DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 20

Capítulo XX

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Rudolph aguardava sentado na cadeira do seu gabinete. Atrás da secretária parecia observar as prateiras que compunham uma das paredes daquele espaço. O seu rosto estava inexpressivo com o olhar perdido. A sua mente interrogava-se acerca da relação entre Magdalena e Manuel, pois reparara que existia um afastamento notório entre eles, talvez mesmo o fim do namoro.
Pouco lhe interessava se eles se tinha desentendido um com o outro, apesar de se congratular com o fim daquela relação, se fosse o caso. No entanto, o que o preocupava era a razão pela qual o namoro teria acabado. Teria a rapariga cedido à pressão e contado ao namorado as coisas que ele a obrigara a fazer para lhe prolongar a estadia na orquestra?
Sozinho, olhou para o relógio. Já não deveria faltar muito para Magdalena chegar. Na primeira oportunidade que teve, sem que ninguém reparasse, disse-lhe que deveria ir ter consigo ao gabinete. Não era preciso dizer mais nada.
Olhando para os livros, prémios e outras coisas que se espalhavam pelas prateleiras, Rudolph sentia-se bem. Tudo parecia correr às mil maravilhas na sua vida. Era maestro de uma orquestra famosa cada vez mais procurada para concertos, iam gravar um novo disco, o filho seguia a mesma rota do sucesso pessoal e profissional, a sua mulher não chateava muito e tinha uma amante virgem para usar e abusar a seu belo prazer.
— Não mereço tanto! — exclamou com ironia para a sala vazia.
Nesse momento, ouviu-se bater na porta.
— Entre.
A porta abriu e por ela entrou uma Magdalena de figura frágil e tímida.
Rudolph levantou-se da cadeira e sorriu-lhe com aquele sorriso de predador prestes a submeter a presa às suas bizarrias.
— Tranca a porta! — ordenou.
A rapariga moldava moveu-se com desconforto e acatou a ordem. Porém, quando voltou a olhar para o maestro, o rosto era mais astuto e menos ingénuo.
— Reparei que tu e o teu namorado preto não se falaram. — informou, aproximando-se. — Está tudo bem entre vocês?
Magdalena desviou-se da sua aproximação, como se pretendesse adiar o inevitável.
— Não tem nada com isso. — retorquiu num tom áspero.
— Sim, tens razão. — concordou o maestro. — Desde que não tenhas andado a contar-lhe o que fazemos aqui.
Olhando-o nos olhos, a rapariga disse:
— O que fizemos aqui não é motivo de orgulho, nem coisa que queira andar a contar por aí.
— Acho bem! — exclamou ele com um timbre de aviso.
Rudolph tentou aproximar-se novamente. E mais uma vez, movendo subtilmente, Magdalena afastou-se. Ele voltou à cadeira, começando a desapertar o cinto, e ordenou:
— Vá, vai tirando a roupa. Não podemos demorar muito.
— Não! — recusou ela com firmeza sem se mover.
O maestro olhou para ela com o rosto zangado.
— O quê?
— Não me vou despir. — redarguiu a rapariga. — Não vou voltar a chupar essa merda asquerosa que você tem entre as pernas.
— No teu lugar pensava duas vezes, antes de falar. — ameaçou Rudolph com a irritação a inundar-lhe a voz. — Não penses que lá por já ter assinado o teu contrato não posso correr contigo daqui. — Após a ameaça, atenuou a agressividade. — Se fosse a ti, preocupava-me em que eu fosse ficando contente com essa tua boquinha.
— Não vim aqui para isso.
Rudolph soltou uma gargalhada de escárnio.
— Então vieste para quê?
— Para lhe dizer que não voltará a abusar de mim.
— Já percebi. — disse ele, abanando a cabeça. — Tiveste um rebate de consciência. Sentes que estás a trair o preto. — Sorriu-lhe com piedade. — Não te preocupes com isso. Se calhar, ele próprio anda a enganar-te com as pretas lá do bairro dele.
Magdalena mantinha-se firme em pé a meio da sala. Parecia uma estátua em frente à secretária do maestro.
— Esqueça! Não o vou voltar a fazer.
Irritado, Rudolph levantou-se da cadeira e caminhou na direcção dela, dizendo:
— Ouve lá, minha putazinha de merda. Pensas que tens capacidade para me contrariar? Quem pensas tu que és? Tu fazes aquilo que eu mando, senão corro contigo daqui e não voltas a tocar em mais orquestra nenhuma. Posso lixar-te tanto a vida que a melhor coisa que tu voltarás a soprar é “flautas” de camionistas à beira da estrada.
Com enorme tranquilidade e frieza, Magdalena meteu a mão na mala e retirou um CD. Esticou o braço para que ele o recebesse.
— O que é isso?
— É um filme. — informou ela com um sorriso sádico.
— Que filme?
— Um filme feito aqui, onde um maestro velho e poderoso abusa de uma rapariguinha de quinze anos, obrigando-a a fazer sexo oral para manter o seu lugar na orquestra.
O olhar dele não escondeu o pânico.
— Sua pu…
— É melhor parar com as ofensas. — aconselhou a rapariga. — Estou a começar a ficar farta. E tendo em conta que estas imagens podem destrui-lo, eu teria mais cuidado com a linguagem que usa comigo.
Rudolph arrancou-lhe o CD da mão.
— Pode ficar com esse à vontade. — ofereceu ela, usando um tom triunfante. — Tenho mais cópias.
— Que queres tu com isto? — interrogou, fulminando-a com o olhar e sentido um raiva capaz de o levar a fazer uma loucura.
— Quero que pare de me chatear. Quero ver o meu próximo contrato renovado e sem termo. Quero que fique longe de mim. Enfim, todas essas coisas, o que não me parece muito para um velho debochado que gosta de abusar de rapariguinhas menores.
— Desaparece daqui!
— Com todo o gosto, Rudolph.
Magdalena ofereceu-lhe um semblante vitorioso e saiu do gabinete a saborear o seu triunfo.

José Norton Vila ainda não desistira da ideia de tentar seduzir Adriana, bem pelo contrário. A data do seu casamento aproximava-se e ele sabia que esse tempo passaria rapidamente. Assim, aproveitou aquela noite em que não haveria exibição do bailado para colocar em marcha uma nova tentativa.
Nessa tarde, ele telefonara para o teatro para confirmar se iria haver ensaio dos bailarinos. Quem o atendeu confirmou que sim. Tentou saber, mais ou menos, a que horas costumava terminar. A mesma pessoa não lhe soube indicar uma hora precisa, mas a informação foi suficiente.
Receoso que a noiva o pudesse procurar nessa noite, José telefonou para ela a desculpar-se por ter uma reunião que iria terminar muito tarde, daí que só no dia seguinte se veriam. Zahra revelou-se compreensiva como sempre.
Com a noite a cobrir por completo o ambiente, José chegou ao Parque das Nações e teve a sorte de estacionar na rua lateral ao teatro. Tivera o cuidado de apresentar uma imagem sedutora.
Enquanto caminhava até ao teatro, planeava a melhor forma de justificar a sua presença ali à bailarina. A melhor justificação pareceu ser o aproveitamento da história da reunião. Diria que tivera essa reunião ali perto e que se lembrara que Adriana estava a ensaiar, por isso, poderia convidá-la para beber um café ou oferecer-se para a levar a casa. Tinha a certeza que iria resultar, até porque desta vez não desistiria com tanta facilidade como na outra.
Ao entrar no edifício do Teatro Camões, somente um funcionário trabalhava na zona do átrio principal que antecede a entrada para o anfiteatro. José aproximou-se do balcão e interpelou o homem:
— Boa noite! O ensaio já terminou?
O homem que o seguira com o olhar desde que entrara ali encolheu os ombros e respondeu:
— Não sei. Se não acabou, deve estar a acabar.
José pensou numa maneira de se manter por ali sem ter de se justificar. Não queria dizer que estava à espera da bailarina e pareceria estranho andar a vaguear pelo átrio.
— É um espectáculo muito bonito. — continuou o pianista, fazendo conversa, algo tão atípico em si, uma vez que encarava sempre os estranhos com altivez. Encostou-se ao balcão. — E tem cá com cada bailarina.
O homem, que não deveria ter mais de quarenta anos, sorriu e concordou:
— Sim, há para aí umas que são bem jeitosas.
Percebendo que estavam em sintonia em relação à apreciação física do elenco feminino, José apontou aquela que mais o fascinava para que quando o homem a visse sair com ele, sentir uma inveja de macho para com outro macho.
— Vim assistir à estreia. Sou amigo de uma das bailarinas. — A informação foi dada com um ar de orgulho. — A que mais me saltou à vista foi a Adriana.
O funcionário reagiu com um sorriso lacónico.
— É sua amiga?
— Sim. — confirmou com uma postura emproada.
— Então concordará comigo que é um desperdício tanta beleza numa mulher daquelas.
— Como assim? — questionou José, confuso.
— Peço desculpa. Não quis ofender.
— Ofender? Não sei do que está a falar.
— Não me leve a mal. E nem faça conversa disto com a sua amiga.
— Mas que raio está você a falar, homem? — questionou o pianista, impaciente.
O outro espantou-se com o tom de José, mas prosseguiu na sua ideia:
— A Adriana Cavaleri é uma mulher lindíssima. Não quero parecer preconceituoso. Mas, qualquer homem concordará que é um desperdício tanta beleza numa mulher que não gosta de homens.
— Não gosta de homens? — repetiu chocado.
— Não sabe? É amigo dela e não sabe?
Meio aos tropeções nas palavras, José justificou:
— Sou amigo de outra bailarina que me apresentou a Adriana. Não a conheço há muito tempo.
— Por favor, não diga que lhe falei nisto.
José, ainda chocado, fez um gesto para que o outro não se preocupasse. Tentou recompor-se, refazendo-se da revelação. Sendo assim, seria absurdo prosseguir no seu plano.
Olhando para o relógio, José disse:
— Xiii… Esqueci-me que tinha de ir a… Bom, vou ter de ir.
— Não vai esperar a sua amiga? O ensaio já deve ter acabado.
— Ela não sabia que estava por aqui. Vinha só cumprimentá-la. Depois falo com ela. Obrigado.
E com aquelas palavras, abandonou o teatro e regressou ao carro.
Já sentado no lugar do condutor, ele ficou a pensar naquilo que acabara de descobrir. Será que Zahra sabia daquilo? Eram amigas. Talvez fosse melhor alertá-la, não fosse a outra atirar-se a ela. Sentiu-se desiludido por aquela mulher tão atraente não gostar de homens.
No momento em que se preparava para ligar a ignição, o seu telemóvel tocou.
— José! — disse a voz do outro lado.
— Sim, pai.
— Estás em casa?
— Não, estou na rua. Aconteceu alguma coisa?
Não era habitual o pai telefonar-lhe tão tarde e o tom de voz anunciava alguma coisa menos agradável.
— Preciso de falar contigo acerca de uma coisa. Mas, não pode ser por telefone. Passo por tua casa amanhã, pode ser?
— Sim, claro.
— Até amanhã, então.
— Até amanhã, pai.
Ao desligar, um carro passou pelo dele rumo ao fundo da rua que não tinha saída. A princípio, José nem reparou. Porém, ao voltar a olhar reconheceu o veículo como sendo do mesmo modelo do da noiva. E olhando com mais atenção, reconheceu a matrícula. Era mesmo o carro de Zahra.
O automóvel deu a volta ao fundo da rua. E quando ficou virado para cima, José reconheceu a noiva ao volante. Ficou intrigado e teve o cuidado de se baixar para que ela não o visse.
Passado um minuto, Adriana surgiu vinda do teatro e caminhou até ao carro e entrou para o lugar ao lado de Zahra. O que aconteceu a seguir chocou José dez vezes mais que a revelação dessa noite. Adriana entrou no carro e beijou Zahra na boca. Não foi um simples cumprimento, foi um beijo apaixonado.
Logo depois, Zahra arrancou, fazendo José baixar-se totalmente para que ela não o visse quando se cruzasse com o carro dele.
A primeira constatação que passou pela cabeça de José foi a traição da noiva. Zahra tinha uma relação amorosa com Adriana, uma relação lésbica. Questionou-se há quanto tempo aquilo duraria. Seria apenas um caso pontual, uma experiência sexual com uma mulher antes do casamento? Podia ser uma fase passageira de Zahra, perante a descoberta da homossexualidade da amiga. Essa ideia provocou-lhe uma fantasia, a possibilidade de haver sexo entre ele, a noiva e a bailarina, a fantasia favorita da maioria dos homens, ir para a cama com duas mulheres.
No entanto, José não se deixou cair nesse cenário muito tempo. Começou a somar um e outro pormenor. Zahra e Adriana eram amigas desde a adolescência. Se calhar, a relação delas já vinha dessa altura. Seria a sua noiva lésbica também? Era uma possibilidade.
Subitamente, a fantasia erótica tornara-se um eventual pesadelo. Ele poderia estar perante uma concorrente no afecto de Zahra, uma concorrente ao seu coração. Podia estar perante a hipótese de Zahra já não vir a querer casar com ele para casar com… Adriana.
A ideia pareceu absurda, mas terrivelmente provável.
Tinha de fazer algo.

Na manhã seguinte, a cabeça de José parecia o sino da igreja sempre a badalar as revelações da noite anterior. Mal pregara o olho e saíra da cama com mais sono que quando entrara.
A campainha do seu apartamento tocou. Foi abrir, sabendo que era o seu pai que ficara de lá passar nessa manhã. Ao vê-lo passar pela porta, interrogou-se o que viria dali, tal era o rosto agastado do pai.
— Que se passa, pai?
— Estou com um problema terrível.
— Parece grave.
— É grave!
José convidou o pai a seguirem para a sala e sentaram-se ambos no sofá. Rudolph passou a mão pelo cabelo, pensando na melhor forma de começar.
— Não dormi nada esta noite.
— Já somos dois. — retorquiu José.
— Algum problema contigo?
O pianista abanou a cabeça.
— Não, nada. Estava sem sono.
— Estou metido numa alhada, filho.
— Conte lá de uma vez, pai. Já estou a ficar preocupado.
Rudolph olhou para o filho. José nunca vira o pai tão em baixo.
— Sabes aquela rapariga moldava da orquestra?
A Magdalena, pensou ele de imediato. Que terá aquela tipa feito? Será que…
— Sim, sei. A Magdalena, não é?
Rudolph anuiu.
— Tomei-a por uma rapariga ingénua. Imagina tu que, um destes dias, apareceu-me no gabinete a pedir conselhos sobre a carreira de flautista. — O maestro optara por relatar uma versão conveniente da história. — Senti-me um pai… Bolas, senti-me um avô, a tentar aconselhá-la. Só que a miúda, esperta, tentou seduzir-me.
— Não acredito. — espantou-se José, irritando-se mentalmente por suspeitar que ela se antecipara na chantagem. — Ela fez isso?
— Sei que é uma miúda. Mas, a carne é fraca. Tens de concordar que a miúda é linda e atraente.
— O pai…? — questionou José, fingindo não conhecer o desenlace da história.
— Não tive relações sexuais com ela. — apressou-se o maestro a negar. — Até porque a rapariga é virgem. Mas, houve uns carinhos…
— Carinhos?
Rudolph procurou as melhores palavras que atenuassem a repulsa que saberia que o filho sentiria por ele, ao conhecer a verdade.
— Umas massagens… sexuais.
— Não acredito nisto. O pai com uma miudita daquelas. Onde tinha a cabeça?
— Deixei-me levar. — tentou desculpar-se. — Nesta idade, intimidades com raparigas novas são um elixir de juventude.
— Poupe-me, pai. A miúda é menor. Se isso se sabe, o pai pode ir preso.
— O problema é esse.
— Como assim?
— Não sei como, mas ela conseguiu filmar-nos.
Aquela última frase provocou uma explosão em José:
— Puta de merda.
Rudolph ficou a olhar para o filho, espantado com a reacção, quase fazendo parecer que a má da fita era ela. Isso era bom, pois precisava de contar com o apoio do filho.
No entanto, a raiva de José para com Magdalena estava relacionada com o facto de que a jovem moldava o enganara, tendo feito uma cópia do filme e, pior, usara-o antes dele.
— Desculpa envolver-te nisto, filho. Mas és a pessoa em quem mais confio. E preciso que me ajudes.
— Que posso eu fazer? — indagou José, tentando planear rapidamente a melhor forma de tirar proveito do trunfo que fora usado antes do tempo.
— Ajuda-me a encontrar uma solução.
— Que quer ela para ficar calada?
— Continuar na orquestra.
— Isso não é problema. Só que ao ceder, o pai estará sempre na mão dela.
— Que faço, então?
Se era para atacar, o lance decisivo teria de ser jogado naquele momento.
— Talvez fosse melhor o pai afastar-se do comando da orquestra. — A sugestão fez Rudolph arregalar os olhos. — Dessa forma, ela não poderia tirar proveito de si.
— E deixar a orquestra sem maestro?
— Eu posso tentar assumir a sua posição até que o pai encontre alguém digno de o substituir.
— Não me parece ser a melhor ideia. — recusou Rudolph. — Até porque ela só quer permanecer na orquestra, nada mais. E além disso, quem me diz a mim que não me podendo chantagear assim, ela não quererá depois dinheiro para ficar calada?
— Nada lhe garante que não o faça, mesmo assim.
— Talvez… Mas, para já, ela só quer assegurar o lugar.
José ponderou na questão, como se estivesse a analisar a situação do pai. Contudo, a sua mente estava revoltada com a sua cúmplice por ter usado a gravação. Nos planos de José, a chantagem deveria ter sido diferente. A sua ideia era uma chantagem anónima, a exigir o afastamento do pai da orquestra. Tal como sucedera ali, o pai viria procurar o seu auxílio e ele aproveitaria isso para ocupar o seu lugar.
Em menos de vinte e quatro horas, todos os planos para a sua vida pareciam desmoronar-se.
Fim do capítulo

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