CONTO III - O teu nome é Kátya. E coloquei-te a meu lado.
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O país vivia a onda de entusiasmo pela organização do Campeonato da Europa de Futebol, o EURO2004. Eu continuava desempregado e sem perspectivas de arranjar emprego, agravando o facto de que o período de subsídio de desemprego estava a chegar ao fim.
No último ano, talvez desde as nossas posições contrárias em relação a ter filhos, o relacionamento com Francisca esfriara para níveis preocupantes. Ela passava cada vez menos tempo em casa, raramente fazíamos qualquer actividade juntos, como passear ou ir ao cinema, e na cama... Bom, parecia quase um congelador, comparado com o calor da paixão de outrora.
Para piorar isto, também não tinha com quem desabafar. Nunca partilhara com ninguém pormenores da minha vida íntima, mas gostava de pelo menos ter com quem conversar um pouco. A minha maior parceira de conversa, Jewel, vivia uma fase de pura felicidade com o namorado e os estudos, sobrando tempo para pouco mais que uma troca de emails comigo. Mesmo assim, não podia recriminá-la por ser feliz com outro que não eu.
A minha vida era entediante, talvez tivesse sido das fases mais desinteressantes da minha existência, desde os tempos da escola. Nem o facto de ter computador com ligação à Internet atenuava isso, uma vez que já não tinha paciência para conversas com desconhecidas.
Comecei a abrir o leque de opções de empregos, tinha de voltar ao mercado de trabalho, não só pela necessidade de ordenado, como para evitar dar em louco sozinho em casa. Cheguei a ir a entrevistas para ser consultor imobiliário, algo para o qual não tinha o mínimo jeito. Nunca fui contratado, mas após uma dessas entrevistas, passei por uma exposição de fotografia.
Peter estava lá, quase como uma estátua a observar os quadros na parede. Não dera pela minha aproximação até estar a dois passos dele. Recebeu-me com um largo sorriso e apertou-me a mão. Nunca perdêramos o contacto, mas haviam passado já alguns meses desde a última mensagem que trocáramos.
— Que tens feito?
— Procurado emprego. — informei, olhando para uma tela que retratava uma paisagem vulcânica registada a preto e branco. — Mas, está muito complicado.
— E a fotografia?
— Continua a ser um passatempo. Infelizmente, não consigo que seja mais que isso. Quem me dera ter a oportunidade de viver disso como tu fazes.
— Não é fácil. — recordou, deslocando-se para a fotografia seguinte. — Tive que lutar muito para isso.
Circulámos pela área da exposição, vendo e comentando os trabalhos expostos. Peter adicionava a cada análise a sua perspectiva e explicava-me as técnicas usadas, enriquecendo os meus conhecimentos.
No final, ao sairmos para a rua, informou-me que iria fazer um trabalho no dia seguinte, uma sessão de moda, fotografar vários modelos para um catálogo de venda de roupa por catálogo.
— Queres vir? — convidou. — Não te posso contratar para meu assistente. Não vais ganhar dinheiro, mas podes aprender mais alguma coisa.
Só se fosse um completo idiota é que desperdiçaria tal oportunidade.
O evento durou o dia todo e aconteceu em Lisboa, junto ao rio Tejo, uma zona de armazéns, onde um deles fora escolhido para estúdio. O ambiente era bastante profissional, diversos assistentes para a mais diversas áreas, desde os maquilhadores, aos responsáveis de guarda-roupa até aos modelos. Estes últimos eram seis, três rapazes e três raparigas, os quais deveriam ter entre dezoito e vinte e um anos. Também estavam presentes representantes da marca de roupa como observadores para darem alguma indicação. Havia também pessoal técnico para a parte eléctrica e a equipa que fora encarregue do transporte de todo o material.
Quando cheguei, Peter apresentou-me de forma geral, informando que seria o seu assistente de equipamento. O mínimo que posso dizer é que foi espectacular, poder mexer em máquinas e acessórios que só podia ver nas montras das lojas, e a interacção com o restante pessoal... Pequenas pausas para a troca de roupa permitiam que Peter discutisse comigo alguns pormenores, sempre um explicador paciente. Aquelas horas acabaram por ser muito mais ricas que o curso que fizera numa turma dele, no ano anterior.
Na parte da tarde, após o almoço que não passou de uma refeição simples servida a todos os elementos presentes, Peter começou a desafiar-me para opinar acerca das fotos. Como colocaria os modelos, poses que destacassem as roupas que se pretendia publicitar, entre outras coisas. Eu fui falando naturalmente, muitas vezes recordando as sugestões que dera a Tânia naquela que fora a sua primeira sessão fotográfica. Peter escutava-me com um semblante interessado.
— Alguma vez fotografaste modelos? — questionou no final da sessão.
Sorri com a pergunta que me retomou as recordações.
— Não vais acreditar...
Peter aguardou, curioso:
— Conheces a Tânia, a supermodelo portuguesa?
— Sim.
— Foi minha colega na escola. — informei perante o seu olhar de "e?" — Fui eu que lhe fiz as primeiras fotos, as que ela enviou para as agências.
Peter pareceu duvidar:
— A sério? — Anuí. — Eu trabalhava para uma das agências que recebeu as fotos. Infelizmente, não conseguimos antecipar-nos aos tipos que a passaram a agenciar. Recordo-me que estava um trabalho bastante bom, parecia feito por um profissional. Foste mesmo tu? — Descrevi-lhe as fotos. — Caramba...
— Achas que posso pôr isso no meu currículo? — questionei num tom de gozo. De que serviria aquela informação num currículo para concorrer a um mísero emprego de ordenado mínimo.
Contudo, Peter não correspondeu ao tom brincalhão e disse:
— Deves colocar isso e o dia de hoje como assistente. Aliás, hei de escrever-te um certificado da tua presença a ajudar-me para o comprovar.
De que me serviria aquilo? Alguma vez chegaria a fotógrafo profissional? Devia ser, eu com a velhinha Canon AE1... Bom, mas valia a intenção e ninguém sabe o futuro.
— Daniel, se surgirem novas oportunidades, convido-te a vires assistir-me outra vez. Caso queiras, claro.
Infelizmente, essas oportunidades não aconteceram.
Aquele ano, para além do entusiasmo com o EURO2004, trazia também uma grande expectativa para os interessados em política, pois era ano de eleições para o Parlamento Europeu.
Estávamos em final de Março. Francisca chegou a casa depois de jantar, uma vez que tivera mais uma reunião do partido que se prolongara. A sua ausência às refeições começava a tornar-se regra e não excepção.
— Precisamos de falar. — disse num tom sério, ao mesmo tempo que me beijava os lábios num cumprimento fugido.
Aguardei, observando-a no seu habitual traje formal. Sem que tivesse planeado, à minha cabeça chegou o filme de uma memorável tarde, uns dois anos antes, em que ela usara aquele fato numa brincadeira nossa, daquelas brincadeiras sexuais que já não aconteciam quase desde essa altura. Eu simulava que estava preso e que ela era a advogada para me defender em tribunal, mas eu não tinha dinheiro e ela sugeria que se lhe desse prazer me poderia livrar da cadeia. Eu a fazer de conta que era um presidiário, ela com aquele fato, sendo que a única diferença que por baixo das calças e do casaco não havia roupa alguma. Velhos tempos...
— Recebi um convite. — informou num tom cansado, despertando-me.
— Convite?
— Querem que faça parte da equipa do cabeça de lista do nosso partido para as Europeias. — prosseguiu, evitando o meu olhar. — Isso irá provocar alterações na nossa vida.
Vai passar ainda mais tempo ausente, foi o que eu pensei.
— Que alterações?
— Se ele for eleito, terei um lugar no Parlamento Europeu. Não como deputada, mas como integrante da equipa de trabalho. Terei de suspender a advocacia por algum tempo, mas o ordenado compensa, já para não falar no prestígio e valorização das minhas pretensões futuras na política.
Sendo o partido um dos maiores do país, a eleição do indivíduo era uma certeza. Por isso, a mudança de vida para França ou Bélgica avizinhava-se.
— Para te ser sincero, viver em Estrasburgo ou em Bruxelas não me atrai minimamente. — confessei, procurando contrariá-la sem a magoar. — Quando é que tens de decidir?
— Já decidi! — afirmou com austeridade. — Já aceitei.
— Sem me consultar? — questionei, ofendido.
— Não houve tempo. — mentiu.
— Não houve tempo? — repeti, irritado. — Nem para pegares na merda do telefone e perguntar o que eu achava disso?
Francisca encarou-me com dureza.
— Seria irrelevante.
Fiquei chocado com a resposta.
— Eu não quero mudar-me para fora do país. — recusei, esperando que isso atrapalhasse a suas certezas.
Vi-a dar alguns passos pela sala, suspirando. Não era o aspecto de alguém que estava a ser contrariada, era mais a imagem de alguém que queria libertar-se de um fardo e procurava a forma mais explícita de o comunicar.
— Não tens de o fazer.
— Não tenho de o fazer? Então eu fico e tu vais? Passamos a ter uma relação à distância?
Para ser sincero, pouco faltava para a relação que tínhamos.
Francisca voltou a suspirar e concluiu:
— Acho que estamos a precisar de dar um tempo. Talvez o afastamento seja bom.
— O quê? — interroguei incrédulo.
— Honestamente, quando aceitei não te coloquei na equação. Estou decidida a ir sozinha.
Atónito. Aparvalhado. Sei lá como me senti ao ouvir aquilo. Acabei por querer uma confirmação:
— Estás a terminar a nossa relação?
— A nossa relação tem estado a... tem vindo a... — Ponderou um argumento, qual advogada de causas perdidas. — Já não somos tão apaixonados.
— Só se fores tu. — redargui. — Eu continuo a gostar de ti. Lamento se tenho outras perspectivas para o nosso futuro, tipo querer filhos, enquanto tu só pensas em ti, no teu trabalho e no caralho do teu partido.
Francisca arregalou os olhos.
— Estás a ser estúpido. Talvez devesses pensar também em trabalho, ao invés de quereres ser um pai desempregado.
E com aquelas palavras, virou costas e desapareceu para o quarto.
Tio veio para junto de mim, roçar-se nas minhas pernas. Sentei-me no sofá e coloquei-a no meu colo, afagando-lhe o pêlo. Permaneci por ali mais de uma hora, observando a televisão sem prestar atenção nas imagens, repetindo mentalmente aquela conversa e as implicações futuras.
Quando fui para o quarto, encontrei a divisão envolta em escuridão. Francisca dormia no seu lado da cama. Tirei a roupa e enfiei-me entre os lençóis. Poderia ainda haver esperança para nós? Talvez tivesse sido brusco, poderia dar o primeiro passo para tentar que nos voltássemos a entender. Encostei-me a ela, tocando com o corpo o tecido do seu pijama. Rodeei-lhe a cintura com o braço e acariciei-lhe a barriga, enquanto lhe beijava a nuca.
Assim que se apercebeu da minha presença, Francisca empurrou-me o braço e afastou-se. Sem dizer uma palavra, revelou que me queria longe.
Parecia não haver dúvida. O nosso amor chegara ao fim.
Nessa noite, tive muita dificuldade em adormecer. E quando acordei de manhã, Francisca já não estava em casa.
Tudo acontecera com uma velocidade vertiginosa. No dia anterior era um homem casado oficiosamente e no dia seguinte voltara a ser solteiro. Aquilo era um rombo na vida a que me acomodara nos últimos anos, pouco mais de três. Porém, no meio do negativismo da situação, outras perspectivas se abriam...
Fui ao computador e escrevi um email a Jewel. Relatei tudo o que acontecera, como a relação com Francisca já não estava bem, que o amor acabara e que tínhamos decidido pôr fim ao nosso "casamento". Enviei com a esperança de... Com esperança de quê? Não sei bem. Não era ingénuo ao ponto de pensar que ela me escreveria a dizer que iria também terminar o seu namoro para que ficássemos juntos. Esperava talvez ler algum entusiasmo nela, um entreabrir da porta a algo...
A resposta chegou ao fim da tarde:
"Oh Daniel. Não imaginas como lamento o que aconteceu. Fiquei triste. Espero que consigam voltar a entender-se, tu mereces ser feliz, és um grande amigo. Espero do fundo do coração que tu e a Francisca voltem a ficar juntos. Mas, se isso não acontecer, não percas a fé. Tenho a certeza que encontrarás alguém que te volte a fazer feliz como antes. Ou tão feliz como eu sou com o meu namorado. Beijinhos"
Não precisam que comente, pois não?
Francisca chegou a casa com o semblante fechado e expressão fria. Não perdeu sequer tempo a trocar um beijo como sempre fazia e atirou um "boa noite" como se cumprimentasse um grupo de pessoas. Não lhe retribuí o cumprimento, substituindo por:
— Vou voltar a Almada. Amanhã, pego nas minhas coisas e vou-me embora.
Francisca assentiu sem qualquer mágoa, completando com:
— Não te esqueças da gata.
Não me esqueci de Tio, nem de nada. Na manhã seguinte, arrumei tudo o que me era importante e chamei um táxi que nos levou de volta a Almada.
O dinheiro que juntara com a indemnização da perda do emprego e o subsídio de desemprego estavam a chegar ao fim. A regressar ao apartamento onde fora criado, passei a ter mais despesas para além da renda. Não podia permanecer desempregado, sob risco de perder tudo, e tive de aceitar qualquer trabalho que aparecesse. O que consegui foi a tarefa de repositor de produtos numa grande superfície comercial a ganhar o ordenado mínimo.
Os primeiros tempos de retorno ao estado solteiro foram muito complicados. Só não dava em louco a falar para as paredes porque Tio me fazia companhia. Sem Internet em casa, também não voltei a falar com Jewel, o que não achei que lhe tivesse feito qualquer diferença. Francisca riscou-me por completo, como se tivesse passado uma borracha em todo o tempo que vivemos juntos.
Apesar de toda a euforia no país com a participação da equipa portuguesa de futebol na competição que se estava a realizar em Portugal, o acontecimento passou-me ao lado. Tinha coisas mais prementes com que me preocupar que o resultado de um jogo. Entretanto, desenrolaram-se as eleições dos deputados para o Parlamento Europeu, as quais confirmaram a esperada eleição do cabeça de lista do partido de Francisca, o que resultaria na sua mudança para o estrangeiro.
Em finais de Junho, Peter telefonou no momento em que eu colocava pacotes de detergente num expositor central que iria estar em promoção nessa semana. Rejeitei a chamada, ligando-lhe na pausa para café.
— Tenho novidades. — relatou, após a conversa inicial protocolar. — Recebi uma proposta espectacular para trabalhar com um grupo de agências internacionais. O ordenado é irrecusável. — Fez uma pausa. — Vou ser responsável pelo departamento de fotografia e serei o fotógrafo exclusivo deles. Estão sediados em Edimburgo. Vou mudar-me até ao final do Verão.
— Parabéns! Fico feliz por ti. — congratulei, pensando que ainda tinha uma pilha de azeite e duas de papel higiénico para colocar em prateleiras.
— Obrigado. Mas, não estou a ligar só para te contar. — explicou com entusiasmo. — Vou precisar de um assistente de fotografia. Estás interessado? — O convite deixou-me sem reacção. Peter, adivinhando a minha estupefacção, continuou. — O ordenado é excelente e podes começar a trabalhar em fotografia. Eu sei que é só como meu assistente, mas tens de começar por algum lado.
A minha cabeça começou a ponderar os prós e os contras. Estava perante uma proposta de trabalho de sonho, ainda mais quando ele converteu o "excelente" em números. Porém, os contras formaram-se como uma nuvem espessa que me cegou: Edimburgo lá tão longe? Viver num país estranho? Iria ficar ainda mais longe de Mafalda. E porquê o interesse de Peter em me contratar? Haveria segundas intenções, sendo ele homossexual?
Tomei a decisão mais estúpida da minha vida ao agradecer e recusar.
No Domingo em que o país parou, a televisão mostrava directos do autocarro da equipa nacional a circular desde a Academia de Alcochete até ao Estádio da Luz, onde nesse fim de tarde Portugal iria discutir o título europeu de futebol com a Grécia. Sem nada mais interessante para fazer, Tio e eu observávamos a loucura da escolta da população.
A campainha tocou. Não esperava visitas e fui atender com enfado, calculando que fosse publicidade ou algum propagador da palavra do Senhor que adormecera de manhã e viera prestar o serviço após o almoço. Abri a porta e ouvi passos na escada de alguém que subia. Fui surpreendido pela visita da minha ex.
Francisca surgiu informal, envergando um vestido que começava abaixo das axilas e terminava acima dos joelhos. Não lhe favorecia o peito, quase inexistente naquele formato de tecido. Calculei que tivesse ido à praia (queria lá saber com quem) e tivesse aproveitado a proximidade para me visitar ou para se despedir. Contudo, o cabelo solto estava penteado e cheiroso e não tinha sinais de exposição solar prolongada.
— Olá Daniel!
— Olá. — retribuí sem esconder a surpresa.
— Posso entrar?
Abri caminho para que passasse.
Tio miou descontente. Francisca ignorou-a e caminhou para a sala, sentando-se no sofá sem esperar convite. Cruzou as pernas, fazendo a saia escorregar para meio das coxas.
— A que devo a tua visita? — interroguei, sentando-me na poltrona.
— Vou partir para Bruxelas para a semana.
— Boa viagem! — desejei com desdém.
— Não quis partir sem voltar a ver-te. — explicou com um tom terno. — Não quero partir mal contigo.
— Podes ir descansada. — repliquei com azedume.
Francisca hesitou, optando por me encarar de uma forma que já não acontecia desde os tempos da paixão diária.
— Tenho saudades tuas.
Só podes estar a brincar, pensei.
— Só podes estar a brincar. — proferi, indignado. Levantei-me do sofá. — Talvez seja melhor ires andando.
Ela copiou o meu movimento, parecendo respeitar a minha vontade. No entanto, parou defronte de mim e beijou-me os lábios antes que eu tivesse tempo de me defender. Fiquei embasbacado. Francisca não disse nada, limitando-se a pegar-me na mão.
— Anda... — sussurrou, puxando-me atrás de si para o quarto.
Entrámos. Estacionou-me ao lado da cama e subiu para o colchão, ficando de joelhos. Levou as mãos ao topo do vestido e puxou-o até à cintura, revelando os seios de dimensão envergonhada. Eu permaneci estático. As suas mãos focaram-se no fecho das minhas calças. Os seus dedos começaram a tocar-me, vi o seu sorriso e a sua cabeça a baixar para a minha cintura, a excitação alastrou pelo meu corpo...
Nas horas que se seguiram, a separação foi como se nunca tivesse acontecido. O tempo voltara para trás e nós tornámos a embrulhar-nos no calor da paixão, na loucura sexual, nas repetições de prazer.
A noite caíra por completo. Pela janela, apenas o brilho dos candeeiros de rua na sua tonalidade alaranjada. Deitado na cama, ainda estava confuso com tudo o que acontecera, com a visita dela, com a envolvência da paixão. Já nem me lembrava a última vez que o sexo fora tão brutalmente gratificante.
Francisca levantou-se da cama em silêncio. Apanhou as cuecas penduradas na cabeceira da cama e vestiu-as. A seguir, segurou o vestido.
— Continuas uma amante brutal. — elogiei para as suas costas. Ela voltou o rosto e sorriu. De súbito, fez-se luz na minha cabeça, acerca do propósito da visita. — Está bem. Eu vou contigo.
Com o vestido de volta ao seu sítio, Francisca virou-se para mim, acariciando o meu corpo nu com os olhos, desde os pés até à cabeça.
— Não pretendo que venhas comigo, Daniel. Quero seguir a minha vida sozinha! — afirmou com segurança, usando um tom firme. Sorriu como se tivesse lido o meu pensamento. — Isto não foi sexo de reconciliação. Foi sexo de despedida. — Calçou os sapatos. — O tempo que partilhámos foi muito bom. — Contornou a cama. — Mas, acabou! Fica bem Daniel. — E saiu do quarto.
Os seus passos ecoaram pelo corredor. O som da porta a bater confirmou a sua partida. Não havia dúvidas, eu perdera Francisca para a União Europeia. E Portugal oferecera a taça aos gregos.
Os meses seguintes foram rotineiros. Talvez o facto mais relevante tenha sido a dissolução da Assembleia da República, o que levou a eleições legislativas antecipadas. Quando ouvi a notícia, questionei-me se Francisca regressaria a Portugal para tentar um lugar de deputada ou retomar a sua profissão no seu país acumulando um cargo idêntico ao que tinha no Parlamento Europeu. Não equacionei isso como uma hipótese de reatamento da nossa relação, uma vez que sabia que terminara em definitivo. Porém, se a possibilidade de regressar a Portugal esteve no seu plano, isso nunca chegou ao meu conhecimento.
Eu permanecia com o meu trabalho entediante e desmotivante. Pelo menos, conseguira ter uma boa relação com o pessoal do escritório que me permitia usar o computador durante a hora de almoço, podendo assim consultar as minhas mensagens. Não sabia muito bem o que seria o meu futuro, mas contentava-me com o facto de ter emprego e pagar as contas. Não tinha amigos, vivia desinteressado de qualquer relacionamento amoroso e passava os tempos livres em casa a ver televisão com a gata a dormir no colo.
No dia a seguir ao Natal, nesse ano, as televisões começaram a passar imagens da tragédia no Índico, onde um terramoto seguido de tsunamis viria a fazer mais de duzentos e trinta mil mortos. Nessa tarde, recebi um email de Jewel, a qual estivera quase dois meses sem dar notícias. Enviara-lhe uma mensagem só para manter o contacto e não tivera resposta. Porém, naquela tarde fria de Dezembro, após o almoço e aproveitando o resto do tempo para consultar a Internet, ao entrar na caixa de email, deparei com nova mensagem dela:
"Olá Daniel! Há quanto tempo... Desculpa andar ausente, mas a faculdade tem sido esgotante. Nesta fase já temos muitas horas no bloco, começamos a ter mais contacto com o mundo real. Tenho novidades. O meu namorado pediu-me em casamento. E eu disse sim. Estou muito feliz. Sei que parece precipitado, mas estamos muito apaixonados. Não será para já, só quando terminarmos a formação e começarmos a trabalhar. Mas, decidimos oficializar o compromisso. Sei o que estás a sentir ao ler isto, sentiria igual se fosse ao contrário. Mas não podia deixar de te contar. Serás sempre especial como espero continuar a ser para ti. Perdoa-me as longas ausências nas mensagens, não significam que não pense em ti todos os dias. Continua a escrever-me, por favor. Fazes parte de mim, da minha vida, mesmo longe, mesmo virtual... Espero que fiques feliz por mim. Beijinho grande da tua amiga que te adora. Jewel."
Parei um pouco para respirar. Não era justo que todos os dias desejasse receber uma mensagem dela a dizer que o namoro terminara. Não podia continuar com a esperança de a ter para mim. Agora já não era um namoro, era um noivado. As coisas para ela evoluíam normalmente, como devia ser, como ela merecia. Só podia congratular-me por a ver feliz. Não fora eu a causa dessa felicidade, mas não tinha o direito de lha negar por ser outro o dono do seu coração. Recuperado do impacto, escrevi:
“Olá, Mafalda! Há um cantinho no meu coração que guardará para sempre todo o amor que sinto por ti. Não tenho como me desfazer dele, mas ficará ali como uma memória do que poderia ter sido. Farás sempre parte da minha vida e pretendo continuar em contacto contigo, acompanhando a tua felicidade e saboreando um travo dela ao longe. Não tenhas dúvida alguma, estou feliz por ti e desejo-te as maiores felicidades com o teu futuro marido. Beijinho ainda maior para ti. Adoro-te! Daniel."
Logo que enviei, fechei o email e regressei ao meu posto de trabalho.
Quando regressei a casa, telefonei a Peter que se encontrava em Edimburgo desde Setembro, abraçando o novo projecto. Liguei-lhe porque, entre uma lata de salsichas e um pacote de arroz, me perguntei o que fazia ainda ali.
— Olá, Peter!
— Olá, Daniel! Estás bom? Não me digas que estás a ligar para desejar um Feliz Natal. — Ouvi uma gargalhada no outro lado. — É bom ouvir-te, amigo.
— Desculpa estar a ligar-te tão tarde, mas queria fazer-te uma pergunta?
— Chuta.
— A proposta para ser teu assistente ainda está de pé?
Houve um silêncio no outro lado da linha. Merda, mais uma vez chegara tarde.
— Sabes porque te convidei para ser meu assistente? — questionou num tom mais sério. Respondi que não. — Para te dar uma hipótese de enriqueceres os teus conhecimentos de fotografia e ganhares oportunidades para abraçares a profissão com que sempre sonhaste. Não estou à procura de um assistente, estou a criar-te uma oportunidade.
Percebi que ainda tinha hipótese.
— E o ordenado?
— É o que te falei antes.
Um ordenado de sonho. Mesmo assim, havia um pormenor que me deixava relutante.
— Preciso de te fazer uma pergunta. Peço-te que não me leves a mal.
— Chuta, Daniel.
— Existe alguma segunda intenção atrás dessa oportunidade?
Ouvi uma gargalhada estridente do outro lado.
— Achas que estou a tentar seduzir-te?
— Desculpa estar a perguntar, Peter. — pedi quase envergonhado por colocar a questão. — Não quero mal-entendidos.
Denotando um tom bem-humorado, Peter respondeu:
— Há pessoas que acham que a homossexualidade é uma doença. Que se pode dar uns comprimidos e um gajo passa a gostar de mulheres. Podes não acreditar, mas ainda há gente a pensar assim. Achas que se pode transformar um gay em hétero?
— Não.
— Pois um hétero também não se transforma em gay, a menos que goste mesmo de homens. — argumentou. — E pelo que conheço de ti, acho que as mulheres ainda são a tua preferência. — Nova gargalhada. — Somos amigos, Daniel. Acho que tens potencialidade para este ramo. Estou só a ajudar-te.
— Obrigado, Peter! E desculpa...
— Esquece isso! — interrompeu. — Mete-te num avião e vem para cá. Ficas em minha casa, isto é grande com'ó caraças.
— Peter, não vou sozinho. Tens espaço para uma gata?
— Até para uma de duas perninhas. Mas sei que te referes à de quatro. Claro que sim.
Larguei o emprego no final do ano. Os preparativos para a mudança foram trabalhosos, principalmente no que respeita à viagem, tendo em conta que iria transportar um animal de estimação. Isso obrigou-me a contactar várias companhias aéreas, preferencialmente com voos directos entre Lisboa e Edimburgo, que me permitissem viajar com a gata a meu lado, ao invés de a transportarem no porão. Entre uma complicação e outra, lá se resolveu tudo pelo melhor.
Consegui resumir o que queria levar em duas malas. O apartamento, onde outrora os meus tios me haviam criado, ficaria fechado tal como um álbum que se guarda numa prateleira. Cobri as mobílias e corri as persianas. Desliguei o gás, a água e a luz. Fechei a porta sem fazer ideia de quando voltaria... ou se algum dia voltaria. Mesmo assim, enquanto me fosse permitido financeiramente, manteria o arrendamento. Seria uma espécie de tributo aos meus tios.
Um táxi levou-me de Almada até ao Aeroporto da Portela. Enquanto atravessávamos a Ponte Vasco da Gama, o rádio tocou o Run dos Snow Patrol, acentuando o meu sentimento de partida, despedindo-me daquilo que me prendia a Portugal, uma esperança que se esfumara, um amor perdido, um nome gravado a fogo no meu coração... Mafalda.
Nunca o consegui explicar, mas adorei Edimburgo desde o primeiro minuto, logo que pisei solo escocês. Não foi certamente pelo frio brutal de Janeiro ou pelos dias constantes de céu cinzento. Aliás, o Sol é raro na capital da Escócia, mas quando aparece... Tal como os escoceses dizem "nada bate Edimburgo num dia soalheiro".
Penso que o meu fascínio eram as pessoas. Por norma, só encontrava simpatia, afabilidade, hospitalidade. Sentia-me em casa. O meu inglês enferrujado rapidamente ganhou lubrificação e tornou-se regular. A única coisa a que nunca me consegui adaptar foi ao facto de os tipos conduzirem do lado errado da estrada.
Peter vivia no topo de um edifício da zona mais recente da cidade. O espaço era um amplo open space de dois pisos num estilo arquitectónico clássico, o qual servia de estúdio de fotografia e habitação. A zona de estúdio, piso inferior, tinha uma parede alta com vários rolos coloridos que se desenrolavam para a escolha do melhor cenário a usar nas fotos. Ao fundo, perfilavam-se diversos acessórios de apoio, máquinas fotográficas... Numa das laterais, um conjunto de biombos permitiam a privacidade dos modelos para as trocas de roupa. E na parede oposta existia uma porta para a casa de banho de trabalho. A zona de habitação era o piso superior, onde as paredes laterais eram todas envidraçadas oferecendo uma vista magnífica para o sector histórico da cidade e para as colinas. A luminosidade contrastava muito com a escuridão do andar de baixo. Também era um espaço amplo, sem paredes interiores, dividindo-se entre sala gigantesca e cozinha de serviços mínimos e bem equipada. Na ponta oposta à escada de acesso, os quatro quartos e a casa de banho privativa eram os únicos sectores com portas e completa privacidade.
Tio andou meio confusa nos primeiros tempos, era um ambiente completamente novo. Já quando nos mudáramos para casa de Francisca, ela se mostrou apática. Ali, penso que o clima acentuou, para além do desgaste da viagem. No entanto, lá se habituou. Peter gostava muito dela, um sentimento recíproco. Deixávamo-la circular à vontade pelo piso superior, mas o inferior era-lhe interdito, não fosse derrubar algum do equipamento caríssimo que ele lá tinha.
Mais que um emprego, trabalhar com Peter era um enriquecimento de conhecimento e experiência em fotografia. As sessões fotográficas variavam entre o estúdio, exteriores ou outros locais. No estúdio, recebíamos muitos modelos e aspirantes a modelos, masculinos e femininos, na sua maioria enviados pelas agências para a realização de books de apresentação. Contudo, também tínhamos sessões para campanhas de publicidade, catálogos, promoção de eventos...
Perdi a conta ao número de raparigas que despiam Peter com o olhar, cheias de desejo, não se coibindo de lhe explicitar as suas intenções. Havia outras que já sabiam das suas preferências e nem perdiam tempo. Eu nunca lhes despertei muito interesse, acho que após a recusa dele, eu não passaria de um fraco prémio de consolação. Verdade seja dita, também não estava interessado, uma vez que não queria paixões e nunca tive jeito para cenas de sexo pontual. Nem mesmo os modelos masculinos que partilhavam da sua orientação sexual tinham sorte com Peter, o qual sempre me ensinara a nunca misturar trabalho com prazer.
Os trabalhos exteriores eram mais complicados. O clima tornava-se uma lotaria e quantas vezes não tínhamos de adiar ou suspender uma sessão por causa da chuva ou do vento.
A juntar ao contrato que Peter tinha com as agências, uma vez que me tinha como assistente e sentia que poderia confiar-me a máquina, começámos a aceitar trabalhos de reportagem fotográfica de eventos, fotografia de espaços culturais e turísticos, enfim... Fazíamos todo o tipo de fotografia. E à conta disso, ganhámos muito dinheiro. Já para não falar dos diversos patrocínios que Peter tinha, os quais nos forneciam o material que precisávamos, ao ponto de ele me ter oferecido um dos primeiros modelos da Canon 5D para eu treinar.
Como já referi, conduzir na Escócia era uma dor de cabeça para mim. Nem sequer tentei. Talvez por isso, deixei-me influenciar pelo gosto de Peter por motas. Ao fim de seis meses em Edimburgo, comprei a minha mota. Sempre seria mais fácil acertar com o lado correcto e em caso de dúvida ia por cima no tracejado da estrada.
As pessoas que nos rodeavam, amigos e vizinhos, conheceram Peter antes de me conhecerem a mim. Sabiam da sua orientação sexual, até porque ele nunca o escondera. Isso fez com que fossemos vistos como um casal. Nunca me senti incomodado com essa situação. Em cerca de um ano na Escócia, conheci-lhe alguns casos amorosos, mas sem grandes perspectivas de futuro. Peter também não era homem de compromissos afectivos.
Peter e eu saíamos muitas vezes à noite, juntando-nos ao habitual grupo de convívio, na sua maioria homens a jogar na equipa de Peter. Curiosamente, os gays têm sempre as amigas mais giras das festas.
Depois dos últimos tempos em Portugal, Edimburgo trouxe-me uma época de realização. Adorava o que fazia, adorava a vida que tinha. Conheci imensa gente, estive rodeado de pessoas lindas, fascinado com a beleza de mulheres lindíssimas... Apesar das oportunidades, nunca me quis envolver com ninguém, nem mesmo se fosse algo só por uma noite. Nunca quis porque aquele cantinho especial no meu coração continuava lá, guardado, suspenso, esquecido numa recordação diária.
Recordo-me que já vivia ali havia pouco mais de um ano. Nesse período, a troca de mensagens com Jewel era escassa e regular, um compromisso que nos esforçávamos por cumprir de pelo menos uma vez por semana. Basicamente, relatávamos a nova vida e congratulávamo-nos com o sucesso do outro. De tempos a tempos, ela perguntava se eu já encontrara alguém que substituísse Francisca no meu coração. Não seria difícil encontrar, o problema é que eu tinha de encontrar uma substituta para Mafalda no meu coração. E isso não me parecia possível.
Eu adorava passear pela Cidade Velha de Edimburgo, principalmente ao fim do dia. Ir jantar à Grassmarket, beber um gin na Royal Mile... Naquela noite, fui jantar a um restaurante perto do Castelo de Edimburgo, na companhia de alguns amigos. Peter estava em Milão para acompanhar um evento de moda e eu ficara a assegurar os trabalhos de estúdio, durante a semana que estivesse ausente. Há algum tempo que deixara de ser seu assistente para ser um fotógrafo parceiro.
Saí do restaurante sozinho e desci a rua. Estávamos na Primavera, mas o ar era igual a Portugal em Dezembro, não deveriam estar mais de cinco graus. Caminhei calmamente, desfrutando do passeio, seguindo pela Royal Mile, vendo as várias pessoas que circulavam por ali. O meu destino era a South Bridge, lá em baixo, onde apanharia o autocarro para casa. Ao chegar à St. Gilles Cathedral, vi uma rapariga sentada no chão, encostada à parede, pedindo esmola. Não era incomum, ver alguns sem-abrigo, à noite, a pedir e a acomodar-se a um canto. O que me chamou a atenção foi o seu aspecto, quase como se fosse uma viajante que fizera uma paragem ali para colectar umas moedas e prosseguir. A rapariga tinha cabelo escuro curto, vestia um grosso blusão estilo montanhista e embrulhava-se num edredão colorido. A seu lado, uma mochila que deveria conter os seus parcos pertences.
Sem desviar caminho, aproximei-me, ouvindo-a num inglês estranho a pedir a quem passava que lhe dessem dinheiro para poder comprar algo quente para comer. Levei a mão ao bolso para constatar que não tinha um peni que fosse. A escassos cinco metros, perante a passagem de um casal que a ignorara, ouvi-a dizer:
— Obrigadinho por nada.
Falava português?
Nem me apercebi que parara, ficando a olhar para ela. E isso chamou a sua atenção, cravando-me o olhar em jeito de desafio. Percorri a distância que nos separava e baixei-me perto dela.
— És portuguesa?
Houve um momento de surpresa no seu rosto por se confrontar com alguém que falava a sua língua nativa. Porém, recompôs-se.
— Sou. — Simulou um sorriso. — Não queres ser um bom compatriota e dar-me umas moedas para beber qualquer coisa quente?
Tirei vinte libras da carteira e dei-lhe, perante o seu olhar arregalado. Apressou-se a esconder a nota, não fosse alguém ter visto e a tentasse roubar quando estivesse a dormir.
— Que faz uma portuguesa a pedir esmola numa rua de Edimburgo?
Calculo que tivesse vontade de responder que eu não tinha nada com isso. Só que eu fora simpático, dera-lhe aquela nota.
— É uma longa história. — respondeu em jeito de "vai-te lá embora".
Sentei-me no chão a seu lado, sentindo a pedra gelada.
— Eu tenho tempo.
A rapariga olhou-me incrédula, permitindo-me ver com mais atenção os seus olhos castanhos muito escuros e notar algum cansaço neles. Abanou a cabeça, aborrecida.
— Que idade tens? — perguntei num tom simpático.
— 25.
Era cerca de três anos mais nova que eu. Insisti na curiosidade pelas causas que a levaram ali. As pessoas passavam e olhavam-nos com estranheza, questionando-se o que fazia uma pessoa "normal" sentada no chão ao lado de uma sem-abrigo.
— Estás a afugentar a clientela. — reclamou, vendo que ninguém se aproximava.
Eu propus:
— Se me contares a tua história, ofereço-te uma refeição e bebida quentes.
Ela pareceu duvidar e estendeu a mão para que eu celebrasse o acordo com o dinheiro para pagar a oferta. Recusei, explicando-lhe que teria de confiar em mim.
O relato começou aos tropeções, pensando naquilo que queria e não queria contar. Aguardei paciente, ouvindo com atenção sem interromper. Ela era natural do Algarve, onde trabalhava nos bares em Albufeira. Conhecera um escocês. Imaginei um típico britânico daqueles que proliferam pelo sul de Portugal em bares, completamente bêbados e a causar desacatos. O seu olhar pareceu perder-se nas recordações. Ele cativara-a, ela apaixonara-se por ele. Ele parecia ter dinheiro, prometia-lhe imensas coisas. Percebendo que seria uma oportunidade para uma vida melhor, ela fez-se difícil, um beijo aqui, um beijo ali e mais nada. Se ele queria mais, tinha de a levar consigo. Segundo a rapariga, o escocês mostrava-se mesmo interessado em levar aquilo a sério e fizeram planos para ficarem juntos. Ela viajou com ele para Edimburgo. Ele explicara-lhe que era de uma localidade longe da capital, por isso, ficariam num hotel na noite em que chegaram e partiriam na manhã seguinte, de comboio, para a terra dele. Uma vez na Escócia, ela baixou todas as defesas e nessa noite dormiram juntos no hotel. Recordava-se que adormecera feliz, ansiosa por conhecer a família dele. Contudo, na manhã seguinte, acordou sozinha no quarto. Ele desaparecera. Não deixara nada e ainda lhe roubara o pouco dinheiro que tinha. Despertou para a cruel realidade, onde tudo não passara de um estratagema para a... Não se importou em usar a palavra "foder". Como pudera ser tão estúpida? Gastara as suas escassas economias com a viagem, permitira que ele registasse o quarto em seu nome... Tudo porque estava apaixonada e acreditara nas suas boas intenções.
— E depois? — questionei, perante a pausa no relato.
— Tentei colocar as ideias em ordem. Estava lixada. Não tinha um peni que fosse, o filho da puta levara tudo. Vesti-me e arrumei a mochila. — Apontou para o volume a seu lado. — Consegui sair do hotel sem que dessem por mim e fugi. — Olhou para as mãos com olhar vago. — Desde essa altura que vivo na rua.
— Isso foi há quanto tempo?
— Dois meses.
Suspirei, imaginando como teria sido passar parte do Inverno escocês a dormir na rua.
— Porque não pediste ajuda no Consulado? Talvez te ajudassem a regressar a Portugal
— Regressar para quê? — interrogou com um sorriso irónico. — Não tenho lá nada. Não tenho família, larguei a casa, não tenho emprego... O mais certo seria estar a dormir na rua, tal como estou aqui. — Mudou para um tom sarcástico. — Olha! Pelo menos aqui as esmolas são melhores.
Levantei-me do chão com os ossos doridos e o rabo gelado.
— Eh! Onde vais? — perguntou. — Deves-me uma refeição e uma bebida.
Sacudi as calças e respondi:
— Eu sei. Anda comigo! — A rapariga hesitou, estranhando ou até mesmo temendo algo. — Anda! Não estás à espera que te venha trazer as coisas aqui?!
Receosa, saiu debaixo do edredão e começou a enrolá-lo. Reparei nas calças gastas sujas e nas sapatilhas esburacadas. Prendeu o rolo na mochila como se fosse um saco-cama e colocou tudo às costas.
— Vamos? — indiquei, apontando para a estrada.
Ela começou a andar, acompanhando-me na descida pela Royal Mile.
— Como te chamas? — quis saber, sentindo o seu cheiro nauseabundo. — Eu chamo-me Daniel.
— Kátya. — informou, explicando. — Kátya com "k" e "y".
Sorri com o pormenor.
Perto do primeiro restaurante, Kátya disse:
— Não sei que pensas fazer, mas não sei se me deixam entrar ali.
— Não te preocupes, não te vou levar a um restaurante. — Ela parou subitamente preocupada. — Vou levar-te para minha casa. Estarás mais à vontade. — O seu rosto adquiriu uma expressão de quase pânico. — Não te preocupes. Não te vou fazer mal. — Permaneceu petrificada. — A sério, Kátya. Não tens de ter medo.
A custo, ela lá colocou um pé à frente do outro.
A noite estava cada vez mais fria. Na South Bridge, apenas mais duas pessoas aguardavam a chegada do autocarro, o qual chegou numa altura em que começava a chover.
Por muito forte que Kátya tentasse mostrar-se, reparei que se sentia intimidada pelos olhares condenatórios, quase enojados de quatro passageiros, pela sua presença dentro do veículo. O seu receio não se atenuou durante a viagem, nem ao chegar à minha morada. Deveria estar apavorada com a incerteza se a esperava uma refeição quente ou um destino trágico, caso eu fosse um psicopata.
Ao entrarmos em casa, Tio veio receber-nos. A gata mal ouvia a porta e vinha logo às escadas.
— Esta é a Tio. — apresentei.
Kátya tentou fazer-lhe uma festa, quando a gata se aproximou curiosa, mas Tio fugiu. Encaminhei-a pelas escadas. No seu rosto estampava-se o espanto pela dimensão do lugar. Deixou-se conduzir pela sala até às portas na extremidade oposta. Pedi-lhe que largasse a mochila ali.
Tio acomodara-se na sua cama junto ao sofá e observava-nos atenta.
— Estou a ver que és um gajo cheio de papel. — comentou, mais para aliviar os nervos.
Não me pronunciei e afastei-me para o meu quarto. Fui buscar um conjunto de toalhas e entreguei-lhas.
— Aqui tens. Aproveita e toma um banho quente enquanto preparo alguma coisa para comeres.
Kátya continuava hesitante. Por isso, abri a porta da casa de banho, acendi a luz e apontei-lhe o duche.
— Vá! Fica à vontade.
Na cozinha, preparei-lhe uma sopa instantânea bem quente, ouvindo o som da água a correr no duche. O duche demorou bastante tempo, o que compreendi, uma vez que ela já não deveria tomar banho desde que vivia na rua. As suas coisas imundas despertaram a atenção de Tio que foi farejar tudo, soltando depois um miar indignado e regressando ao seu canto.
O som parou. Passado algum tempo, a porta abriu-se.
— Queres que te faça um chá ou preferes café? — ofereci, vendo-a sair para a sala.
Kátya não respondeu, avançando para a cozinha. Trazia a toalha maior enrolada à volta do corpo, cobrindo desde o peito até abaixo da cintura. Reparei que era magra, demasiado magra, fruto da vida dos últimos tempos. As pernas esguias revelavam joelhos tortos, os braços tinham duas flores tatuadas. A toalha apertava-se à volta do peito bem-dotado. A cabeça fora coberta com a toalha mais pequena para secar o cabelo. Só o banho já lhe atribuía uma imagem muito mais leve e cativante.
Esperando uma resposta, vi-a parar junto à península que dividia a cozinha e a sala. Olhou para mim, séria.
— Se não te importas, prefiro que o façamos antes de comer.
A frase apanhou-me completamente de surpresa.
— De que estás a falar?
O rosto agastado forçou um sorriso escarninho.
— Sei bem para que me trouxeste para aqui. E quiseste que fosse tomar um banho. Ok, é justo.
— Achas que te trouxe para aqui para te levar para a cama? — inquiri incrédulo. — Pensas que estou a fazer isto para ter sexo contigo? — Ela assentiu. — Estás enganada. Não estou interessado.
A frase pareceu ofendê-la. Num instante, a perspectiva de ter de fazer sexo em troca de comida pareceu-lhe menos humilhante que ser rejeitada.
— Que foi? Não te agrado? — inquiriu zangada.
Adoptando uma postura séria, retorqui:
— Até podias ser a mulher mais linda do mundo. Eu jamais me aproveitaria da fragilidade de alguém para me usar dela.
Ela percebeu que me avaliara mal.
— Ok. Desculpa! Pensei...
— Não penses. — interrompi, empurrando a tigela da sopa na sua direcção. — Aproveita e come enquanto está quente.
Enquanto ela comia, desci ao estúdio. Nas sessões de fotografias para catálogos era comum que as marcas nos deixassem peças de roupa, sapatos... uma espécie de brindes. Deixavam para homem e para mulher, pois poderíamos querer oferecer a alguém. À conta disso, o estúdio tinha já um considerável guarda-roupa que nós também aproveitávamos para outras sessões. Fui buscar umas calças de ganga, uma camisola de lã, umas meias grossas, umas cuecas e um sutiã, esperançado em ter adivinhado as suas medidas.
Ao regressar, entreguei-lhe tudo, dizendo:
— Vou dar-te um saco para colocares a roupa que trazias. Vais deitar aquilo fora. Tens aqui roupa lavada para ti. Deitas fora também aquele edredão imundo.
— E como é que passo a noite na rua com este frio? — perguntou, indignada.
— Não precisas de te preocupar com isso. Esta noite ficas aqui. — Kátya ficou boquiaberta. Eu continuei. — Guarda as coisas que possam ter um significado especial para ti. O resto, enfia na mochila e vai tudo para o lixo.
Sem dizer qualquer palavra, Kátya terminou a sopa, pegou na roupa que lhe dera e regressou à casa de banho. Alguns minutos volvidos, regressou à sala com a indumentária que lhe arranjara no estúdio. Pegou no saco do lixo que lhe dei e enfiou lá a roupa velha, o edredão e a mochila com tudo o que não interessava. Ficou apenas com os documentos e uma caixa pequena. Atou o saco para que o cheiro não saísse e estacionou-o no cimo das escadas. Tio andou à volta dela e acabou por a deixar afagar-lhe o pêlo. Por fim, sentou-se no sofá com os olhos fixos em mim.
— Pronto, fiz o que me mandaste. Desculpa o cepticismo, mas tenho alguma dificuldade em acreditar que fazes tudo isto por mim sem querer nada em troca.
Observei-a de forma analítica, agora que estava lavada e arranjada percebia-se que era uma rapariga bonita.
— Já te disse que não te estou a ajudar para te levar para a cama.
— Então, diz-me o que queres de mim. — exigiu. Depois, olhou em volta. — Já sei. Recebes pessoas aqui. Queres que me prostitua para ti, é isso?
— Já pensaste em escrever histórias? Tens uma imaginação...
— Merda, pá! Deixa-te de jogos e diz logo o que queres.
Ofereci-lhe um sorriso tranquilizador.
— Lamento a tua falta de crença na Humanidade. Sei que a maioria corresponde à tua ideia, é verdade. Só que ainda há alguns exemplares perdidos que até fazem umas coisas sem quererem nada em troca. — Fiz uma pausa como se ponderasse algo. — Bom, até quero algo em troca. — Tornei a sorrir. — Um "obrigado" sabia-me bem.
Kátya permaneceu na dúvida, custava-lhe a acreditar.
— Não estás a fazer isto para obter algo? Não vou acordar amanhã sem um rim?
Não contive uma gargalhada.
Ela levantou-se do sofá e foi buscar a caixa que retirara da mochila. Abriu-a e retirou um maço de tabaco.
— Importas-te que fume?
— Importo. — impedi, travando o seu movimento de retirar o cigarro. — Não quero fumo aqui dentro. Se tens mesmo necessidade de fumar, terás de ir fazê-lo à rua.
O cigarro regressou ao maço.
— Como é que alguém que anda a pedir na rua tem dinheiro para tabaco?
— Da mesma forma que tem para a comida, ou seja, não tem. — explicou, fechando a caixa. — Não te vou mentir, eu roubei o maço.
— Só roubaste tabaco? — inquiri com um olhar inquisidor.
— Não. — respondeu sem querer dar mais pormenores. — Na rua tens de sobreviver...
Não ia fazer daquela conversa um interrogatório, mas tinha uma última questão:
— E drogas?
— Pareço-te uma drogada? — retorquiu. Eu aguardei a resposta. — Não, nunca me meti em drogas. Fumei umas cenas na adolescência, nada mais.
Tio deu uma volta na sua cama, procurando a melhor posição. Notei o seu desconforto, queria descansar e nós estávamos ali a perturbar o seu descanso.
— É melhor irmos dormir. — sugeri, olhando para as horas.
Levantámo-nos em simultâneo e indiquei-lhe o quarto onde iria dormir.
— A porta tem chave? — perguntou, observando o quarto.
— Sim. Podes trancar a porta se isso te fizer sentir mais segura.
Kátya abanou a cabeça.
— Não é isso. Leva a chave e tranca a porta por fora. Dormirás mais seguro e descansado, não vá eu roubar alguma coisa e fugir.
— Eu confio em ti. — afirmei, recusando a ideia de a trancar. — Não fumes no quarto. Se tiveres mesmo necessidade, podes abrir a janela e fumar lá fora.
Sei que foi arriscado. Ela poderia aproveitar a ocasião, roubar algumas coisas valiosas que tínhamos em casa e fugir enquanto eu dormia. Porém, não senti esse receio, Kátya era uma alma ferida a desfrutar de abrigo.
Na manhã seguinte, acordei tranquilo, recordando-me que abrigara uma conterrânea em minha casa. Saí do quarto e encontrei Tio sentada defronte da porta do quarto onde Kátya dormia, como se a esperasse.
— Não faças barulho, Tio. — sussurrei. — Deixa a rapariga descansar.
Fui tomar um banho e arranjar-me para mais um dia frio em terras caledónias. Ao voltar a sair do quarto, Tio permanecia no mesmo sítio. Avancei para a porta e, antes de bater, a gata levantou-se atenta com o focinho numa expressão de "vá lá, acorda-a". Bati suavemente na porta. Ninguém respondeu. Bati ligeiramente com mais força e chamei-a pelo nome. Novamente, não houve resposta. Teria ido embora? Levei a mão ao puxador e rodei. Abri a porta com cuidado e espreitei para o interior.
Kátya dormia profundamente, estendida na cama e recuperando das muitas noites mal dormidas ao relento. Sei que deveria ter saído imediatamente, mas não consegui evitar observar a cena. Ela dormia de barriga para cima, atirara a roupa da cama para o lado e o seu corpo nu estava completamente exposto aos meus olhos. Os olhos cerrados, a boca aberta ecoando um ressonar quase sussurrado. Tal como suspeitara, tinha seios volumosos, acentuados pelos sinais de magreza, onde os mamilos se espetavam como duas antenas. As costelas começavam a notar-se sob a pele. Um dos braços estava pendurado na cama, enquanto o outro repousava sobre a sua cabeça, revelando os pêlos nas axilas. Os meus olhos desceram para a cintura. As pernas estavam afastadas e um tufo grande de cabelo escuro sobressaia entre elas. Reparei que tinha uma cicatriz na coxa e que muitos pêlos se espalhavam dos joelhos até aos pés.
Não vou mentir, senti desejo por ela.
Silenciosamente, voltei para trás e fechei a porta.
— Nem um miau sobre isto, Tio! Ouviste? — A gata soltou o seu característico miar. — Ainda bem que entendeste.
Caminhei até à cozinha e preparei o pequeno-almoço.
Cerca de quinze minutos mais tarde, saboreava eu uma torrada ainda com o quadro da manhã no pensamento, Kátya saiu do quarto embrulhada num cobertor e com o rosto estremunhado, abrindo os olhos com dificuldade devido à forte luminosidade.
— Bom dia! — atirou. Apontou para a casa de banho. — Posso?
— Bom dia! Claro, estás à vontade.
Kátya desapareceu no seu interior. Ouvi a água a correr. Tio tornou a cirandar pelas portas dos quartos, curiosa a todos os sons, fugindo quando a minha hóspede reapareceu, escondida no cobertor e com um semblante mais desperto. Voltou ao quarto para tornar a aparecer já vestida com as roupas que lhe dera na noite anterior.
— Dormiste bem? — perguntei, quando se sentou a meu lado ao balcão.
— Não dormia assim há tanto tempo...
Na sua frente, Kátya tinha pão, chá e compota. Devorou tudo.
Fiz café para ambos.
— Quando queres que me vá embora? — perguntou timidamente após o café.
— Não te preocupes com isso agora. — descansei-a. — Tenho outros planos para hoje. — O seu olhar denunciou o receio do que estaria para vir. — Bolas, continuas com medo?
— Não fazes ideia por aquilo que já passei.
— Compreendo. Mas não precisas de ter medo. Quero ajudar-te a arranjar um trabalho e um sítio onde viver. Não quero que voltes para a rua. — Ela ficou comovida. Sorri-lhe com ternura. — Podes achar tudo isto estranho. Imagino a solidão que tenhas passado, desde que vieste parar a Edimburgo. Tenta esquecer isso. Agora tens um amigo que te vai ajudar. — Pisquei-lhe o olho. — E faço-o sem querer roubar-te um rim.
— Obrigado! — agradeceu, controlando a emoção.
O meu primeiro plano seria levá-la ao Consulado. Queria saber se a documentação dela estava toda em ordem e tratar dos requisitos necessários para conseguir arranjar um emprego na Escócia.
Descemos as escadas. Parei no piso inferior, abrindo a porta do estúdio para ir buscar um casaco para ela.
Ao entrar, Kátya surpreendeu-se com o lugar.
— És fotógrafo?
— Sim. Partilho este estúdio e a casa com outro fotógrafo português.
Ela olhou em redor e depois para mim.
— Ah... Percebo. Por isso é que me rejeitaste.
— Como assim? — questionei, entregando-lhe um dos meus blusões de cabedal.
— Tu e ele... Vocês... — Como não completei a sua frase, ela fê-lo. — És gay!
Ri-me divertido.
— Sim, é isso. Descobriste tudo. Sou gay.
Ela não pareceu convencida.
— A sério? Vá lá. Diz-me a verdade!
— Isso é importante?
— Sou curiosa.
— E vais continuar curiosa. — retorqui, voltando a fechar a porta do estúdio. — A orientação sexual é uma coisa privada.
Kátya encolheu os ombros, aborrecida. Mesmo assim não se deu por vencida e, já na rua, insistiu:
— Deves fotografar muitas mulheres naquele estúdio?!
— E homens também.
— E gostas mais de fotografar quais?
— Ambos.
Ela silenciou-se por breves instantes e concluiu:
— És bissexual.
Kátya permaneceu lá em casa mais três dias, tempo suficiente para lhe encontrar um lugar onde ficar. Havia espaço na casa de Peter, mas não queria tomar uma decisão dessas sem o seu consentimento, nem colocá-lo perante essa questão quando chegasse. Por isso, aluguei-lhe um pequeno apartamento nos arredores de Edimburgo, somente com uma sala, cozinha e WC, o suficiente para que não dormisse na rua. Ela recusou a minha proposta, não queria viver à minha custa. Argumentei que me poderia pagar tudo quando a sua vida melhorasse e ela passou a apontar o preço de tudo o que lhe dava.
Parecia que estava a sustentar a amante, pagava a renda, as despesas da casa e alguma coisa que lhe fizesse falta. Felizmente, podia fazê-lo, pois atravessava uma época fantástica de trabalho e rendimentos. Contudo, ao fim de duas semanas, Kátya conseguiu emprego a servir às mesas num restaurante na George Street e deixou de necessitar parcialmente do meu apoio.
Com o tempo, tornámo-nos muito próximos, verdadeiros amigos. Apesar de a nossa relação não ir além da amizade, sempre que nos encontrávamos, o nosso cumprimento era um beijo nos lábios do outro. A sugestão fora dela, queria de alguma forma demonstrar que eu era especial e que me estava grata por a ter salvo da vida na rua. A nova rotina modificou-lhe a imagem para melhor, ganhara peso e deixara crescer o cabelo. Sempre que as nossas folgas coincidiam, levava-a a passear na minha mota. Outras vezes, ia buscá-la ao restaurante no final do trabalho e íamos para casa dela ver filmes ou conversar até de madrugada. Numa dessas conversas, abri o meu coração e partilhei com ela a minha história com Mafalda.
As mensagens de Jewel tornaram-se irregulares. Comecei a pensar que, mais tarde ou mais cedo, a comunicação se perderia por completo. Porém, perto do Natal, enviou-me um email a combinar que conversássemos online nessa noite. Assim, na hora marcada, lá estava eu defronte do computador.
As conversas já não aconteciam tanto nas salas virtuais, uma coisa chamada Messenger ganhara a preferência dos cibernautas, um programa parecido com o ICQ, melhorado e que nos permitia falar directamente com os nossos contactos. Claro que ainda existiam e continuariam a existir as salas de chat. E na época começava a surgir o conceito de redes sociais com sítios online onde se criavam perfis e se acumulavam amigos, como o Hi5 e o Facebook.
"Tenho uma novidade para te contar"
Li aquilo, temendo a novidade, quase como se adivinhasse.
"Marcámos a data do casamento."
"Parabéns", escrevi sem sinceridade. Seria mais um passo para o aniquilar permanente da minha esperança em relação a ela.
"Gostava que ficasses feliz por mim."
"Se estás feliz, eu estou feliz", menti.
"Vai ser um dia muito importante para mim. Talvez um dos mais importantes da minha vida."
E que tenho eu com isso? Adorava-a, mas tinha vontade de desligar. Ela esclareceu ao que vinha:
"Queria que estivesses presente. Seria muito importante para mim."
Espantei-me com o convite.
"Não me peças isso."
"Tu és meu amigo. Sei que tem sido uma amizade à distância, mas isso não te torna menos especial para mim."
"Sabes o que sinto por ti. Não é amizade, é muito mais que isso."
"Eu sei."
"Não achas que seria cruel ter de testemunhar o teu casamento com outro?"
"Gostava que não o visses dessa forma. Disseste que ficarias feliz por mim."
Não respondi logo e houve uma pausa. O icon dela permanecia online.
"Ok. Compreendo que não queiras vir. Sou forçada a aceitar que aquilo que te disse, quando nos encontrámos, afinal não passava de uma ilusão."
"Referes-te àquilo que jurámos não repetir?"
"Refiro-me à despedida, quando te disse: aconteça o que acontecer, nunca sairemos da vida um do outro."
"Achas que é uma ilusão?"
"Diz-me tu."
"O que temos, o que nos liga é real. Não te quero perder, mesmo que cases com outro. Nem vou deixar de te amar depois de casares com ele."
"Vou enviar-te o convite. Espero que aceites e compreenderei se não apareceres. Ficarei triste, se não estiveres presente. Mas não deixarei de ser tua amiga."
Prometi pensar no assunto.
Nesse Natal, Peter ausentou-se para passar a quadra com a família em Portugal. Agendara duas semanas de férias e só regressaria nos primeiros dias do novo ano. Kátya e eu não tínhamos família, por isso, combinámos partilhar a Consoada um com o outro na fria e gelada cidade de Edimburgo. O sítio escolhido foi o apartamento onde eu vivia e trabalhava.
Não havia um único motivo natalício em casa. Não deixava de ser paradoxal com o ambiente da cidade, a qual até tinha lojas só dedicadas ao Natal com uma imensidão de artigos. Desde que o meu tio falecera que a quadra tinha um significado triste, uma sensação de vazio. Daí que a encarasse com a maior naturalidade, dias como quaisquer outros.
Encomendei o jantar num take away próximo de casa. Montei mesa para dois na península da cozinha e abri uma garrafa de vinho tinto. Lá fora, a neve despenhava-se com suavidade nas ruas. Kátya chegou à hora combinada, carregando um pequeno saco com presentes e uma muda de roupa, pois passaria a noite ali. Ao entrar, trocámos o beijo só nosso. Senti-lhe o cheiro agreste do tabaco.
— Estiveste a fumar?
Ela evitou-me o olhar de culpa e confessou:
— Não queres que fume cá em casa, aproveitei para um último cigarro antes de entrar.
— Devias deixar de fumar, isso ainda te vai matar.
Kátya esbracejou, como se atirasse essa ideia para longe, subindo as escadas. Largou o sobretudo grosso nas costas do sofá e pediu para ir deixar o saco no quarto que lhe destinara para essa noite. Fiquei a observar os seus movimentos, estava cada vez melhor, mais curvilínea com o cabelo cada vez mais comprido que só lhe atribuía mais charme.
Desfrutámos do jantar ao som de música ambiente, sentados de frente um para o outro, em bancos altos, com o balcão entre nós. A meio da refeição, disse:
— Falei com a Mafalda no outro dia. — Ela encarou-me atenta sem qualquer expressão. — Marcou a data do casamento.
Houve um suspiro, os olhos desviaram para o copo.
— Sabias que esse dia ia chegar.
— Sim... — concordei, agastado. — Isso não o torna menos difícil. — Esperei que bebesse o vinho. — Ela convidou-me para o casamento.
Kátya soltou um riso incrédulo.
— O quê?
— Diz que é um dia importante e quer que todas as pessoas importantes na vida dela estejam presentes.
Vi-a abanar a cabeça, ficando depois a ponderar a situação.
— E tu? Vais?
— Seria muito doloroso vê-la casar com outro homem. — confessei. — Por outro lado, sinto que estou a dar um duro golpe na nossa amizade. — Esperei obter uma opinião sua. Kátya não se manifestou. — O que achas?
— O que eu acho? — repetiu. — Acho que não me cabe a mim tomar a decisão por ti. — Passou a mão pelo cabelo, sinal que me habituara a reconhecer como desconforto perante algo. — A única coisa que te posso dizer é que, se quiseres, eu posso ir contigo.
Sorri-lhe.
— Serias capaz de fazer isso por mim?
Os seus olhos acarinharam-me, ofereciam-me uma paz, um abrigo de emoções.
— Percebo que aches que a estás a magoar, se não fores. Também sei o quanto será difícil para ti. — A sua mão agarrou a minha. — Jamais te deixaria enfrentar isso sozinho.
— Tu és uma boa amiga.
O rosto de Kátya fez um esgar de algo parecido com decepção. Apertou a minha mão com ternura e olhou-me intensamente nos olhos.
— Poderia ser mais que uma boa amiga, se quisesses.
A confissão não foi surpresa. Desde algum tempo que a notara melosa e quase apaixonada nos momentos que partilhávamos. Fingi sempre que não reparava. Porém, naquele momento, não havia como me desviar.
Acariciei o seu pulso com os dedos, dizendo:
— Não seria justo para ti. Mereces alguém que esteja contigo de alma e coração. Não alguém que tem outra mulher na cabeça.
Kátya sorriu vencida e soprou-me um beijo.
— Desculpa se te deixei desconfortável, Daniel.
— Não. Sinto-me lisonjeado. — corrigi, vendo a mão dela afastar-se. — És uma mulher muito atraente. Tenho a certeza que encontrarás o teu príncipe. — Frase péssima para se dizer a uma mulher apaixonada. Quase lhe podia ler no rosto "o meu príncipe és tu".
O assunto terminou ali. Kátya quebrou o ambiente, relatando uma situação sem importância que acontecera no restaurante. Prolongámos a noite com conversa, sentados no sofá, mergulhados na sensação agradável de estar na companhia do outro. Tio deitara-se entre nós, encostada a ela e com uma pata sobre a minha perna. Aguardámos a meia-noite a contar os segundos como se fosse a entrada de um novo ano e trocámos presentes. Kátya ofereceu-me um livro de fotografia, o qual trazia na primeira página uma mensagem manuscrita por ela: "Obrigado por tudo o que fizeste por mim. Salvaste a minha vida. És o meu anjo. E eu sou tudo aquilo que quiseres que seja na tua vida. Beijo do meu coração no teu. K". Emocionei-me ao ler aquilo. E ela emocionou-se por eu me ter emocionado. Debrucei-me para ela e beijei-a. Eu não fui tão sentimental, oferecendo-lhe um relógio. Tio teve direito a uma manta nova e um brinquedo.
Logo que terminaram os presentes, Kátya não conteve um bocejo.
— Desculpa...
— Está na hora de irmos dormir. Já é tarde.
Levantámo-nos ao mesmo tempo, perante o protesto miado de Tio que se aquecera entre nós. Caminhámos para as portas do quarto.
— Posso fazer-te uma pergunta? — pediu, travando o passo.
— Claro.
A voz saiu-lhe hesitante:
— Há... Há quanto tempo... Há quanto tempo não...? — A princípio não percebi. Ela deu a sua resposta, elucidando-me. — Eu não o faço desde aquela noite em que cheguei a Edimburgo. — Mesmo assim, fiz de conta que não percebi. — Sexo, Daniel. Há quanto tempo não fazes?
Olhei para o tecto e abanei a cabeça. A que propósito vinha agora aquela pergunta?
— Que interessa isso agora?
— Vá lá, sabes que sou curiosa.
Há demasiado tempo, pensei. Respondi:
— Há algum tempo.
Kátya percebeu que o "há algum tempo" era um "há algum muito tempo". Colocou a mão no meu peito e numa voz sussurrada, sugeriu:
— Queres descontrair um pouco comigo?
— Kátya... — suspirei, lutando contra a sua vontade e a minha.
— Daniel. Sem cobranças. — insistiu. — Só um pouco de prazer. Nós merecemos.
— Não, Kátya. — recusei da forma mais terna que consegui.
Ela assumiu a derrota, esticando-se para mim e despedindo-se com um toque da sua boca nos meus lábios.
— Até amanhã, Daniel!
— Até amanhã Kátya! — retribuí, vendo-a fechar a porta do seu quarto.
O convite para o casamento de Mafalda chegou no mês de Janeiro sem falhar a morada que eu lhe enviara por email. Também por email, confirmei-lhe a minha presença e que iria acompanhado por uma amiga de nome Kátya.
O casamento de Mafalda estava marcado para Maio na igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, sendo a festa posterior numa quinta de eventos entre Coimbra e a Figueira da Foz.
Peter e eu estávamos cada vez com mais trabalho, por isso, tive de agendar muito bem os dias de Maio para ficar com disponibilidade para viajar até Portugal, algo que me roubaria três a quatro dias desse mês. Organizei a viagem e a estadia atempadamente. Iríamos viajar de Edimburgo para o Porto, onde alugaríamos um carro para nos deslocarmos até Coimbra. Na cidade dos estudantes, reservei um quarto num hotel. Inicialmente, quis reservar dois para cada um de nós, mas Kátya discordou alegando que podíamos ficar no mesmo quarto duplo com duas camas de solteiro e poupar algum dinheiro. Para além disto, ainda tive de comprar um fato e Kátya um vestido.
Quando queremos que o tempo passe depressa, cada minuto parece uma hora. Quando não temos pressa que um dia chegue, como era o caso, rapidamente se chegou a Maio.
Tio ficou aos cuidados de Peter, que repetiu diversas vezes que não me preocupasse, ao sair de casa com a bagagem. Apanhei um táxi e segui para o aeroporto fazendo escala para ir buscar a minha parceira.
A viagem de avião foi tranquila. Ao aterrarmos no Porto, a diferença de temperatura foi evidente, pois se na Escócia ainda parecia Inverno, ali a Primavera ia lançada. Fomos ao rent-a-car para que nos entregassem o automóvel que solicitara pela Internet, um veículo com GPS, uma vez que não conhecia nada a norte de Lisboa. E rumámos a Coimbra.
Os primeiros momentos de condução foram complicados, desabituara-me de conduzir carros e de circular pela lado certo da estrada. Ao início da noite, chegámos à recepção do hotel.
— Boa noite! Têm um quarto reservado em meu nome. — disse ao funcionário, adicionando a minha identidade.
O homem fardado com traje formal e as insígnias do hotel consultou os registos num computador e confirmou a reserva.
— Sim, um quarto com cama de casal para duas noites.
— Cama de casal? — interroguei com surpresa.
O outro olhou para mim e para Kátya, não percebendo onde estava o problema. Eu expliquei:
— Tinha pedido um quarto duplo com duas camas de solteiro.
Novo dedilhar no computador, o rosto começou a alterar-se, denotando que existira um erro.
— Peço imensa desculpa. Tem razão. Só que há um problema, estamos lotados, não temos mais nenhum quarto.
— E não podem trocar as camas? — questionei irritado.
Ele olhou para Kátya, talvez perguntando-se porque não queria eu dormir na mesma cama que ela. Adoptou um tom lamentoso e numa quase súplica, esclareceu:
— Infelizmente, não. Podemos, se calhar, colocar mais uma cama de solteiro...
Nesse momento, Kátya aproximou-se de mim e sussurrou-me que não me preocupasse, que deixasse as coisas como estavam.
— Deixe estar. Não será necessário.
O nosso quarto ficava no segundo andar, um espaço simples com uma janela, casa de banho e cama de casal. Largámos a bagagem a um canto, sentindo todo o cansaço acumulado, e pedi algo para comer ao serviço de quartos.
A cama não foi problema, só seria se o tornássemos num problema. Kátya estava perfeitamente à vontade para a partilhar comigo e existia um respeito mútuo em não invadir o espaço do parceiro.
Enquanto ela mudava de roupa na casa de banho, eu abri a cama, despi toda a roupa excepto os boxers e meti-me na cama. Kátya saiu com o seu pijama vestido, uma camisola ajustada ao corpo e calções curtos. Enfiou-se por baixo do lençol e cobertor, a meu lado, sorrindo divertida.
— Nada de ideias.
— Não sejas tola.
Trocámos um beijo cansado, virámos costas e adormecemos tranquilamente.
Pela manhã, bem cedo, estávamos prontos a sair do hotel. Eu vestia um fato cinza-escuro com uma camisa preta, gravata listada em ambos os tons e sapatos pretos. Sempre detestei vestir-me com formalidade. Deslumbrante, era o mínimo que poderia dizer para caracterizar Kátya, desfilando com um vestido azul sem costas nem mangas, seguro à volta do pescoço, onde a saia terminava acima dos joelhos. Caminhava em sapatos de salto alto. A sua pele parecia polida e o rosto maquilhado intensificava a sua beleza.
Durante a viagem, Kátya colocou a questão:
— Qual queres que seja o meu papel?
— Como assim?
— Queres que me comporte como tua amiga, tua namorada, tua mulher?
— Quero que sejas aquilo que és, minha amiga. — esclareci, desviando a atenção para ela. — Não vim fazer ciúmes à Mafalda.
Com a ajuda do aparelho de navegação, encontrei o local da cerimónia. Nunca o conseguiria sem ele. A igreja ficava após umas ruas estreitas que desembocaram num largo que já se apinhara de carros de dezenas de convidados para o evento. Estacionei no primeiro espaço que encontrei.
Defronte do largo, os portões abertos davam passagem para um amplo terreno empedrado, onde os primeiros automóveis puderam estacionar. Homens de fato e mulheres de vestidos elegantes e caros aguardavam espalhados pelo espaço, perto das altas portas do edifício religioso. Notei alguns olhares curiosos acerca de quem seriamos nós.
Ao fim de algum tempo, alguém veio anunciar que começássemos a entrar, uma vez que não faltaria muito para a noiva chegar. Quase todos os convidados iniciaram a subida dos degraus e nós seguimo-los para o interior da igreja. Escolhi uma das últimas filas, no sector esquerdo sem fazer ideia se havia lados destinados aos convidados do noivo e da noiva. Sentámo-nos e esperámos.
Confesso que me sentia ansioso, nervoso pelo o momento em que revisse a mulher que roubara o meu coração, aquela que se iria casar com outro. Kátya quebrou-me os pensamentos, apontando para perto do altar, indicando um homem que concluí ser o noivo. Não o conhecia, nunca o vira e já o odiava. E acho que a minha maior raiva foi perceber que era mais bonito que eu, um tipo alto e bem parecido, cabelo castanho-claro, rosto cativante barbeado, postura recta e estrutura forte. Ok, Mafalda, eu percebo.
A música começou a tocar a marcha nupcial, alertando para o momento em que a noiva iria entrar na nave. Vi uma figura feminina completamente de branco avançar por entre os bancos, de braço dado com um senhor que seria o pai. O vestido branco envolvia-a por completo e prolongava-se com uma cauda comprida que limpava o chão atrás de si. O rosto, apesar do véu, era bem visível.
Kátya aproximou os lábios da minha orelha e segredou:
— Ela é linda!
A quem o dizes...
Ao aproximar-se da linha de assentos onde eu estava, o olhar de Mafalda cruzou-se com o meu. Sorriu e piscou-me um olho, satisfeita por confirmar que eu viera.
O pai acompanhou-a até ao noivo, trocaram algumas palavras impossíveis de ouvir dali e o casal virou-se para o padre que aguardava.
A cerimónia foi entediante. Tive de suportar a lengalenga do sacerdote, proferindo frases como se fosse dono da verdade, ditando leis retrógradas, intervaladas por familiares próximos dos noivos a ler passagens bíblicas como colagem ao que deveria ser o futuro dos noivos e trechos de música angelical. Que seca...
Chegou o momento em que o padre voltou a atenção para todos os presentes e discursou as frases da ordem, desafiando todos os que tivessem algo a dizer contra aquela união que se manifestassem ou calassem para sempre. Sim, imaginei-me a fazer isso. Kátya pareceu ler o meu pensamento e segurou a minha mão, apertando-a. Olhei para ela, sorrindo, e sussurrei:
— Achas?
Ela retribuiu o sorriso e beijou-me a face.
— Ela é que perdeu.
Não Kátya, ela não perdeu. Quem perdeu fui eu, perdi-a a ela, o amor da minha vida.
O padre proferiu as últimas bênçãos e declarou-os marido e mulher.
Após algum tempo de espera, onde os recém-casados desapareceram na sacristia com o padre e algumas pessoas próximas, os convidados foram-se juntando no corredor entre os bancos. Percebi com o regresso do casal que se formava fila para os cumprimentar.
— Vamos? — perguntou Kátya.
— Vamos. — confirmei sem vontade de lá ir.
As pernas tremiam-me. Kátya caminhava de mão dada a meu lado. A escassos metros deles, ela apertou-me a mão, recordando-me que estava ali para mim, para me amparar.
Mafalda abriu um enorme sorriso quando me viu. Parei na sua frente, encadeado pela beleza do seu olhar, pela sua doçura, por tudo o que me fizera irremediavelmente apaixonado por ela no breve e único encontro que tivéramos, quase seis anos antes.
— Olá, Daniel! Que bom que vieste. — disse ela, visivelmente feliz por me ver. Olhou para o marido. — Tiago, este é o Daniel, o meu amigo de Edimburgo.
Tiago? O gajo chama-se Tiago? Não poderia ser melhor, o tipo ter o nome de alguém que me infernizou a vida.
Numa postura simpática, estendeu-me a mão. Aceitei o cumprimento, ouvindo-o agradecer:
— Obrigado por terem vindo.
Dei dois beijos nas faces maquilhadas de Mafalda.
— Parabéns!
— Obrigada. — agradeceu, desviando o olhar para o meu lado.
— É a Kátya. — apresentei, enquanto ela felicitava ambos.
Mafalda sorriu-lhe com a sua afabilidade natural.
Não nos demorámos mais, pois havia mais gente para os congratular.
Enquanto saíamos da igreja, Kátya disse:
— Compreendo a tua paixão, Daniel. Ela é linda e parece ser uma pessoa maravilhosa. É cativante logo ao primeiro instante. Até eu que sou mulher, acho que era capaz de me apaixonar por ela.
Não me pronunciei, limitando-me a rir com o seu comentário.
O evento prosseguiu numa quinta localizada a alguns quilómetros em direcção à costa. Para não ter de procurar o local, aproveitei e persegui a fila de carros de outros convidados.
O local era uma propriedade enorme onde se entrava através dos portões largos e altos em cor verde. Os automóveis arrumaram-se no parque que inicialmente me parecera pequeno para tantos.
Ao entrar nos jardins, vários empregados de bandeja ofereciam petiscos e bebidas aos convidados. Tudo tinha um aspecto sumptuoso. A seguir aos jardins, erguia-se uma tenda enorme que serviria de salão à festa. Durante uma hora, a comitiva ficou pelos jardins em pequenos grupos, conversando. Eu e Kátya estacionámos por baixo de um carvalho e matámos o tempo a comentar os quadros que se explanavam defronte de nós.
Seguiu-se o momento de tirar fotos com os recém-casados. Mais uma vez se formou uma fila de gente para registar o dia para a eternidade.
— Queres ir?
— Dispenso. — recusei. Queria esquecer aquele dia.
Não houve tempo para todos os convidados serem fotografados com o casal, os restantes teriam de aguardar nova oportunidade mais tarde. Caso contrário, arriscávamo-nos a almoçar à hora do jantar.
Conforme entravam na tenda, as pessoas analisavam o mapa com o nome das mesas e os lugares atribuídos a cada convidado. O mapa tinha uma mesa rectangular no topo do salão com dez lugares, era o ponto principal, o lugar dos noivos e familiares mais próximos. Depois, várias mesas redondas com oito lugares. Nós fomos colocados numa das pontas, numa daquelas mesas para onde se atiram os convidados que não se sabe muito bem com quem emparelhar.
Kátya olhou para os nomes da nossa mesa e viu o seu.
— Cátia. — leu com indignação. — É Kátya com "k" e "y".
— Foi como eu escrevi no email.
— Pois parece que alguém não sabe ler.
Nunca percebi muito bem porquê, mas ela levava muito a sério a forma como escreviam o seu nome. E irritava-se convictamente, quando o faziam com letras erradas.
A nossa mesa era composta por mais três casais, uns tios de Mafalda que viviam na Suíça e raramente a viam, dois ex-colegas da faculdade com ar macambúzio e de poucas falas e um casal jovem muito simpático. Este casal jovem era composto por Vânia, uma grande amiga de Mafalda e o namorado.
— Ela teve muita dificuldade em distribuir os convidados. — explicou-nos a meio da refeição. — Eu ajudei-a. É aquela coisa de terem de juntar uns com outros que se dão melhor, manter afastados as pessoas que não se entendem, enfim, cenas como existem em todas as famílias. — Kátya e eu não sabíamos o que isso era. — Nós acabámos aqui.
Vânia tinha um ar exótico, muito expressiva e simpática. Falava e falava e falava. O seu ar exótico era resultante da sua ascendência goense. Os avós tinham fugido de Goa com o pai dela, após o abandono do território pelos portugueses, refugiando-se em Moçambique. Contou-nos que não durou muito, pois com a Guerra do Ultramar vieram retornados para a metrópole. Vânia já nascera em Portugal, curiosamente no mesmo ano que a amiga, o que não dissipou em nada as suas origens. Era bonita, cabelo encaracolado a envolver um rosto afável. Trouxera um vestido rosa com decote pronunciado. Não duvidei que gostava de sobressair.
— Tu és o amigo de Edimburgo. — constatou, quando lhe disse onde vivia. — A Mafalda fala muito em ti... — Interrompeu-se, olhando para Kátya. — E o que fazes?
— Sou fotógrafo.
Não perguntei o que ela ou o namorado faziam profissionalmente. Simplesmente não me interessava. Vânia alterou o destino da conversa para os dois jovens médicos no lado oposto da mesa.
A refeição foi servida. De tempos a tempos, alguém fazia barulho e todos começavam a berrar para que o casal trocasse um beijo. Eu evitava olhar. Entre sopa, primeiro prato, segundo prato e sobremesa, devem ter passado duas horas. Eu só queria uma oportunidade para me ir embora.
Terminada a refeição, começou a festa com um indivíduo cheio de tatuagens a colocar música para os convidados e a felicitar vezes sem conta o casal, desejando que fossem felizes para sempre. Mafalda e o marido abriram a pista dançando a tradicional valsa. Dava para perceber no seu olhar como estava feliz.
Eu não queria dançar, mas Kátya insistiu. Ela gostava de dançar e não seria justo recusar isso a alguém que se dispusera a acompanhar-me àquele suplício.
Após a dança, Kátya foi ao jardim para fumar um cigarro, algo que repetiu umas cinco vezes até irmos embora. Nesse instante, aguardei sentado no meu lugar, sozinho. Vinda de trás de mim, Vânia sentou-se a meu lado.
— Está a ser uma bela festa. — disse ela, olhando em redor. — A Mafalda está muito feliz. — Proferi um som neutro em concordância. Olhou para mim. — Vocês já se conhecem há algum tempo?!
— Falamos na net há uns sete ou oito anos.
— Ela falava muito em ti. Dizia que tu devias ser uma pessoa espectacular. — Encolhi os ombros, não querendo ser juiz em causa própria. Vânia alterou a atenção para os vidros amplos da tenda. — A rapariga que veio contigo?
— Foi lá fora.
— É tua mulher? — Abanei a cabeça. — Namorada?
— É minha amiga, uma grande amiga.
Vânia franziu o rosto, duvidando. Pouco me interessava se acreditava ou não. Para quem não parava de falar, estranhei os trinta segundos que permaneceu em silêncio, altura em que indagou:
— Quando é que regressam a Edimburgo?
— Amanhã.
— Não aproveitam para ficar uns dias?
— Temos trabalho.
— Pena... — lamentou com um semblante que já não me enganava. — Se ficasses mais uns dias, talvez pudéssemos combinar beber um copo.
Encarei o seu rosto numa mistura de surpresa e diversão.
— Não me parece que o teu namorado achasse muita piada a isso.
Vânia deu uma gargalhada.
— Ele é meu amigo, um grande amigo.
Percebi que não era. A frase era apenas uma repetição sarcástica daquilo que eu dissera antes. Sabia perfeitamente que ele era namorado dela, vi-os beijarem-se várias vezes enquanto dançavam. Mesmo que não fosse, eu não estava interessado.
— Pois... — atalhei para finalizar. — Infelizmente, vou-me embora amanhã.
Ela sorriu novamente e levantou-se, colocando a mão na minha perna.
— Pode ser que tenhamos outra oportunidade no futuro.
Duvido.
Kátya regressou no momento em que Vânia se afastou. Sentou-se no seu lugar e com humor questionou:
— A fazer amigas?
Ri-me com gosto. Olhei para ela e senti um enorme carinho e fortuna por a ter na minha vida. Sem que esperasse, beijei-lhe os lábios.
— Para que foi isso? — perguntou surpresa. — Não disseste que não ias fazer ciúmes?
— Não foi para fazer ciúmes. — contrapus. — Só quero que percebam que és especial.
— Isso significa que posso beijar-te mais vezes?
— Não fiques com ideias, Kátya.
— Acho que nem toda a gente estava a olhar. — informou na brincadeira. — Talvez seja melhor repetir.
Não a impedi.
Após mais um beijo, com os narizes quase a tocarem-se, ela olhou bem no fundo dos meus olhos e segredou:
— Não te preocupes. Somos amigos, só amigos.
A noite caiu por completo. Os funcionários da empresa de eventos começaram a montar um canto no jardim iluminado por focos fortes colocados na relva. Trouxeram o bolo e chamaram todos para presenciar o corte da primeira fatia por parte dos recém-casados e a distribuição das flutes com espumante. Fez-se um brinde. Terminada a fatia de bolo e a bebida, decidi que não valia a pena continuar ali. Queria sair "à francesa", ir embora sem dizer nada a ninguém, mas Kátya impediu-me, lembrando que seria falta de educação sair sem me despedir de Mafalda.
Em todo o tempo que ali estivera, Mafalda pouca atenção me dera. Na verdade, também não tinha de dar, eu merecia tanta ou menos como qualquer outro convidado. A única altura em que trocámos algumas palavras foi quando ela e o marido circularam pelas mesas a conversar com os presentes e a agradecer a vinda.
Assim, de mão dada com Kátya, fui até à mesa central.
— Mafalda, nós vamos andando.
— Já? — interrogou, desalentada. — Fiquem mais um pouco.
Kátya interveio:
— Temos de regressar amanhã, o voo é cedo e ainda temos uma viagem de carro até ao Porto.
Mafalda compreendeu e levantou-se do seu lugar para se dirigir a mim. Deu-me dois beijos ternos no rosto e agradeceu:
— Obrigado por teres vindo. Significou muito para mim.
Forcei um sorriso.
— Espero que sejas muito feliz.
— Eu também. — disse o marido que se aproximara para se despedir.
— Se não for antes... — prosseguiu Mafalda. — ...espero ver-te no baptizado do nosso primeiro filho.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi:
— Estás grávida?
Ambos riram.
— Ainda não, Daniel. — respondeu ela, sem disfarçar no olhar o carinho que tinha por mim.
Antes que alguém percebesse a forma apaixonada como eu olhava para Mafalda... e ela para mim, Kátya continuou com a despedida aos casados.
A viagem de regresso ao hotel foi feita em silêncio. Kátya percebia o meu estado de espírito e optou por encostar a cabeça para trás e quase deixar-se dormir. O silêncio nunca fora um incómodo entre nós. E eu sabia que ela estaria atenta, se eu quisesse desabafar.
Saímos do carro e caminhámos vagarosamente até ao hotel com os dedos entrelaçados na mão do outro. Entrámos no edifício e seguimos para o elevador. Lá dentro, olhei para ela.
— Tenho um grande carinho por ti. — confessei.
— Só carinho? — inquiriu ela, sabendo a resposta.
— Só carinho, Kátya. Tu sabes isso.
— Sim, eu sei, Daniel. — Aproximou-se de mim para mais um beijo fraternal nos meus lábios. — Só amizade.
Recolhemos ao quarto. Ela seguiu de imediato para a casa de banho. Estava cansada e queria livrar-se do vestido e da maquilhagem. Eu comecei descalçar os sapatos, despi o fato, retirei a gravata com desprezo e desfiz-me da camisa. Tirei as meias e somente com os boxers vestidos, enfiei-me na cama para descansar daquele dia penoso.
Kátya saiu da casa de banho no seu pijama pronta para se deitar, encontrando-me de olhar perdido no tecto do quarto, deitado na cama, iluminado pelo candeeiro da cabeceira. Sabia como me sentia, mas mesmo assim, entrando nos lençóis, perguntou:
— Estás triste?
— Isto passa. — respondi pouco crédulo.
Ela deu-me um beijo de boa noite, trazendo no hálito o aroma a pasta de dentes. Apaguei a luz e deitámo-nos de costas um para o outro.
No escuro, a minha cabeça repassava as imagens desse dia, o casamento, Mafalda vestida de noiva para casar com um homem que me seria impossível de rivalizar. Repetia para mim que a perdera e que tinha de a esquecer. Dei algumas voltas na cama, fustigado pela tristeza, recordando aquele momento, a esplanada do centro comercial, quando ambos confessámos o que sentíamos... Devia tê-la agarrado, largado tudo, largado Francisca... Corroía-me de remorsos.
Kátya percebeu que eu estava acordado e virou-se para mim.
— Não tens sono?
— Não. — respondi para o negrume do quarto, onde somente uma leve claridade da rua entrava pela janela. — Desculpa, se te acordei.
Ela aproximou-se e senti a sua mão acariciar-me o rosto. A seguir, os seus lábios tocaram os meus. Pensei que se tratava de um beijo como tantos outros que trocávamos, só que a sua boca não se descolou da minha, intensificando o beijo.
— Pára... — murmurei.
Kátya não parou e rodou na cama, colocando-se sobre mim. Voltei a pedir que parasse, apesar do meu corpo não acompanhar as palavras. O beijo tornou-se diferente, cheio de paixão, as línguas a saborearem-se.
— Não... Pára, Kátya... — repetia com a respiração ofegante.
Não consegui segurar a excitação. Kátya sentiu-a a tocar a sua barriga. Mordiscou-me a orelha e sussurrou:
— Xiu...
O seu corpo começou a descer pelo meu. As suas mãos puxaram-me os boxers com suavidade, libertando a vontade que eu procurava reter. Deu-me um beijo na barriga. Pelos movimentos, percebi que estava a despir a parte inferior do seu pijama. Tornei a pedir que parasse num tom pouco convincente. A sua respiração lá em baixo arrepiou-me. Por momentos, julguei que me iria envolver numa garganta funda. Não. Ao invés, retornou à posição inicial, acariciando a minha excitação com o seu corpo. A sua boca voltou à minha, um beijo que se misturava com o seu cabelo pelo meio. As suas pernas abraçaram as minhas. Já nada em mim conseguia ou queria parar. Senti-me escorregar para dentro dela.
Beijávamo-nos com o fervor da paixão, sedentos de algo a que nos afastáramos demasiado tempo. As suas ancas movimentavam-se devagar, como se me quisesse dar a conhecer, aos poucos, o conforto do seu lugar mais íntimo e sagrado. A sua respiração ofegante dançava com a minha. Parou quando isso era a última coisa que eu queria que fizesse. As suas pernas abriram-se mais e os joelhos subiram ao mesmo tempo que ela se elevava na cama, apoiando as mãos no meu peito. Sentou-se sobre mim com cuidado para que a nossa ligação não se soltasse, apertando-me o tronco com os joelhos.
Na penumbra, vi os seus braços levantarem-se para a cabeça, as mãos a envolverem o cabelo para o prenderem na nuca. Aproveitei a oportunidade para lhe enrolar a camisola do pijama o máximo que consegui, pondo-lhe a nu os seios grandes. Apertei um em cada mão, dedilhando os mamilos pontiagudos. Isso agradou-lhe e agarrou as minhas mãos com as dela, obrigando-me a apertá-los mais. Depois, retomou os movimentos das ancas. Novamente de forma lenta, aumentando aos poucos até se tornar numa espécie de amazona a cavalgar o seu garanhão. No escuro, o seu vulto oscilava para me dar e obter prazer, gemendo a cada compasso.
A torrente de desejo acumulado inundou-a. Os seus últimos gemidos resultaram do êxtase e da sensação quente que a humedecia. Lentamente, a nossa respiração foi voltando ao normal. Não dissemos nada. Kátya manteve-se sobre mim e eu dentro dela. Isso durou alguns minutos. Aguardei, acariciando-lhe as coxas. Ela baixou-se e beijou-me na boca ao mesmo tempo que a sua cintura se elevou e me fez sentir o frio da saída. Tornou a rodar na cama e levantou-se.
— Onde vais? — questionei baixinho.
— Preciso de um cigarro.
Nas sombras, observei-a a desenrolar a camisola, tornando a cobrir os seios. Foi buscar algo à malinha que levara ao casamento e retirou o maço e o isqueiro. Parou junto da janela e abriu o vidro. Uma chama surgiu no escuro, iluminando-lhe o rosto e tocando a ponta do cigarro. Desapareceu rápido, retomando a escuridão onde o desenho da baforada de fumo saía da boca de Kátya.
Aquilo soubera-me bem, muito bem mesmo. Fora intenso e maravilhoso. Porém, trazia um problema, poderia alterar a nossa relação.
— Estás bem? — quis saber perante a ausência de qualquer comentário ao que acabáramos de fazer.
Kátya soltou mais uma nuvem de fumo para a rua.
— Sim.
A resposta curta aumentava a minha confusão em relação ao que lhe iria em mente. Estaria arrependida? Esperava que aquilo fosse o passo para que nos tornássemos um casal? Estaria a aguardar uma palavra minha? Procurava ganhar tempo para me encarar?
Kátya já me dissera o que sentia por mim. Calculei que esperasse uma retribuição, depois do que acontecera. Contudo, eu gostava muito dela, mas não estava apaixonado. Seria cruel alimentar-lhe a esperança, mesmo depois de ter feito amor comigo. Procurei encontrar as melhores palavras, mas só me saiu:
— Não o devíamos ter feito.
O seu riso no escuro soou a "já estava à espera que me dissesses essa merda".
— Não gostaste?
— Claro que gostei, Kátya. — confessei sem razão para o contrário. — Mas, isto não muda nada. Não quero enganar-te.
Ela apagou o cigarro no cinzeiro e fechou a janela.
— Descansa, Daniel! Sem cobranças. — disse, procurando os calções do pijama no escuro. — Foi apenas sexo. — Vestiu-os e voltou a entrar na cama. — Não estou à espera que nos tornemos um casal depois disto. — Beijou-me os lábios em despedida. — Dorme bem. Até amanhã.
Na manhã seguinte, quando nos encarámos com a luz do dia, Kátya agiu com naturalidade, como se a noite não tivesse passado de um sonho na minha cabeça. Não falámos sobre o assunto uma única vez, seria um género de "elefante na sala" que nenhum de nós queria ver. A única diferença no seu comportamento é que fumava mais que o habitual.
Nos primeiros dias após o regresso a Edimburgo, Kátya afastou-se por um breve período, recusou que a fosse buscar ao trabalho ou que a visitasse em sua casa, justificando que precisava de descansar. Eu aproveitei para fazer algo que calculei que ela também estivesse a fazer, colocar as ideias em ordem.
Eu gostava muito de Kátya, mesmo muito. Contudo, eu não queria comprometer-me. Não por uma questão de querer ter vários casos, andar a saltar de cama em cama. Eu nunca fora assim, aliás, até àquela data, nunca tivera relações sexuais pontuais, somente com alguém com quem tinha uma relação séria. Vendo bem, Kátya fora a segunda mulher com quem o fizera. Adorei fazer amor com ela e tinha muita vontade de o repetir. Só que sabendo que ela estava apaixonada por mim, evitei sempre que se repetisse para não alimentar as suas esperanças. Na verdade, tudo se resumia a uma única questão, eu nunca consegui ultrapassar o facto de ter perdido Mafalda por estar numa relação séria com Francisca, por estar comprometido. Mesmo estando Mafalda casada, eu mantinha a esperança de que um dia pudéssemos ficar juntos. E não queria que existisse qualquer impedimento se o momento surgisse subitamente. Se não existisse Mafalda, se eu não continuasse tão apaixonado por ela, não tenho dúvidas que teria construído com Kátya uma relação ainda mais forte e duradoura. Acho que só me voltaria a comprometer, se encontrasse uma mulher que me fizesse esquecer Mafalda. E apesar de ser uma pessoa extraordinária, Kátya não o conseguiu.
Ao fim de quase uma semana afastados, a nossa relação voltou ao normal. Foi como se esses dias tivessem sido uma convalescença da noite em Coimbra, tal como alguém que se constipa e precisa de uns dias para recuperar. Quando nos reencontrámos, a sua primeira atitude foi dar-me o beijo típico, o nosso toque suave nos lábios, um cumprimento quase fraternal. A normalidade durou cerca de dois meses e meio. Nas primeiras semanas após o casamento, a noite de sexo quase caíra no esquecimento, parecendo que só acontecera na minha cabeça. Kátya continuava a insinuar-se e a flirtar comigo, mas fazia tudo parecer uma brincadeira, de todas as vezes que eu recusava as suas investidas. No final de Julho, algo mudou em Kátya, irritando-se facilmente, constantemente de mau humor e algumas vezes indisposta.
Numa noite como tantas outras, fui levá-la a casa. Por norma, costumava sempre subir com ela ao seu apartamento, onde ficávamos a conversar algum tempo até eu me vir embora.
— Hoje não. — decidiu, vendo-me desmontar da mota.
— Não queres que suba? — Ela abanou a cabeça. — Algum problema?
— Cansada. — atalhou com semblante triste.
— Estás de folga, amanhã?
Kátya confirmou e esboçou um sorriso triste.
— Podemos ir passear à tarde, se quiseres.
— Boa ideia. — concordei. — Passo aqui depois de almoço para te vir buscar?
Ela concordou e abraçou-me com ternura, sussurrando:
— Tenho saudades.
Segurei-a nos meus braços, curioso.
— Saudades de quê?
Afastando-se, atirou-me um sorriso e piscou o olho.
— Parvoíces...
Deu-me um beijo fugido e afastou-se para a porta de casa.
Na hora combinada, fui buscá-la ao apartamento e fomos de mota até Carlton Hill desfrutar de uma bela tarde solarenga de Julho.
Carlton Hil é uma colina de Edimburgo com uma vista fabulosa para a cidade. O Sol brilhante, tão raro por aqueles lados, atribuía mais brilho e alegria ao ambiente, um paradoxo com o rosto de Kátya.
Subimos a colina pela escadaria de pedra envolta pela vegetação até perto do caminho que se aproximava do Dugald Stewart Monument, ficando com a Nelson Tower Monument defronte de nós. Kátya não abdicou do cigarro, mal saímos da mota. Fizemos o percurso em silêncio e passámos pelo Playfair Monument, uma espécie de Templo de Diana de Évora que se erigia no topo da colina. Escolhemos um local com vista desafogada para a capital e sentámo-nos na relva.
Mesmo estando no Verão, soprava uma brisa fresca. Por aquelas bandas não havia dias quentes, apenas amenos ou frios. Uma nuvem cinzenta avançou pelo céu, procurando perturbar o Sol. Kátya tinha o olhar vidrado na paisagem, o cabelo solto a esvoaçar para o rosto e um semblante triste que teimava em não desaparecer. Despiu o blusão que usava sempre que andava de mota comigo e colocou-o sobre o capacete estacionado na relva.
Por alguns minutos, o silêncio reinou. Kátya parecia preocupada ou ansiosa, não consegui discernir bem. Acariciei-lhe a mão e questionei:
— Está tudo bem? — Ela assentiu muda. — Pareces preocupada.
— Hoje está um dia bonito. — afirmou, mudando de assunto.
Observei-a com gosto, era uma mulher bonita. Não era um deslumbramento, daquele género de deixar todos os homens a olhar. Tinha uma sensualidade simples e sedutora, um carisma excitante. Sabia o quanto ela poderia ser apaixonada, a entrega... Permiti-me ao fruto proibido de a recordar na única noite em que fizemos amor. Sentia-me bem, perto dela, não conseguia imaginar-me sem a sua amizade.
— Tens falado com a Mafalda? — questionou, despertando-me para a realidade.
— Não. Não voltei a falar com ela.
Desde o casamento, não voltara a ter qualquer notícia de Jewel. Encarei isso como normal, deveria estar a saborear a vida de recém-casada, não esperava que se fosse lembrar de mim ou preocupar-se em escrever-me nesse período.
— Continuas apaixonado por ela?
A pergunta soou tremida, o olhar mantinha-se cravado no horizonte.
— Sim.
Kátya virou o rosto para mim. O vento fustigava-a com os próprios cabelos. Havia uma mágoa naqueles olhos, uma tristeza mal disfarçada.
— Será que algum dia vais dar oportunidade a outra mulher de te amar? — Achava que não e ia a responder, mas... — Desculpa, não é isso que quero saber. — O seu olhar tornou-se profundo, perscrutando o meu. — O que quero saber é se algum dia me darás a oportunidade de te amar.
Apesar de habituado à sua frontalidade, surpreendi-me por ela colocar a questão de forma tão directa.
— Kátya... — iniciei, procurando os melhores eufemismos ao mesmo tempo que falava.
— Sem merdas, Daniel. — pediu, levando a mão ao cabelo. — Não quero palavras bonitas, formas simpáticas de ser rejeitada. Quero saber se esse amor platónico que sentes pela Mafalda vai durar para sempre.
Suspirei. Que poderia dizer? Kátya rodou no relvado e ajoelhou-se em frente a mim. Percebi a seriedade do momento, tomei consciência que iríamos tocar nas feridas, nos pontos sensíveis. Não seria mais uma troca de piropos, jogos de sedução que não passavam de brincadeiras. Defronte de mim, estava uma mulher de defesas em baixo e coração aberto.
— Eu estou apaixonada por ti! — exclamou, encarando-me segura. — Sou louca por ti, adoro-te... — Hesitou. — Sim, porque não? Posso dizê-lo sem receio. Eu amo-te, Daniel! — Fez uma pausa. — Tu és meu amigo, adoro o que temos. Mas, já não é suficiente. Desculpa, dizer isto. Não tenho o direito de te exigir nada. Só que já não consigo lidar com estes sentimentos, lidar com o que despertas em mim, sem te dizer abertamente o que significas na minha vida. — Respirou fundo. Desviou a atenção para a nuvem que cobrira o Sol. — Sei que te disse que seria tudo o que quisesses que eu fosse na tua vida. Lamento desapontar-te. Não consigo ser tua amiga. Já não consigo estar perto de ti sem pensar em beijar-te, sem desejar que me agarres, sem ansiar por voltar a ter-te em mim. — A ausência de reacção da minha parte, exasperou-a. — Aquela noite foi a noite mais bonita da minha vida.
— Kátya... — interrompi. — Eu...
— Sem merdas, Daniel. Por favor. — exigiu com uma lágrima a brotar.
— Tu mereces alguém que te ame. — lembrei, sabendo que mais valia dar-lhe um estalo, seria menos doloroso para ela. — Não é justo para ti criar-te a ilusão de algo que não existe. Eu adoro-te! Mas, não da forma como queres. Aliás, não da forma que mereces. Mereces ser amada de corpo e alma. Eu não sou capaz de o fazer. — Tentei segurar a sua mão, mas ela afastou-a. — Lamento...
Kátya levantou-se, puxando o casaco donde retirou o maço de tabaco e o isqueiro. Colocou um cigarro na boca e acendeu-o com dificuldade devido ao vento e às mãos trémulas. Deu duas longas baforadas, enquanto eu me colocava de pé a seu lado. Num movimento ríspido, tornou a encarar-me.
— E se eu não me importar?
— Como assim?
Kátya explanou melhor a sugestão:
— Se eu não me importar que fiques comigo, mesmo que ames outra mulher?
— Importo-me eu. — retorqui com sinceridade.
— Ela está casada, Daniel! — afirmou como se eu não o soubesse. — Que esperas tu que aconteça? Que se divorcie? — Fez um esgar incrédulo. — Que amigo és tu, a desejar a infelicidade do casamento dela?
— Não desejo o fim do casamento deles. — corrigi.
— Mas esperas que aconteça?! — insistiu. Não a contrariei. — Tens noção que tanto pode ser amanhã, como pode ser daqui a vinte anos ou até nunca vir a acontecer?
— Eu sei isso, Kátya.
— E por causa de uma esperança vã, abdicas daquilo que te quero dar?
— Kátya...
— Estou a oferecer-me a ti, estou a dizer-te... foda-se... estou quase a implorar que me deixes amar-te. — Nova lágrima. — Que estou na disposição de ser tua mulher até que tu me deixes por ela.
— Eu não sou assim, Kátya. — protestei, receando perdê-la. — Seria incapaz de te usar.
— Mentiroso. — redarguiu, fumando nervosamente.
— Como?
— Tu usaste-me naquela noite, no hotel. — argumentou para minha estupefacção. — Mentira?
— Tu é que... — interrompi-me. — Como podes ver isso dessa maneira? Eu quis que parasses. Nunca te enganei.
— Eu fiz amor contigo, Daniel. — prosseguiu temperamental e irritada. — Tu fodeste-me!
— Estás a ser injusta.
Kátya fez um gesto de desprezo e virou costa, ficando a dar as últimas passas na beata que segurava entre os dedos. Eu permaneci sem dizer nada, aguardando que ela se pronunciasse. Num gesto de desdém, atirou o que restava do cigarro para o chão e apagou-o com a biqueira da sapatilha. Virou-se para mim, os olhos marejados de lágrimas, e pediu:
— Desculpa. Tens razão. Nunca me enganaste. Sempre deixaste bem claro que não gostas de mim.
— Eu gosto de ti.
— Não da mesma forma que eu gosto de ti. — retorquiu num tom zangado. — Anda, vamos embora. Não me apetece continuar aqui.
Segurámos os capacetes e fizemos o caminho inverso no mais absoluto silêncio. Não era daqueles silêncios confortáveis que por vezes aconteciam entre nós, era o silêncio de uma amizade fracturada.
Durante a viagem de mota até à casa dela, era perceptível o seu soluçar, abraçada atrás de mim. Dilacerava-me a alma vê-la tão infeliz. Contudo, seria muito mais violento, envolvê-la numa relação ilusória.
Quando parei defronte da fachada do seu prédio, Kátya saltou da mota como se o assento tivesse uma mola. Retirou o capacete da cabeça e não escondeu os olhos vermelhos de quem viera a chorar. Eu tirei o meu, pousando-o em cima do depósito, e segurei-lhe o braço, puxando-a para mim.
— Não fiques assim.
Kátya soluçou e apontou-me o capacete dela.
— Toma. Leva-o. — Ela costumava ficar com o capacete, uma vez que era a única pessoa que andava de mota comigo. — Não vou precisar dele. Acho melhor afastarmo-nos por uns tempos.
— Vá lá, Kátya, não sejas assim. — pedi, consciente que a nossa relação estava por um fio. — Não quero perder a tua amizade.
— Preciso de um tempo, Daniel. Por favor...
O pedido foi feito com um semblante que não procurou ocultar um mínimo de sentimento que fosse, não se ralava em mostrar-se chorosa. Fungou e levou a mão ao bolso, procurando novo cigarro.
— Preciso que fiques longe por uns tempos.
Com aquelas palavras, não se despediu com um beijo, apenas com um acenar pesaroso. Afastou-se para a porta e desapareceu no interior do edifício.
Respeitei o seu pedido.
Durante vários dias não a procurei, nem a tentei contactar. Sentia a falta da sua companhia e lamentava estar a fazê-la sofrer por não retribuir o que ela sentia por mim. Ao fim desse tempo, tentei ligar-lhe sem que qualquer chamada fosse atendida ou respondida. O telefone tocava, tocava, tocava até passar para o atendedor de chamadas onde uma voz neutra convidava a deixar mensagem. Mais alguns dias sem saber nada dela e passei pelo restaurante onde trabalhava. Informaram-me que se tinha demitido sem qualquer razão e de forma súbita. Fiquei seriamente preocupado. Só me restava procurá-la num último local e acabei por ir a casa dela. As surpresas não tinham terminado, uma vizinha surpreendeu-me com a notícia de que Kátya se fora embora do apartamento. Fiquei desesperado. Imaginei que tivesse voltado para a rua, se tivesse abandonado a ela própria, voltando ao mundo donde eu a retirara. Pior, dei por mim a ponderar a hipótese que o seu amor não correspondido a tivesse levado ao suicídio. Tudo me passou pela cabeça, chegando a procurá-la em hospitais e até na morgue.
Cerca de uma semana após a sua partida, recebi uma carta:
“Olá, Daniel! Peço que me perdoes por ter partido sem me despedir. Não conseguiria fazê-lo se tivesse de voltar a encarar os teus olhos. Tu és a pessoa mais extraordinária que passou pela minha vida. Salvaste-me, tiraste-me da rua, evitaste que eu tivesse que ter passado por sei lá quantas agruras para conseguir sobreviver. Foste o meu anjo. Só que neste mundo nada é perfeito e a tua imperfeição é não me amares como eu te amo a ti. Não tenho o direito de te forçar a amar-me, da mesma forma que não posso continuar a magoar o meu coração a acompanhar-te sem te ter. Não quero que te preocupes, eu estou bem. Regressei a Portugal. Não, não penses que estou a viver na rua. Regressei porque consegui trabalho e tinha saudades do calor português. E precisava de me afastar daí. Nunca esquecerei Edimburgo, tal como nunca te esquecerei a ti. Amo-te na esperança de que este sentimento seja efémero e se apague em breve. Sei que percebes o que quero dizer, uma vez que sofres do mesmo mal. Peço-te que, em nome daquilo que partilhámos, nunca me procures, nunca tentes voltar a ver-me. Fomos uma fase bonita na vida um do outro, mas acabou. Amo-te até conseguir deixar de o fazer. Sê feliz! Kátya"
Houve uma mistura de sentimentos ao ler aquelas linhas, tristeza por perder uma amiga, alívio por a saber bem. Kátya tinha razão, fomos uma fase bonita na vida um do outro. E ela fora um dos contos da minha vida.
fim do conto III
No último ano, talvez desde as nossas posições contrárias em relação a ter filhos, o relacionamento com Francisca esfriara para níveis preocupantes. Ela passava cada vez menos tempo em casa, raramente fazíamos qualquer actividade juntos, como passear ou ir ao cinema, e na cama... Bom, parecia quase um congelador, comparado com o calor da paixão de outrora.
Para piorar isto, também não tinha com quem desabafar. Nunca partilhara com ninguém pormenores da minha vida íntima, mas gostava de pelo menos ter com quem conversar um pouco. A minha maior parceira de conversa, Jewel, vivia uma fase de pura felicidade com o namorado e os estudos, sobrando tempo para pouco mais que uma troca de emails comigo. Mesmo assim, não podia recriminá-la por ser feliz com outro que não eu.
A minha vida era entediante, talvez tivesse sido das fases mais desinteressantes da minha existência, desde os tempos da escola. Nem o facto de ter computador com ligação à Internet atenuava isso, uma vez que já não tinha paciência para conversas com desconhecidas.
Comecei a abrir o leque de opções de empregos, tinha de voltar ao mercado de trabalho, não só pela necessidade de ordenado, como para evitar dar em louco sozinho em casa. Cheguei a ir a entrevistas para ser consultor imobiliário, algo para o qual não tinha o mínimo jeito. Nunca fui contratado, mas após uma dessas entrevistas, passei por uma exposição de fotografia.
Peter estava lá, quase como uma estátua a observar os quadros na parede. Não dera pela minha aproximação até estar a dois passos dele. Recebeu-me com um largo sorriso e apertou-me a mão. Nunca perdêramos o contacto, mas haviam passado já alguns meses desde a última mensagem que trocáramos.
— Que tens feito?
— Procurado emprego. — informei, olhando para uma tela que retratava uma paisagem vulcânica registada a preto e branco. — Mas, está muito complicado.
— E a fotografia?
— Continua a ser um passatempo. Infelizmente, não consigo que seja mais que isso. Quem me dera ter a oportunidade de viver disso como tu fazes.
— Não é fácil. — recordou, deslocando-se para a fotografia seguinte. — Tive que lutar muito para isso.
Circulámos pela área da exposição, vendo e comentando os trabalhos expostos. Peter adicionava a cada análise a sua perspectiva e explicava-me as técnicas usadas, enriquecendo os meus conhecimentos.
No final, ao sairmos para a rua, informou-me que iria fazer um trabalho no dia seguinte, uma sessão de moda, fotografar vários modelos para um catálogo de venda de roupa por catálogo.
— Queres vir? — convidou. — Não te posso contratar para meu assistente. Não vais ganhar dinheiro, mas podes aprender mais alguma coisa.
Só se fosse um completo idiota é que desperdiçaria tal oportunidade.
O evento durou o dia todo e aconteceu em Lisboa, junto ao rio Tejo, uma zona de armazéns, onde um deles fora escolhido para estúdio. O ambiente era bastante profissional, diversos assistentes para a mais diversas áreas, desde os maquilhadores, aos responsáveis de guarda-roupa até aos modelos. Estes últimos eram seis, três rapazes e três raparigas, os quais deveriam ter entre dezoito e vinte e um anos. Também estavam presentes representantes da marca de roupa como observadores para darem alguma indicação. Havia também pessoal técnico para a parte eléctrica e a equipa que fora encarregue do transporte de todo o material.
Quando cheguei, Peter apresentou-me de forma geral, informando que seria o seu assistente de equipamento. O mínimo que posso dizer é que foi espectacular, poder mexer em máquinas e acessórios que só podia ver nas montras das lojas, e a interacção com o restante pessoal... Pequenas pausas para a troca de roupa permitiam que Peter discutisse comigo alguns pormenores, sempre um explicador paciente. Aquelas horas acabaram por ser muito mais ricas que o curso que fizera numa turma dele, no ano anterior.
Na parte da tarde, após o almoço que não passou de uma refeição simples servida a todos os elementos presentes, Peter começou a desafiar-me para opinar acerca das fotos. Como colocaria os modelos, poses que destacassem as roupas que se pretendia publicitar, entre outras coisas. Eu fui falando naturalmente, muitas vezes recordando as sugestões que dera a Tânia naquela que fora a sua primeira sessão fotográfica. Peter escutava-me com um semblante interessado.
— Alguma vez fotografaste modelos? — questionou no final da sessão.
Sorri com a pergunta que me retomou as recordações.
— Não vais acreditar...
Peter aguardou, curioso:
— Conheces a Tânia, a supermodelo portuguesa?
— Sim.
— Foi minha colega na escola. — informei perante o seu olhar de "e?" — Fui eu que lhe fiz as primeiras fotos, as que ela enviou para as agências.
Peter pareceu duvidar:
— A sério? — Anuí. — Eu trabalhava para uma das agências que recebeu as fotos. Infelizmente, não conseguimos antecipar-nos aos tipos que a passaram a agenciar. Recordo-me que estava um trabalho bastante bom, parecia feito por um profissional. Foste mesmo tu? — Descrevi-lhe as fotos. — Caramba...
— Achas que posso pôr isso no meu currículo? — questionei num tom de gozo. De que serviria aquela informação num currículo para concorrer a um mísero emprego de ordenado mínimo.
Contudo, Peter não correspondeu ao tom brincalhão e disse:
— Deves colocar isso e o dia de hoje como assistente. Aliás, hei de escrever-te um certificado da tua presença a ajudar-me para o comprovar.
De que me serviria aquilo? Alguma vez chegaria a fotógrafo profissional? Devia ser, eu com a velhinha Canon AE1... Bom, mas valia a intenção e ninguém sabe o futuro.
— Daniel, se surgirem novas oportunidades, convido-te a vires assistir-me outra vez. Caso queiras, claro.
Infelizmente, essas oportunidades não aconteceram.
Aquele ano, para além do entusiasmo com o EURO2004, trazia também uma grande expectativa para os interessados em política, pois era ano de eleições para o Parlamento Europeu.
Estávamos em final de Março. Francisca chegou a casa depois de jantar, uma vez que tivera mais uma reunião do partido que se prolongara. A sua ausência às refeições começava a tornar-se regra e não excepção.
— Precisamos de falar. — disse num tom sério, ao mesmo tempo que me beijava os lábios num cumprimento fugido.
Aguardei, observando-a no seu habitual traje formal. Sem que tivesse planeado, à minha cabeça chegou o filme de uma memorável tarde, uns dois anos antes, em que ela usara aquele fato numa brincadeira nossa, daquelas brincadeiras sexuais que já não aconteciam quase desde essa altura. Eu simulava que estava preso e que ela era a advogada para me defender em tribunal, mas eu não tinha dinheiro e ela sugeria que se lhe desse prazer me poderia livrar da cadeia. Eu a fazer de conta que era um presidiário, ela com aquele fato, sendo que a única diferença que por baixo das calças e do casaco não havia roupa alguma. Velhos tempos...
— Recebi um convite. — informou num tom cansado, despertando-me.
— Convite?
— Querem que faça parte da equipa do cabeça de lista do nosso partido para as Europeias. — prosseguiu, evitando o meu olhar. — Isso irá provocar alterações na nossa vida.
Vai passar ainda mais tempo ausente, foi o que eu pensei.
— Que alterações?
— Se ele for eleito, terei um lugar no Parlamento Europeu. Não como deputada, mas como integrante da equipa de trabalho. Terei de suspender a advocacia por algum tempo, mas o ordenado compensa, já para não falar no prestígio e valorização das minhas pretensões futuras na política.
Sendo o partido um dos maiores do país, a eleição do indivíduo era uma certeza. Por isso, a mudança de vida para França ou Bélgica avizinhava-se.
— Para te ser sincero, viver em Estrasburgo ou em Bruxelas não me atrai minimamente. — confessei, procurando contrariá-la sem a magoar. — Quando é que tens de decidir?
— Já decidi! — afirmou com austeridade. — Já aceitei.
— Sem me consultar? — questionei, ofendido.
— Não houve tempo. — mentiu.
— Não houve tempo? — repeti, irritado. — Nem para pegares na merda do telefone e perguntar o que eu achava disso?
Francisca encarou-me com dureza.
— Seria irrelevante.
Fiquei chocado com a resposta.
— Eu não quero mudar-me para fora do país. — recusei, esperando que isso atrapalhasse a suas certezas.
Vi-a dar alguns passos pela sala, suspirando. Não era o aspecto de alguém que estava a ser contrariada, era mais a imagem de alguém que queria libertar-se de um fardo e procurava a forma mais explícita de o comunicar.
— Não tens de o fazer.
— Não tenho de o fazer? Então eu fico e tu vais? Passamos a ter uma relação à distância?
Para ser sincero, pouco faltava para a relação que tínhamos.
Francisca voltou a suspirar e concluiu:
— Acho que estamos a precisar de dar um tempo. Talvez o afastamento seja bom.
— O quê? — interroguei incrédulo.
— Honestamente, quando aceitei não te coloquei na equação. Estou decidida a ir sozinha.
Atónito. Aparvalhado. Sei lá como me senti ao ouvir aquilo. Acabei por querer uma confirmação:
— Estás a terminar a nossa relação?
— A nossa relação tem estado a... tem vindo a... — Ponderou um argumento, qual advogada de causas perdidas. — Já não somos tão apaixonados.
— Só se fores tu. — redargui. — Eu continuo a gostar de ti. Lamento se tenho outras perspectivas para o nosso futuro, tipo querer filhos, enquanto tu só pensas em ti, no teu trabalho e no caralho do teu partido.
Francisca arregalou os olhos.
— Estás a ser estúpido. Talvez devesses pensar também em trabalho, ao invés de quereres ser um pai desempregado.
E com aquelas palavras, virou costas e desapareceu para o quarto.
Tio veio para junto de mim, roçar-se nas minhas pernas. Sentei-me no sofá e coloquei-a no meu colo, afagando-lhe o pêlo. Permaneci por ali mais de uma hora, observando a televisão sem prestar atenção nas imagens, repetindo mentalmente aquela conversa e as implicações futuras.
Quando fui para o quarto, encontrei a divisão envolta em escuridão. Francisca dormia no seu lado da cama. Tirei a roupa e enfiei-me entre os lençóis. Poderia ainda haver esperança para nós? Talvez tivesse sido brusco, poderia dar o primeiro passo para tentar que nos voltássemos a entender. Encostei-me a ela, tocando com o corpo o tecido do seu pijama. Rodeei-lhe a cintura com o braço e acariciei-lhe a barriga, enquanto lhe beijava a nuca.
Assim que se apercebeu da minha presença, Francisca empurrou-me o braço e afastou-se. Sem dizer uma palavra, revelou que me queria longe.
Parecia não haver dúvida. O nosso amor chegara ao fim.
Nessa noite, tive muita dificuldade em adormecer. E quando acordei de manhã, Francisca já não estava em casa.
Tudo acontecera com uma velocidade vertiginosa. No dia anterior era um homem casado oficiosamente e no dia seguinte voltara a ser solteiro. Aquilo era um rombo na vida a que me acomodara nos últimos anos, pouco mais de três. Porém, no meio do negativismo da situação, outras perspectivas se abriam...
Fui ao computador e escrevi um email a Jewel. Relatei tudo o que acontecera, como a relação com Francisca já não estava bem, que o amor acabara e que tínhamos decidido pôr fim ao nosso "casamento". Enviei com a esperança de... Com esperança de quê? Não sei bem. Não era ingénuo ao ponto de pensar que ela me escreveria a dizer que iria também terminar o seu namoro para que ficássemos juntos. Esperava talvez ler algum entusiasmo nela, um entreabrir da porta a algo...
A resposta chegou ao fim da tarde:
"Oh Daniel. Não imaginas como lamento o que aconteceu. Fiquei triste. Espero que consigam voltar a entender-se, tu mereces ser feliz, és um grande amigo. Espero do fundo do coração que tu e a Francisca voltem a ficar juntos. Mas, se isso não acontecer, não percas a fé. Tenho a certeza que encontrarás alguém que te volte a fazer feliz como antes. Ou tão feliz como eu sou com o meu namorado. Beijinhos"
Não precisam que comente, pois não?
Francisca chegou a casa com o semblante fechado e expressão fria. Não perdeu sequer tempo a trocar um beijo como sempre fazia e atirou um "boa noite" como se cumprimentasse um grupo de pessoas. Não lhe retribuí o cumprimento, substituindo por:
— Vou voltar a Almada. Amanhã, pego nas minhas coisas e vou-me embora.
Francisca assentiu sem qualquer mágoa, completando com:
— Não te esqueças da gata.
Não me esqueci de Tio, nem de nada. Na manhã seguinte, arrumei tudo o que me era importante e chamei um táxi que nos levou de volta a Almada.
O dinheiro que juntara com a indemnização da perda do emprego e o subsídio de desemprego estavam a chegar ao fim. A regressar ao apartamento onde fora criado, passei a ter mais despesas para além da renda. Não podia permanecer desempregado, sob risco de perder tudo, e tive de aceitar qualquer trabalho que aparecesse. O que consegui foi a tarefa de repositor de produtos numa grande superfície comercial a ganhar o ordenado mínimo.
Os primeiros tempos de retorno ao estado solteiro foram muito complicados. Só não dava em louco a falar para as paredes porque Tio me fazia companhia. Sem Internet em casa, também não voltei a falar com Jewel, o que não achei que lhe tivesse feito qualquer diferença. Francisca riscou-me por completo, como se tivesse passado uma borracha em todo o tempo que vivemos juntos.
Apesar de toda a euforia no país com a participação da equipa portuguesa de futebol na competição que se estava a realizar em Portugal, o acontecimento passou-me ao lado. Tinha coisas mais prementes com que me preocupar que o resultado de um jogo. Entretanto, desenrolaram-se as eleições dos deputados para o Parlamento Europeu, as quais confirmaram a esperada eleição do cabeça de lista do partido de Francisca, o que resultaria na sua mudança para o estrangeiro.
Em finais de Junho, Peter telefonou no momento em que eu colocava pacotes de detergente num expositor central que iria estar em promoção nessa semana. Rejeitei a chamada, ligando-lhe na pausa para café.
— Tenho novidades. — relatou, após a conversa inicial protocolar. — Recebi uma proposta espectacular para trabalhar com um grupo de agências internacionais. O ordenado é irrecusável. — Fez uma pausa. — Vou ser responsável pelo departamento de fotografia e serei o fotógrafo exclusivo deles. Estão sediados em Edimburgo. Vou mudar-me até ao final do Verão.
— Parabéns! Fico feliz por ti. — congratulei, pensando que ainda tinha uma pilha de azeite e duas de papel higiénico para colocar em prateleiras.
— Obrigado. Mas, não estou a ligar só para te contar. — explicou com entusiasmo. — Vou precisar de um assistente de fotografia. Estás interessado? — O convite deixou-me sem reacção. Peter, adivinhando a minha estupefacção, continuou. — O ordenado é excelente e podes começar a trabalhar em fotografia. Eu sei que é só como meu assistente, mas tens de começar por algum lado.
A minha cabeça começou a ponderar os prós e os contras. Estava perante uma proposta de trabalho de sonho, ainda mais quando ele converteu o "excelente" em números. Porém, os contras formaram-se como uma nuvem espessa que me cegou: Edimburgo lá tão longe? Viver num país estranho? Iria ficar ainda mais longe de Mafalda. E porquê o interesse de Peter em me contratar? Haveria segundas intenções, sendo ele homossexual?
Tomei a decisão mais estúpida da minha vida ao agradecer e recusar.
No Domingo em que o país parou, a televisão mostrava directos do autocarro da equipa nacional a circular desde a Academia de Alcochete até ao Estádio da Luz, onde nesse fim de tarde Portugal iria discutir o título europeu de futebol com a Grécia. Sem nada mais interessante para fazer, Tio e eu observávamos a loucura da escolta da população.
A campainha tocou. Não esperava visitas e fui atender com enfado, calculando que fosse publicidade ou algum propagador da palavra do Senhor que adormecera de manhã e viera prestar o serviço após o almoço. Abri a porta e ouvi passos na escada de alguém que subia. Fui surpreendido pela visita da minha ex.
Francisca surgiu informal, envergando um vestido que começava abaixo das axilas e terminava acima dos joelhos. Não lhe favorecia o peito, quase inexistente naquele formato de tecido. Calculei que tivesse ido à praia (queria lá saber com quem) e tivesse aproveitado a proximidade para me visitar ou para se despedir. Contudo, o cabelo solto estava penteado e cheiroso e não tinha sinais de exposição solar prolongada.
— Olá Daniel!
— Olá. — retribuí sem esconder a surpresa.
— Posso entrar?
Abri caminho para que passasse.
Tio miou descontente. Francisca ignorou-a e caminhou para a sala, sentando-se no sofá sem esperar convite. Cruzou as pernas, fazendo a saia escorregar para meio das coxas.
— A que devo a tua visita? — interroguei, sentando-me na poltrona.
— Vou partir para Bruxelas para a semana.
— Boa viagem! — desejei com desdém.
— Não quis partir sem voltar a ver-te. — explicou com um tom terno. — Não quero partir mal contigo.
— Podes ir descansada. — repliquei com azedume.
Francisca hesitou, optando por me encarar de uma forma que já não acontecia desde os tempos da paixão diária.
— Tenho saudades tuas.
Só podes estar a brincar, pensei.
— Só podes estar a brincar. — proferi, indignado. Levantei-me do sofá. — Talvez seja melhor ires andando.
Ela copiou o meu movimento, parecendo respeitar a minha vontade. No entanto, parou defronte de mim e beijou-me os lábios antes que eu tivesse tempo de me defender. Fiquei embasbacado. Francisca não disse nada, limitando-se a pegar-me na mão.
— Anda... — sussurrou, puxando-me atrás de si para o quarto.
Entrámos. Estacionou-me ao lado da cama e subiu para o colchão, ficando de joelhos. Levou as mãos ao topo do vestido e puxou-o até à cintura, revelando os seios de dimensão envergonhada. Eu permaneci estático. As suas mãos focaram-se no fecho das minhas calças. Os seus dedos começaram a tocar-me, vi o seu sorriso e a sua cabeça a baixar para a minha cintura, a excitação alastrou pelo meu corpo...
Nas horas que se seguiram, a separação foi como se nunca tivesse acontecido. O tempo voltara para trás e nós tornámos a embrulhar-nos no calor da paixão, na loucura sexual, nas repetições de prazer.
A noite caíra por completo. Pela janela, apenas o brilho dos candeeiros de rua na sua tonalidade alaranjada. Deitado na cama, ainda estava confuso com tudo o que acontecera, com a visita dela, com a envolvência da paixão. Já nem me lembrava a última vez que o sexo fora tão brutalmente gratificante.
Francisca levantou-se da cama em silêncio. Apanhou as cuecas penduradas na cabeceira da cama e vestiu-as. A seguir, segurou o vestido.
— Continuas uma amante brutal. — elogiei para as suas costas. Ela voltou o rosto e sorriu. De súbito, fez-se luz na minha cabeça, acerca do propósito da visita. — Está bem. Eu vou contigo.
Com o vestido de volta ao seu sítio, Francisca virou-se para mim, acariciando o meu corpo nu com os olhos, desde os pés até à cabeça.
— Não pretendo que venhas comigo, Daniel. Quero seguir a minha vida sozinha! — afirmou com segurança, usando um tom firme. Sorriu como se tivesse lido o meu pensamento. — Isto não foi sexo de reconciliação. Foi sexo de despedida. — Calçou os sapatos. — O tempo que partilhámos foi muito bom. — Contornou a cama. — Mas, acabou! Fica bem Daniel. — E saiu do quarto.
Os seus passos ecoaram pelo corredor. O som da porta a bater confirmou a sua partida. Não havia dúvidas, eu perdera Francisca para a União Europeia. E Portugal oferecera a taça aos gregos.
Os meses seguintes foram rotineiros. Talvez o facto mais relevante tenha sido a dissolução da Assembleia da República, o que levou a eleições legislativas antecipadas. Quando ouvi a notícia, questionei-me se Francisca regressaria a Portugal para tentar um lugar de deputada ou retomar a sua profissão no seu país acumulando um cargo idêntico ao que tinha no Parlamento Europeu. Não equacionei isso como uma hipótese de reatamento da nossa relação, uma vez que sabia que terminara em definitivo. Porém, se a possibilidade de regressar a Portugal esteve no seu plano, isso nunca chegou ao meu conhecimento.
Eu permanecia com o meu trabalho entediante e desmotivante. Pelo menos, conseguira ter uma boa relação com o pessoal do escritório que me permitia usar o computador durante a hora de almoço, podendo assim consultar as minhas mensagens. Não sabia muito bem o que seria o meu futuro, mas contentava-me com o facto de ter emprego e pagar as contas. Não tinha amigos, vivia desinteressado de qualquer relacionamento amoroso e passava os tempos livres em casa a ver televisão com a gata a dormir no colo.
No dia a seguir ao Natal, nesse ano, as televisões começaram a passar imagens da tragédia no Índico, onde um terramoto seguido de tsunamis viria a fazer mais de duzentos e trinta mil mortos. Nessa tarde, recebi um email de Jewel, a qual estivera quase dois meses sem dar notícias. Enviara-lhe uma mensagem só para manter o contacto e não tivera resposta. Porém, naquela tarde fria de Dezembro, após o almoço e aproveitando o resto do tempo para consultar a Internet, ao entrar na caixa de email, deparei com nova mensagem dela:
"Olá Daniel! Há quanto tempo... Desculpa andar ausente, mas a faculdade tem sido esgotante. Nesta fase já temos muitas horas no bloco, começamos a ter mais contacto com o mundo real. Tenho novidades. O meu namorado pediu-me em casamento. E eu disse sim. Estou muito feliz. Sei que parece precipitado, mas estamos muito apaixonados. Não será para já, só quando terminarmos a formação e começarmos a trabalhar. Mas, decidimos oficializar o compromisso. Sei o que estás a sentir ao ler isto, sentiria igual se fosse ao contrário. Mas não podia deixar de te contar. Serás sempre especial como espero continuar a ser para ti. Perdoa-me as longas ausências nas mensagens, não significam que não pense em ti todos os dias. Continua a escrever-me, por favor. Fazes parte de mim, da minha vida, mesmo longe, mesmo virtual... Espero que fiques feliz por mim. Beijinho grande da tua amiga que te adora. Jewel."
Parei um pouco para respirar. Não era justo que todos os dias desejasse receber uma mensagem dela a dizer que o namoro terminara. Não podia continuar com a esperança de a ter para mim. Agora já não era um namoro, era um noivado. As coisas para ela evoluíam normalmente, como devia ser, como ela merecia. Só podia congratular-me por a ver feliz. Não fora eu a causa dessa felicidade, mas não tinha o direito de lha negar por ser outro o dono do seu coração. Recuperado do impacto, escrevi:
“Olá, Mafalda! Há um cantinho no meu coração que guardará para sempre todo o amor que sinto por ti. Não tenho como me desfazer dele, mas ficará ali como uma memória do que poderia ter sido. Farás sempre parte da minha vida e pretendo continuar em contacto contigo, acompanhando a tua felicidade e saboreando um travo dela ao longe. Não tenhas dúvida alguma, estou feliz por ti e desejo-te as maiores felicidades com o teu futuro marido. Beijinho ainda maior para ti. Adoro-te! Daniel."
Logo que enviei, fechei o email e regressei ao meu posto de trabalho.
Quando regressei a casa, telefonei a Peter que se encontrava em Edimburgo desde Setembro, abraçando o novo projecto. Liguei-lhe porque, entre uma lata de salsichas e um pacote de arroz, me perguntei o que fazia ainda ali.
— Olá, Peter!
— Olá, Daniel! Estás bom? Não me digas que estás a ligar para desejar um Feliz Natal. — Ouvi uma gargalhada no outro lado. — É bom ouvir-te, amigo.
— Desculpa estar a ligar-te tão tarde, mas queria fazer-te uma pergunta?
— Chuta.
— A proposta para ser teu assistente ainda está de pé?
Houve um silêncio no outro lado da linha. Merda, mais uma vez chegara tarde.
— Sabes porque te convidei para ser meu assistente? — questionou num tom mais sério. Respondi que não. — Para te dar uma hipótese de enriqueceres os teus conhecimentos de fotografia e ganhares oportunidades para abraçares a profissão com que sempre sonhaste. Não estou à procura de um assistente, estou a criar-te uma oportunidade.
Percebi que ainda tinha hipótese.
— E o ordenado?
— É o que te falei antes.
Um ordenado de sonho. Mesmo assim, havia um pormenor que me deixava relutante.
— Preciso de te fazer uma pergunta. Peço-te que não me leves a mal.
— Chuta, Daniel.
— Existe alguma segunda intenção atrás dessa oportunidade?
Ouvi uma gargalhada estridente do outro lado.
— Achas que estou a tentar seduzir-te?
— Desculpa estar a perguntar, Peter. — pedi quase envergonhado por colocar a questão. — Não quero mal-entendidos.
Denotando um tom bem-humorado, Peter respondeu:
— Há pessoas que acham que a homossexualidade é uma doença. Que se pode dar uns comprimidos e um gajo passa a gostar de mulheres. Podes não acreditar, mas ainda há gente a pensar assim. Achas que se pode transformar um gay em hétero?
— Não.
— Pois um hétero também não se transforma em gay, a menos que goste mesmo de homens. — argumentou. — E pelo que conheço de ti, acho que as mulheres ainda são a tua preferência. — Nova gargalhada. — Somos amigos, Daniel. Acho que tens potencialidade para este ramo. Estou só a ajudar-te.
— Obrigado, Peter! E desculpa...
— Esquece isso! — interrompeu. — Mete-te num avião e vem para cá. Ficas em minha casa, isto é grande com'ó caraças.
— Peter, não vou sozinho. Tens espaço para uma gata?
— Até para uma de duas perninhas. Mas sei que te referes à de quatro. Claro que sim.
Larguei o emprego no final do ano. Os preparativos para a mudança foram trabalhosos, principalmente no que respeita à viagem, tendo em conta que iria transportar um animal de estimação. Isso obrigou-me a contactar várias companhias aéreas, preferencialmente com voos directos entre Lisboa e Edimburgo, que me permitissem viajar com a gata a meu lado, ao invés de a transportarem no porão. Entre uma complicação e outra, lá se resolveu tudo pelo melhor.
Consegui resumir o que queria levar em duas malas. O apartamento, onde outrora os meus tios me haviam criado, ficaria fechado tal como um álbum que se guarda numa prateleira. Cobri as mobílias e corri as persianas. Desliguei o gás, a água e a luz. Fechei a porta sem fazer ideia de quando voltaria... ou se algum dia voltaria. Mesmo assim, enquanto me fosse permitido financeiramente, manteria o arrendamento. Seria uma espécie de tributo aos meus tios.
Um táxi levou-me de Almada até ao Aeroporto da Portela. Enquanto atravessávamos a Ponte Vasco da Gama, o rádio tocou o Run dos Snow Patrol, acentuando o meu sentimento de partida, despedindo-me daquilo que me prendia a Portugal, uma esperança que se esfumara, um amor perdido, um nome gravado a fogo no meu coração... Mafalda.
Nunca o consegui explicar, mas adorei Edimburgo desde o primeiro minuto, logo que pisei solo escocês. Não foi certamente pelo frio brutal de Janeiro ou pelos dias constantes de céu cinzento. Aliás, o Sol é raro na capital da Escócia, mas quando aparece... Tal como os escoceses dizem "nada bate Edimburgo num dia soalheiro".
Penso que o meu fascínio eram as pessoas. Por norma, só encontrava simpatia, afabilidade, hospitalidade. Sentia-me em casa. O meu inglês enferrujado rapidamente ganhou lubrificação e tornou-se regular. A única coisa a que nunca me consegui adaptar foi ao facto de os tipos conduzirem do lado errado da estrada.
Peter vivia no topo de um edifício da zona mais recente da cidade. O espaço era um amplo open space de dois pisos num estilo arquitectónico clássico, o qual servia de estúdio de fotografia e habitação. A zona de estúdio, piso inferior, tinha uma parede alta com vários rolos coloridos que se desenrolavam para a escolha do melhor cenário a usar nas fotos. Ao fundo, perfilavam-se diversos acessórios de apoio, máquinas fotográficas... Numa das laterais, um conjunto de biombos permitiam a privacidade dos modelos para as trocas de roupa. E na parede oposta existia uma porta para a casa de banho de trabalho. A zona de habitação era o piso superior, onde as paredes laterais eram todas envidraçadas oferecendo uma vista magnífica para o sector histórico da cidade e para as colinas. A luminosidade contrastava muito com a escuridão do andar de baixo. Também era um espaço amplo, sem paredes interiores, dividindo-se entre sala gigantesca e cozinha de serviços mínimos e bem equipada. Na ponta oposta à escada de acesso, os quatro quartos e a casa de banho privativa eram os únicos sectores com portas e completa privacidade.
Tio andou meio confusa nos primeiros tempos, era um ambiente completamente novo. Já quando nos mudáramos para casa de Francisca, ela se mostrou apática. Ali, penso que o clima acentuou, para além do desgaste da viagem. No entanto, lá se habituou. Peter gostava muito dela, um sentimento recíproco. Deixávamo-la circular à vontade pelo piso superior, mas o inferior era-lhe interdito, não fosse derrubar algum do equipamento caríssimo que ele lá tinha.
Mais que um emprego, trabalhar com Peter era um enriquecimento de conhecimento e experiência em fotografia. As sessões fotográficas variavam entre o estúdio, exteriores ou outros locais. No estúdio, recebíamos muitos modelos e aspirantes a modelos, masculinos e femininos, na sua maioria enviados pelas agências para a realização de books de apresentação. Contudo, também tínhamos sessões para campanhas de publicidade, catálogos, promoção de eventos...
Perdi a conta ao número de raparigas que despiam Peter com o olhar, cheias de desejo, não se coibindo de lhe explicitar as suas intenções. Havia outras que já sabiam das suas preferências e nem perdiam tempo. Eu nunca lhes despertei muito interesse, acho que após a recusa dele, eu não passaria de um fraco prémio de consolação. Verdade seja dita, também não estava interessado, uma vez que não queria paixões e nunca tive jeito para cenas de sexo pontual. Nem mesmo os modelos masculinos que partilhavam da sua orientação sexual tinham sorte com Peter, o qual sempre me ensinara a nunca misturar trabalho com prazer.
Os trabalhos exteriores eram mais complicados. O clima tornava-se uma lotaria e quantas vezes não tínhamos de adiar ou suspender uma sessão por causa da chuva ou do vento.
A juntar ao contrato que Peter tinha com as agências, uma vez que me tinha como assistente e sentia que poderia confiar-me a máquina, começámos a aceitar trabalhos de reportagem fotográfica de eventos, fotografia de espaços culturais e turísticos, enfim... Fazíamos todo o tipo de fotografia. E à conta disso, ganhámos muito dinheiro. Já para não falar dos diversos patrocínios que Peter tinha, os quais nos forneciam o material que precisávamos, ao ponto de ele me ter oferecido um dos primeiros modelos da Canon 5D para eu treinar.
Como já referi, conduzir na Escócia era uma dor de cabeça para mim. Nem sequer tentei. Talvez por isso, deixei-me influenciar pelo gosto de Peter por motas. Ao fim de seis meses em Edimburgo, comprei a minha mota. Sempre seria mais fácil acertar com o lado correcto e em caso de dúvida ia por cima no tracejado da estrada.
As pessoas que nos rodeavam, amigos e vizinhos, conheceram Peter antes de me conhecerem a mim. Sabiam da sua orientação sexual, até porque ele nunca o escondera. Isso fez com que fossemos vistos como um casal. Nunca me senti incomodado com essa situação. Em cerca de um ano na Escócia, conheci-lhe alguns casos amorosos, mas sem grandes perspectivas de futuro. Peter também não era homem de compromissos afectivos.
Peter e eu saíamos muitas vezes à noite, juntando-nos ao habitual grupo de convívio, na sua maioria homens a jogar na equipa de Peter. Curiosamente, os gays têm sempre as amigas mais giras das festas.
Depois dos últimos tempos em Portugal, Edimburgo trouxe-me uma época de realização. Adorava o que fazia, adorava a vida que tinha. Conheci imensa gente, estive rodeado de pessoas lindas, fascinado com a beleza de mulheres lindíssimas... Apesar das oportunidades, nunca me quis envolver com ninguém, nem mesmo se fosse algo só por uma noite. Nunca quis porque aquele cantinho especial no meu coração continuava lá, guardado, suspenso, esquecido numa recordação diária.
Recordo-me que já vivia ali havia pouco mais de um ano. Nesse período, a troca de mensagens com Jewel era escassa e regular, um compromisso que nos esforçávamos por cumprir de pelo menos uma vez por semana. Basicamente, relatávamos a nova vida e congratulávamo-nos com o sucesso do outro. De tempos a tempos, ela perguntava se eu já encontrara alguém que substituísse Francisca no meu coração. Não seria difícil encontrar, o problema é que eu tinha de encontrar uma substituta para Mafalda no meu coração. E isso não me parecia possível.
Eu adorava passear pela Cidade Velha de Edimburgo, principalmente ao fim do dia. Ir jantar à Grassmarket, beber um gin na Royal Mile... Naquela noite, fui jantar a um restaurante perto do Castelo de Edimburgo, na companhia de alguns amigos. Peter estava em Milão para acompanhar um evento de moda e eu ficara a assegurar os trabalhos de estúdio, durante a semana que estivesse ausente. Há algum tempo que deixara de ser seu assistente para ser um fotógrafo parceiro.
Saí do restaurante sozinho e desci a rua. Estávamos na Primavera, mas o ar era igual a Portugal em Dezembro, não deveriam estar mais de cinco graus. Caminhei calmamente, desfrutando do passeio, seguindo pela Royal Mile, vendo as várias pessoas que circulavam por ali. O meu destino era a South Bridge, lá em baixo, onde apanharia o autocarro para casa. Ao chegar à St. Gilles Cathedral, vi uma rapariga sentada no chão, encostada à parede, pedindo esmola. Não era incomum, ver alguns sem-abrigo, à noite, a pedir e a acomodar-se a um canto. O que me chamou a atenção foi o seu aspecto, quase como se fosse uma viajante que fizera uma paragem ali para colectar umas moedas e prosseguir. A rapariga tinha cabelo escuro curto, vestia um grosso blusão estilo montanhista e embrulhava-se num edredão colorido. A seu lado, uma mochila que deveria conter os seus parcos pertences.
Sem desviar caminho, aproximei-me, ouvindo-a num inglês estranho a pedir a quem passava que lhe dessem dinheiro para poder comprar algo quente para comer. Levei a mão ao bolso para constatar que não tinha um peni que fosse. A escassos cinco metros, perante a passagem de um casal que a ignorara, ouvi-a dizer:
— Obrigadinho por nada.
Falava português?
Nem me apercebi que parara, ficando a olhar para ela. E isso chamou a sua atenção, cravando-me o olhar em jeito de desafio. Percorri a distância que nos separava e baixei-me perto dela.
— És portuguesa?
Houve um momento de surpresa no seu rosto por se confrontar com alguém que falava a sua língua nativa. Porém, recompôs-se.
— Sou. — Simulou um sorriso. — Não queres ser um bom compatriota e dar-me umas moedas para beber qualquer coisa quente?
Tirei vinte libras da carteira e dei-lhe, perante o seu olhar arregalado. Apressou-se a esconder a nota, não fosse alguém ter visto e a tentasse roubar quando estivesse a dormir.
— Que faz uma portuguesa a pedir esmola numa rua de Edimburgo?
Calculo que tivesse vontade de responder que eu não tinha nada com isso. Só que eu fora simpático, dera-lhe aquela nota.
— É uma longa história. — respondeu em jeito de "vai-te lá embora".
Sentei-me no chão a seu lado, sentindo a pedra gelada.
— Eu tenho tempo.
A rapariga olhou-me incrédula, permitindo-me ver com mais atenção os seus olhos castanhos muito escuros e notar algum cansaço neles. Abanou a cabeça, aborrecida.
— Que idade tens? — perguntei num tom simpático.
— 25.
Era cerca de três anos mais nova que eu. Insisti na curiosidade pelas causas que a levaram ali. As pessoas passavam e olhavam-nos com estranheza, questionando-se o que fazia uma pessoa "normal" sentada no chão ao lado de uma sem-abrigo.
— Estás a afugentar a clientela. — reclamou, vendo que ninguém se aproximava.
Eu propus:
— Se me contares a tua história, ofereço-te uma refeição e bebida quentes.
Ela pareceu duvidar e estendeu a mão para que eu celebrasse o acordo com o dinheiro para pagar a oferta. Recusei, explicando-lhe que teria de confiar em mim.
O relato começou aos tropeções, pensando naquilo que queria e não queria contar. Aguardei paciente, ouvindo com atenção sem interromper. Ela era natural do Algarve, onde trabalhava nos bares em Albufeira. Conhecera um escocês. Imaginei um típico britânico daqueles que proliferam pelo sul de Portugal em bares, completamente bêbados e a causar desacatos. O seu olhar pareceu perder-se nas recordações. Ele cativara-a, ela apaixonara-se por ele. Ele parecia ter dinheiro, prometia-lhe imensas coisas. Percebendo que seria uma oportunidade para uma vida melhor, ela fez-se difícil, um beijo aqui, um beijo ali e mais nada. Se ele queria mais, tinha de a levar consigo. Segundo a rapariga, o escocês mostrava-se mesmo interessado em levar aquilo a sério e fizeram planos para ficarem juntos. Ela viajou com ele para Edimburgo. Ele explicara-lhe que era de uma localidade longe da capital, por isso, ficariam num hotel na noite em que chegaram e partiriam na manhã seguinte, de comboio, para a terra dele. Uma vez na Escócia, ela baixou todas as defesas e nessa noite dormiram juntos no hotel. Recordava-se que adormecera feliz, ansiosa por conhecer a família dele. Contudo, na manhã seguinte, acordou sozinha no quarto. Ele desaparecera. Não deixara nada e ainda lhe roubara o pouco dinheiro que tinha. Despertou para a cruel realidade, onde tudo não passara de um estratagema para a... Não se importou em usar a palavra "foder". Como pudera ser tão estúpida? Gastara as suas escassas economias com a viagem, permitira que ele registasse o quarto em seu nome... Tudo porque estava apaixonada e acreditara nas suas boas intenções.
— E depois? — questionei, perante a pausa no relato.
— Tentei colocar as ideias em ordem. Estava lixada. Não tinha um peni que fosse, o filho da puta levara tudo. Vesti-me e arrumei a mochila. — Apontou para o volume a seu lado. — Consegui sair do hotel sem que dessem por mim e fugi. — Olhou para as mãos com olhar vago. — Desde essa altura que vivo na rua.
— Isso foi há quanto tempo?
— Dois meses.
Suspirei, imaginando como teria sido passar parte do Inverno escocês a dormir na rua.
— Porque não pediste ajuda no Consulado? Talvez te ajudassem a regressar a Portugal
— Regressar para quê? — interrogou com um sorriso irónico. — Não tenho lá nada. Não tenho família, larguei a casa, não tenho emprego... O mais certo seria estar a dormir na rua, tal como estou aqui. — Mudou para um tom sarcástico. — Olha! Pelo menos aqui as esmolas são melhores.
Levantei-me do chão com os ossos doridos e o rabo gelado.
— Eh! Onde vais? — perguntou. — Deves-me uma refeição e uma bebida.
Sacudi as calças e respondi:
— Eu sei. Anda comigo! — A rapariga hesitou, estranhando ou até mesmo temendo algo. — Anda! Não estás à espera que te venha trazer as coisas aqui?!
Receosa, saiu debaixo do edredão e começou a enrolá-lo. Reparei nas calças gastas sujas e nas sapatilhas esburacadas. Prendeu o rolo na mochila como se fosse um saco-cama e colocou tudo às costas.
— Vamos? — indiquei, apontando para a estrada.
Ela começou a andar, acompanhando-me na descida pela Royal Mile.
— Como te chamas? — quis saber, sentindo o seu cheiro nauseabundo. — Eu chamo-me Daniel.
— Kátya. — informou, explicando. — Kátya com "k" e "y".
Sorri com o pormenor.
Perto do primeiro restaurante, Kátya disse:
— Não sei que pensas fazer, mas não sei se me deixam entrar ali.
— Não te preocupes, não te vou levar a um restaurante. — Ela parou subitamente preocupada. — Vou levar-te para minha casa. Estarás mais à vontade. — O seu rosto adquiriu uma expressão de quase pânico. — Não te preocupes. Não te vou fazer mal. — Permaneceu petrificada. — A sério, Kátya. Não tens de ter medo.
A custo, ela lá colocou um pé à frente do outro.
A noite estava cada vez mais fria. Na South Bridge, apenas mais duas pessoas aguardavam a chegada do autocarro, o qual chegou numa altura em que começava a chover.
Por muito forte que Kátya tentasse mostrar-se, reparei que se sentia intimidada pelos olhares condenatórios, quase enojados de quatro passageiros, pela sua presença dentro do veículo. O seu receio não se atenuou durante a viagem, nem ao chegar à minha morada. Deveria estar apavorada com a incerteza se a esperava uma refeição quente ou um destino trágico, caso eu fosse um psicopata.
Ao entrarmos em casa, Tio veio receber-nos. A gata mal ouvia a porta e vinha logo às escadas.
— Esta é a Tio. — apresentei.
Kátya tentou fazer-lhe uma festa, quando a gata se aproximou curiosa, mas Tio fugiu. Encaminhei-a pelas escadas. No seu rosto estampava-se o espanto pela dimensão do lugar. Deixou-se conduzir pela sala até às portas na extremidade oposta. Pedi-lhe que largasse a mochila ali.
Tio acomodara-se na sua cama junto ao sofá e observava-nos atenta.
— Estou a ver que és um gajo cheio de papel. — comentou, mais para aliviar os nervos.
Não me pronunciei e afastei-me para o meu quarto. Fui buscar um conjunto de toalhas e entreguei-lhas.
— Aqui tens. Aproveita e toma um banho quente enquanto preparo alguma coisa para comeres.
Kátya continuava hesitante. Por isso, abri a porta da casa de banho, acendi a luz e apontei-lhe o duche.
— Vá! Fica à vontade.
Na cozinha, preparei-lhe uma sopa instantânea bem quente, ouvindo o som da água a correr no duche. O duche demorou bastante tempo, o que compreendi, uma vez que ela já não deveria tomar banho desde que vivia na rua. As suas coisas imundas despertaram a atenção de Tio que foi farejar tudo, soltando depois um miar indignado e regressando ao seu canto.
O som parou. Passado algum tempo, a porta abriu-se.
— Queres que te faça um chá ou preferes café? — ofereci, vendo-a sair para a sala.
Kátya não respondeu, avançando para a cozinha. Trazia a toalha maior enrolada à volta do corpo, cobrindo desde o peito até abaixo da cintura. Reparei que era magra, demasiado magra, fruto da vida dos últimos tempos. As pernas esguias revelavam joelhos tortos, os braços tinham duas flores tatuadas. A toalha apertava-se à volta do peito bem-dotado. A cabeça fora coberta com a toalha mais pequena para secar o cabelo. Só o banho já lhe atribuía uma imagem muito mais leve e cativante.
Esperando uma resposta, vi-a parar junto à península que dividia a cozinha e a sala. Olhou para mim, séria.
— Se não te importas, prefiro que o façamos antes de comer.
A frase apanhou-me completamente de surpresa.
— De que estás a falar?
O rosto agastado forçou um sorriso escarninho.
— Sei bem para que me trouxeste para aqui. E quiseste que fosse tomar um banho. Ok, é justo.
— Achas que te trouxe para aqui para te levar para a cama? — inquiri incrédulo. — Pensas que estou a fazer isto para ter sexo contigo? — Ela assentiu. — Estás enganada. Não estou interessado.
A frase pareceu ofendê-la. Num instante, a perspectiva de ter de fazer sexo em troca de comida pareceu-lhe menos humilhante que ser rejeitada.
— Que foi? Não te agrado? — inquiriu zangada.
Adoptando uma postura séria, retorqui:
— Até podias ser a mulher mais linda do mundo. Eu jamais me aproveitaria da fragilidade de alguém para me usar dela.
Ela percebeu que me avaliara mal.
— Ok. Desculpa! Pensei...
— Não penses. — interrompi, empurrando a tigela da sopa na sua direcção. — Aproveita e come enquanto está quente.
Enquanto ela comia, desci ao estúdio. Nas sessões de fotografias para catálogos era comum que as marcas nos deixassem peças de roupa, sapatos... uma espécie de brindes. Deixavam para homem e para mulher, pois poderíamos querer oferecer a alguém. À conta disso, o estúdio tinha já um considerável guarda-roupa que nós também aproveitávamos para outras sessões. Fui buscar umas calças de ganga, uma camisola de lã, umas meias grossas, umas cuecas e um sutiã, esperançado em ter adivinhado as suas medidas.
Ao regressar, entreguei-lhe tudo, dizendo:
— Vou dar-te um saco para colocares a roupa que trazias. Vais deitar aquilo fora. Tens aqui roupa lavada para ti. Deitas fora também aquele edredão imundo.
— E como é que passo a noite na rua com este frio? — perguntou, indignada.
— Não precisas de te preocupar com isso. Esta noite ficas aqui. — Kátya ficou boquiaberta. Eu continuei. — Guarda as coisas que possam ter um significado especial para ti. O resto, enfia na mochila e vai tudo para o lixo.
Sem dizer qualquer palavra, Kátya terminou a sopa, pegou na roupa que lhe dera e regressou à casa de banho. Alguns minutos volvidos, regressou à sala com a indumentária que lhe arranjara no estúdio. Pegou no saco do lixo que lhe dei e enfiou lá a roupa velha, o edredão e a mochila com tudo o que não interessava. Ficou apenas com os documentos e uma caixa pequena. Atou o saco para que o cheiro não saísse e estacionou-o no cimo das escadas. Tio andou à volta dela e acabou por a deixar afagar-lhe o pêlo. Por fim, sentou-se no sofá com os olhos fixos em mim.
— Pronto, fiz o que me mandaste. Desculpa o cepticismo, mas tenho alguma dificuldade em acreditar que fazes tudo isto por mim sem querer nada em troca.
Observei-a de forma analítica, agora que estava lavada e arranjada percebia-se que era uma rapariga bonita.
— Já te disse que não te estou a ajudar para te levar para a cama.
— Então, diz-me o que queres de mim. — exigiu. Depois, olhou em volta. — Já sei. Recebes pessoas aqui. Queres que me prostitua para ti, é isso?
— Já pensaste em escrever histórias? Tens uma imaginação...
— Merda, pá! Deixa-te de jogos e diz logo o que queres.
Ofereci-lhe um sorriso tranquilizador.
— Lamento a tua falta de crença na Humanidade. Sei que a maioria corresponde à tua ideia, é verdade. Só que ainda há alguns exemplares perdidos que até fazem umas coisas sem quererem nada em troca. — Fiz uma pausa como se ponderasse algo. — Bom, até quero algo em troca. — Tornei a sorrir. — Um "obrigado" sabia-me bem.
Kátya permaneceu na dúvida, custava-lhe a acreditar.
— Não estás a fazer isto para obter algo? Não vou acordar amanhã sem um rim?
Não contive uma gargalhada.
Ela levantou-se do sofá e foi buscar a caixa que retirara da mochila. Abriu-a e retirou um maço de tabaco.
— Importas-te que fume?
— Importo. — impedi, travando o seu movimento de retirar o cigarro. — Não quero fumo aqui dentro. Se tens mesmo necessidade de fumar, terás de ir fazê-lo à rua.
O cigarro regressou ao maço.
— Como é que alguém que anda a pedir na rua tem dinheiro para tabaco?
— Da mesma forma que tem para a comida, ou seja, não tem. — explicou, fechando a caixa. — Não te vou mentir, eu roubei o maço.
— Só roubaste tabaco? — inquiri com um olhar inquisidor.
— Não. — respondeu sem querer dar mais pormenores. — Na rua tens de sobreviver...
Não ia fazer daquela conversa um interrogatório, mas tinha uma última questão:
— E drogas?
— Pareço-te uma drogada? — retorquiu. Eu aguardei a resposta. — Não, nunca me meti em drogas. Fumei umas cenas na adolescência, nada mais.
Tio deu uma volta na sua cama, procurando a melhor posição. Notei o seu desconforto, queria descansar e nós estávamos ali a perturbar o seu descanso.
— É melhor irmos dormir. — sugeri, olhando para as horas.
Levantámo-nos em simultâneo e indiquei-lhe o quarto onde iria dormir.
— A porta tem chave? — perguntou, observando o quarto.
— Sim. Podes trancar a porta se isso te fizer sentir mais segura.
Kátya abanou a cabeça.
— Não é isso. Leva a chave e tranca a porta por fora. Dormirás mais seguro e descansado, não vá eu roubar alguma coisa e fugir.
— Eu confio em ti. — afirmei, recusando a ideia de a trancar. — Não fumes no quarto. Se tiveres mesmo necessidade, podes abrir a janela e fumar lá fora.
Sei que foi arriscado. Ela poderia aproveitar a ocasião, roubar algumas coisas valiosas que tínhamos em casa e fugir enquanto eu dormia. Porém, não senti esse receio, Kátya era uma alma ferida a desfrutar de abrigo.
Na manhã seguinte, acordei tranquilo, recordando-me que abrigara uma conterrânea em minha casa. Saí do quarto e encontrei Tio sentada defronte da porta do quarto onde Kátya dormia, como se a esperasse.
— Não faças barulho, Tio. — sussurrei. — Deixa a rapariga descansar.
Fui tomar um banho e arranjar-me para mais um dia frio em terras caledónias. Ao voltar a sair do quarto, Tio permanecia no mesmo sítio. Avancei para a porta e, antes de bater, a gata levantou-se atenta com o focinho numa expressão de "vá lá, acorda-a". Bati suavemente na porta. Ninguém respondeu. Bati ligeiramente com mais força e chamei-a pelo nome. Novamente, não houve resposta. Teria ido embora? Levei a mão ao puxador e rodei. Abri a porta com cuidado e espreitei para o interior.
Kátya dormia profundamente, estendida na cama e recuperando das muitas noites mal dormidas ao relento. Sei que deveria ter saído imediatamente, mas não consegui evitar observar a cena. Ela dormia de barriga para cima, atirara a roupa da cama para o lado e o seu corpo nu estava completamente exposto aos meus olhos. Os olhos cerrados, a boca aberta ecoando um ressonar quase sussurrado. Tal como suspeitara, tinha seios volumosos, acentuados pelos sinais de magreza, onde os mamilos se espetavam como duas antenas. As costelas começavam a notar-se sob a pele. Um dos braços estava pendurado na cama, enquanto o outro repousava sobre a sua cabeça, revelando os pêlos nas axilas. Os meus olhos desceram para a cintura. As pernas estavam afastadas e um tufo grande de cabelo escuro sobressaia entre elas. Reparei que tinha uma cicatriz na coxa e que muitos pêlos se espalhavam dos joelhos até aos pés.
Não vou mentir, senti desejo por ela.
Silenciosamente, voltei para trás e fechei a porta.
— Nem um miau sobre isto, Tio! Ouviste? — A gata soltou o seu característico miar. — Ainda bem que entendeste.
Caminhei até à cozinha e preparei o pequeno-almoço.
Cerca de quinze minutos mais tarde, saboreava eu uma torrada ainda com o quadro da manhã no pensamento, Kátya saiu do quarto embrulhada num cobertor e com o rosto estremunhado, abrindo os olhos com dificuldade devido à forte luminosidade.
— Bom dia! — atirou. Apontou para a casa de banho. — Posso?
— Bom dia! Claro, estás à vontade.
Kátya desapareceu no seu interior. Ouvi a água a correr. Tio tornou a cirandar pelas portas dos quartos, curiosa a todos os sons, fugindo quando a minha hóspede reapareceu, escondida no cobertor e com um semblante mais desperto. Voltou ao quarto para tornar a aparecer já vestida com as roupas que lhe dera na noite anterior.
— Dormiste bem? — perguntei, quando se sentou a meu lado ao balcão.
— Não dormia assim há tanto tempo...
Na sua frente, Kátya tinha pão, chá e compota. Devorou tudo.
Fiz café para ambos.
— Quando queres que me vá embora? — perguntou timidamente após o café.
— Não te preocupes com isso agora. — descansei-a. — Tenho outros planos para hoje. — O seu olhar denunciou o receio do que estaria para vir. — Bolas, continuas com medo?
— Não fazes ideia por aquilo que já passei.
— Compreendo. Mas não precisas de ter medo. Quero ajudar-te a arranjar um trabalho e um sítio onde viver. Não quero que voltes para a rua. — Ela ficou comovida. Sorri-lhe com ternura. — Podes achar tudo isto estranho. Imagino a solidão que tenhas passado, desde que vieste parar a Edimburgo. Tenta esquecer isso. Agora tens um amigo que te vai ajudar. — Pisquei-lhe o olho. — E faço-o sem querer roubar-te um rim.
— Obrigado! — agradeceu, controlando a emoção.
O meu primeiro plano seria levá-la ao Consulado. Queria saber se a documentação dela estava toda em ordem e tratar dos requisitos necessários para conseguir arranjar um emprego na Escócia.
Descemos as escadas. Parei no piso inferior, abrindo a porta do estúdio para ir buscar um casaco para ela.
Ao entrar, Kátya surpreendeu-se com o lugar.
— És fotógrafo?
— Sim. Partilho este estúdio e a casa com outro fotógrafo português.
Ela olhou em redor e depois para mim.
— Ah... Percebo. Por isso é que me rejeitaste.
— Como assim? — questionei, entregando-lhe um dos meus blusões de cabedal.
— Tu e ele... Vocês... — Como não completei a sua frase, ela fê-lo. — És gay!
Ri-me divertido.
— Sim, é isso. Descobriste tudo. Sou gay.
Ela não pareceu convencida.
— A sério? Vá lá. Diz-me a verdade!
— Isso é importante?
— Sou curiosa.
— E vais continuar curiosa. — retorqui, voltando a fechar a porta do estúdio. — A orientação sexual é uma coisa privada.
Kátya encolheu os ombros, aborrecida. Mesmo assim não se deu por vencida e, já na rua, insistiu:
— Deves fotografar muitas mulheres naquele estúdio?!
— E homens também.
— E gostas mais de fotografar quais?
— Ambos.
Ela silenciou-se por breves instantes e concluiu:
— És bissexual.
Kátya permaneceu lá em casa mais três dias, tempo suficiente para lhe encontrar um lugar onde ficar. Havia espaço na casa de Peter, mas não queria tomar uma decisão dessas sem o seu consentimento, nem colocá-lo perante essa questão quando chegasse. Por isso, aluguei-lhe um pequeno apartamento nos arredores de Edimburgo, somente com uma sala, cozinha e WC, o suficiente para que não dormisse na rua. Ela recusou a minha proposta, não queria viver à minha custa. Argumentei que me poderia pagar tudo quando a sua vida melhorasse e ela passou a apontar o preço de tudo o que lhe dava.
Parecia que estava a sustentar a amante, pagava a renda, as despesas da casa e alguma coisa que lhe fizesse falta. Felizmente, podia fazê-lo, pois atravessava uma época fantástica de trabalho e rendimentos. Contudo, ao fim de duas semanas, Kátya conseguiu emprego a servir às mesas num restaurante na George Street e deixou de necessitar parcialmente do meu apoio.
Com o tempo, tornámo-nos muito próximos, verdadeiros amigos. Apesar de a nossa relação não ir além da amizade, sempre que nos encontrávamos, o nosso cumprimento era um beijo nos lábios do outro. A sugestão fora dela, queria de alguma forma demonstrar que eu era especial e que me estava grata por a ter salvo da vida na rua. A nova rotina modificou-lhe a imagem para melhor, ganhara peso e deixara crescer o cabelo. Sempre que as nossas folgas coincidiam, levava-a a passear na minha mota. Outras vezes, ia buscá-la ao restaurante no final do trabalho e íamos para casa dela ver filmes ou conversar até de madrugada. Numa dessas conversas, abri o meu coração e partilhei com ela a minha história com Mafalda.
As mensagens de Jewel tornaram-se irregulares. Comecei a pensar que, mais tarde ou mais cedo, a comunicação se perderia por completo. Porém, perto do Natal, enviou-me um email a combinar que conversássemos online nessa noite. Assim, na hora marcada, lá estava eu defronte do computador.
As conversas já não aconteciam tanto nas salas virtuais, uma coisa chamada Messenger ganhara a preferência dos cibernautas, um programa parecido com o ICQ, melhorado e que nos permitia falar directamente com os nossos contactos. Claro que ainda existiam e continuariam a existir as salas de chat. E na época começava a surgir o conceito de redes sociais com sítios online onde se criavam perfis e se acumulavam amigos, como o Hi5 e o Facebook.
"Tenho uma novidade para te contar"
Li aquilo, temendo a novidade, quase como se adivinhasse.
"Marcámos a data do casamento."
"Parabéns", escrevi sem sinceridade. Seria mais um passo para o aniquilar permanente da minha esperança em relação a ela.
"Gostava que ficasses feliz por mim."
"Se estás feliz, eu estou feliz", menti.
"Vai ser um dia muito importante para mim. Talvez um dos mais importantes da minha vida."
E que tenho eu com isso? Adorava-a, mas tinha vontade de desligar. Ela esclareceu ao que vinha:
"Queria que estivesses presente. Seria muito importante para mim."
Espantei-me com o convite.
"Não me peças isso."
"Tu és meu amigo. Sei que tem sido uma amizade à distância, mas isso não te torna menos especial para mim."
"Sabes o que sinto por ti. Não é amizade, é muito mais que isso."
"Eu sei."
"Não achas que seria cruel ter de testemunhar o teu casamento com outro?"
"Gostava que não o visses dessa forma. Disseste que ficarias feliz por mim."
Não respondi logo e houve uma pausa. O icon dela permanecia online.
"Ok. Compreendo que não queiras vir. Sou forçada a aceitar que aquilo que te disse, quando nos encontrámos, afinal não passava de uma ilusão."
"Referes-te àquilo que jurámos não repetir?"
"Refiro-me à despedida, quando te disse: aconteça o que acontecer, nunca sairemos da vida um do outro."
"Achas que é uma ilusão?"
"Diz-me tu."
"O que temos, o que nos liga é real. Não te quero perder, mesmo que cases com outro. Nem vou deixar de te amar depois de casares com ele."
"Vou enviar-te o convite. Espero que aceites e compreenderei se não apareceres. Ficarei triste, se não estiveres presente. Mas não deixarei de ser tua amiga."
Prometi pensar no assunto.
Nesse Natal, Peter ausentou-se para passar a quadra com a família em Portugal. Agendara duas semanas de férias e só regressaria nos primeiros dias do novo ano. Kátya e eu não tínhamos família, por isso, combinámos partilhar a Consoada um com o outro na fria e gelada cidade de Edimburgo. O sítio escolhido foi o apartamento onde eu vivia e trabalhava.
Não havia um único motivo natalício em casa. Não deixava de ser paradoxal com o ambiente da cidade, a qual até tinha lojas só dedicadas ao Natal com uma imensidão de artigos. Desde que o meu tio falecera que a quadra tinha um significado triste, uma sensação de vazio. Daí que a encarasse com a maior naturalidade, dias como quaisquer outros.
Encomendei o jantar num take away próximo de casa. Montei mesa para dois na península da cozinha e abri uma garrafa de vinho tinto. Lá fora, a neve despenhava-se com suavidade nas ruas. Kátya chegou à hora combinada, carregando um pequeno saco com presentes e uma muda de roupa, pois passaria a noite ali. Ao entrar, trocámos o beijo só nosso. Senti-lhe o cheiro agreste do tabaco.
— Estiveste a fumar?
Ela evitou-me o olhar de culpa e confessou:
— Não queres que fume cá em casa, aproveitei para um último cigarro antes de entrar.
— Devias deixar de fumar, isso ainda te vai matar.
Kátya esbracejou, como se atirasse essa ideia para longe, subindo as escadas. Largou o sobretudo grosso nas costas do sofá e pediu para ir deixar o saco no quarto que lhe destinara para essa noite. Fiquei a observar os seus movimentos, estava cada vez melhor, mais curvilínea com o cabelo cada vez mais comprido que só lhe atribuía mais charme.
Desfrutámos do jantar ao som de música ambiente, sentados de frente um para o outro, em bancos altos, com o balcão entre nós. A meio da refeição, disse:
— Falei com a Mafalda no outro dia. — Ela encarou-me atenta sem qualquer expressão. — Marcou a data do casamento.
Houve um suspiro, os olhos desviaram para o copo.
— Sabias que esse dia ia chegar.
— Sim... — concordei, agastado. — Isso não o torna menos difícil. — Esperei que bebesse o vinho. — Ela convidou-me para o casamento.
Kátya soltou um riso incrédulo.
— O quê?
— Diz que é um dia importante e quer que todas as pessoas importantes na vida dela estejam presentes.
Vi-a abanar a cabeça, ficando depois a ponderar a situação.
— E tu? Vais?
— Seria muito doloroso vê-la casar com outro homem. — confessei. — Por outro lado, sinto que estou a dar um duro golpe na nossa amizade. — Esperei obter uma opinião sua. Kátya não se manifestou. — O que achas?
— O que eu acho? — repetiu. — Acho que não me cabe a mim tomar a decisão por ti. — Passou a mão pelo cabelo, sinal que me habituara a reconhecer como desconforto perante algo. — A única coisa que te posso dizer é que, se quiseres, eu posso ir contigo.
Sorri-lhe.
— Serias capaz de fazer isso por mim?
Os seus olhos acarinharam-me, ofereciam-me uma paz, um abrigo de emoções.
— Percebo que aches que a estás a magoar, se não fores. Também sei o quanto será difícil para ti. — A sua mão agarrou a minha. — Jamais te deixaria enfrentar isso sozinho.
— Tu és uma boa amiga.
O rosto de Kátya fez um esgar de algo parecido com decepção. Apertou a minha mão com ternura e olhou-me intensamente nos olhos.
— Poderia ser mais que uma boa amiga, se quisesses.
A confissão não foi surpresa. Desde algum tempo que a notara melosa e quase apaixonada nos momentos que partilhávamos. Fingi sempre que não reparava. Porém, naquele momento, não havia como me desviar.
Acariciei o seu pulso com os dedos, dizendo:
— Não seria justo para ti. Mereces alguém que esteja contigo de alma e coração. Não alguém que tem outra mulher na cabeça.
Kátya sorriu vencida e soprou-me um beijo.
— Desculpa se te deixei desconfortável, Daniel.
— Não. Sinto-me lisonjeado. — corrigi, vendo a mão dela afastar-se. — És uma mulher muito atraente. Tenho a certeza que encontrarás o teu príncipe. — Frase péssima para se dizer a uma mulher apaixonada. Quase lhe podia ler no rosto "o meu príncipe és tu".
O assunto terminou ali. Kátya quebrou o ambiente, relatando uma situação sem importância que acontecera no restaurante. Prolongámos a noite com conversa, sentados no sofá, mergulhados na sensação agradável de estar na companhia do outro. Tio deitara-se entre nós, encostada a ela e com uma pata sobre a minha perna. Aguardámos a meia-noite a contar os segundos como se fosse a entrada de um novo ano e trocámos presentes. Kátya ofereceu-me um livro de fotografia, o qual trazia na primeira página uma mensagem manuscrita por ela: "Obrigado por tudo o que fizeste por mim. Salvaste a minha vida. És o meu anjo. E eu sou tudo aquilo que quiseres que seja na tua vida. Beijo do meu coração no teu. K". Emocionei-me ao ler aquilo. E ela emocionou-se por eu me ter emocionado. Debrucei-me para ela e beijei-a. Eu não fui tão sentimental, oferecendo-lhe um relógio. Tio teve direito a uma manta nova e um brinquedo.
Logo que terminaram os presentes, Kátya não conteve um bocejo.
— Desculpa...
— Está na hora de irmos dormir. Já é tarde.
Levantámo-nos ao mesmo tempo, perante o protesto miado de Tio que se aquecera entre nós. Caminhámos para as portas do quarto.
— Posso fazer-te uma pergunta? — pediu, travando o passo.
— Claro.
A voz saiu-lhe hesitante:
— Há... Há quanto tempo... Há quanto tempo não...? — A princípio não percebi. Ela deu a sua resposta, elucidando-me. — Eu não o faço desde aquela noite em que cheguei a Edimburgo. — Mesmo assim, fiz de conta que não percebi. — Sexo, Daniel. Há quanto tempo não fazes?
Olhei para o tecto e abanei a cabeça. A que propósito vinha agora aquela pergunta?
— Que interessa isso agora?
— Vá lá, sabes que sou curiosa.
Há demasiado tempo, pensei. Respondi:
— Há algum tempo.
Kátya percebeu que o "há algum tempo" era um "há algum muito tempo". Colocou a mão no meu peito e numa voz sussurrada, sugeriu:
— Queres descontrair um pouco comigo?
— Kátya... — suspirei, lutando contra a sua vontade e a minha.
— Daniel. Sem cobranças. — insistiu. — Só um pouco de prazer. Nós merecemos.
— Não, Kátya. — recusei da forma mais terna que consegui.
Ela assumiu a derrota, esticando-se para mim e despedindo-se com um toque da sua boca nos meus lábios.
— Até amanhã, Daniel!
— Até amanhã Kátya! — retribuí, vendo-a fechar a porta do seu quarto.
O convite para o casamento de Mafalda chegou no mês de Janeiro sem falhar a morada que eu lhe enviara por email. Também por email, confirmei-lhe a minha presença e que iria acompanhado por uma amiga de nome Kátya.
O casamento de Mafalda estava marcado para Maio na igreja do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, sendo a festa posterior numa quinta de eventos entre Coimbra e a Figueira da Foz.
Peter e eu estávamos cada vez com mais trabalho, por isso, tive de agendar muito bem os dias de Maio para ficar com disponibilidade para viajar até Portugal, algo que me roubaria três a quatro dias desse mês. Organizei a viagem e a estadia atempadamente. Iríamos viajar de Edimburgo para o Porto, onde alugaríamos um carro para nos deslocarmos até Coimbra. Na cidade dos estudantes, reservei um quarto num hotel. Inicialmente, quis reservar dois para cada um de nós, mas Kátya discordou alegando que podíamos ficar no mesmo quarto duplo com duas camas de solteiro e poupar algum dinheiro. Para além disto, ainda tive de comprar um fato e Kátya um vestido.
Quando queremos que o tempo passe depressa, cada minuto parece uma hora. Quando não temos pressa que um dia chegue, como era o caso, rapidamente se chegou a Maio.
Tio ficou aos cuidados de Peter, que repetiu diversas vezes que não me preocupasse, ao sair de casa com a bagagem. Apanhei um táxi e segui para o aeroporto fazendo escala para ir buscar a minha parceira.
A viagem de avião foi tranquila. Ao aterrarmos no Porto, a diferença de temperatura foi evidente, pois se na Escócia ainda parecia Inverno, ali a Primavera ia lançada. Fomos ao rent-a-car para que nos entregassem o automóvel que solicitara pela Internet, um veículo com GPS, uma vez que não conhecia nada a norte de Lisboa. E rumámos a Coimbra.
Os primeiros momentos de condução foram complicados, desabituara-me de conduzir carros e de circular pela lado certo da estrada. Ao início da noite, chegámos à recepção do hotel.
— Boa noite! Têm um quarto reservado em meu nome. — disse ao funcionário, adicionando a minha identidade.
O homem fardado com traje formal e as insígnias do hotel consultou os registos num computador e confirmou a reserva.
— Sim, um quarto com cama de casal para duas noites.
— Cama de casal? — interroguei com surpresa.
O outro olhou para mim e para Kátya, não percebendo onde estava o problema. Eu expliquei:
— Tinha pedido um quarto duplo com duas camas de solteiro.
Novo dedilhar no computador, o rosto começou a alterar-se, denotando que existira um erro.
— Peço imensa desculpa. Tem razão. Só que há um problema, estamos lotados, não temos mais nenhum quarto.
— E não podem trocar as camas? — questionei irritado.
Ele olhou para Kátya, talvez perguntando-se porque não queria eu dormir na mesma cama que ela. Adoptou um tom lamentoso e numa quase súplica, esclareceu:
— Infelizmente, não. Podemos, se calhar, colocar mais uma cama de solteiro...
Nesse momento, Kátya aproximou-se de mim e sussurrou-me que não me preocupasse, que deixasse as coisas como estavam.
— Deixe estar. Não será necessário.
O nosso quarto ficava no segundo andar, um espaço simples com uma janela, casa de banho e cama de casal. Largámos a bagagem a um canto, sentindo todo o cansaço acumulado, e pedi algo para comer ao serviço de quartos.
A cama não foi problema, só seria se o tornássemos num problema. Kátya estava perfeitamente à vontade para a partilhar comigo e existia um respeito mútuo em não invadir o espaço do parceiro.
Enquanto ela mudava de roupa na casa de banho, eu abri a cama, despi toda a roupa excepto os boxers e meti-me na cama. Kátya saiu com o seu pijama vestido, uma camisola ajustada ao corpo e calções curtos. Enfiou-se por baixo do lençol e cobertor, a meu lado, sorrindo divertida.
— Nada de ideias.
— Não sejas tola.
Trocámos um beijo cansado, virámos costas e adormecemos tranquilamente.
Pela manhã, bem cedo, estávamos prontos a sair do hotel. Eu vestia um fato cinza-escuro com uma camisa preta, gravata listada em ambos os tons e sapatos pretos. Sempre detestei vestir-me com formalidade. Deslumbrante, era o mínimo que poderia dizer para caracterizar Kátya, desfilando com um vestido azul sem costas nem mangas, seguro à volta do pescoço, onde a saia terminava acima dos joelhos. Caminhava em sapatos de salto alto. A sua pele parecia polida e o rosto maquilhado intensificava a sua beleza.
Durante a viagem, Kátya colocou a questão:
— Qual queres que seja o meu papel?
— Como assim?
— Queres que me comporte como tua amiga, tua namorada, tua mulher?
— Quero que sejas aquilo que és, minha amiga. — esclareci, desviando a atenção para ela. — Não vim fazer ciúmes à Mafalda.
Com a ajuda do aparelho de navegação, encontrei o local da cerimónia. Nunca o conseguiria sem ele. A igreja ficava após umas ruas estreitas que desembocaram num largo que já se apinhara de carros de dezenas de convidados para o evento. Estacionei no primeiro espaço que encontrei.
Defronte do largo, os portões abertos davam passagem para um amplo terreno empedrado, onde os primeiros automóveis puderam estacionar. Homens de fato e mulheres de vestidos elegantes e caros aguardavam espalhados pelo espaço, perto das altas portas do edifício religioso. Notei alguns olhares curiosos acerca de quem seriamos nós.
Ao fim de algum tempo, alguém veio anunciar que começássemos a entrar, uma vez que não faltaria muito para a noiva chegar. Quase todos os convidados iniciaram a subida dos degraus e nós seguimo-los para o interior da igreja. Escolhi uma das últimas filas, no sector esquerdo sem fazer ideia se havia lados destinados aos convidados do noivo e da noiva. Sentámo-nos e esperámos.
Confesso que me sentia ansioso, nervoso pelo o momento em que revisse a mulher que roubara o meu coração, aquela que se iria casar com outro. Kátya quebrou-me os pensamentos, apontando para perto do altar, indicando um homem que concluí ser o noivo. Não o conhecia, nunca o vira e já o odiava. E acho que a minha maior raiva foi perceber que era mais bonito que eu, um tipo alto e bem parecido, cabelo castanho-claro, rosto cativante barbeado, postura recta e estrutura forte. Ok, Mafalda, eu percebo.
A música começou a tocar a marcha nupcial, alertando para o momento em que a noiva iria entrar na nave. Vi uma figura feminina completamente de branco avançar por entre os bancos, de braço dado com um senhor que seria o pai. O vestido branco envolvia-a por completo e prolongava-se com uma cauda comprida que limpava o chão atrás de si. O rosto, apesar do véu, era bem visível.
Kátya aproximou os lábios da minha orelha e segredou:
— Ela é linda!
A quem o dizes...
Ao aproximar-se da linha de assentos onde eu estava, o olhar de Mafalda cruzou-se com o meu. Sorriu e piscou-me um olho, satisfeita por confirmar que eu viera.
O pai acompanhou-a até ao noivo, trocaram algumas palavras impossíveis de ouvir dali e o casal virou-se para o padre que aguardava.
A cerimónia foi entediante. Tive de suportar a lengalenga do sacerdote, proferindo frases como se fosse dono da verdade, ditando leis retrógradas, intervaladas por familiares próximos dos noivos a ler passagens bíblicas como colagem ao que deveria ser o futuro dos noivos e trechos de música angelical. Que seca...
Chegou o momento em que o padre voltou a atenção para todos os presentes e discursou as frases da ordem, desafiando todos os que tivessem algo a dizer contra aquela união que se manifestassem ou calassem para sempre. Sim, imaginei-me a fazer isso. Kátya pareceu ler o meu pensamento e segurou a minha mão, apertando-a. Olhei para ela, sorrindo, e sussurrei:
— Achas?
Ela retribuiu o sorriso e beijou-me a face.
— Ela é que perdeu.
Não Kátya, ela não perdeu. Quem perdeu fui eu, perdi-a a ela, o amor da minha vida.
O padre proferiu as últimas bênçãos e declarou-os marido e mulher.
Após algum tempo de espera, onde os recém-casados desapareceram na sacristia com o padre e algumas pessoas próximas, os convidados foram-se juntando no corredor entre os bancos. Percebi com o regresso do casal que se formava fila para os cumprimentar.
— Vamos? — perguntou Kátya.
— Vamos. — confirmei sem vontade de lá ir.
As pernas tremiam-me. Kátya caminhava de mão dada a meu lado. A escassos metros deles, ela apertou-me a mão, recordando-me que estava ali para mim, para me amparar.
Mafalda abriu um enorme sorriso quando me viu. Parei na sua frente, encadeado pela beleza do seu olhar, pela sua doçura, por tudo o que me fizera irremediavelmente apaixonado por ela no breve e único encontro que tivéramos, quase seis anos antes.
— Olá, Daniel! Que bom que vieste. — disse ela, visivelmente feliz por me ver. Olhou para o marido. — Tiago, este é o Daniel, o meu amigo de Edimburgo.
Tiago? O gajo chama-se Tiago? Não poderia ser melhor, o tipo ter o nome de alguém que me infernizou a vida.
Numa postura simpática, estendeu-me a mão. Aceitei o cumprimento, ouvindo-o agradecer:
— Obrigado por terem vindo.
Dei dois beijos nas faces maquilhadas de Mafalda.
— Parabéns!
— Obrigada. — agradeceu, desviando o olhar para o meu lado.
— É a Kátya. — apresentei, enquanto ela felicitava ambos.
Mafalda sorriu-lhe com a sua afabilidade natural.
Não nos demorámos mais, pois havia mais gente para os congratular.
Enquanto saíamos da igreja, Kátya disse:
— Compreendo a tua paixão, Daniel. Ela é linda e parece ser uma pessoa maravilhosa. É cativante logo ao primeiro instante. Até eu que sou mulher, acho que era capaz de me apaixonar por ela.
Não me pronunciei, limitando-me a rir com o seu comentário.
O evento prosseguiu numa quinta localizada a alguns quilómetros em direcção à costa. Para não ter de procurar o local, aproveitei e persegui a fila de carros de outros convidados.
O local era uma propriedade enorme onde se entrava através dos portões largos e altos em cor verde. Os automóveis arrumaram-se no parque que inicialmente me parecera pequeno para tantos.
Ao entrar nos jardins, vários empregados de bandeja ofereciam petiscos e bebidas aos convidados. Tudo tinha um aspecto sumptuoso. A seguir aos jardins, erguia-se uma tenda enorme que serviria de salão à festa. Durante uma hora, a comitiva ficou pelos jardins em pequenos grupos, conversando. Eu e Kátya estacionámos por baixo de um carvalho e matámos o tempo a comentar os quadros que se explanavam defronte de nós.
Seguiu-se o momento de tirar fotos com os recém-casados. Mais uma vez se formou uma fila de gente para registar o dia para a eternidade.
— Queres ir?
— Dispenso. — recusei. Queria esquecer aquele dia.
Não houve tempo para todos os convidados serem fotografados com o casal, os restantes teriam de aguardar nova oportunidade mais tarde. Caso contrário, arriscávamo-nos a almoçar à hora do jantar.
Conforme entravam na tenda, as pessoas analisavam o mapa com o nome das mesas e os lugares atribuídos a cada convidado. O mapa tinha uma mesa rectangular no topo do salão com dez lugares, era o ponto principal, o lugar dos noivos e familiares mais próximos. Depois, várias mesas redondas com oito lugares. Nós fomos colocados numa das pontas, numa daquelas mesas para onde se atiram os convidados que não se sabe muito bem com quem emparelhar.
Kátya olhou para os nomes da nossa mesa e viu o seu.
— Cátia. — leu com indignação. — É Kátya com "k" e "y".
— Foi como eu escrevi no email.
— Pois parece que alguém não sabe ler.
Nunca percebi muito bem porquê, mas ela levava muito a sério a forma como escreviam o seu nome. E irritava-se convictamente, quando o faziam com letras erradas.
A nossa mesa era composta por mais três casais, uns tios de Mafalda que viviam na Suíça e raramente a viam, dois ex-colegas da faculdade com ar macambúzio e de poucas falas e um casal jovem muito simpático. Este casal jovem era composto por Vânia, uma grande amiga de Mafalda e o namorado.
— Ela teve muita dificuldade em distribuir os convidados. — explicou-nos a meio da refeição. — Eu ajudei-a. É aquela coisa de terem de juntar uns com outros que se dão melhor, manter afastados as pessoas que não se entendem, enfim, cenas como existem em todas as famílias. — Kátya e eu não sabíamos o que isso era. — Nós acabámos aqui.
Vânia tinha um ar exótico, muito expressiva e simpática. Falava e falava e falava. O seu ar exótico era resultante da sua ascendência goense. Os avós tinham fugido de Goa com o pai dela, após o abandono do território pelos portugueses, refugiando-se em Moçambique. Contou-nos que não durou muito, pois com a Guerra do Ultramar vieram retornados para a metrópole. Vânia já nascera em Portugal, curiosamente no mesmo ano que a amiga, o que não dissipou em nada as suas origens. Era bonita, cabelo encaracolado a envolver um rosto afável. Trouxera um vestido rosa com decote pronunciado. Não duvidei que gostava de sobressair.
— Tu és o amigo de Edimburgo. — constatou, quando lhe disse onde vivia. — A Mafalda fala muito em ti... — Interrompeu-se, olhando para Kátya. — E o que fazes?
— Sou fotógrafo.
Não perguntei o que ela ou o namorado faziam profissionalmente. Simplesmente não me interessava. Vânia alterou o destino da conversa para os dois jovens médicos no lado oposto da mesa.
A refeição foi servida. De tempos a tempos, alguém fazia barulho e todos começavam a berrar para que o casal trocasse um beijo. Eu evitava olhar. Entre sopa, primeiro prato, segundo prato e sobremesa, devem ter passado duas horas. Eu só queria uma oportunidade para me ir embora.
Terminada a refeição, começou a festa com um indivíduo cheio de tatuagens a colocar música para os convidados e a felicitar vezes sem conta o casal, desejando que fossem felizes para sempre. Mafalda e o marido abriram a pista dançando a tradicional valsa. Dava para perceber no seu olhar como estava feliz.
Eu não queria dançar, mas Kátya insistiu. Ela gostava de dançar e não seria justo recusar isso a alguém que se dispusera a acompanhar-me àquele suplício.
Após a dança, Kátya foi ao jardim para fumar um cigarro, algo que repetiu umas cinco vezes até irmos embora. Nesse instante, aguardei sentado no meu lugar, sozinho. Vinda de trás de mim, Vânia sentou-se a meu lado.
— Está a ser uma bela festa. — disse ela, olhando em redor. — A Mafalda está muito feliz. — Proferi um som neutro em concordância. Olhou para mim. — Vocês já se conhecem há algum tempo?!
— Falamos na net há uns sete ou oito anos.
— Ela falava muito em ti. Dizia que tu devias ser uma pessoa espectacular. — Encolhi os ombros, não querendo ser juiz em causa própria. Vânia alterou a atenção para os vidros amplos da tenda. — A rapariga que veio contigo?
— Foi lá fora.
— É tua mulher? — Abanei a cabeça. — Namorada?
— É minha amiga, uma grande amiga.
Vânia franziu o rosto, duvidando. Pouco me interessava se acreditava ou não. Para quem não parava de falar, estranhei os trinta segundos que permaneceu em silêncio, altura em que indagou:
— Quando é que regressam a Edimburgo?
— Amanhã.
— Não aproveitam para ficar uns dias?
— Temos trabalho.
— Pena... — lamentou com um semblante que já não me enganava. — Se ficasses mais uns dias, talvez pudéssemos combinar beber um copo.
Encarei o seu rosto numa mistura de surpresa e diversão.
— Não me parece que o teu namorado achasse muita piada a isso.
Vânia deu uma gargalhada.
— Ele é meu amigo, um grande amigo.
Percebi que não era. A frase era apenas uma repetição sarcástica daquilo que eu dissera antes. Sabia perfeitamente que ele era namorado dela, vi-os beijarem-se várias vezes enquanto dançavam. Mesmo que não fosse, eu não estava interessado.
— Pois... — atalhei para finalizar. — Infelizmente, vou-me embora amanhã.
Ela sorriu novamente e levantou-se, colocando a mão na minha perna.
— Pode ser que tenhamos outra oportunidade no futuro.
Duvido.
Kátya regressou no momento em que Vânia se afastou. Sentou-se no seu lugar e com humor questionou:
— A fazer amigas?
Ri-me com gosto. Olhei para ela e senti um enorme carinho e fortuna por a ter na minha vida. Sem que esperasse, beijei-lhe os lábios.
— Para que foi isso? — perguntou surpresa. — Não disseste que não ias fazer ciúmes?
— Não foi para fazer ciúmes. — contrapus. — Só quero que percebam que és especial.
— Isso significa que posso beijar-te mais vezes?
— Não fiques com ideias, Kátya.
— Acho que nem toda a gente estava a olhar. — informou na brincadeira. — Talvez seja melhor repetir.
Não a impedi.
Após mais um beijo, com os narizes quase a tocarem-se, ela olhou bem no fundo dos meus olhos e segredou:
— Não te preocupes. Somos amigos, só amigos.
A noite caiu por completo. Os funcionários da empresa de eventos começaram a montar um canto no jardim iluminado por focos fortes colocados na relva. Trouxeram o bolo e chamaram todos para presenciar o corte da primeira fatia por parte dos recém-casados e a distribuição das flutes com espumante. Fez-se um brinde. Terminada a fatia de bolo e a bebida, decidi que não valia a pena continuar ali. Queria sair "à francesa", ir embora sem dizer nada a ninguém, mas Kátya impediu-me, lembrando que seria falta de educação sair sem me despedir de Mafalda.
Em todo o tempo que ali estivera, Mafalda pouca atenção me dera. Na verdade, também não tinha de dar, eu merecia tanta ou menos como qualquer outro convidado. A única altura em que trocámos algumas palavras foi quando ela e o marido circularam pelas mesas a conversar com os presentes e a agradecer a vinda.
Assim, de mão dada com Kátya, fui até à mesa central.
— Mafalda, nós vamos andando.
— Já? — interrogou, desalentada. — Fiquem mais um pouco.
Kátya interveio:
— Temos de regressar amanhã, o voo é cedo e ainda temos uma viagem de carro até ao Porto.
Mafalda compreendeu e levantou-se do seu lugar para se dirigir a mim. Deu-me dois beijos ternos no rosto e agradeceu:
— Obrigado por teres vindo. Significou muito para mim.
Forcei um sorriso.
— Espero que sejas muito feliz.
— Eu também. — disse o marido que se aproximara para se despedir.
— Se não for antes... — prosseguiu Mafalda. — ...espero ver-te no baptizado do nosso primeiro filho.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi:
— Estás grávida?
Ambos riram.
— Ainda não, Daniel. — respondeu ela, sem disfarçar no olhar o carinho que tinha por mim.
Antes que alguém percebesse a forma apaixonada como eu olhava para Mafalda... e ela para mim, Kátya continuou com a despedida aos casados.
A viagem de regresso ao hotel foi feita em silêncio. Kátya percebia o meu estado de espírito e optou por encostar a cabeça para trás e quase deixar-se dormir. O silêncio nunca fora um incómodo entre nós. E eu sabia que ela estaria atenta, se eu quisesse desabafar.
Saímos do carro e caminhámos vagarosamente até ao hotel com os dedos entrelaçados na mão do outro. Entrámos no edifício e seguimos para o elevador. Lá dentro, olhei para ela.
— Tenho um grande carinho por ti. — confessei.
— Só carinho? — inquiriu ela, sabendo a resposta.
— Só carinho, Kátya. Tu sabes isso.
— Sim, eu sei, Daniel. — Aproximou-se de mim para mais um beijo fraternal nos meus lábios. — Só amizade.
Recolhemos ao quarto. Ela seguiu de imediato para a casa de banho. Estava cansada e queria livrar-se do vestido e da maquilhagem. Eu comecei descalçar os sapatos, despi o fato, retirei a gravata com desprezo e desfiz-me da camisa. Tirei as meias e somente com os boxers vestidos, enfiei-me na cama para descansar daquele dia penoso.
Kátya saiu da casa de banho no seu pijama pronta para se deitar, encontrando-me de olhar perdido no tecto do quarto, deitado na cama, iluminado pelo candeeiro da cabeceira. Sabia como me sentia, mas mesmo assim, entrando nos lençóis, perguntou:
— Estás triste?
— Isto passa. — respondi pouco crédulo.
Ela deu-me um beijo de boa noite, trazendo no hálito o aroma a pasta de dentes. Apaguei a luz e deitámo-nos de costas um para o outro.
No escuro, a minha cabeça repassava as imagens desse dia, o casamento, Mafalda vestida de noiva para casar com um homem que me seria impossível de rivalizar. Repetia para mim que a perdera e que tinha de a esquecer. Dei algumas voltas na cama, fustigado pela tristeza, recordando aquele momento, a esplanada do centro comercial, quando ambos confessámos o que sentíamos... Devia tê-la agarrado, largado tudo, largado Francisca... Corroía-me de remorsos.
Kátya percebeu que eu estava acordado e virou-se para mim.
— Não tens sono?
— Não. — respondi para o negrume do quarto, onde somente uma leve claridade da rua entrava pela janela. — Desculpa, se te acordei.
Ela aproximou-se e senti a sua mão acariciar-me o rosto. A seguir, os seus lábios tocaram os meus. Pensei que se tratava de um beijo como tantos outros que trocávamos, só que a sua boca não se descolou da minha, intensificando o beijo.
— Pára... — murmurei.
Kátya não parou e rodou na cama, colocando-se sobre mim. Voltei a pedir que parasse, apesar do meu corpo não acompanhar as palavras. O beijo tornou-se diferente, cheio de paixão, as línguas a saborearem-se.
— Não... Pára, Kátya... — repetia com a respiração ofegante.
Não consegui segurar a excitação. Kátya sentiu-a a tocar a sua barriga. Mordiscou-me a orelha e sussurrou:
— Xiu...
O seu corpo começou a descer pelo meu. As suas mãos puxaram-me os boxers com suavidade, libertando a vontade que eu procurava reter. Deu-me um beijo na barriga. Pelos movimentos, percebi que estava a despir a parte inferior do seu pijama. Tornei a pedir que parasse num tom pouco convincente. A sua respiração lá em baixo arrepiou-me. Por momentos, julguei que me iria envolver numa garganta funda. Não. Ao invés, retornou à posição inicial, acariciando a minha excitação com o seu corpo. A sua boca voltou à minha, um beijo que se misturava com o seu cabelo pelo meio. As suas pernas abraçaram as minhas. Já nada em mim conseguia ou queria parar. Senti-me escorregar para dentro dela.
Beijávamo-nos com o fervor da paixão, sedentos de algo a que nos afastáramos demasiado tempo. As suas ancas movimentavam-se devagar, como se me quisesse dar a conhecer, aos poucos, o conforto do seu lugar mais íntimo e sagrado. A sua respiração ofegante dançava com a minha. Parou quando isso era a última coisa que eu queria que fizesse. As suas pernas abriram-se mais e os joelhos subiram ao mesmo tempo que ela se elevava na cama, apoiando as mãos no meu peito. Sentou-se sobre mim com cuidado para que a nossa ligação não se soltasse, apertando-me o tronco com os joelhos.
Na penumbra, vi os seus braços levantarem-se para a cabeça, as mãos a envolverem o cabelo para o prenderem na nuca. Aproveitei a oportunidade para lhe enrolar a camisola do pijama o máximo que consegui, pondo-lhe a nu os seios grandes. Apertei um em cada mão, dedilhando os mamilos pontiagudos. Isso agradou-lhe e agarrou as minhas mãos com as dela, obrigando-me a apertá-los mais. Depois, retomou os movimentos das ancas. Novamente de forma lenta, aumentando aos poucos até se tornar numa espécie de amazona a cavalgar o seu garanhão. No escuro, o seu vulto oscilava para me dar e obter prazer, gemendo a cada compasso.
A torrente de desejo acumulado inundou-a. Os seus últimos gemidos resultaram do êxtase e da sensação quente que a humedecia. Lentamente, a nossa respiração foi voltando ao normal. Não dissemos nada. Kátya manteve-se sobre mim e eu dentro dela. Isso durou alguns minutos. Aguardei, acariciando-lhe as coxas. Ela baixou-se e beijou-me na boca ao mesmo tempo que a sua cintura se elevou e me fez sentir o frio da saída. Tornou a rodar na cama e levantou-se.
— Onde vais? — questionei baixinho.
— Preciso de um cigarro.
Nas sombras, observei-a a desenrolar a camisola, tornando a cobrir os seios. Foi buscar algo à malinha que levara ao casamento e retirou o maço e o isqueiro. Parou junto da janela e abriu o vidro. Uma chama surgiu no escuro, iluminando-lhe o rosto e tocando a ponta do cigarro. Desapareceu rápido, retomando a escuridão onde o desenho da baforada de fumo saía da boca de Kátya.
Aquilo soubera-me bem, muito bem mesmo. Fora intenso e maravilhoso. Porém, trazia um problema, poderia alterar a nossa relação.
— Estás bem? — quis saber perante a ausência de qualquer comentário ao que acabáramos de fazer.
Kátya soltou mais uma nuvem de fumo para a rua.
— Sim.
A resposta curta aumentava a minha confusão em relação ao que lhe iria em mente. Estaria arrependida? Esperava que aquilo fosse o passo para que nos tornássemos um casal? Estaria a aguardar uma palavra minha? Procurava ganhar tempo para me encarar?
Kátya já me dissera o que sentia por mim. Calculei que esperasse uma retribuição, depois do que acontecera. Contudo, eu gostava muito dela, mas não estava apaixonado. Seria cruel alimentar-lhe a esperança, mesmo depois de ter feito amor comigo. Procurei encontrar as melhores palavras, mas só me saiu:
— Não o devíamos ter feito.
O seu riso no escuro soou a "já estava à espera que me dissesses essa merda".
— Não gostaste?
— Claro que gostei, Kátya. — confessei sem razão para o contrário. — Mas, isto não muda nada. Não quero enganar-te.
Ela apagou o cigarro no cinzeiro e fechou a janela.
— Descansa, Daniel! Sem cobranças. — disse, procurando os calções do pijama no escuro. — Foi apenas sexo. — Vestiu-os e voltou a entrar na cama. — Não estou à espera que nos tornemos um casal depois disto. — Beijou-me os lábios em despedida. — Dorme bem. Até amanhã.
Na manhã seguinte, quando nos encarámos com a luz do dia, Kátya agiu com naturalidade, como se a noite não tivesse passado de um sonho na minha cabeça. Não falámos sobre o assunto uma única vez, seria um género de "elefante na sala" que nenhum de nós queria ver. A única diferença no seu comportamento é que fumava mais que o habitual.
Nos primeiros dias após o regresso a Edimburgo, Kátya afastou-se por um breve período, recusou que a fosse buscar ao trabalho ou que a visitasse em sua casa, justificando que precisava de descansar. Eu aproveitei para fazer algo que calculei que ela também estivesse a fazer, colocar as ideias em ordem.
Eu gostava muito de Kátya, mesmo muito. Contudo, eu não queria comprometer-me. Não por uma questão de querer ter vários casos, andar a saltar de cama em cama. Eu nunca fora assim, aliás, até àquela data, nunca tivera relações sexuais pontuais, somente com alguém com quem tinha uma relação séria. Vendo bem, Kátya fora a segunda mulher com quem o fizera. Adorei fazer amor com ela e tinha muita vontade de o repetir. Só que sabendo que ela estava apaixonada por mim, evitei sempre que se repetisse para não alimentar as suas esperanças. Na verdade, tudo se resumia a uma única questão, eu nunca consegui ultrapassar o facto de ter perdido Mafalda por estar numa relação séria com Francisca, por estar comprometido. Mesmo estando Mafalda casada, eu mantinha a esperança de que um dia pudéssemos ficar juntos. E não queria que existisse qualquer impedimento se o momento surgisse subitamente. Se não existisse Mafalda, se eu não continuasse tão apaixonado por ela, não tenho dúvidas que teria construído com Kátya uma relação ainda mais forte e duradoura. Acho que só me voltaria a comprometer, se encontrasse uma mulher que me fizesse esquecer Mafalda. E apesar de ser uma pessoa extraordinária, Kátya não o conseguiu.
Ao fim de quase uma semana afastados, a nossa relação voltou ao normal. Foi como se esses dias tivessem sido uma convalescença da noite em Coimbra, tal como alguém que se constipa e precisa de uns dias para recuperar. Quando nos reencontrámos, a sua primeira atitude foi dar-me o beijo típico, o nosso toque suave nos lábios, um cumprimento quase fraternal. A normalidade durou cerca de dois meses e meio. Nas primeiras semanas após o casamento, a noite de sexo quase caíra no esquecimento, parecendo que só acontecera na minha cabeça. Kátya continuava a insinuar-se e a flirtar comigo, mas fazia tudo parecer uma brincadeira, de todas as vezes que eu recusava as suas investidas. No final de Julho, algo mudou em Kátya, irritando-se facilmente, constantemente de mau humor e algumas vezes indisposta.
Numa noite como tantas outras, fui levá-la a casa. Por norma, costumava sempre subir com ela ao seu apartamento, onde ficávamos a conversar algum tempo até eu me vir embora.
— Hoje não. — decidiu, vendo-me desmontar da mota.
— Não queres que suba? — Ela abanou a cabeça. — Algum problema?
— Cansada. — atalhou com semblante triste.
— Estás de folga, amanhã?
Kátya confirmou e esboçou um sorriso triste.
— Podemos ir passear à tarde, se quiseres.
— Boa ideia. — concordei. — Passo aqui depois de almoço para te vir buscar?
Ela concordou e abraçou-me com ternura, sussurrando:
— Tenho saudades.
Segurei-a nos meus braços, curioso.
— Saudades de quê?
Afastando-se, atirou-me um sorriso e piscou o olho.
— Parvoíces...
Deu-me um beijo fugido e afastou-se para a porta de casa.
Na hora combinada, fui buscá-la ao apartamento e fomos de mota até Carlton Hill desfrutar de uma bela tarde solarenga de Julho.
Carlton Hil é uma colina de Edimburgo com uma vista fabulosa para a cidade. O Sol brilhante, tão raro por aqueles lados, atribuía mais brilho e alegria ao ambiente, um paradoxo com o rosto de Kátya.
Subimos a colina pela escadaria de pedra envolta pela vegetação até perto do caminho que se aproximava do Dugald Stewart Monument, ficando com a Nelson Tower Monument defronte de nós. Kátya não abdicou do cigarro, mal saímos da mota. Fizemos o percurso em silêncio e passámos pelo Playfair Monument, uma espécie de Templo de Diana de Évora que se erigia no topo da colina. Escolhemos um local com vista desafogada para a capital e sentámo-nos na relva.
Mesmo estando no Verão, soprava uma brisa fresca. Por aquelas bandas não havia dias quentes, apenas amenos ou frios. Uma nuvem cinzenta avançou pelo céu, procurando perturbar o Sol. Kátya tinha o olhar vidrado na paisagem, o cabelo solto a esvoaçar para o rosto e um semblante triste que teimava em não desaparecer. Despiu o blusão que usava sempre que andava de mota comigo e colocou-o sobre o capacete estacionado na relva.
Por alguns minutos, o silêncio reinou. Kátya parecia preocupada ou ansiosa, não consegui discernir bem. Acariciei-lhe a mão e questionei:
— Está tudo bem? — Ela assentiu muda. — Pareces preocupada.
— Hoje está um dia bonito. — afirmou, mudando de assunto.
Observei-a com gosto, era uma mulher bonita. Não era um deslumbramento, daquele género de deixar todos os homens a olhar. Tinha uma sensualidade simples e sedutora, um carisma excitante. Sabia o quanto ela poderia ser apaixonada, a entrega... Permiti-me ao fruto proibido de a recordar na única noite em que fizemos amor. Sentia-me bem, perto dela, não conseguia imaginar-me sem a sua amizade.
— Tens falado com a Mafalda? — questionou, despertando-me para a realidade.
— Não. Não voltei a falar com ela.
Desde o casamento, não voltara a ter qualquer notícia de Jewel. Encarei isso como normal, deveria estar a saborear a vida de recém-casada, não esperava que se fosse lembrar de mim ou preocupar-se em escrever-me nesse período.
— Continuas apaixonado por ela?
A pergunta soou tremida, o olhar mantinha-se cravado no horizonte.
— Sim.
Kátya virou o rosto para mim. O vento fustigava-a com os próprios cabelos. Havia uma mágoa naqueles olhos, uma tristeza mal disfarçada.
— Será que algum dia vais dar oportunidade a outra mulher de te amar? — Achava que não e ia a responder, mas... — Desculpa, não é isso que quero saber. — O seu olhar tornou-se profundo, perscrutando o meu. — O que quero saber é se algum dia me darás a oportunidade de te amar.
Apesar de habituado à sua frontalidade, surpreendi-me por ela colocar a questão de forma tão directa.
— Kátya... — iniciei, procurando os melhores eufemismos ao mesmo tempo que falava.
— Sem merdas, Daniel. — pediu, levando a mão ao cabelo. — Não quero palavras bonitas, formas simpáticas de ser rejeitada. Quero saber se esse amor platónico que sentes pela Mafalda vai durar para sempre.
Suspirei. Que poderia dizer? Kátya rodou no relvado e ajoelhou-se em frente a mim. Percebi a seriedade do momento, tomei consciência que iríamos tocar nas feridas, nos pontos sensíveis. Não seria mais uma troca de piropos, jogos de sedução que não passavam de brincadeiras. Defronte de mim, estava uma mulher de defesas em baixo e coração aberto.
— Eu estou apaixonada por ti! — exclamou, encarando-me segura. — Sou louca por ti, adoro-te... — Hesitou. — Sim, porque não? Posso dizê-lo sem receio. Eu amo-te, Daniel! — Fez uma pausa. — Tu és meu amigo, adoro o que temos. Mas, já não é suficiente. Desculpa, dizer isto. Não tenho o direito de te exigir nada. Só que já não consigo lidar com estes sentimentos, lidar com o que despertas em mim, sem te dizer abertamente o que significas na minha vida. — Respirou fundo. Desviou a atenção para a nuvem que cobrira o Sol. — Sei que te disse que seria tudo o que quisesses que eu fosse na tua vida. Lamento desapontar-te. Não consigo ser tua amiga. Já não consigo estar perto de ti sem pensar em beijar-te, sem desejar que me agarres, sem ansiar por voltar a ter-te em mim. — A ausência de reacção da minha parte, exasperou-a. — Aquela noite foi a noite mais bonita da minha vida.
— Kátya... — interrompi. — Eu...
— Sem merdas, Daniel. Por favor. — exigiu com uma lágrima a brotar.
— Tu mereces alguém que te ame. — lembrei, sabendo que mais valia dar-lhe um estalo, seria menos doloroso para ela. — Não é justo para ti criar-te a ilusão de algo que não existe. Eu adoro-te! Mas, não da forma como queres. Aliás, não da forma que mereces. Mereces ser amada de corpo e alma. Eu não sou capaz de o fazer. — Tentei segurar a sua mão, mas ela afastou-a. — Lamento...
Kátya levantou-se, puxando o casaco donde retirou o maço de tabaco e o isqueiro. Colocou um cigarro na boca e acendeu-o com dificuldade devido ao vento e às mãos trémulas. Deu duas longas baforadas, enquanto eu me colocava de pé a seu lado. Num movimento ríspido, tornou a encarar-me.
— E se eu não me importar?
— Como assim?
Kátya explanou melhor a sugestão:
— Se eu não me importar que fiques comigo, mesmo que ames outra mulher?
— Importo-me eu. — retorqui com sinceridade.
— Ela está casada, Daniel! — afirmou como se eu não o soubesse. — Que esperas tu que aconteça? Que se divorcie? — Fez um esgar incrédulo. — Que amigo és tu, a desejar a infelicidade do casamento dela?
— Não desejo o fim do casamento deles. — corrigi.
— Mas esperas que aconteça?! — insistiu. Não a contrariei. — Tens noção que tanto pode ser amanhã, como pode ser daqui a vinte anos ou até nunca vir a acontecer?
— Eu sei isso, Kátya.
— E por causa de uma esperança vã, abdicas daquilo que te quero dar?
— Kátya...
— Estou a oferecer-me a ti, estou a dizer-te... foda-se... estou quase a implorar que me deixes amar-te. — Nova lágrima. — Que estou na disposição de ser tua mulher até que tu me deixes por ela.
— Eu não sou assim, Kátya. — protestei, receando perdê-la. — Seria incapaz de te usar.
— Mentiroso. — redarguiu, fumando nervosamente.
— Como?
— Tu usaste-me naquela noite, no hotel. — argumentou para minha estupefacção. — Mentira?
— Tu é que... — interrompi-me. — Como podes ver isso dessa maneira? Eu quis que parasses. Nunca te enganei.
— Eu fiz amor contigo, Daniel. — prosseguiu temperamental e irritada. — Tu fodeste-me!
— Estás a ser injusta.
Kátya fez um gesto de desprezo e virou costa, ficando a dar as últimas passas na beata que segurava entre os dedos. Eu permaneci sem dizer nada, aguardando que ela se pronunciasse. Num gesto de desdém, atirou o que restava do cigarro para o chão e apagou-o com a biqueira da sapatilha. Virou-se para mim, os olhos marejados de lágrimas, e pediu:
— Desculpa. Tens razão. Nunca me enganaste. Sempre deixaste bem claro que não gostas de mim.
— Eu gosto de ti.
— Não da mesma forma que eu gosto de ti. — retorquiu num tom zangado. — Anda, vamos embora. Não me apetece continuar aqui.
Segurámos os capacetes e fizemos o caminho inverso no mais absoluto silêncio. Não era daqueles silêncios confortáveis que por vezes aconteciam entre nós, era o silêncio de uma amizade fracturada.
Durante a viagem de mota até à casa dela, era perceptível o seu soluçar, abraçada atrás de mim. Dilacerava-me a alma vê-la tão infeliz. Contudo, seria muito mais violento, envolvê-la numa relação ilusória.
Quando parei defronte da fachada do seu prédio, Kátya saltou da mota como se o assento tivesse uma mola. Retirou o capacete da cabeça e não escondeu os olhos vermelhos de quem viera a chorar. Eu tirei o meu, pousando-o em cima do depósito, e segurei-lhe o braço, puxando-a para mim.
— Não fiques assim.
Kátya soluçou e apontou-me o capacete dela.
— Toma. Leva-o. — Ela costumava ficar com o capacete, uma vez que era a única pessoa que andava de mota comigo. — Não vou precisar dele. Acho melhor afastarmo-nos por uns tempos.
— Vá lá, Kátya, não sejas assim. — pedi, consciente que a nossa relação estava por um fio. — Não quero perder a tua amizade.
— Preciso de um tempo, Daniel. Por favor...
O pedido foi feito com um semblante que não procurou ocultar um mínimo de sentimento que fosse, não se ralava em mostrar-se chorosa. Fungou e levou a mão ao bolso, procurando novo cigarro.
— Preciso que fiques longe por uns tempos.
Com aquelas palavras, não se despediu com um beijo, apenas com um acenar pesaroso. Afastou-se para a porta e desapareceu no interior do edifício.
Respeitei o seu pedido.
Durante vários dias não a procurei, nem a tentei contactar. Sentia a falta da sua companhia e lamentava estar a fazê-la sofrer por não retribuir o que ela sentia por mim. Ao fim desse tempo, tentei ligar-lhe sem que qualquer chamada fosse atendida ou respondida. O telefone tocava, tocava, tocava até passar para o atendedor de chamadas onde uma voz neutra convidava a deixar mensagem. Mais alguns dias sem saber nada dela e passei pelo restaurante onde trabalhava. Informaram-me que se tinha demitido sem qualquer razão e de forma súbita. Fiquei seriamente preocupado. Só me restava procurá-la num último local e acabei por ir a casa dela. As surpresas não tinham terminado, uma vizinha surpreendeu-me com a notícia de que Kátya se fora embora do apartamento. Fiquei desesperado. Imaginei que tivesse voltado para a rua, se tivesse abandonado a ela própria, voltando ao mundo donde eu a retirara. Pior, dei por mim a ponderar a hipótese que o seu amor não correspondido a tivesse levado ao suicídio. Tudo me passou pela cabeça, chegando a procurá-la em hospitais e até na morgue.
Cerca de uma semana após a sua partida, recebi uma carta:
“Olá, Daniel! Peço que me perdoes por ter partido sem me despedir. Não conseguiria fazê-lo se tivesse de voltar a encarar os teus olhos. Tu és a pessoa mais extraordinária que passou pela minha vida. Salvaste-me, tiraste-me da rua, evitaste que eu tivesse que ter passado por sei lá quantas agruras para conseguir sobreviver. Foste o meu anjo. Só que neste mundo nada é perfeito e a tua imperfeição é não me amares como eu te amo a ti. Não tenho o direito de te forçar a amar-me, da mesma forma que não posso continuar a magoar o meu coração a acompanhar-te sem te ter. Não quero que te preocupes, eu estou bem. Regressei a Portugal. Não, não penses que estou a viver na rua. Regressei porque consegui trabalho e tinha saudades do calor português. E precisava de me afastar daí. Nunca esquecerei Edimburgo, tal como nunca te esquecerei a ti. Amo-te na esperança de que este sentimento seja efémero e se apague em breve. Sei que percebes o que quero dizer, uma vez que sofres do mesmo mal. Peço-te que, em nome daquilo que partilhámos, nunca me procures, nunca tentes voltar a ver-me. Fomos uma fase bonita na vida um do outro, mas acabou. Amo-te até conseguir deixar de o fazer. Sê feliz! Kátya"
Houve uma mistura de sentimentos ao ler aquelas linhas, tristeza por perder uma amiga, alívio por a saber bem. Kátya tinha razão, fomos uma fase bonita na vida um do outro. E ela fora um dos contos da minha vida.
fim do conto III