— Sim... — concordou denotando algum desconforto. — Mas será melhor se ela puder ter filhos.
— Porque é que fazes isso? — questionei, tirando os óculos.
— Faço o quê?
— Falas como se não soubesses quem é a mulher que eu amo.
Mafalda emudeceu, dirigindo a atenção para a chávena vazia. Eu aguardei, conhecendo-a o suficiente para perceber que ela preparava as palavras a proferir.
— Só quero o amigo, Daniel. Já te disse antes e irei repeti-lo sempre que tocares nesse assunto.
— O dia em que me disseres, olhos nos olhos, que não sentes o mesmo por mim, eu nunca mais o repito.
— Eu não te amo, Daniel!
— Se tirares os óculos e repetires isso a olhar para mim, eu acredito.
Mafalda tirou os óculos e encarou o meu olhar. Percebi que ela iria mesmo dizê-lo nos meus olhos. Quando a sua boca se abriu, temi tê-la desafiado. Só que não ouvi a repetição da frase anterior. O que ouvi, foi:
— Tu queres ser pai. Admiro isso em ti. Nunca serias feliz comigo.
— Deixa-me provar-te o contrário.
Ela renunciou à oferta.
— Podes acreditar nisso agora, mas mais tarde...
— Não sou o teu ex-marido, Mafalda.
— Pára de repetir isso. — irritou-se. — Eu sei que não és. — Suspirou, voltando a colocar as lentes no rosto. — É melhor ir andando.
— Não vás. — pedi, arrependido de ter expressado os meus sentimentos.
— Vamos dar um passeio. — sugeriu, levantando-se da cadeira.
Abandonámos a esplanada e fomos caminhar ao longo do cais.
— Desculpa! — pedi. — Não tenho o direito de te pressionar.
— Deixa. Não penses mais nisso.
No cais estavam atracados vários barcos rabelos, usados para passeios turísticos pelo rio. Na margem oposta, em Gaia, outros tantos com o mesmo objectivo. Caminhámos alguns metros em silêncio, desfrutando somente da companhia um do outro. Olhei para a Ponte Dom Luís I, a igreja da Serra do Pilar e o seu miradouro no lado de lá. Subimos a larga escadaria de madeira e parámos junto ao pilar norte da ponte, encostados ao gradeamento. O Sol forte incidia daquele lado na sua trajectória para o mar.
Ficámos a olhar para a outra margem, perfilada de diversas caves de vinhos, marcas centenárias tão conhecidas. Não me importava de ficar ali a seu lado para o resto da eternidade.
O que passava pela mente de Mafalda era uma incógnita para mim. Porém, foi ela quem retomou o diálogo:
— Não posso ser para ti aquilo que gostarias que fosse. Já tu és aquilo que preciso neste momento, um amigo. Talvez não acredites, mas estes últimos tempos acentuaram a tua importância na minha vida.
— Não tenho porque não acreditar.
Mafalda virou-se para mim.
— Vou confessar-te uma coisa. — disse ela. Voltei-me para si. — Tenho medo que te afastes por não te dar o que queres.
— Isso nunca vai acontecer.
— Não sei... — duvidou insegura.
Ia perguntar-lhe se a podia abraçar, mas arrisquei e abracei-a sem pedir. Ela deixou-se envolver e repousou a cabeça no meu ombro. Ficámos assim uns instantes até as suas mãos tocarem nas minhas ancas para que me afastasse. Abri o abraço e ela olhou para mim com um sorriso terno. O Sol iluminava-lhe o rosto e conseguia ver-lhe os olhos atrás das lentes, revelando neles os seus reais sentimentos. Sem pensar, fiz um movimento ténue da cabeça na sua direcção. Para minha surpresa, ela copiou-o. As nossas bocas aproximaram-se perigosamente. Os nossos lábios estavam a escassos centímetros quando ela murmurou:
— Não...
Aquilo soou-me a um "não" que queria dizer "sim" e apaguei mais alguns centímetros. Ansiava por aquele beijo há nove anos. Quase a beijá-la, ouvi:
— Se me amas, não o faças!
Suspirei e afastei-me tão devagar quanto me aproximara. Sorri-lhe recebendo em troca o seu sorriso meio envergonhado.
— Desculpa...
— Não tens de pedir desculpa, Mafalda. Eu compreendo.
Percorremos o trajecto inverso vagarosamente. Para atenuar qualquer ferida provocada pela rejeição, Mafalda começou a falar do trabalho, evitando que o silêncio servisse para nos martirizarmos em pensamentos. Eu ouvi-a atento, nada arrependido por ter desperdiçado a oportunidade. Pelo menos, eu marcara uma posição, assumindo claramente que a amava.
Novamente no Palácio da Bolsa, Mafalda perguntou:
— Estou de carro. Queres que te deixe no hotel?
— Não. Prefiro caminhar um pouco.
Ela encarou-me triste.
— Ficaste chateado? Por eu...
— Não. — neguei com um sorriso honesto. — E não perguntes se continuamos amigos. Sabes bem que sim. Nunca te vou deixar.
Hesitante, aproximou-se para me beijar o rosto. Recebi o seu beijo afectuoso e dei-lhe outro na sua face.
— Quando voltas?
— Amanhã.
— Ligas quando chegares, Daniel?
— Claro.
— Faz boa viagem. — desejou, afastando-se.
— Mafalda! — chamei, travando o seu andar. — Serei sempre teu amigo. Mas, nunca deixarei de te amar.
Ela sorriu.
— Eu sei, Daniel. Eu também não.
Fiquei a vê-la desaparecer para lá da esquina, pensando no significado do "eu também não".
No regresso a Edimburgo, a vida retomou o ritmo habitual. Muito trabalho, viagens a Londres, sessões no nosso estúdio... Peter e eu tínhamos uma agenda tão preenchida que se tornava raro trabalharmos em conjunto. Deixara de ser o seu discípulo e ganhara asas próprias, autonomia total para ir construindo uma carreira cada vez mais sólida. Numa conversa descontraída num fim de tarde após mais uma sessão de estúdio, Peter dissera-me como se orgulhava de mim, quase como um pai que vê o filho formar-se.
As conversas no Messenger com Mafalda também continuaram, havendo apenas uma ou outra noite em que, por compromissos meus ou dela, não aconteciam. Por vezes, eu tentava aprofundar a questão dos sentimentos, mas ela fugia sempre, respondendo de forma evasiva ou reafirmando a amizade em prol da paixão. Mesmo assim, sabia que existia um grau de intimidade exclusivo nos nossos diálogos. Fosse como fosse, sabia que nunca a conseguiria conquistar à distância, daí que tivesse tomado uma das decisões mais difíceis da minha vida.
Peter chegara a casa à noite, após uma saída para jantar com o namorado dinamarquês. Congratulava-me com o facto da sua relação durar há bastante mais tempo que aquilo que supus inicialmente. Pedi-lhe uns minutos para conversarmos.
— Peter! Decidi regressar a Portugal.
— Mais uma viagem para visitares a tua namorada? — questionou num tom brincalhão.
— Não. Estou a pensar regressar em definitivo.
Peter perdeu o sorriso. Surpreso, encostou-se ao balcão e disse:
— Tenho pena que vás. Mas compreendo a tua decisão. E faço votos para que tenhas tanto sucesso lá como tens tido aqui.
— Lamento estar a quebrar a nossa parceria.
— Não lamentes, Daniel. — contrapôs, retomando o sorriso. — Temos trabalhado de forma independente nos últimos tempos. Orgulho-me muito que tenhas ganho asas e voado sem mim. O meu lamento é apenas a tristeza pelo perda do meu parceiro aqui de casa.
— Sempre foste um bom amigo. Devo-te muito, Peter.
— Não me deves nada, Daniel. O que conseguiste foi graças ao teu talento. Eu limitei-me a ajudar-te a abrir portas.
A minha primeira acção para iniciar o processo de mudança foi vender a minha mota. A seguir, comecei a gerir a minha agenda para ter um período de pausa que me permitisse organizar em Portugal. Em todo esse tempo, não contei nada a Mafalda. Peter aconselhou-me alguns contactos no nosso país onde eu me deveria apresentar e que, perante o meu currículo de trabalhos, me contratariam.
Assim, novo ano, vida nova. E, seis anos após ter aterrado em Edimburgo pela primeira vez, partia de regresso a casa em definitivo.
Apesar de querer focar o meu trabalho a norte para estar perto de Mafalda, viajei para Lisboa e retornei à casa de Almada cuja renda nunca deixara de pagar. Foi uma sensação estranha, voltar a entrar num lugar onde crescera e que não visitava desde que emigrara. Estava tudo igual, tudo como deixara, só eu estava diferente.
Instalei-me provisoriamente, uma vez que não pretendia permanecer por ali mais tempo que o necessário. Pela Internet, comecei a procurar casa no Porto e a contactar as agências que Peter me recomendara. Para além disso, ao segundo dia em terras lusitanas, fiz a minha primeira grande despesa, uma loucura, comprei uma mota nova, uma BMW S1000 RR de 200cv.
A minha ideia era alugar um pequeno apartamento na cidade do Porto. Contudo, acabei por arrendar um em Miramar, Vila Nova de Gaia, perto da praia. Tudo foi muito rápido e não cheguei a permanecer mais de três semanas em Almada. Durante todo esse tempo, nunca contei a Mafalda que me mudara em definitivo para Portugal e para bem perto dela. Em relação ao trabalho, as coisas também evoluíram bem, pois todos os contactos que fiz mostraram receptividade em terem a minha colaboração. Assim, em meados de Fevereiro, eu estava instalado e activo.
O apartamento que Mafalda partilhava com Vânia localizava-se na zona de Coimbrões. Com a justificação de que pretendia enviar-lhe um presente pelo correio, pedi-lhe a morada. Queria fazer-lhe uma surpresa.
A tarde estava fria e o vento soprava com brusquidão, levando e trazendo nuvens que tapavam e destapavam o Sol. Apesar de ainda me estar a habituar à região, começava a ter noção das estradas e dos melhores caminhos. Porém, estudei muito bem o trajecto para não me perder. Saí de casa e montei na mota, segurando um segundo capacete no braço direito. O percurso entre Miramar e Coimbrões foi relativamente fácil, o pior foi encontrar a rua dela. Após alguns enganos, ter de perguntar a duas pessoas e falhar um cruzamento, lá consegui dar com a rua. Parei em frente ao prédio com o número da sua morada, retirei o capacete da cabeça e peguei no telemóvel, marcando o número dela.
— Olá, Daniel! — atendeu com uma voz apreensiva. — Está tudo bem?
Não era comum telefonar-lhe, raramente o fizera depois do seu regresso de Moçambique.
— Olá, Mafalda! Está tudo bem. — descansei-a. — Estás em casa?
— Estou.
— Podes descer? Estou aqui em baixo.
— Estás a brincar? — interrogou, julgando-me em Edimburgo.
— A sério. Se não acreditas, vai à janela e olha para rua. Vê lá se não está lá um tipo vestido de preto em cima de uma mota cinzenta com dois capacetes.
Ouvi o som do seu movimento a andar pela casa. A seguir, proferiu incrédula:
— Só podes estar a gozar.
Desligou a chamada e fez-me esperar alguns minutos até aparecer pela porta do prédio. Saiu com um semblante fechado, algo aborrecida. Ao ver-me, sorriu feliz. Caminhou até mim, segurando as abas do casaco comprido e, antes de me alcançar, perguntou:
— Que fazes aqui?
— Vim visitar-te.
Trocámos dois beijos.
— Espero que desta vez não tenhas vindo de propósito a Portugal para me visitar.
— Não, não vim. — respondi. — Já cá estou desde o início do ano.
Mafalda franziu o rosto, confusa.
— Pensei que estivesses em Edimburgo. Ainda no outro dia me disseste que estava a chover lá.
— Pois... Tenho andado a enganar-te. — confessei com um sorriso travesso. — Vim em definitivo para cá. Decidi mudar de ares, estava farto do frio.
Ela não se deixou enganar facilmente.
— Voltaste a viver em Almada?
— Não. Aluguei casa no Norte, decidi continuar a ser fotógrafo por cá.
Com "norte", Mafalda calculou todas as hipóteses do Douro para cima.
— Então agora vives onde?
— Em Miramar.
Mafalda ficou boquiaberta.
— Isso é já ali. — constatou estupefacta. — Espero que as tuas decisões não tenham sido influenciadas por mim.
Abanei a cabeça, fingindo que tal ideia era um absurdo.
— Vim convidar-te para conheceres a minha casa. — expliquei. Apontei-lhe o segundo capacete. — Toma.
— Não sei... — recusou hesitante. — Nunca gostei muito de motas.
— Não te preocupes. Eu sou cuidadoso na estrada.
Antes de segurar o capacete, Mafalda cravou o olhar em mim e num tom inquisidor, alertou:
— Espero que não estejas a preparar alguma coisa!
— És a minha melhor amiga, Mafalda. Gostava que fosses a primeira pessoa a conhecer a minha casa nova.
Ela colocou o capacete e sentou-se atrás de mim. Os seus braços envolveram a minha cintura para se segurar, apertando-se mais quando nos coloquei em movimento.
No regresso a Miramar não me enganei no caminho, evitando fazer má figura na frente dela. Estacionei a mota no passeio defronte do meu prédio e ajudei-a a saltar da mota. Tirámos os capacetes, ficando cada um com o seu.
— Viva o luxo! — exclamou ela. — Viver na praia não é para todos.
— Foi o que consegui arranjar. — desvalorizei, falando como se tivesse alugado uma barraca num pântano.
O apartamento ficava no último piso de um prédio de três. Não tinha elevador. No cimo das escadas, abri a porta e convidei-a a entrar.
Mafalda avançou com um olhar analisador. Viu o átrio pequeno e escolheu para ver primeiro a sala grande com lareira e duas portas envidraçadas de acesso ao terraço. O chão era de madeira e as paredes num tom amarelo sumido. A mobília era minimalista, só o necessário para alguém ali viver, um sofá, uma mesa, quatro cadeiras e um móvel com televisão, tudo pertença do senhorio. Na porta oposta à da sala, o acesso à cozinha, um espaço pequeno com balcões em forma de L, cada um com uma janela para os prédios circundantes, e os electrodomésticos encastrados. As paredes e o chão eram forrados a mosaicos claros para contrastar com o tom escuro dos móveis. A terceira porta do átrio dava para um corredor com duas portas de cada lado. À esquerda, um segundo acesso à sala, seguindo-se a porta de um quarto. No lado direito, a porta da casa de banho geral e a porta do segundo quarto. Acendi a luz da casa de banho para que ela visse, uma vez que não tinha janela. Era um espaço pequeno com um lavatório, sanita e polibã, toda em tons de azul. O quarto ao lado da sala não tinha casa de banho e estava sem mobília. O quarto principal, onde eu dormia, tinha uma cama de casal, um roupeiro, casa de banho privada e uma janela com vista para a rua.
Mafalda não perdeu muito tempo com os quartos, regressando rapidamente à sala. Abriu uma das grandes janelas e saiu para o terraço. Este espaço exterior não era muito extenso, parecia mais uma varanda grande que um terraço. Porém, continha a melhor virtude da casa, a vista de mar.
— É uma bela casa. — elogiou, olhando para a praia ao fundo.
— Não era o que tinha em mente, mas gostei quando a vi.
Ela sorriu e olhou para mim.
— Condiz contigo. Transmite paz.
— Eu transmito paz?
— Sim. — assentiu, retomando a observação do horizonte. — Pelo menos, a mim.
Coloquei-me a seu lado, partilhando a vista. O mar tinha uma tonalidade escura acentuada pelo céu nublado. O vento agitava os caracóis de Mafalda.
— Porque vieste para aqui? — interrogou de súbito. — Porque decidiste regressar a Portugal?
Não lhe menti.
— Quis ficar mais perto de ti. — Ela olhou para mim sem qualquer surpresa pela honestidade das minhas palavras. — Gosto de estar contigo. Independentemente dos sentimentos que tenhamos ou não um pelo outro, quero estar contigo mais tempo. Não ser uma amizade de telefonemas ou mensagens. Gostava que fizéssemos parte da vida um do outro no mundo real.
Mafalda sorriu, procurando domesticar o cabelo nervoso com o vento.
— Eu não mereço um amigo como tu. — afirmou com ternura no olhar. — E sinto que te estarei sempre a defraudar.
— Não estás, Mafalda. Todas as decisões que tomei foram conscientes da tua vontade e sentimentos.
— Não posso dizer que não esteja feliz por estares aqui. Mas...
— Mas?
— Acho demasiado para alguém que nunca será mais que uma amiga.
— Não te preocupes. Foi uma decisão minha. — insisti. — Além disso, tenho a vantagem de poder exercer a minha profissão em qualquer lugar.
— Já conseguiste trabalho cá?
Anuí, adicionando:
— E continuo a ter a colaboração com o projecto de Londres. Pelo menos, durante mais uns meses, vou ter de viajar para lá de quinze em quinze dias.
O frio intensificou-se e uma rajada de vento convenceu-nos a regressar à sala. Mafalda sentou-se no sofá. Eu puxei uma cadeira e apoiei-me nas costas.
— Queres beber alguma coisa? Tenho máquina de café...
— Não, obrigado. — Mafalda olhou para o telemóvel. — Preciso regressar.
Não tentei convencê-la a ficar mais tempo. O meu objectivo estava cumprido, contar-lhe que voltara para Portugal e levá-la a conhecer a minha casa.
A noite começava a chegar, o que complicou o meu reconhecimento do caminho para Coimbrões. Percebendo as minhas dúvidas, Mafalda foi dando indicações. Parei a mota no mesmo lugar. Ela desmontou, retirando o capacete ao mesmo tempo que eu, e entregando-mo.
— Não. Fica com ele. — pedi, travando o seu movimento. — Serve para as próximas vezes que te levar a passear.
— É melhor não. Podes precisar dele.
— Não preciso. — tornei a recusar.
— E se quiseres transportar alguém na mota?
— Isto não é um táxi. — argumentei. — Eu ando sempre sozinho de mota. Não pretendo partilhar o assento com mais ninguém, senão tu.
Mafalda ofereceu-me um sorriso terno e envolveu o capacete nos braços.
— Pronto, está bem. Eu fico com ele.
Gerou-se um impasse. Eu sentado na mota, ela em pé a meu lado. Acho que nenhum de nós se queria despedir.
— Vais achar estúpido, isto que te vou dizer. — comecei perante o seu semblante atento. — Nestes quase doze anos que nos conhecemos, estivemos juntos umas quatro vezes, certo? — Ela anuiu. — Mas, sempre que estou contigo, sinto-me como se nunca tivesse estado um dia que fosse longe de ti.
— Eu percebo-te. — retorquiu, piscando o olho.
— Quando é que posso voltar a ver-te?
— Não te quero viciado, Daniel. — alertou com falsa seriedade. — Encontrarmo-nos muitas vezes pode causar habituação.
— Estou ciente disso, senhora doutora.
Ela sorriu, abanando a cabeça.
— Ainda nem acredito que estejas aqui, que tenhas voltado em definitivo e a viver tão perto. És completamente maluco.
— Por ti. — completei.
— Pára com isso, Daniel. — pediu.
— É verdade, eu sou malu...
Mafalda calou-me, tapando a minha boca com a sua mão. Depois, beijou as costas da mão.
Afastou-se com sedução.
— Não fiques com ideias, Daniel. — avisou como um preâmbulo ao que diria a seguir. — Não te vou mentir, estou muito feliz que estejas aqui. — Soprou um beijo. — Vamos falando.
Nos dias que se seguiram, as nossas vidas estiveram tão ocupadas que mal conseguimos trocar algumas mensagens. Entretanto, eu tive de viajar até Londres e permanecer os habituais três dias. Ela iniciou a colaboração com uma associação de apoio médico em bairros carenciados do Porto, o que ainda ocupou mais o seu preenchido tempo.
No entanto, sempre que possível, encontrávamo-nos e fazíamos algo juntos, como jantar fora, ir ao cinema, passear pelo NorteShopping para ver lojas, ir até à Foz, caminhar por Gaia... Nunca estivemos mais que cinco dias sem nos vermos. E, entre eles, trocávamos mensagens por telemóvel. O que quase se extinguiu foram as conversas online.
A Primavera aproximava-se do seu fim e o Verão estava a chegar. Recordo-me que era Sábado e nem eu nem Mafalda tínhamos vontade de ir passear. Por isso, ela sugeriu passar por minha casa e passarmos a tarde juntos a ver um filme.
Mafalda chegou logo depois do almoço. Tocou à campainha e pediu que descesse, pois gostaria de ir caminhar um pouco na praia. Eu desci de imediato. Ela aguardava-me junto do seu carro, um Renault Clio escuro. Tinha o cabelo ruivo cada vez mais comprido com os caracóis a esvoaçar livremente. Vestia uma camisola de lã com gola alta e mangas compridas, a fazer conjunto com uma saia axadrezada curta e botas de cano alto até aos joelhos. O sorriso cativante despontou com a minha aproximação. Trocámos dois beijos.
Caminhámos um pouco pelo bairro até alcançarmos a Alameda do Senhor da Pedra. Fomos a conversar sobre coisas sem importância, uma notícia que surgira no telejornal, um acontecimento no hospital, o último trabalho de fotografia que eu havia feito, enfim... Diálogos que se perderam nas teias da memória. Prosseguimos pelo passadiço de madeira que entrava pelo areal. Avançámos até ao limite das tábuas, onde uma rampa dava acesso à areia. Permanecemos parados a observar o mar, silenciados pelo som das ondas que fustigavam a costa.
— Isto é muito bonito. — constatou ela. — Tiveste bom gosto em vir viver para aqui.
— Foi sorte. Não conhecia nada nestas bandas.
— Eu também nunca tinha vindo para estes lados. — partilhou, passando a mão pelos caracóis rebeldes. — Entre a Figueira e o Porto, só conhecia as praias da zona de Aveiro, a Barra, Costa Nova...
— Não conheço.
— Um dia destes, levo-te lá. — propôs sem perspectiva que isso viesse a acontecer.
Voltámos para trás, regressando ao passeio empedrado que acompanhava a estrada. O céu ficou mais enevoado e o vento acentuou a sensação de frio. Optámos por contornar o quarteirão e seguir calmamente para minha casa.
Os saltos das botas dela ecoaram na escada, durante a subida. Uma vez protegida do vento, preocupou-se em pentear o cabelo com os dedos, ajeitando os caracóis. Entrámos no apartamento e Mafalda passou para a sala, indo sentar-se no sofá.
— Queres beber alguma coisa? — ofereci, sem evitar olhar para as suas pernas cruzadas.
— Não. — recusou, colocando a mão no lugar a seu lado. — Senta aqui, ao pé de mim.
Antes de o fazer, fui buscar o comando para acender a televisão.
— Não ligues! — pediu. — Podemos conversar um bocado?
— Sim, claro. — concordei, largando o objecto onde o encontrara.
Sentei-me a seu lado. O sofá não era muito comprido, pelo que ficámos lado a lado com os braços a tocarem-se. Mafalda manteve o olhar em baixo e as suas mãos brincavam com a bainha da saia, atraindo a minha atenção para as suas coxas.
— Obrigado por estares aqui. — disse por fim.
Num tom brincalhão, retorqui:
— É a minha casa, é normal que aqui esteja.
Mafalda virou o rosto para mim numa expressão séria.
— Sabes ao que me refiro. Teres regressado a Portugal e teres vindo para perto de mim. — Esboçou um sorriso. — Têm sido muito bons os momentos que temos passado juntos.
— Sim. — concordei, colocando o braço sobre as costas do sofá, atrás dela, para ficarmos mais à vontade. Ela aproveitou para deitar a cabeça nele. — Gosto muito da tua companhia.
— Eu sei. — disse num tom meloso. — Sei como gostas de mim.
— Cada vez mais. — acentuei.
Mafalda colocou o dedo indicador nos meus lábios, proferindo um "xiu" carinhoso. A seguir, movimentou-se no sofá, chegando-se mais para mim.
— Podes não acreditar, Daniel, mas adorava poder corresponder aos teus desejos.
Sem pensar, acariciei-lhe o rosto com a mão livre. Ela não protestou e permitiu-se saborear o toque.
— Eu acredito. Tu é que não queres.
O seu rosto alterou-se para um esgar de lamento.
— Sabes bem que nunca te sentirias completo comigo.
— Tu já me fazes sentir tão bem e tão feliz só com a tua presença, Mafalda. Tudo o resto seria sempre melhor.
Ela sorriu com ternura no olhar. Os seus olhos azuis penetrantes encaravam-me com carinho. Murmurou:
— Não posso ter filhos.
— Eu sei. Não importa.
O franzir do seu rosto revelou a sua falta de crença.
— Dizes isso agora, mas mais tarde...
— Mais tarde, voltarei a dizer-te que não importa. Só tu importas. Só tu és importante para mim.
Houve um momento suspenso, como se alguém tivesse carregado no botão de "pausa" naquele filme. Percebi que a minha mão ainda estava no seu rosto, o polegar na face, o indicador abaixo da orelha e os restantes dedos repousados no pescoço. Para minha surpresa, o seu olhar baixou para a minha boca, vi os seus lábios afastarem-se. Seria um sinal? Estaria a minha intuição correcta? Deveria seguir o que o meu instinto me gritava? Só havia uma maneira de saber.
Baixei a cabeça até ela. O meu nariz passou junto do seu, qual cruzamento com a torre de controlo a avisar que a boca iria aterrar mais abaixo. Os meus lábios tocaram nos dela. Senti um arrepio de excitação, perante a aceitação do beijo. A sua respiração ofegante aumentou quando a sua língua procurou a minha para dançar ao sabor da paixão. Mafalda tinha um hálito fresco, um aroma a frutos silvestres. A mão que estivera no seu rosto desceu pelo seu braço até à saia e parou nas coxas. Ao sentir o meu toque, ela descruzou as pernas, afastando-as ligeiramente. Sem interromper o beijo sôfrego, percebi o convite e acariciei o interior, subindo devagar até ela voltar a fechá-las, aprisionando a minha mão. Um dos seus braços estava preso entre nós, mas o outro aterrou no meu peito e a mão segurava-me a cabeça, agarrando-me o cabelo. Com o braço onde ela deitara a cabeça, puxei-a mais para mim e dobrei o cotovelo, tendo a mão caído para o seu peito, procurando um dos seios. Mafalda mordiscou-me o lábio quando lhe apertei o seio esquerdo sobre o tecido da camisola. Afastou novamente as pernas, libertando a mão. Não sei se a intenção era que continuasse a subir pelas suas coxas, sei que no meio da excitação, a minha mão prosseguiu até os dedos tocarem num tecido frágil rendado.
— Pára! — sussurrou, interrompendo o beijo. Largou o meu cabelo e empurrou-me o braço para longe. — Espera um pouco. — Afastou-se no sofá, meio atordoada. Encarou-me com um sorriso cúmplice. — Dá-me cinco minutos. Depois, vem ter comigo ao teu quarto.
Fiquei aparvalhado a vê-la levantar-se e a desaparecer na porta da sala que dava para o corredor. Tudo aquilo me parecia surreal, nem queria acreditar no que estava a acontecer. Olhei para as horas no telemóvel e comecei a contar os cinco minutos, controlando a excitação e a felicidade imensa que me percorria o corpo. Foi difícil, mas cumpri os trezentos segundos que ela pedira.
Levantei-me do sofá, envergonhado por as calças realçarem o volume que ela provocara. Evitei imaginar o que me esperava no quarto, preferindo a surpresa. Avancei pelo corredor e segurei o puxador da porta, abrindo-a para encontrar Mafalda sentada na cama. Ela estava encostada à cabeceira, enfiada nos lençóis até à cintura. Vi a camisola e a saia dobradas num canto e as botas arrumadas ao lado. Ela observava-me sem complexos, usando somente o sutiã.
— Podes despir-te para mim? — sugeriu com a voz hesitante.
— Queres um strip-tease?
— Não. — recusou. — Só quero apreciar-te.
Dei alguns passos até à cama.
— Porque não me vens despir? Assim aprecias mais de perto.
Ela concordou com a ideia, atirando o lençol para trás. Pude contemplar toda a beleza do seu corpo esguio, uma vez que para além do sutiã só vestia umas cuecas minúsculas com rendas da cor da outra peça. Saltou do colchão e parou na minha frente. Sem se importar como o fazia, puxou-me a camisola pela cabeça ao mesmo tempo que eu empurrava os calcanhares das sapatilhas com os pés. Desapertou-me as calças e puxou-as para baixo. Atirou-me um olhar de análise, agradada com o que via.
— Podes fazer o resto. — indicou, voltando para a cama.
Despi as calças e mantive os boxers. Contornei a cama e entrei no lado contrário, sentando-me a seu lado.
Mafalda começou a rir. Depois daquilo tudo, parecia surgir um impasse. Eu também ri, desanuviando a hesitação. Depois, ficou séria e confessou:
— Não o faço desde o divórcio.
— Também não o faço há algum tempo.
— Menos que eu, certamente. — ripostou.
— Não sei. — duvidei, lembrando-me que a última vez que me envolvera sexualmente fora com Tânia e isso acontecera antes do divórcio de Mafalda. — Talvez tenha sido há mais tempo.
— Queres que acredite nisso?
— É a verdade.
Mafalda encolheu os ombros.
De um momento para o outro, a cena excitante de um casal apaixonado e louco de tesão deu lugar a um homem e uma mulher sentados numa cama como se fossem dormir. Voltava o impasse.
Tive vontade de perguntar "então, como é, fazemos isto ou não?". Porém, ela antecipou-se:
— Quero ir com calma. — Que raio quereria isso dizer? Ela olhou-me com ternura. — Podemos namorar um pouco? Não sei se me sinto preparada para o fazermos.
O facto de ela dizer "namorar um pouco" atribuía um novo conceito ao nosso relacionamento.
— Ok. Tudo bem. — concordei paciente.
Ela sorriu, satisfeita.
— Posso sentar-me no teu colo, Daniel?
— Sim, claro. — aceitei, afastando o lençol.
Mafalda levantou-se e rodou sobre as minhas pernas, sentando-se nas minhas coxas com uma perna de cada lado. A seguir, acariciou-me o rosto e beijou-me os lábios. Trocámos beijos apaixonados. As minhas mãos massajavam-lhe os flancos e as coxas, enquanto ela apoiava as suas no meu peito.
Interrompi o beijo.
— Podes tirar o sutiã? — pedi.
Ela pareceu constrangida. Porém, levou os braços atrás das costas e desapertou o fecho. As alças caíram e as bolsas de pano perderam a resistência. Mafalda tinha dois seios firmes, muito redondos de volume perfeito com mamilos pontiagudos, acicatados pela excitação.
Retornámos aos beijos. Os seus braços envolveram o meu pescoço e as minhas mãos acomodaram-se no seu peito. As nossas cinturas estavam cada vez mais próximas até as suas cuecas tocarem nos meus boxers. Ela olhou para baixo, contemplando o volume da excitação sob o tecido.
— Agora a sério, Daniel. — insistiu num tom melosamente arrastado. — Há quanto tempo?
Fiz contas rápidas de cabeça, indiferente a que pudesse errar.
— Talvez mais de dois anos. — confessei.
Mafalda arregalou os olhos.
— Não acredito.
Sorri vencido.
— Como queiras...
As suas mãos desceram pelo meu tronco até ao elástico dos boxers.
— Posso?
Anuí, desejoso que ela o fizesse. Vi-a puxar o elástico e introduzir uma mão dentro dos boxers, trazendo para o exterior toda a minha excitação. Começou a massajar-me devagar, retomando os beijos. Uma das minhas mãos permaneceu no seu seio, mas a outra desceu até às coxas. Sem ver, procurei o único tecido que ela ainda usava. Senti a humidade entre as suas pernas. Com o dedo indicador afastei as rendas e com o médio toquei os seus pontos mais íntimos, obtendo em resposta um gemido agradado.
Por entre beijos, provocámos uma explosão de prazer ao outro.
Rimos como dois malucos, extasiados. Limpei carinhosamente a sua barriga, alvejada pelo auge. Mafalda abraçou-me com força e quis ficar assim algum tempo, somente a saborear o momento, repousando e recuperando a respiração. Sentia-lhe o coração a bater no mesmo compasso que o meu.
Sem anunciar, saiu do meu colo e colocou-se de pé no soalho.
— Dá-me um minuto. — pediu, dirigindo-se à casa de banho.
Ouvi a água a correr. Voltou sem sinais do que lhe deixara na barriga e sem as cuecas, revelando-me que não tinha um único pêlo na zona escondida até então.
Eu levantei-me da cama, dizendo:
— Agora é a minha vez de pedir um minuto.
Ela concedeu com um gesto teatral de quem cede passagem.
Fui lavar-me. Não sabia o que viria a seguir, mas queria estar impecável. Larguei os boxers no cesto de roupa suja. Regressei ao quarto. Mafalda aguardava estendida na cama completamente nua. Deitei-me seu lado.
Ficámos a olhar para o tecto em silêncio. Não eram precisas palavras para mostrarmos como estávamos felizes, segurando a mão do outro sobre o colchão. Ao fim de algum tempo, ela virou-se para mim e retomámos os beijos apaixonados, excitados... Ela sentiu a minha rigidez embater nas suas coxas. Isso fê-la terminar o beijo. Voltou-se na cama, ficando de barriga para cima, mantendo os olhos em mim.
— Tens preservativos?
— Não. — respondi, lamentando o facto.
— Eu também não trouxe. — retorquiu como quem diz que se esqueceu de comprar pão. Olhou-me com cumplicidade. — Doenças não temos. E infelizmente eu não corro o risco de ficar grávida. — Evitou pensar nesse aspecto. — Vem...
Rodei na cama e coloquei-me sobre ela. As suas pernas afastaram-se. Deslizei entre elas com a excitação a escorregar pela cintura de Mafalda. Olhámos nos olhos um do outro. Nunca senti amor maior que aquele que partilhámos naquele instante.
Como qualquer casal que se ama pela primeira vez, nem tudo se acoplou na perfeição. O meu desejo procurou o seu, mas parecia perdido até ser encontrado pelas mãos gentis de Mafalda que me conduziu devagar para dentro de si.
Começámos devagar, movimentos suaves, como se nos quiséssemos dar a conhecer ao outro sem pressas. Temperávamos cada deslocação com beijos húmidos, pausados, saboreando cada milímetro. O ritmo foi aumentando, Mafalda afastou as pernas o máximo que conseguiu, convidando-me a investir cada vez com mais profundidade. Os beijos transformaram-se em invasões de língua, guerras de lábios, choques de bocas sedentas... Ouvi a minha respiração ofegante pelo meio dos gemidos de prazer dela. As suas mãos nas minhas nádegas instigavam-me a uma penetração cada vez mais pujante. Sem pudor, vociferou palavrões ao meu ouvido, repetiu "fode-me" mil vezes, desafiou-me a arrebentá-la de prazer. Gritou com o orgasmo brutal ao mesmo tempo que toda a minha paixão a inundou, aquecendo-lhe o ventre e espalhando-se dentro de si.
Fantasiei algumas vezes como seria fazer amor com Mafalda. Contudo, nunca a imaginara assim e estava completamente fascinado pelo seu comportamento. Completamente exaustos, ficámos abraçados na cama, tendo eu a preocupação de não pesar sobre ela. Olhámos nos olhos do outro.
— Eu amo-te, Mafalda!
— Eu também te amo, Daniel!
Dei-lhe mais um beijo e afastei-me para o lado.
Mafalda levantou-se da cama e perguntou:
— Importaste que tome um duche.
— Claro que não. Estás à vontade.
Ela caminhou meio trôpega para a casa de banho. Ouvi o chiar da porta do polibã e o abrir do chuveiro. Permaneci deitado até o som da água se silenciar.
— Tens toalhas no armário. — gritei para lá.
— Já vi. — respondeu.
Quando regressou ao quarto, já trazia as cuecas vestidas. Parou perto da cama e devolveu o sutiã ao seu lugar.
— Não te vais embora, pois não? — questionei, temendo a resposta.
— Queres que fique mais um pouco?
Levantei-me do colchão, dizendo:
— Claro.
Ela sorriu.
— Posso ir vasculhar a tua cozinha e preparar algo para comermos?
— Podes. — concordei. — Mas não quero que vás estar com trabalho a cozinhar. Posso encomendar alguma coisa.
— Não te preocupes, eu trato disso.
Fui tomar um duche, beliscando-me diversas vezes para ter a certeza que não estava a viver um sonho. De volta ao quarto, vi que as botas de Mafalda continuavam no mesmo sítio. Vesti-me e fui procurá-la.
Mafalda estava na cozinha, novamente vestida, descalça e a cozinhar algo que cheirava muito bem.
— Podes pôr a mesa? — sugeriu ao ver-me.
Caminhei até ela, abracei-a por trás e espreitei para o tacho. Beijei-lhe a nuca. Nunca amara tanto ninguém como a ela.
Jantámos de olhar embasbacado no outro, apaixonados e com mais fome de beijos que propriamente do que tínhamos no prato.
— É mesmo verdade o que disseste? — questionou de súbito, deixando-me confuso. — Não teres tido relações sexuais com outra mulher nos últimos dois anos.
— Sim, é verdade. — O seu rosto era descrente. — És a quarta mulher com quem fiz amor. — O seu semblante pareceu fazer contas. — Será que podes acreditar em mim?
— Não tenho razão para desconfiar. Sempre foste muito honesto. — concordou, mantendo o olhar curioso. — As outras três foram a Francisca, — Anuí. — Calculo que outra tenha sido a amiga que levaste ao meu casamento. — Tornei a anuir. — E a terceira?
— Prefiro não falar sobre isso. — pedi.
Mafalda não insistiu, confidenciando:
— Tu és o segundo homem com quem faço amor. — Sorriu. — O primeiro, não preciso de dizer que foi o meu ex-marido.
Bebemos um pouco de vinho.
— Nunca te envolveste mesmo com nenhuma modelo? — tornou a questionar. Abanei a cabeça, apagando a vez que estivera com Tânia em Paris. — Uma sessão que tenha sido mais estimulante... — Continuei a negar. Mafalda fez um gesto de desinteresse. — Desculpa, Daniel, não tenho o direito de te estar a interrogar.
— Não faz mal. Só quero que acredites em mim.
— Tenho os meus defeitos, Daniel. — disse ela, algo que me custava a acreditar. — Um deles é ser ciumenta. — Fez uma expressão de desconforto. — É o teu trabalho, terei de aprender a lidar com isso.
— Não tens razão para recear o que quer que seja. Se nunca me envolvi com ninguém antes, dessa forma, não era agora que estou com a mulher que amo que o iria fazer.
— Eu acredito em ti, Daniel.
Terminámos o jantar. Mafalda olhou para o telemóvel.
— É tarde. Tenho de ir andando.
— Fica cá esta noite. — sugeri, quase como um pedido.
— Não achas que estamos a ir muito depressa?
— Não. — neguei com ar natural. — Estou a convidar-te a dormir comigo esta noite.
Mafalda concordou, referindo que ia apenas telefonar à amiga para que não ficasse preocupada por ela não ir dormir a casa.
Passámos o serão no sofá. Liguei a televisão, mas nenhum de nós prestou atenção ao que passava no ecrã. Ela sentou-se no meu colo e nem demos pelo tempo passar, enquanto namorávamos apaixonados.
Pouco faltava para a meia-noite, quando fomos para o quarto. Entrámos de mão dada e cada um foi para o seu lado da cama. Ficámos de pé, encarando-nos com o colchão pelo meio. Ela riu feliz, constatando:
— Parece que somos casados, cada um a preparar-se para se deitar no seu lado da cama.
Correspondi ao seu sorriso. Despi as calças, vendo-a a tirar a camisola. Tirei a minha, ao mesmo tempo que ela retirava a saia.
— Podes arranjar-me uma t-shirt para dormir? — pediu ao desfazer-se do sutiã. — Sinto-me mais confortável.
Apontei-lhe uma gaveta e disse-lhe que estivesse à vontade para escolher.
— Eu costumo dormir todo nu. — avisei. — Importas-te?
Mafalda abanou a cabeça. Despi os boxers, enquanto ela cobria o tronco com a t-shirt que escolhera, uma comprida que quase lhe servia de vestido. Enfiei-me nos lençóis. Ela puxou a bainha para cima e levou as mãos à cintura, tirando as cuecas. Juntou-se a mim no conforto da cama.
Ficámos a olhar um para o outro com os rostos iluminados pela luz da cabeceira. A sua expressão era feliz, terna e apaixonada.
— Estás feliz, Daniel?
— Estou. Muito! E tu?
— Também.
Virou-se de costas para mim e encostou-se ao meu corpo, convidando-me a abraçá-la. Apaguei a luz.
— Dorme bem, querido!
— Dorme bem, meu amor!
Ela apertou o meu braço na sua cintura em sinal de afecto.
Fiquei a olhar para o escuro, respirando o odor perfumado do seu cabelo, ouvindo a sua respiração tranquila, feliz por a ter ali e sentindo-me o homem mais feliz do Universo. Queria dormir, mas não me conseguia abstrair das imagens da paixão que partilhara com ela. Fui atraiçoado por um espasmo de excitação que embateu na sua nádega. Afastei-me ligeiramente para não perturbar o seu sono, não querendo incomodá-la. Mafalda respirava suavemente adormecida, eu contava carneiros sem sucesso no chamamento do sono e sem evitar novo espasmo. Tornei a afastar-me. Porém, a minha bela adormecida moveu-se mais para mim, como se receasse que fugisse. Respirei fundo e encostei a excitação à perna dela, de forma a não a perturbar e controlando-me. Só que estava a ser difícil...
Por entre o sono, Mafalda voltou a mover-se. A sua mão acariciou-me a coxa peluda. Lamentei que a pudesse ter acordado. Novo movimento, chegando-se para cima e encostando o rabo na minha barriga. Tentei retirar o braço que lhe envolvia a cintura, mas ela agarrara a minha mão sem sinal de pretender soltá-la. Voltei a respirar fundo, tentei pensar nas coisas mais estapafúrdias que me anulassem a excitação... sem sucesso. A mão na minha coxa desceu para o foco do meu desconforto, segurando-o e acariciando-o. Toda ela parecia dormir um sono tranquilo, excepto a mão que no escuro me conduziu para o foco do meu desejo. A entrada húmida revelou que não era só eu quem ansiava por aquilo. Soltou um gemido, sussurrando:
— Oh sim...
Foi rápido, o suficiente para apaziguar o fogo e adormecermos.
Contudo, a noite não foi tranquila, foi loucamente intermitente. Acordámos três vezes, arrebatados pelo desejo, e três vezes fizemos amor.
Quando acordei de manhã... Bom, a manhã já tinha acabado e o Sol já alcançara o ponto mais alto no céu. Olhei para o lado e vi Mafalda a dormir profundamente com um sorriso nos lábios. O quarto estava envolvido numa claridade ténue, onde os cortinados travavam a entrada da luz forte da rua. Puxei o lençol para baixo, destapando-nos e sentindo o atenuar do calor. Ela permaneceu imóvel, deitada de barriga para cima, com a t-shirt subida acima do umbigo, e as pernas estendidas em direcções opostas. Desde que a vira completamente nua pela primeira vez que tinha desejo de fazer algo. Deslizei pela cama, ficando com o rosto ao nível da sua barriga. Atirei o lençol para o fundo da cama, destapando-a por completo. Ela nem notou, adormecida. Devagar, passei por cima do seu corpo sem lhe tocar e desci até ficar entre as suas pernas. Beijei-lhe a barriga com ternura, ela moveu-se sem acordar. Beijei o umbigo, ela voltou a mover-se. Prossegui os beijos, descendo aos poucos até ao descampado entre as suas pernas. Mafalda soltou um gemido, depois outro e outro. Percebi que acordara, mas mantinha uma expressão facial de quem dormia profundamente. Mais um beijo, toquei-a com a língua. Ela dobrou os joelhos e afastou as pernas o mais que conseguiu. Saboreando-a, as minhas mãos subiram por dentro da t-shirt, estacionando nos dois volumes que subiam e desciam a um ritmo cada vez maior. Os gemidos ténues deram lugar a sons guturais de prazer e gritos de êxtase.
Após o auge, subi pelo seu corpo e beijei-lhe os lábios, dizendo:
— Bom dia, amor!
— Bom dia... — retribuiu ofegante com o olhar deliciado. Antes que a voltasse a beijar, empurrou-me para o lado, fazendo-me cair no colchão. Saltou como se a cama tivesse uma super mola e despiu a t-shirt como se o tecido queimasse. — Agora é a minha vez.
Passámos o dia na cama. Conversávamos, namorávamos, fazíamos amor, repousávamos a olhar para os olhos do outro, conversávamos mais um pouco, namorávamos, fazíamos amor... Foram horas a conhecer-nos, a explorar o corpo do outro, testando posições, partilhando sem tabus o que gostávamos mais e menos. Nem nos lembrámos de comer.
Ao fim da tarde, Mafalda teve a iniciativa de sair da cama. Sem dar hipóteses a ser travada, caminhou sedutora até à casa de banho para tomar um duche. Eu substituí-a no polibã quando terminou. E ao regressar ao quarto, Mafalda já estava vestida e calçava as botas, sentada ao fundo da cama.
— Já vais?
— Tenho de ir, Daniel.
— Não queres ficar esta noite?
Mafalda sorriu.
— Preciso descansar. Ambos sabemos o que aconteceria se ficasse.
Enquanto me vestia, ela saiu do quarto. Nesse momento, passou-me uma ideia pela mente. Ansioso, fui encontrá-la na sala a procurar as chaves do carro na mala.
— Porque não vens viver comigo? — convidei quase sem respirar.
Sem esconder a surpresa, Mafalda virou-se para mim.
— Agora sim, estamos mesmo a ir depressa demais.
Mafalda recusou a ideia, queria ir com calma, não apressar as coisas. É certo que já falávamos havia doze anos, conhecíamo-nos pessoalmente há dez, mas só namorávamos desde a véspera. Viver juntos era um passo precipitado para ela. Respeitei a sua decisão.
No entanto, as visitas de Mafalda a minha casa tornaram-se frequentes e sempre que não trabalhava no dia seguinte, passava a noite comigo. Mesmo que não quisesse oficializar uma vida em comum, dei-lhe uma chave para que ela viesse sempre que quisesse sem ter que se anunciar. No Outono, Mafalda já dormia quase todas as noites comigo e a casa ganhava alguns espaços com o seu toque pessoal.
Entretanto, as minhas viagens a Londres chegaram ao fim, das quais já nem desfrutava por sentir que eram três dias longe dela.
Profissionalmente, continuava com muito trabalho. Mafalda encarava bem as minhas sessões fotográficas para agências, controlando o ciúme ao ver, por exemplo, um catálogo de fatos de banho cujo autor das fotos era o seu namorado.
Certa tarde, em casa, Mafalda estava a usar o computador, quando eu entrei e vi no ecrã a sua página pessoal na rede social Facebook. Já ouvira falar das redes sociais e do Facebook, mas ao contrário do que teria acontecido anos antes, nunca me interessei muito por isso. Porém, ao vê-la consultar o seu perfil, pedi-lhe que me explicasse como funcionava.
— Como é que alguém como tu não tem Facebook? — questionou como se fosse um sacrilégio.
— Nunca calhou.
— Podias criar um perfil para ti. — sugeriu.
Como não mostrei muito interesse, Mafalda decidiu fazer-me a apresentação da rede social, mostrando os variados aspectos do seu perfil, o que poderia ter, como adicionar amigos, informações, colocar fotos... Pronto, para não a desiludir, acedi a que ela criasse o meu perfil no Facebook.
Sentei-me a seu lado, respondendo às informações que me pedia. Registou o meu endereço de email para criar a conta, preencheu os meus dados sem grandes pormenores, colocando primeiro e último nome, a data de nascimento, localização Vila Nova de Gaia sem grande detalhe... Para escolher a foto, como estava no meu computador, dei-lhe liberdade de pesquisar a que quisesse. Escolheu uma que ela me tirara a ver o mar. Seguiram-se inúmeros campos que ficaram em branco. Ao chegar ao "estado civil" disse:
— Eu tinha no meu Divorciada. — Alterou a janela do navegador, revelando o seu perfil. — Agora tenho "Numa Relação". Se puseres também "numa relação" e me identificares, ficará aqui que estou "numa relação" contigo.
Percebi que havia ali um desejo disfarçado de oficializar online a nossa relação. Não me importei. Por mim, queria que o mundo inteiro soubesse que namorávamos. Dei o meu aval e ela sorriu satisfeita.
O Outono passou, depois o Inverno e a Primavera. A nossa relação estava cada vez mais forte e nós muito felizes e apaixonados. Passávamos o máximo de tempo juntos, fosse para sair, jantar fora, ir ao cinema ou apenas para ficar no sofá, de mão dada a ver televisão. A fogosidade da paixão também não esmorecia, mas tanto podíamos ter momentos ternos de beijos enamorados, como passarmos horas insaciáveis a fazer amor.
Mafalda continuava a dar consultas de Pediatria no hospital e nas duas clínicas, para além do seu voluntariado com duas associações humanitárias do Porto, onde recebia pacientes carenciados de forma gratuita.
Apesar de estarmos "numa relação" desde o Verão anterior, Mafalda continuava reservada em me apresentar à família, justificando que o espírito conservador dos pais ainda não assimilaria um novo namorado com bons olhos, após o divórcio dela.
Mafalda também não era pessoa de muitas amizades, mantendo sempre algum distanciamento com as pessoas com quem convivia diariamente. A única pessoa verdadeiramente importante na sua vida, com a qual partilhava uma amizade desde a adolescência, era Vânia.
Vânia era o paradoxo de Mafalda, muito extrovertida, sempre pronta à diversão e extremamente sociável. Nunca me esquecera da forma descarada como me tentara seduzir no casamento, mas nunca o repetira ou mostrara qualquer intenção nesse sentido, desde que a reencontrara.
Recordo-me que, nesse Verão, costumávamos jantar semanalmente eu, Mafalda, Vânia e o namorado desta que já não era o indivíduo que a acompanhara no casamento.
Em finais de Agosto, após um desses jantares e um serão bem divertido em minha casa, Mafalda sentiu-se mal. Perto das despedidas, quando Vânia e o namorado se preparavam para ir embora, Mafalda ficou indisposta e teve uma tontura que só não a deitou ao chão porque eu a segurei.
— Que se passa? — quis saber Vânia, estranhando.
— Estás bem? — perguntei, apoiando-a.
Mafalda sorriu e respondeu a ambos:
— Estou bem, foi só uma tontura. É cansaço.
— Andas a trabalhar demais. — lembrei.
Vânia desvalorizou e retorquiu para mim num tom humorado:
— Ou tu andas a cansá-la muito.
A gargalhada geral desanuviou a preocupação do momento.
No entanto, as indisposições repetiram-se, bem como as tonturas.
Confesso que a minha primeira suspeita foi que, por alguma razão inexplicável ou milagre, Mafalda pudesse estar grávida. Quando partilhei essa suspeita com ela, Mafalda soltou uma gargalhada exagerada. Já a conhecia o suficiente para perceber que não era um riso divertido, mas sim nervoso. Depois, ficou séria e disse:
— Lamento, Daniel. Quem me dera estar grávida de um filho teu. Mas, isto é só cansaço.
Conjecturando, acho que, como médica, Mafalda já suspeitava que algo não estava bem. Porém, para não me preocupar, relativizava as coisas e justificava tudo com cansaço. Só que isso não aliviava a minha preocupação.
O ponto decisivo para a fazer olhar com mais seriedade para o assunto aconteceu num passeio pela praia deserta. Do nada e sem aviso, no meio de uma conversa animada entre nós, Mafalda perdeu os sentidos e desmaiou. Fiquei em pânico. Ajoelhado a seu lado, chamei-a e abanei-a para a despertar. Não sabia o que fazer, não tinha conhecimentos de primeiros socorros. A única atenuante à minha apreensão era o facto de que ela respirava normalmente. Peguei no telemóvel para ligar o 112, só que ela abriu os olhos antes de eu clicar para chamar.
— Mafalda! Mafalda! Estás bem?
O seu rosto revelava confusão, mas a sua consciência foi tendo noção do que acontecera.
— Sim, estou...
Não fiquei convencido.
— Vou levar-te ao hospital. — informei decidido.
— Não é preciso.
— É sim! — insisti, ajudando-a a levantar.
— Ouve, Daniel. Eu estou bem. Foi só um desmaio.
— Não foi só um desmaio? — reclamei. — Tu há várias semanas que não andas bem.
Para minha surpresa, Mafalda irritou-se:
— Mas afinal, aqui quem é o médico? Estou a dizer-te que estou bem.
— Tu não estás bem. — contrapus. — As tonturas, este desmaio... Isto não é normal.
Ela abanou a cabeça e atenuou o tom:
— Não vamos fazer disto a nossa primeira discussão, pois não?
— Se isso significar o teu bem, não me importo.
— Escuta, Daniel! — pediu mais afável. — Eu prometo que amanhã, no hospital, peço para fazer alguns exames. Falo com um colega da medicina geral para me observar. Pode ser? Não precisamos de ir a correr para as urgências. — Abraçou-me. — Confia em mim, amor.
Nessa noite, mal consegui dormir. Não pelas razões que outrora nos davam noites mal dormidas. Naquela, Mafalda dormia tranquilamente a meu lado, enquanto eu me consumia em preocupação, temendo o que poderia estar para vir.
No dia seguinte, Mafalda cumpriu o prometido. Depois das suas consultas, foi falar com um colega após o turno deste nas urgências e partilhou com ele os sintomas, os acontecimentos e pediu que a observasse.
Numa situação com um utente normal do Serviço Nacional de Saúde, o médico receitaria alguns exames e o utente ficaria à espera por tempo indeterminado até ser chamado para os fazer. Porém, Mafalda era uma colega do hospital, uma médica. E por mais que se insista que as coisas não funcionam assim, o que é certo é que ele a conduziu imediatamente para o Centro de Imagiologia, mais precisamente para a Neurorradiologia, onde lhe fizeram um TAC à cabeça. Esperou algum tempo pelos resultados e, ao recebê-los, o chão pareceu ter desaparecido sob os seus pés.
Eu estava em casa depois de uma tarde no Porto em reunião com uma agência de publicidade para a execução de um trabalho fotográfico. Tentei concentrar-me ao máximo na conversa com eles, mas a preocupação e a ansiedade por notícias dificultaram bastante o meu objectivo.
Mafalda chegou a casa com o rosto fechado e pálida. Ao aperceber-me que ela estivera a chorar, nem tive tempo de dizer nada, pois ela abraçou-me com força e soluçou compulsivamente. Abracei-a e confortei-a, dizendo para mim mesmo "por favor, meu Deus, que não seja nada grave".
— Tem calma. — pedi com carinho. O seu corpo tremia, o choro dilacerava-me a alma. — Que aconteceu?
Esperei que se acalmasse e só a libertei ao sentir que o seu abraço afrouxara. Deu-me um beijo ténue e afastou-se. Retirou um lenço de papel da mala para limpar o rosto. Acompanhei-a até à sala e sentámo-nos no sofá. Desliguei a televisão que emitia o telejornal e centrei toda a atenção em Mafalda.
— Fui à consulta. — começou com o lábio a tremer, encarando-me com os olhos azuis cheios de fragilidade. — O Carlos... O médico que me observou, achou melhor fazer um TAC. — Baixou o olhar para as mãos nervosas. — Fui fazer... — Soluçou e as lágrimas regressaram.
— Calma... — murmurei, segurando-lhe na mão.
Mafalda olhou para mim com os olhos marejados de lágrimas.
— É um tumor...
Fiquei sem chão. Foi como se me tivessem cravado uma faca no peito, como se me puxassem o tapete debaixo dos pés. Não era possível, não era justo... Porquê? Porquê ela? Porquê a mulher da minha vida?
Controlei-me o melhor que consegui, esforçando-me por parecer forte. Ao falar, preocupei-me em não me engasgar e dar firmeza no tom para que isso lhe transmitisse segurança.
— Que aconselhou ele a fazer?
— Tenho de fazer alguns exames. É necessário analisar melhor para fazer um diagnóstico mais preciso. Só depois se define a melhor forma de tratamento.
— Vai correr bem, vais ver. — desejei, mostrando optimismo.
— Seja como for, estou de baixa médica. — informou, tornando a limpar o rosto. — Não me considera em condições trabalhar. Os desmaios... Até é arriscado andar sozinha e nem pensar em conduzir.
— Não te preocupes. Ficas aqui. Eu cuido ti, meu amor. Estarei sempre a teu lado.
Mafalda abraçou-me e deixou-se ficar algum tempo em silêncio, a chorar baixinho.
A partir daquele dia, ela parou de trabalhar no hospital, nas clínicas e nas associações. O facto de estar parada só causava mais pressão à sua dor. Como não a queria deixar sozinha, terminei os projectos que tinha em andamento e suspendi a aceitação de novos.
Os exames seguintes só acentuaram a gravidade da situação. Na consulta em que foram analisados, assisti à sua dor ao ser informada que não poderia ser operada, pois o risco de ser uma intervenção fatal era muito elevado e arriscaria ficar incapacitada. Por isso, a decisão médica foi tratamento por radioterapia.
Tive o cuidado de ser sempre optimista e dar alento a Mafalda em todo o processo. Porém, não imaginam o quanto chorei, sempre que me afastei do seu olhar.
A doença acelerou uma questão que Mafalda viera a adiar indefinidamente, desde que estávamos juntos. Ao informar os pais do seu estado de saúde, estes vieram visitá-la a minha casa.
Estava uma tarde bonita de Outono, contrastando com o estado de espírito de todos nós. Os pais dela chegaram depois do almoço, tendo a campainha anunciado a sua chegada. Fui abrir a porta.
O pai de Mafalda era um homem sexagenário de postura altiva, envergando um fato formal caro. Usava o cabelo grisalho penteado para trás e um bigode bem cuidado, quase ao estilo queirosiano. Estendeu-me a mão com enfado. A mãe vinha atrás, igualmente altiva e formal, a mesma idade do marido, usava o cabelo de coloração escura numa armação que parecia ter acabado de vir do cabeleireiro. Nenhum me sorriu e avançaram para a sala, assim que viram a filha. A mãe foi mais expressiva, abraçando a filha. O pai mostrou alguma preocupação, mas manteve alguma distância.
— Querem beber alguma coisa? — ofereci. Ambos recusaram. Percebi que se sentiam pouco à vontade com a minha presença e li no olhar de Mafalda aquilo que ela preferia que eu fizesse. — Bom, tenho de sair. Estejam à vontade.
Fui dar um passeio pelo pontão da praia, observar o mar e sentir o vento a fustigar-me o rosto. Não se via quase ninguém por ali. Sozinho, permiti-me desanuviar as mágoas, libertar a frustração e baixar o escudo de optimismo que envergava perante o meu amor. Chorei em silêncio, impávido, com a melodia das ondas do mar. Olhei para o céu e, na minha fé cada vez mais posta em causa, perguntei a Deus se me iria levar novamente alguém importante da minha vida. Permaneci naquele lugar mais de duas horas, imóvel, olhar no horizonte, tal como tantas vezes fizera na praia onde o meu tio me levara.
Ao fim desse tempo, regressei a casa. Confesso que levava a esperança de que o casal de visitas já se tivesse ido embora. Contudo, eles ainda lá estavam quando voltei. Só que o meu regresso pareceu acelerar a saída. Vi-os a despedirem-se da filha com muita preocupação, a oferecer apoio para o que ela precisasse e a sugerir que ela deveria regressar a casa deles e fazer o tratamento em Coimbra. Mafalda recusou totalmente a última ideia.
Poucos dias antes de iniciar a radioterapia, encontrei Mafalda na casa de banho a olhar séria para o espelho. Reparei que no lavatório colocara uma tesoura e um objecto semelhante a uma máquina de barbear. Ao ver-me, disse:
— O cabelo vai começar a cair com o tratamento.
Mafalda tinha um cabelo ruivo lindíssimo que, na época, já lhe chegava a meio das costas. Sem esperar qualquer comentário, pegou na tesoura e numa madeixa de caracóis e começou a cortar. Fiquei sem reacção. O seu rosto fechado deu lugar a uma expressão de amargura. O lábio começou a tremer e as lágrimas ressurgiram nos seus olhos.
— Espera. — pedi, aproximando-me. — Eu ajudo-te. — Tirei-lhe a tesoura da mão sem que ela oferecesse resistência, talvez grata por a substituir na tarefa. — Vai correr tudo bem. — E prossegui o corte, usando o máximo de carinho em cada gesto, não lhe deixando dúvidas de quanto era amada por mim, independentemente do resto.
A máquina de cortar cabelo fora comprada por Vânia a pedido da amiga. Após os caracóis terem desaparecido despenhados no chão, Mafalda insistiu para que a usasse e eliminasse os últimos indícios ruivos. Não lho disse, nem lhe dei a transparecer, mas foi chocante vê-la com a cabeça rapada. A partir desse dia, em casa usava um lenço na cabeça e tinha uma peruca que imitava o seu cabelo antigo para as vezes que saía à rua.
Mafalda iniciou os tratamentos. Tive noção que se sentia desconfortável por a acompanhar, pois considerava-se um peso, uma condenada que me arrastava. Eu contestava isso e mantinha uma onda de esperança, à qual ela perdia a crença a cada dia que passava.
A radioterapia enfraqueceu-a, fê-la perder peso e ganhar um aspecto inchado, o rosto mais bolachudo. Nada abalou ou diminuiu o meu amor por si. Atravessei aqueles tempos de trevas a seu lado, consciente que por muito dolorosa que fosse a minha dor, a sua seria incomensuravelmente maior. No entanto, quando pensamos que nada pode piorar, as coisas pioram.
Recordo-me que chovia com abundância lá fora. Mafalda repousava no sofá, psicologicamente extenuada e com o olhar vago na televisão. A nossa relação esfriara ligeiramente, uma vez que ela se sentia cada vez mais insegura e pouco à vontade comigo. Dormíamos juntos, mas sempre que procurava ser carinhoso, ter demonstrações de afecto, Mafalda afastava-me e não queria o seu espaço invadido. Compreendi-a e respeitei-a. Afectada pelo turbilhão de emoções, incerteza do futuro, tratamentos dolorosos e medicações agressivas, só me restava tornar a vida dela o mais confortável possível.
Contudo, nessa tarde de chuva, Mafalda chamou-me.
— Precisamos de falar, Daniel.
— Que se passa? — questionei, sentando-me a seu lado.
Para disfarçar o nervosismo, Mafalda ajeitou o lenço que lhe escondia a cabeça calva.
— Estou a pensar voltar para a casa da Vânia. — informou sem conseguir encarar-me.
— Porquê? — interroguei surpreso. — Não estás bem aqui?
— Preciso de me afastar por uns tempos. — explicou, voltando a mexer no lenço, um tique que substituía o anterior de mexer nos caracóis.
— Não estou a perceber.
Ela olhou para mim com uma lágrima no rosto.
— Não estou a conseguir lidar com a doença e a nossa relação em simultâneo.
— Desculpa que te diga, mas isso é um perfeito disparate. — reclamei, sentindo que estava a perdê-la.
— Não digas isso! Tenta perceber. — Abanou a cabeça. — Tu não mereces passar por isto, Daniel. Não tenho o direito de te arrastar comigo.
— Não achas que me cabe a mim decidir isso?
— Não, não acho! — exclamou com firmeza. Tornou a encarar-me com as lágrimas a aumentarem. — Não quero fazer de ti um viúvo.
Segurei-lhe as mãos, apertando-as com ternura.
— Estou contigo para os bons e maus momentos. — recordei, controlando as lágrimas que teimavam em trair-me. — Nós vamos vencer isto!
Mafalda abanou a cabeça, não acreditava na vitória, vencida pelo pessimismo. Soltou-se das minhas mãos e levantou-se do sofá. Limpou as lágrimas com os dedos.
— Não é negociável, Daniel! — afirmou decidida. — Já liguei à Vânia para me vir buscar.
Incrédulo, confrontei-a com a mais dolorosa das questões:
— Estás a terminar a nossa relação?
— Por favor, Daniel. Isto não é o fim de nada. — retorquiu. — Só preciso de algum tempo para mim... longe de ti.
Senti que ela estava a ser injusta comigo. Magoava-me que a sua decisão para enfrentar a doença fosse afastar-me da luta. Teria certamente muitos argumentos para prosseguir o diálogo, mas arriscava-me a transformá-lo numa discussão. E isso não seria benéfico para o estado debilitado de Mafalda. Acabei por aceder ao seu pedido.
— Posso ao menos telefonar-te para saber como estás? Ou queres cortar totalmente?
Mafalda cortou a distância entre nós e abraçou-me.
— Claro que podes telefonar-me. — Beijou-me o rosto. — Continuo a amar-te, Daniel! Só peço que tenhas paciência e me dês algum espaço.
Vânia chegou meia hora mais tarde. Quando lhe abri a porta, ao ver-me, ela disse:
— Lamento, Daniel...
Abanei a cabeça, revelando que não valia a pena falar disso, e pedi:
— Cuida dela.
Vânia anuiu no momento em que Mafalda saiu do quarto, puxando a mala com as suas coisas.
— O resto pode ficar. — disse, forçando um sorriso. — Para quando eu voltar, amor.
As nossas bocas tocaram-se num beijo sofrido.
— Eu amo-te, Mafalda!
— Eu também te amo, Daniel!
Despedi-me repetindo a mim mesmo que não a estava a perder, apesar de a minha crença nisso ser limitada. Sozinho, autorizei-me à lucidez de analisar a crueldade real de que aquilo poderia significar o fim.
O nosso contacto limitou-se aos telefonemas. Apesar de contrariado, respeitei a sua vontade de me manter afastado. Para desanuviar das amarguras da solidão e da apreensão pelo estado de saúde dela, retomei o ritmo de trabalho anterior, contactando clientes e afogando-me no máximo de projectos que conseguisse.
Mafalda descrevia sempre o seu estado como estando estável, que os médicos estavam esperançosos... Contudo, não me deixei enganar, ela estava a tentar esconder-me a realidade dos factos. Permiti que me "enganasse" durante algum tempo. Porém, ao fim de duas semanas a ouvir o mesmo, declarei que a conhecia o suficiente para perceber que ela não estava a ser honesta comigo. Houve um impasse nesse telefonema. Ouvi-a respirar no outro lado da linha, aguardando até ter a coragem de falar.
— Tens razão, Daniel. Não te estou a dizer verdade. Queres a verdade?
— Claro.
— Achas que consegues lidar com a verdade?
As suas palavras eram cortantes, carregadas de uma raiva que não era dirigida a mim, mas que faziam de mim o seu alvo naquele momento.
— Diz, Mafalda.
— Os tratamentos não estão a fazer efeito.
— Mafalda... — O seu soluçar interrompeu o diálogo. — Mafalda?
— Estou a... a... a morrer, Daniel.
— Mafalda... — Foi a minha vez de soluçar. Não o consegui evitar, nem esconder-lhe que também chorava. — Vou aí ver-te.
— Não! Não venhas! Não quero!
— Mafalda...
— Por favor, Daniel. Se me amas, não venhas.
— Mafalda, não tens o direito de me afastar assim.
— Não consigo encarar-te, no estado em que estou. — confessou. — Perdoa-me, meu amor! — E desligou.
Não a forcei a uma visita minha. Nos dias que se seguiram, tentei telefonar-lhe algumas vezes, mas ela nunca me atendeu. Pronto, se era isso que ela queria, não a contrariaria. Optei por lhe mandar mensagens a perguntar como estava e a reafirmar o meu amor. Ela respondia sempre com "na mesma" e sem qualquer retribuição de afecto.
Para minha surpresa, no início de Dezembro, foi Mafalda quem me ligou. Para ser sincero, ao ouvir o telemóvel com o número dela a tocar, temi o pior. Felizmente não se confirmou o meu receio. O seu telefonema trazia novidades que envolviam uma esperança retemperada. Nos Estados Unidos surgira um tratamento inovador, ainda em fase experimental, que poderia significar uma cura. O tratamento estava numa fase muito embrionária e o médico de Mafalda desaconselhou-a a tentar, ainda para mais tendo em conta a longa viagem para alguém no seu estado. Só que ela não queria saber, pois qualquer centelha de esperança era melhor que ficar à espera da morte.
A sua voz, mesmo ferida pelo desgaste, revelava a esperança, apesar de a taxa de sucesso ser inferior ao mínimo exigível a uma verdadeira esperança. Mesmo assim, partilhei da sua expectativa.
— Eu vou contigo. — ofereci-me decidido.
— Não, Daniel. — recusou. — A Vânia vai comigo.
— Por favor, Mafalda. — pedi, quase implorei. — Deixa-me ir contigo. Quero estar perto de ti. Quero acompanhar-te...
— Não, Daniel. Por favor, não insistas. Já decidi. — Suspirou, revelando todo o cansaço. — Não há garantias de nada. Aliás, as hipóteses são relativas. Fica cá. Prometo que, se tudo correr bem, voltarei para ti com o mesmo amor e paixão de sempre.
— Mafalda...
— Vamos falando.
Mais uma vez, Mafalda insistia em manter-me afastado do seu sofrimento, escolhendo Vânia para a auxiliar. As duas partiram para Seattle a meio do último mês do ano, acompanhadas pelos pais de Mafalda.
Devido à diferença horária, aos horários dos tratamentos dela e do meu trabalho, raramente foi possível falar ao telemóvel ou pela Internet no Messenger. Assim, as nossas conversas ficaram limitadas às mensagens de email. Só houve telefonemas no Natal e na dobragem para o Novo Ano.
No início de Janeiro, Mafalda deixou de dar notícias...
Ao longo de todo o período desde que fora para os Estados Unidos, Mafalda fora muito superficial nos relatos que fazia nos emails. Eu não sabia onde ela vivia, não me dissera o nome do hospital, pouco descrevia os tratamentos... Era sempre tudo muito vago. Mesmo nos únicos telefonemas que conseguimos partilhar, ela pouca informação passou, sendo sempre muito cuidadosa com o nível de esperança que me poderia transmitir. Repetiu muitas vezes que a duração da estadia era incerta e o processo de evolução do tratamento inconstante. Resumindo, eu não sabia quase nada do que se estava a passar lá. Como também não tinha mais nenhum contacto para além do telemóvel de Mafalda, não conseguia saber nada, pois cada vez que tentava ligar obtinha o sinal de desligado.
Fiquei desesperado por não saber nada, por não receber qualquer notícia, qualquer desenvolvimento. Que poderia ter acontecido para, de um momento para o outro, Mafalda se ter evaporado? Temi o pior. Contudo, não quis acreditar que se o desfecho tivesse sido fatal, pelo menos Vânia não me contasse. E soube que tinha razão, três semanas mais tarde...
Fora um dia complicado, acho que todos os dias se tornavam complicados nos últimos tempos. A noite caíra por completo, quando cheguei de mota à rua onde vivia. Estacionei no lugar do costume e retirei o capacete, antes de desmontar. O cansaço pesava-me no corpo, mais que o habitual. Sabia que o desgaste era mais psicológico que físico, perante a ausência de notícias da mulher que amava.
— Daniel! — ouvi uma voz chamar. Estava escuro e os candeeiros da rua não iluminavam o suficiente. — Daniel! — Percebi que era uma voz feminina. Olhei em volta e vi um vulto sair de um carro estacionado alguns metros mais abaixo.
Não a reconheci, levantando a mão para sinalizar que ouvira. O vulto feminino saiu da sombra, afastando-se do carro e caminhou na minha direcção. Assim que a luz a iluminou, reconheci Vânia.
O coração começou a bater com força. Saí da mota e permaneci impávido a vê-la aproximar-se. Vânia trazia um fato escuro e um casaco comprido quente. O rosto mantinha-se fechado e uma das mãos lutava para manter os cabelos em ordem.
— Daniel... — suspirou, sem saber muito bem o que dizer a seguir.
Eu tinha mil e uma perguntas, mas não conseguia verbalizar nada. Talvez adivinhasse o que aí vinha, talvez tivesse ficado bloqueado por finalmente voltar a ter notícias. Só consegui dizer:
— A Mafalda?
Vânia abanou a cabeça.
— Lamento, Daniel.
O capacete caiu-me da mão. As lágrimas invadiram-me os olhos e turvaram-me a realidade envolvente. A dor da perda foi tão forte que perdi a força nas pernas e caí de joelhos, a chorar compulsivamente. Vânia baixou-se junto de mim e abraçou-me.
— Lamento, Daniel. — repetiu. — Lamento ter de te dar a notícia.
Continuei sem conseguir dizer nada, a dor era insuportável. Queria gritar, queria partir tudo, queria morrer... Porém, fiquei apenas a chorar como uma criança perdida nos braços de Vânia.
Não sei explicar o que aconteceu depois, penso que o choque me apagou alguns momentos da memória. Só me lembro de estar sentado no sofá da minha sala com Vânia a entregar-me um copo de água e a sentar-se numa cadeira. Aos poucos, o choro diminuiu e parei de soluçar.
— Conta-me o que aconteceu. — pedi, vendo que ela também tinha os olhos húmidos.
— O tratamento não resultou.
— Sim, isso já percebi. — retorqui com raiva. — Mas, o que aconteceu? Porque é que ela deixou de dar notícias? Porque é que desligou o telemóvel? Porque é que nunca mais escreveu um email? Porque é que...
— Não sei, Daniel. — respondeu com calma. — Não te sei responder. Apenas te posso dizer que a Mafalda teve de fazer uma cirurgia muito delicada. Conhecia os riscos e aceitou corrê-los. As hipóteses de êxito eram escassas.
— E quando foi isso?
— Há cerca de duas semanas.
A estupefacção cravou-se no meu rosto. levantei-me irritado.
— Duas semanas? DUAS SEMANAS? E só agora é que me contas?
— Tem calma. Deixa-me explicar.
— E o funeral? Quando é? Não me digas que já foi...
O seu silêncio foi a confirmação.
Cravei os olhos nela, preparado para lhe descarregar mais fúria verbal. Como poderiam ter-me deixado assim de lado, todo aquele tempo?
Vânia insistiu que me voltasse a sentar.
— A Mafalda deixou algumas vontades expressas, caso as coisas não corressem bem. — prosseguiu. — Queria ser cremada e queria sê-lo lá. Não queria que a transportassem de regresso a Portugal. Quis também que as suas cinzas fossem largadas ao vento, num lugar bonito em Seattle, onde ela chegou a passear algumas vezes.
— Quer dizer... — interrompi. — Nem sequer há um sítio onde me possa despedir dela.
— Lamento, Daniel. Foi a sua vontade.
— E porque é que não me avisaram do funeral? Eu podia ter ido aos Estados Unidos.
— A Mafalda não queria, Daniel. — explicou. — Sempre te quis poupar o máximo de sofrimento.
— Ela sempre quis foi afastar-me da vida dela.
— Não digas isso. Estás a ser injusto. — Encolhi os ombros. Que interessava isso agora? — Pediu-me que te desse a notícia pessoalmente, quando regressasse a Portugal. Eu cheguei ontem à noite, ainda estou com as horas todas trocadas. Mas, não podia deixar-te na ignorância por mais tempo.
Abanei a cabeça. No pior dos cenários que pudesse imaginar, aquele desfecho era ainda mais horrível.
— Desculpa! Eu talvez tivesse agido de outra forma. — esclareceu, levantando-se da cadeira. — Mas, não me cabia a mim ir contra a vontade dela.
— Eu sei. — concordei, menos irritado. — Tu não tens culpa.
Vânia esboçou um sorriso triste.
— Olha, tenho de ir. Ficas bem? — Eu fiz uma expressão interrogando como era possível ficar bem depois daquilo. — Precisas de alguma coisa?
— Não, obrigado.
Ela pegou numa caneta e num pedaço de papel, escreveu nove algarismos e entregou-mo.
— É o meu número. Se precisares de alguma coisa. Ou se quiseres falar... Podes ligar-me.
Agradeci-lhe, acompanhando-a à porta. Contudo, não sentia o mínimo interesse na sua companhia, na sua ajuda, em nada que viesse do mundo de Mafalda. Estava magoado, ferido pela perda, destroçado pela forma como fora excluído, fatalmente marcado por um ciclo que se quebrara violentamente sem oportunidade de algo tão simples como... uma despedida.
Regressei à sala, despenhando-me no sofá. Já não tinha lágrimas para chorar e questionava-me se Mafalda as merecia. Só que eu não controlava o coração e tinha um fraco jeito para lidar com as emoções. Por isso, continuava a amá-la... a amar a memória que tinha dela. Os meus olhos vaguearam pelo espaço, estacionando em pequenos pormenores que haviam sido responsabilidade de Mafalda, do tempo em que vivíamos oficiosamente juntos. Fechei os olhos, autorizando-me a sofrer com a recordação do primeiro beijo dado naquele mesmo sofá. Lutara tanto para a ter na minha vida, pelo seu amor. Conseguira vencer as suas defesas para que me deixasse amá-la, ser e fazê-la feliz... Para depois tudo se perder com a merda de um tumor. Malvada doença que pela segunda vez me tirava alguém tão importante da minha vida. Não era justo. Olhei para cima e disse:
— Não é justo! Tu não És quem eu acreditava que Eras. Hoje perdi toda a minha fé em Ti.
Mafalda partia deste mundo antes de chegar aos trinta e um anos e, com a sua morte, terminava a escala que fizera a meu lado, na minha vida.
fim do conto IV
Antes do final daquele semestre, o divórcio foi oficializado, pouco mais de dois anos após o casamento.
Perante a previsível consumação do divórcio, organizei a minha vida para ir a Portugal, visitá-la. Estava ansioso por a rever e expectante pelos frutos que poderiam ser colhidos num reencontro em que ambos éramos descomprometidos. No entanto, antes que pudesse partilhar a hipótese com ela, recebi uma mensagem sua no email a informar que a separação a deixara muito deprimida, queria afastar-se da realidade onde estava inserida, procurar um novo rumo, descobrir um novo significado que a realizasse. E com base nisso, decidira voluntariar-se para integrar uma missão humanitária em Moçambique, colocando ao dispor das crianças locais os seus conhecimentos na área médica em que se especializara, Pediatria.
Tive vontade de partir o computador. Agora que surgia a oportunidade para ficarmos juntos, ela ia para África dar consultas? Já para não falar em todos os perigos a que estaria sujeita, tendo em conta as notícias que se viam na televisão de ataques a missões humanitárias na Nigéria, Somália, entre outros. Pensei em escrever-lhe a pedir que não fosse, mas sabia que isso seria infrutífero e poderia aborrecê-la ao ponto de querer quebrar a nossa ligação. Ao invés, elogiei o seu espírito humanitário e pedi-lhe que nos mantivéssemos em contacto quando ela fosse para lá.
Mafalda chegou a Maputo numa tarde chuvosa de final de Julho. Passou a noite num hotel da capital e na manhã posterior, juntamente com a comitiva de voluntários, iria para uma daquelas regiões com nomes esquisitos perdidas no meio da selva. Recordo-me que me ligou desse hotel, estava eu a ouvir um CD dos Travis no estúdio, para me informar que chegara. Lembrou-me que não havia Internet para onde ia e que as comunicações iriam ser difíceis. Mesmo assim, prometeu ligar sempre que fosse possível.
Durante três dias, não soube nada dela. Comecei a ficar receoso, temendo que tivesse sido vítima de algum ataque de guerrilheiros ou simples criminosos. Não queria sequer imaginar o que um grupo de malfeitores poderia fazer a uma mulher linda como ela. Tentei ligar-lhe, mas nem sequer chegava a dar sinal de chamada, era como se o telemóvel estivesse desligado.
Para meu sossego, Mafalda telefonou ao quarto dia.
— Não fiques preocupado, Daniel. Isto é tranquilo e as pessoas são muito hospitaleiras. — informou para me descansar. — O grande problema aqui é a falta de condições, as doenças que seriam facilmente tratadas aí em Portugal.
Os telefonemas tornaram-se regulares, eu ligava-lhe todas as noites. A diferença horária era de mais duas horas lá que em Edimburgo. Por isso, eu telefonava ao fim da tarde. Eram telefonemas curtos, só para saber se estava tudo bem e para lhe mandar um beijo. Parecia quase um regressar ao tempo em que nos encontrávamos nas salas virtuais da Internet para conversar quase todas as noites, quando eu trabalhava na loja em Lisboa e ela estudava para ser médica. Era sempre eu quem ligava, por causa do custo excessivo do roaming das comunicações. Não sabia se esse custo seria excessivo para ela, mas sabia que eu o poderia suportar, daí ter-lhe referido isso ao início, que eu ligaria sempre à mesma hora.
Apesar de nunca sentir aquilo como uma obrigação, tive receio que o fosse para Mafalda. Havia vezes em que me atendia visivelmente cansada. Calculei que não tivesse coragem de me pedir para não ligar tanto. Daí que, uma noite, ao fim de um mês da sua comissão em África, optei por não fazer o telefonema. Já muito tarde, quase meia-noite em Edimburgo, recebi uma sms de Mafalda:
"Está tudo bem? Não ligaste."
"Pensei que talvez quisesses algum descanso. Andas a levar comigo todos os dias."
A resposta demorou um pouco, talvez cinco minutos, o que para troca de mensagens escritas parece uma eternidade.
"Podes ligar-me?"
Marquei o número e fiz a chamada. Ao fim do primeiro toque, a sua voz surgiu num tom cansado e firme:
— Que disparate é esse?
— Disparate?
— Sim. Que se passa? Houve alguma coisa que tivesse dito ontem que te tenha levado a pensar que não gosto que ligues?
A minha mente reviu o telefonema da noite anterior, fora normal, igual a tantos outros.
— Não. Só tive receio que estivesse a ser chato, ao ligar-te todas as noites.
— Se fosses chato, eu dizia-te. E também te dizia para não ligares tanto. — esclareceu com o carinho característico da sua voz. — Isto aqui é complicado, lidamos diariamente com o sofrimento das pessoas, com a nossa impotência. — Suspirou, revelando o cansaço acumulado. — Os teus telefonemas são uma espécie de refresco, um momento de relaxe... — Ouvi um risinho. — Se calhar, eu é que te maço todas as noites.
— Agora és tu que estás a disparatar.
— Eu sei. Tu és um querido, sempre foste.
— Tu sabes o quanto eu gosto de ti.
— Sim... — Houve uma pausa, um silêncio prolongado. Ela mudou de assunto. — És a única pessoa com quem falo regularmente. Chego a estar mais de uma semana sem ligar para a família. Então com a Vânia só falei quando cheguei, de resto, só trocamos mensagens. — Mais uma pausa. — Tu és o meu elo com a civilização.
— Sabes que estou sempre contigo, mesmo estando longe.
— Sim, eu sei.
Não me importava de ficar ao telefone com ela indefinidamente, a força do amor que sentia por ela queimava-me o espírito.
— Mafalda...
— Sim?
Eu amo-te!, surgiu no meu pensamento.
— Sim, Daniel? — insistiu perante o meu silêncio.
— Já conseguiste ultrapassar o divórcio?
A resposta não foi imediata e quando veio trazia na voz um travo de amargura:
— Não. Ainda sofro com isso. Mas, pelo menos aqui, mantenho a mente ocupada. Só mesmo quando vou dormir ainda me deixo cair na tristeza.
— Ele não merece que ainda sofras por ele.
— Não sofro por ele, Daniel. — corrigiu. — Sofro por mim, sofro pelo meu fracasso em ser mãe.
— Isso não justifica um divórcio. — argumentei, pensando que só um estúpido, uma besta quadrada, poderia abdicar do amor de uma mulher como ela.
— Apesar de tudo, não o condeno, Daniel. É um direito dele, querer ser pai.
— Havia outros caminhos, Mafalda. Sei lá, adopção...
— Ele não quis. E mais uma vez admito que está no seu direito.
— Não deves sentir isso como um fracasso teu, Mafalda.
— Mas é! — afirmou convicta. — Fui eu que falhei.
— Não o vejo dessa forma. — contestei. — No lugar dele, amar-te-ia ainda mais.
Do outro lado da linha veio um riso suave.
— És um querido por tentares fazer com que me sinta melhor. — Suspirou. — Já é tarde. Tenho de ir descansar.
— Gosto muito de ti, Mafalda!
— Eu também gosto muito de ti, Daniel!
— Posso fazer uma última pergunta?
— Desde quando precisas de autorização para fazer perguntas?
— É das difíceis.
Notei alguma apreensão no seu silêncio.
— O mais que pode acontecer é eu não responder.
— Está bem. — concordei, ganhando coragem. Respirei fundo. — Ainda gostas de mim como naquela manhã em que nos encontrámos pela primeira vez?
Novo silêncio. A resposta atrasou-se indefinidamente, alguns segundos que a minha expectativa encarou como horas.
— Não te vou responder a isso. — disse séria. — Quero apenas que saibas que gosto muito de ti. Não quero pensar em relações de afecto, relacionamentos amorosos. Estou muito magoada com o que aconteceu. E volto a dizer-te, não é culpa dele. Culpo-me a mim. Neste momento, não quero nem preciso de paixões. Preciso de amigos, preciso de um amigo, um amigo com quem tenha uma relação muito forte, a mais forte de todas, alguém que me faz sentir bem, segura e confortável. Tu és o mais próximo que tenho disso. É só isso que quero. Se puderes continuar a ser esse amigo, ficarei feliz. Mas, não te vou enganar, não quero que a nossa relação algum dia vá além do que temos hoje. — Parou para analisar a minha reacção. Eu aguardei. — Percebo que possa estar a defraudar as tuas expectativas. Compreenderei se te quiseres afastar.
— Não, Mafalda, não me vou afastar. — comprometi-me. — Desejo-te uma boa noite. Amanhã à mesma hora?
— Sim. — concordou já sem o peso na voz. — E, por favor, não voltes a pensar disparates. Se algum dia, num futuro completamente surreal e improvável, estiver cansada de falar contigo, eu digo-te.
A minha vida profissional tornou-se ainda mais atarefada ao ser contratado por uma agência londrina, o que levou a que tivesse de viajar quinzenalmente para Londres e ficar lá três dias. Não havia nada melhor que trabalhar naquilo que gostava e ser ricamente pago por isso. Mais uma vez, a oportunidade era fruto da entrevista de Tânia.
No auge do Outono, no regresso a casa vindo de Londres, Peter alertou-me para algo:
— A Tio anda muito apática e come pouco.
Olhei para a gata que, ao contrário do habitual, não viera receber-me e permanecia aconchegada na sua cama. Baixei-me junto dela e acariciei-lhe o pelo, obtendo um ronronar de agrado. Fui preparar-lhe uma latinha da sua comida preferida e coloquei num pires. Mal ouvia o som da lata, ela vinha a correr para comer. Porém, desta vez, manteve-se imóvel. Levei o pratinho para perto dela. Tio lambeu um pouco e desinteressou-se.
— Estás a ver? Tem estado assim, Daniel.
— Talvez seja melhor eu levá-la ao veterinário.
Sem perder tempo, coloquei-a com cuidado na transportadora.
O veterinário que a observava regularmente ficava a dois quarteirões da nossa casa, pelo que ia sempre a pé até lá. Ele observou-a minuciosamente com semblante apreensivo. Eu via a cena com o coração nas mãos, temendo o diagnóstico. Por fim, disse-me que ela não apresentava sinais de qualquer doença, tudo se resumia a velhice. Custava a acreditar que Tio fosse já uma gata sénior, mas quando a adoptara já era uma gata adulta e vivia comigo havia uns dez anos. Numa postura austera, o veterinário recomendou que a mantivesse o mais confortável possível e... que me preparasse para o pior.
Não me quis convencer disso, Tio não poderia estar a... Não, não queria acreditar nisso. Fosse como fosse, alterei algumas rotinas, procurando estar mais tempo com a gata. Podia recusar-me a aceitar, mas o meu inconsciente encaminhava-me para esse desfecho.
Algumas noites mais tarde, fiquei sozinho no apartamento estúdio, uma vez que Peter saíra para jantar com uns amigos e chegaria tarde ou nem sequer viria passar a noite a casa. Tal como costume, telefonei a Mafalda para mais um relato do dia, partilhando as incidências do meu e ouvindo as satisfações e frustrações que uma pediatra poderia atravessar em Moçambique.
A seguir, peguei em Tio e vim para o sofá ver televisão, deitando-a no meu colo. Ela aninhou-se nas minhas pernas e permaneceu confortável, apreciando o meu pentear com os dedos do seu pelo tricolor. Ela olhou para mim, tinha um olhar mais intenso que muitos seres humanos. Quase a julguei ver sorrir. Que disparate, os gatos não sorriem. Voltou a aninhar-se no meu colo, pressionando-me suavemente com as patitas, como se dissesse "gosto muito de ti". Quero acreditar que ela estava a agradecer-me, se bem que talvez eu tivesse mais a agradecer-lhe a ela por todos aqueles anos em que muitas vezes fôramos a única companhia um do outro.
Na televisão, distraí-me com um filme de acção que rapidamente perdeu importância em conflito com o meu sono. Estava cansado de mais um dia, começava a considerar seriamente a hipótese de tirar umas férias, daí que tenha adormecido. Acordei com outra coisa qualquer a passar no ecrã.
— Vá, Tio. Vamos dormir. — disse eu à gata, acariciando-lhe a cabeça. Ela não se mexeu. — Tio! — A minha voz não provocou qualquer efeito. — Tio? — Percebi que arrefecera e não havia sinais de que respirasse. — Tio? Tio? — Sem que me apercebesse, as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Acorda, Tio! Tio! TIO!!!
Agarrei-a com força, abanei-a como se isso a pudesse trazer de regresso à vida. Claro que os seus olhos permaneceram cerrados. Abracei-a junto ao peito com força e chorei como uma criança. Ela adormecera o sono eterno...
Naquela noite não perdi uma gata, perdi uma amiga e companheira que percorrera comigo os últimos dez anos, quase desde o triste dia em que o meu tio falecera. Fora a minha companhia na solidão, a presença alegre a cada chegada minha a casa, a cúmplice de brincadeiras, ouvinte de desabafos. Tio vivera comigo em Almada, mudara-se comigo para Moscavide, regressara comigo a Almada, viajara comigo para Edimburgo... A gata era parte de mim, parte da minha vida. Um pedaço do meu ser partia com ela. E aquela casa nunca mais seria a mesma sem a sua presença. Num momento de introspecção, com Tio nos braços apertada contra mim, pensei nos meus tios e pedi-lhes que, se os seus espíritos se cruzassem, tomassem conta dela por mim.
Mafalda propusera-se a permanecer um ano em Moçambique e cumpriu. Estivera numa região que eu imaginava ser um antro de perigos, mas que não passava de um lugar calmo com inúmeras carências de recursos para quem lá vivia. Ser médica ali fora uma lição de vida para ela. Ao regressar a Portugal, Mafalda não retomou a sua função no Hospital de Coimbra, uma vez que o ex-marido exercia funções lá e ela não queria estar a cruzar-se com ele. Ao invés, pediu transferência para outro hospital e conseguiu lugar na Pediatria do Hospital de São João no Porto. Como Vânia, entretanto fora viver para Vila Nova de Gaia, Mafalda aceitou o seu convite para partilharem o apartamento.
Eu ia seguindo a sua vida à distância, conforme ela me ia relatando tudo pela Internet. Após um ano de constantes telefonemas diários, já não passávamos um dia que fosse sem falar um com o outro. Só que retomámos as conversas pelo Messenger, uma vez que era mais cómodo que falar ao telefone. Foi assim que fui ficando a par dos seus relatos.
Apesar de ela sempre ter dito que nunca seriamos mais que amigos, eu mantinha a esperança de a conquistar. E sabia que tinha de o fazer antes que outro "marido" aparecesse na sua vida. Esperei que Mafalda organizasse a sua vida no Porto, a mudança para a casa da amiga, a adaptação ao novo cargo no hospital e às consultas que começou a exercer em duas clínicas, uma no Porto e outra em Gaia. Quando senti que a sua vida encarrilara numa rotina, informei-a que tinha de ir ao Porto tratar de uns assuntos.
Mafalda ficou desconfiada.
"Vens ao Porto tratar de que assuntos?"
Um assunto chamado Mafalda.
Claro que não lhe podia dizer que ia de propósito para a ver. Iria com toda a certeza tentar demover-me de o fazer, não quereria ser foco de tal despesa ou alertar-me-ia para que não tivesse ilusões em relação a nós.
"Uma proposta de trabalho de uma agência", menti.
"Isso é bom. Espero que tenhas sucesso."
"Podemos encontrar-nos quando for aí?"
Mafalda enviou a resposta que eu calculava:
"Não sei se vai dar. Estou com muito trabalho, turnos no hospital, as clínicas."
"Só regresso a Edimburgo depois de te ver."
"Depois vemos isso. Quando vens?"
"Daqui a três dias."
Aterrei no Aeroporto Sá Carneiro numa tarde quente de início de Setembro. A cidade do Porto brilhava com um Sol forte a que já não estava habituado, quando o táxi em que segui me deixou à porta do hotel perto da Avenida dos Aliados.
Perante a evidência de que eu ia mesmo a Portugal, Mafalda acabou por concordar que nos encontrássemos. No dia seguinte à minha chegada, ela estaria de folga do hospital e não tinha consultas nas clínicas.
Almocei num restaurante perto do Coliseu, procurando abstrair-me da ansiedade por a ir reencontrar nessa tarde. Saí do estabelecimento e desci a Rua Passos Manuel fustigado pelo calor. Começava a pensar se os cincos anos a viver em Edimburgo me haviam transformado a pele ao ponto de ficar rosado como um escocês numa praia do Algarve. Virei para a Rua Sá da Bandeira, passando pelo teatro com o mesmo nome e indo desembocar à Rua 31 de Janeiro.
Nunca tinha ido ao Porto. O máximo fora a passagem por lá entre Coimbra e o Aeroporto Sá Carneiro, aquando do casamento de Mafalda. Porém, simpatizara com a cidade e com as pessoas no seu estilo próprio e muito receptivo. Não conhecia a cidade. Vira como alcançar o meu destino através do mapa no hotel e pedindo informações aos portuenses. Tive de o fazer várias vezes e em nenhuma fui tratado com antipatia ou enfado.
Atravessei a Rua da Madeira e entrei na Estação Ferroviária de São Bento por uma porta lateral, instigado pela curiosidade em ver o interior. Fiquei encantado com os painéis de azulejos em todas as paredes do átrio principal. Sem saber porquê, veio-me à cabeça a música Getting Away With It (All Messed Up) cantada pela banda James, a minha canção favorita deles. Saí pela porta principal a cantarolar "We're getting away with it all messed up. Getting away with it all messed up. That's the living". Desci a rampa onde os táxis se perfilavam a aguardar clientela e passei para o outro lado da Praça Almeida Garrett. Prossegui pela Rua Mouzinho da Silveira, na qual caminhei por largos minutos, observando tudo com noção da ansiedade crescente de quem se aproxima do destino. Cruzei a Rua da Bolsa na passadeira e entrei no Jardim do Infante Dom Henrique, circulando pelo caminho cimentado que cortava o relvado. O ponto de encontro combinado fora o Palácio da Bolsa. O edifício surgiu diante de mim após o jardim. Atravessei a Rua Ferreira Borges e dirigi-me à escadaria que dava acesso à fachada de três portas com as letras "Associação Comercial do Porto" escritas por cima.
Mafalda ainda não chegara, mas eu também estava adiantado. Não sei donde ela saiu, só a vi já no cimo da rua a subir a escadaria oposta à que eu usara. Caminhava com elegância numa passada segura a cada degrau, onde os saltos dos seus sapatos batiam com firmeza. Vestia uma camisa encarnada fresca e larga de mangas curtas e calças de ganga à sua medida. O cabelo estava mais ruivo e menos louro com os caracóis mais curtos. O rosto parcialmente tapado pelas lentes largas dos óculos escuros não esconderam o sorriso franco ao ver-me. Senti o coração palpitar com a sua aproximação, quase como se quisesse explodir-me do peito. Ela parou na minha frente e ao "olá" juntou um beijo terno na minha face. Retribuí ambos com uma vontade imensa de a abraçar.
— Já tinhas vindo ao Porto? — indagou, retirando os óculos para o topo da cabeça.
Eu ia responder que sim, no seu casamento, mas achei que referir o "casamento" não era uma boa opção.
— Não.
— E deste bem com isto?
— Como se costuma dizer, quem tem boca vai a Roma.
Mafalda sorriu, aquele sorriso cativante que me apaixonara desde o primeiro segundo em que a vira.
— Queres beber um café? — convidou. — Podemos ir até à Ribeira.
Assim que concordei, ela tornou a baixar os óculos para o rosto e avançou pela escadaria que eu subira, conduzindo-me de novo para o passeio. Na passadeira, atravessámos a Rua Infante Dom Henrique e caminhámos nela até chegar à esquina com a Rua da Alfândega por onde descemos até ao Cais da Estiva com o rio Douro a receber-nos num azul alegre e ensolarado. Escolhemos uma esplanada e sentámo-nos defronte um do outro, vendo os muitos turistas que por ali circulavam.
— Como correu a reunião, Daniel?
— Reunião? — questionei confuso.
Nesse instante, um empregado acercou-se da mesa para receber o nosso pedido.
— Dois cafés. — pediu ela. A seguir virou o rosto para mim. — Não vieste a Portugal por causa de uma reunião com uma agência ou o que era?
— Ah... Sim... Pois... — respondi, recordando-me da falsa justificação que lhe dera. — Correu bem.
Mafalda ficou séria, observando-me com a cobertura das lentes escuras.
— Não houve nenhuma reunião, pois não?
— Se te dissesse que vinha de propósito para te ver, tinhas-me dito para não vir.
Ela abanou a cabeça como se ficasse aborrecida. Depois, abriu o sorriso e disse:
— Tu és incrível. Vir de tão longe só para me visitares.
— Tinha saudades tuas.
— Falamos todos os dias, Daniel.
— Não é o mesmo que estar fisicamente contigo.
O empregado trouxe os cafés e depositou uma chávena diante de cada um. Puxei de uma nota de cinco euros e dei-lhe, dizendo:
— Fique com o troco.
— Fica um café caro. — constatou ela, após o rapaz se afastar.
— Venho com o jetlag dos preços de Edimburgo. — retorqui com humor.
Bebemos o café em silêncio. Ela evitou o meu olhar, desviando o rosto para um barco que navegava no rio. Como também estava de óculos escuros, permiti-me analisá-la. O seu rosto amadurecera, diferente da jovem que conhecera nove anos antes em Lisboa, mas mantinha toda a beleza e sensualidade. As marcas não eram mais que registos dos momentos difíceis.
— Tive dificuldade em me reabituar a isto. — afirmou, quebrando a minha análise. — Esta quantidade de gente, a confusão do trânsito, a falta de paciência das pessoas... Em Moçambique não era nada assim. — Sorriu com o semblante perdido em recordações. — A vida lá é muito mais calma.
— Tens saudades de Moçambique?
— De Moçambique propriamente não. Tenho saudades das pessoas, das crianças... Principalmente das crianças. — Fez um gesto como se fosse dizer algo absurdo. — Se pudesse, trazia-as todas. — O seu rosto ensombrou-se. — Não imaginas a falta de condições. Cá em Portugal passamos a vida a queixarmo-nos de tudo. Havias de ver como é lá. Não há quase nada e as pessoas ainda assim são gratas e percebem que fazemos o melhor que podemos.
— Pensas voltar?
Mafalda abanou a cabeça.
— Não. Foi uma fase, um propósito de fazer algo, de dar um sentido à vida. Quero continuar a ajudar as pessoas, mas irei fazê-lo aqui. Tenho falado com algumas associações e quero fazer voluntariado junto de crianças carenciadas.
— Tens um coração de ouro.
Ela encolheu os ombros.
— Acho que é uma forma de ser um bocadinho mãe. Lidar com crianças é aquilo que mais gosto de fazer. Não posso ter filhos, daí que faça o mais que posso pelos filhos dos outros. Enfim... Sei lá...
— Dá Deus nozes a quem não tem dentes. — retorqui, pensando no meu passado.
— Como assim?
— A Francisca podia ter filhos e nunca os quis ter. — recordei. — Também gostava de ser pai. — Sorri ao imaginar-me nesse papel. — Bom, a vida que levo torna a paternidade complicada, sempre de um lado para o outro. — Encarei as suas lentes escuras. — E a criança precisa de uma mãe.
— Talvez devas começar por aí. — avisou séria. — E certifica-te que ela pode ter filhos, antes de te comprometeres.
— Mafalda. — chamei com ternura. — Não sou o teu ex-marido.
Ela olhou-me surpresa e confusa.
— Que queres dizer com isso?
— Quero dizer que nunca largaria a mulher que amo só porque ela não consegue engravidar.
— Sim... — concordou denotando algum desconforto. — Mas será melhor se ela puder ter filhos.
— Porque é que fazes isso? — questionei, tirando os óculos.
— Faço o quê?
— Falas como se não soubesses quem é a mulher que eu amo.
Mafalda emudeceu, dirigindo a atenção para a chávena vazia. Eu aguardei, conhecendo-a o suficiente para perceber que ela preparava as palavras a proferir.
— Só quero o amigo, Daniel. Já te disse antes e irei repeti-lo sempre que tocares nesse assunto.
— O dia em que me disseres, olhos nos olhos, que não sentes o mesmo por mim, eu nunca mais o repito.
— Eu não te amo, Daniel!
— Se tirares os óculos e repetires isso a olhar para mim, eu acredito.
Mafalda tirou os óculos e encarou o meu olhar. Percebi que ela iria mesmo dizê-lo nos meus olhos. Quando a sua boca se abriu, temi tê-la desafiado. Só que não ouvi a repetição da frase anterior. O que ouvi, foi:
— Tu queres ser pai. Admiro isso em ti. Nunca serias feliz comigo.
— Deixa-me provar-te o contrário.
Ela renunciou à oferta.
— Podes acreditar nisso agora, mas mais tarde...
— Não sou o teu ex-marido, Mafalda.
— Pára de repetir isso. — irritou-se. — Eu sei que não és. — Suspirou, voltando a colocar as lentes no rosto. — É melhor ir andando.
— Não vás. — pedi, arrependido de ter expressado os meus sentimentos.
— Vamos dar um passeio. — sugeriu, levantando-se da cadeira.
Abandonámos a esplanada e fomos caminhar ao longo do cais.
— Desculpa! — pedi. — Não tenho o direito de te pressionar.
— Deixa. Não penses mais nisso.
No cais estavam atracados vários barcos rabelos, usados para passeios turísticos pelo rio. Na margem oposta, em Gaia, outros tantos com o mesmo objectivo. Caminhámos alguns metros em silêncio, desfrutando somente da companhia um do outro. Olhei para a Ponte Dom Luís I, a igreja da Serra do Pilar e o seu miradouro no lado de lá. Subimos a larga escadaria de madeira e parámos junto ao pilar norte da ponte, encostados ao gradeamento. O Sol forte incidia daquele lado na sua trajectória para o mar.
Ficámos a olhar para a outra margem, perfilada de diversas caves de vinhos, marcas centenárias tão conhecidas. Não me importava de ficar ali a seu lado para o resto da eternidade.
O que passava pela mente de Mafalda era uma incógnita para mim. Porém, foi ela quem retomou o diálogo:
— Não posso ser para ti aquilo que gostarias que fosse. Já tu és aquilo que preciso neste momento, um amigo. Talvez não acredites, mas estes últimos tempos acentuaram a tua importância na minha vida.
— Não tenho porque não acreditar.
Mafalda virou-se para mim.
— Vou confessar-te uma coisa. — disse ela. Voltei-me para si. — Tenho medo que te afastes por não te dar o que queres.
— Isso nunca vai acontecer.
— Não sei... — duvidou insegura.
Ia perguntar-lhe se a podia abraçar, mas arrisquei e abracei-a sem pedir. Ela deixou-se envolver e repousou a cabeça no meu ombro. Ficámos assim uns instantes até as suas mãos tocarem nas minhas ancas para que me afastasse. Abri o abraço e ela olhou para mim com um sorriso terno. O Sol iluminava-lhe o rosto e conseguia ver-lhe os olhos atrás das lentes, revelando neles os seus reais sentimentos. Sem pensar, fiz um movimento ténue da cabeça na sua direcção. Para minha surpresa, ela copiou-o. As nossas bocas aproximaram-se perigosamente. Os nossos lábios estavam a escassos centímetros quando ela murmurou:
— Não...
Aquilo soou-me a um "não" que queria dizer "sim" e apaguei mais alguns centímetros. Ansiava por aquele beijo há nove anos. Quase a beijá-la, ouvi:
— Se me amas, não o faças!
Suspirei e afastei-me tão devagar quanto me aproximara. Sorri-lhe recebendo em troca o seu sorriso meio envergonhado.
— Desculpa...
— Não tens de pedir desculpa, Mafalda. Eu compreendo.
Percorremos o trajecto inverso vagarosamente. Para atenuar qualquer ferida provocada pela rejeição, Mafalda começou a falar do trabalho, evitando que o silêncio servisse para nos martirizarmos em pensamentos. Eu ouvi-a atento, nada arrependido por ter desperdiçado a oportunidade. Pelo menos, eu marcara uma posição, assumindo claramente que a amava.
Novamente no Palácio da Bolsa, Mafalda perguntou:
— Estou de carro. Queres que te deixe no hotel?
— Não. Prefiro caminhar um pouco.
Ela encarou-me triste.
— Ficaste chateado? Por eu...
— Não. — neguei com um sorriso honesto. — E não perguntes se continuamos amigos. Sabes bem que sim. Nunca te vou deixar.
Hesitante, aproximou-se para me beijar o rosto. Recebi o seu beijo afectuoso e dei-lhe outro na sua face.
— Quando voltas?
— Amanhã.
— Ligas quando chegares, Daniel?
— Claro.
— Faz boa viagem. — desejou, afastando-se.
— Mafalda! — chamei, travando o seu andar. — Serei sempre teu amigo. Mas, nunca deixarei de te amar.
Ela sorriu.
— Eu sei, Daniel. Eu também não.
Fiquei a vê-la desaparecer para lá da esquina, pensando no significado do "eu também não".
No regresso a Edimburgo, a vida retomou o ritmo habitual. Muito trabalho, viagens a Londres, sessões no nosso estúdio... Peter e eu tínhamos uma agenda tão preenchida que se tornava raro trabalharmos em conjunto. Deixara de ser o seu discípulo e ganhara asas próprias, autonomia total para ir construindo uma carreira cada vez mais sólida. Numa conversa descontraída num fim de tarde após mais uma sessão de estúdio, Peter dissera-me como se orgulhava de mim, quase como um pai que vê o filho formar-se.
As conversas no Messenger com Mafalda também continuaram, havendo apenas uma ou outra noite em que, por compromissos meus ou dela, não aconteciam. Por vezes, eu tentava aprofundar a questão dos sentimentos, mas ela fugia sempre, respondendo de forma evasiva ou reafirmando a amizade em prol da paixão. Mesmo assim, sabia que existia um grau de intimidade exclusivo nos nossos diálogos. Fosse como fosse, sabia que nunca a conseguiria conquistar à distância, daí que tivesse tomado uma das decisões mais difíceis da minha vida.
Peter chegara a casa à noite, após uma saída para jantar com o namorado dinamarquês. Congratulava-me com o facto da sua relação durar há bastante mais tempo que aquilo que supus inicialmente. Pedi-lhe uns minutos para conversarmos.
— Peter! Decidi regressar a Portugal.
— Mais uma viagem para visitares a tua namorada? — questionou num tom brincalhão.
— Não. Estou a pensar regressar em definitivo.
Peter perdeu o sorriso. Surpreso, encostou-se ao balcão e disse:
— Tenho pena que vás. Mas compreendo a tua decisão. E faço votos para que tenhas tanto sucesso lá como tens tido aqui.
— Lamento estar a quebrar a nossa parceria.
— Não lamentes, Daniel. — contrapôs, retomando o sorriso. — Temos trabalhado de forma independente nos últimos tempos. Orgulho-me muito que tenhas ganho asas e voado sem mim. O meu lamento é apenas a tristeza pelo perda do meu parceiro aqui de casa.
— Sempre foste um bom amigo. Devo-te muito, Peter.
— Não me deves nada, Daniel. O que conseguiste foi graças ao teu talento. Eu limitei-me a ajudar-te a abrir portas.
A minha primeira acção para iniciar o processo de mudança foi vender a minha mota. A seguir, comecei a gerir a minha agenda para ter um período de pausa que me permitisse organizar em Portugal. Em todo esse tempo, não contei nada a Mafalda. Peter aconselhou-me alguns contactos no nosso país onde eu me deveria apresentar e que, perante o meu currículo de trabalhos, me contratariam.
Assim, novo ano, vida nova. E, seis anos após ter aterrado em Edimburgo pela primeira vez, partia de regresso a casa em definitivo.
Apesar de querer focar o meu trabalho a norte para estar perto de Mafalda, viajei para Lisboa e retornei à casa de Almada cuja renda nunca deixara de pagar. Foi uma sensação estranha, voltar a entrar num lugar onde crescera e que não visitava desde que emigrara. Estava tudo igual, tudo como deixara, só eu estava diferente.
Instalei-me provisoriamente, uma vez que não pretendia permanecer por ali mais tempo que o necessário. Pela Internet, comecei a procurar casa no Porto e a contactar as agências que Peter me recomendara. Para além disso, ao segundo dia em terras lusitanas, fiz a minha primeira grande despesa, uma loucura, comprei uma mota nova, uma BMW S1000 RR de 200cv.
A minha ideia era alugar um pequeno apartamento na cidade do Porto. Contudo, acabei por arrendar um em Miramar, Vila Nova de Gaia, perto da praia. Tudo foi muito rápido e não cheguei a permanecer mais de três semanas em Almada. Durante todo esse tempo, nunca contei a Mafalda que me mudara em definitivo para Portugal e para bem perto dela. Em relação ao trabalho, as coisas também evoluíram bem, pois todos os contactos que fiz mostraram receptividade em terem a minha colaboração. Assim, em meados de Fevereiro, eu estava instalado e activo.
O apartamento que Mafalda partilhava com Vânia localizava-se na zona de Coimbrões. Com a justificação de que pretendia enviar-lhe um presente pelo correio, pedi-lhe a morada. Queria fazer-lhe uma surpresa.
A tarde estava fria e o vento soprava com brusquidão, levando e trazendo nuvens que tapavam e destapavam o Sol. Apesar de ainda me estar a habituar à região, começava a ter noção das estradas e dos melhores caminhos. Porém, estudei muito bem o trajecto para não me perder. Saí de casa e montei na mota, segurando um segundo capacete no braço direito. O percurso entre Miramar e Coimbrões foi relativamente fácil, o pior foi encontrar a rua dela. Após alguns enganos, ter de perguntar a duas pessoas e falhar um cruzamento, lá consegui dar com a rua. Parei em frente ao prédio com o número da sua morada, retirei o capacete da cabeça e peguei no telemóvel, marcando o número dela.
— Olá, Daniel! — atendeu com uma voz apreensiva. — Está tudo bem?
Não era comum telefonar-lhe, raramente o fizera depois do seu regresso de Moçambique.
— Olá, Mafalda! Está tudo bem. — descansei-a. — Estás em casa?
— Estou.
— Podes descer? Estou aqui em baixo.
— Estás a brincar? — interrogou, julgando-me em Edimburgo.
— A sério. Se não acreditas, vai à janela e olha para rua. Vê lá se não está lá um tipo vestido de preto em cima de uma mota cinzenta com dois capacetes.
Ouvi o som do seu movimento a andar pela casa. A seguir, proferiu incrédula:
— Só podes estar a gozar.
Desligou a chamada e fez-me esperar alguns minutos até aparecer pela porta do prédio. Saiu com um semblante fechado, algo aborrecida. Ao ver-me, sorriu feliz. Caminhou até mim, segurando as abas do casaco comprido e, antes de me alcançar, perguntou:
— Que fazes aqui?
— Vim visitar-te.
Trocámos dois beijos.
— Espero que desta vez não tenhas vindo de propósito a Portugal para me visitar.
— Não, não vim. — respondi. — Já cá estou desde o início do ano.
Mafalda franziu o rosto, confusa.
— Pensei que estivesses em Edimburgo. Ainda no outro dia me disseste que estava a chover lá.
— Pois... Tenho andado a enganar-te. — confessei com um sorriso travesso. — Vim em definitivo para cá. Decidi mudar de ares, estava farto do frio.
Ela não se deixou enganar facilmente.
— Voltaste a viver em Almada?
— Não. Aluguei casa no Norte, decidi continuar a ser fotógrafo por cá.
Com "norte", Mafalda calculou todas as hipóteses do Douro para cima.
— Então agora vives onde?
— Em Miramar.
Mafalda ficou boquiaberta.
— Isso é já ali. — constatou estupefacta. — Espero que as tuas decisões não tenham sido influenciadas por mim.
Abanei a cabeça, fingindo que tal ideia era um absurdo.
— Vim convidar-te para conheceres a minha casa. — expliquei. Apontei-lhe o segundo capacete. — Toma.
— Não sei... — recusou hesitante. — Nunca gostei muito de motas.
— Não te preocupes. Eu sou cuidadoso na estrada.
Antes de segurar o capacete, Mafalda cravou o olhar em mim e num tom inquisidor, alertou:
— Espero que não estejas a preparar alguma coisa!
— És a minha melhor amiga, Mafalda. Gostava que fosses a primeira pessoa a conhecer a minha casa nova.
Ela colocou o capacete e sentou-se atrás de mim. Os seus braços envolveram a minha cintura para se segurar, apertando-se mais quando nos coloquei em movimento.
No regresso a Miramar não me enganei no caminho, evitando fazer má figura na frente dela. Estacionei a mota no passeio defronte do meu prédio e ajudei-a a saltar da mota. Tirámos os capacetes, ficando cada um com o seu.
— Viva o luxo! — exclamou ela. — Viver na praia não é para todos.
— Foi o que consegui arranjar. — desvalorizei, falando como se tivesse alugado uma barraca num pântano.
O apartamento ficava no último piso de um prédio de três. Não tinha elevador. No cimo das escadas, abri a porta e convidei-a a entrar.
Mafalda avançou com um olhar analisador. Viu o átrio pequeno e escolheu para ver primeiro a sala grande com lareira e duas portas envidraçadas de acesso ao terraço. O chão era de madeira e as paredes num tom amarelo sumido. A mobília era minimalista, só o necessário para alguém ali viver, um sofá, uma mesa, quatro cadeiras e um móvel com televisão, tudo pertença do senhorio. Na porta oposta à da sala, o acesso à cozinha, um espaço pequeno com balcões em forma de L, cada um com uma janela para os prédios circundantes, e os electrodomésticos encastrados. As paredes e o chão eram forrados a mosaicos claros para contrastar com o tom escuro dos móveis. A terceira porta do átrio dava para um corredor com duas portas de cada lado. À esquerda, um segundo acesso à sala, seguindo-se a porta de um quarto. No lado direito, a porta da casa de banho geral e a porta do segundo quarto. Acendi a luz da casa de banho para que ela visse, uma vez que não tinha janela. Era um espaço pequeno com um lavatório, sanita e polibã, toda em tons de azul. O quarto ao lado da sala não tinha casa de banho e estava sem mobília. O quarto principal, onde eu dormia, tinha uma cama de casal, um roupeiro, casa de banho privada e uma janela com vista para a rua.
Mafalda não perdeu muito tempo com os quartos, regressando rapidamente à sala. Abriu uma das grandes janelas e saiu para o terraço. Este espaço exterior não era muito extenso, parecia mais uma varanda grande que um terraço. Porém, continha a melhor virtude da casa, a vista de mar.
— É uma bela casa. — elogiou, olhando para a praia ao fundo.
— Não era o que tinha em mente, mas gostei quando a vi.
Ela sorriu e olhou para mim.
— Condiz contigo. Transmite paz.
— Eu transmito paz?
— Sim. — assentiu, retomando a observação do horizonte. — Pelo menos, a mim.
Coloquei-me a seu lado, partilhando a vista. O mar tinha uma tonalidade escura acentuada pelo céu nublado. O vento agitava os caracóis de Mafalda.
— Porque vieste para aqui? — interrogou de súbito. — Porque decidiste regressar a Portugal?
Não lhe menti.
— Quis ficar mais perto de ti. — Ela olhou para mim sem qualquer surpresa pela honestidade das minhas palavras. — Gosto de estar contigo. Independentemente dos sentimentos que tenhamos ou não um pelo outro, quero estar contigo mais tempo. Não ser uma amizade de telefonemas ou mensagens. Gostava que fizéssemos parte da vida um do outro no mundo real.
Mafalda sorriu, procurando domesticar o cabelo nervoso com o vento.
— Eu não mereço um amigo como tu. — afirmou com ternura no olhar. — E sinto que te estarei sempre a defraudar.
— Não estás, Mafalda. Todas as decisões que tomei foram conscientes da tua vontade e sentimentos.
— Não posso dizer que não esteja feliz por estares aqui. Mas...
— Mas?
— Acho demasiado para alguém que nunca será mais que uma amiga.
— Não te preocupes. Foi uma decisão minha. — insisti. — Além disso, tenho a vantagem de poder exercer a minha profissão em qualquer lugar.
— Já conseguiste trabalho cá?
Anuí, adicionando:
— E continuo a ter a colaboração com o projecto de Londres. Pelo menos, durante mais uns meses, vou ter de viajar para lá de quinze em quinze dias.
O frio intensificou-se e uma rajada de vento convenceu-nos a regressar à sala. Mafalda sentou-se no sofá. Eu puxei uma cadeira e apoiei-me nas costas.
— Queres beber alguma coisa? Tenho máquina de café...
— Não, obrigado. — Mafalda olhou para o telemóvel. — Preciso regressar.
Não tentei convencê-la a ficar mais tempo. O meu objectivo estava cumprido, contar-lhe que voltara para Portugal e levá-la a conhecer a minha casa.
A noite começava a chegar, o que complicou o meu reconhecimento do caminho para Coimbrões. Percebendo as minhas dúvidas, Mafalda foi dando indicações. Parei a mota no mesmo lugar. Ela desmontou, retirando o capacete ao mesmo tempo que eu, e entregando-mo.
— Não. Fica com ele. — pedi, travando o seu movimento. — Serve para as próximas vezes que te levar a passear.
— É melhor não. Podes precisar dele.
— Não preciso. — tornei a recusar.
— E se quiseres transportar alguém na mota?
— Isto não é um táxi. — argumentei. — Eu ando sempre sozinho de mota. Não pretendo partilhar o assento com mais ninguém, senão tu.
Mafalda ofereceu-me um sorriso terno e envolveu o capacete nos braços.
— Pronto, está bem. Eu fico com ele.
Gerou-se um impasse. Eu sentado na mota, ela em pé a meu lado. Acho que nenhum de nós se queria despedir.
— Vais achar estúpido, isto que te vou dizer. — comecei perante o seu semblante atento. — Nestes quase doze anos que nos conhecemos, estivemos juntos umas quatro vezes, certo? — Ela anuiu. — Mas, sempre que estou contigo, sinto-me como se nunca tivesse estado um dia que fosse longe de ti.
— Eu percebo-te. — retorquiu, piscando o olho.
— Quando é que posso voltar a ver-te?
— Não te quero viciado, Daniel. — alertou com falsa seriedade. — Encontrarmo-nos muitas vezes pode causar habituação.
— Estou ciente disso, senhora doutora.
Ela sorriu, abanando a cabeça.
— Ainda nem acredito que estejas aqui, que tenhas voltado em definitivo e a viver tão perto. És completamente maluco.
— Por ti. — completei.
— Pára com isso, Daniel. — pediu.
— É verdade, eu sou malu...
Mafalda calou-me, tapando a minha boca com a sua mão. Depois, beijou as costas da mão.
Afastou-se com sedução.
— Não fiques com ideias, Daniel. — avisou como um preâmbulo ao que diria a seguir. — Não te vou mentir, estou muito feliz que estejas aqui. — Soprou um beijo. — Vamos falando.
Nos dias que se seguiram, as nossas vidas estiveram tão ocupadas que mal conseguimos trocar algumas mensagens. Entretanto, eu tive de viajar até Londres e permanecer os habituais três dias. Ela iniciou a colaboração com uma associação de apoio médico em bairros carenciados do Porto, o que ainda ocupou mais o seu preenchido tempo.
No entanto, sempre que possível, encontrávamo-nos e fazíamos algo juntos, como jantar fora, ir ao cinema, passear pelo NorteShopping para ver lojas, ir até à Foz, caminhar por Gaia... Nunca estivemos mais que cinco dias sem nos vermos. E, entre eles, trocávamos mensagens por telemóvel. O que quase se extinguiu foram as conversas online.
A Primavera aproximava-se do seu fim e o Verão estava a chegar. Recordo-me que era Sábado e nem eu nem Mafalda tínhamos vontade de ir passear. Por isso, ela sugeriu passar por minha casa e passarmos a tarde juntos a ver um filme.
Mafalda chegou logo depois do almoço. Tocou à campainha e pediu que descesse, pois gostaria de ir caminhar um pouco na praia. Eu desci de imediato. Ela aguardava-me junto do seu carro, um Renault Clio escuro. Tinha o cabelo ruivo cada vez mais comprido com os caracóis a esvoaçar livremente. Vestia uma camisola de lã com gola alta e mangas compridas, a fazer conjunto com uma saia axadrezada curta e botas de cano alto até aos joelhos. O sorriso cativante despontou com a minha aproximação. Trocámos dois beijos.
Caminhámos um pouco pelo bairro até alcançarmos a Alameda do Senhor da Pedra. Fomos a conversar sobre coisas sem importância, uma notícia que surgira no telejornal, um acontecimento no hospital, o último trabalho de fotografia que eu havia feito, enfim... Diálogos que se perderam nas teias da memória. Prosseguimos pelo passadiço de madeira que entrava pelo areal. Avançámos até ao limite das tábuas, onde uma rampa dava acesso à areia. Permanecemos parados a observar o mar, silenciados pelo som das ondas que fustigavam a costa.
— Isto é muito bonito. — constatou ela. — Tiveste bom gosto em vir viver para aqui.
— Foi sorte. Não conhecia nada nestas bandas.
— Eu também nunca tinha vindo para estes lados. — partilhou, passando a mão pelos caracóis rebeldes. — Entre a Figueira e o Porto, só conhecia as praias da zona de Aveiro, a Barra, Costa Nova...
— Não conheço.
— Um dia destes, levo-te lá. — propôs sem perspectiva que isso viesse a acontecer.
Voltámos para trás, regressando ao passeio empedrado que acompanhava a estrada. O céu ficou mais enevoado e o vento acentuou a sensação de frio. Optámos por contornar o quarteirão e seguir calmamente para minha casa.
Os saltos das botas dela ecoaram na escada, durante a subida. Uma vez protegida do vento, preocupou-se em pentear o cabelo com os dedos, ajeitando os caracóis. Entrámos no apartamento e Mafalda passou para a sala, indo sentar-se no sofá.
— Queres beber alguma coisa? — ofereci, sem evitar olhar para as suas pernas cruzadas.
— Não. — recusou, colocando a mão no lugar a seu lado. — Senta aqui, ao pé de mim.
Antes de o fazer, fui buscar o comando para acender a televisão.
— Não ligues! — pediu. — Podemos conversar um bocado?
— Sim, claro. — concordei, largando o objecto onde o encontrara.
Sentei-me a seu lado. O sofá não era muito comprido, pelo que ficámos lado a lado com os braços a tocarem-se. Mafalda manteve o olhar em baixo e as suas mãos brincavam com a bainha da saia, atraindo a minha atenção para as suas coxas.
— Obrigado por estares aqui. — disse por fim.
Num tom brincalhão, retorqui:
— É a minha casa, é normal que aqui esteja.
Mafalda virou o rosto para mim numa expressão séria.
— Sabes ao que me refiro. Teres regressado a Portugal e teres vindo para perto de mim. — Esboçou um sorriso. — Têm sido muito bons os momentos que temos passado juntos.
— Sim. — concordei, colocando o braço sobre as costas do sofá, atrás dela, para ficarmos mais à vontade. Ela aproveitou para deitar a cabeça nele. — Gosto muito da tua companhia.
— Eu sei. — disse num tom meloso. — Sei como gostas de mim.
— Cada vez mais. — acentuei.
Mafalda colocou o dedo indicador nos meus lábios, proferindo um "xiu" carinhoso. A seguir, movimentou-se no sofá, chegando-se mais para mim.
— Podes não acreditar, Daniel, mas adorava poder corresponder aos teus desejos.
Sem pensar, acariciei-lhe o rosto com a mão livre. Ela não protestou e permitiu-se saborear o toque.
— Eu acredito. Tu é que não queres.
O seu rosto alterou-se para um esgar de lamento.
— Sabes bem que nunca te sentirias completo comigo.
— Tu já me fazes sentir tão bem e tão feliz só com a tua presença, Mafalda. Tudo o resto seria sempre melhor.
Ela sorriu com ternura no olhar. Os seus olhos azuis penetrantes encaravam-me com carinho. Murmurou:
— Não posso ter filhos.
— Eu sei. Não importa.
O franzir do seu rosto revelou a sua falta de crença.
— Dizes isso agora, mas mais tarde...
— Mais tarde, voltarei a dizer-te que não importa. Só tu importas. Só tu és importante para mim.
Houve um momento suspenso, como se alguém tivesse carregado no botão de "pausa" naquele filme. Percebi que a minha mão ainda estava no seu rosto, o polegar na face, o indicador abaixo da orelha e os restantes dedos repousados no pescoço. Para minha surpresa, o seu olhar baixou para a minha boca, vi os seus lábios afastarem-se. Seria um sinal? Estaria a minha intuição correcta? Deveria seguir o que o meu instinto me gritava? Só havia uma maneira de saber.
Baixei a cabeça até ela. O meu nariz passou junto do seu, qual cruzamento com a torre de controlo a avisar que a boca iria aterrar mais abaixo. Os meus lábios tocaram nos dela. Senti um arrepio de excitação, perante a aceitação do beijo. A sua respiração ofegante aumentou quando a sua língua procurou a minha para dançar ao sabor da paixão. Mafalda tinha um hálito fresco, um aroma a frutos silvestres. A mão que estivera no seu rosto desceu pelo seu braço até à saia e parou nas coxas. Ao sentir o meu toque, ela descruzou as pernas, afastando-as ligeiramente. Sem interromper o beijo sôfrego, percebi o convite e acariciei o interior, subindo devagar até ela voltar a fechá-las, aprisionando a minha mão. Um dos seus braços estava preso entre nós, mas o outro aterrou no meu peito e a mão segurava-me a cabeça, agarrando-me o cabelo. Com o braço onde ela deitara a cabeça, puxei-a mais para mim e dobrei o cotovelo, tendo a mão caído para o seu peito, procurando um dos seios. Mafalda mordiscou-me o lábio quando lhe apertei o seio esquerdo sobre o tecido da camisola. Afastou novamente as pernas, libertando a mão. Não sei se a intenção era que continuasse a subir pelas suas coxas, sei que no meio da excitação, a minha mão prosseguiu até os dedos tocarem num tecido frágil rendado.
— Pára! — sussurrou, interrompendo o beijo. Largou o meu cabelo e empurrou-me o braço para longe. — Espera um pouco. — Afastou-se no sofá, meio atordoada. Encarou-me com um sorriso cúmplice. — Dá-me cinco minutos. Depois, vem ter comigo ao teu quarto.
Fiquei aparvalhado a vê-la levantar-se e a desaparecer na porta da sala que dava para o corredor. Tudo aquilo me parecia surreal, nem queria acreditar no que estava a acontecer. Olhei para as horas no telemóvel e comecei a contar os cinco minutos, controlando a excitação e a felicidade imensa que me percorria o corpo. Foi difícil, mas cumpri os trezentos segundos que ela pedira.
Levantei-me do sofá, envergonhado por as calças realçarem o volume que ela provocara. Evitei imaginar o que me esperava no quarto, preferindo a surpresa. Avancei pelo corredor e segurei o puxador da porta, abrindo-a para encontrar Mafalda sentada na cama. Ela estava encostada à cabeceira, enfiada nos lençóis até à cintura. Vi a camisola e a saia dobradas num canto e as botas arrumadas ao lado. Ela observava-me sem complexos, usando somente o sutiã.
— Podes despir-te para mim? — sugeriu com a voz hesitante.
— Queres um strip-tease?
— Não. — recusou. — Só quero apreciar-te.
Dei alguns passos até à cama.
— Porque não me vens despir? Assim aprecias mais de perto.
Ela concordou com a ideia, atirando o lençol para trás. Pude contemplar toda a beleza do seu corpo esguio, uma vez que para além do sutiã só vestia umas cuecas minúsculas com rendas da cor da outra peça. Saltou do colchão e parou na minha frente. Sem se importar como o fazia, puxou-me a camisola pela cabeça ao mesmo tempo que eu empurrava os calcanhares das sapatilhas com os pés. Desapertou-me as calças e puxou-as para baixo. Atirou-me um olhar de análise, agradada com o que via.
— Podes fazer o resto. — indicou, voltando para a cama.
Despi as calças e mantive os boxers. Contornei a cama e entrei no lado contrário, sentando-me a seu lado.
Mafalda começou a rir. Depois daquilo tudo, parecia surgir um impasse. Eu também ri, desanuviando a hesitação. Depois, ficou séria e confessou:
— Não o faço desde o divórcio.
— Também não o faço há algum tempo.
— Menos que eu, certamente. — ripostou.
— Não sei. — duvidei, lembrando-me que a última vez que me envolvera sexualmente fora com Tânia e isso acontecera antes do divórcio de Mafalda. — Talvez tenha sido há mais tempo.
— Queres que acredite nisso?
— É a verdade.
Mafalda encolheu os ombros.
De um momento para o outro, a cena excitante de um casal apaixonado e louco de tesão deu lugar a um homem e uma mulher sentados numa cama como se fossem dormir. Voltava o impasse.
Tive vontade de perguntar "então, como é, fazemos isto ou não?". Porém, ela antecipou-se:
— Quero ir com calma. — Que raio quereria isso dizer? Ela olhou-me com ternura. — Podemos namorar um pouco? Não sei se me sinto preparada para o fazermos.
O facto de ela dizer "namorar um pouco" atribuía um novo conceito ao nosso relacionamento.
— Ok. Tudo bem. — concordei paciente.
Ela sorriu, satisfeita.
— Posso sentar-me no teu colo, Daniel?
— Sim, claro. — aceitei, afastando o lençol.
Mafalda levantou-se e rodou sobre as minhas pernas, sentando-se nas minhas coxas com uma perna de cada lado. A seguir, acariciou-me o rosto e beijou-me os lábios. Trocámos beijos apaixonados. As minhas mãos massajavam-lhe os flancos e as coxas, enquanto ela apoiava as suas no meu peito.
Interrompi o beijo.
— Podes tirar o sutiã? — pedi.
Ela pareceu constrangida. Porém, levou os braços atrás das costas e desapertou o fecho. As alças caíram e as bolsas de pano perderam a resistência. Mafalda tinha dois seios firmes, muito redondos de volume perfeito com mamilos pontiagudos, acicatados pela excitação.
Retornámos aos beijos. Os seus braços envolveram o meu pescoço e as minhas mãos acomodaram-se no seu peito. As nossas cinturas estavam cada vez mais próximas até as suas cuecas tocarem nos meus boxers. Ela olhou para baixo, contemplando o volume da excitação sob o tecido.
— Agora a sério, Daniel. — insistiu num tom melosamente arrastado. — Há quanto tempo?
Fiz contas rápidas de cabeça, indiferente a que pudesse errar.
— Talvez mais de dois anos. — confessei.
Mafalda arregalou os olhos.
— Não acredito.
Sorri vencido.
— Como queiras...
As suas mãos desceram pelo meu tronco até ao elástico dos boxers.
— Posso?
Anuí, desejoso que ela o fizesse. Vi-a puxar o elástico e introduzir uma mão dentro dos boxers, trazendo para o exterior toda a minha excitação. Começou a massajar-me devagar, retomando os beijos. Uma das minhas mãos permaneceu no seu seio, mas a outra desceu até às coxas. Sem ver, procurei o único tecido que ela ainda usava. Senti a humidade entre as suas pernas. Com o dedo indicador afastei as rendas e com o médio toquei os seus pontos mais íntimos, obtendo em resposta um gemido agradado.
Por entre beijos, provocámos uma explosão de prazer ao outro.
Rimos como dois malucos, extasiados. Limpei carinhosamente a sua barriga, alvejada pelo auge. Mafalda abraçou-me com força e quis ficar assim algum tempo, somente a saborear o momento, repousando e recuperando a respiração. Sentia-lhe o coração a bater no mesmo compasso que o meu.
Sem anunciar, saiu do meu colo e colocou-se de pé no soalho.
— Dá-me um minuto. — pediu, dirigindo-se à casa de banho.
Ouvi a água a correr. Voltou sem sinais do que lhe deixara na barriga e sem as cuecas, revelando-me que não tinha um único pêlo na zona escondida até então.
Eu levantei-me da cama, dizendo:
— Agora é a minha vez de pedir um minuto.
Ela concedeu com um gesto teatral de quem cede passagem.
Fui lavar-me. Não sabia o que viria a seguir, mas queria estar impecável. Larguei os boxers no cesto de roupa suja. Regressei ao quarto. Mafalda aguardava estendida na cama completamente nua. Deitei-me seu lado.
Ficámos a olhar para o tecto em silêncio. Não eram precisas palavras para mostrarmos como estávamos felizes, segurando a mão do outro sobre o colchão. Ao fim de algum tempo, ela virou-se para mim e retomámos os beijos apaixonados, excitados... Ela sentiu a minha rigidez embater nas suas coxas. Isso fê-la terminar o beijo. Voltou-se na cama, ficando de barriga para cima, mantendo os olhos em mim.
— Tens preservativos?
— Não. — respondi, lamentando o facto.
— Eu também não trouxe. — retorquiu como quem diz que se esqueceu de comprar pão. Olhou-me com cumplicidade. — Doenças não temos. E infelizmente eu não corro o risco de ficar grávida. — Evitou pensar nesse aspecto. — Vem...
Rodei na cama e coloquei-me sobre ela. As suas pernas afastaram-se. Deslizei entre elas com a excitação a escorregar pela cintura de Mafalda. Olhámos nos olhos um do outro. Nunca senti amor maior que aquele que partilhámos naquele instante.
Como qualquer casal que se ama pela primeira vez, nem tudo se acoplou na perfeição. O meu desejo procurou o seu, mas parecia perdido até ser encontrado pelas mãos gentis de Mafalda que me conduziu devagar para dentro de si.
Começámos devagar, movimentos suaves, como se nos quiséssemos dar a conhecer ao outro sem pressas. Temperávamos cada deslocação com beijos húmidos, pausados, saboreando cada milímetro. O ritmo foi aumentando, Mafalda afastou as pernas o máximo que conseguiu, convidando-me a investir cada vez com mais profundidade. Os beijos transformaram-se em invasões de língua, guerras de lábios, choques de bocas sedentas... Ouvi a minha respiração ofegante pelo meio dos gemidos de prazer dela. As suas mãos nas minhas nádegas instigavam-me a uma penetração cada vez mais pujante. Sem pudor, vociferou palavrões ao meu ouvido, repetiu "fode-me" mil vezes, desafiou-me a arrebentá-la de prazer. Gritou com o orgasmo brutal ao mesmo tempo que toda a minha paixão a inundou, aquecendo-lhe o ventre e espalhando-se dentro de si.
Fantasiei algumas vezes como seria fazer amor com Mafalda. Contudo, nunca a imaginara assim e estava completamente fascinado pelo seu comportamento. Completamente exaustos, ficámos abraçados na cama, tendo eu a preocupação de não pesar sobre ela. Olhámos nos olhos do outro.
— Eu amo-te, Mafalda!
— Eu também te amo, Daniel!
Dei-lhe mais um beijo e afastei-me para o lado.
Mafalda levantou-se da cama e perguntou:
— Importaste que tome um duche.
— Claro que não. Estás à vontade.
Ela caminhou meio trôpega para a casa de banho. Ouvi o chiar da porta do polibã e o abrir do chuveiro. Permaneci deitado até o som da água se silenciar.
— Tens toalhas no armário. — gritei para lá.
— Já vi. — respondeu.
Quando regressou ao quarto, já trazia as cuecas vestidas. Parou perto da cama e devolveu o sutiã ao seu lugar.
— Não te vais embora, pois não? — questionei, temendo a resposta.
— Queres que fique mais um pouco?
Levantei-me do colchão, dizendo:
— Claro.
Ela sorriu.
— Posso ir vasculhar a tua cozinha e preparar algo para comermos?
— Podes. — concordei. — Mas não quero que vás estar com trabalho a cozinhar. Posso encomendar alguma coisa.
— Não te preocupes, eu trato disso.
Fui tomar um duche, beliscando-me diversas vezes para ter a certeza que não estava a viver um sonho. De volta ao quarto, vi que as botas de Mafalda continuavam no mesmo sítio. Vesti-me e fui procurá-la.
Mafalda estava na cozinha, novamente vestida, descalça e a cozinhar algo que cheirava muito bem.
— Podes pôr a mesa? — sugeriu ao ver-me.
Caminhei até ela, abracei-a por trás e espreitei para o tacho. Beijei-lhe a nuca. Nunca amara tanto ninguém como a ela.
Jantámos de olhar embasbacado no outro, apaixonados e com mais fome de beijos que propriamente do que tínhamos no prato.
— É mesmo verdade o que disseste? — questionou de súbito, deixando-me confuso. — Não teres tido relações sexuais com outra mulher nos últimos dois anos.
— Sim, é verdade. — O seu rosto era descrente. — És a quarta mulher com quem fiz amor. — O seu semblante pareceu fazer contas. — Será que podes acreditar em mim?
— Não tenho razão para desconfiar. Sempre foste muito honesto. — concordou, mantendo o olhar curioso. — As outras três foram a Francisca, — Anuí. — Calculo que outra tenha sido a amiga que levaste ao meu casamento. — Tornei a anuir. — E a terceira?
— Prefiro não falar sobre isso. — pedi.
Mafalda não insistiu, confidenciando:
— Tu és o segundo homem com quem faço amor. — Sorriu. — O primeiro, não preciso de dizer que foi o meu ex-marido.
Bebemos um pouco de vinho.
— Nunca te envolveste mesmo com nenhuma modelo? — tornou a questionar. Abanei a cabeça, apagando a vez que estivera com Tânia em Paris. — Uma sessão que tenha sido mais estimulante... — Continuei a negar. Mafalda fez um gesto de desinteresse. — Desculpa, Daniel, não tenho o direito de te estar a interrogar.
— Não faz mal. Só quero que acredites em mim.
— Tenho os meus defeitos, Daniel. — disse ela, algo que me custava a acreditar. — Um deles é ser ciumenta. — Fez uma expressão de desconforto. — É o teu trabalho, terei de aprender a lidar com isso.
— Não tens razão para recear o que quer que seja. Se nunca me envolvi com ninguém antes, dessa forma, não era agora que estou com a mulher que amo que o iria fazer.
— Eu acredito em ti, Daniel.
Terminámos o jantar. Mafalda olhou para o telemóvel.
— É tarde. Tenho de ir andando.
— Fica cá esta noite. — sugeri, quase como um pedido.
— Não achas que estamos a ir muito depressa?
— Não. — neguei com ar natural. — Estou a convidar-te a dormir comigo esta noite.
Mafalda concordou, referindo que ia apenas telefonar à amiga para que não ficasse preocupada por ela não ir dormir a casa.
Passámos o serão no sofá. Liguei a televisão, mas nenhum de nós prestou atenção ao que passava no ecrã. Ela sentou-se no meu colo e nem demos pelo tempo passar, enquanto namorávamos apaixonados.
Pouco faltava para a meia-noite, quando fomos para o quarto. Entrámos de mão dada e cada um foi para o seu lado da cama. Ficámos de pé, encarando-nos com o colchão pelo meio. Ela riu feliz, constatando:
— Parece que somos casados, cada um a preparar-se para se deitar no seu lado da cama.
Correspondi ao seu sorriso. Despi as calças, vendo-a a tirar a camisola. Tirei a minha, ao mesmo tempo que ela retirava a saia.
— Podes arranjar-me uma t-shirt para dormir? — pediu ao desfazer-se do sutiã. — Sinto-me mais confortável.
Apontei-lhe uma gaveta e disse-lhe que estivesse à vontade para escolher.
— Eu costumo dormir todo nu. — avisei. — Importas-te?
Mafalda abanou a cabeça. Despi os boxers, enquanto ela cobria o tronco com a t-shirt que escolhera, uma comprida que quase lhe servia de vestido. Enfiei-me nos lençóis. Ela puxou a bainha para cima e levou as mãos à cintura, tirando as cuecas. Juntou-se a mim no conforto da cama.
Ficámos a olhar um para o outro com os rostos iluminados pela luz da cabeceira. A sua expressão era feliz, terna e apaixonada.
— Estás feliz, Daniel?
— Estou. Muito! E tu?
— Também.
Virou-se de costas para mim e encostou-se ao meu corpo, convidando-me a abraçá-la. Apaguei a luz.
— Dorme bem, querido!
— Dorme bem, meu amor!
Ela apertou o meu braço na sua cintura em sinal de afecto.
Fiquei a olhar para o escuro, respirando o odor perfumado do seu cabelo, ouvindo a sua respiração tranquila, feliz por a ter ali e sentindo-me o homem mais feliz do Universo. Queria dormir, mas não me conseguia abstrair das imagens da paixão que partilhara com ela. Fui atraiçoado por um espasmo de excitação que embateu na sua nádega. Afastei-me ligeiramente para não perturbar o seu sono, não querendo incomodá-la. Mafalda respirava suavemente adormecida, eu contava carneiros sem sucesso no chamamento do sono e sem evitar novo espasmo. Tornei a afastar-me. Porém, a minha bela adormecida moveu-se mais para mim, como se receasse que fugisse. Respirei fundo e encostei a excitação à perna dela, de forma a não a perturbar e controlando-me. Só que estava a ser difícil...
Por entre o sono, Mafalda voltou a mover-se. A sua mão acariciou-me a coxa peluda. Lamentei que a pudesse ter acordado. Novo movimento, chegando-se para cima e encostando o rabo na minha barriga. Tentei retirar o braço que lhe envolvia a cintura, mas ela agarrara a minha mão sem sinal de pretender soltá-la. Voltei a respirar fundo, tentei pensar nas coisas mais estapafúrdias que me anulassem a excitação... sem sucesso. A mão na minha coxa desceu para o foco do meu desconforto, segurando-o e acariciando-o. Toda ela parecia dormir um sono tranquilo, excepto a mão que no escuro me conduziu para o foco do meu desejo. A entrada húmida revelou que não era só eu quem ansiava por aquilo. Soltou um gemido, sussurrando:
— Oh sim...
Foi rápido, o suficiente para apaziguar o fogo e adormecermos.
Contudo, a noite não foi tranquila, foi loucamente intermitente. Acordámos três vezes, arrebatados pelo desejo, e três vezes fizemos amor.
Quando acordei de manhã... Bom, a manhã já tinha acabado e o Sol já alcançara o ponto mais alto no céu. Olhei para o lado e vi Mafalda a dormir profundamente com um sorriso nos lábios. O quarto estava envolvido numa claridade ténue, onde os cortinados travavam a entrada da luz forte da rua. Puxei o lençol para baixo, destapando-nos e sentindo o atenuar do calor. Ela permaneceu imóvel, deitada de barriga para cima, com a t-shirt subida acima do umbigo, e as pernas estendidas em direcções opostas. Desde que a vira completamente nua pela primeira vez que tinha desejo de fazer algo. Deslizei pela cama, ficando com o rosto ao nível da sua barriga. Atirei o lençol para o fundo da cama, destapando-a por completo. Ela nem notou, adormecida. Devagar, passei por cima do seu corpo sem lhe tocar e desci até ficar entre as suas pernas. Beijei-lhe a barriga com ternura, ela moveu-se sem acordar. Beijei o umbigo, ela voltou a mover-se. Prossegui os beijos, descendo aos poucos até ao descampado entre as suas pernas. Mafalda soltou um gemido, depois outro e outro. Percebi que acordara, mas mantinha uma expressão facial de quem dormia profundamente. Mais um beijo, toquei-a com a língua. Ela dobrou os joelhos e afastou as pernas o mais que conseguiu. Saboreando-a, as minhas mãos subiram por dentro da t-shirt, estacionando nos dois volumes que subiam e desciam a um ritmo cada vez maior. Os gemidos ténues deram lugar a sons guturais de prazer e gritos de êxtase.
Após o auge, subi pelo seu corpo e beijei-lhe os lábios, dizendo:
— Bom dia, amor!
— Bom dia... — retribuiu ofegante com o olhar deliciado. Antes que a voltasse a beijar, empurrou-me para o lado, fazendo-me cair no colchão. Saltou como se a cama tivesse uma super mola e despiu a t-shirt como se o tecido queimasse. — Agora é a minha vez.
Passámos o dia na cama. Conversávamos, namorávamos, fazíamos amor, repousávamos a olhar para os olhos do outro, conversávamos mais um pouco, namorávamos, fazíamos amor... Foram horas a conhecer-nos, a explorar o corpo do outro, testando posições, partilhando sem tabus o que gostávamos mais e menos. Nem nos lembrámos de comer.
Ao fim da tarde, Mafalda teve a iniciativa de sair da cama. Sem dar hipóteses a ser travada, caminhou sedutora até à casa de banho para tomar um duche. Eu substituí-a no polibã quando terminou. E ao regressar ao quarto, Mafalda já estava vestida e calçava as botas, sentada ao fundo da cama.
— Já vais?
— Tenho de ir, Daniel.
— Não queres ficar esta noite?
Mafalda sorriu.
— Preciso descansar. Ambos sabemos o que aconteceria se ficasse.
Enquanto me vestia, ela saiu do quarto. Nesse momento, passou-me uma ideia pela mente. Ansioso, fui encontrá-la na sala a procurar as chaves do carro na mala.
— Porque não vens viver comigo? — convidei quase sem respirar.
Sem esconder a surpresa, Mafalda virou-se para mim.
— Agora sim, estamos mesmo a ir depressa demais.
Mafalda recusou a ideia, queria ir com calma, não apressar as coisas. É certo que já falávamos havia doze anos, conhecíamo-nos pessoalmente há dez, mas só namorávamos desde a véspera. Viver juntos era um passo precipitado para ela. Respeitei a sua decisão.
No entanto, as visitas de Mafalda a minha casa tornaram-se frequentes e sempre que não trabalhava no dia seguinte, passava a noite comigo. Mesmo que não quisesse oficializar uma vida em comum, dei-lhe uma chave para que ela viesse sempre que quisesse sem ter que se anunciar. No Outono, Mafalda já dormia quase todas as noites comigo e a casa ganhava alguns espaços com o seu toque pessoal.
Entretanto, as minhas viagens a Londres chegaram ao fim, das quais já nem desfrutava por sentir que eram três dias longe dela.
Profissionalmente, continuava com muito trabalho. Mafalda encarava bem as minhas sessões fotográficas para agências, controlando o ciúme ao ver, por exemplo, um catálogo de fatos de banho cujo autor das fotos era o seu namorado.
Certa tarde, em casa, Mafalda estava a usar o computador, quando eu entrei e vi no ecrã a sua página pessoal na rede social Facebook. Já ouvira falar das redes sociais e do Facebook, mas ao contrário do que teria acontecido anos antes, nunca me interessei muito por isso. Porém, ao vê-la consultar o seu perfil, pedi-lhe que me explicasse como funcionava.
— Como é que alguém como tu não tem Facebook? — questionou como se fosse um sacrilégio.
— Nunca calhou.
— Podias criar um perfil para ti. — sugeriu.
Como não mostrei muito interesse, Mafalda decidiu fazer-me a apresentação da rede social, mostrando os variados aspectos do seu perfil, o que poderia ter, como adicionar amigos, informações, colocar fotos... Pronto, para não a desiludir, acedi a que ela criasse o meu perfil no Facebook.
Sentei-me a seu lado, respondendo às informações que me pedia. Registou o meu endereço de email para criar a conta, preencheu os meus dados sem grandes pormenores, colocando primeiro e último nome, a data de nascimento, localização Vila Nova de Gaia sem grande detalhe... Para escolher a foto, como estava no meu computador, dei-lhe liberdade de pesquisar a que quisesse. Escolheu uma que ela me tirara a ver o mar. Seguiram-se inúmeros campos que ficaram em branco. Ao chegar ao "estado civil" disse:
— Eu tinha no meu Divorciada. — Alterou a janela do navegador, revelando o seu perfil. — Agora tenho "Numa Relação". Se puseres também "numa relação" e me identificares, ficará aqui que estou "numa relação" contigo.
Percebi que havia ali um desejo disfarçado de oficializar online a nossa relação. Não me importei. Por mim, queria que o mundo inteiro soubesse que namorávamos. Dei o meu aval e ela sorriu satisfeita.
O Outono passou, depois o Inverno e a Primavera. A nossa relação estava cada vez mais forte e nós muito felizes e apaixonados. Passávamos o máximo de tempo juntos, fosse para sair, jantar fora, ir ao cinema ou apenas para ficar no sofá, de mão dada a ver televisão. A fogosidade da paixão também não esmorecia, mas tanto podíamos ter momentos ternos de beijos enamorados, como passarmos horas insaciáveis a fazer amor.
Mafalda continuava a dar consultas de Pediatria no hospital e nas duas clínicas, para além do seu voluntariado com duas associações humanitárias do Porto, onde recebia pacientes carenciados de forma gratuita.
Apesar de estarmos "numa relação" desde o Verão anterior, Mafalda continuava reservada em me apresentar à família, justificando que o espírito conservador dos pais ainda não assimilaria um novo namorado com bons olhos, após o divórcio dela.
Mafalda também não era pessoa de muitas amizades, mantendo sempre algum distanciamento com as pessoas com quem convivia diariamente. A única pessoa verdadeiramente importante na sua vida, com a qual partilhava uma amizade desde a adolescência, era Vânia.
Vânia era o paradoxo de Mafalda, muito extrovertida, sempre pronta à diversão e extremamente sociável. Nunca me esquecera da forma descarada como me tentara seduzir no casamento, mas nunca o repetira ou mostrara qualquer intenção nesse sentido, desde que a reencontrara.
Recordo-me que, nesse Verão, costumávamos jantar semanalmente eu, Mafalda, Vânia e o namorado desta que já não era o indivíduo que a acompanhara no casamento.
Em finais de Agosto, após um desses jantares e um serão bem divertido em minha casa, Mafalda sentiu-se mal. Perto das despedidas, quando Vânia e o namorado se preparavam para ir embora, Mafalda ficou indisposta e teve uma tontura que só não a deitou ao chão porque eu a segurei.
— Que se passa? — quis saber Vânia, estranhando.
— Estás bem? — perguntei, apoiando-a.
Mafalda sorriu e respondeu a ambos:
— Estou bem, foi só uma tontura. É cansaço.
— Andas a trabalhar demais. — lembrei.
Vânia desvalorizou e retorquiu para mim num tom humorado:
— Ou tu andas a cansá-la muito.
A gargalhada geral desanuviou a preocupação do momento.
No entanto, as indisposições repetiram-se, bem como as tonturas.
Confesso que a minha primeira suspeita foi que, por alguma razão inexplicável ou milagre, Mafalda pudesse estar grávida. Quando partilhei essa suspeita com ela, Mafalda soltou uma gargalhada exagerada. Já a conhecia o suficiente para perceber que não era um riso divertido, mas sim nervoso. Depois, ficou séria e disse:
— Lamento, Daniel. Quem me dera estar grávida de um filho teu. Mas, isto é só cansaço.
Conjecturando, acho que, como médica, Mafalda já suspeitava que algo não estava bem. Porém, para não me preocupar, relativizava as coisas e justificava tudo com cansaço. Só que isso não aliviava a minha preocupação.
O ponto decisivo para a fazer olhar com mais seriedade para o assunto aconteceu num passeio pela praia deserta. Do nada e sem aviso, no meio de uma conversa animada entre nós, Mafalda perdeu os sentidos e desmaiou. Fiquei em pânico. Ajoelhado a seu lado, chamei-a e abanei-a para a despertar. Não sabia o que fazer, não tinha conhecimentos de primeiros socorros. A única atenuante à minha apreensão era o facto de que ela respirava normalmente. Peguei no telemóvel para ligar o 112, só que ela abriu os olhos antes de eu clicar para chamar.
— Mafalda! Mafalda! Estás bem?
O seu rosto revelava confusão, mas a sua consciência foi tendo noção do que acontecera.
— Sim, estou...
Não fiquei convencido.
— Vou levar-te ao hospital. — informei decidido.
— Não é preciso.
— É sim! — insisti, ajudando-a a levantar.
— Ouve, Daniel. Eu estou bem. Foi só um desmaio.
— Não foi só um desmaio? — reclamei. — Tu há várias semanas que não andas bem.
Para minha surpresa, Mafalda irritou-se:
— Mas afinal, aqui quem é o médico? Estou a dizer-te que estou bem.
— Tu não estás bem. — contrapus. — As tonturas, este desmaio... Isto não é normal.
Ela abanou a cabeça e atenuou o tom:
— Não vamos fazer disto a nossa primeira discussão, pois não?
— Se isso significar o teu bem, não me importo.
— Escuta, Daniel! — pediu mais afável. — Eu prometo que amanhã, no hospital, peço para fazer alguns exames. Falo com um colega da medicina geral para me observar. Pode ser? Não precisamos de ir a correr para as urgências. — Abraçou-me. — Confia em mim, amor.
Nessa noite, mal consegui dormir. Não pelas razões que outrora nos davam noites mal dormidas. Naquela, Mafalda dormia tranquilamente a meu lado, enquanto eu me consumia em preocupação, temendo o que poderia estar para vir.
No dia seguinte, Mafalda cumpriu o prometido. Depois das suas consultas, foi falar com um colega após o turno deste nas urgências e partilhou com ele os sintomas, os acontecimentos e pediu que a observasse.
Numa situação com um utente normal do Serviço Nacional de Saúde, o médico receitaria alguns exames e o utente ficaria à espera por tempo indeterminado até ser chamado para os fazer. Porém, Mafalda era uma colega do hospital, uma médica. E por mais que se insista que as coisas não funcionam assim, o que é certo é que ele a conduziu imediatamente para o Centro de Imagiologia, mais precisamente para a Neurorradiologia, onde lhe fizeram um TAC à cabeça. Esperou algum tempo pelos resultados e, ao recebê-los, o chão pareceu ter desaparecido sob os seus pés.
Eu estava em casa depois de uma tarde no Porto em reunião com uma agência de publicidade para a execução de um trabalho fotográfico. Tentei concentrar-me ao máximo na conversa com eles, mas a preocupação e a ansiedade por notícias dificultaram bastante o meu objectivo.
Mafalda chegou a casa com o rosto fechado e pálida. Ao aperceber-me que ela estivera a chorar, nem tive tempo de dizer nada, pois ela abraçou-me com força e soluçou compulsivamente. Abracei-a e confortei-a, dizendo para mim mesmo "por favor, meu Deus, que não seja nada grave".
— Tem calma. — pedi com carinho. O seu corpo tremia, o choro dilacerava-me a alma. — Que aconteceu?
Esperei que se acalmasse e só a libertei ao sentir que o seu abraço afrouxara. Deu-me um beijo ténue e afastou-se. Retirou um lenço de papel da mala para limpar o rosto. Acompanhei-a até à sala e sentámo-nos no sofá. Desliguei a televisão que emitia o telejornal e centrei toda a atenção em Mafalda.
— Fui à consulta. — começou com o lábio a tremer, encarando-me com os olhos azuis cheios de fragilidade. — O Carlos... O médico que me observou, achou melhor fazer um TAC. — Baixou o olhar para as mãos nervosas. — Fui fazer... — Soluçou e as lágrimas regressaram.
— Calma... — murmurei, segurando-lhe na mão.
Mafalda olhou para mim com os olhos marejados de lágrimas.
— É um tumor...
Fiquei sem chão. Foi como se me tivessem cravado uma faca no peito, como se me puxassem o tapete debaixo dos pés. Não era possível, não era justo... Porquê? Porquê ela? Porquê a mulher da minha vida?
Controlei-me o melhor que consegui, esforçando-me por parecer forte. Ao falar, preocupei-me em não me engasgar e dar firmeza no tom para que isso lhe transmitisse segurança.
— Que aconselhou ele a fazer?
— Tenho de fazer alguns exames. É necessário analisar melhor para fazer um diagnóstico mais preciso. Só depois se define a melhor forma de tratamento.
— Vai correr bem, vais ver. — desejei, mostrando optimismo.
— Seja como for, estou de baixa médica. — informou, tornando a limpar o rosto. — Não me considera em condições trabalhar. Os desmaios... Até é arriscado andar sozinha e nem pensar em conduzir.
— Não te preocupes. Ficas aqui. Eu cuido ti, meu amor. Estarei sempre a teu lado.
Mafalda abraçou-me e deixou-se ficar algum tempo em silêncio, a chorar baixinho.
A partir daquele dia, ela parou de trabalhar no hospital, nas clínicas e nas associações. O facto de estar parada só causava mais pressão à sua dor. Como não a queria deixar sozinha, terminei os projectos que tinha em andamento e suspendi a aceitação de novos.
Os exames seguintes só acentuaram a gravidade da situação. Na consulta em que foram analisados, assisti à sua dor ao ser informada que não poderia ser operada, pois o risco de ser uma intervenção fatal era muito elevado e arriscaria ficar incapacitada. Por isso, a decisão médica foi tratamento por radioterapia.
Tive o cuidado de ser sempre optimista e dar alento a Mafalda em todo o processo. Porém, não imaginam o quanto chorei, sempre que me afastei do seu olhar.
A doença acelerou uma questão que Mafalda viera a adiar indefinidamente, desde que estávamos juntos. Ao informar os pais do seu estado de saúde, estes vieram visitá-la a minha casa.
Estava uma tarde bonita de Outono, contrastando com o estado de espírito de todos nós. Os pais dela chegaram depois do almoço, tendo a campainha anunciado a sua chegada. Fui abrir a porta.
O pai de Mafalda era um homem sexagenário de postura altiva, envergando um fato formal caro. Usava o cabelo grisalho penteado para trás e um bigode bem cuidado, quase ao estilo queirosiano. Estendeu-me a mão com enfado. A mãe vinha atrás, igualmente altiva e formal, a mesma idade do marido, usava o cabelo de coloração escura numa armação que parecia ter acabado de vir do cabeleireiro. Nenhum me sorriu e avançaram para a sala, assim que viram a filha. A mãe foi mais expressiva, abraçando a filha. O pai mostrou alguma preocupação, mas manteve alguma distância.
— Querem beber alguma coisa? — ofereci. Ambos recusaram. Percebi que se sentiam pouco à vontade com a minha presença e li no olhar de Mafalda aquilo que ela preferia que eu fizesse. — Bom, tenho de sair. Estejam à vontade.
Fui dar um passeio pelo pontão da praia, observar o mar e sentir o vento a fustigar-me o rosto. Não se via quase ninguém por ali. Sozinho, permiti-me desanuviar as mágoas, libertar a frustração e baixar o escudo de optimismo que envergava perante o meu amor. Chorei em silêncio, impávido, com a melodia das ondas do mar. Olhei para o céu e, na minha fé cada vez mais posta em causa, perguntei a Deus se me iria levar novamente alguém importante da minha vida. Permaneci naquele lugar mais de duas horas, imóvel, olhar no horizonte, tal como tantas vezes fizera na praia onde o meu tio me levara.
Ao fim desse tempo, regressei a casa. Confesso que levava a esperança de que o casal de visitas já se tivesse ido embora. Contudo, eles ainda lá estavam quando voltei. Só que o meu regresso pareceu acelerar a saída. Vi-os a despedirem-se da filha com muita preocupação, a oferecer apoio para o que ela precisasse e a sugerir que ela deveria regressar a casa deles e fazer o tratamento em Coimbra. Mafalda recusou totalmente a última ideia.
Poucos dias antes de iniciar a radioterapia, encontrei Mafalda na casa de banho a olhar séria para o espelho. Reparei que no lavatório colocara uma tesoura e um objecto semelhante a uma máquina de barbear. Ao ver-me, disse:
— O cabelo vai começar a cair com o tratamento.
Mafalda tinha um cabelo ruivo lindíssimo que, na época, já lhe chegava a meio das costas. Sem esperar qualquer comentário, pegou na tesoura e numa madeixa de caracóis e começou a cortar. Fiquei sem reacção. O seu rosto fechado deu lugar a uma expressão de amargura. O lábio começou a tremer e as lágrimas ressurgiram nos seus olhos.
— Espera. — pedi, aproximando-me. — Eu ajudo-te. — Tirei-lhe a tesoura da mão sem que ela oferecesse resistência, talvez grata por a substituir na tarefa. — Vai correr tudo bem. — E prossegui o corte, usando o máximo de carinho em cada gesto, não lhe deixando dúvidas de quanto era amada por mim, independentemente do resto.
A máquina de cortar cabelo fora comprada por Vânia a pedido da amiga. Após os caracóis terem desaparecido despenhados no chão, Mafalda insistiu para que a usasse e eliminasse os últimos indícios ruivos. Não lho disse, nem lhe dei a transparecer, mas foi chocante vê-la com a cabeça rapada. A partir desse dia, em casa usava um lenço na cabeça e tinha uma peruca que imitava o seu cabelo antigo para as vezes que saía à rua.
Mafalda iniciou os tratamentos. Tive noção que se sentia desconfortável por a acompanhar, pois considerava-se um peso, uma condenada que me arrastava. Eu contestava isso e mantinha uma onda de esperança, à qual ela perdia a crença a cada dia que passava.
A radioterapia enfraqueceu-a, fê-la perder peso e ganhar um aspecto inchado, o rosto mais bolachudo. Nada abalou ou diminuiu o meu amor por si. Atravessei aqueles tempos de trevas a seu lado, consciente que por muito dolorosa que fosse a minha dor, a sua seria incomensuravelmente maior. No entanto, quando pensamos que nada pode piorar, as coisas pioram.
Recordo-me que chovia com abundância lá fora. Mafalda repousava no sofá, psicologicamente extenuada e com o olhar vago na televisão. A nossa relação esfriara ligeiramente, uma vez que ela se sentia cada vez mais insegura e pouco à vontade comigo. Dormíamos juntos, mas sempre que procurava ser carinhoso, ter demonstrações de afecto, Mafalda afastava-me e não queria o seu espaço invadido. Compreendi-a e respeitei-a. Afectada pelo turbilhão de emoções, incerteza do futuro, tratamentos dolorosos e medicações agressivas, só me restava tornar a vida dela o mais confortável possível.
Contudo, nessa tarde de chuva, Mafalda chamou-me.
— Precisamos de falar, Daniel.
— Que se passa? — questionei, sentando-me a seu lado.
Para disfarçar o nervosismo, Mafalda ajeitou o lenço que lhe escondia a cabeça calva.
— Estou a pensar voltar para a casa da Vânia. — informou sem conseguir encarar-me.
— Porquê? — interroguei surpreso. — Não estás bem aqui?
— Preciso de me afastar por uns tempos. — explicou, voltando a mexer no lenço, um tique que substituía o anterior de mexer nos caracóis.
— Não estou a perceber.
Ela olhou para mim com uma lágrima no rosto.
— Não estou a conseguir lidar com a doença e a nossa relação em simultâneo.
— Desculpa que te diga, mas isso é um perfeito disparate. — reclamei, sentindo que estava a perdê-la.
— Não digas isso! Tenta perceber. — Abanou a cabeça. — Tu não mereces passar por isto, Daniel. Não tenho o direito de te arrastar comigo.
— Não achas que me cabe a mim decidir isso?
— Não, não acho! — exclamou com firmeza. Tornou a encarar-me com as lágrimas a aumentarem. — Não quero fazer de ti um viúvo.
Segurei-lhe as mãos, apertando-as com ternura.
— Estou contigo para os bons e maus momentos. — recordei, controlando as lágrimas que teimavam em trair-me. — Nós vamos vencer isto!
Mafalda abanou a cabeça, não acreditava na vitória, vencida pelo pessimismo. Soltou-se das minhas mãos e levantou-se do sofá. Limpou as lágrimas com os dedos.
— Não é negociável, Daniel! — afirmou decidida. — Já liguei à Vânia para me vir buscar.
Incrédulo, confrontei-a com a mais dolorosa das questões:
— Estás a terminar a nossa relação?
— Por favor, Daniel. Isto não é o fim de nada. — retorquiu. — Só preciso de algum tempo para mim... longe de ti.
Senti que ela estava a ser injusta comigo. Magoava-me que a sua decisão para enfrentar a doença fosse afastar-me da luta. Teria certamente muitos argumentos para prosseguir o diálogo, mas arriscava-me a transformá-lo numa discussão. E isso não seria benéfico para o estado debilitado de Mafalda. Acabei por aceder ao seu pedido.
— Posso ao menos telefonar-te para saber como estás? Ou queres cortar totalmente?
Mafalda cortou a distância entre nós e abraçou-me.
— Claro que podes telefonar-me. — Beijou-me o rosto. — Continuo a amar-te, Daniel! Só peço que tenhas paciência e me dês algum espaço.
Vânia chegou meia hora mais tarde. Quando lhe abri a porta, ao ver-me, ela disse:
— Lamento, Daniel...
Abanei a cabeça, revelando que não valia a pena falar disso, e pedi:
— Cuida dela.
Vânia anuiu no momento em que Mafalda saiu do quarto, puxando a mala com as suas coisas.
— O resto pode ficar. — disse, forçando um sorriso. — Para quando eu voltar, amor.
As nossas bocas tocaram-se num beijo sofrido.
— Eu amo-te, Mafalda!
— Eu também te amo, Daniel!
Despedi-me repetindo a mim mesmo que não a estava a perder, apesar de a minha crença nisso ser limitada. Sozinho, autorizei-me à lucidez de analisar a crueldade real de que aquilo poderia significar o fim.
O nosso contacto limitou-se aos telefonemas. Apesar de contrariado, respeitei a sua vontade de me manter afastado. Para desanuviar das amarguras da solidão e da apreensão pelo estado de saúde dela, retomei o ritmo de trabalho anterior, contactando clientes e afogando-me no máximo de projectos que conseguisse.
Mafalda descrevia sempre o seu estado como estando estável, que os médicos estavam esperançosos... Contudo, não me deixei enganar, ela estava a tentar esconder-me a realidade dos factos. Permiti que me "enganasse" durante algum tempo. Porém, ao fim de duas semanas a ouvir o mesmo, declarei que a conhecia o suficiente para perceber que ela não estava a ser honesta comigo. Houve um impasse nesse telefonema. Ouvi-a respirar no outro lado da linha, aguardando até ter a coragem de falar.
— Tens razão, Daniel. Não te estou a dizer verdade. Queres a verdade?
— Claro.
— Achas que consegues lidar com a verdade?
As suas palavras eram cortantes, carregadas de uma raiva que não era dirigida a mim, mas que faziam de mim o seu alvo naquele momento.
— Diz, Mafalda.
— Os tratamentos não estão a fazer efeito.
— Mafalda... — O seu soluçar interrompeu o diálogo. — Mafalda?
— Estou a... a... a morrer, Daniel.
— Mafalda... — Foi a minha vez de soluçar. Não o consegui evitar, nem esconder-lhe que também chorava. — Vou aí ver-te.
— Não! Não venhas! Não quero!
— Mafalda...
— Por favor, Daniel. Se me amas, não venhas.
— Mafalda, não tens o direito de me afastar assim.
— Não consigo encarar-te, no estado em que estou. — confessou. — Perdoa-me, meu amor! — E desligou.
Não a forcei a uma visita minha. Nos dias que se seguiram, tentei telefonar-lhe algumas vezes, mas ela nunca me atendeu. Pronto, se era isso que ela queria, não a contrariaria. Optei por lhe mandar mensagens a perguntar como estava e a reafirmar o meu amor. Ela respondia sempre com "na mesma" e sem qualquer retribuição de afecto.
Para minha surpresa, no início de Dezembro, foi Mafalda quem me ligou. Para ser sincero, ao ouvir o telemóvel com o número dela a tocar, temi o pior. Felizmente não se confirmou o meu receio. O seu telefonema trazia novidades que envolviam uma esperança retemperada. Nos Estados Unidos surgira um tratamento inovador, ainda em fase experimental, que poderia significar uma cura. O tratamento estava numa fase muito embrionária e o médico de Mafalda desaconselhou-a a tentar, ainda para mais tendo em conta a longa viagem para alguém no seu estado. Só que ela não queria saber, pois qualquer centelha de esperança era melhor que ficar à espera da morte.
A sua voz, mesmo ferida pelo desgaste, revelava a esperança, apesar de a taxa de sucesso ser inferior ao mínimo exigível a uma verdadeira esperança. Mesmo assim, partilhei da sua expectativa.
— Eu vou contigo. — ofereci-me decidido.
— Não, Daniel. — recusou. — A Vânia vai comigo.
— Por favor, Mafalda. — pedi, quase implorei. — Deixa-me ir contigo. Quero estar perto de ti. Quero acompanhar-te...
— Não, Daniel. Por favor, não insistas. Já decidi. — Suspirou, revelando todo o cansaço. — Não há garantias de nada. Aliás, as hipóteses são relativas. Fica cá. Prometo que, se tudo correr bem, voltarei para ti com o mesmo amor e paixão de sempre.
— Mafalda...
— Vamos falando.
Mais uma vez, Mafalda insistia em manter-me afastado do seu sofrimento, escolhendo Vânia para a auxiliar. As duas partiram para Seattle a meio do último mês do ano, acompanhadas pelos pais de Mafalda.
Devido à diferença horária, aos horários dos tratamentos dela e do meu trabalho, raramente foi possível falar ao telemóvel ou pela Internet no Messenger. Assim, as nossas conversas ficaram limitadas às mensagens de email. Só houve telefonemas no Natal e na dobragem para o Novo Ano.
No início de Janeiro, Mafalda deixou de dar notícias...
Ao longo de todo o período desde que fora para os Estados Unidos, Mafalda fora muito superficial nos relatos que fazia nos emails. Eu não sabia onde ela vivia, não me dissera o nome do hospital, pouco descrevia os tratamentos... Era sempre tudo muito vago. Mesmo nos únicos telefonemas que conseguimos partilhar, ela pouca informação passou, sendo sempre muito cuidadosa com o nível de esperança que me poderia transmitir. Repetiu muitas vezes que a duração da estadia era incerta e o processo de evolução do tratamento inconstante. Resumindo, eu não sabia quase nada do que se estava a passar lá. Como também não tinha mais nenhum contacto para além do telemóvel de Mafalda, não conseguia saber nada, pois cada vez que tentava ligar obtinha o sinal de desligado.
Fiquei desesperado por não saber nada, por não receber qualquer notícia, qualquer desenvolvimento. Que poderia ter acontecido para, de um momento para o outro, Mafalda se ter evaporado? Temi o pior. Contudo, não quis acreditar que se o desfecho tivesse sido fatal, pelo menos Vânia não me contasse. E soube que tinha razão, três semanas mais tarde...
Fora um dia complicado, acho que todos os dias se tornavam complicados nos últimos tempos. A noite caíra por completo, quando cheguei de mota à rua onde vivia. Estacionei no lugar do costume e retirei o capacete, antes de desmontar. O cansaço pesava-me no corpo, mais que o habitual. Sabia que o desgaste era mais psicológico que físico, perante a ausência de notícias da mulher que amava.
— Daniel! — ouvi uma voz chamar. Estava escuro e os candeeiros da rua não iluminavam o suficiente. — Daniel! — Percebi que era uma voz feminina. Olhei em volta e vi um vulto sair de um carro estacionado alguns metros mais abaixo.
Não a reconheci, levantando a mão para sinalizar que ouvira. O vulto feminino saiu da sombra, afastando-se do carro e caminhou na minha direcção. Assim que a luz a iluminou, reconheci Vânia.
O coração começou a bater com força. Saí da mota e permaneci impávido a vê-la aproximar-se. Vânia trazia um fato escuro e um casaco comprido quente. O rosto mantinha-se fechado e uma das mãos lutava para manter os cabelos em ordem.
— Daniel... — suspirou, sem saber muito bem o que dizer a seguir.
Eu tinha mil e uma perguntas, mas não conseguia verbalizar nada. Talvez adivinhasse o que aí vinha, talvez tivesse ficado bloqueado por finalmente voltar a ter notícias. Só consegui dizer:
— A Mafalda?
Vânia abanou a cabeça.
— Lamento, Daniel.
O capacete caiu-me da mão. As lágrimas invadiram-me os olhos e turvaram-me a realidade envolvente. A dor da perda foi tão forte que perdi a força nas pernas e caí de joelhos, a chorar compulsivamente. Vânia baixou-se junto de mim e abraçou-me.
— Lamento, Daniel. — repetiu. — Lamento ter de te dar a notícia.
Continuei sem conseguir dizer nada, a dor era insuportável. Queria gritar, queria partir tudo, queria morrer... Porém, fiquei apenas a chorar como uma criança perdida nos braços de Vânia.
Não sei explicar o que aconteceu depois, penso que o choque me apagou alguns momentos da memória. Só me lembro de estar sentado no sofá da minha sala com Vânia a entregar-me um copo de água e a sentar-se numa cadeira. Aos poucos, o choro diminuiu e parei de soluçar.
— Conta-me o que aconteceu. — pedi, vendo que ela também tinha os olhos húmidos.
— O tratamento não resultou.
— Sim, isso já percebi. — retorqui com raiva. — Mas, o que aconteceu? Porque é que ela deixou de dar notícias? Porque é que desligou o telemóvel? Porque é que nunca mais escreveu um email? Porque é que...
— Não sei, Daniel. — respondeu com calma. — Não te sei responder. Apenas te posso dizer que a Mafalda teve de fazer uma cirurgia muito delicada. Conhecia os riscos e aceitou corrê-los. As hipóteses de êxito eram escassas.
— E quando foi isso?
— Há cerca de duas semanas.
A estupefacção cravou-se no meu rosto. levantei-me irritado.
— Duas semanas? DUAS SEMANAS? E só agora é que me contas?
— Tem calma. Deixa-me explicar.
— E o funeral? Quando é? Não me digas que já foi...
O seu silêncio foi a confirmação.
Cravei os olhos nela, preparado para lhe descarregar mais fúria verbal. Como poderiam ter-me deixado assim de lado, todo aquele tempo?
Vânia insistiu que me voltasse a sentar.
— A Mafalda deixou algumas vontades expressas, caso as coisas não corressem bem. — prosseguiu. — Queria ser cremada e queria sê-lo lá. Não queria que a transportassem de regresso a Portugal. Quis também que as suas cinzas fossem largadas ao vento, num lugar bonito em Seattle, onde ela chegou a passear algumas vezes.
— Quer dizer... — interrompi. — Nem sequer há um sítio onde me possa despedir dela.
— Lamento, Daniel. Foi a sua vontade.
— E porque é que não me avisaram do funeral? Eu podia ter ido aos Estados Unidos.
— A Mafalda não queria, Daniel. — explicou. — Sempre te quis poupar o máximo de sofrimento.
— Ela sempre quis foi afastar-me da vida dela.
— Não digas isso. Estás a ser injusto. — Encolhi os ombros. Que interessava isso agora? — Pediu-me que te desse a notícia pessoalmente, quando regressasse a Portugal. Eu cheguei ontem à noite, ainda estou com as horas todas trocadas. Mas, não podia deixar-te na ignorância por mais tempo.
Abanei a cabeça. No pior dos cenários que pudesse imaginar, aquele desfecho era ainda mais horrível.
— Desculpa! Eu talvez tivesse agido de outra forma. — esclareceu, levantando-se da cadeira. — Mas, não me cabia a mim ir contra a vontade dela.
— Eu sei. — concordei, menos irritado. — Tu não tens culpa.
Vânia esboçou um sorriso triste.
— Olha, tenho de ir. Ficas bem? — Eu fiz uma expressão interrogando como era possível ficar bem depois daquilo. — Precisas de alguma coisa?
— Não, obrigado.
Ela pegou numa caneta e num pedaço de papel, escreveu nove algarismos e entregou-mo.
— É o meu número. Se precisares de alguma coisa. Ou se quiseres falar... Podes ligar-me.
Agradeci-lhe, acompanhando-a à porta. Contudo, não sentia o mínimo interesse na sua companhia, na sua ajuda, em nada que viesse do mundo de Mafalda. Estava magoado, ferido pela perda, destroçado pela forma como fora excluído, fatalmente marcado por um ciclo que se quebrara violentamente sem oportunidade de algo tão simples como... uma despedida.
Regressei à sala, despenhando-me no sofá. Já não tinha lágrimas para chorar e questionava-me se Mafalda as merecia. Só que eu não controlava o coração e tinha um fraco jeito para lidar com as emoções. Por isso, continuava a amá-la... a amar a memória que tinha dela. Os meus olhos vaguearam pelo espaço, estacionando em pequenos pormenores que haviam sido responsabilidade de Mafalda, do tempo em que vivíamos oficiosamente juntos. Fechei os olhos, autorizando-me a sofrer com a recordação do primeiro beijo dado naquele mesmo sofá. Lutara tanto para a ter na minha vida, pelo seu amor. Conseguira vencer as suas defesas para que me deixasse amá-la, ser e fazê-la feliz... Para depois tudo se perder com a merda de um tumor. Malvada doença que pela segunda vez me tirava alguém tão importante da minha vida. Não era justo. Olhei para cima e disse:
— Não é justo! Tu não És quem eu acreditava que Eras. Hoje perdi toda a minha fé em Ti.
Mafalda partia deste mundo antes de chegar aos trinta e um anos e, com a sua morte, terminava a escala que fizera a meu lado, na minha vida.
fim do conto IV