A CAMINHO DO TEU NOME · Capítulo 4

CONTO II - O teu nome é Francisca. E será que estiveste a meu lado?

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O milénio aproximava-se do fim e o mês de Dezembro era a recta final para essa transição. Passara quase um mês desde que o meu tio partira, falhando por pouco esse momento inédito da viragem do 1999 para o 2000.
O dia estava cinzento sem dar sinais de chuva. Saí do autocarro recordando-me que não enchera a taça de ração de Tio. Não me preocupei, pois sabia que não passaria fome até eu regressar.
Entrei na loja cumprimentando a minha colega da recepção, uma rapariga bonitinha que nalgum momento até me interessou, mas que não passou disso mesmo. Prossegui pela loja acenando a todos os colegas. Ali, eu era uma pessoa muito diferente daquilo que fora na escola, bastante social e sabia que tinha em cada um deles um parceiro para o que precisasse no trabalho.
Ao fundo do longo espaço, atrás do comprido balcão de cópias, onde pelo menos cinco funcionários atendiam clientes para fotocópias e encadernações, ficava a máquina na qual eu tinha de passar o meu cartão de funcionário à entrada e à saída.
Adorava trabalhar ali, apesar de ter uma função algo entediante atrás de um balcão a receber e direccionar clientes para os computadores. Havia alturas em que tinha de dar algum apoio, fosse na consulta da Internet ou a explicar a alguém como mandar imprimir um documento. Porém, o ambiente era excelente.
Naquele departamento trabalhavam mais duas raparigas, uma que saía quando eu entrava e outra que fazia um turno que apanhava metade do meu.
Picado o ponto, subi para o piso superior, uma espécie de varandim quadrado repleto de computadores, talvez uns vinte, quase sempre ocupados na totalidade. Quem me visse naquele ambiente não acreditaria que era o mesmo Daniel, o ostracizado dos tempos da escola.
A primeira metade do meu turno era sempre mais movimentada, havia mais gente e ao fim da tarde a lista de espera era maior. Sim, um local público onde alugar um computador com Internet era tão raro que havia pessoas dispostas a esperar muitos minutos, senão horas, por um computador livre. Depois, eu ia comer qualquer coisa, voltava, a minha colega ia embora e eu ficava sozinho no atendimento.
A maioria das pessoas que alugavam um computador, à noite, eram cliente habituais e requisitavam o lugar para estarem muito tempo, pelo que quase não me incomodavam. E eu aproveitava esse tempo para eu próprio navegar na virtualidade.
No final do milénio, ter Internet em casa era uma realidade só para alguns, muito poucos. As mensalidades eram caras ou então os custos por consumo demasiado altos. Era um mercado a dar os primeiros passos em Portugal para uma uniformização que aconteceria mais tarde, em que a Internet está tão presente na nossa vida como o ar que respiramos.
Eu continuava a ser um solitário. Era bastante social no trabalho, mas saído dali, a minha vida resumia-se à companhia de uma gata tricolor. Contudo, tinha cada vez mais amigos online.
Naquela época, as conversas virtuais eram o mais comum. Coisas como o mIRC, o ICQ, salas de chat (conversa) tornaram-se espaços virtuais cada vez mais frequentados. Eu era assíduo das últimas, principalmente as de um local virtual chamado Blá Blá, onde se entrava em salas nomeadas por temas e interesses. Estes variavam muito, mas todos sabemos que a grande maioria de internautas ia à procura de uma única coisa: relacionamentos.
Aquela noite tornou-se um marco inesquecível na minha vida. Perceberão mais tarde porquê. Como costume, eu estava sentado atrás do balcão com os olhos no computador, concentrado nas conversas online e atento à chegada de qualquer cliente ou solicitação de apoio. O processo de entrar numa sala de chat era simples, escolhíamos a sala (eu começava sempre pela geral), escrevíamos a nossa alcunha (raramente alguém usava o seu próprio nome ao início) e clicava em "entrar". Deparava-me sempre com muitos cibernautas, por vezes a salas esgotavam a lotação e tínhamos de procurar outra sala para tentar meter conversa com alguém. Havia vezes em que encontrava alguém com quem já falara, outras vezes procurava novos interlocutores.
A minha alcunha era "AnjoDelta". Usava sempre a mesma para que rapidamente me identificasse a quem já falara comigo. Raramente falava com o sexo masculino, mas por vezes era difícil perceber pelo nickname se era um rapaz ou uma rapariga. Desde que entrara naquele mundo, já conversara com dezenas de pessoas. Na maior parte dos casos foram conversas esporádicas, mas em muitos outros mantínhamos o contacto, as conversas online nas salas e a trocas de mensagens por email.
Estávamos numa época em que os cibernautas resumiam as informações ao mínimo, os nomes eram falsos, não havia fotos e a informação pessoal era escassa. Quando conseguíamos encetar diálogo com alguém, a primeira pergunta era sempre "donde teclas?" para saber onde estava a pessoa. A resposta era sempre uma região ou cidade, ninguém diria "estou na Avenida da República, número...". A seguir seria "és m ou f?" para saber se era um cibernauta masculino ou feminino. Se fosse rapaz, eu permanecia sem dizer nada e o outro ia à sua vida. A partir daqui, se fosse rapariga, a conversa prosseguia e entre um ou outro assunto as coisas iam avançando. E, modéstia à parte, eu era um conversador nato.
Assim, naquela noite, segui o procedimento habitual de entrar na sala geral. As linhas de mensagens sucediam-se umas atrás das outras, quase dificultando a leitura de alguma que fosse direccionada a mim. O sistema permitia que seleccionássemos o interlocutor que queríamos e falássemos directamente para ele, isso fazia com que a nossa frase no seu ecrã surgisse com uma cor diferente, chamando a sua atenção.
Escrevi o "boa noite" para o mundo.
As mensagens sucederam-se infinitamente sem que ninguém parecesse interessar-se por mim. Insisti com "alguém quer teclar?". A ausência de respostas permaneceu.
De súbito, surgiu no ecrã uma frase de cor diferente:
"Olá AnjoDelta, donde teclas?"
Olhei para a alcunha que precedia a frase e li "Jewel".
"Lisboa. E tu?"
"Figueira da Foz."
"És M ou F?"
"Isso é importante?"
É. Não me apetece falar com gajos, foi o que me veio à cabeça. Acabei por mentir:
"Não."
"Pensei que o meu nick respondesse a essa questão."
Sim, Jewel era Jóia em inglês. Dificilmente algum rapaz usaria aquela alcunha. Mesmo assim, ela não deixou dúvidas:
"Sou F."
"Eu sou M."
"Já tinha percebido... anjo."
Respondi-lhe com o símbolo de um sorriso.
"És mesmo um anjo?"
"Sem asas."
Foi a vez de ela enviar um sorriso.
"E tu? És uma jóia?"
"Sou.", respondeu com muitos smiles.
"Que idade tens?"
"17"
Jewel tinha menos cinco anos que eu. Sem que ela o questionasse, eu antecipei-me e escrevi a minha idade. E confesso que o escrevi na esperança de que a diferença a levasse a desinteressar-se. Cinco anos, ainda para mais sendo ela menor, não me entusiasmava nada.
"Que fazes?"
"Trabalho com computadores. E tu?"
"Estudo."
Ela não se desinteressou e a conversa foi avançando. Dei por mim a imaginá-la com a imagem de Tânia nos seus dezassete anos. Sem que eu quisesse saber, Jewel prosseguiu:
"Estou no 12º ano. Espero conseguir entrar na Faculdade de Medicina. Quero ser Pediatra."
Estranhamente, o nosso diálogo durou algum tempo. Eu expliquei-lhe que estava a trabalhar naquele momento e que poderia ter de interromper algumas vezes. Ela compreendeu, não haveria problema e esperaria nas minhas pausas. Não me recordo bem de tudo o que falámos. Jewel revelara-se inteligente e a troca de frases foi fluindo. O ambiente estava calmo, os computadores quase todos ocupados e raramente apareceu alguém a interromper-nos.
A certa altura, vi um homem subir as escadas, uma figura bem constituída e passada confiante. Deveria ter trinta e tal anos. Usava barba e cabelo ruivos bem aparados, olhos claros e um rosto que parecia desenhado por um Da Vinci. Vestia um blusão de motociclista e calças de ganga com muitos bolsos. Trazia o capacete pendurado num braço e calçava botas de biqueira pontiaguda.
Eu não era apreciador de homens, mas aquele indivíduo deveria arrebatar muitos corações femininos... e alguns masculinos.
— Boa noite! — cumprimentou com uma voz que bem poderia ser de locutor de rádio. — Tem computadores disponíveis?
Confirmei que sim e iniciei o preenchimento da ficha que o deveria acompanhar.
— Nome?
— Peter Pereira.
Por momentos, pensei que fosse dizer Peter Pan. Consegui conter o sorriso. Entreguei-lhe a folha com a hora de entrada e apontei-lhe o computador número treze.
Quando regressei ao ecrã, vi que Jewel escrevera:
"Tenho de ir."
"Ok."
"Tens email?"
Respondi afirmativamente e digitei o meu endereço de email.
"Obrigado. Vou enviar-te uma mensagem para ficares com o meu."
Antes de ficar offline, tentei saber mais sobre ela:
"Posso saber o teu nome?"
"Mafalda."
"O meu é Daniel."
"Gostei de falar contigo, Daniel."
O diálogo terminou ali. Menos de dez minutos mais tarde, recebi uma mensagem no meu email. Mafalda escrevia a repetir que gostara de falar comigo e que esperava que nos voltássemos a encontrar online ou trocar mensagens por email.
Não sei se isso iria acontecer ou não. Também não tive muito tempo para pensar no caso, uma vez que o utente do computador treze me acenava para que eu fosse lá.
Encontrei-o a navegar numa página de material fotográfico. Precisava de ajuda para imprimir as características de um determinado modelo.
— Gosta de fotografia? — questionei, indicando-lhe onde clicar para enviar o documento para a impressora.
— Sou fotógrafo profissional.
— Também gostava. — confidenciei. — Sempre gostei muito de fotografia.
Peter mostrou-se muito afável, percebendo o meu entusiasmo com o tema, e partilhou comigo a sua intenção de adquirir o último grito de tecnologia da Canon, cujo a foto se destacava no ecrã.
— Tenho uma velhinha AE1.
— Foi uma grande máquina, rapaz. — disse ele, conhecendo bem ao que me referia. — Mas, tens de evoluir, hoje em dia há máquinas muito melhores.
Pois havia, eu sabia. Continuava a absorver tudo o que eram notícias de equipamentos fotográficos. Só que essas "melhores" eram também demasiado dispendiosas para a minha parca carteira.
Expliquei-lhe que as impressões iriam sair na impressora junto ao meu balcão e que ele poderia recolhê-las quando quisesse.
Peter tornou-se uma presença assídua na loja para usar os computadores. Aparecia sempre à noite e gostava de ficar a conversar algum tempo comigo sobre fotografia. Confesso que tinha grande admiração por ele, pois protagonizava aquilo que eu adoraria ser, extremamente bem parecido e fotógrafo profissional.

O milénio velho deu lugar ao novo. O tão badalado bug do milénio não fora mais que uma lenda. Criara-se o receio de que todos os computadores teriam um colapso informático quando o algarismo "1" desse lugar ao "2". Nada aconteceu, o ano virou com a normalidade de todos os anteriores.
A minha vida também se foi desenrolando com normalidade, os dias sucediam-se como um padrão. Só mesmo os fins de semana me custavam mais a atravessar, uma vez que os passava em casa sozinho com a minha gata. Chegara a ponderar investir na aquisição de um aparelho para ter Internet em casa, mas concluí que o meu velhinho computador não tinha capacidade para tal.
Em vez disso, comprei o meu primeiro telemóvel, um modelo novo da Samsung que fugia ao aspecto "tijolo" que estes aparelhos tinham desde a sua invenção. Este era pequeno, cabia no bolso e protegia as teclas com uma fina placa do mesmo material.
Nas noites de trabalho, as conversas na Internet continuavam. Tinha já um pequeno lote de contactos com quem falava regularmente.
Jewel não aparecia muito online. Mantinha o contacto através de email, principalmente a enviar-me postais virtuais. Era uma moda da época, uns sítios na Internet onde se podiam preencher postais animados que depois se enviavam para o endereço de email do destinatário. Havia-os de todos os géneros e feitios para os mais diversos objectivos. Claro que também mandava as mensagens normais, relatando algo que sucedera. Por vezes, lançava a hipótese de nos conhecermos pessoalmente, só que isso seria altamente improvável, uma vez que o máximo que ela se deslocava era a Coimbra e eu circulava somente entre Lisboa e Almada.
Houve uma noite de Fevereiro, em mais uma conversa virtual, que Jewel me pediu uma foto. Não era incomum receber esses pedidos, mas raramente o fazia, pois só me interessava revelar a minha imagem se do outro lado estivesse uma rapariga interessante.
"Se te enviar uma minha, tu mandas-me uma tua?", questionei igualmente curioso por a ver.
"Não tenho em formato de ficheiro para te enviar. Mas vou tentar arranjar."
Sentir-me-ia mal se lhe respondesse que quando ela a tivesse lhe enviaria a minha. Afinal, já conversávamos havia umas semanas e ela era uma parceira de assuntos interessantes. Acabei por quebrar a minha regra e enviei-lhe por email uma foto minha, meio corpo, um ficheiro que tinha preparado sempre que me quisesse revelar.
"Já recebi.", escreveu passados dois minutos.
Não escrevi nada, aguardando uma opinião.
"És diferente daquilo que imaginava."
"Isso é bom ou é mau?"
"Não é bom nem é mau."
"Como é que me imaginavas?"
A resposta demorou mais que o habitual.
"Com uma túnica branca e uma auréola na cabeça.", foi a resposta à qual adicionou vários sorrisos.
Sorri para ninguém.
"E sem asas..."
"Sim, sei que és um anjo que não voa. Senão, poderias voar até aqui para nos conhecermos."
Ela voltava a pegar na hipótese de existirmos na vida real um do outro.
Curiosamente, nunca me encontrara com nenhuma das minhas parceiras de conversa virtual. Discutia-se essa hipótese casualmente, mas nunca se avançava mais que um "temos que combinar isso". Se nunca acontecera com quem vivia na mesma região que eu, dificilmente aconteceria com alguém que estava a mais de duzentos quilómetros.
"Fico a aguardar a tua foto."
Para ser sincero, não acreditei que ela enviasse uma fotografia sua. E honestamente, talvez tivesse preferido que não o tivesse feito.
A virtualidade permite-nos adoptar a personagem que quisermos, estamos escondidos no anonimato, podemos levar os outros a imaginar-nos como queremos e não como somos. Contudo, existe o reverso da medalha, imaginarmos quem está do outro lado como desejaríamos e não como a pessoa realmente é.
Duas noites mais tarde, recebi um email com o assunto "o prometido é devido". A mensagem era de Jewel, explicando que não poderia comparecer nas salas virtuais e que enviava em anexo uma foto sua, a qual eu deveria dar algum descontou pois já tinha uns anitos. Apesar de nunca ter tido muito interesse nela para além das agradáveis conversas, dei por mim ansioso em ver a foto. Como já referi, eu imaginava Jewel como uma gémea de Tânia.
Ao ver a foto, a melhor descrição que posso fazer do que senti é que foi semelhante a quando nos dão um presente muito grande e lá dentro está um par de meias. A fotografia parecia retirada de um documento de identificação, mostrava o rosto de uma rapariga que não parecia ter mais de doze ou treze anos. O rosto redondo, quase bolachudo, ar sério, cabelos ruivos encaracolados e olhos que não dava para perceber se eram verdes, azuis ou castanhos. Uma decepção.
Por breves momentos, fiquei estático, pensativo. Depois, concluí que era melhor assim, se ela fosse deslumbrante seria complicado não a poder conhecer pessoalmente. Eu gostava bastante de falar com ela, por isso, não iria ser uma foto que me afastaria.
Observei o amplo espaço pelo qual eu era responsável. A noite a meio da semana representava menor afluência de clientes. Mesmo assim, mais de metade dos computadores estavam ocupados. Abandonei a minha cadeira alta e fui até ao corrimão que cercava todo o quadrado de computadores. Olhei para baixo e fiquei a analisar a movimentação de clientes junto ao balcão das cópias. As pessoas não teriam nada melhor para fazer à noite que ir tirar fotocópias?
No lado oposto donde eu estava, vi um cliente acenar-me. Caminhei vagarosamente para lá, pois já conhecia o indivíduo que tinha tendência a ser um chato. Queria saber se eu conhecia algum sítio na Internet onde se pudesse saber informações sobre migrações de pinguins. Recomendei-lhe que usasse um motor de busca que o informaria bem melhor que eu.
No meu percurso de regresso ao balcão, reparei que uma mulher aguardava para ser atendida. Estava de costa e espreitava como se julgasse que eu estava escondido. Tinha uma silhueta elegante, vestia um fato formal escuro e o cabelo preto liso caía perfeitamente alinhado nas suas costas.
Acelerei o passo para não a fazer esperar. Passei por trás dela e contornei o balcão, dizendo:
— Boa noite!
Ela não respondeu e olhou-me curiosa. Eu encarei-lhe o rosto, o qual não me era estranho, mas sem o identificar de imediato. Aquele olhar penetrante, postura altiva e laivos de arrogância traziam-me qualquer coisa à memória.
Antes de dizer a primeira palavra, olhou para o cartão que eu trazia preso no peito com o nome.
— Bem me parecia que te estava a conhecer.
Nesse instante, fez-se luz na minha cabeça.
Perante mim estava Francisca.
Lembram-se da Francisca? A minha colega que com a Maria Inês fazia a dupla das mentes brilhantes da turma? Pois ali estava ela. Diferente da estudante, apresentava um ar mais maduro, muito mais preocupada com a aparência, revelando uma beleza austera que não lhe conhecia. É certo que na escola, uma rapariga como Tânia abafava as colegas, mas Francisca não era desinteressante na altura, eu é que só tinha olhos para a miúda mais gira da escola.
— Francisca?
— Olá, Daniel.
Enquanto colegas, raramente falámos e nas poucas vezes que isso aconteceu, Francisca não fora nada simpática. Porém, volvidos aqueles anos, a sua postura era diferente. Continuava altiva, mas não se revelou a antipática bajuladora de professores de outrora.
— Trabalhas aqui?
— Sim.
— Estás diferente. — constatou com um sorriso que não me permitiu perceber se a diferença era boa ou má.
— Tu também estás diferente.
Francisca encolheu os ombros.
— Talvez mais formal. — corrigiu, olhando-se. — Ossos do ofício.
— Que fazes?
— Neste momento estou a estagiar num escritório de advogados.
— Sempre conseguiste seguir advocacia. — constatei.
Ela anuiu e adicionou:
— E não só. Também tenho apostado na vida política.
— Não me digas que és deputada?!
— Ainda não, mas espero vir a ser. — relatou. — Para já, estou só como assistente no Parlamento.
— Muito bem. — congratulei, ainda com dificuldade em acreditar que era a Francisca da escola que ali estava. — Em que posso ajudar-te?
— Preciso de um computador com Internet e Word.
Peguei na folha e escrevi o seu nome e hora de entrada.
— Computador dezanove. É aquele ali ao fundo que está vazio. Se precisares de alguma coisa, é só acenar.
Francisca recebeu a folha e afastou-se para o lugar indicado.
Pela hora que preenchi no final, ela esteve cerca de noventa minutos no aparelho. Passado esse tempo, recolheu as folhas que trazia na pasta, pegou no papel de registo e caminhou por trás dos outros utilizadores, deitando uma espreitadela ao que cada um fazia, até alcançar o local onde eu estava.
— Isto é concorrido. — disse, entregando-me a folha. — Mas, é calmo.
Eu olhei para o relógio e escrevi a hora de saída na folha.
— Agora, é só entregar lá em baixo na caixa.
— É lá que pago?
— Sim.
Francisca ficou hesitante, permanecendo em frente a mim com o longo balcão pelo meio.
— Trabalhas aqui há muito tempo?
— Algum.
— E gostas?
— Sim.
Os seus olhos percorreram o espaço como se fosse uma avaliadora imobiliária.
— Nunca te imaginaria atrás de um balcão a atender ao público. — confidenciou. — Eras tão tímido na escola. Mal falavas...
— Outros tempos. — retorqui, recordando uma memória que preferia esquecer.
— Caladinho, caladinho... Mas foi contigo que a Tânia namorou. — lembrou ela, sorrindo divertida. — Voltaste a vê-la? — Abanei a cabeça. — Eu vi-a há tempos numa reportagem na RTP, num desfile... Acho que estava em Milão.
Eu evitava notícias de Tânia, custava-me sempre vê-la, rever a rapariga que fora a minha única namorada.
— Está a ter o sucesso que merece.
Francisca pareceu concordar.
— Sim. Acho que, melhor ou pior, todos nos fomos safando.
Senti que estava a referir-se a mim como fazendo parte do grupo que se safou pior.
— Desde o fim da escola, não voltei a ter notícias de ninguém.
— Também não sei muito mais. A Maria Inês estudou comigo na Faculdade de Direito, o Alfredo acho que se formou em História... Ah. E o teu "amigo" trabalha num café.
— Amigo?
Ela sorriu novamente.
— Estou a ser irónica, Daniel. Refiro-me ao Tiago.
Não manifestei qualquer interesse por aquela informação.
Desviando a atenção para o pulso, despediu-se:
— Até à próxima, Daniel. Gostei de te ver.
E desceu as escadas para se ir embora.

As tardes primaveris chegaram antecipadamente. Atrás do balcão onde eu atendia os clientes, existia uma ampla janela envidraçada que nos permitia ver para a avenida. Claro que o contrário também era possível, quem passasse na rua conseguia ver-nos, principalmente à noite.
Ao fim de algumas semanas de ausência, Peter apareceu na loja. Gostava dele, um tipo porreiro, bom conversador e que me ia dando umas dicas de fotografia. Trazia na mão uma revista que colocou sobre o balcão para eu ver.
— Trouxe para te mostrar o meu último trabalho.
Olhei para a capa, uma conhecida revista masculina, vendo uma bela mulher em biquíni. Ele folheou algumas páginas e abriu a revista a meio, num dos ensaios fotográficos. Analisei as fotos de meia dúzia de raparigas em biquínis minúsculos.
— Sortudo... — proferi, encantado com as páginas.
Peter sorriu.
— Vou contar-te uma coisa, Daniel. — Pensei que me fosse confidenciar que estivera envolvido com algumas delas, senão mesmo com todas. — Eu gosto do mesmo que elas.
A princípio não percebi, mas depois não consegui esconder o rosto de espanto. Ele estava a dizer-me que era homossexual. Como era possível? Como poderia um homem daqueles, uma figura tão sedutora, ser... gay?
— Chocado?
— Surpreso. — corrigi. — Não fazia ideia.
— Ninguém faz.
Notei que aquela pequena confidencia servia para me demonstrar que não era só o cliente que falava com o funcionário, era uma expressão de amizade, uma revelação que não se faz a qualquer um. De súbito, fiquei a pensar se haveria uma segunda intenção naquela confissão.
— Eu sei que é um choque para as pessoas. Estão habituadas ao estereótipo de homens com "tiques", trejeitos afeminados... Não sou assim, mas isso não altera os meus gostos.
— És um tipo porreiro, Peter. É-me indiferente a tua orientação sexual.
— Ainda bem, Daniel. Também és porreiro e gosto de conversar contigo. Não quereria que isto nos impedisse de sermos amigos.
— Claro que não.
Peter empurrou a revista para mim.
— Trouxe-a para ti.
— Obrigado.
— De nada. Arranjas-me um computador?
Preenchi a folha de registo e indiquei-lhe o seu posto de utilizador.
Guardei a revista que me oferecera, antes que outro cliente a visse, uma vez que não seria muito ético ter uma publicação daquelas ali no meu posto de trabalho. Ainda me custava a acreditar naquela revelação.
— Dá Deus nozes a que não tem dentes. — murmurei. — Ou melhor, a quem não as quer comer...
Invejava Peter pelo seu trabalho, por poder fotografar mulheres lindíssimas, viver num mundo em que elas o rodeavam... Sentei-me na minha cadeira alta, atrás do balcão e a minha atenção passou para o ecrã do computador. Digitei os meus dados para entrar numa sala de conversa virtual. Como habitualmente, as mensagens sucederam-se, os diálogos dos muitos cibernautas que navegavam por ali. Ia a escrever um "olá" na altura em que um cliente se aproximou a pedir auxílio. Saí do meu lugar e acompanhei-o ao seu computador para o ajudar.
Ao terminar a explicação, reparei que alguém me aguardava no balcão. Percorrendo o caminho de retorno, a mulher virou-se e reconheci Francisca. Sorri-lhe com afabilidade, ao qual ela correspondeu de forma protocolar. Tal como da outra vez, a indumentária era formal. Pediu um computador com Internet e afastou-se, mal lhe indiquei o número do aparelho.
Aproveitando a fase calma e sem clientes a importunar, retomei a minha presença na conversa virtual. Percebi que ninguém ligara ao meu primeiro "olá". Até tinha sido bom, pois não teria podido responder, ausente. Ia repetir a saudação no momento em que surgiu uma frase de cor diferente, sinónimo que era dirigida a mim.
"Olá AnjoDelta."
Olhei para o nome do interlocutor. Tinha uma alcunha aleatória, algo tipo utilizador159, algo que o sistema atribui automaticamente a quem não definiu o nickname à entrada.
"Olá. És M ou F?"
Esperei a resposta.
"As duas, sou Mulher e Feminina."
Percebi o tom brincalhão nas palavras.
"O M é masculino, não é mulher.", corrigi só para aborrecer.
"Eu sei. Estava a meter-me contigo."
"Donde teclas?"
"De perto."
Calculei que não quereria revelar a sua localização.
"Como podes dizer que é perto se não sabes onde estou?"
"Eu sei onde estás."
A resposta surpreendeu-me. Ponderei a hipótese que fosse alguém com quem tivesse falado anteriormente. Contudo, eu nunca dissera a ninguém o sítio exacto onde estava.
"Estás perto de Lisboa, é isso?"
"Estou em Lisboa. E diria que estou a uns trinta metros de ti."
Fiquei perplexo. O pior que poderia acontecer era ser descoberto por alguém que eu não fazia a mínima ideia de quem era. Temi que fosse alguma daquelas raparigas com quem falara uma vez e que não tinha a mínima intenção de repetir a experiência.
No ecrã surgiu:
"Já sabes onde estou?"
Trinta metros. Seria na rua? Não, não havia nenhum outro lugar com computadores tão perto. Só se fosse alguma empresa ali na avenida, mas àquela hora... Olhei para os computadores à minha frente e para as pessoas totalmente concentradas neles. Só podia ser alguém ali.
"Onde estás?"
"Computador 17."
Era o computador de Francisca. Olhei para lá e vi a sua cabeça surgir atrás do cubo que servia de ecrã, atirando-me um sorriso divertido.
"Como sabias quem eu era?", escrevi.
"Espreitei para o teu computador, enquanto esperava e vi o teu nick."
Suspirei de alívio, temendo outra coisa. Voltei a olhar para o fundo da sala. Francisca estava coberta pelo enorme bloco parecido com um televisor. Equacionei o que escrever, só que nova mensagem apareceu:
"Vou deixar-te em paz. Foi só para me meter contigo."
Retorqui com um "ok" e não trocámos mais mensagens.
A noite foi pacífica e enfadonha. Não apareceu mais nenhum cliente no meu departamento para usar um computador e os que lá estavam foram saindo aos poucos. Na Internet nem uma conversa de jeito, fazendo-me desistir da presença nas salas de chat muito antes do fim do meu turno. Peter foi dos últimos a sair e, ao receber a folha com o registo do tempo a pagar, inquiriu:
— Ainda chocado?
— Nadinha. — neguei com um sorriso amistoso. — Obrigado pela revista.
Ele fez um aceno a desvalorizar e afastou-se para as escadas.
Ficaram só três pessoas nos computadores, a dez minutos do fim do meu horário laboral. Uma delas era Francisca.
Todas as noites havia sempre pessoas que estavam tão fixadas na Internet e nas conversas ou outras coisas virtuais que se esqueciam que o espaço fechava. Por isso, não passava uma noite em que eu não tivesse que me deslocar a esses utilizadores e alertá-los para esse facto. A maior parte tomava consciência da hora e rapidamente se ia embora. Outros precisavam de mais que um aviso ou o incentivo de ter um corte de corrente no aparelho. Nessa noite foi tudo tranquilo. Avisei os dois primeiros, que rapidamente se despacharam, e parei junto de Francisca que estava mais longe.
— Vamos fechar.
Francisca não se apercebeu da minha aproximação. Olhou para o relógio.
— Xiii... Nem dei pelas horas.
Espreitei o ecrã, pensando encontrar uma janela de conversação, mas deparei com sítios de notícias e informações.
Regressei ao balcão, onde os outros dois me esperavam para registar os tempos de consumo. Francisca aproximou-se no momento em que eles desciam as escadas.
Ao escrever a hora na sua ficha, ouvi Francisca perguntar:
— A que horas sais?
— Meia-noite. — informei, entregando-lhe o papel. Ela ficou a olhar para mim, não estava hesitante nem expectante. Parecia mais provocadora. Fiquei sem saber muito bem o que esperava de mim. Uma despedida? — Até à próxima.
Francisca olhou para o papel e novamente para mim. Iria reclamar o tempo que eu escrevera? Fez um movimento de quem se ia embora, mas travou.
— Queres ir beber um copo? — convidou.
Apanhou-me completamente de surpresa.
— Um copo? — repeti para ganhar tempo.
— Uma bebida, um café, um chá. — adicionou. A seguir, lançou um sorriso desafiador. — Ou um copinho de leite.
— Está bem. — concordei. — Tenho só de desligar tudo.
Francisca assentiu, dizendo:
— Vou pagar. Espero-te lá em baixo.
O convite confundira-me. Nunca tivera a mínima empatia com Francisca na escola e ali vira-a duas vezes. Não nego que era uma mulher interessante, mais não fosse pela personalidade carismática. Talvez quisesse somente recordar os tempos de estudante, passar um bocado a conversar... Enfim, não fazia a mínima ideia porque me convidara para uma bebida ao início da madrugada.
Desliguei os computadores e arrumei o necessário. Era Sexta e no fim de semana o departamento era assegurado por dois rapazes que faziam aquele serviço em part-time e com quem raramente me cruzava. Peguei no casaco, desci as escadas e fui passar o cartão na máquina de ponto. Despedi-me dos colegas que ainda por ali andavam e saí para a rua.
A avenida era o paradoxo do seu aspecto habitual, sempre ruidosa e assoberbada de trânsito. Àquela hora poucos carros passavam e o som mais estridente foi um autocarro que nem parou nas paragens.
Francisca aguardava no passeio, em frente à montra da loja, com os braços cruzados no peito, a mala pendurada no ombro e o olhar perdido na ausência de veículos a circular.
— Vamos? — disse eu, despertando-a.
Ela aproximou-se de mim.
— Sim. Onde queres ir?
— Não sei. Não posso ir muito longe, o último barco para a margem sul parte às duas da manhã.
A informação foi-lhe irrelevante. Fez-me sinal para a acompanhar. Atravessámos a via exterior da Avenida da República em direcção aos carros arrumados à esquerda, em espinha. Apontou-me a porta direita de um Citroen Saxo verde-garrafa e entrou para o lugar do condutor. Sentei-me a seu lado.
A viagem foi curta, subimos a avenida, contornámos a Praça Duque de Saldanha e voltámos a entrar na avenida em sentido inverso. Cerca de cem metros após a rotunda, Francisca viu um lugar e voltou a estacionar.
— Vamos ao Galeto. — sugeriu.
Concordei, pensando que poderíamos ter vindo a pé. Porém, compreendi que ela não estaria muito interessada em percorrer a avenida deserta sozinha até perto donde o carro estava anteriormente.
O Galeto era um bar restaurante bem conhecido e muito frequentado da Avenida da República. Passava da meia-noite e ainda se via muita clientela à volta do balcão que contornava todo o espaço. No interior do balcão, os funcionários atarefavam-se no atendimento, enquanto os clientes se sentavam na parte exterior desse mesmo balcão. Francisca parecia conhecer bem o local e movimentou-se com perícia até encontrar o local desejado, sentando-se num dos bancos altos e convidando-me a sentar noutro. Pediu um copo de espumante e eu fiz-lhe companhia com uma cerveja.
— Nunca vim aqui. — disse eu, fazendo conversa.
— Já cá tenho vindo com colegas do escritório.
— Trabalhas aqui perto?
— Na Fontes Pereira de Melo, num escritório de advogados, onde estou a estagiar. — Deu um golo na bebida. — Está quase a terminar e já me fizeram uma proposta para ficar lá.
— Isso é bom.
Francisca anuiu.
— E tu, Daniel? Planos para o futuro.
Encolhi os ombros.
— Manter o emprego para poder pagar as contas.
— O ordenado é bom? — questionou, recriminando-se de seguida. — Desculpa, não tenho nada com isso.
— Não me importo de dizer. Ganho noventa e cinco contos limpos por mês. — Obtive um franzir de rosto dela. — Não é nada de especial, mas vai dando para as despesas. — Não tive a deselegância de lhe perguntar quanto ganhava no estágio ou quanto iria ganhar quando ficasse empregada lá. — Ainda vives em Almada?
Mais um golo no espumante e um abanar da cabeça.
— Não, estou a viver em Lisboa. Os meus pais ajudam-me a pagar a renda de um apartamento em Moscavide até eu começar a receber como advogada.
Olhei para o meu copo, vendo as bolhas da cerveja a subir. Bebi um pouco, o ambiente estava quente ali dentro.
— E quais são os teus planos para o futuro? — questionei sem especial interesse, apenas para manter a conversa e retribuindo a curiosidade dela.
— Consolidar-me como advogada e depois investir mais na minha actividade política e tentar chegar a deputada.
Aquilo foi só o princípio, Francisca iniciou um monólogo de como gostava do ambiente parlamentar, do seu trabalho num dos maiores partidos do país, o objectivo de ser deputada com pretensões a evoluir o máximo que conseguisse. O céu era o limite e o seu céu era a Presidência da República.
— Queres ser a primeira mulher presidente de Portugal. — constatei algo entediado. Ela assentiu com orgulho. Eu olhei para o relógio. — Bom, é melhor ir andando, não quero perder o barco.
Francisca pareceu surpreendida por eu sugerir o fim daquele convívio. Porém, concordou. Intransigente, não permitiu que eu pagasse ou partilhasse a despesa. Acho que se sentiu desiludida, talvez esperasse que a venerasse pelas suas ambições. A verdade é que tudo aquilo me parecia estranho, não existia empatia entre nós, revelávamo-nos dois seres de dois mundos totalmente diferentes.
Deixámos os nossos lugares. Francisca nem esperou por mim, assumindo que eu viria atrás dela.
Ao sair do estabelecimento, parei no passeio, vendo que ela se dirigia para o carro, o qual estava na direcção contrária ao meu destino que era a paragem de autocarro na Praça Duque de Saldanha.
— Tenho de apanhar o autocarro ali. — informei, apontando para a praça.
Ela olhou para lá, como se procurasse o autocarro.
— Vais para o Cais do Sodré? — Confirmei que sim. — Anda, eu deixo-te lá. — Esbocei uma recusa para não a incomodar. — Não me custa nada, eu levo-te lá.
Francisca conduziu com pleno conhecimento do caminho, virando aqui e ali até dar a volta que nos colocasse de novo rumo a sul da cidade. O percurso foi feito sem troca de palavras, apenas ao som da rádio. Sim, tinha a certeza que ficara desapontada comigo. No entanto, também não sei que esperava ela de mim.
Parámos perto do acesso dos carros ao barco. O cais fluvial estava deserto, não se vislumbrando passageiros a aguardar a partida da última embarcação, o qual iria acontecer daí a vinte minutos. Francisca olhou para mim em silêncio. Mais uma vez, fiquei a pensar que esperava algo de mim. Ponderei como me haveria de despedir: um simples "adeus" ou tentaria arriscar um beijo na face?
— Gostei deste bocadinho. — disse ela, inexpressiva.
— Eu também. — retribuí por cortesia.
Houve uma hesitação. Não, não se justificava um beijo na face, mal nos conhecíamos. Fiz um movimento para o puxador da porta.
— Estás ocupado no fim de semana? — interrogou num tom rápido e seguro.
Quando não estava a trabalhar, nada ocupava a minha vida, a não ser uma gata, a televisão e alguma tarefa caseira.
— Não.
— Queres ir ao cinema, amanhã?
— Sim, pode ser... — concordei, meio aparvalhado.
— Encontramo-nos amanhã à tarde, por volta das quatro, no Cinema São Jorge. Está bem para ti?
— Sim.
— Combinado.
Prossegui com o movimento para o puxador. Abri a porta e saí.
— Até amanhã, então.
— Até amanhã, Daniel!
Logo que fechei a porta, Francisca olhou para a estrada, meteu a primeira velocidade e afastou-se de regresso ao parco trânsito citadino daquela hora.
A travessia de barco foi feita na companhia de mais quatro passageiros e com a cabeça envolta em pensamentos. Confuso com mais um convite, tentei perceber o que poderia aquilo significar. Estaria Francisca interessada em mim? Analisei a possibilidade, pensando nela com outros olhos. Era uma mulher interessante, atraente, segura, bonita... Dei por mim a ver com agrado um envolvimento entre nós. Ao mesmo tempo, senti-me inseguro. Só tivera uma namorada e já tinham passado vários anos desde que isso acontecera. Ia a caminho dos vinte e três anos e nunca estivera sexualmente com uma mulher. Receei falhar se aquela ida ao cinema evoluísse para algo mais intenso.
Fosse como fosse, na tarde seguinte, lá estava eu ao cimo da escadaria da entrada do Cinema São Jorge, na Avenida da Liberdade, aguardando a sua chegada. Tive atenção a todos os detalhes para ser cativante. Barbeara-me, perfumara-me e vestira uma camisola azul a acompanhar as calças de ganga preta que faziam conjunto com o blusão. Já não era o rapaz desinteressante dos tempos de escola, mas tinha noção que não era uma imagem que despertasse a atenção do sexo oposto.
Francisca apareceu cinco minutos mais tarde. Surgiu diferente, pois abandonara o estilo formal, o qual trocara por uma imagem mais desportiva. Vestia calças de ganga azul-claras ajustadas ao seu corpo, uma camisa bege e um casaco escuro à medida. Calçava sapatilhas e caminhava com uma elegância descontraída. Trazia o cabelo preto penteado e preso na nuca.
Sim, seria muito fácil deixar-me atrair por ela.
— Olá! — cumprimentou com um sorriso simples.
Por sua sugestão, o filme escolhido foi Capitães de Abril, a reconstituição histórica do 25 de Abril de 1974. Comprámos os bilhetes e dirigimo-nos para a sala principal do cinema. No início do século XXI, aquele ainda era um dos maiores e mais tradicionais cinemas de Lisboa. Procurámos os nossos lugares e sentámo-nos, alguns minutos antes de começar a sessão.
Os espectadores foram entrando, espalhando-se por um espaço ainda muito iluminado. Francisca divergiu a sua atenção para o telemóvel, um modelo bem mais moderno que o meu, e respondeu a uma mensagem escrita.
— Tens telemóvel? — inquiriu.
— Sim.
— Dá-me o teu número.
Soletrei os algarismos, vendo-a a pressionar as respectivas teclas. A seguir, carregou no botão verde e o meu telemóvel tocou. Ela carregou no vermelho, dizendo:
— Esse é o meu número.
Apesar de ter alguma prática com os computadores, os telemóveis ainda eram um "bicho" estranho. Serviam-me para telefonar e mais nada. As mensagens escritas nunca tinham funcionado. Partilhei essa ignorância com ela, enquanto esperávamos. Francisca pediu para ver o meu telemóvel e começou a carregar nas teclas, abrindo menus. Vi-a fazer uma configuração e devolver-me o aparelho.
— Não tinhas o número do servidor de mensagens definido. — explicou. — Experimenta. Manda uma mensagem para mim.
Escrevi "teste" e enviei para o número dela. Ouviu-se um apito. Ela abriu a "sms" e virou o ecrã para mim.
— Estás a ver? Funciona.
As luzes da sala diminuíram de intensidade e no enorme ecrã começaram a aparecer as primeiras publicidades, ao que se seguiram apresentações de futuras estreias. Por fim, as luzes apagaram-se por completo e o filme começou.
Confesso que não gostei do filme. Nada contra a história, os actores ou a realização. Apenas tinha alguma dificuldade em ver filmes representativos de uma época que me lembrava a minha mãe, uma época de liberdades desmedidas que permitiram que a minha progenitora fosse tão tresloucada. Contudo, Francisca vinha encantada e adorara cada minuto.
Quando saímos do cinema, equacionei onde iríamos a seguir. Desta vez, queria antecipar-me, fazer uma sugestão antes dela. Podíamos ir tomar um café, depois jantar... Um sítio barato, claro, pois o meu orçamento era limitado. Talvez aquele encontro nos pudesse elevar a outro nível, um nível em que vincássemos a nossa vontade de continuar a sair juntos.
Seguindo um passo atrás, dei por mim a observá-la, a perceber que ela era mesmo muito interessante. Acho que estava a começar a gostar dela.
Francisca voltou-se.
— Queres que te deixe nalgum lado? — perguntou.
Fiquei desapontado, mas esforcei-me para não o deixar transparecer. Antes de conseguir dar uma resposta, ela prosseguiu:
— Tenho um jantar combinado com uns amigos, mas posso deixar-te no Cais do Sodré, se fores regressar.
— Não é preciso. — consegui dizer. — Ainda vou dar uma volta por aí.
— Ok. Xau!
E afastou-se indiferente, subindo a avenida até ao local onde tivesse deixado o automóvel.
Qual fora o propósito daquilo? A questão acompanhou-me ao longo de todo o regresso a casa. Todos os filmes que fizera na minha cabeça se tinham esfumado como cinzas atiradas ao mar. Ponderara desde o simples jantar e combinação de novo encontro até à ida a casa dela e uma noite juntos onde ela se tornaria a primeira mulher com quem faria amor.
— És um romântico. — condenei-me, ao chegar a casa.
Tio miou-me, quase como se adivinhasse os meus pensamentos e perguntasse o que fazia de regresso tão cedo. Peguei-lhe ao colo e sentei-a nas minhas pernas, ao aterrar no sofá da sala. Liguei a televisão, mas não prestei atenção às imagens. A gata adormeceu. Francisca não me saiu da cabeça. Julgara que estava interessada em mim, mas afinal não fora mais que uma solução para a acompanhar a ver um filme que, possivelmente, não interessava a nenhum dos amigos.

Jewel era a pessoa com quem mais conversava e, por isso, acabámos por nos tornar confidentes um do outro. Não tínhamos problemas em abordar qualquer assunto, talvez porque no nosso íntimo sabíamos que jamais a nossa amizade sairia do virtual para o real. Mesmo assim, havia coisas que me envergonhavam e não partilhava com ela. Ser virgem era uma dessas coisas. Partilhei com ela os acontecimentos do fim de semana com Francisca. Sem que eu o referisse, ela percebeu que existia um interesse meu na futura advogada. Não sei se esperava que ela me descodificasse a atitude de Francisca. Talvez por ela também ser mulher conseguisse descortinar algo que eu não visse. Porém, Jewel não o fez. Ao invés, incentivou-me a conquistá-la.
Todas as noites, no meu posto de trabalho, sempre que ouvia movimento a aproximar-se, olhava para as escadas, expectante no reaparecimento de Francisca. Isso não aconteceu durante umas três semanas. Eu tinha o número dela, mas nunca tive coragem de a contactar. Ia ligar-lhe e dizer o quê? Convidá-la para sair? Tinha receio de levar uma "nega".
Francisca retornou à loja a meio de uma semana de Maio. A chuva caía com abundância na noite exterior. Vi-a no seu traje formal a subir os degraus com o olhar cravado em mim. Permaneceu séria e parou junto ao balcão.
— Olá Daniel! — cumprimentou de rosto fechado.
— Olá Francisca! — retribuí com um nervoso miudinho que chegara sem avisar.
— Tens computadores livres? — questionou, olhando para o espaço amplo.
— Sim. — confirmei, começando a preencher a ficha.
Ela aguardou, séria, impenetrável. Recebeu a folha.
— Computador 14.
Pareceu nem ouvir o que eu dissera e virou-me as costas. Fiquei a vê-la caminhar por trás dos outros clientes, dirigindo-se ao aparelho indicado e sentar-se, momento em que ficou quase totalmente escondida atrás do ecrã.
Nessa noite não me sentia interessado na Internet. Jewel não iria estar online, devido a um evento familiar e eu não estava com paciência para conversas ocasionais. Fiquei a folhear a revista de fotografia que comprara antes de ir trabalhar.
A minha leitura foi interrompida por um toque seco do meu telemóvel. Não reconheci, uma vez que nunca ouvira aquele sinal. Peguei no aparelho e deparei-me com uma novidade, um sinal a piscar no pequeno ecrã monocromático de fundo verde, o sinal de mensagem de texto. Para minha surpresa, a mensagem era de Francisca. Abri.
"Não estás no chat?"
Procurei onde se carregava para responder, digitei "não" e enviei.
"Podes ir?", foi a mensagem que chegou a seguir.
Não queria continuar com aquilo muito mais tempo, uma vez que apesar de o toque não ser muito sonoro, o ambiente silencioso daquele espaço permitia que os clientes ouvissem. Escrevi:
"Vou entrar."
Virei-me para o computador e abri o navegador no sítio das salas de conversação. Ia para escrever os meus dados, quando o telemóvel voltou a apitar.
"Sala privada. Nome: Francis."
Abortei o início de sessão. A plataforma permitia-nos configurar uma sala privada com um nome definido por nós. Só quem soubesse o nome da sala é que a encontraria e poderia entrar. A sala "Francis" tinha um utilizador de nome "Francisca". Digitei o meu "AnjoDelta" e entrei, espreitando lá para o fundo, tentando vê-la. Ela mantinha-se escondida pelo aparelho e não deu sinais de querer espreitar-me do seu lugar.
"Cá estou."
"Nunca mais disseste nada."
Que esperava ela que eu lhe tivesse dito? A resposta surgiu na frase seguinte:
"Dei-te o meu número, podias ter ligado."
Ela também podia ter ligado. E eu ia ligar-lhe para dizer o quê? Ponderei o que escrever, não queria que alguma palavra a afastasse.
"Não quis incomodar-te."
"Se me incomodasses, não te teria dado o meu número."
"Sim, tens razão.", concordei só para não a contrariar.
"Não te interessou, pois não?"
"O quê?"
"Voltar a sair comigo."
"Porque dizes isso?"
"Porque te dei o meu número e tu não retribuíste o meu convite."
Pronto, fizera-se luz na minha cabeça. O convite para o cinema fora feito por ela. Logo, se houvesse interesse em repetir, deveria ter sido eu a fazer o novo convite. Espreitei para o ponto onde ela estava, tentando perceber alguma expressão facial dela, só que Francisca permanecia coberta pelo monitor. Antes de escrever, e uma vez que eu demorava na resposta, uma nova frase surgiu no meu ecrã:
"A menos que não gostes da minha companhia."
"Não é nada disso. Eu gosto da tua companhia."
"Então não percebo."
Apesar de querer jogar pelo seguro, evitar a denúncia do meu interesse antes de saber qual seria o dela, acabei por desabafar:
"Fiquei com a sensação de que tu não gostaste muito da nossa ida ao cinema."
Houve uma demora, o que me levou a nova espreitadela lá para o fundo da sala sem sucesso.
"Por que sentiste isso? Eu gostei.", digitou Francisca.
"Foste logo embora."
"Tinha coisas combinadas."
Sim, eu sabia que ela tinha coisas combinadas. Não tinha o direito de a recriminar por isso, afinal só tínhamos combinado uma ida ao cinema. Tudo além disso só foi fruto da minha imaginação.
"Foi por causa disso que não me ligaste?"
Ia a escrever algo, mas o som de um telemóvel a tocar travou-me. Procurei pelo amplo espaço a proveniência do som e percebi que era o de Francisca. Pelos movimentos, foi perceptível que ela atendeu, esforçando-se para falar baixinho de forma a não perturbar os outros utilizadores. Nesse espaço de tempo, um cliente abandonou o seu lugar e dirigiu-se ao balcão com a folha de registo. Apontei a hora de saída e devolvi-lhe o papel. Quando regressei ao computador, constatei que Francisca abandonara a sala virtual, vislumbrando-a em simultâneo a levantar-se e a vir na minha direcção.
Francisca parou junto ao balcão com o mesmo rosto fechado com que chegara. Sorri, mas ela não correspondeu.
— Já vais?
— Tenho de ir. — confirmou, apontando-me o registo de tempo.
Escrevi a hora, lamentando:
— Desculpa não ter ligado.
Ela recolheu a folha, abanando ligeiramente a cabeça, desvalorizando o assunto. Manteve o semblante carregado e afastou-se apressada sem dizer mais nada.
A confusão adensou-se na minha cabeça. Porém, não voltaria a ser acusado de não retribuir convites. Peguei no telemóvel e escrevi-lhe uma mensagem a repetir o pedido de desculpa e que gostaria de voltar a sair com ela. Não tive resposta.
Duas noites mais tarde, Francisca reapareceu na loja. Desta feita, vinha acompanhada por um rapaz que envergava a mesma indumentária formal que ela. Pararam em frente a mim e ouvi-a solicitar:
— Precisamos de um computador com word.
Foi a minha vez de manter o rosto fechado e ser frio. Escrevi a hora de entrada e apontei-lhe o número do aparelho.
Não tinha esse direito, mas senti ciúmes. Donde estava, conseguia vê-los na perfeição. Trabalhavam em algo, ele escrevia num bloco e ela teclava. Notei que se davam bem, Francisca sorria frequentemente e ele observava-a com uma admiração suspeita. Já foste, murmurei para os meus botões.
Procurei ignorá-los. Eram de outro mundo, uma classe superior à minha, um produto das Universidades, gente de um mercado de trabalho muito mais elevado que o meu. Senti-me pequeno, imbecil por ter pensado que ela poderia ter tido algum interesse em mim.
O som da impressora despertou-me. Comecei a ver sair várias folhas de texto. Saí do meu banco alto e fui recolher o monte de papel que a máquina cuspira. Ao voltar-me, deparei-me com o acompanhante de Francisca.
— São nossas. — disse-me, como se tivesse receio que as deitasse no lixo.
Contei-as e entreguei-lhas.
Estiveram lá até quase ao fim do meu turno. Dez minutos antes da meia-noite, arrumaram tudo e levantaram-se das cadeiras. Deram meia dúzia de passos e pararam, olhando-se com interesse. Demasiado longe, não consegui ouvir o que diziam. Ele dissera algo que a fez sorrir, depois adicionou algo fazendo um gesto a apontar para um sitio abstracto. Francisca abanou a cabeça, talvez numa recusa. Ele encolheu os ombros e retomaram o andar até às escadas. Aí, voltaram a parar. Trocaram dois beijos na face em jeito de despedida. Por fim, ele desceu as escadas e ela completou o espaço até mim.
Recebi a folha de registo com a mesma frieza com que a atendera antes. Tinha vontade de lhe perguntar porque não respondera à minha "sms", mas faltou-me a coragem. Preenchi a hora e o número de páginas impressas.
— Queres ir beber qualquer coisa ao Galeto? — convidou com um sorriso neutro.
Quis recusar para ripostar a forma confusa como ela se comportava comigo. No entanto, não fui estúpido ao ponto de o fazer.
As idas ao Galeto tornaram-se regulares nas semanas que se seguiram. Francisca aparecia na loja todas as Sextas a seguir ao jantar, alugava um computador e ficava a trabalhar até à hora de eu sair. Não falávamos pela Internet nesse espaço de tempo, uma vez que ela aproveitava esse período para a sua vida profissional. As poucas palavras que trocávamos aconteciam quando ela ia buscar as impressões que tinha enviado para a impressora. No fim, pertinho da hora do fecho, ia pagar e ficava à minha espera no passeio, perto da porta da loja. Os nossos encontros resumiam-se a essas idas ao restaurante bar. Nos restantes dias da semana, o contacto entre nós era inexistente.
Confesso que adorava aquele momento semanal, cerca de uma hora ou hora e meia, eu com uma cerveja e ela com a sua flute de espumante, a conversar sobre os desenvolvimentos da nossa actividade profissional ou momentos da actualidade. Apreciávamos a companhia um do outro e fomos desenvolvendo uma amizade genuína, mesmo que houvesse momentos em que parecia existir uma barreira invisível entre nós.
A minha confidente virtual, Jewel, escrevera-me certa vez que aquela amizade ainda iria dar em namoro. Achei totalmente improvável, uma vez que Francisca se revelava simpática e afável, mas sem permitir que existisse qualquer toque entre nós. Em todos aqueles encontros, nem um beijo na face trocámos.
Na minha tentativa de descodificar Francisca, acabei por concluir que ela procurava em mim um amigo, alguém fora do seu círculo social para conversar. Não me importava.
A rotina de encontros foi quebrada em finais de Junho. Na véspera, recebi uma mensagem dela a informar que tinha um compromisso e que não iria aparecer na loja, como costume. Aquilo deixou-me triste, sentia saudades dela, uma saudade que atenuava todas as Sextas ao início da madrugada, e que teria de suportar mais uma semana. Assim, ao invés de seguir com Francisca para o Galeto, nessa noite repeti o ritual das outras noites após o trabalho e fui esperar o autocarro na paragem. Nunca aguardava mais que uns cinco minutos. O trajecto até ao Cais do Sodré foi feito com o olhar perdido na paisagem nocturna repleta de luzes urbanas. Não consegui evitar a sensação de vazio. Seguiu-se a travessia do Tejo, o cacilheiro quase vazio, a ondulação ténue que me embalava a imagem da parceira que se ausentara. Desembarquei em Cacilhas e caminhei até ao local donde partiria o autocarro que me levaria até casa.
Tio esfregou-se nas minhas pernas, mal entrei no apartamento, era a sua forma de me cumprimentar. Roçava-se em mim, como que dizendo "chegaste" e depois voltava para a sua cama, enroscando-se na sua manta. Eu nunca tinha sono ao chegar, pelo que estacionava no sofá e ligava a televisão, procurando qualquer coisa de interesse entre quatro canais.
O telemóvel apitou, fazendo Tio abrir os olhos e miar um protesto por a terem acordado outra vez. Peguei no aparelho e vi o sinal de nova mensagem enviada do número de Francisca. Abri curioso.
"Estás acordado?"
Carreguei para responder e escrevi:
"Sim. Está tudo bem?"
Menos de trinta segundos depois, o telemóvel voltou a apitar e Tio tornou a reclamar. Eu li a mensagem:
"Posso ligar-te?"
"Sim."
Fiquei com o aparelho na mão para atender. Só o deixei tocar uma vez para que Tio não voltasse a protestar.
— Desculpa estar a incomodar-te tão tarde, Daniel.
— Não faz mal, cheguei há cinco minutos.
— Precisava de conversar com alguém.
— Aconteceu alguma coisa?
Houve uma pausa do outro lado. Dava para ouvir a sua respiração.
— Fiz merda.
A resposta foi uma surpresa. Não imaginava uma mulher como ela a fazer coisas erradas. A voz soou cansada, algo vencida.
— Estás bem? — tentei saber. Um suspiro. Insisti. — Queres contar-me o que aconteceu?
A hesitação foi notória, um silêncio prolongado. Dei-lhe o tempo necessário a que começasse.
— Esta noite fui jantar com um ex-colega da faculdade. — começou no mesmo tom arrastado. — Encontrámo-nos esta semana numa sessão do tribunal, não nos víamos deste o tempo em que estávamos a estudar. Tomámos um café, conversámos e ele acabou por me convidar para jantar. — Por isso é que ela cancelara o nosso encontro habitual. — Depois do jantar, convidou-me a ir a casa dele. A noite estava a ser agradável, a conversa boa, o que seria um último copo em casa dele? — Nova pausa. Seria para que comentasse? Permaneci ouvinte. — Surgiu um clima, aconteceu um beijo... Deixei-me levar. — Eu sabia onde aquilo ia dar, mas não a interrompi. — Quando dei por mim, estávamos na cama. — Tornou a parar. Desta vez prolongou o silêncio. Queria que eu dissesse algo. — Deves estar a achar-me uma vadia...
Estava desapontado. Estava com inveja do tipo que não conhecia. Pensava que ela estava blindada a relacionamentos, incapaz de cenas de sexo pontual. Tudo aquilo era surpreendente. Não sabia muito bem o que dizer.
— Não estou a julgar-te, Francisca.
— Não te levaria a mal por isso. Eu própria me sinto mal comigo. — Suspirou. — Não imaginas como me senti no fim. Peguei na roupa, vesti-me apressadamente e saí sem lhe dar tempo de perceber o que me ia na alma.
— Quando se voltarem a ver, conversam sobre isso. — sugeri para apaziguar amargura dela.
Francisca riu sem vontade.
— Isso não vai acontecer, Daniel. Ambos sabíamos ao que íamos. Foi uma... — Barafustou para si na procura do melhor eufemismo. — Foi sexo pelo sexo. Não foi o início de nada.
— Não sejas tão dura contigo. Aconteceu e pronto. Não foi nada de grave. Com certeza que usaram todas as precauções. — Adicionei um tom humorado à minha voz. — Não vais ter surpresas daqui a nove meses.
— Não, não! — exclamou com veemência. — Deus me livre. Não, nisso pelo menos houve bom senso... e preservativos.
— Então esquece isso.
— Sinto-me tão envergonhada. — confessou. — Aliás, agora sinto-me envergonhada contigo. Por te ter contado...
— Não há razão para que te sintas assim.
Francisca perdeu alguma mágoa na voz, a qual deu lugar a um tom afectuoso.
— Sê sincero comigo, Daniel. Diz-me o que pensas de mim, depois disto.
— Penso que preferia que tivesses vindo sair comigo, como é habitual nestas noites.
— Podes não acreditar, mas eu também preferia.
— Deixa lá, saímos para a semana, se quiseres.
Não houve uma resposta pronta, uma confirmação imediata, uma vontade que retomássemos esses encontros.
— Daniel... Não sei se consigo. Não sei se tenho cara para te encarar, depois de te ter contado isto. — Silêncio. Respiração suspirada. — Precisava de falar com alguém e só me lembrei de ti. Mas, agora que penso nisso, acho que foi um tiro no pé.
— Não tens que te sentir envergonhada.
— É fácil falar.
Pressenti que a poderia estar a perder. E não queria. Gostava dela, era uma amiga em construção, não queria ver tudo a desmoronar-se.
— Se te contar algo que me envergonha, ficamos em igualdade?
— Como assim?
— Se te contar algo que me faça sentir envergonhado perante ti, achas que consegues ultrapassar isso?
Francisca pareceu ponderar a questão.
— Talvez...
Respirei fundo e partilhei com ela a revelação que me inundava de vergonha:
— Sou virgem.
— E então? Eu sou Capricórnio. — respondeu prontamente. Depois... Depois a realidade despertou-a. — A sério?
— Sim.
— Não acredito. Tu e a Tânia...
— Tínhamos dezassete anos, Francisca.
— E então?
— Não aconteceu.
O silêncio voltou, alguns segundos que pareceram minutos.
— Estou envergonhado, Francisca. — retomei. — Espero que tenha valido a pena. Encontramo-nos na próxima Sexta?
Ela permaneceu calada. Aguardei até que a voz dela surgisse na linha.
— Queres ir à praia no Domingo?

O Verão surgira em força naquele Domingo, o Sol brilhava com intensidade e a temperatura era alta. Ao início da tarde, aguardava ansioso com o olhar cravado na rua, espreitando pela janela da sala. Explicara a Francisca a minha morada, mas receava que ela não a encontrasse, daí que permanecesse com o telemóvel na mão para o caso de ela telefonar a pedir mais indicações. Não foi preciso, pouco depois da hora marcada, o carro dela apareceu lá em baixo, parando perto do candeeiro.
Envergando uma camisola de alças e uns calções compridos, peguei no guarda-sol e na toalha, despedindo-me de Tio, que me ignorou. Achinelando escada abaixo, coloquei os óculos escuros no rosto e saí do prédio.
Francisca estava fora do carro, olhando para os prédios. Trazia um vestido florido de alças em tons laranja quase até aos pés enfiados num par de havaianas. O cabelo escuro solto caia-lhe sobre os ombros e o rosto encobria-se parcialmente pelos óculos escuros de lentes grandes.
Ao vê-la, percebi que a observava como a um pássaro ferido, já não era a Francisca imaculada, a rapariga atinada, a estudante perfeita, a profissional exigente e formal. Tornara-se normal, afinal também tinha os seus defeitos, as suas fraquezas. Recebeu-me com um sorriso largo que, com a minha aproximação, se intimidou. Ter-se-á sentido subitamente atingida pelo sentimento de vergonha pela confissão? Sorri-lhe com naturalidade, parando defronte dela. Francisca subiu os óculos para a cabeça e revelou-me um olhar diferente, quase poderia ver afecto nele.
— Olá! — cumprimentei, parando em frente a ela.
— Olá, Daniel!
Percebi que a vergonha também me atingia. Seria aquele olhar algo do género "ainda é virgem que querido"? Evitei tirar os meus óculos para não me denunciar. Coloquei o guarda-sol no banco traseiro e entrámos no carro, rumo ao nosso destino.
O percurso fora feito entre silêncio e comentários insignificantes. Procurávamos a normalidade, retornar ao tempo anterior às confissões.
A praia era a mesma onde tantas vezes passeara com os meus tios. O mesmo local onde me encontrava de olhar no horizonte cinzento, após o falecimento do meu tio. Porém, naquela tarde, o areal estava repleto de banhistas. Caminhámos pela areia até encontrar um local para assentar as toalhas. Segurei o cabo do guarda-sol e comecei a enterrá-lo de forma consistente. Enquanto o fazia, Francisca olhava o mar calmo com as mãos nos ombros, fazendo as alças resvalar para que o vestido caísse. Ao abrir o guarda-sol, não pude evitar observá-la em biquíni.
Nunca a vira com tão pouca roupa. O biquíni eram duas peças singelas, um top de dois triângulos sobre os seios, presos por fios que se cruzavam atrás do pescoço e das costas, e uma tanga que lhe cobria as nádegas. Nem me apercebi que parara a analisá-la. A natureza não fora generosa com o seu peito pouco volumoso, as ancas eram largas, ancas de parideira como diria a minha tia, barriga lisa, rabo curvilíneo, pernas bem definidas, costas direitas, braços longos... Fui surpreendido pelo seu olhar, percebendo que a observava. Para disfarçar, despi a camisola de alças, revelando-me mais barrigudo que aquilo que gostaria.
Francisca puxou a toalha para a sombra do guarda-sol e sentou-se, convidando-me a estender a minha toalha ao lado dela.
— Como te sentes? — questionei, repescando o nosso assunto.
— Melhor. — respondeu com os olhos no mar. — Tranquila. Estava a precisar de um momento destes, de descontracção. — Olhou para mim. — Não sintas vergonha.
— Vergonha?
— Sim, pelo que me contaste. — explicou, sorrindo. — Até acho querido que ainda sejas virgem.
Apeteceu-me perguntar-lhe se não queria fazer com que eu deixasse de ser. Coragem para isso era coisa que eu não tinha. Acabei por contestar:
— Não é motivo de orgulho.
— Mas também não te deves sentir envergonhado com isso.
Não me manifestei.
Uma criança passou a correr, brincando com outra na areia. Uma mãe levantou-se para as chamar. Dois homens jogavam à bola. Pessoas iam à água, pessoas vinham da água.
— Não te quero magoar. — disse ela, quebrando a pausa que se prolongara no nosso diálogo. Olhei-a confuso. — Gosto de ti, gosto da tua companhia, gosto de sair contigo... — Desviou o olhar para o lado oposto. — Não pretendo que isto seja mais que uma amizade. Por isso, sinto que devo esclarecer isto contigo.
— Porquê? O que te leva a crer que tenho outras ideias?
Talvez a forma lânguida como eu a observara a despir-se?
— Nada. Só não quero mal-entendidos. — justificou. — Neste momento, nem quero pensar sequer em envolver-me com quem quer que seja. — Voltou a encarar-me. — Mas, gosto dos momentos contigo e não quero que qualquer frustração que surgisse por não corresponder a alguma intenção tua pudesse pôr esta amizade em perigo. Por isso sinto-me na obrigação de falar nisto.
— Não te preocupes, não tinha qualquer intenção para além da amizade. — Mentiroso. — Também gosto da tua companhia e de sair contigo.
— Ainda bem que esclarecemos isto.
— Sim... — concordei, decepcionado. — Vou dar um mergulho. Queres vir?
Francisca preferiu permanecer na toalha. Eu fui até ao mar mergulhar, dar umas braçadas e refrescar-me. No regresso, encontrei-a estendida na toalha de barriga para cima e olhos cerrados. Era complicado vê-la e não sentir desejo. Sentei-me na minha toalha.
— A água está boa? — perguntou sem se mexer ou abrir os olhos.
— Sim. Custa a entrar, mas depois está uma maravilha.
A brisa ligeira junto à costa atenuava a elevada temperatura. Deitei-me com o corpo molhado, partilhando a sombra do chapéu. Permaneci em silêncio, percebendo que ela aproveitara para repousar, desfrutar daquela tarde para aliviar todo o stress da semana de trabalho, todos os problemas. Minutos mais tarde, voltou-se, ficando de costas para o céu. Tão tranquila, quase parecia ter adormecido. Fiquei a observá-la. Gostava de a poder abraçar, dar-lhe um beijo no cabelo e apertá-la com ternura, demonstrar-lhe que nutria por ela um carinho especial.
Aquela tarde foi o maior período que estivemos juntos. Antes, os nossos encontros resumiam-se ao Galeto quando eu saía do trabalho. Porém, deve ter sido também aquele em que menos conversámos, exceptuando a ida ao cinema.
Abandonámos a praia ainda com o Sol forte. Francisca queria evitar o trânsito intenso do final do dia no regresso a Lisboa. Conduziu animada e dançando ao som do rádio até parar no mesmo local onde me fora buscar.
A tarde passara depressa, demasiado depressa. Custava-me deixá-la, queria estar mais tempo com ela.
— Queres subir? Posso oferecer-te uma água? — convidei.
— Estou cheia de areia. — recusou.
— Se quiseres, podes tomar um banho em minha casa. — sugeri, certo de que ela repetiria a recusa. — Regressas mais fresca.
Francisca ponderou.
— Sou bem capaz de aceitar a tua sugestão.
— Tens ali um lugar para estacionar. — apontei.
Quando entrámos em minha casa, Tio surgiu com o mesmo ar curioso de sempre, sabendo que só poderia ser eu. No entanto, ao ver Francisca, parou e sentou-se no chão, observando intrigada.
— Esta é a Tio, a minha gata.
— Olá, Tio!
A resposta de Tio foi levantar-se e desaparecer no meu quarto.
— Acho que não gosta muito de mim.
— Não é isso. Ela é tímida como o dono. — justifiquei.
Francisca sorriu sem se pronunciar.
A minha casa estava sempre arrumada e organizada. Mesmo assim, não planeara aquela visita e receava que houvesse alguma coisa que me pudesse depreciar aos olhos dela. Encaminhei-a pelo corredor até à casa de banho, acendi a luz e disse:
— Tens ali toalhas lavadas. Fica à vontade.
Ela agradeceu com um sorriso.
— A porta tem chave. — informei. — Podes trancá-la para te sentires mais à vontade.
— Não me parece que viesses espreitar-me durante o banho. — afirmou, entrando na divisão. Segurou a porta e lançou-me um olhar provocador. — Além disso, se quiseres ver algo que ainda não tenhas visto, basta dizeres. — E fechou a porta.
Fiquei estarrecido com o que ouvira. Recompus-me, consciente que não fora mais que uma brincadeira. Segui para a sala, ouvindo o som do chuveiro e o esquentador a funcionar.
Algum tempo mais tarde, Francisca surgiu na sala, visivelmente agradada por ter tido a oportunidade de tomar um banho. Trazia o cabelo num desalinho, molhado e despenteado. A mão segurava as duas peças do biquíni. Senti a excitação de constatar que ela estava nua por baixo do vestido.
— Tenho secador, se quiseres... — ofereci, disfarçando.
— Deixa estar. — recusou com um sorriso terno. — Estou bem assim.
Atravessou a sala até mim e parou na minha frente. Fiz um esforço sobre-humano para não olhar para o tecido onde o contorno dos mamilos despontavam. Sem que o esperasse, deu-me um beijo na face.
— Obrigado, Daniel! Gostei muito de ter passado a tarde contigo.
Antes que a distância fosse demasiada, espetei-lhe um beijo no rosto, quase chocando com a sua face.
— Também gostei muito, Francisca.
Ela abriu mais o sorriso, observando-me com carinho. Hesitou na despedida, como se não quisesse ir embora.
— Tu és um amigo especial. — confessou num tom sério. A seguir, soltou uma risada. — Especial, Daniel. Não é colorido, ok?
— Sim, eu percebi.
Percebi com desapontamento. Colorido era o gajo que a levara para a cama duas noites antes. Eu também queria ser um amigo colorido, mas teria de me contentar com o especial, fosse lá o que isso quisesse dizer. Acompanhei-a até à porta de casa sem vontade que partisse. Combinámos ir falando e agendámos o encontro habitual das Sextas, antes de ela se afastar escada abaixo.
Combinámos ir falando, mas isso não aconteceu. Nem telefonemas, nem mensagens. Nessa semana, as noites no trabalho foram todas a conversar com a minha amiga Jewel. Partilhou comigo que terminara o 12º ano com uma média acima de dezanove valores e que a entrada na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra era cada vez mais uma realidade. Fiquei muito feliz por saber que ela prosseguia com sucesso a sua caminhada rumo aos objectivos que traçara para a sua vida. Peter também aparecera pela loja, numa das vezes só para conversar comigo sobre fotografia. Ouvi-lo era um verdadeiro curso de máquinas fotográficas.
Francisca não dera notícias ao longo da semana, mas na noite de Sexta, meia hora antes de eu sair, apareceu no meu local de trabalho no seu típico traje formal. Sorriu assim que os nossos olhares se cruzaram. Parou no lado oposto ao meu e debruçou-se sobre o balcão para que trocássemos dois beijos, algo que se tornou comum após a despedida em minha casa. Esperou que eu terminasse todas as minhas tarefas e saímos juntos da loja.
A rotina daqueles encontros aconteceu sem interrupções, ela não voltara a cancelar nenhuma noite de Sexta. A hora a que chegava dependia se vinha somente esperar-me ou para trabalhar num dos computadores.
A meio de Agosto, durante mais uma bebida no bar, Francisca deu mais um passo para a consolidação da nossa amizade:
— Queres ir almoçar a minha casa, amanhã?
O convite apanhara-me de surpresa. Francisca continuava muito reservada em relação à sua vida privada. Tirando aquelas noites, raramente falávamos, uma mensagem ou outra e nenhum telefonema. Entrar no seu porto de abrigo seria uma novidade.
— Sim, claro. Gostava muito.
Como uma verdadeira manhã de Agosto, a daquele Sábado estava quente e solarenga. Desembarquei do cacilheiro ansioso, queria aproveitar aquele dia ao máximo, desejando que ela não tivesse nada mais agendado para depois do almoço, como acontecera na ida ao cinema. Caminhei lentamente pelo Cais do Sodré até às paragens de autocarros, não querendo transpirar a camisa fresca que vestira para a ocasião. Entrei no autocarro com o número 44 e a designação de destino "Moscavide". Era dali que ele partia, por isso, aguardava a hora de sair. Retirei das calças de ganga o cartão da Carris, com a minha foto e o passe daquele mês, e mostrei-o ao motorista que mal olhou para mim.
A viagem foi cansativa, o veículo era antigo e não tinha ar condicionado. Fiz quase todo o percurso da linha 44, saindo duas paragens antes da última, onde ele daria a volta para regressar ao cais. Felizmente, não recolheu muitos passageiros, caso contrário teria sido uma sauna.
Com a morada e as indicações que me dera, circulei pelos passeios de Moscavide, encontrando com alguma facilidade o prédio onde morava. Toquei à campainha do seu apartamento e aguardei que a porta do prédio se abrisse. Subi as escadas. Com a ansiedade, nem me lembrei de, como um bom convidado, ter trazido algo para oferecer à anfitriã.
Francisca recebeu-me no patamar da escada, defronte da porta do seu apartamento. A sua imagem irradiava uma sensualidade caseira, envergando leggings pretas e uma camisola de alças de tecido elástico cor-de-rosa, ambas parcialmente cobertas por um avental azul com desenhos de utensílios de cozinha. O longo cabelo escuro fora preso num rabo-de-cavalo e o rosto tinha uma maquilhagem singela, quase para nem se notar. O seu sorriso caloroso ofereceu-me dois beijos nas faces barbeadas, seguindo-se o convite para entrar.
O apartamento era parecido com o meu, uma sala, menos um quarto, uma cozinha e uma casa de banho. Conduziu-me para a sala, ofereceu-me uma bebida fresca e voltou para a cozinha, recusando a minha ajuda para qualquer auxílio.
Sentei-me no sofá, observando a sala, um espaço com boa exposição solar, atenuada pelas persianas ligeiramente corridas para cortar parte da intensidade do Sol. A mesa estava já pronta para receber duas pessoas, a televisão desligada e o sistema de áudio a debitar um CD de Christina Aguilera.
Francisca apareceu com um tabuleiro de lasanha que depositou sobre a mesa. Tirou o avental e abriu uma garrafa de vinho tinto, questionando se eu queria outra coisa para beber. Não, o vinho estava bem.
O almoço estava saboroso, tanto quanto se pode esperar de comida confeccionada antecipadamente que se compra para aquecer no forno. A conversa foi rica em trivialidades, regada com o tinto do Douro. No fim, ajudei-a a levar tudo para a cozinha.
Chegara o momento temido, o fim do almoço e o receio que se seguisse uma despida. Para meu descanso, logo que colocou a louça na máquina de lavar, perguntou-me se queria ir dar um passeio ou ficarmos por ali a ver um filme. Estava muito calor na rua e seria bem mais agradável a segunda hipótese.
Novamente no sofá, vi Francisca colocar um DVD no leitor abaixo da televisão e vir sentar-se a meu lado sem complexos em ficar encostada a mim. A escolha do filme fora responsabilidade dela, A Cidade dos Anjos com a Meg Ryan e o Nicolas Cage. Confesso que nunca fui fã da actriz e do actor preferia títulos como Rochedo ou Con Air ou até mesmo A Outra Face. Aquele, enfim... Valia pela companhia. Acho que para estar ali com ela até via um filme de Manoel de Oliveira.
Vimos o filme em silêncio, encostados um no outro, indiferentes ao calor. No final, os créditos puseram fim ao martírio daquele drama. Olhei para Francisca e vi uma lágrima a escorrer pelo rosto.
— Estás bem? — perguntei, surpreso.
Francisca sorriu e limpou a face com os dedos.
— Este filme emociona-me sempre. Mas gosto muito de o ver. — Não me pronunciei. — Desculpa, se calhar não gostaste...
— Foi bom. — menti. — Mas o melhor de tudo foi estar aqui contigo.
Ela sorriu e lançou-me um olhar carinhoso.
— A Tânia era a rapariga mais esperta da nossa turma! — afirmou do nada, deixando-me confuso.
— Tu e a Maria Inês eram as que tiravam sempre as melhores notas. — recordei, contrapondo a sua afirmação.
— Não me refiro a notas. Refiro-me a saber ver para além daquilo que observamos. — Fiquei sem saber o que dizer. Onde queria ela chegar? Endireitou-se no sofá, encarando-me. — Nós víamos um miúdo tímido, introvertido, desinteressante. Ela viu quem tu eras e conquistou-te. — Continuei mudo, sorrindo nervoso. Tocou-me o peito. — Tens um coração enorme, percebo porque te chamas anjodelta. — Olhou-me nos olhos com uma profundidade inédita e deveria estar a sentir o meu batimento cardíaco a aumentar. — Se fosses um anjo e te apaixonasses, seria capaz de abdicar da imortalidade por amor, tal como o anjo do filme?
— Talvez... — foi a única coisa que consegui murmurar.
O rosto de Francisca avançou para o meu, vi-a fechar os olhos e beijar-me os lábios com ternura. Retribuí-lhe o beijo, sentindo o seu hálito doce, quando as nossas línguas dançaram no sabor da paixão. Apesar de tudo, o resto do meu corpo petrificara.
O beijo foi suspenso por ela, voltando a olhar-me nos olhos e sorrindo. Levantou-se do sofá e estendeu-me a mão.
— Vem.
Segurei a mão dela e deixei que me conduzisse pelo apartamento. Levou-me para o quarto, uma divisão envolta na penumbra das persianas corridas, uma cama de solteira com uma cabeceira comprida e uma cómoda eram as únicas peças de mobiliário para além do roupeiro encastrado na parede. Largou a minha mão e fechou porta. A seguir, caminhou pelo quarto e parou junto da cama. Levou as mãos à cintura e puxou as leggings para baixo, sentando-se no colchão. Eu observava, estático, nervoso, incrédulo que aquilo pudesse estar a acontecer.
Francisca sorriu-me divertida e exclamou num tom sensual:
— Despe-te!
Como um soldado que executa uma ordem, comecei a desapertar os botões da camisa, a qual despi sem dar por isso. Levei os dedos aos botões das calças, visualizando Francisca a segurar a bainha da camisola rosa e puxá-la para cima, despindo-a pela cabeça e revelando-me os seus seios singelos.
Somente usando pequenas cuecas, Francisca pôs-se de novo em pé e de frente para mim, quase como se me oferecesse um momento para a analisar. Depois, avançou e ajudou-me a tirar as calças, deixando-me também com as últimas cuecas que eu escolheria para um encontro íntimo.
— Estás nervoso? — sussurrou-me ao ouvido.
— Eu nunca... — gaguejei.
— Eu sei. — lembrou, tocando-me onde jamais mulher alguma me havia tocado. — Não estejas. — Despiu-me com cuidado, baixando-se e retirando a última peça. Voltou a subir, passando as duas mãos entre as minhas pernas. O seu toque era suave. — Respira fundo.
Convidou-me a deitar na cama. Eu acatei, estendendo-me ao comprido, envergonhado ao tomar consciência da dimensão da minha excitação indefesa ao olhar dela. Francisca despiu as suas cuecas com o olhar cravado no meu. Fê-lo com enorme sensualidade. Sempre com um sorriso terno no rosto, subiu para o colchão e sentou-se sobre as minhas pernas com cada uma das suas a ladear o meu corpo.
O meu coração batia como se fosse explodir do peito. Receava que a festa terminasse antes de começar, tal era a excitação que percorria todo meu ser. Francisca acariciou-me a barriga e as suas mãos subiram pelo meu peito. Depois, debruçou-se para a lateral da cabeceira e retirou algo de uma gaveta. Vi uma embalagem quadrada prateada entre os seus dedos.
— Estás bem? — perguntou, rasgando a prata.
Proferi um som gutural de confirmação.
As suas mãos voltaram a tocar-me, sempre com muita ternura. Procurou deixar-me relaxado, atenuar o nervosismo que ela sabia que eu estava a sentir. Colocou a borrachinha como se fosse papel de arroz e desenrolou-a devagar. Meu Deus, chegara o momento.
Francisca levantou-se, apoiando-se nos joelhos. Soltou o cabelo.
— Dá-me as tuas mãos. — pediu.
Estendi-lhe ambas. Ela segurou-as e colocou-as sobre os seus seios, que apesar de pequenos, encaixavam bem nas minhas palmas.
Ela abriu mais o sorriso, as suas mãos desceram para as ancas, acariciou-me ligeiramente e colocou-me em posição. Por fim, desceu vagarosamente, ao seu ritmo, conduzindo-me para dentro de si.

O Sol ainda brilhava no seu sentido descendente. Francisca conduzia atenta à estrada.
Acontecera tudo muito rápido. Demasiado rápido. Tenho a certeza que não fora nada gratificante para ela. Porém, numa primeira vez ninguém é mestre. Mesmo assim, fiquei com a sensação que a decepcionara. Afastara-se em silêncio e apesar de eu ser inexperiente, tinha noção de que não lhe dera tempo sequer para aquecer. Voltou a vestir as cuecas e disse:
— Tens toalhas na casa de banho.
Levantei-me da cama, mudo. Qual cordeirinho, saí do quarto e fui lavar-me. Ao regressar, Francisca vestira um roube e ofereceu-me novo sorriso, menos intenso e menos carinhoso que os anteriores.
— Vou jantar a casa dos meus pais. — informou. — Posso deixar-te em casa.
Concordei, vendo-a sair do quarto e ir tomar banho.
Enquanto me vestia, tentava adivinhar o que lhe ia na mente. Estaria arrependida? Achara que fizera porcaria como acontecera naquela noite em que me telefonara de madrugada? Seria eu também um caso pontual? Teria a nossa relação terminado? As dúvidas metralharam-me a mente sem descanso.
Sendo assim, circulando pelo Eixo Norte-Sul em direcção à Ponte 25 de Abril, o silêncio instalara-se entre nós, não tendo havido quase diálogo desde que o fizéramos.
— Adorei fazer amor contigo! — confessei. Ela olhou para mim e riu. Senti que o dissera de forma ridícula. Que deveria ter dito? Adorei foder contigo? Não o via dessa forma. — Gostava de repetir.
Francisca desviou o olhar da estrada para mim. Sorriu com a mesma ternura de antes e disse:
— Estou a contar com isso.
O beijo que trocámos quando me deixou à porta do meu prédio não me deixou dúvidas, o sexo não fora pontual, era para continuar.
A alteração do nosso relacionamento trouxe uma nova rotina aos nossos encontros. Quando eu saía do trabalho às Sextas, Francisca ia buscar-me. Já não íamos ao Galeto, seguíamos para casa dela e dormíamos juntos. No Sábado, almoçávamos em casa dela, íamos passear à tarde e atravessávamos o Tejo para jantar em minha casa, permanecendo ela nessa noite comigo, regressando a Lisboa no Domingo. Ambos tínhamos camas de solteiro, mas nunca foram pequenas quando as partilhámos. Fizemos amor em todas essas noites. Francisca era um ano mais nova que eu, mas não tenho problemas em admitir que fora a minha professora no mundo da paixão e do prazer.

O trabalho continuou igual, a mesma monotonia tranquila que eu não trocava por nenhum outro emprego. A minha colega que partilhava comigo a primeira metade do meu turno demitira-se para abraçar um novo projecto. Lamentei isso, pois fazíamos uma boa equipa. Foi substituída por um rapaz contratado a uma empresa de trabalho temporário.
Desde que iniciara a minha relação com Francisca, afastei-me das buscas por conversas virtuais, mantendo apenas a troca de emails com quem já o fazia anteriormente. A única pessoa com quem conversava, numa sala virtual privada, era com Jewel, sem dúvida a minha melhor amiga. Jewel ficara muito feliz com a novidade, percebera a felicidade nas minhas palavras e isso, para ela, era suficiente para partilhar a satisfação. Ela também atravessava um bom momento na sua vida, pois conseguira entrar no Ensino Superior, na sua primeira opção, a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
A minha amizade com Peter também se fortaleceu. Por motivos profissionais, esteve muito tempo afastado de Lisboa, mas mantínhamos contacto por email. Mandava-me muita informação sobre fotografia, dicas, novas máquinas... Repetia diversas vezes que eu deveria investir em mim, tirar um curso de fotografia, uma vez que gostava tanto.
Francisca estava ausente da minha vida de Segunda a Quinta, excepto se houvesse feriados a meio da semana. Eu trabalhava nos feriados (sempre ganhava mais algum), mas ela não, por isso ia dormir a casa dela nas vésperas. Talvez por estarmos afastados, os nossos reencontros eram tão intensos. Ensinou-me como gostava de ser tocada, os seus pontos mais sensíveis, as posições que lhe davam mais prazer... Bolas, ensinou-me coisas sobre o meu corpo que eu próprio desconhecia...
Esta deliciosa rotina manteve-se até ao Natal.
A Consoada desse ano foi passada em casa dos pais de Francisca. Foi também o momento em que os conheci. Viviam em Almada, não muito longe donde outrora vivera Tânia. Não sei porquê, idealizara a família de Francisca como sendo de um estrato social elevado. Desde a escola que o ar arrogante dela me fazia ter essa desconfiança. Não poderia estar mais errado.
O pai de Francisca era um senhor quase com sessenta anos, bonacheirão, uma figura parecida com o Fernando Mendes, o actor do teatro de revista que aparecia nos programas de televisão com o Nicolau Breyner e mais tarde daria cara a um concurso de enorme audiência da RTP. A mãe era mais alta e mais velha que o pai, também de porte forte e muito hospitaleira, uma imagem parecida com a personagem que a Ana Bola fazia com o Vítor de Sousa no Parabéns do Herman José. Ambos me receberam com enorme simpatia.
O jantar foi delicioso. O casal não escondeu a curiosidade que tinha acerca de mim e quiseram que lhes contasse sobre a minha família, a minha vida. Apesar de ser uma ferida em cicatrização, senti-me confortável em falar sobre os meus tios, como me tinham criado, os bons momentos, como perdera um e como pouco mais de um ano antes perdera o outro. O casal ouvia-me fascinado e algo comovido com a minha história. A mãe de Francisca criticou a filha por nunca me ter levado lá a casa quando éramos colegas. Eu desculpei, justificando que éramos pessoas diferentes, muito diferentes daquelas que se apaixonaram.
Após a abertura dos presentes, brindámos com espumante e preparámo-nos para sair. Naquelas noites, Francisca costumava ficar em casa dos pais. Porém, a família ainda não se sentia preparada para ter o namorado da filha a dormir lá em casa. E Francisca avisara atempadamente a mãe que iria passar a noite em minha casa, voltando na manhã seguinte para almoçarmos juntos no dia de Natal.
Francisca estava a explodir de felicidade. Fizemos o curto percurso de carro até ao meu prédio com ela animada e partilhando comigo a noção de que os pais haviam gostado muito de mim. Entrámos em casa aos beijos, perante o olhar quase indignado de Tio. Só tive tempo de fazer duas festas no pelo da gata, sendo puxado por Francisca para o quarto. Despiu-me com sofreguidão, despiu-se cheia de tesão. Atirou-me para cima da cama... Fizemos amor várias vezes, nessa madrugada. Ela estava insaciável, louca de paixão.
No último orgasmo desse noite, ela estava deitada de barriga para baixo sobre a cama, sustendo o meu peso sobre si, mantendo-me dentro dela. Era uma das suas posições preferidas. Extasiados com os nossos suores misturados, Francisca murmurou:
— Quero que venhas viver comigo.
— O quê? — questionei surpreso.
Francisca rodou por baixo do meu corpo, voltando-se para mim e olhando-me nos olhos.
— Quero partilhar a minha vida contigo.
— Isso é um pedido de casamento? — interroguei divertido.
— Não. Não precisamos de papéis. — negou num tom sério. — Mas, se quiseres, podemos casar.
— Não faço questão.
— Vem viver comigo. Sempre ficas mais perto do trabalho. — Sorriu e lançou-me um semblante provocador. — E podemos fazer amor todas as noites.
A ideia agradava-me. Agradava-me mesmo muito. Porém, assumi alguma seriedade no assunto e lembrei:
— Tenho a Tio. Não a vou deixar aqui. Ela também vai.
Sabia que era um assunto delicado. Francisca nunca tivera muita afinidade com a gata, nem Tio parecia ter grande apreço por ela.
— Tudo bem. Traz a gata contigo.


fim do conto II

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