Capítulo XXIX
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Adriana não dormira quase nada nessa noite. Não conseguia deixar de pensar no que José tentara fazer na noite anterior e lamentava o tipo de homem que a sua eterna amada iria desposar. Zahra saberia que o noivo era tão velhaco?
A seu lado, Leonardo dormia tranquilamente. Ela observava-o com ternura, ao mesmo tempo que o ambiente escuro do quarto ia clareando com o nascer do Sol.
O dia já era um tormento para Adriana pelo significado que tinha. Afinal, era o dia em que o amor da sua vida iria casar com outra pessoa. Só que a revelação daquele lado negro do noivo deixou-a apreensiva com o futuro de Zahra. E mesmo depois da forma como ela a desprezara, Adriana sentia-se na obrigação de fazer algo.
Sem saber muito bem o que fazer, levantou-se da cama e passeou o corpo nu pelo quarto. Andou de um lado para o outro, pensativa, até se decidir a ir para a sala. Sentou-se no sofá.
Zahra tinha de saber o que acontecera. E Adriana devia a si própria uma última batalha na guerra pelo amor da violinista. Talvez aquele acontecimento tivesse sido um sinal para o que deveria fazer.
Impulsiva, regressou ao quarto e debruçou-se sobre Leonardo.
— Leo! — chamou, abanando-o na cama. — Leo! Acorda, Leo!
Meio estremunhado, ele abriu um olho. Sorriu ao vê-la e recordou com agrado que dormira com ela nessa noite.
Adriana colocou-se de pé ao lado da cama, oferecendo-lhe a perspectiva do seu corpo esbelto e curvilíneo. Que bela forma de acordar, pensou ele.
— Que se passa?
— Preciso que me ajudes. Preciso que me leves ao casamento da Zahra.
— O quê? — questionou ele, arregalando os olhos. — Foste convidada?
— Não. Mas, não posso deixá-la casar com um crápula daqueles.
— Não te metas nisso, Adriana. — aconselhou Leonardo, sentando-se na cama. — Ela já te desprezou várias vezes, não lhe dês o gosto de o fazer à frente de várias pessoas no dia do casamento.
— Não me importa, Leo. Tenho de lhe dizer. E…
— Sim?
— Ó Leo, sei que me vais dar na cabeça, mas… Não posso deixá la casar sem tentar mais uma vez.
— Eu estou a ouvir bem? — interrogou Leonardo com o espanto no rosto. — Já pensaste bem no que pretendes fazer? Queres entrar na igreja e impedir o casamento para contares a todos que tu e ela tiveram uma relação? — Adriana assentiu. — Ela vai odiar-te para o resto da vida!
— Se for esse o resultado. — Adriana passou a mão pelo longo cabelo negro. — Não sei como o vou fazer, mas tenho de ir lá. Por favor, Leo, preciso que me ajudes.
— Que posso eu fazer?
— Preciso que me leves ao casamento.
— Onde é?
— Vão casar no Mosteiro de Alcobaça. — informou ela, obtendo dele uma reacção de estupfacção. — Os Norton Vila não podiam fazer o evento por menos.
Leonardo levantou-se da cama, tão nu quanto ela.
— Se fores bem-sucedida, esta foi a nossa última noite.
Adriana percebeu a tristeza na sua voz.
— Não penses nisso agora. Posso contar contigo?
— Vou tomar um banho.
— Leo…
— Eu levo-te, descansa.
Adriana sorriu e abraçou-o com toda a força.
— Obrigado, Leo!
Leonardo livrou-se das marcas de sono com um duche morno. Deixou a água escorrer-lhe pelo corpo, pensando em Adriana e nos sentimentos que nutria por ela. A bailarina era e seria sempre mais que uma amiga, mais que uma amante ocasional, ela era a mulher com quem gostaria de partilhar a sua vida. Se conseguisse ter sucesso, Adriana voltaria a desaparecer da sua realidade e ele teria de sobreviver a isso sem Matilde que acabou por ser a atenuante do seu sofrimento pelo afastamento da bailarina.
No entanto, ele não acreditava que Adriana conseguisse. Só iria estragar a cerimónia, arruinar o casamento e ser odiada pela mulher que tanto amava. Porém, não valia a pena tentar contrariá-la.
Enquanto ele tomava banho, ela preparou um pequeno-almoço para quando ele terminasse. Estava ansiosa e a esperança de poder reconquistar Zahra dera-lhe um ânimo novo para aquele dia.
Leonardo saiu do banho e foi para o quarto vestir-se, enquanto Adriana ocupou o seu lugar no chuveiro.
Meia hora mais tarde, o casal saiu do apartamento da bailarina.
Leonardo trazia a roupa do dia anterior, pois não trouxera nenhuma para mudar, uma vez que planeara ficar por casa dela até regressar à sua.
Adriana acompanhava-o deslumbrante, desfilando as calças de ganga azul justas com a camisola grená de malha fina. E como a missão iria ser complicada, calçara as botas de cano alto para ser ainda mais imponente. O cabelo preso na nuca em rabo-de-cavalo atribuía-lhe um ar de cavaleira.
A manhã estava amena e o Sol nunca batia muito nas fachadas dos prédios àquela hora. Seguiram de mão dada até ao carro. Ele sentiu-a nervosa.
— Estamos sempre a tempo de não ir.
— Nem penses, Leo. Se não o fizer, viverei sempre a pensar como teria sido.
Leonardo entrou para o lugar do condutor. Adriana sentou-se a seu lado. Ele ligou a ignição e recuou com o automóvel, retirando-o do lugar de estacionamento.
O início da viagem foi calmo, circulado pelas ruas de Lisboa com a paciência de parar em semáforos que não davam passagem a ninguém. Era cedo e fim-de-semana, pelo que não seria de esperar ver mais que meia dúzia de carros em cada rua por onde passavam.
Adriana manteve-se silenciosa, introspectiva, ponderando as palavras e as atitudes que iria tomar. Leonardo percebeu isso e não a perturbou, não tentou fazer conversa e limitou-se a conduzir e ouvir rádio.
O percurso fê-los sair de Lisboa pela A8.
Leonardo ia concentrado na estrada, mas a sua mente ia levantando perguntas atrás de perguntas. Pensava se não estava a levar ao exagero aquela postura de só pensar na felicidade da amiga e deixar os seus interesses de lado. Ele gostava muito dela e não queria perdê-la, mas estava a ajudá-la a afastar-se de si. Sabia o quanto estava apaixonado, mas em vez de lhe dizer, ia vivendo os dias com aquilo que Adriana lhe ia dando enquanto não encontrava o amor para a vida. Teve vontade de parar o carro e dizer-lhe tudo o que sentia por ela. Não passou da intensão.
A seu lado, Adriana nem via a estrada a avançar na sua frente. Aquela iria ser a sua última oportunidade e tentou imaginar como aconteceria. Esperaria a entrada de Zahra na igreja para também ela entrar. Com a atenção de todos na noiva, ninguém iria reparar nela atrás da última fila. Ouviria toda a lengalenga do padre e os votos retribuídos dos noivos. Teria toda a paciência para aguardar o momento em que se houvesse alguém que soubesse algo que pudesse impedir aquela união, que falasse de imediato ou se calasse para sempre. Na sua mente, tudo era um filme com a esperança de terminar como as comédias românticas em que tudo acaba bem.
Só que ela não era ingénua ao ponto de ambicionar isso. Sabia que seria constrangedor, embaraçoso e até mesmo doloroso. Alguém iria ficar a perder. Imaginou-se a dizer “eu” e continuar com “eu sei algo e não posso ficar calada”. Sentiria os olhares espantados a perguntarem-se quem ela era, sentiria o olhar de pânico do noivo a adivinhar o que iria dizer e… Os olhos de Zahra eram uma incógnita no seu filme. Queria acreditar que Zahra não conseguiria conter um sorriso e os seus olhos seriam um convite a concretizar o que começara. Porém, depois da forma cruel como Zahra a desprezara, seria de esperar um olhar de “o que fazes aqui?”, “que estás tu a dizer do meu marido?” e terminaria com um “odeio-te”.
Não. Não podia pensar assim. Tinha de ser optimista.
O traçado mais sinuoso da estrada alertou Adriana de que já não estavam na autoestrada e que seguiam pela estrada nacional para Alcobaça. Nenhum deles conhecia a zona, mas seguiram as placas indicativas do monumento. Entraram numa rua empedrada que ladeava uma larga praça frontal à magnânima fachada do Mosteiro de Alcobaça.
Como ainda era cedo, foi fácil encontrar um estacionamento que os deixou virados de frente para o monumento.
Perto da porta, algumas pessoas empenhavam-se para que nada falhasse na cerimónia. Duas delas estavam encarregues de registar o momento para a posteridade em filme e fotografia.
Leonardo e Adriana permaneceram no interior do automóvel.
— Vais mesmo para a frente com isto? — perguntou ele, olhando para ela.
Adriana não tirou os olhos da porta da igreja.
— Vou. Vai ser a minha última tentativa com Zahra. Se ela não desistir do casamento e ficar comigo, nunca mais permitirei que entre na minha vida.
— Dizes isso agora, Adriana. Mas, se ela te bater à porta…
— Não! — afirmou segura, encarando-lhe o olhar. — Juro-te que não o permitirei. Depois disto, acho que ou se ganha ou se perde. Não há como prolongar a indefinição.
— Tu podias poupar-te a isto. Vais expor-te a uma situação complicada. A Zahra nunca se assumiu, nem quando vocês se encontravam. Achas que o fará agora, à frente de todos os convidados.
— Para mim, basta que não case. Isso será sinal suficiente para revelar que quer ficar comigo.
— Achas, Adriana? Acreditas mesmo nisso?
A bailarina baixou o olhar. Queria acreditar nisso.
— Se o facto de o noivo ser um traste não for suficiente, confessarei o meu amor por ela, ali, no meio de toda a gente.
— Ela sabe que tu a amas, Adriana. — recordou, acariciando-lhe o cabelo. — Não é aí que está o problema. O teu maior obstáculo é seres mulher e ela não querer assumir que gosta de uma mulher.
Adriana suspirou.
— Sempre se deixou abater pela opinião dos outros. Sempre foi fraca. Talvez depois de exposta, ganhe coragem em se assumir.
— Espero que estejas certa. — mentiu.
— Obrigado por estares aqui comigo, Leo! — agradeceu com enorme ternura no olhar. — Por vezes, acho que não te mereço.
— Não digas disparates.
— Sempre fizeste tudo por mim. És um amigo maravilhoso.
— Faria tudo por ti, Adriana!
A afirmação saiu tão forte e honesta que Adriana ficou atónita.
— Tudo?
— Tudo.
— Eu não sou merecedora disso. Não deves ser assim comigo, deves ser assim com a pessoa que escolheres para ficar contigo o resto da tua vida.
— E então?
A pergunta foi outra surpresa. Adriana sentiu-se confusa.
— O que quero dizer…
— Eu percebi o que disseste. — confirmou Leonardo. — Eu sei quem gostaria de ter comigo para o resto da vida. Tu és a pessoa que eu quereria a meu lado.
Adriana fugiu ao seu olhar. Não foi capaz de corresponder a toda a pureza de sentimentos que viu neles.
— Leo… Nós somos bons amigos. Talvez estejas a confundir os sentimentos pelo facto de fazermos sexo.
— Não, Adriana. Talvez para muitos homens, aquilo que partilhamos possa ser suficiente. Para mim nunca foi. Tu és uma amante maravilhosa. Mas és um ser humano ainda mais extraordinário, uma mulher íntegra, carismática, frontal, sensível…
— Pára! Por favor, pára!
— Eu sou apaixonado por ti, Adriana!
— Não faças isso. Não te quero magoar.
As palavras de Adriana não surpreenderam Leonardo, mas isso não evitou que a dor da rejeição o atingisse.
Na praça, os convidados foram aumentando e entrando na igreja.
— Leonardo, tu és o homem que eu mais amo no Mundo. — disse ela, segurando-lhe a mão. — Só que é um amor de amigo. — Sorriu meio envergonhada. — Sim, fazemos coisas que os amigos não fazem, mas… Tu sabes que sempre foste a minha perversão, o meu escape daquela pequena parte de mim que gosta do sexo oposto. Aceitar-te como homem, como marido, seria renegar à minha essência. Não tenho a culpa de ter nascido a gostar de mulheres, nem nunca me envergonhei disso, pelo contrário. Adorava poder amar-te como mereces.
Nesse momento, José Norton Vila apareceu à porta da igreja, vindo do interior, para observar a praça e conversar com alguns convidados.
— Eu sei, Adriana. Conheço-te bem.
— És talvez a pessoa que melhor me conhece.
— Esforcei-me para não me deixar vencer pelos sentimentos. — prosseguiu Leonardo. — Mas falhei. E agora, estando a momentos de te ver partir para sempre, tinha que te dizer. Da mesma forma que sentes que esta é tua última oportunidade com a Zahra, eu senti que era minha última contigo. Sei que isso não mudará nada entre nós, mas quero dizer te olhos nos olhos: Adriana, eu amo-te!
A bailarina comoveu-se. Uma lágrima escapou-lhe pelo rosto. Lamentava não poder corresponder a um amor tão bonito e profundo sem se anular.
Leonardo limpou-lhe a lágrima do rosto e sorriu-lhe.
Adriana ia a dizer algo, mas ele impediu-a com a informação de que Zahra estava a chegar. Ambos olharam para a noiva a sair de um carro luxuoso e ser conduzida para a igreja.
— Chegou a hora, Adriana. Boa sorte!
— Leo…
— Vai. Sê feliz!
Adriana abraçou-o com muita força. Não o queria largar, pois sabia que poderia ser a última vez que o teria assim tão perto. Deu-lhe um último beijo na face e saiu do carro, limpando o rosto.
Leonardo ficou a vê-la caminhar vagarosamente até à porta da igreja. Na escadaria, a noiva escalava o último degrau e preparava-se para entrar. Ao longe, ouvia-se o início da marcha nupcial. Adriana estagnou a passada, dando tempo para Zahra entrar. Subiu a escada quando a longa cauda do vestido branco já havia passado a abóboda.
Adriana entrou no momento em que alguém ia a fechar a porta. Sorriu à pessoa e fez um ar de quem se atrasara para a cerimónia.
No carro, ele viu Adriana desaparecer para lá da porta que se fechou logo a seguir.
Leonardo aguardou o desenlace dos acontecimentos. Não sabia muito bem o que esperar, mas permaneceria ali para o que desse e viesse. Todos os cenários lhe passaram pela cabeça, desde a expulsão de Adriana da igreja até uma cena de filme com Adriana e Zahra a fugirem da igreja de mão dada. Temeu que a amiga fosse humilhada e lamentou não se ter oferecido para a acompanhar lá dentro. Imaginou as pessoas a insurgirem-se contra ela, atirarem-lhe o preconceito à cara e, pior que tudo, ser desprezada pela mulher que ela tanto amava.
O tempo passava sem que fosse possível perceber o que iria acontecer. Pensou em sair do carro e ir ver. Porém, não o fez.
Ao fim de mais de uma hora, os sinos tocaram e a porta abriu. Chegara o momento. Que iria acontecer?
Leonardo saiu do seu lugar e encostou-se ao automóvel, ficando a observar os convidados do casamento a sair e a perfilarem-se à porta, formando um corredor de passagem aos recém-casados.
Zahra saiu sorridente de braço dado com José. Não viu Adriana em lado nenhum. Os recém-casados foram fustigados com grãos de arroz. Pelo menos uma certeza se revelara, Adriana não impedira o casamento. Mas, onde estava a bailarina?
De repente, veio à cabeça de Leonardo a ideia trágica de que Adriana surgiria no meio dos convidados com uma pistola na mão e daria um tiro em Zahra dizendo que se não fosse dela não seria de mais ninguém. Era uma cena absurda que não condizia em nada na maneira de ser de Adriana.
Os profissionais de imagem no local começaram a pedir aos convidados que se espalhassem pela escadaria. Deviam estar por ali mais de quatrocentas pessoas. Zahra e José posicionaram-se ao meio.
O fotógrafo desceu a escadaria e afastou-se o suficiente para ter ângulo para uma foto que enquadrasse todos.
Ao longe, Leonardo observava os rostos sorridentes para a câmara, procurando encontrar Adriana.
Terminado o momento da foto conjunta, o casal seguiu para os claustros do mosteiro, sendo seguidos pelos convidados, onde se iria realizar o copo-de-água.
Com o seu olhar atento de operador de imagem, Leonardo observou todas as pessoas na praça sem ver a sua amiga.
O amplo espaço frontal à igreja começou a ficar deserto. Apreensivo, ele afastou-se do carro rumo à escadaria. Caminhava apressado e subiu os degraus a correr. Abrandou à porta do santuário. Encontrou o interior da extensa catedral deserto. O seu olhar foi-se habituando ao ambiente menos luminoso. Interrogava-se do que seria feito de Adriana, quando a viu na segunda fila de bancos compridos a olhar para o altar e a rezar. Preocupado em não fazer barulho, avançou pelo corredor central até ela.
Adriana olhava fixamente para o Cristo Crucificado. O rosto revelava diversos fios de lágrimas. Os seus lábios murmuravam uma oração.
Leonardo sentou-se a seu lado e esperou.
— Não fui capaz. — disse ela, por fim. — Ele acariciou-lhe o ombro para a confortar. — Sei o quanto isto significava para ela. Não podia estragar o momento, não podia roubar-lhe a felicidade só por não fazer parte dela. Sou uma parva.
— Não digas isso.
— Amo-a tanto que não fui capaz. — soluçou, encostando a cabeça em Leonardo. — Só a iria destruir.
— Anda. Vamos para casa.
— Só espero que ele a faça feliz! — desejou, limpando as lágrimas do rosto.
Leonardo e Adriana saíram da igreja e regressaram ao carro. Já nada tinham a fazer por ali, por isso, partiram novamente para Lisboa.
Foi mais uma viagem sem conversa. Ele respeitou o silêncio sofrido dela. E ela deixou as lágrimas correrem livremente.
Leonardo sabia que aquilo era o fim das esperanças de Adriana, mas nem por isso o início das suas em relação à bailarina. Ela fora bem explícita em relação ao que os unia, por isso, alimentar ilusões só o transtornaria.
A rua onde Adriana vivia estava banhada por um Sol luminoso e caloroso, quando eles chegaram. Leonardo parou o carro no meio da rua à porta do prédio, atento à chegada de outro veículo.
— E agora, Adriana?
Ela fungou devido ao choro. Limpou as lágrimas com as palmas das mãos e ajeitou o cabelo.
— Acabou. Eu disse-te que seria a última vez que tentaria. Guardarei sempre os momentos bonitos que partilhei com ela, mas a partir de hoje a Zahra morreu na minha vida.
Ele abraçou-a para a confortar naquela decisão tão dura para o coração da bailarina e deu-lhe um beijo nos cabelos.
— Queres que suba?
Adriana afastou-se.
— Preciso ficar sozinha. Não me leves a mal, mas não quero estar com ninguém.
— Posso ligar-te?
— Não. — pediu ela. — Preciso mesmo de isolamento. Preciso de ficar comigo mesma.
— Não vais fazer…
— Não, Leo! Descansa, não irei fazer nenhum disparate. Apesar das mágoas, a vida ainda é um bem que prezo muito.
— Liga-me quando puder voltar.
Ela anuiu. Abraçou-o com muita força e sussurrou-lhe um agradecimento ao ouvido. Saiu do carro e entrou no prédio, acenando-lhe uma última vez.
Leonardo partiu para sua casa, partilhando da tristeza pela infelicidade da amiga, a qual se juntava à sua por não poder ser aquilo que a faria ser feliz.
A seu lado, Leonardo dormia tranquilamente. Ela observava-o com ternura, ao mesmo tempo que o ambiente escuro do quarto ia clareando com o nascer do Sol.
O dia já era um tormento para Adriana pelo significado que tinha. Afinal, era o dia em que o amor da sua vida iria casar com outra pessoa. Só que a revelação daquele lado negro do noivo deixou-a apreensiva com o futuro de Zahra. E mesmo depois da forma como ela a desprezara, Adriana sentia-se na obrigação de fazer algo.
Sem saber muito bem o que fazer, levantou-se da cama e passeou o corpo nu pelo quarto. Andou de um lado para o outro, pensativa, até se decidir a ir para a sala. Sentou-se no sofá.
Zahra tinha de saber o que acontecera. E Adriana devia a si própria uma última batalha na guerra pelo amor da violinista. Talvez aquele acontecimento tivesse sido um sinal para o que deveria fazer.
Impulsiva, regressou ao quarto e debruçou-se sobre Leonardo.
— Leo! — chamou, abanando-o na cama. — Leo! Acorda, Leo!
Meio estremunhado, ele abriu um olho. Sorriu ao vê-la e recordou com agrado que dormira com ela nessa noite.
Adriana colocou-se de pé ao lado da cama, oferecendo-lhe a perspectiva do seu corpo esbelto e curvilíneo. Que bela forma de acordar, pensou ele.
— Que se passa?
— Preciso que me ajudes. Preciso que me leves ao casamento da Zahra.
— O quê? — questionou ele, arregalando os olhos. — Foste convidada?
— Não. Mas, não posso deixá-la casar com um crápula daqueles.
— Não te metas nisso, Adriana. — aconselhou Leonardo, sentando-se na cama. — Ela já te desprezou várias vezes, não lhe dês o gosto de o fazer à frente de várias pessoas no dia do casamento.
— Não me importa, Leo. Tenho de lhe dizer. E…
— Sim?
— Ó Leo, sei que me vais dar na cabeça, mas… Não posso deixá la casar sem tentar mais uma vez.
— Eu estou a ouvir bem? — interrogou Leonardo com o espanto no rosto. — Já pensaste bem no que pretendes fazer? Queres entrar na igreja e impedir o casamento para contares a todos que tu e ela tiveram uma relação? — Adriana assentiu. — Ela vai odiar-te para o resto da vida!
— Se for esse o resultado. — Adriana passou a mão pelo longo cabelo negro. — Não sei como o vou fazer, mas tenho de ir lá. Por favor, Leo, preciso que me ajudes.
— Que posso eu fazer?
— Preciso que me leves ao casamento.
— Onde é?
— Vão casar no Mosteiro de Alcobaça. — informou ela, obtendo dele uma reacção de estupfacção. — Os Norton Vila não podiam fazer o evento por menos.
Leonardo levantou-se da cama, tão nu quanto ela.
— Se fores bem-sucedida, esta foi a nossa última noite.
Adriana percebeu a tristeza na sua voz.
— Não penses nisso agora. Posso contar contigo?
— Vou tomar um banho.
— Leo…
— Eu levo-te, descansa.
Adriana sorriu e abraçou-o com toda a força.
— Obrigado, Leo!
Leonardo livrou-se das marcas de sono com um duche morno. Deixou a água escorrer-lhe pelo corpo, pensando em Adriana e nos sentimentos que nutria por ela. A bailarina era e seria sempre mais que uma amiga, mais que uma amante ocasional, ela era a mulher com quem gostaria de partilhar a sua vida. Se conseguisse ter sucesso, Adriana voltaria a desaparecer da sua realidade e ele teria de sobreviver a isso sem Matilde que acabou por ser a atenuante do seu sofrimento pelo afastamento da bailarina.
No entanto, ele não acreditava que Adriana conseguisse. Só iria estragar a cerimónia, arruinar o casamento e ser odiada pela mulher que tanto amava. Porém, não valia a pena tentar contrariá-la.
Enquanto ele tomava banho, ela preparou um pequeno-almoço para quando ele terminasse. Estava ansiosa e a esperança de poder reconquistar Zahra dera-lhe um ânimo novo para aquele dia.
Leonardo saiu do banho e foi para o quarto vestir-se, enquanto Adriana ocupou o seu lugar no chuveiro.
Meia hora mais tarde, o casal saiu do apartamento da bailarina.
Leonardo trazia a roupa do dia anterior, pois não trouxera nenhuma para mudar, uma vez que planeara ficar por casa dela até regressar à sua.
Adriana acompanhava-o deslumbrante, desfilando as calças de ganga azul justas com a camisola grená de malha fina. E como a missão iria ser complicada, calçara as botas de cano alto para ser ainda mais imponente. O cabelo preso na nuca em rabo-de-cavalo atribuía-lhe um ar de cavaleira.
A manhã estava amena e o Sol nunca batia muito nas fachadas dos prédios àquela hora. Seguiram de mão dada até ao carro. Ele sentiu-a nervosa.
— Estamos sempre a tempo de não ir.
— Nem penses, Leo. Se não o fizer, viverei sempre a pensar como teria sido.
Leonardo entrou para o lugar do condutor. Adriana sentou-se a seu lado. Ele ligou a ignição e recuou com o automóvel, retirando-o do lugar de estacionamento.
O início da viagem foi calmo, circulado pelas ruas de Lisboa com a paciência de parar em semáforos que não davam passagem a ninguém. Era cedo e fim-de-semana, pelo que não seria de esperar ver mais que meia dúzia de carros em cada rua por onde passavam.
Adriana manteve-se silenciosa, introspectiva, ponderando as palavras e as atitudes que iria tomar. Leonardo percebeu isso e não a perturbou, não tentou fazer conversa e limitou-se a conduzir e ouvir rádio.
O percurso fê-los sair de Lisboa pela A8.
Leonardo ia concentrado na estrada, mas a sua mente ia levantando perguntas atrás de perguntas. Pensava se não estava a levar ao exagero aquela postura de só pensar na felicidade da amiga e deixar os seus interesses de lado. Ele gostava muito dela e não queria perdê-la, mas estava a ajudá-la a afastar-se de si. Sabia o quanto estava apaixonado, mas em vez de lhe dizer, ia vivendo os dias com aquilo que Adriana lhe ia dando enquanto não encontrava o amor para a vida. Teve vontade de parar o carro e dizer-lhe tudo o que sentia por ela. Não passou da intensão.
A seu lado, Adriana nem via a estrada a avançar na sua frente. Aquela iria ser a sua última oportunidade e tentou imaginar como aconteceria. Esperaria a entrada de Zahra na igreja para também ela entrar. Com a atenção de todos na noiva, ninguém iria reparar nela atrás da última fila. Ouviria toda a lengalenga do padre e os votos retribuídos dos noivos. Teria toda a paciência para aguardar o momento em que se houvesse alguém que soubesse algo que pudesse impedir aquela união, que falasse de imediato ou se calasse para sempre. Na sua mente, tudo era um filme com a esperança de terminar como as comédias românticas em que tudo acaba bem.
Só que ela não era ingénua ao ponto de ambicionar isso. Sabia que seria constrangedor, embaraçoso e até mesmo doloroso. Alguém iria ficar a perder. Imaginou-se a dizer “eu” e continuar com “eu sei algo e não posso ficar calada”. Sentiria os olhares espantados a perguntarem-se quem ela era, sentiria o olhar de pânico do noivo a adivinhar o que iria dizer e… Os olhos de Zahra eram uma incógnita no seu filme. Queria acreditar que Zahra não conseguiria conter um sorriso e os seus olhos seriam um convite a concretizar o que começara. Porém, depois da forma cruel como Zahra a desprezara, seria de esperar um olhar de “o que fazes aqui?”, “que estás tu a dizer do meu marido?” e terminaria com um “odeio-te”.
Não. Não podia pensar assim. Tinha de ser optimista.
O traçado mais sinuoso da estrada alertou Adriana de que já não estavam na autoestrada e que seguiam pela estrada nacional para Alcobaça. Nenhum deles conhecia a zona, mas seguiram as placas indicativas do monumento. Entraram numa rua empedrada que ladeava uma larga praça frontal à magnânima fachada do Mosteiro de Alcobaça.
Como ainda era cedo, foi fácil encontrar um estacionamento que os deixou virados de frente para o monumento.
Perto da porta, algumas pessoas empenhavam-se para que nada falhasse na cerimónia. Duas delas estavam encarregues de registar o momento para a posteridade em filme e fotografia.
Leonardo e Adriana permaneceram no interior do automóvel.
— Vais mesmo para a frente com isto? — perguntou ele, olhando para ela.
Adriana não tirou os olhos da porta da igreja.
— Vou. Vai ser a minha última tentativa com Zahra. Se ela não desistir do casamento e ficar comigo, nunca mais permitirei que entre na minha vida.
— Dizes isso agora, Adriana. Mas, se ela te bater à porta…
— Não! — afirmou segura, encarando-lhe o olhar. — Juro-te que não o permitirei. Depois disto, acho que ou se ganha ou se perde. Não há como prolongar a indefinição.
— Tu podias poupar-te a isto. Vais expor-te a uma situação complicada. A Zahra nunca se assumiu, nem quando vocês se encontravam. Achas que o fará agora, à frente de todos os convidados.
— Para mim, basta que não case. Isso será sinal suficiente para revelar que quer ficar comigo.
— Achas, Adriana? Acreditas mesmo nisso?
A bailarina baixou o olhar. Queria acreditar nisso.
— Se o facto de o noivo ser um traste não for suficiente, confessarei o meu amor por ela, ali, no meio de toda a gente.
— Ela sabe que tu a amas, Adriana. — recordou, acariciando-lhe o cabelo. — Não é aí que está o problema. O teu maior obstáculo é seres mulher e ela não querer assumir que gosta de uma mulher.
Adriana suspirou.
— Sempre se deixou abater pela opinião dos outros. Sempre foi fraca. Talvez depois de exposta, ganhe coragem em se assumir.
— Espero que estejas certa. — mentiu.
— Obrigado por estares aqui comigo, Leo! — agradeceu com enorme ternura no olhar. — Por vezes, acho que não te mereço.
— Não digas disparates.
— Sempre fizeste tudo por mim. És um amigo maravilhoso.
— Faria tudo por ti, Adriana!
A afirmação saiu tão forte e honesta que Adriana ficou atónita.
— Tudo?
— Tudo.
— Eu não sou merecedora disso. Não deves ser assim comigo, deves ser assim com a pessoa que escolheres para ficar contigo o resto da tua vida.
— E então?
A pergunta foi outra surpresa. Adriana sentiu-se confusa.
— O que quero dizer…
— Eu percebi o que disseste. — confirmou Leonardo. — Eu sei quem gostaria de ter comigo para o resto da vida. Tu és a pessoa que eu quereria a meu lado.
Adriana fugiu ao seu olhar. Não foi capaz de corresponder a toda a pureza de sentimentos que viu neles.
— Leo… Nós somos bons amigos. Talvez estejas a confundir os sentimentos pelo facto de fazermos sexo.
— Não, Adriana. Talvez para muitos homens, aquilo que partilhamos possa ser suficiente. Para mim nunca foi. Tu és uma amante maravilhosa. Mas és um ser humano ainda mais extraordinário, uma mulher íntegra, carismática, frontal, sensível…
— Pára! Por favor, pára!
— Eu sou apaixonado por ti, Adriana!
— Não faças isso. Não te quero magoar.
As palavras de Adriana não surpreenderam Leonardo, mas isso não evitou que a dor da rejeição o atingisse.
Na praça, os convidados foram aumentando e entrando na igreja.
— Leonardo, tu és o homem que eu mais amo no Mundo. — disse ela, segurando-lhe a mão. — Só que é um amor de amigo. — Sorriu meio envergonhada. — Sim, fazemos coisas que os amigos não fazem, mas… Tu sabes que sempre foste a minha perversão, o meu escape daquela pequena parte de mim que gosta do sexo oposto. Aceitar-te como homem, como marido, seria renegar à minha essência. Não tenho a culpa de ter nascido a gostar de mulheres, nem nunca me envergonhei disso, pelo contrário. Adorava poder amar-te como mereces.
Nesse momento, José Norton Vila apareceu à porta da igreja, vindo do interior, para observar a praça e conversar com alguns convidados.
— Eu sei, Adriana. Conheço-te bem.
— És talvez a pessoa que melhor me conhece.
— Esforcei-me para não me deixar vencer pelos sentimentos. — prosseguiu Leonardo. — Mas falhei. E agora, estando a momentos de te ver partir para sempre, tinha que te dizer. Da mesma forma que sentes que esta é tua última oportunidade com a Zahra, eu senti que era minha última contigo. Sei que isso não mudará nada entre nós, mas quero dizer te olhos nos olhos: Adriana, eu amo-te!
A bailarina comoveu-se. Uma lágrima escapou-lhe pelo rosto. Lamentava não poder corresponder a um amor tão bonito e profundo sem se anular.
Leonardo limpou-lhe a lágrima do rosto e sorriu-lhe.
Adriana ia a dizer algo, mas ele impediu-a com a informação de que Zahra estava a chegar. Ambos olharam para a noiva a sair de um carro luxuoso e ser conduzida para a igreja.
— Chegou a hora, Adriana. Boa sorte!
— Leo…
— Vai. Sê feliz!
Adriana abraçou-o com muita força. Não o queria largar, pois sabia que poderia ser a última vez que o teria assim tão perto. Deu-lhe um último beijo na face e saiu do carro, limpando o rosto.
Leonardo ficou a vê-la caminhar vagarosamente até à porta da igreja. Na escadaria, a noiva escalava o último degrau e preparava-se para entrar. Ao longe, ouvia-se o início da marcha nupcial. Adriana estagnou a passada, dando tempo para Zahra entrar. Subiu a escada quando a longa cauda do vestido branco já havia passado a abóboda.
Adriana entrou no momento em que alguém ia a fechar a porta. Sorriu à pessoa e fez um ar de quem se atrasara para a cerimónia.
No carro, ele viu Adriana desaparecer para lá da porta que se fechou logo a seguir.
Leonardo aguardou o desenlace dos acontecimentos. Não sabia muito bem o que esperar, mas permaneceria ali para o que desse e viesse. Todos os cenários lhe passaram pela cabeça, desde a expulsão de Adriana da igreja até uma cena de filme com Adriana e Zahra a fugirem da igreja de mão dada. Temeu que a amiga fosse humilhada e lamentou não se ter oferecido para a acompanhar lá dentro. Imaginou as pessoas a insurgirem-se contra ela, atirarem-lhe o preconceito à cara e, pior que tudo, ser desprezada pela mulher que ela tanto amava.
O tempo passava sem que fosse possível perceber o que iria acontecer. Pensou em sair do carro e ir ver. Porém, não o fez.
Ao fim de mais de uma hora, os sinos tocaram e a porta abriu. Chegara o momento. Que iria acontecer?
Leonardo saiu do seu lugar e encostou-se ao automóvel, ficando a observar os convidados do casamento a sair e a perfilarem-se à porta, formando um corredor de passagem aos recém-casados.
Zahra saiu sorridente de braço dado com José. Não viu Adriana em lado nenhum. Os recém-casados foram fustigados com grãos de arroz. Pelo menos uma certeza se revelara, Adriana não impedira o casamento. Mas, onde estava a bailarina?
De repente, veio à cabeça de Leonardo a ideia trágica de que Adriana surgiria no meio dos convidados com uma pistola na mão e daria um tiro em Zahra dizendo que se não fosse dela não seria de mais ninguém. Era uma cena absurda que não condizia em nada na maneira de ser de Adriana.
Os profissionais de imagem no local começaram a pedir aos convidados que se espalhassem pela escadaria. Deviam estar por ali mais de quatrocentas pessoas. Zahra e José posicionaram-se ao meio.
O fotógrafo desceu a escadaria e afastou-se o suficiente para ter ângulo para uma foto que enquadrasse todos.
Ao longe, Leonardo observava os rostos sorridentes para a câmara, procurando encontrar Adriana.
Terminado o momento da foto conjunta, o casal seguiu para os claustros do mosteiro, sendo seguidos pelos convidados, onde se iria realizar o copo-de-água.
Com o seu olhar atento de operador de imagem, Leonardo observou todas as pessoas na praça sem ver a sua amiga.
O amplo espaço frontal à igreja começou a ficar deserto. Apreensivo, ele afastou-se do carro rumo à escadaria. Caminhava apressado e subiu os degraus a correr. Abrandou à porta do santuário. Encontrou o interior da extensa catedral deserto. O seu olhar foi-se habituando ao ambiente menos luminoso. Interrogava-se do que seria feito de Adriana, quando a viu na segunda fila de bancos compridos a olhar para o altar e a rezar. Preocupado em não fazer barulho, avançou pelo corredor central até ela.
Adriana olhava fixamente para o Cristo Crucificado. O rosto revelava diversos fios de lágrimas. Os seus lábios murmuravam uma oração.
Leonardo sentou-se a seu lado e esperou.
— Não fui capaz. — disse ela, por fim. — Ele acariciou-lhe o ombro para a confortar. — Sei o quanto isto significava para ela. Não podia estragar o momento, não podia roubar-lhe a felicidade só por não fazer parte dela. Sou uma parva.
— Não digas isso.
— Amo-a tanto que não fui capaz. — soluçou, encostando a cabeça em Leonardo. — Só a iria destruir.
— Anda. Vamos para casa.
— Só espero que ele a faça feliz! — desejou, limpando as lágrimas do rosto.
Leonardo e Adriana saíram da igreja e regressaram ao carro. Já nada tinham a fazer por ali, por isso, partiram novamente para Lisboa.
Foi mais uma viagem sem conversa. Ele respeitou o silêncio sofrido dela. E ela deixou as lágrimas correrem livremente.
Leonardo sabia que aquilo era o fim das esperanças de Adriana, mas nem por isso o início das suas em relação à bailarina. Ela fora bem explícita em relação ao que os unia, por isso, alimentar ilusões só o transtornaria.
A rua onde Adriana vivia estava banhada por um Sol luminoso e caloroso, quando eles chegaram. Leonardo parou o carro no meio da rua à porta do prédio, atento à chegada de outro veículo.
— E agora, Adriana?
Ela fungou devido ao choro. Limpou as lágrimas com as palmas das mãos e ajeitou o cabelo.
— Acabou. Eu disse-te que seria a última vez que tentaria. Guardarei sempre os momentos bonitos que partilhei com ela, mas a partir de hoje a Zahra morreu na minha vida.
Ele abraçou-a para a confortar naquela decisão tão dura para o coração da bailarina e deu-lhe um beijo nos cabelos.
— Queres que suba?
Adriana afastou-se.
— Preciso ficar sozinha. Não me leves a mal, mas não quero estar com ninguém.
— Posso ligar-te?
— Não. — pediu ela. — Preciso mesmo de isolamento. Preciso de ficar comigo mesma.
— Não vais fazer…
— Não, Leo! Descansa, não irei fazer nenhum disparate. Apesar das mágoas, a vida ainda é um bem que prezo muito.
— Liga-me quando puder voltar.
Ela anuiu. Abraçou-o com muita força e sussurrou-lhe um agradecimento ao ouvido. Saiu do carro e entrou no prédio, acenando-lhe uma última vez.
Leonardo partiu para sua casa, partilhando da tristeza pela infelicidade da amiga, a qual se juntava à sua por não poder ser aquilo que a faria ser feliz.