IV
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Por vezes, os animais surpreendem-nos, revelando-se mais humanos que os próprios humanos. Tio sentiu de imediato a minha mágoa pela partida de Kátya, tornando-se mais melosa e vindo deitar-se no meu colo, sempre que me sentava no sofá. Era quase como se dissesse "eu estou aqui e nunca te deixarei sozinho".
Peter estava a viver uma época diferente, conhecera um manequim dinamarquês quase vinte anos mais novo e vivia um tórrido romance com este. O jovem era visita assídua do apartamento e nunca me senti constrangido por os ver aos beijos ou saber que algumas vezes ele passava a noite lá.
Jewel ficou algum tempo sem dar notícias, levando-me a pensar que a nossa amizade chegara ao fim. Não estava na disposição de a perder com essa simplicidade, daí que, aproveitando o afastamento de Kátya, resolvi escrever um email a relatar-lhe o sucedido. Jewel lamentou que isso tivesse acontecido e desejava que de alguma forma a situação revertesse. A resposta demorara alguns dias, mas veio com o reactivar da nossa troca de mensagens.
Trocámos mensagens semanalmente até se tornar quase diário, como se retomássemos os primeiros tempos, quando eu trabalhava na loja e ela estudava para ser médica. Nunca havia hipótese de termos uma conversa pelo Messenger, mas através das mensagens de email íamos pondo o outro a par do dia a dia.
Perto do Outono, Jewel revelou como estava entusiasmada em engravidar. Tanto ela como o marido queriam ser pais e, apesar de serem jovens médicos, não pretendiam adiar esse objectivo. Jewel esperava dar-me a boa nova até final desse ano. O Natal chegou, mas a troca de desejos de uma quadra feliz não veio acompanhada por notícias da cegonha.
Os meses do novo ano avançaram. Em quase todas as vezes que nos correspondíamos, ela partilhava a sua preocupação por não engravidar. Na Primavera, confirmou algo que eu já suspeitava. Sem me avançar muitos pormenores, Jewel confidenciava que tinha um problema de infertilidade e que juntamente com o marido haviam tomado a decisão de iniciar um tratamento de fertilidade numa clínica especializada, em Lisboa.
Não seria difícil imaginar o quanto estaria a ser complicado para ela tudo aquilo. Desde que a conhecera que sabia o quanto ela desejava ser mãe, o quanto adorava crianças, como sonhava ter um casal de filhos. Pelo amor que lhe tinha, torcia sinceramente para que o tratamento de fertilidade fosse um sucesso.
A nossa troca de mensagens acabou também por ser um escape para ela, ter alguém com quem falar sobre o processo, sobre as esperanças, os receios, os encargos, enfim... Não era fácil. Tinha de ter esperança, paciência e disponibilidade financeira, pois era bem caro.
Entretanto, em Edimburgo, o trabalho corria sobre rodas.
Peter, como grande amigo que era, preocupava-se com a minha solidão. Desde que perdera Kátya, deixei de ter passatempos ou ocupar o tempo livre com alguma diversão. Tirando a troca de mensagens com Jewel, limitava-me a ficar por casa a ver televisão ou ler sobre material fotográfico. Só saía para resolver algum assunto ou quando era convidado para jantares com os amigos de Peter.
— Precisas de uma namorada. — dizia-me ele várias vezes.
Eu mostrava-me desinteressado sem explicar que aquela que queria para namorada estava casada e vivia em Portugal.
No final do primeiro semestre do ano, Peter iria a Paris para fazer reportagem fotográfica de um evento mundial de moda. E eu fui com ele.
Aterrámos no Aeroporto Charles DeGaulle num dia quente de chuva. Carregando o equipamento connosco, entrámos num táxi e seguimos para a cidade. O trânsito em Paris estava caótico e foi desesperante chegar ao Quartier Latin e ao nosso hotel.
O evento de moda iria ter lugar no majestoso Grand Palais de Paris, um luxuoso edifício situado entre os Campos Elísios e o Rio Sena, integrante do grupo arquitectónico que englobava o Petit Palais e a Ponte Alexandre III. Era impossível não ficar abismado com a magnitude interior e os seus telhados de vidro. A organização montara um palco em forma de T que acompanhava o desenho dos tectos, pretendendo aproveitar a luz natural para o desfile. Em volta do palco, centenas de cadeiras para os convidados. Existia igualmente um sector para a comunicação social e para os fotógrafos que quase se acotovelavam para obter a melhor foto. Foram convidados estilistas de renome mundial e os modelos mais bem cotados do mercado. Era um mundo de opulência, requinte, luxo e despesismo.
Peter e eu posicionamo-nos em ângulos diferentes, de forma a obter o maior conjunto de variações fotográficas que nos fosse possível. Basicamente, ele captava o desfile numa direcção e eu na oposta. Não me dera ao trabalho de saber quem eram as figuras que iriam desfilar na passerelle, por isso, fui surpreendido por um rosto conhecido e inesquecível.
Tânia surgiu deslumbrante, ofuscando as parceiras e tirando proveito do lugar de destaque que o estilista lhe concedera, uma vez que a manequim portuguesa era uma das mais famosas. Continuava loura com o cabelo comprido pelos ombros e a franja cortada muito certinha sobre as sobrancelhas. Vestia uma criação composta por um casaco só com uma manga e umas calças só com uma perna. Meu Deus, pensei, quem é que vestiria na rua uma coisa daquelas? Caminhava como se flutuasse, mesmo que fizesse aquele movimento característico dos desfiles de moda em que todas parecem desengonçadas.
Quando a mostra de criações daquele estilista terminou, todos os homens e mulheres que desfilaram entraram em simultâneo, perfilando-se em linha para uma última passagem pelo palco. No momento em que Tânia passou perto de mim, acenei-lhe. Ela viu, mas não reagiu. Porém, três passos depois, no regresso, olhou para trás e franziu o rosto para mim num "Será possível? Serás tu?" No entanto, rapidamente retomou o sentido e ignorou quem ficara para trás.
Tivemos mais duas horas de manequins a mostrar os trabalhos dos estilistas, roupas que iam do clássico aos exemplos mais estapafúrdios que alguma vez vira alguém vestir. Tânia voltou a surgir na passerelle, mas não tornou a olhar para mim.
No final, os convidados começaram a dispersar, abandonando as suas cadeiras, deixando o espaço para os profissionais que tinham de arrumar os equipamentos. Eu era um deles, concentrado em acomodar as máquinas e acessórios nas respectivas malas.
Um homem de traje elegante e identificado como sendo da organização, aproximou-se de Peter.
— Monsieur Daniel?
Peter abanou a cabeça, dizendo algo em francês, e apontou para mim.
— Monsieur Daniel?
— Oui. — respondi com uma das únicas cinco ou seis palavras em francês que conhecia. O homem começou a debitar frases na sua língua. Fiz-lhe sinal que parasse. — In english, please.
Com forte sotaque francófono, o funcionário solicitou em inglês que o acompanhasse. Segui-o ao longo do palco, contornando um dos cantos até alcançarmos o acesso por onde os modelos entravam na passerelle. Passámos pelo acesso aos bastidores e deparei com a cacofonia de vozes de imensa gente numa azáfama confusa. O homem indicou-me que aguardasse perto do sector dos camarins e prosseguiu sozinho.
Aguardei alguns minutos até ao momento em que vi Tânia sair de um dos camarins com o indivíduo que me fora buscar. Ele apontou para mim e o olhar dela cruzou-se de imediato com o meu. Vestida com um robe escuro de seda, ela sorriu e veio ter comigo.
— És mesmo tu. — constatou com satisfação. — Olá Daniel! Que fazes aqui?
Recebi os dois beijos na face que me ofereceu e respondi:
— Sou fotógrafo. Vim fotografar o evento.
— Que bom ver-te! — exclamou entusiasmada. — A sério, gosto muito de te rever.
— Também é bom voltar a ver-te, se bem que eu te tenho visto, acompanhado a tua carreira.
— Foste responsável por ela. — recordou.
Abanei a cabeça.
— Tu é que és responsável por teres chegado onde chegaste.
Tânia já não era a rapariga linda de dezassete anos, era uma mulher deslumbrante de trinta e um anos, recentemente considerada uma das dez top-models mais bonitas do Mundo. Recordei com saudade o tempo em que fora minha namorada, aqueles poucos meses em que fui o rapaz mais invejado da escola.
Lá atrás, no meio das pessoas que circulavam em todas as direcções, alguém a chamou. Tânia voltou-se e acenou que iria num minuto. A seguir, tornou a olhar para mim. Conseguia descodificar-lhe um genuíno agrado por me rever.
— Gostava de falar mais contigo, Daniel. Estás ocupado amanhã?
— A que horas?
— Ao fim da tarde?
— Não. Não tenho nada marcado.
— Queres jantar comigo? Podemos encontrar-nos no hotel onde estou hospedada.
— Sim, claro. — concordei, surpreendido pelo convite.
Tânia pediu um papel e uma caneta a um assistente. Escreveu nele o nome do hotel e o número do seu telemóvel privado.
— Às sete e meia, ok? — agendou. Não poderia ser muito mais tarde, pois os franceses gostam de jantar com o pôr-do-sol, mesmo no Inverno. — Quando chegares ao hotel, liga-me que eu desço.
Apesar de nunca ter andado nos transportes de Paris, o metropolitano revelou-se de fácil orientação, sendo simples ir de Saint-Michel até à Place de la Concorde. O hotel não ficava muito longe dali.
O fim de tarde estava quente, sentindo-se uma brisa leve. Caminhei pelo passeio com a banda sonora de carros e buzinadelas do trânsito parisiense. Tânia estava hospedada num dos melhores alojamentos de Paris. Só a fachada intimidava, parecendo mais uma entrada de museu que um hotel. Passei pelo porteiro, o qual me olhou com altivez. Ignorei e entrei.
O átrio era luxuoso, todo em tons dourados com um balcão comprido em pedra mármore, onde dois funcionários atendiam dois hóspedes com aspecto de quem se assoava a notas de quinhentos euros. Segui até às poltronas e sentei-me. Confesso que me senti algo pelintra no meio daquele cenário. Peguei no telemóvel, faltavam dez minutos para a hora combinada, e fiz a chamada.
Tânia pediu que aguardasse, pois iria descer. Passados cinco minutos, vi-a surgir da zona dos elevadores. A sua imagem foi como uma seta de excitação que me provocou um choque. Caminhando com elegância em sapatos de salto alto, Tânia trazia um vestido muito justo verde-marinho, que começava em volta do pescoço, deixando-lhe os ombros nus, descia pelo seu corpo a contornar cada curva e terminava numa saia muito curta, revelando-lhe as fabulosas pernas. Parou junto de mim, beijou-me a face e indicou que a acompanhasse.
O jantar seria num dos restaurantes do hotel. Tânia circulou como se conhecesse cada canto e era reconhecida pelos funcionários que a tratavam com enorme formalidade. Para meu espanto, ela falava francês.
O espaço mantinha o luxo, mas a cor ambiente era diferente, uma mistura de brancos, cinzas e pretos. As paredes eram espelhadas, dando uma sensação maior ao local, as janelas grandes permitiam a entrada do crepúsculo e o tecto era iluminado por focos de luz branca. O empregado que nos recebera, conduziu-nos até uma das mesas quadradas ao canto, onde duas cadeiras pretas ao estilo de poltronas nos foram apontadas. Sentámo-nos, tendo o funcionário acomodado a cadeira de Tânia, e recebemos a ementa impressa num papel rugoso de alta qualidade com todas as letras escritas num tipo de letra desenhado, quase como se tivesse sido manuscrita em caligrafia de pintor. Observei a toalha branca de linho com os pratos de porcelana contornados a ouro, os talheres de prata e os copos de cristal.
— Sinto-me intimidado com tanta riqueza. — confidenciei, segurando a ementa.
Tânia sorriu, dizendo:
— Pensei que ias dizer que estavas intimidado por estares comigo.
— Não. — neguei, retribuindo o sorriso. — Já passei essa fase.
— Já não te intimido?
— Não.
O empregado voltou e tomou nota dos nossos pedidos.
— Estás diferente. — constatou, analisando-me.
— Sim, estou catorze anos mais velho, desde que estivemos juntos.
— Não é isso. Tornaste-te um homem mais confiante.
— Achas? Sinto-me a mesma pessoa. — Ela franziu o rosto, percebendo que estava a mentir. — Tu continuas igual. Linda!
Tânia fez um ar falsamente envergonhado.
Serviram-nos um copo de champagne para aperitivo. Fizemos um brinde e saboreamos o líquido cuja garrafa custaria algo na casa dos três dígitos.
— Nunca mais falei com ninguém dos tempos da escola. — relatou, pousando a flute. — Nem com a Raquel, nem com a Sofia. — A informação surpreendeu-me, eram as suas melhores amigas. — Naquele tempo, não era como hoje, não tínhamos a Internet. Bem viste como foi connosco, durou...
— Seis meses.
— Pois...
Sorri-lhe como quem desvaloriza o assunto.
— Não teria durado muito mais, se houvesse Internet. Tu estavas nos Estados Unidos, eu em Portugal. Mais tarde ou mais cedo, acabaria. Acho até que foste muito mais lúcida que eu, nessa altura.
— Podes não acreditar, mas custou-me.
— Eu sei que sim, Tânia. Também me custou a mim.
As entradas foram colocadas na mesa, cogumelos salteados que me pareceram mais uma amostra de produto.
— Como é que foi o resto da escola? Aquele tipo... como se chamava ele? O que passava a vida a chatear-te?
— O Tiago?
— Sim. Ele continuou?
Encolhi os ombros, negando com irrelevância.
Tânia provou um cogumelo, mastigou com uma classe trabalhada ao longo dos anos e limpou os lábios com o guardanapo de pano em tecido idêntico ao da toalha. A seguir, bebeu um pouco do vinho tinto escolhido para a refeição, um Pinot noir. Pousou o copo e olhou-me com curiosidade, perguntando:
— Quem foi a minha sucessora?
— Sucessora?
— Sim. Com quem namoraste na escola depois de acabarmos?
— Não voltei a namorar durante uns tempos. — respondi, perante o seu semblante descrente.
— Dedicaste-te aos estudos. — tentou adivinhar num tom irónico.
— Tentei, mas falhei. Não entrei na Universidade. Depois disso fui trabalhar para ajudar nas contas da casa.
Tânia pareceu recordar-se de algo.
— O teu tio? Gostava muito dele, sempre me tratou com enorme simpatia. Então, quando começámos a namorar, fazia-me sentir como se fosse da família.
Calculo que o meu rosto se tenha ensombrado.
— Faleceu há quase nove anos.
— Lamento muito, Daniel. — retorquiu, sentida.
— E a tua avó?
— Ainda é viva, felizmente. — respondeu com um brilho no olhar. — Está quase com noventa anos. Vive em Portugal com os meus pais.
Outro empregado veio recolher os pratos vazios.
— E quem foi o meu sucessor?
Tânia revelou surpresa com a questão. Sorriu divertida.
— Foi um manequim italiano, oito anos mais velho que eu. Mas, isso só aconteceu, tinha eu vinte.
— Foi ele o primeiro? — Tânia anuiu com naturalidade. — Vais rir-te quando te contar quem foi a minha primeira. — Percebi a súbita curiosidade no seu rosto. — A Francisca.
— O quê? — questionou incrédula. — Disseste que não voltaste a namorar na escola.
Chegaram os pratos principais, uma salada de camarão e muitas verduras para ela, uma amostra de bife com cheiro de arroz para mim. Nos minutos que se seguiram, relatei-lhe como reencontrara a nossa antiga colega, como nos aproximámos e a vida em comum até à separação.
— Ainda vives em Almada?
— Estou há três anos a viver em Edimburgo com o meu sócio e amigo. Foi ele quem me ajudou a tornar-me fotógrafo. Viemos ambos a Paris.
— Eu continuo a viver em Nova Iorque, apesar que é mais o tempo que estou fora que em casa. Tenho uma agenda de loucos, trabalhos atrás de trabalhos. — Suspirou, denotando cansaço. — É uma carreira curta, é quase como a de futebolista. Temos de amealhar ao máximo, enquanto estamos no auge. Amanhã à tarde viajo para Milão, onde vou desfilar, depois tenho uma sessão de fotos em fato-de-banho em Bali, a seguir vou para um evento em Moscovo, enfim... Não paro.
— Eu regresso a Edimburgo, depois de amanhã. Felizmente, também estamos com muito trabalho. Essencialmente são sessões de estúdio.
Tânia lançou-me um semblante cúmplice.
— Imagino que tenhas muito sucesso com as modelos que fotografas.
— Não esse sucesso que estás a pensar.
— Vais querer que acredite que...
— Vou porque é verdade.
Ela fingiu acreditar, terminando a última garfada. Tornou a limpar os lábios e disse:
— Eu tenho um... amigo. Um amigo fotógrafo, vive em Los Angeles. Sempre que temos oportunidade, encontramo-nos para uma sessão. Gosto muito do trabalho dele, gosto da forma como me capta. — Fez uma pausa, olhando-me de forma analítica. — Fazemos sexo, sempre que estamos juntos.
— E por isso achas que também o faço com as raparigas que fotografo... — constatei num lamento. Não era raro que tivessem aquela impressão sobre mim. Aliás, já fora assediado por algumas. Porém, tal como me ensinara Peter, nunca misturava o trabalho com prazer.
A forma como ela falou no assunto, criou-me uma suspeita que coloquei sem rodeios:
— Ele não é o teu namorado, pois não?
Tânia abanou a cabeça devagar, mordiscando o lábio, comprometida.
— Namoro com um empresário canadiano. Já dura há algum tempo, aparecemos juntos em muitos eventos. Não me admirava que me pedisse em casamento.
— E o tipo de Los Angeles, sabe?
— Claro. — confirmou. — Da mesma forma que eu sei que não sou a única que ele f... Desculpa. Tu percebeste. — Assenti, um tanto ou quanto decepcionado. — E tu? Alguém especial?
— Não. Actualmente estou sozinho. — respondi, pensando que o actualmente ia em vários anos, descontando a relação com Kátya.
— Ninguém em vista?
Sim, há uma mulher por quem sou perdidamente apaixonado que vive em Portugal e é casada. Claro que não lhe contei isto, limitando-me a dizer:
— Não.
Para finalizar, foi servida uma taça com três pedaços de fruta a cada um. Mais uma vez, no meio de tanta riqueza, o chef parecia estar a racionar a dispensa.
— Como tem sido viver em Edimburgo?
— Gosto muito. Foi amor à primeira vista, adorei desde que saí do avião.
— Curiosamente, a Escócia é dos poucos países onde nunca fui.
— Se um dia fores, espero que me faças uma visita.
O jantar terminou com um café. E no momento da conta, vendo-me pegar na carteira, Tânia travou-me:
— Tenho as despesas todas pagas pela organização, Daniel. Não te preocupes. — Olhou para a janela. — Deve estar uma bela noite. — Encarou o meu rosto. — Apetece-te caminhar?
Saímos do hotel para uma rua quase deserta. A noite estava amena e nem a brisa do fim de tarde se fazia sentir. A figura deslumbrante dela não passou despercebida a nenhuma das pessoas com quem nos cruzámos, no nosso percurso entre a edifício e a margem do rio Sena. Parámos perto do muro que se estende ao longo das margens e debruçámo-nos a observar.
Paris, a Cidade da Luz, tinha o tráfego de carros bem mais calmo àquela hora. Na nossa frente, o rio corria com tranquilidade, passando por baixo da Pont de la Concorde. Atrás de nós, oposto à ponte, o Jardin de Tuileries que se estendia bem longe até ao Louvre.
— Gosto muito de Paris. — confidenciou. — É a primeira vez que cá vens?
— É.
— Eu já lhe perdi a conta. Por ano, devo vir cá umas quatro ou cinco vezes.
Ambos olhávamos a margem oposta com o Palais Bourbon fortemente iluminado. Na margem, um dos barcos de passeio turístico ficara estacionado, já sem ninguém. Sem darmos por isso, estávamos encostados ao braço do outro.
— Tens saudades do tempo de escola? — questionou do nada.
— Não. Apenas do tempo em que namorámos.
Ela olhou para mim.
— Tens saudades de quando namorámos?
A pergunta soou a algo fora do comum.
— Claro. Parece-te estranho? Foste a minha primeira namorada.
— Não, não é estranho. — concordou, voltando a encarar o rio. — Também sinto saudades dessa época. A vida era bem mais simples.
— Não sei que dirás, se te disser que ainda guardo as fotografias que tirámos naquela máquina de foto num minuto, aquelas tipo passe.
— A sério? — inquiriu admirada, virando o rosto e revelando alguma emoção. — Isso é tão querido da tua parte. — Sorri, quase envergonhado por ter partilhado aquilo. — Tu sempre foste muito querido.
— Tu para mim eras uma preciosidade. Até me custava a acreditar que eras minha namorada, a rapariga mais linda da escola.
— Isso também era um exagero.
— Não sejas modesta. Sabes bem que eras.
Ela concordou.
— Mas, tu eras muito querido. Os teus beijos, a forma como me tocavas. — Olhou-me com uma mistura de cumplicidade e vergonha. — Se tivesses arriscado, talvez tivesse acontecido.
— O quê?
— Tu sabes, Daniel. Talvez tivéssemos feito amor.
Não consegui evitar rir com a revelação.
— Tínhamos dezassete anos, Tânia.
— E então? A Raquel perdeu a virgindade com catorze, a Sofia com dezasseis. — Fiquei sem palavras. — Tu fazias-me sentir tão segura, acho que teria acontecido, se tivesses tentado.
— Pois... — suspirei, lamentando não ter sabido aquilo catorze anos antes. — Eu tinha receio de fazer algo que te desagradasse. Se te recordas, nunca sequer nos despimos na frente um do outro.
Tânia riu divertida.
— Sim, mas lembro-me que gostavas de me apalpar as mamas, quando me beijavas.
— Sim, mas sempre com roupa pelo meio. — recordei num tom de quase reclamação, virando costas ao rio e ficando a olhar para a roda gigante na praça.
Tânia endireitou-se, virando o corpo para mim. A fragrância do seu perfume chegou-me ao nariz. Olhei para ela, deixando-me hipnotizar pelos seus olhos verdes, em silêncio, vendo-os baixar dos meus para a boca. De forma inesperada, apagou o espaço entre nós e beijou-me os lábios. Não foi um beijo fugaz, foi um encontro de bocas, um matar saudades de outros tempos. Os seus braços envolveram-me o pescoço, os meus fecharam-se na sua cintura. Saboreei o aroma da sua língua, a frescura do seu hálito.
Para ser uma réplica dos beijos de namoro, as minhas mãos teriam de subir para o peito. Só que nós já não tínhamos dezassete anos. Nem namorávamos. Éramos dois velhos conhecidos, dois trintões, dois adultos com muito mais experiência de vida, um homem e uma mulher que, de repente, se beijaram.
Tão repentina como avançara para o beijo, ela afastou-se. Encarou-me segura. Não havia culpa nem vergonha no seu rosto, aquilo fora natural. Fiquei sem saber o que dizer. Tânia fê-lo por mim:
— Para matar saudades. — Retirou o telemóvel da malinha para ver as horas. — Já é tarde. É melhor voltar ao hotel.
Confesso que fiquei perplexo com a cena. E nem sei se me choquei mais com o beijo ou com a forma natural como ela encarou aquilo, quase ao género de um beijo na boca ser tão comum como dizer "bom dia".
Percorremos o caminho inverso até ao hotel em silêncio. O trajecto pareceu-me muito mais curto. Penso que nos deixámos abater pela eminente separação que findaria aquele encontro. Numa outra realidade, numa conjuntura de vidas diferentes, acredito que nos podíamos ter amado verdadeiramente e constituído um casamento e filhos. Não duvidava que era especial para si, quase tanto quanto ela era para mim.
Diante da fachada do hotel, chegava o momento do "até um dia" que poderia acontecer daí a bem mais que catorze anos. Parámos. Tânia colocou-se na minha frente, olhos verdes nos meus olhos, a franja certinha a mover-se suavemente sobre as sobrancelhas, atiçada pelo regresso da brisa nocturna. Pensei em dizer algo que nos permitisse manter em contacto...
— Queres subir? — convidou com um sorriso terno.
— Subir? — repeti, meio confuso.
— Sim. — confirmou, acariciando-me a face. — Queres subir comigo?
Fiquei tão surpreso que questionei estupidamente:
— Para quê?
Tânia quase deu uma gargalhada.
— Para que achas que é? Ver televisão? — Adoptou um tom mais sério, sedutor. A sua mão deslizou pelo meu peito. — Queres fazer amor comigo esta noite?
Caraças! Não podia ser mais explícita. Ouvi-la dizer aquilo provocou-me um arrepio na espinha, um arrepio de excitação.
— Claro que sim.
Entrámos no edifício perante o olhar subserviente do porteiro para ela. Atravessei o átrio a seu lado, constatando os olhares dos homens com quem nos cruzávamos, deslumbrados com a imagem da manequim portuguesa que fazia furor nas passerelles um pouco por todo o mundo. Entrámos no elevador, subindo na companhia de um homem de negócios que segurava uma mala e olhava de soslaio para as pernas de Tânia. Enquanto subia, questionava-me se ela não temia que aquela noite chegasse aos ouvidos do namorado. Bom, não interessava, não era problema meu.
Segui pelo corredor, um passo atrás dela, até alcançarmos a porta do seu quarto. Tânia deslizou o cartão-chave pelo sensor e a porta abriu. Avançou para o escuro e acendeu a luz. Passei a entrada, vendo-a fechar a porta. Caminhou até mim e tornou a envolver-me o pescoço com os braços, ao que eu repliquei com os meus à volta da sua cintura. Beijámo-nos com paixão e excitação.
Tânia interrompeu o beijo. Virou-se de costas, puxou o cabelo louro para a frente e indicou-me o fecho do vestido atrás. Segurei a presilha, ao mesmo tempo que lhe beijava o pescoço, e corri-a até à cintura. Mordisquei-lhe a orelha, afastando as abas do vestido pelos ombros. O tecido caiu para a frente, pendurado na minissaia, deixando o seu tronco somente com um sutiã sem alças. Virei-a para mim, observando os seus seios ainda escondidos. Ela tornou a colar os lábios nos meus e, entre beijos, sussurrou:
— O fecho é à frente.
O meu dedo indicador e o polegar tocaram a mola, soltando a peça de lingerie que caiu desamparada no chão. Afastei-me alguns centímetros, quis observá-los com calma, descobrindo-os diferentes que aquilo que imaginara. Tânia tinha seios redondos, perfeitos, mas os mamilos eram cercados por auréolas largas e tinham um relevo mínimo. Não sei porquê, nos meus devaneios, fantasiara dois mamilos imponentes, quais chupetas de biberão.
Tânia pegou na minha mão e levou-me até à cama. Envolveu-me num novo abraço acompanhado de beijos sôfregos. Desta vez, não lhe rodeei a cintura, optando por abarcar nas minhas mãos o seu peito, o que lhe provocou um gemido rouco. Encarou-me o rosto com olhar lânguido e as suas mãos procuraram os botões da minha roupa.
Na manhã seguinte, acordei sem saber muito bem onde estava. Raramente desfrutara de um colchão tão confortável. Tânia dormia tranquila a meu lado com o lençol enrolado na cintura e o peito nu a subir e a descer ao ritmo da respiração. Rodei para o lado contrário, vendo no chão cinco preservativos usados. Na minha mente, repassaram as imagens dos êxtases partilhados noite dentro. Retornei à posição anterior, aproveitando para a observar com calma, saborear o momento em que partilhava a cama com ela... Fora uma loucura, aquela noite fora uma deliciosa loucura. Quando ao fim de seis vezes nos demos por saciados, o céu já apresentava a coloração do início do amanhecer. Estacionei a observação no seu rosto, o cabelo despenteado sobre a face, o seu ar natural sem maquilhagem, os olhos cerrados de quem descansa com enorme tranquilidade, a boca semiaberta... Sorri sozinho, recordando porque não havia um sexto preservativo usado. Aquela boca... Meu Deus.
Tânia despertou lentamente, encontrando-me a contemplá-la.
— Bom dia! — cumprimentou estremunhada. Desviou o cabelo dos olhos e puxou o lençol para cima, numa súbita vergonha pela nudez.
— Bom dia, Tânia!
— Que fazes aí, a olhar para mim?
— Estava a saborear o teu dormir tranquilo.
— Já vais? — indagou, escondida no tecido luxuoso da cama. Não esperou resposta. — É melhor ires andando. Preciso de dormir umas horas, antes de partir.
— Ok. Importas-te que tome um banho antes?
— Claro que não. Mas não te demores, por favor.
A casa de banho não fugia em nada a todo o luxo e requinte do quarto. Tomei um duche rápido e regressei ao quarto para me vestir. Como pensei que Tânia estava a dormir, tentei sair sem fazer barulho, porém...
— Daniel! — chamou ela, por baixo dos lençóis.
— Sim...
— Sabes que isto não vai voltar a acontecer, não sabes?
Sim, eu sabia. Aquilo fora um momento de partilha, de sexo, de completar o ciclo que se suspendera nos nossos dezassete anos. Não me importaria de repetir, mas nem eu nem ela ambicionávamos um regresso do namoro ou qualquer tipo de compromisso. Aquela poderia bem ter sido a única noite de paixão, de entrega total de ambos, algo que o nascer do Sol apagaria da realidade e transformaria numa bonita recordação para mim e, quem sabe, para ela.
O meu regresso a Edimburgo coincidiu com mais uma mensagem de Jewel, dando conta do fracasso da primeira tentativa de engravidar, no seguimento do processo de tratamento de fertilidade a que ela e o marido se haviam sujeitado. Lamentei o facto e respondi-lhe com uma mensagem de esperança que na verdade não desejava.
Se Peter fora o meu professor e quem me dera a mão para entrar no mundo da fotografia e ser fotógrafo, Tânia catapultou a minha carreira. Isto porque, alguns meses depois daquela fabulosa noite, deu uma entrevista em que falou da sua carreira, como começou, quem a incentivara, quem a fotografara e como esse indivíduo, eu, era um excelente fotógrafo. Como devem calcular, ter uma das super manequins internacionais mais bem cotadas do mercado a elogiar-nos, só poderia resultar numa coisa, uma enorme procura pelos meus serviços. Choveram contactos para projectos, inúmeros pedidos de raparigas para irem ao estúdio a Edimburgo para serem fotografadas por mim, ofertas de valores exorbitantes por sessão... Peter ajudou-me, sendo quase meu agente. E eu não esqueci o quanto ele fizera por mim, não abdicando de partilhar todos os meus lucros consigo.
No final desse ano, Jewel voltou a fracassar na tentativa de engravidar. Nas mensagens que trocávamos, começou a fazer confidências acerca do casamento, como se sentia pouco apoiada pelo marido naqueles momentos. Perto da Páscoa do ano seguinte, recebi uma das melhores notícias da minha vida. Sei que é feio dizê-lo desta forma, mas é a verdade. Jewel escreveu-me um longo email a descrever como o marido se afastava progressivamente e a fazia sentir cada vez mais responsável por não engravidar. Após o terceiro fracasso, ele colocara as cartas na mesa com uma exigência muito simples, queria o divórcio.
Peter estava a viver uma época diferente, conhecera um manequim dinamarquês quase vinte anos mais novo e vivia um tórrido romance com este. O jovem era visita assídua do apartamento e nunca me senti constrangido por os ver aos beijos ou saber que algumas vezes ele passava a noite lá.
Jewel ficou algum tempo sem dar notícias, levando-me a pensar que a nossa amizade chegara ao fim. Não estava na disposição de a perder com essa simplicidade, daí que, aproveitando o afastamento de Kátya, resolvi escrever um email a relatar-lhe o sucedido. Jewel lamentou que isso tivesse acontecido e desejava que de alguma forma a situação revertesse. A resposta demorara alguns dias, mas veio com o reactivar da nossa troca de mensagens.
Trocámos mensagens semanalmente até se tornar quase diário, como se retomássemos os primeiros tempos, quando eu trabalhava na loja e ela estudava para ser médica. Nunca havia hipótese de termos uma conversa pelo Messenger, mas através das mensagens de email íamos pondo o outro a par do dia a dia.
Perto do Outono, Jewel revelou como estava entusiasmada em engravidar. Tanto ela como o marido queriam ser pais e, apesar de serem jovens médicos, não pretendiam adiar esse objectivo. Jewel esperava dar-me a boa nova até final desse ano. O Natal chegou, mas a troca de desejos de uma quadra feliz não veio acompanhada por notícias da cegonha.
Os meses do novo ano avançaram. Em quase todas as vezes que nos correspondíamos, ela partilhava a sua preocupação por não engravidar. Na Primavera, confirmou algo que eu já suspeitava. Sem me avançar muitos pormenores, Jewel confidenciava que tinha um problema de infertilidade e que juntamente com o marido haviam tomado a decisão de iniciar um tratamento de fertilidade numa clínica especializada, em Lisboa.
Não seria difícil imaginar o quanto estaria a ser complicado para ela tudo aquilo. Desde que a conhecera que sabia o quanto ela desejava ser mãe, o quanto adorava crianças, como sonhava ter um casal de filhos. Pelo amor que lhe tinha, torcia sinceramente para que o tratamento de fertilidade fosse um sucesso.
A nossa troca de mensagens acabou também por ser um escape para ela, ter alguém com quem falar sobre o processo, sobre as esperanças, os receios, os encargos, enfim... Não era fácil. Tinha de ter esperança, paciência e disponibilidade financeira, pois era bem caro.
Entretanto, em Edimburgo, o trabalho corria sobre rodas.
Peter, como grande amigo que era, preocupava-se com a minha solidão. Desde que perdera Kátya, deixei de ter passatempos ou ocupar o tempo livre com alguma diversão. Tirando a troca de mensagens com Jewel, limitava-me a ficar por casa a ver televisão ou ler sobre material fotográfico. Só saía para resolver algum assunto ou quando era convidado para jantares com os amigos de Peter.
— Precisas de uma namorada. — dizia-me ele várias vezes.
Eu mostrava-me desinteressado sem explicar que aquela que queria para namorada estava casada e vivia em Portugal.
No final do primeiro semestre do ano, Peter iria a Paris para fazer reportagem fotográfica de um evento mundial de moda. E eu fui com ele.
Aterrámos no Aeroporto Charles DeGaulle num dia quente de chuva. Carregando o equipamento connosco, entrámos num táxi e seguimos para a cidade. O trânsito em Paris estava caótico e foi desesperante chegar ao Quartier Latin e ao nosso hotel.
O evento de moda iria ter lugar no majestoso Grand Palais de Paris, um luxuoso edifício situado entre os Campos Elísios e o Rio Sena, integrante do grupo arquitectónico que englobava o Petit Palais e a Ponte Alexandre III. Era impossível não ficar abismado com a magnitude interior e os seus telhados de vidro. A organização montara um palco em forma de T que acompanhava o desenho dos tectos, pretendendo aproveitar a luz natural para o desfile. Em volta do palco, centenas de cadeiras para os convidados. Existia igualmente um sector para a comunicação social e para os fotógrafos que quase se acotovelavam para obter a melhor foto. Foram convidados estilistas de renome mundial e os modelos mais bem cotados do mercado. Era um mundo de opulência, requinte, luxo e despesismo.
Peter e eu posicionamo-nos em ângulos diferentes, de forma a obter o maior conjunto de variações fotográficas que nos fosse possível. Basicamente, ele captava o desfile numa direcção e eu na oposta. Não me dera ao trabalho de saber quem eram as figuras que iriam desfilar na passerelle, por isso, fui surpreendido por um rosto conhecido e inesquecível.
Tânia surgiu deslumbrante, ofuscando as parceiras e tirando proveito do lugar de destaque que o estilista lhe concedera, uma vez que a manequim portuguesa era uma das mais famosas. Continuava loura com o cabelo comprido pelos ombros e a franja cortada muito certinha sobre as sobrancelhas. Vestia uma criação composta por um casaco só com uma manga e umas calças só com uma perna. Meu Deus, pensei, quem é que vestiria na rua uma coisa daquelas? Caminhava como se flutuasse, mesmo que fizesse aquele movimento característico dos desfiles de moda em que todas parecem desengonçadas.
Quando a mostra de criações daquele estilista terminou, todos os homens e mulheres que desfilaram entraram em simultâneo, perfilando-se em linha para uma última passagem pelo palco. No momento em que Tânia passou perto de mim, acenei-lhe. Ela viu, mas não reagiu. Porém, três passos depois, no regresso, olhou para trás e franziu o rosto para mim num "Será possível? Serás tu?" No entanto, rapidamente retomou o sentido e ignorou quem ficara para trás.
Tivemos mais duas horas de manequins a mostrar os trabalhos dos estilistas, roupas que iam do clássico aos exemplos mais estapafúrdios que alguma vez vira alguém vestir. Tânia voltou a surgir na passerelle, mas não tornou a olhar para mim.
No final, os convidados começaram a dispersar, abandonando as suas cadeiras, deixando o espaço para os profissionais que tinham de arrumar os equipamentos. Eu era um deles, concentrado em acomodar as máquinas e acessórios nas respectivas malas.
Um homem de traje elegante e identificado como sendo da organização, aproximou-se de Peter.
— Monsieur Daniel?
Peter abanou a cabeça, dizendo algo em francês, e apontou para mim.
— Monsieur Daniel?
— Oui. — respondi com uma das únicas cinco ou seis palavras em francês que conhecia. O homem começou a debitar frases na sua língua. Fiz-lhe sinal que parasse. — In english, please.
Com forte sotaque francófono, o funcionário solicitou em inglês que o acompanhasse. Segui-o ao longo do palco, contornando um dos cantos até alcançarmos o acesso por onde os modelos entravam na passerelle. Passámos pelo acesso aos bastidores e deparei com a cacofonia de vozes de imensa gente numa azáfama confusa. O homem indicou-me que aguardasse perto do sector dos camarins e prosseguiu sozinho.
Aguardei alguns minutos até ao momento em que vi Tânia sair de um dos camarins com o indivíduo que me fora buscar. Ele apontou para mim e o olhar dela cruzou-se de imediato com o meu. Vestida com um robe escuro de seda, ela sorriu e veio ter comigo.
— És mesmo tu. — constatou com satisfação. — Olá Daniel! Que fazes aqui?
Recebi os dois beijos na face que me ofereceu e respondi:
— Sou fotógrafo. Vim fotografar o evento.
— Que bom ver-te! — exclamou entusiasmada. — A sério, gosto muito de te rever.
— Também é bom voltar a ver-te, se bem que eu te tenho visto, acompanhado a tua carreira.
— Foste responsável por ela. — recordou.
Abanei a cabeça.
— Tu é que és responsável por teres chegado onde chegaste.
Tânia já não era a rapariga linda de dezassete anos, era uma mulher deslumbrante de trinta e um anos, recentemente considerada uma das dez top-models mais bonitas do Mundo. Recordei com saudade o tempo em que fora minha namorada, aqueles poucos meses em que fui o rapaz mais invejado da escola.
Lá atrás, no meio das pessoas que circulavam em todas as direcções, alguém a chamou. Tânia voltou-se e acenou que iria num minuto. A seguir, tornou a olhar para mim. Conseguia descodificar-lhe um genuíno agrado por me rever.
— Gostava de falar mais contigo, Daniel. Estás ocupado amanhã?
— A que horas?
— Ao fim da tarde?
— Não. Não tenho nada marcado.
— Queres jantar comigo? Podemos encontrar-nos no hotel onde estou hospedada.
— Sim, claro. — concordei, surpreendido pelo convite.
Tânia pediu um papel e uma caneta a um assistente. Escreveu nele o nome do hotel e o número do seu telemóvel privado.
— Às sete e meia, ok? — agendou. Não poderia ser muito mais tarde, pois os franceses gostam de jantar com o pôr-do-sol, mesmo no Inverno. — Quando chegares ao hotel, liga-me que eu desço.
Apesar de nunca ter andado nos transportes de Paris, o metropolitano revelou-se de fácil orientação, sendo simples ir de Saint-Michel até à Place de la Concorde. O hotel não ficava muito longe dali.
O fim de tarde estava quente, sentindo-se uma brisa leve. Caminhei pelo passeio com a banda sonora de carros e buzinadelas do trânsito parisiense. Tânia estava hospedada num dos melhores alojamentos de Paris. Só a fachada intimidava, parecendo mais uma entrada de museu que um hotel. Passei pelo porteiro, o qual me olhou com altivez. Ignorei e entrei.
O átrio era luxuoso, todo em tons dourados com um balcão comprido em pedra mármore, onde dois funcionários atendiam dois hóspedes com aspecto de quem se assoava a notas de quinhentos euros. Segui até às poltronas e sentei-me. Confesso que me senti algo pelintra no meio daquele cenário. Peguei no telemóvel, faltavam dez minutos para a hora combinada, e fiz a chamada.
Tânia pediu que aguardasse, pois iria descer. Passados cinco minutos, vi-a surgir da zona dos elevadores. A sua imagem foi como uma seta de excitação que me provocou um choque. Caminhando com elegância em sapatos de salto alto, Tânia trazia um vestido muito justo verde-marinho, que começava em volta do pescoço, deixando-lhe os ombros nus, descia pelo seu corpo a contornar cada curva e terminava numa saia muito curta, revelando-lhe as fabulosas pernas. Parou junto de mim, beijou-me a face e indicou que a acompanhasse.
O jantar seria num dos restaurantes do hotel. Tânia circulou como se conhecesse cada canto e era reconhecida pelos funcionários que a tratavam com enorme formalidade. Para meu espanto, ela falava francês.
O espaço mantinha o luxo, mas a cor ambiente era diferente, uma mistura de brancos, cinzas e pretos. As paredes eram espelhadas, dando uma sensação maior ao local, as janelas grandes permitiam a entrada do crepúsculo e o tecto era iluminado por focos de luz branca. O empregado que nos recebera, conduziu-nos até uma das mesas quadradas ao canto, onde duas cadeiras pretas ao estilo de poltronas nos foram apontadas. Sentámo-nos, tendo o funcionário acomodado a cadeira de Tânia, e recebemos a ementa impressa num papel rugoso de alta qualidade com todas as letras escritas num tipo de letra desenhado, quase como se tivesse sido manuscrita em caligrafia de pintor. Observei a toalha branca de linho com os pratos de porcelana contornados a ouro, os talheres de prata e os copos de cristal.
— Sinto-me intimidado com tanta riqueza. — confidenciei, segurando a ementa.
Tânia sorriu, dizendo:
— Pensei que ias dizer que estavas intimidado por estares comigo.
— Não. — neguei, retribuindo o sorriso. — Já passei essa fase.
— Já não te intimido?
— Não.
O empregado voltou e tomou nota dos nossos pedidos.
— Estás diferente. — constatou, analisando-me.
— Sim, estou catorze anos mais velho, desde que estivemos juntos.
— Não é isso. Tornaste-te um homem mais confiante.
— Achas? Sinto-me a mesma pessoa. — Ela franziu o rosto, percebendo que estava a mentir. — Tu continuas igual. Linda!
Tânia fez um ar falsamente envergonhado.
Serviram-nos um copo de champagne para aperitivo. Fizemos um brinde e saboreamos o líquido cuja garrafa custaria algo na casa dos três dígitos.
— Nunca mais falei com ninguém dos tempos da escola. — relatou, pousando a flute. — Nem com a Raquel, nem com a Sofia. — A informação surpreendeu-me, eram as suas melhores amigas. — Naquele tempo, não era como hoje, não tínhamos a Internet. Bem viste como foi connosco, durou...
— Seis meses.
— Pois...
Sorri-lhe como quem desvaloriza o assunto.
— Não teria durado muito mais, se houvesse Internet. Tu estavas nos Estados Unidos, eu em Portugal. Mais tarde ou mais cedo, acabaria. Acho até que foste muito mais lúcida que eu, nessa altura.
— Podes não acreditar, mas custou-me.
— Eu sei que sim, Tânia. Também me custou a mim.
As entradas foram colocadas na mesa, cogumelos salteados que me pareceram mais uma amostra de produto.
— Como é que foi o resto da escola? Aquele tipo... como se chamava ele? O que passava a vida a chatear-te?
— O Tiago?
— Sim. Ele continuou?
Encolhi os ombros, negando com irrelevância.
Tânia provou um cogumelo, mastigou com uma classe trabalhada ao longo dos anos e limpou os lábios com o guardanapo de pano em tecido idêntico ao da toalha. A seguir, bebeu um pouco do vinho tinto escolhido para a refeição, um Pinot noir. Pousou o copo e olhou-me com curiosidade, perguntando:
— Quem foi a minha sucessora?
— Sucessora?
— Sim. Com quem namoraste na escola depois de acabarmos?
— Não voltei a namorar durante uns tempos. — respondi, perante o seu semblante descrente.
— Dedicaste-te aos estudos. — tentou adivinhar num tom irónico.
— Tentei, mas falhei. Não entrei na Universidade. Depois disso fui trabalhar para ajudar nas contas da casa.
Tânia pareceu recordar-se de algo.
— O teu tio? Gostava muito dele, sempre me tratou com enorme simpatia. Então, quando começámos a namorar, fazia-me sentir como se fosse da família.
Calculo que o meu rosto se tenha ensombrado.
— Faleceu há quase nove anos.
— Lamento muito, Daniel. — retorquiu, sentida.
— E a tua avó?
— Ainda é viva, felizmente. — respondeu com um brilho no olhar. — Está quase com noventa anos. Vive em Portugal com os meus pais.
Outro empregado veio recolher os pratos vazios.
— E quem foi o meu sucessor?
Tânia revelou surpresa com a questão. Sorriu divertida.
— Foi um manequim italiano, oito anos mais velho que eu. Mas, isso só aconteceu, tinha eu vinte.
— Foi ele o primeiro? — Tânia anuiu com naturalidade. — Vais rir-te quando te contar quem foi a minha primeira. — Percebi a súbita curiosidade no seu rosto. — A Francisca.
— O quê? — questionou incrédula. — Disseste que não voltaste a namorar na escola.
Chegaram os pratos principais, uma salada de camarão e muitas verduras para ela, uma amostra de bife com cheiro de arroz para mim. Nos minutos que se seguiram, relatei-lhe como reencontrara a nossa antiga colega, como nos aproximámos e a vida em comum até à separação.
— Ainda vives em Almada?
— Estou há três anos a viver em Edimburgo com o meu sócio e amigo. Foi ele quem me ajudou a tornar-me fotógrafo. Viemos ambos a Paris.
— Eu continuo a viver em Nova Iorque, apesar que é mais o tempo que estou fora que em casa. Tenho uma agenda de loucos, trabalhos atrás de trabalhos. — Suspirou, denotando cansaço. — É uma carreira curta, é quase como a de futebolista. Temos de amealhar ao máximo, enquanto estamos no auge. Amanhã à tarde viajo para Milão, onde vou desfilar, depois tenho uma sessão de fotos em fato-de-banho em Bali, a seguir vou para um evento em Moscovo, enfim... Não paro.
— Eu regresso a Edimburgo, depois de amanhã. Felizmente, também estamos com muito trabalho. Essencialmente são sessões de estúdio.
Tânia lançou-me um semblante cúmplice.
— Imagino que tenhas muito sucesso com as modelos que fotografas.
— Não esse sucesso que estás a pensar.
— Vais querer que acredite que...
— Vou porque é verdade.
Ela fingiu acreditar, terminando a última garfada. Tornou a limpar os lábios e disse:
— Eu tenho um... amigo. Um amigo fotógrafo, vive em Los Angeles. Sempre que temos oportunidade, encontramo-nos para uma sessão. Gosto muito do trabalho dele, gosto da forma como me capta. — Fez uma pausa, olhando-me de forma analítica. — Fazemos sexo, sempre que estamos juntos.
— E por isso achas que também o faço com as raparigas que fotografo... — constatei num lamento. Não era raro que tivessem aquela impressão sobre mim. Aliás, já fora assediado por algumas. Porém, tal como me ensinara Peter, nunca misturava o trabalho com prazer.
A forma como ela falou no assunto, criou-me uma suspeita que coloquei sem rodeios:
— Ele não é o teu namorado, pois não?
Tânia abanou a cabeça devagar, mordiscando o lábio, comprometida.
— Namoro com um empresário canadiano. Já dura há algum tempo, aparecemos juntos em muitos eventos. Não me admirava que me pedisse em casamento.
— E o tipo de Los Angeles, sabe?
— Claro. — confirmou. — Da mesma forma que eu sei que não sou a única que ele f... Desculpa. Tu percebeste. — Assenti, um tanto ou quanto decepcionado. — E tu? Alguém especial?
— Não. Actualmente estou sozinho. — respondi, pensando que o actualmente ia em vários anos, descontando a relação com Kátya.
— Ninguém em vista?
Sim, há uma mulher por quem sou perdidamente apaixonado que vive em Portugal e é casada. Claro que não lhe contei isto, limitando-me a dizer:
— Não.
Para finalizar, foi servida uma taça com três pedaços de fruta a cada um. Mais uma vez, no meio de tanta riqueza, o chef parecia estar a racionar a dispensa.
— Como tem sido viver em Edimburgo?
— Gosto muito. Foi amor à primeira vista, adorei desde que saí do avião.
— Curiosamente, a Escócia é dos poucos países onde nunca fui.
— Se um dia fores, espero que me faças uma visita.
O jantar terminou com um café. E no momento da conta, vendo-me pegar na carteira, Tânia travou-me:
— Tenho as despesas todas pagas pela organização, Daniel. Não te preocupes. — Olhou para a janela. — Deve estar uma bela noite. — Encarou o meu rosto. — Apetece-te caminhar?
Saímos do hotel para uma rua quase deserta. A noite estava amena e nem a brisa do fim de tarde se fazia sentir. A figura deslumbrante dela não passou despercebida a nenhuma das pessoas com quem nos cruzámos, no nosso percurso entre a edifício e a margem do rio Sena. Parámos perto do muro que se estende ao longo das margens e debruçámo-nos a observar.
Paris, a Cidade da Luz, tinha o tráfego de carros bem mais calmo àquela hora. Na nossa frente, o rio corria com tranquilidade, passando por baixo da Pont de la Concorde. Atrás de nós, oposto à ponte, o Jardin de Tuileries que se estendia bem longe até ao Louvre.
— Gosto muito de Paris. — confidenciou. — É a primeira vez que cá vens?
— É.
— Eu já lhe perdi a conta. Por ano, devo vir cá umas quatro ou cinco vezes.
Ambos olhávamos a margem oposta com o Palais Bourbon fortemente iluminado. Na margem, um dos barcos de passeio turístico ficara estacionado, já sem ninguém. Sem darmos por isso, estávamos encostados ao braço do outro.
— Tens saudades do tempo de escola? — questionou do nada.
— Não. Apenas do tempo em que namorámos.
Ela olhou para mim.
— Tens saudades de quando namorámos?
A pergunta soou a algo fora do comum.
— Claro. Parece-te estranho? Foste a minha primeira namorada.
— Não, não é estranho. — concordou, voltando a encarar o rio. — Também sinto saudades dessa época. A vida era bem mais simples.
— Não sei que dirás, se te disser que ainda guardo as fotografias que tirámos naquela máquina de foto num minuto, aquelas tipo passe.
— A sério? — inquiriu admirada, virando o rosto e revelando alguma emoção. — Isso é tão querido da tua parte. — Sorri, quase envergonhado por ter partilhado aquilo. — Tu sempre foste muito querido.
— Tu para mim eras uma preciosidade. Até me custava a acreditar que eras minha namorada, a rapariga mais linda da escola.
— Isso também era um exagero.
— Não sejas modesta. Sabes bem que eras.
Ela concordou.
— Mas, tu eras muito querido. Os teus beijos, a forma como me tocavas. — Olhou-me com uma mistura de cumplicidade e vergonha. — Se tivesses arriscado, talvez tivesse acontecido.
— O quê?
— Tu sabes, Daniel. Talvez tivéssemos feito amor.
Não consegui evitar rir com a revelação.
— Tínhamos dezassete anos, Tânia.
— E então? A Raquel perdeu a virgindade com catorze, a Sofia com dezasseis. — Fiquei sem palavras. — Tu fazias-me sentir tão segura, acho que teria acontecido, se tivesses tentado.
— Pois... — suspirei, lamentando não ter sabido aquilo catorze anos antes. — Eu tinha receio de fazer algo que te desagradasse. Se te recordas, nunca sequer nos despimos na frente um do outro.
Tânia riu divertida.
— Sim, mas lembro-me que gostavas de me apalpar as mamas, quando me beijavas.
— Sim, mas sempre com roupa pelo meio. — recordei num tom de quase reclamação, virando costas ao rio e ficando a olhar para a roda gigante na praça.
Tânia endireitou-se, virando o corpo para mim. A fragrância do seu perfume chegou-me ao nariz. Olhei para ela, deixando-me hipnotizar pelos seus olhos verdes, em silêncio, vendo-os baixar dos meus para a boca. De forma inesperada, apagou o espaço entre nós e beijou-me os lábios. Não foi um beijo fugaz, foi um encontro de bocas, um matar saudades de outros tempos. Os seus braços envolveram-me o pescoço, os meus fecharam-se na sua cintura. Saboreei o aroma da sua língua, a frescura do seu hálito.
Para ser uma réplica dos beijos de namoro, as minhas mãos teriam de subir para o peito. Só que nós já não tínhamos dezassete anos. Nem namorávamos. Éramos dois velhos conhecidos, dois trintões, dois adultos com muito mais experiência de vida, um homem e uma mulher que, de repente, se beijaram.
Tão repentina como avançara para o beijo, ela afastou-se. Encarou-me segura. Não havia culpa nem vergonha no seu rosto, aquilo fora natural. Fiquei sem saber o que dizer. Tânia fê-lo por mim:
— Para matar saudades. — Retirou o telemóvel da malinha para ver as horas. — Já é tarde. É melhor voltar ao hotel.
Confesso que fiquei perplexo com a cena. E nem sei se me choquei mais com o beijo ou com a forma natural como ela encarou aquilo, quase ao género de um beijo na boca ser tão comum como dizer "bom dia".
Percorremos o caminho inverso até ao hotel em silêncio. O trajecto pareceu-me muito mais curto. Penso que nos deixámos abater pela eminente separação que findaria aquele encontro. Numa outra realidade, numa conjuntura de vidas diferentes, acredito que nos podíamos ter amado verdadeiramente e constituído um casamento e filhos. Não duvidava que era especial para si, quase tanto quanto ela era para mim.
Diante da fachada do hotel, chegava o momento do "até um dia" que poderia acontecer daí a bem mais que catorze anos. Parámos. Tânia colocou-se na minha frente, olhos verdes nos meus olhos, a franja certinha a mover-se suavemente sobre as sobrancelhas, atiçada pelo regresso da brisa nocturna. Pensei em dizer algo que nos permitisse manter em contacto...
— Queres subir? — convidou com um sorriso terno.
— Subir? — repeti, meio confuso.
— Sim. — confirmou, acariciando-me a face. — Queres subir comigo?
Fiquei tão surpreso que questionei estupidamente:
— Para quê?
Tânia quase deu uma gargalhada.
— Para que achas que é? Ver televisão? — Adoptou um tom mais sério, sedutor. A sua mão deslizou pelo meu peito. — Queres fazer amor comigo esta noite?
Caraças! Não podia ser mais explícita. Ouvi-la dizer aquilo provocou-me um arrepio na espinha, um arrepio de excitação.
— Claro que sim.
Entrámos no edifício perante o olhar subserviente do porteiro para ela. Atravessei o átrio a seu lado, constatando os olhares dos homens com quem nos cruzávamos, deslumbrados com a imagem da manequim portuguesa que fazia furor nas passerelles um pouco por todo o mundo. Entrámos no elevador, subindo na companhia de um homem de negócios que segurava uma mala e olhava de soslaio para as pernas de Tânia. Enquanto subia, questionava-me se ela não temia que aquela noite chegasse aos ouvidos do namorado. Bom, não interessava, não era problema meu.
Segui pelo corredor, um passo atrás dela, até alcançarmos a porta do seu quarto. Tânia deslizou o cartão-chave pelo sensor e a porta abriu. Avançou para o escuro e acendeu a luz. Passei a entrada, vendo-a fechar a porta. Caminhou até mim e tornou a envolver-me o pescoço com os braços, ao que eu repliquei com os meus à volta da sua cintura. Beijámo-nos com paixão e excitação.
Tânia interrompeu o beijo. Virou-se de costas, puxou o cabelo louro para a frente e indicou-me o fecho do vestido atrás. Segurei a presilha, ao mesmo tempo que lhe beijava o pescoço, e corri-a até à cintura. Mordisquei-lhe a orelha, afastando as abas do vestido pelos ombros. O tecido caiu para a frente, pendurado na minissaia, deixando o seu tronco somente com um sutiã sem alças. Virei-a para mim, observando os seus seios ainda escondidos. Ela tornou a colar os lábios nos meus e, entre beijos, sussurrou:
— O fecho é à frente.
O meu dedo indicador e o polegar tocaram a mola, soltando a peça de lingerie que caiu desamparada no chão. Afastei-me alguns centímetros, quis observá-los com calma, descobrindo-os diferentes que aquilo que imaginara. Tânia tinha seios redondos, perfeitos, mas os mamilos eram cercados por auréolas largas e tinham um relevo mínimo. Não sei porquê, nos meus devaneios, fantasiara dois mamilos imponentes, quais chupetas de biberão.
Tânia pegou na minha mão e levou-me até à cama. Envolveu-me num novo abraço acompanhado de beijos sôfregos. Desta vez, não lhe rodeei a cintura, optando por abarcar nas minhas mãos o seu peito, o que lhe provocou um gemido rouco. Encarou-me o rosto com olhar lânguido e as suas mãos procuraram os botões da minha roupa.
Na manhã seguinte, acordei sem saber muito bem onde estava. Raramente desfrutara de um colchão tão confortável. Tânia dormia tranquila a meu lado com o lençol enrolado na cintura e o peito nu a subir e a descer ao ritmo da respiração. Rodei para o lado contrário, vendo no chão cinco preservativos usados. Na minha mente, repassaram as imagens dos êxtases partilhados noite dentro. Retornei à posição anterior, aproveitando para a observar com calma, saborear o momento em que partilhava a cama com ela... Fora uma loucura, aquela noite fora uma deliciosa loucura. Quando ao fim de seis vezes nos demos por saciados, o céu já apresentava a coloração do início do amanhecer. Estacionei a observação no seu rosto, o cabelo despenteado sobre a face, o seu ar natural sem maquilhagem, os olhos cerrados de quem descansa com enorme tranquilidade, a boca semiaberta... Sorri sozinho, recordando porque não havia um sexto preservativo usado. Aquela boca... Meu Deus.
Tânia despertou lentamente, encontrando-me a contemplá-la.
— Bom dia! — cumprimentou estremunhada. Desviou o cabelo dos olhos e puxou o lençol para cima, numa súbita vergonha pela nudez.
— Bom dia, Tânia!
— Que fazes aí, a olhar para mim?
— Estava a saborear o teu dormir tranquilo.
— Já vais? — indagou, escondida no tecido luxuoso da cama. Não esperou resposta. — É melhor ires andando. Preciso de dormir umas horas, antes de partir.
— Ok. Importas-te que tome um banho antes?
— Claro que não. Mas não te demores, por favor.
A casa de banho não fugia em nada a todo o luxo e requinte do quarto. Tomei um duche rápido e regressei ao quarto para me vestir. Como pensei que Tânia estava a dormir, tentei sair sem fazer barulho, porém...
— Daniel! — chamou ela, por baixo dos lençóis.
— Sim...
— Sabes que isto não vai voltar a acontecer, não sabes?
Sim, eu sabia. Aquilo fora um momento de partilha, de sexo, de completar o ciclo que se suspendera nos nossos dezassete anos. Não me importaria de repetir, mas nem eu nem ela ambicionávamos um regresso do namoro ou qualquer tipo de compromisso. Aquela poderia bem ter sido a única noite de paixão, de entrega total de ambos, algo que o nascer do Sol apagaria da realidade e transformaria numa bonita recordação para mim e, quem sabe, para ela.
O meu regresso a Edimburgo coincidiu com mais uma mensagem de Jewel, dando conta do fracasso da primeira tentativa de engravidar, no seguimento do processo de tratamento de fertilidade a que ela e o marido se haviam sujeitado. Lamentei o facto e respondi-lhe com uma mensagem de esperança que na verdade não desejava.
Se Peter fora o meu professor e quem me dera a mão para entrar no mundo da fotografia e ser fotógrafo, Tânia catapultou a minha carreira. Isto porque, alguns meses depois daquela fabulosa noite, deu uma entrevista em que falou da sua carreira, como começou, quem a incentivara, quem a fotografara e como esse indivíduo, eu, era um excelente fotógrafo. Como devem calcular, ter uma das super manequins internacionais mais bem cotadas do mercado a elogiar-nos, só poderia resultar numa coisa, uma enorme procura pelos meus serviços. Choveram contactos para projectos, inúmeros pedidos de raparigas para irem ao estúdio a Edimburgo para serem fotografadas por mim, ofertas de valores exorbitantes por sessão... Peter ajudou-me, sendo quase meu agente. E eu não esqueci o quanto ele fizera por mim, não abdicando de partilhar todos os meus lucros consigo.
No final desse ano, Jewel voltou a fracassar na tentativa de engravidar. Nas mensagens que trocávamos, começou a fazer confidências acerca do casamento, como se sentia pouco apoiada pelo marido naqueles momentos. Perto da Páscoa do ano seguinte, recebi uma das melhores notícias da minha vida. Sei que é feio dizê-lo desta forma, mas é a verdade. Jewel escreveu-me um longo email a descrever como o marido se afastava progressivamente e a fazia sentir cada vez mais responsável por não engravidar. Após o terceiro fracasso, ele colocara as cartas na mesa com uma exigência muito simples, queria o divórcio.