Capítulo IV
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A redação da estação de televisão era um local com pessoas sempre em movimento e em função vinte e quatro horas por dia. Poderia ser mais calmo em alguns horários, mas havia sempre alguém a trabalhar ali.
Naquela tarde, a redação estava em pleno funcionamento com os jornalistas em actividade. As secretárias abarrotavam de papéis, os computadores tinham os teclados fustigados e as impressoras debitavam folhas impressas. A maior parte das pessoas estava sentada e só umas quantas andavam de um lado para o outro, trocando ideias ou procurando opiniões junto dos colegas.
Aquele enorme espaço não tinha paredes interiores, apenas mesas e móveis que pareciam amontoados ao acaso, mas que permitiam um carreiro entre a entrada e a porta do director de informação. Foi por essa porta que saiu Matilde Leão.
Na redação todos a conheciam. Contudo, a sua figura era tão deslumbrante que deixava sempre homens e mulheres a olhá-la, uns com desejo, outros com inveja.
Matilde Leão era jornalista e tinha trinta e quatro anos. O rosto condizia com o nome, pois tinha sempre um semblante felino. Olhos azuis grandes, boca bem delineada e um nariz ligeiramente empinado, tudo emoldurado pelos longos cabelos louros que nunca surgiam sem estarem cuidadosamente penteados de uma forma natural.
O caminhar dela era poderoso, capaz de abalroar quem não se desviasse. E se, como acontecia naquele instante, estivesse zangada, então levaria meio mundo na sua frente.
Raramente se lhe via um sorriso e quando ele aparecia vinha associado a escárnio, ironia, hipocrisia ou desprezo. Matilde não cultivava simpatias, mas tinha o respeito de todos. Era uma mulher que se amava ou odiava. E ela tinha tendência para levar as pessoas para a segunda.
Matilde atravessou a redação com toda a fúria empregue nas passadas. A sua imagem não variava muito, sempre com calças de ganga que lhe fizessem justiça às pernas e casaco formal, estilo blazer, o qual revelava parcialmente as camisolas ou camisas que usava por baixo. A forma como toda a roupa lhe caía bem era irritante e provocava muita inveja no sector feminino da estação.
Qual leoa a avançar pela savana, Matilde arrastou papéis das secretárias mais próximas, devido à deslocação do ar da sua passagem. A sua fúria devia-se ao facto de lhe ter sido atribuída a missão de entrevistar um economista americano, candidato ao prémio Nobel de Economia.
Matilde já trabalhava na estação desde os seus vinte e seis anos. A sua ambição tinha o lugar de apresentadora das notícias das oito da noite como objectivo. Já fora pivot do noticiário naqueles horários que quase ninguém vê e acabava atirada para reportagens de rua ou entrevistas.
Ela não tinha dúvidas, a culpa pelo congelamento da sua ascensão era da responsabilidade da mulher do director, também ela funcionária do canal televisivo na apresentação de programas, a qual achava que sempre que ele dava uma oportunidade a Matilde era com o objectivo de a levar para a cama. Assim, para evitar aborrecimentos em casa, Matilde era relegada para trabalhos de menor importância.
Quando Matilde desapareceu da redação, batendo com a porta, todos os olhares se voltaram a concentrar no trabalho. Possessa, desceu as escadas a pensar como detestava aquele tipo de entrevistas, pois não tinha o mínimo interesse em Economia e tinha de pensar em perguntas a um velho que provavelmente iria olhar para ela a babar-se e a tentar ser sedutor. Para acentuar a sua raiva, Matilde estava atrasada para a hora marcada no hotel onde o senhor ficara hospedado nesta sua visita a Portugal e o operador de imagem que habitualmente a acompanhava estava doente, pelo que ainda tinha de procurar substituto para filmar a entrevista.
A tarde tinha Sol, só que não fazia grande efeito a atenuar o frio na rua. Não era agradável estar no exterior, mas Leonardo teve que se aguentar para saciar o seu vício de tabaco.
Fumando tranquilamente um cigarro à porta do emprego, Leonardo pensava em Adriana, com quem não voltara a falar nos últimos dias. A amiga estava estranha, desde aquele concerto de música clássica, quando reencontrou uma antiga paixão dos tempos de escola. Ali sozinho com os seus pensamentos, ele sentiu ciúmes daquela violinista que tivera um lugar tão importante no coração de Adriana, um lugar que ele nunca conseguira, apesar da grande amizade sem barreiras que partilhava com a bailarina. E ao que parecia, continuava a ter, pois Adriana não voltara a estar com ele desde aquela noite do concerto, o que não era habitual após uma separação longa como fora a ida dela a Nova Iorque.
Os pensamentos dele foram interrompidos por uma voz de mulher:
— Você é que é o Leonardo Velasques?
Leonardo olhou para trás e reconheceu Matilde Leão.
— Sim. — confirmou, espantado por ela lhe dirigir a palavra pela primeira vez em vários anos a trabalhar na mesma empresa.
— Venha! Preciso de um operador de imagem. Traga o carro!
O suceder de ordens irritou Leonardo. Porém, manteve a calma e deu uma última baforada no cigarro.
— Veja se se despacha, sim?!
Leonardo olhou-a com frieza, o que ela desprezou.
— Vamos tirar alguém da forca? — interrogou ele, deitado o cigarro fora.
A pergunta não obteve resposta.
O carro estava estacionado no parque do canal televisivo, logo ao lado do edifício. Leonardo confirmou que tinha o equipamento para as filmagens no porta-bagagem e entrou para o lugar do condutor.
Ao arrancar, o porteiro levantou a cancela do parque e ele virou à direita para parar dez metros à frente, à porta do prédio, onde Matilde o esperava impaciente.
Assim que se sentou a seu lado, Matilde fechou a porta e ordenou a Leonardo:
— Siga para o hotel Alif!
— Você deve pensar que isto é um táxi. — ripostou Leonardo, perdendo a paciência com ela.
— Olhe! Estamos atrasados, percebe?
— E os paizinhos não a ensinaram a pedir “por favor”? — questionou ele, arrancando com o automóvel.
— Poupe-me. — exigiu ela, abrindo a mala e retirando um bloco. — Não estou com paciência para discutir regras de etiqueta.
Leonardo optou por não dizer mais nada e conduziu pelas ruas de Lisboa com o hotel como destino.
A seu lado, Matilde escrevinhava no bloco, fazendo apontamentos das perguntas para a entrevista.
O silêncio entre eles era tão incomodativo que Leonardo aumentou o volume do rádio que mal se ouvia.
— Importa-se? — questionou Matilde, apontando para o rádio. — Quero concentrar-me e o som do rádio está a incomodar-me.
— Você saiu-me cá uma prima-dona…
— Olhe…
Leonardo olhou para ela e levantou o dedo, travando-lhe as palavras.
— É melhor concentrar-se nas perguntas.
Matilde fulminou-o com o olhar, mas não disse mais nada. E Leonardo voltou a baixar o volume do rádio.
A viagem demorou cerca de vinte minutos. Encontrar um lugar para estacionar é que se revelou mais complicado. E a jornalista estava cada vez mais impaciente, vendo os minutos a passar.
— Pare ali! — ordenou, apontado para a frente. — Eu vou andando. Quando você conseguir arrumar o carro, vai lá ter.
Nesse instante, um senhor aproximou-se de um automóvel estacionado uns metros mais à frente.
— Tenha lá calma que já temos ali lugar.
Assim que Leonardo desligou a ignição, Matilde saiu do carro com a mala debaixo do braço. Ele abandonou o seu lugar e foi à traseira do automóvel buscar o equipamento de filmagem.
O céu ficara cinzento e a ameaça de chuva pairava no ar. Nos jardins à volta do Campo Pequeno as árvores abanavam ao sabor do vento, por entre as quais algumas pessoas caminham. O som dos automóveis e das buzinas polvilhavam o ambiente poluído num misto de som e ar. No lado oposto da avenida, na esquina entre aquela e a João XXI, erguia-se o edifício do Hotel Alif.
Matilde caminhava com pressa, indiferente ao colega. Leonardo, carregando a camara de filmar numa mão e o tripé na outra, não a deixava afastar, mas também não se preocupava em seguir ao ritmo dela.
Contornaram a esquina e entraram pela porta do hotel. Leonardo deixou para a jornalista a tarefa de se dirigir à recepção e pedir para ser anunciada ao visado. Enquanto ela o fez, ele ficou no átrio a observá-la e a pensar que ela tinha tanto de bela como de antipática.
O recepcionista telefonou para o quarto de hotel respectivo. Informou o hóspede da presença da jornalista e recebeu a autorização para que eles subissem. Matilde voltou-se para Leonardo e fez-lhe sinal com o dedo para que ele a seguisse. Ele voltou a pegar no equipamento e entrou com ela no elevador.
O transporte subiu do piso 0 ao piso 7. Nem a jornalista, nem o operador de imagem abriram a boca durante a subida, deixando que o som da música ambiente fosse o único audível ali.
As portas abriram-se e Matilde saiu imponente, caminhando com a mesma pressa anterior e procurando com os olhos o número do quarto que lhe haviam indicado. Ao encontrá-lo, parou junto à porta e bateu.
Leonardo parou a seu lado e viu um individuo de feições e tez indianas abrir a porta. O homem na casa dos quarenta anos apresentou se como sendo agente do economista e convidou-os a entrar. Falava inglês com sotaque.
Matilde e Leonardo atravessaram o pequeno corredor e encontraram um outro homem, talvez na casa dos sessenta anos, sentado na poltrona do amplo quarto de hotel. Ao vê-los, levantou-se e cumprimentou-os com um aperto de mão.
— Vai montando isso aí! — ordenou Matilde a Leonardo, falando como se ele fosse um inexperiente operador.
Leonardo respirou fundo para não lhe responder, evitando assim uma cena à frente do entrevistado.
Matilde sentou-se no sofá colocado perpendicularmente à poltrona. Enquanto Leonardo preparava o equipamento para filmar, Matilde falava um inglês perfeito com o americano, expondo as linhas gerais da entrevista.
Quando a câmara ficou montada no tripé, Leonardo testou o ângulo de filmagem e enquadrou um plano em que se via o americano de frente e Matilde de lado, quase de costas para o aparelho. Depois, chamou:
— Ó jornalista! Já podemos gravar.
Matilde olhou-o zangada, mas foi a vez de ela não dizer nada. Tornou a olhar para o entrevistado e iniciou aquilo que a trouxera ali.
A orquestra onde Zahra tocava terminara mais um ensaio. Os vários músicos levantaram-se dos seus lugares e dispersaram. A maior parte levava consigo os instrumentos.
José Norton Vila abandonou o piano e aproximou-se de Zahra que guardava o seu violino no estojo.
— Queres ir jantar lá a casa, hoje? — convidou ele.
— Podemos deixar para outro dia? Estou com uma dor de cabeça…
O pianista sorriu e concordou. A seguir, um outro assunto surgiu na sua mente:
— A tua amiga já te ligou?
— Que amiga?
— Aquela colega de escola que te veio cumprimentar depois do concerto, na outra noite.
Zahra recordou-se do convite para jantarem todos, o qual ficara no ar nesse indesejável reencontro.
— Não, não me chegou a ligar.
— Então talvez fosse melhor ligares tu.
Zahra encolheu os ombros e disse:
— Se ela não ligou, lá terá as suas razões. Já fizemos o convite, agora esperamos.
— Não me pareces muito interessada nesse convívio. — notou ele.
Mais uma vez, Zahra encolheu os ombros, desvalorizando a questão.
— É uma antiga colega de escola, nada mais. Se ela está ou não interessada num jantar, é irrelevante para mim.
Observando-a a arrumar tudo, Norton Vila concluiu:
— Talvez não devesse ter feito o convite.
Zahra encarou-o com um sorriso e retorquiu:
— Talvez não o devesses ter feito, mas também não fizeste mal em o fazer. Não penses mais nisso, se ela quiser, ela telefona.
Nesse instante, o maestro Rudolph Norton Vila aproximou-se de ambos.
— Excelente! — elogiou. — Vocês estão maravilhosos nas vossas prestações.
José sorriu com agrado.
— Obrigado, maestro! — agradeceu Zahra, meio envergonhada.
— Vocês têm uma sintonia perfeita. — continuou o maestro, procurando com aquela frase subentender uma sintonia paralela no campo amoroso.
— Sim, pai, nós nascemos um para o outro. — confirmou José, olhando para a noiva.
Zahra sorriu num jeito inocente, não conseguindo evitar que na sua mente passasse a recordação dos orgasmos simulados.
— No próximo fim-de-semana, vocês podiam ir lá almoçar. — convidou Rudolph, olhando para o filho. — A tua mãe iria gostar muito.
Tanto José como Zahra concordaram com a sugestão.
O maestro olhou para o relógio, despediu-se do filho e da futura nora e desapareceu para os bastidores do palco.
— Zahra!
— Sim?
— Não queres mesmo ir lá a casa, esta noite? Dormes lá.
— Não, querido. Estou a precisar de dormir mesmo.
Vencido, o pianista despediu-se da noiva com um beijo apaixonado e deixou-a só no palco do ensaio.
Sentada na cadeira, Zahra guardou o violino no estojo com todo o cuidado. Todo aquele processo era delicado e feito de forma automática, pois ao longo da sua carreira de violinista, Zahra já executara aquela tarefa centenas de vezes. E enquanto o fazia, pensava em Adriana e que até gostava que ela telefonasse. Porém, fora Zahra quem ficara de ligar e não pensava fazê-lo. Zahra queria tanto voltar a ver Adriana quanto desejava que a outra desaparecesse novamente do seu mundo.
Não muito longe dali, nos corredores dos bastidores, Rudolph Norton Vila caminhava devagar, pensando no alinhamento do próximo concerto. Esse pensamento foi interrompido pela visão de uma jovem que fazia também parte da orquestra, a qual falava alegremente ao telemóvel.
A jovem era Magdalena Popov, uma moldava de quinze anos que tocava flauta na orquestra. Rudolph, apesar dos seus sessenta e um anos, sentia um fascínio pela rapariga que lhe estimulava os pensamentos mais eróticos. Sim, dizia ele a si mesmo, tinha idade para ser seu avô, mas isso não impedia que a rapariga o atraísse.
Magdalena nascera na Moldávia e viera para Portugal com os pais aos três anos de idade. Estudara música desde muito nova e entrara para a orquestra cinco meses antes para um estágio. Desde que a vira pela primeira vez, Rudolph sentia aquele desejo pecaminoso de um dia a poder meter numa cama. No entanto, sempre guardou esses desejos para si.
Encostada à parede, a jovem conversava e ria, passando a mão livre pelos longos cabelos negros. Tinha uma imagem mais velha que a real idade, pois vestia sempre casaco e calças, recusando sempre vestuário mais comum às adolescentes. O rosto era inocente e sempre muito bem maquilhado. Era notório o seu esforço por parecer mais velha.
O maestro sempre controlara a atracção que sentia pela miúda. No entanto, desde que a vira na tarde anterior com o namorado, a sua revolta foi tal que o bom senso se perdeu.
Magdalena namorava com um angolano que tocava contrabaixo e pertencia igualmente à orquestra. Ele era quatro anos mais velho e entrara para lá por via de um protocolo que a direcção musical tinha com um patrocinador de Angola.
Rudolph detestava pretos e tê-los na orquestra era, segundo as suas palavras, como uma nódoa num tecido de luxo. Por sua vontade não permitiria “gente de cor” na sua imaculada orquestra, mas o peso do dinheiro falava mais alto e a vontade dos patrocinadores tinha de ser respeitada.
Na verdade, preto ou branco, o jovem angolano tinha qualidade suficiente para ser membro daquele grupo de músicos. Para além disso, era simpático e cordial, ao ponto de todos os colegas gostarem dele. E Magdalena deixou-se encantar ainda mais.
Ao passar pela rapariga, Rudolph parou e fez-lhe sinal que precisava de falar com ela. Magdalena despediu-se do telefonema e acompanhou o maestro ao seu gabinete.
— Então, Magdalena, tem gostado deste seu estágio? — interrogou ele.
— Sim. — respondeu ela, denotando o ligeiro sotaque que nunca perdera. — Gosto muito, senhor. E espero que estejam a gostar de mim também.
Rudolph olhou para a rapariga parada a meio do gabinete que o olhava de forma ingénua. Era tão excitante que até doía.
— Sim, sim. — confidenciou num tom distante. — O seu estágio é de…
— Seis meses. — completou ela a deixa.
— Quer dizer que em breve teremos de decidir se a contratamos.
Magdalena sorriu confiante, esperançada num bom veredicto.
Rudolph deu alguns passos até ela, ficando diante da jovem.
— Sabe, Magdalena, isto está muito complicado. — começou ele, mirando-a da cabeça aos pés. — Temos tido cortes nos subsídios, há patrocinadores a querer cortar os apoios… Enfim. Por vezes, a qualidade do artista não chega para conseguir o lugar.
— Compreendo, senhor Norton Vila. — suspirou, revelando alguma tristeza.
— Confesso que teria muita pena em não a contratar. — prosseguiu o maestro, colocando a sua mão no ombro da rapariga.
Magdalena voltou a sorrir e disse:
— Tenho a certeza que fará os possíveis para que eu fique.
— Sim, farei. — confirmou. — Mas, tenho de ter garantias… Ao empenhar-me tanto em manter alguém, acabo por ficar em risco se alguma coisa correr mal.
— Tudo farei para não o desiludir. — prometeu Magdalena.
Rudolph levou a mão do ombro para o rosto dela e questionou:
— Tudo, Magdalena?
O olhar da flautista encarava o do maestro com inocência, o que o levou a duvidar se ela perceberia os reais intentos dele.
— Empenhar-me-ei para que nunca se desiluda comigo.
Rudolph sorriu satisfeito com as suas palavras e por ela não se ter retraído quando lhe tocou o rosto.
— Ser membro de uma orquestra exige muito de um músico. A Magdalena ainda é muito nova…
— Eu quero muito continuar aqui! — afirmou ela. O olhar perdera alguma inocência e pareceu mais perspicaz que o esperado. — Pode pôr-me à prova.
Rudolph deixou a mão descer até ao pescoço. Magdalena nem se mexia, nem tirava os olhos dos dele.
— Não sei se estará a perceber ao ponto a que terá de chegar o empenho. — insistiu Rudolph, deixando a mão cair para o primeiro botão da camisa. Desapertou-o, tentando não revelar a excitação e a surpresa por ela não perder a postura e aceitar tudo com normalidade.
— Sim. Já percebi, senhor Norton Vila. — confirmou ela num tom que misturava rudeza com provocação.
— Por favor, trate-me por Rudolph. — pediu ele, desapertando os primeiros botões da camisa dela. — Pelo menos, a sós, pode chamar me Rudolph.
Na sua suposta inocência de quinze anos, Magdalena fora astuta ao perceber o que ele pretendia e a melhor forma de jogar com isso. Quando sentiu a mão do maestro acariciar-lhe o peito, ela esboçou um gemido e avisou:
— Sou virgem e pretendo continuar a sê-lo até casar.
O maestro sentiu as palavras como uma recusa. No entanto, Magdalena desapertou os restantes botões da camisa e completou:
— Mas, penso que nos podemos entender sem colocar em causa minha virgindade.
Nesse instante, o som do telemóvel do maestro ecoou pelo gabinete. A mão dele abandonou o peito da jovem moldava e apressou-se a atender. Magdalena aproveitou para voltar a apertar os botões e compor a camisa dentro das calças.
— Só um momento. — pediu ele a quem o chamara ao telemóvel. Tapou o microfone do aparelho e olhou para ela. — Tenho de atender esta chamada. Falaremos depois.
Magdalena assentiu e abandonou o gabinete.
A tarde em Lisboa continuava fria e começava a dar lugar à noite.
No Hotel Alif, a entrevista durara cerca de duas horas, as quais se traduziriam em pouco menos de trinta minutos na emissão do canal televisivo.
Matilde e Leonardo abandonaram o quarto de hotel sem trocar uma silaba. E foi só no elevador que ela disse:
— Você, quando voltar a dirigir-me a palavra, seja mais educado.
— Está a falar de quê? — questionou Leonardo.
— “Ó jornalista”. — citou ela, recordando-lhe a forma como ele a chamara antes de começar a filmar.
— Você não é jornalista? — interrogou ele, meio divertido.
— Sou! — afirmou Matilde com dureza. — Mas, não é forma de me dirigir a palavra, ainda para mais à frente de um entrevistado. — Leonardo ia a dizer algo, mas ela não deixou. — D. Matilde ou…
— Colega?
— Colegas são as putas. — ripostou ela, irritada.
— Acha que a vou tratar por D. Matilde?
— Sou mais velha que você e tenho um estatuto superior ao seu.
A arrogância dela enervou Leonardo que se preparava para responder à letra, quando o elevador parou e as portas abriram.
Ao atravessarem o átrio, Leonardo disse:
— Há putas mais educadas que você.
— Você lá deve saber, se frequenta o meio. — redarguiu Matilde com desdém.
— Não, não frequento o meio. — continuou ele. — Mas, você se continua assim, ainda um dia lá pode ir parar.
Matilde travou junto da porta do hotel e encarou-lhe o olhar irritada.
— Que quer isso dizer?
— Quer dizer que arrogante e prepotente como você é, se um dia a vida lhe corre mal…
— Esteja calado! — ordenou ela. — Só diz disparates. É por isso que você não passa de um operador de câmara.
— Nem vou perder mais tempo a falar consigo. — ripostou ele, virando-lhe as costas e seguindo pelo passeio com o equipamento de filmar em ambas as mãos.
O silêncio manteve-se durante quase toda a viagem de carro, no regresso à estação, onde Matilde teria de editar as imagens da entrevista para serem passadas na hora agendada. Esse silêncio foi interrompido pela reacção da jornalista a uma notícia que se ouviu no rádio, acerca das pretensões ao direito à adopção de crianças por casais homossexuais.
— Este mundo está perdido! — afirmou sem se dirigir a Leonardo. — Onde já se viu, fufas e paneleiros a adoptar crianças?
— Têm tanto direito como os heterossexuais. — argumentou ele.
— Deixam de ter direitos, quando se tornam aberrações. — insistiu ela. — Se eu mandasse, encostava-os todos a uma parede.
— Você é surpreendente! — exclamou Leonardo com ironia. — Tem uma mentalidade do século passado. Só falta dizer que a homossexualidade é uma doença.
— Não. Não é uma doença. É uma deficiência. — contrapôs.
Leonardo abanou a cabeça, incrédulo.
— Você tem muitos defeitos, mas confesso que não a imaginava homofóbica.
— E você deve ter amigos panascas para se sentir tão ofendido com a minha opinião.
— Tenho amigos homossexuais que são excelentes pessoas, simpáticas e tão normais quanto eu e você.
— Se você também for, é natural que se compare. Agora, não me compare a mim.
— Não sou, mas se fosse não tinha problema em o assumir, mesmo tendo de enfrentar gente obtusa como você.
A chegada ao parque da estação de televisão findou o diálogo. Mal o carro foi estacionado, Matilde saiu e ordenou a Leonardo que se apressasse a deixar a filmagem no departamento de edição para ela poder completar o trabalho.
Leonardo não lhe respondeu. E enquanto a via a afastar-se, pensava em como ela era tão estúpida por ter uma opinião tão retrograda.
Naquela tarde, a redação estava em pleno funcionamento com os jornalistas em actividade. As secretárias abarrotavam de papéis, os computadores tinham os teclados fustigados e as impressoras debitavam folhas impressas. A maior parte das pessoas estava sentada e só umas quantas andavam de um lado para o outro, trocando ideias ou procurando opiniões junto dos colegas.
Aquele enorme espaço não tinha paredes interiores, apenas mesas e móveis que pareciam amontoados ao acaso, mas que permitiam um carreiro entre a entrada e a porta do director de informação. Foi por essa porta que saiu Matilde Leão.
Na redação todos a conheciam. Contudo, a sua figura era tão deslumbrante que deixava sempre homens e mulheres a olhá-la, uns com desejo, outros com inveja.
Matilde Leão era jornalista e tinha trinta e quatro anos. O rosto condizia com o nome, pois tinha sempre um semblante felino. Olhos azuis grandes, boca bem delineada e um nariz ligeiramente empinado, tudo emoldurado pelos longos cabelos louros que nunca surgiam sem estarem cuidadosamente penteados de uma forma natural.
O caminhar dela era poderoso, capaz de abalroar quem não se desviasse. E se, como acontecia naquele instante, estivesse zangada, então levaria meio mundo na sua frente.
Raramente se lhe via um sorriso e quando ele aparecia vinha associado a escárnio, ironia, hipocrisia ou desprezo. Matilde não cultivava simpatias, mas tinha o respeito de todos. Era uma mulher que se amava ou odiava. E ela tinha tendência para levar as pessoas para a segunda.
Matilde atravessou a redação com toda a fúria empregue nas passadas. A sua imagem não variava muito, sempre com calças de ganga que lhe fizessem justiça às pernas e casaco formal, estilo blazer, o qual revelava parcialmente as camisolas ou camisas que usava por baixo. A forma como toda a roupa lhe caía bem era irritante e provocava muita inveja no sector feminino da estação.
Qual leoa a avançar pela savana, Matilde arrastou papéis das secretárias mais próximas, devido à deslocação do ar da sua passagem. A sua fúria devia-se ao facto de lhe ter sido atribuída a missão de entrevistar um economista americano, candidato ao prémio Nobel de Economia.
Matilde já trabalhava na estação desde os seus vinte e seis anos. A sua ambição tinha o lugar de apresentadora das notícias das oito da noite como objectivo. Já fora pivot do noticiário naqueles horários que quase ninguém vê e acabava atirada para reportagens de rua ou entrevistas.
Ela não tinha dúvidas, a culpa pelo congelamento da sua ascensão era da responsabilidade da mulher do director, também ela funcionária do canal televisivo na apresentação de programas, a qual achava que sempre que ele dava uma oportunidade a Matilde era com o objectivo de a levar para a cama. Assim, para evitar aborrecimentos em casa, Matilde era relegada para trabalhos de menor importância.
Quando Matilde desapareceu da redação, batendo com a porta, todos os olhares se voltaram a concentrar no trabalho. Possessa, desceu as escadas a pensar como detestava aquele tipo de entrevistas, pois não tinha o mínimo interesse em Economia e tinha de pensar em perguntas a um velho que provavelmente iria olhar para ela a babar-se e a tentar ser sedutor. Para acentuar a sua raiva, Matilde estava atrasada para a hora marcada no hotel onde o senhor ficara hospedado nesta sua visita a Portugal e o operador de imagem que habitualmente a acompanhava estava doente, pelo que ainda tinha de procurar substituto para filmar a entrevista.
A tarde tinha Sol, só que não fazia grande efeito a atenuar o frio na rua. Não era agradável estar no exterior, mas Leonardo teve que se aguentar para saciar o seu vício de tabaco.
Fumando tranquilamente um cigarro à porta do emprego, Leonardo pensava em Adriana, com quem não voltara a falar nos últimos dias. A amiga estava estranha, desde aquele concerto de música clássica, quando reencontrou uma antiga paixão dos tempos de escola. Ali sozinho com os seus pensamentos, ele sentiu ciúmes daquela violinista que tivera um lugar tão importante no coração de Adriana, um lugar que ele nunca conseguira, apesar da grande amizade sem barreiras que partilhava com a bailarina. E ao que parecia, continuava a ter, pois Adriana não voltara a estar com ele desde aquela noite do concerto, o que não era habitual após uma separação longa como fora a ida dela a Nova Iorque.
Os pensamentos dele foram interrompidos por uma voz de mulher:
— Você é que é o Leonardo Velasques?
Leonardo olhou para trás e reconheceu Matilde Leão.
— Sim. — confirmou, espantado por ela lhe dirigir a palavra pela primeira vez em vários anos a trabalhar na mesma empresa.
— Venha! Preciso de um operador de imagem. Traga o carro!
O suceder de ordens irritou Leonardo. Porém, manteve a calma e deu uma última baforada no cigarro.
— Veja se se despacha, sim?!
Leonardo olhou-a com frieza, o que ela desprezou.
— Vamos tirar alguém da forca? — interrogou ele, deitado o cigarro fora.
A pergunta não obteve resposta.
O carro estava estacionado no parque do canal televisivo, logo ao lado do edifício. Leonardo confirmou que tinha o equipamento para as filmagens no porta-bagagem e entrou para o lugar do condutor.
Ao arrancar, o porteiro levantou a cancela do parque e ele virou à direita para parar dez metros à frente, à porta do prédio, onde Matilde o esperava impaciente.
Assim que se sentou a seu lado, Matilde fechou a porta e ordenou a Leonardo:
— Siga para o hotel Alif!
— Você deve pensar que isto é um táxi. — ripostou Leonardo, perdendo a paciência com ela.
— Olhe! Estamos atrasados, percebe?
— E os paizinhos não a ensinaram a pedir “por favor”? — questionou ele, arrancando com o automóvel.
— Poupe-me. — exigiu ela, abrindo a mala e retirando um bloco. — Não estou com paciência para discutir regras de etiqueta.
Leonardo optou por não dizer mais nada e conduziu pelas ruas de Lisboa com o hotel como destino.
A seu lado, Matilde escrevinhava no bloco, fazendo apontamentos das perguntas para a entrevista.
O silêncio entre eles era tão incomodativo que Leonardo aumentou o volume do rádio que mal se ouvia.
— Importa-se? — questionou Matilde, apontando para o rádio. — Quero concentrar-me e o som do rádio está a incomodar-me.
— Você saiu-me cá uma prima-dona…
— Olhe…
Leonardo olhou para ela e levantou o dedo, travando-lhe as palavras.
— É melhor concentrar-se nas perguntas.
Matilde fulminou-o com o olhar, mas não disse mais nada. E Leonardo voltou a baixar o volume do rádio.
A viagem demorou cerca de vinte minutos. Encontrar um lugar para estacionar é que se revelou mais complicado. E a jornalista estava cada vez mais impaciente, vendo os minutos a passar.
— Pare ali! — ordenou, apontado para a frente. — Eu vou andando. Quando você conseguir arrumar o carro, vai lá ter.
Nesse instante, um senhor aproximou-se de um automóvel estacionado uns metros mais à frente.
— Tenha lá calma que já temos ali lugar.
Assim que Leonardo desligou a ignição, Matilde saiu do carro com a mala debaixo do braço. Ele abandonou o seu lugar e foi à traseira do automóvel buscar o equipamento de filmagem.
O céu ficara cinzento e a ameaça de chuva pairava no ar. Nos jardins à volta do Campo Pequeno as árvores abanavam ao sabor do vento, por entre as quais algumas pessoas caminham. O som dos automóveis e das buzinas polvilhavam o ambiente poluído num misto de som e ar. No lado oposto da avenida, na esquina entre aquela e a João XXI, erguia-se o edifício do Hotel Alif.
Matilde caminhava com pressa, indiferente ao colega. Leonardo, carregando a camara de filmar numa mão e o tripé na outra, não a deixava afastar, mas também não se preocupava em seguir ao ritmo dela.
Contornaram a esquina e entraram pela porta do hotel. Leonardo deixou para a jornalista a tarefa de se dirigir à recepção e pedir para ser anunciada ao visado. Enquanto ela o fez, ele ficou no átrio a observá-la e a pensar que ela tinha tanto de bela como de antipática.
O recepcionista telefonou para o quarto de hotel respectivo. Informou o hóspede da presença da jornalista e recebeu a autorização para que eles subissem. Matilde voltou-se para Leonardo e fez-lhe sinal com o dedo para que ele a seguisse. Ele voltou a pegar no equipamento e entrou com ela no elevador.
O transporte subiu do piso 0 ao piso 7. Nem a jornalista, nem o operador de imagem abriram a boca durante a subida, deixando que o som da música ambiente fosse o único audível ali.
As portas abriram-se e Matilde saiu imponente, caminhando com a mesma pressa anterior e procurando com os olhos o número do quarto que lhe haviam indicado. Ao encontrá-lo, parou junto à porta e bateu.
Leonardo parou a seu lado e viu um individuo de feições e tez indianas abrir a porta. O homem na casa dos quarenta anos apresentou se como sendo agente do economista e convidou-os a entrar. Falava inglês com sotaque.
Matilde e Leonardo atravessaram o pequeno corredor e encontraram um outro homem, talvez na casa dos sessenta anos, sentado na poltrona do amplo quarto de hotel. Ao vê-los, levantou-se e cumprimentou-os com um aperto de mão.
— Vai montando isso aí! — ordenou Matilde a Leonardo, falando como se ele fosse um inexperiente operador.
Leonardo respirou fundo para não lhe responder, evitando assim uma cena à frente do entrevistado.
Matilde sentou-se no sofá colocado perpendicularmente à poltrona. Enquanto Leonardo preparava o equipamento para filmar, Matilde falava um inglês perfeito com o americano, expondo as linhas gerais da entrevista.
Quando a câmara ficou montada no tripé, Leonardo testou o ângulo de filmagem e enquadrou um plano em que se via o americano de frente e Matilde de lado, quase de costas para o aparelho. Depois, chamou:
— Ó jornalista! Já podemos gravar.
Matilde olhou-o zangada, mas foi a vez de ela não dizer nada. Tornou a olhar para o entrevistado e iniciou aquilo que a trouxera ali.
A orquestra onde Zahra tocava terminara mais um ensaio. Os vários músicos levantaram-se dos seus lugares e dispersaram. A maior parte levava consigo os instrumentos.
José Norton Vila abandonou o piano e aproximou-se de Zahra que guardava o seu violino no estojo.
— Queres ir jantar lá a casa, hoje? — convidou ele.
— Podemos deixar para outro dia? Estou com uma dor de cabeça…
O pianista sorriu e concordou. A seguir, um outro assunto surgiu na sua mente:
— A tua amiga já te ligou?
— Que amiga?
— Aquela colega de escola que te veio cumprimentar depois do concerto, na outra noite.
Zahra recordou-se do convite para jantarem todos, o qual ficara no ar nesse indesejável reencontro.
— Não, não me chegou a ligar.
— Então talvez fosse melhor ligares tu.
Zahra encolheu os ombros e disse:
— Se ela não ligou, lá terá as suas razões. Já fizemos o convite, agora esperamos.
— Não me pareces muito interessada nesse convívio. — notou ele.
Mais uma vez, Zahra encolheu os ombros, desvalorizando a questão.
— É uma antiga colega de escola, nada mais. Se ela está ou não interessada num jantar, é irrelevante para mim.
Observando-a a arrumar tudo, Norton Vila concluiu:
— Talvez não devesse ter feito o convite.
Zahra encarou-o com um sorriso e retorquiu:
— Talvez não o devesses ter feito, mas também não fizeste mal em o fazer. Não penses mais nisso, se ela quiser, ela telefona.
Nesse instante, o maestro Rudolph Norton Vila aproximou-se de ambos.
— Excelente! — elogiou. — Vocês estão maravilhosos nas vossas prestações.
José sorriu com agrado.
— Obrigado, maestro! — agradeceu Zahra, meio envergonhada.
— Vocês têm uma sintonia perfeita. — continuou o maestro, procurando com aquela frase subentender uma sintonia paralela no campo amoroso.
— Sim, pai, nós nascemos um para o outro. — confirmou José, olhando para a noiva.
Zahra sorriu num jeito inocente, não conseguindo evitar que na sua mente passasse a recordação dos orgasmos simulados.
— No próximo fim-de-semana, vocês podiam ir lá almoçar. — convidou Rudolph, olhando para o filho. — A tua mãe iria gostar muito.
Tanto José como Zahra concordaram com a sugestão.
O maestro olhou para o relógio, despediu-se do filho e da futura nora e desapareceu para os bastidores do palco.
— Zahra!
— Sim?
— Não queres mesmo ir lá a casa, esta noite? Dormes lá.
— Não, querido. Estou a precisar de dormir mesmo.
Vencido, o pianista despediu-se da noiva com um beijo apaixonado e deixou-a só no palco do ensaio.
Sentada na cadeira, Zahra guardou o violino no estojo com todo o cuidado. Todo aquele processo era delicado e feito de forma automática, pois ao longo da sua carreira de violinista, Zahra já executara aquela tarefa centenas de vezes. E enquanto o fazia, pensava em Adriana e que até gostava que ela telefonasse. Porém, fora Zahra quem ficara de ligar e não pensava fazê-lo. Zahra queria tanto voltar a ver Adriana quanto desejava que a outra desaparecesse novamente do seu mundo.
Não muito longe dali, nos corredores dos bastidores, Rudolph Norton Vila caminhava devagar, pensando no alinhamento do próximo concerto. Esse pensamento foi interrompido pela visão de uma jovem que fazia também parte da orquestra, a qual falava alegremente ao telemóvel.
A jovem era Magdalena Popov, uma moldava de quinze anos que tocava flauta na orquestra. Rudolph, apesar dos seus sessenta e um anos, sentia um fascínio pela rapariga que lhe estimulava os pensamentos mais eróticos. Sim, dizia ele a si mesmo, tinha idade para ser seu avô, mas isso não impedia que a rapariga o atraísse.
Magdalena nascera na Moldávia e viera para Portugal com os pais aos três anos de idade. Estudara música desde muito nova e entrara para a orquestra cinco meses antes para um estágio. Desde que a vira pela primeira vez, Rudolph sentia aquele desejo pecaminoso de um dia a poder meter numa cama. No entanto, sempre guardou esses desejos para si.
Encostada à parede, a jovem conversava e ria, passando a mão livre pelos longos cabelos negros. Tinha uma imagem mais velha que a real idade, pois vestia sempre casaco e calças, recusando sempre vestuário mais comum às adolescentes. O rosto era inocente e sempre muito bem maquilhado. Era notório o seu esforço por parecer mais velha.
O maestro sempre controlara a atracção que sentia pela miúda. No entanto, desde que a vira na tarde anterior com o namorado, a sua revolta foi tal que o bom senso se perdeu.
Magdalena namorava com um angolano que tocava contrabaixo e pertencia igualmente à orquestra. Ele era quatro anos mais velho e entrara para lá por via de um protocolo que a direcção musical tinha com um patrocinador de Angola.
Rudolph detestava pretos e tê-los na orquestra era, segundo as suas palavras, como uma nódoa num tecido de luxo. Por sua vontade não permitiria “gente de cor” na sua imaculada orquestra, mas o peso do dinheiro falava mais alto e a vontade dos patrocinadores tinha de ser respeitada.
Na verdade, preto ou branco, o jovem angolano tinha qualidade suficiente para ser membro daquele grupo de músicos. Para além disso, era simpático e cordial, ao ponto de todos os colegas gostarem dele. E Magdalena deixou-se encantar ainda mais.
Ao passar pela rapariga, Rudolph parou e fez-lhe sinal que precisava de falar com ela. Magdalena despediu-se do telefonema e acompanhou o maestro ao seu gabinete.
— Então, Magdalena, tem gostado deste seu estágio? — interrogou ele.
— Sim. — respondeu ela, denotando o ligeiro sotaque que nunca perdera. — Gosto muito, senhor. E espero que estejam a gostar de mim também.
Rudolph olhou para a rapariga parada a meio do gabinete que o olhava de forma ingénua. Era tão excitante que até doía.
— Sim, sim. — confidenciou num tom distante. — O seu estágio é de…
— Seis meses. — completou ela a deixa.
— Quer dizer que em breve teremos de decidir se a contratamos.
Magdalena sorriu confiante, esperançada num bom veredicto.
Rudolph deu alguns passos até ela, ficando diante da jovem.
— Sabe, Magdalena, isto está muito complicado. — começou ele, mirando-a da cabeça aos pés. — Temos tido cortes nos subsídios, há patrocinadores a querer cortar os apoios… Enfim. Por vezes, a qualidade do artista não chega para conseguir o lugar.
— Compreendo, senhor Norton Vila. — suspirou, revelando alguma tristeza.
— Confesso que teria muita pena em não a contratar. — prosseguiu o maestro, colocando a sua mão no ombro da rapariga.
Magdalena voltou a sorrir e disse:
— Tenho a certeza que fará os possíveis para que eu fique.
— Sim, farei. — confirmou. — Mas, tenho de ter garantias… Ao empenhar-me tanto em manter alguém, acabo por ficar em risco se alguma coisa correr mal.
— Tudo farei para não o desiludir. — prometeu Magdalena.
Rudolph levou a mão do ombro para o rosto dela e questionou:
— Tudo, Magdalena?
O olhar da flautista encarava o do maestro com inocência, o que o levou a duvidar se ela perceberia os reais intentos dele.
— Empenhar-me-ei para que nunca se desiluda comigo.
Rudolph sorriu satisfeito com as suas palavras e por ela não se ter retraído quando lhe tocou o rosto.
— Ser membro de uma orquestra exige muito de um músico. A Magdalena ainda é muito nova…
— Eu quero muito continuar aqui! — afirmou ela. O olhar perdera alguma inocência e pareceu mais perspicaz que o esperado. — Pode pôr-me à prova.
Rudolph deixou a mão descer até ao pescoço. Magdalena nem se mexia, nem tirava os olhos dos dele.
— Não sei se estará a perceber ao ponto a que terá de chegar o empenho. — insistiu Rudolph, deixando a mão cair para o primeiro botão da camisa. Desapertou-o, tentando não revelar a excitação e a surpresa por ela não perder a postura e aceitar tudo com normalidade.
— Sim. Já percebi, senhor Norton Vila. — confirmou ela num tom que misturava rudeza com provocação.
— Por favor, trate-me por Rudolph. — pediu ele, desapertando os primeiros botões da camisa dela. — Pelo menos, a sós, pode chamar me Rudolph.
Na sua suposta inocência de quinze anos, Magdalena fora astuta ao perceber o que ele pretendia e a melhor forma de jogar com isso. Quando sentiu a mão do maestro acariciar-lhe o peito, ela esboçou um gemido e avisou:
— Sou virgem e pretendo continuar a sê-lo até casar.
O maestro sentiu as palavras como uma recusa. No entanto, Magdalena desapertou os restantes botões da camisa e completou:
— Mas, penso que nos podemos entender sem colocar em causa minha virgindade.
Nesse instante, o som do telemóvel do maestro ecoou pelo gabinete. A mão dele abandonou o peito da jovem moldava e apressou-se a atender. Magdalena aproveitou para voltar a apertar os botões e compor a camisa dentro das calças.
— Só um momento. — pediu ele a quem o chamara ao telemóvel. Tapou o microfone do aparelho e olhou para ela. — Tenho de atender esta chamada. Falaremos depois.
Magdalena assentiu e abandonou o gabinete.
A tarde em Lisboa continuava fria e começava a dar lugar à noite.
No Hotel Alif, a entrevista durara cerca de duas horas, as quais se traduziriam em pouco menos de trinta minutos na emissão do canal televisivo.
Matilde e Leonardo abandonaram o quarto de hotel sem trocar uma silaba. E foi só no elevador que ela disse:
— Você, quando voltar a dirigir-me a palavra, seja mais educado.
— Está a falar de quê? — questionou Leonardo.
— “Ó jornalista”. — citou ela, recordando-lhe a forma como ele a chamara antes de começar a filmar.
— Você não é jornalista? — interrogou ele, meio divertido.
— Sou! — afirmou Matilde com dureza. — Mas, não é forma de me dirigir a palavra, ainda para mais à frente de um entrevistado. — Leonardo ia a dizer algo, mas ela não deixou. — D. Matilde ou…
— Colega?
— Colegas são as putas. — ripostou ela, irritada.
— Acha que a vou tratar por D. Matilde?
— Sou mais velha que você e tenho um estatuto superior ao seu.
A arrogância dela enervou Leonardo que se preparava para responder à letra, quando o elevador parou e as portas abriram.
Ao atravessarem o átrio, Leonardo disse:
— Há putas mais educadas que você.
— Você lá deve saber, se frequenta o meio. — redarguiu Matilde com desdém.
— Não, não frequento o meio. — continuou ele. — Mas, você se continua assim, ainda um dia lá pode ir parar.
Matilde travou junto da porta do hotel e encarou-lhe o olhar irritada.
— Que quer isso dizer?
— Quer dizer que arrogante e prepotente como você é, se um dia a vida lhe corre mal…
— Esteja calado! — ordenou ela. — Só diz disparates. É por isso que você não passa de um operador de câmara.
— Nem vou perder mais tempo a falar consigo. — ripostou ele, virando-lhe as costas e seguindo pelo passeio com o equipamento de filmar em ambas as mãos.
O silêncio manteve-se durante quase toda a viagem de carro, no regresso à estação, onde Matilde teria de editar as imagens da entrevista para serem passadas na hora agendada. Esse silêncio foi interrompido pela reacção da jornalista a uma notícia que se ouviu no rádio, acerca das pretensões ao direito à adopção de crianças por casais homossexuais.
— Este mundo está perdido! — afirmou sem se dirigir a Leonardo. — Onde já se viu, fufas e paneleiros a adoptar crianças?
— Têm tanto direito como os heterossexuais. — argumentou ele.
— Deixam de ter direitos, quando se tornam aberrações. — insistiu ela. — Se eu mandasse, encostava-os todos a uma parede.
— Você é surpreendente! — exclamou Leonardo com ironia. — Tem uma mentalidade do século passado. Só falta dizer que a homossexualidade é uma doença.
— Não. Não é uma doença. É uma deficiência. — contrapôs.
Leonardo abanou a cabeça, incrédulo.
— Você tem muitos defeitos, mas confesso que não a imaginava homofóbica.
— E você deve ter amigos panascas para se sentir tão ofendido com a minha opinião.
— Tenho amigos homossexuais que são excelentes pessoas, simpáticas e tão normais quanto eu e você.
— Se você também for, é natural que se compare. Agora, não me compare a mim.
— Não sou, mas se fosse não tinha problema em o assumir, mesmo tendo de enfrentar gente obtusa como você.
A chegada ao parque da estação de televisão findou o diálogo. Mal o carro foi estacionado, Matilde saiu e ordenou a Leonardo que se apressasse a deixar a filmagem no departamento de edição para ela poder completar o trabalho.
Leonardo não lhe respondeu. E enquanto a via a afastar-se, pensava em como ela era tão estúpida por ter uma opinião tão retrograda.