DANÇANDO NO VIOLINO · Capítulo 9

Capítulo IX

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Desde que saíram da cama até ao instante em que Adriana deixaria o apartamento de Zahra, tudo fora partilhado. Tomaram banho juntas, comeram o pequeno-almoço em conjunto, arranjaram-se ao mesmo tempo e fizeram tudo com ofertas de beijos e palavras carinhosas.
A meio da manhã, Adriana estava novamente magnífica com o seu vestido e imponente nas botas altas. Colocou o casaco longo pelas costas e segurou a mochila pela alça.
— Quando é que nos voltamos a ver, Zahra?
Zahra também se vestira para sair. Tal como no dia anterior, as calças de ganga e a camisola quente eram a sua indumentária.
— Não sei, Adriana. — O rosto de Zahra perdera algum do entusiasmo da noite anterior. — O que aconteceu esta noite foi maravilhoso. Mas…
— Mas?
— Não sei que te diga, Adriana. Foi maravilhoso, mas foi também um terramoto na minha vida. — Suspirou, procurando as palavras. — Dá-me algum tempo, por favor.
— Tudo bem. — concordou a bailarina. — Posso ligar-te?
— Claro.
Nesse momento, a campainha do apartamento tocou.
As amigas olharam-se surpresas.
Zahra segurou o intercomunicador e perguntou quem era. Antes de ouvir a resposta, viu no ecrã do aparelho o rosto de José, o noivo.
— Merda! — vociferou Zahra e ironizou. — Não podia ter vindo em melhor altura.
— Não te preocupes. Fazemos de conta que te vim visitar esta manhã e que estava de saída.
Zahra concordou.
Quando José surgiu a sair do elevador, Adriana não conseguiu evitar alguma raiva, pois ele era o seu rival no coração de Zahra. Tentou que as palavras não denunciassem o que lhe ia na alma.
O pianista surpreendeu-se com a presença da bailarina a sair do apartamento da noiva. A surpresa deu lugar a um sorriso simpático, enquanto o olhar analisava Adriana desde a cabeça até aos pés. A “antiga colega” da noiva era um pedaço de mulher bem apelativo.
— Olá! — cumprimentou. — Por aqui?
— Vim visitar a Zahra. — justificou Adriana sem retribuir o cumprimento.
— Que curioso. Desconhecia que sabia onde a Zahra vive. — constatou José, cumprimentando a noiva com um beijo nos lábios.
A constatação pareceu atrapalhar Adriana. Porém, Zahra veio em seu socorro:
— A Adriana telefonou-me para tomarmos um café. Como estava aqui perto, convidei-a a passar por cá.
— E vão sair…
— Não. A Adriana e eu tomámos o café aqui em casa.
José assentiu com a cabeça sem tirar os olhos da bailarina. Ainda não esquecera que ela “não era de namorados”, daí que só de pensar em quantos homens já teriam estado entre aquelas pernas o deixou excitado.
— E combinaram o jantar? — questionou ele.
Zahra e Adriana revelaram um semblante confuso. José olhou para a noiva e explicou:
— O jantar que falámos, quando a Adriana te foi cumprimentar após o concerto.
— Ah… Sim. — recordou Zahra pouco à vontade com a ideia.
José virou o rosto para Adriana e convidou:
— Na Sexta à noite. Está bem para vocês?
Adriana não sabia o que responder e procurou no rosto de Zahra uma ajuda.
Percebendo a hesitação da bailarina, José disse:
— Que parvoíce a minha. Claro que a Adriana tem que falar primeiro com o seu nam… amigo.
— Sim, claro. — concordou.
— Bom. — insistiu ele. — Fica combinado para Sexta. Se ele não puder, vem só a Adriana.
Adriana não disse nem sim nem não, limitando-se a dizer que tinha de ir andando. Zahra sorriu-lhe e mandou-lhe um beijo simulado sem que o noivo reparasse. O casal entrou no apartamento e a bailarina foi-se embora pelo elevador.
Adriana não era uma visitante habitual de Algés, pelo que o local era estranho e nem saberia muito bem como regressar a casa. Caminhou pela rua e viu uma paragem de autocarros próxima. Procurou a informação dos itinerários, mas estava tão vandalizada que não conseguiu perceber por onde passariam aqueles autocarros. Assim, optou por fazer sinal a um táxi.
Durante o trajecto, Adriana teve a sua mente a vaguear nas recordações da noite anterior. Voltar a fazer amor com Zahra fora tão bom e deixara-a tão feliz. Há muito tempo que não fazia amor com alguém por quem se apaixonara. No entanto, Zahra era mais que uma paixão, era a mulher da sua vida e ela amava-a com uma intensidade tão brutal que quase lhe fazia doer o peito, só de pensar nesse amor.
Fora tudo perfeito, tão perfeito que só lamentava ter-se cruzado com o noivo de Zahra à saída. Será que ainda seria noivo? Ou Zahra iria aproveitar a visita dele para lhe comunicar que o noivado terminara e desejava partilhar a sua vida com Adriana? Seria maravilhoso que assim fosse, mas Adriana não era ingénua ao ponto de acreditar que Zahra fosse assim tão determinada. Ela pedira-lhe tempo e que não a pressionasse. Adriana respeitaria isso.
Se Adriana pudesse ver o que se estava a passar naquele instante no apartamento de Zahra, observaria a sua amante na cama com o noivo a fingir mais um orgasmo quando o sentisse a vir-se dentro de si.
Depois de tanto prazer nessa noite, Zahra chorava em silêncio por não conseguir sentir o mesmo com o noivo. Ele não percebeu e quando reparou nas lágrimas, ela justificou:
— Tu és tão maravilhoso que me levas às lágrimas.
Ele sorriu orgulhoso de si e do seu desempenho.
Zahra não tinha vontade nenhuma, quando ele entrou no apartamento. José tentou seduzi-la e insistiu tanto que a violinista teve o estúpido receio de que a recusa o levasse a suspeitar do que acontecera entre ela e Adriana nessa noite. Assim, ali estava a olhar para o tecto com o corpo esmagado pelo peso dele a mover-se sobre si, disfarçando a dor de uma penetração mal lubrificada e fingindo prazer com gemidos que lhe pareciam tão parvos. Pelo menos, pensava ela, ele não demorava muito tempo a vir-se.

Ao chegar ao seu apartamento, Adriana largou a mala e deixou se cair sobre o sofá, rindo para ninguém, feliz por amar e ser amada. Sentiu uma enorme vontade de partilhar a sua felicidade com alguém, contar tudo o que acontecera. E quem melhor que Leonardo? Foi nesse instante que sentiu algum ressentimento por ter desmarcado o encontro com ele no dia anterior.
A relação de ambos já compreendia esse tido de situação. Porém, Adriana não deixou de se afligir com isso.
Sem perder tempo, pegou no telemóvel e marcou o número dele.
— Olá! — cumprimentou ele, ao atender, num tom satisfeito por a ouvir.
— Olá, Leo! Onde estás? — questionou ela, ouvindo muito barulho do outro lado da linha.
Leonardo explicou-lhe que o ruído era do vento, pois ele estava na praia da Nazaré a captar imagens da prova de surf. Não esquecendo que ela o dispensara na noite anterior e que naquele início de tarde lhe ligava com um tom animado na voz, ele perguntou:
— Então? A noite correu bem?
— Muito bem! — afirmou ela com felicidade. Só que logo a seguir, mudou o tom para algo mais triste. — Desculpa ter desmarcado contigo, ontem.
— Não faz mal. — descansou-a. — E pela tua voz, não estás nada arrependida da troca.
— Não ponhas as coisas assim.
— Estou a brincar contigo, Adriana.
A bailarina queria contar-lhe o que acontecera, desde a noite de amor com Zahra até ao convite para o jantar. Contudo, o ruído da praia era incomodativo e optou por sugerir:
— Preciso de falar contigo. Combinamos um café?
— Posso passar por tua casa, logo à noite.
Aquele tipo de proposta tinha sempre uma finalidade. E era uma finalidade que Adriana já não aceitaria, pois sentir-se-ia a trair a sua amada.
— Em minha casa não! — recusou com uma determinação que não deixou dúvidas a Leonardo.
— Estou a perceber. É sério?
— Penso que se tornará bem sério.
— Fico feliz por ti.
— Mas quero encontrar-me contigo… como amigos. — insistiu ela.
— Compreendo. — concordou ele num tom depressivo. — Hoje vou estar na Nazaré, só devo voltar ao fim do dia. Ligo-te amanhã para combinar.
— Está bem.
A chamada terminou. E quando Leonardo voltou a guardar o telemóvel, teve a certeza de que a amizade colorida de ambos ficaria suspensa por tempo indeterminado.
Foi nesse instante que Matilde se aproximou, pois dera-lhe espaço para poder falar ao telemóvel à vontade.
Leonardo e Matilde estavam na Nazaré a acompanhar as eliminatórias de mais uma etapa do Circuito Mundial de Surf. Mais uma vez, Matilde fora atirada para uma reportagem que não gostava. Quase que podia pensar que a estação de televisão se estava a empenhar em levá-la a demitir-se.
Em relação a Leonardo, ela mostrava-se distante e fria. Desde aquele dia em que ele lhe dissera tudo o que pensava dela, Matilde optou por falar o mínimo possível, mas sem ser antipática. O relacionamento profissional de ambos era cordial e o pessoal era inexistente.
A praia estava repleta de pessoas que assistiam ao desempenho dos atletas na água, cavalgando ondas enormes com as suas pranchas. O vento era bastante forte e a temperatura estava fresca, para não dizer fria. Mesmo assim, muitos dos espectadores assistiam como se estivessem na praia em pleno Agosto. O céu azul claro contrastava com o tom mais escuro do mar, onde a rebentação das ondas espalhava um branco espumoso agressivo. Os grãos de areia fina tinham tendência a levantar com o vento e, nas rajadas mais fortes, picavam a pele de quem ali estava como se fossem agulhas.
Naquele momento não havia grandes imagens para captar, daí que Leonardo estivesse sentado na areia a observar. Para Matilde também pouco havia para fazer, uma vez que a sua única função seria entrevistar os participantes e isso só sucederia no final das provas. Assim, as mentes de ambos divagavam ao sabor dos pensamentos.
Leonardo olhava para o mar e pensava em Adriana. Tentava congratular-se com a felicidade da amiga, mas só conseguia lamentar que esse novo relacionamento dela iria provocar novo distanciamento entre ambos. Já na última vez sentira alguma amargura nesse afastamento, mas naquele instante, a mágoa era superior ao que esperava. Leonardo adorava Adriana, era uma amiga excelente, alguém com quem adorava partilhar o tempo e com quem era maravilhoso fazer sexo. Adriana era uma amante tão extraordinária que quase custava a acreditar que fosse lésbica. No entanto, Leonardo conhecia bem a orientação sexual da amiga e quanto a isso não havia dúvidas. Não queria desejar que a relação corresse mal, apesar de esse ser o único caminho que lhe traria a amiga e amante de volta. Recriminou-se por tal pensamento e procurou distrair-se com a visualização dos surfistas.
A poucos metros dele, Matilde também observava o mar sem o ver, sentada na areia. Recusou-se a olhar para o seu operador de câmara, mesmo que o seu rosto fosse a única coisa em que conseguia pensar. E mesmo quando falava com ele, evitava encarar-lhe o olhar sob pena de se denunciar. Matilde estava magoada com ele, magoada por ele ter sido tão duro nas palavras que usara para a caracterizar. Para além disso, estava com raiva de si própria por permitir que a opinião dele a afectasse tanto. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de pensar nele, naquele homem forte que a salvara de uma múltipla violação na violência da noite.
Ao longo da vida, Matilde criara um escudo invisível, tornara-se agressiva e antipática para que ninguém gostasse dela, pois assim não correria o risco de gostar de alguém. Quando teve de trabalhar com Leonardo, usou o mesmo plano de sempre, mostrando-se altiva e arrogante para que ele nunca se sentisse atraído ou a tentasse seduzir.
Só que o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Quando ela executou brilhantemente a sua missão de ter mais uma pessoa a odiá-la, a vida fez dele o seu herói e Matilde não conseguiu reagir a isso sem ser como uma parva encantada. Tentou reverter a imagem que deixara, procurou que fossem amigos, mas… as palavras dele daquilo que pensava dela partiram-lhe o coração como se aquele órgão frio como gelo não passasse de uma peça de cristal.
— Matilde?
A voz a chamá-la despertou-a das recordações. Ficou confusa ao perceber que não fora Leonardo quem a chamara.
— Matilde!
Dessa vez, ela olhou para trás, procurando a proveniência da voz e viu alguém que não via há uns dez anos.
— Kevin? — interrogou ela, levantando-se da areia.
Ele sorriu e confirmou.
Matilde sacudiu a areia das calças de ganga e aproximou-se dele.
Leonardo também foi despertado pela voz e ficou a observar a colega a levantar-se e a ir cumprimentar um indivíduo de cabelo alourado que envergava um fato como os surfistas que prestavam provas no meio das ondas.
O vento forte impedia que Leonardo ouvisse o que eles diziam, pois as vozes eram cortadas e as palavras perdiam-se em sílabas estranhas. No entanto, não conseguiu tirar os olhos deles, surpreendendo-se com o sorriso que brotara do rosto de Matilde ao ver o desconhecido, um sorriso que ele nunca a vira fazer a ninguém e do qual tivera uma amostra nos momentos em que a jornalista se sentia fragilizada. Não pôde deixar de sentir inveja, recordando a forma antipática como ela o interpelara quando trabalharam juntos pela primeira vez. Nos últimos tempos, pensava para si se não teria sido demasiado duro nas palavras com ela. Porém, vendo-a naquele instante a esbanjar simpatia, congratulou-se por o ter feito.
O homem sorria e falava alegremente perante o olhar encantado dela. Leonardo reparava nele e considerava ridículo aquele cabelo encaracolado queimado pela exposição ao clima e ao surf. Matilde nunca deixou de sorrir, desde que o vira. Dera-lhe dois beijos e um abraço. Aquela Matilde era uma versão “soft” da jornalista felina, uma versão que inconscientemente lamentava não lhe ter sido apresentada.
A conversa foi interrompida por uma buzina na praia, um sinal dos juízes da prova para indicar o fim das eliminatórias. Matilde olhou para o mar e Kevin disse-lhe qualquer coisa à qual ela assentiu com a cabeça. Voltaram a trocar dois beijos e a jornalista voltou para junto de Leonardo, enquanto o outro se afastou na direcção contrária.
— Vamos? — perguntou ela, retomando o mesmo tom frio e distante.
Leonardo não disse nada, limitando-se a levantar-se e a pegar na câmara.
— Também está a participar? — questionou Leonardo, enquanto ambos desciam até à beira-mar. Matilde olhou-o confusa. Ele explicou. — O teu amigo também é participante da prova?
— Não.
A resposta seca de Matilde provocou arrependimento em Leonardo por ter feito a pergunta, acabando por denunciar a sua curiosidade em relação ao estranho. Já ela, mantendo o semblante fechado, sorriu interiormente por causa dessa curiosidade e propositadamente não lhe contou que Kevin era um amigo de infância, quase como um irmão que ela conhecia desde os cinco anos devido à amizade dos seus pais com os dele. Apesar de serem da mesma idade, nunca aconteceu nada entre eles para além dessa amizade, nem nunca nenhum deles teve essa intensão. Contudo, sabia-lhe bem aquela reacção de Leonardo.

Em Lisboa, a noite caiu trazendo um manto frio e um vento mais intenso. Não havia nuvens no céu, uma constante do dia, mas o ambiente na rua não era convidativo a passeios.
No seu apartamento, Zahra repousava no sofá a olhar para a televisão que passava imagens de um programa qualquer. Sem encontrar nada de interesse, ela desistira de mudar constantemente de canal. Seria difícil encontrar algo interessante, quando a sua mente era fustigada pela luta entre a razão e o coração.
Zahra não conseguia deixar de pensar em Adriana, na noite que haviam passado juntas, no sexo, na paixão… Fizera amor e tivera tanto prazer que só a recordação lhe provocava um arrepio na espinha.
No silêncio dos seus pensamentos, ela não se importava de aceitar que amava Adriana. Aliás, sempre a amara. E também para ela fora doloroso afastar-se da bailarina na adolescência. No entanto, uma relação homossexual não era compatível com os objectivos que tinha para a sua vida. Lamentava muito que nenhum homem fosse capaz de lhe dar metade daquilo que obtinha com Adriana.
Os anos que a separaram da namorada da juventude fizeram-na esquecer… Esquecer não, guardar as recordações das coisas boas que partilharam. Pensou que poderia pegar em tudo o que implicava conviver com Adriana e separar o bom daquilo que não prestava. Só que com Adriana tudo prestava. E naquela noite em que se deixara envolver naquele amor lésbico proibido, sentiu o seu mundo abanar, ficando à beira do desmoronamento.
A sua mente debatia-se entre a relação com uma mulher onde tinha momentos de prazer inigualáveis e a relação com o noivo que nada tinha de recompensante no sexo. Só que com Adriana, não podia casar e ter filhos… Podia casar, só que seria sempre apontada por terceiros. Poderia até ter filhos, mas não seriam dela…
Sentiu-se triste. Sim, José Norton Vila dar-lhe-ia um casamento como sempre sonhara, uma relação convencional, e filhos. Mas a que preço? Teria de pagar o preço de esquecer o prazer. Valeria a pena?
A confusão acercou-se do seu espírito. Já noutra altura da vida se sentira assim, sentira que Adriana a realizava na cama, mas nunca a realizaria na vida. E por isso, por mais doloroso que fosse, Zahra afastou a.
Contudo, naquele tempo, Zahra nunca experimentara o sexo oposto e alimentava a ilusão que na cama um homem a faria esquecer Adriana. Só que isso nunca aconteceu. E naquele momento em que olhava para nenhures, via-se novamente na eminência da mesma escolha e, desta vez, sem a ilusão de que não era lésbica.
Fosse como fosse, nada a obrigava a tomar uma decisão de imediato.
A noite com Adriana fora maravilhosa. Mais uma vez, a recordação provocou-lhe um arrepio na espinha. Meteu a mão dentro das cuecas para se tocar, mas… Não. Não o iria fazer. Tinha uma ideia melhor em mente.
Zahra saltou do sofá e pegou no telemóvel para ligar a Adriana. Mal a outra atendeu, perguntou:
— Estás em casa?
— Sim.
— Posso ir ter contigo?
— Claro.
Cerca de uma hora depois, Adriana abriu a porta do apartamento a uma Zahra deslumbrante que se aprontara de forma a retribuir a imagem apelativa que a amante lhe oferecera na última noite.
Zahra entrou e beijou-a com paixão, atirando a porta que se fechou com estrondo. Trazia uma excitação que evoluíra desde que tomara a decisão de ir ao encontro da bailarina.
Adriana já a aguardava apenas com uma camisola larga e comprida que poderia ser despida facilmente e nem vestira cuecas. Entre beijos, conduziu a mulher que tanto amava para o quarto. Nua, atirou-se para cima da cama e ficou a observar Zahra a executar algo parecido com um striptease.
A violinista sabia que tinha de tomar uma decisão. Mais tarde ou mais cedo teria de optar entre assumir a homossexualidade e ficar com Adriana ou manter a fachada heterossexual e casar com José.
Teria de optar, mas não seria naquela noite.
Naquela noite, Zahra só queria fazer amor com Adriana. O mesmo amor intenso, o sexo apaixonado partilhado no apartamento da violinista. Estava sedenta do corpo da bailarina, tal como a outra do dela. Saciaram-se vezes e vezes até repousarem abraçadas na cama.
Adriana sucumbiu à intensidade da paixão e adormeceu com a cabeça encostada ao corpo da amante.
Zahra acariciou-lhe o cabelo caído sobre si, afastando as pontas que lhe picavam ligeiramente a pele. Estava exausta, uma sensação de cansaço agradável após tanta paixão, tanto suor que se misturara entre os corpos de ambas, a saliva partilhada nos beijos profundos, o prazer que dera e recebera.
Não tinha sono, mas também não lhe apetecia sair dali. Em casa ninguém a esperava. Acariciou o rosto adormecido de Adriana e beijou-lhe a testa. Apagou a única luz do quarto e esperou o sono.
Quando abriu os olhos, Zahra surpreendeu-se com a claridade do exterior que entrava impiedosamente pela janela. Julgou ter acabado de adormecer, mas afinal dormira longas horas.
A segunda surpresa foi não encontrar Adriana a seu lado. Levantou-se e passeou o corpo nu pela casa na procura da bailarina. Rapidamente constatou que estava sozinha. Regressou ao quarto e reparou num pedaço de papel deixado junto ao candeeiro. Pegou nele e leu: “Estavas tão linda a dormir que não fui capaz de te despertar, mesmo tendo cedido à tentação de te saborear os lábios. Tive de sair para um compromisso ao almoço. Fica o tempo que quiseres e usa a casa como se fosse tua. Estarei de volta ao fim da tarde. És maravilhosa. Amo-te! Adriana.”
Ao terminar de ler, Zahra percebeu que estava a sorrir. Não seria possível esperar por ela. Mesmo tendo-a deixado à vontade, Zahra não quis permanecer ali sem Adriana, por isso, vestiu-se rapidamente para se ir embora.
Antes de sair, virou o papel da mensagem ao contrário e pegou numa caneta para escrever: “Obrigado pela noite. Não posso ficar até voltares. Depois ligo-te.”
A caneta ia a deslizar para um “T” de “Também te amo”, mas parou no traço horizontal do “T” e transformou-o no horizontal superior de um “Z” e assinou “Zahra”. Sentia que também a amava, mas ainda não tinha coragem para o assumir.

O compromisso de Adriana para o almoço era com Leonardo. Combinara encontrar-se com ele num restaurante na Avenida da Republica para conversarem.
Como o tempo estava agradável sem frio em demasia, Adriana optou por ir a pé até ao local. Cerca de vinte minutos a um ritmo tranquilo, desde a rua onde vivia até meio daquela avenida.
Enquanto caminhava, pensava em Zahra que ficara a dormir na sua cama. Teve que se forçar a sair do apartamento sem acordar a outra, antes que o desejo a fizesse entrar na cama novamente.
Se pudesse escolher, Adriana não teria deixado Zahra para ir almoçar com Leonardo. Porém, seria muito incorrecto voltar a dispensar o amigo, uma vez que o almoço fora combinado antes de Zahra lhe ter ligado para saber se podia ir a sua casa.
Leonardo chegara primeiro ao restaurante e escolhera uma mesa perto da janela. O carro ficara estacionado numa rua transversal à avenida, pois encontrar um lugar por ali era complicado. Absorvido nos seus pensamentos, nem viu a amiga passar na rua.
Adriana entrou no restaurante combinado e procurou Leonardo com o olhar. No exacto momento em que o viu, um empregado interpelou-a para saber se pretendia mesa. Com o seu sorriso encantador, ela agradeceu e indicou a mesa do amigo.
Ao vê-la, Leonardo reparou logo no rosto feliz dela, onde parecia existir um brilho ténue que ia muito mais além do sorriso que ela lhe oferecia. Levantou-se da cadeira e recebeu-a com dois beijos na face.
— Estás com um ar muito feliz. — constatou ele.
— Eu estou feliz! — afirmou ela, sentando-se na cadeira vaga. — Estou mesmo muito feliz.
— Conta-me tudo. — pediu ele, apesar de interiormente não querer conhecer a verdadeira razão da felicidade, pois seria a mesma razão que o afastaria.
— Estou apaixonada. — disse Adriana num suspiro alegre. — Novamente apaixonada por aquela que é a mulher da minha vida. — Encolheu os ombros. — Bom… Acho que nunca deixei de estar apaixonada por ela.
— A violinista?
Adriana assentiu com a cabeça e completou:
— A Zahra.
— Como aconteceu isso?
O empregado impediu o relato imediato. Porém, logo que fizeram os pedidos, Adriana relatou o jantar em casa de Zahra e como ambas se haviam envolvido. Leonardo forçava o sorriso, mostrando-se feliz pela amiga e procurando esconder a mágoa que o consumia por cada vez ser maior a certeza do afastamento.
Adriana continuou a contar, passando para os pormenores do encontro da noite anterior. Falava como se partilhasse a história com uma irmã, muito longe de suspeitar sequer daquilo que ele sentia por ela. A única parte da história que ficou por contar foi que Zahra ficara a dormir na sua casa.
— Mas, ela não está noiva? — questionou Leonardo, provocando algum arrefecimento da felicidade de Adriana.
— Sim… Mas, pediu um tempo para resolver o assunto. — O sorriso voltou a abrir. — Leo, estou tão feliz. Acho que desta vez é que vai ser. Desta vez, tenho esperança que seja para o resto da vida.
— O resto da vida é muito tempo. — lembrou ele sem pensar.
Adriana perdeu o sorriso e questionou:
— Que se passa contigo? Parece que estás a azarar.
— Não. Desculpa, Adriana!
Adriana voltou a sorrir e recriminou-se:
— Desculpa! Sou uma parva. Estou para aqui a falar da minha felicidade e, se calhar, tu estás com algum problema.
— Não…
— Que se passa, Leo? Trabalho ou coração?
Leonardo olhou para ela.
— Não é nada.
— Vá lá, Leo. Nunca tivemos segredos.
— Coração. — retorquiu ele num desabafo.
— Também estás apaixonado? Que bom. — congratulou-se ela. Ao ver o semblante sombrio dele, perdeu o entusiasmo. — Não é recíproco?
— Ela não sabe. — explicou ele, pensando “tu não sabes”.
— Devias contar-lhe.
— Não vale a pena. Sei que não é recíproco.
— Como é que sabes?
Porque tu já mo disseste, recordou ele mentalmente. Ela já lhe expressara diversas vezes que a amizade colorida nunca seria mais que sexo pelo sexo.
— Confia em mim. Eu sei.
— Lamento por ti.
Leonardo esboçou um sorriso e contrapôs:
— Não penses nisso. Não é nada importante e não quero que isso estrague a tua felicidade.
Adriana acariciou-lhe a mão e sorriu-lhe. Ele retribuiu a carícia e indagou:
— Sendo assim, vamos afastar-nos de novo?
— Não queria que assim fosse. — negou ela, retirando a mão. — Acho que podemos continuar amigos. Sei que nos afastamos sempre um bocado nestas alturas, mas podemos fazer diferente, desta vez.
— Voltar ao preto e branco.
— Sim. — concordou ela, rindo com prazer. — Não pode ser uma amizade colorida. — Franziu o rosto. — Não penses que não o lamento. Vou sentir a falta do sexo contigo. Só que seria uma traição à relação com a Zahra. Não quero isso. Compreendes?
— Claro que sim.
— Achas que conseguimos continuar amigos?
— Veremos. — A resposta pareceu entristecer a bailarina. Leonardo sorriu. — Estou a brincar contigo. Claro que conseguimos.
Na realidade, Leonardo sabia o quanto iria ser doloroso estar com Adriana na presença de uma namorada. Seria dilacerante para si, ver a felicidade da amiga com Zahra, assistir a momentos de trocas de carinho entre elas, estando ele tão apaixonado por Adriana. Por isso, iria afastar-se. Só que não iria ser de forma abrupta. Iria fazê-lo de forma progressiva.
— Tenho outro assunto para conversar contigo. — interrompeu ela os seus pensamentos. — O noivo dela convidou-nos para jantar com eles na Sexta. — O rosto de Leonardo revelou todo o desinteresse em tal evento. — Preciso que venhas. Não quero levantar suspeitas, antes de a Zahra tomar a iniciativa de acabar o noivado.
— Mas, ele suspeita de alguma coisa?
— Não. Mas não quero que pareça que o estou ou o estamos a evitar. Além disso, acho que ele continua a pensar que namoramos, daí que seja estranho que apareça lá sozinha.
— Então queres que me faça passar por teu namorado?
— Não! — recusou ela de forma peremptória. — Isso não. Podia magoar a Zahra, se simulássemos o namoro. Ele que pense o que quiser. Só que será estranho jantar só com eles. Daí que me desse jeito o meu amigo querido.
Seria impossível recusar algo àquele tom meloso. Leonardo acabou por concordar em acompanhá-la ao jantar em casa do pianista José Norton Vila.
Fim do capítulo

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