Capítulo XVII
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Já lá iam umas três semanas, desde a glória da Luz. Os jornais chamaram-me Ivan Pedro, o Terrível, pelo forma como colocara o Benfica fora da Taça. Nos dias seguintes ao jogo, choveram noticias de clubes interessados em mim. Não me deixei iludir, pois Jorge telefonava-me a cada notícia e dizia-me que era mentira, pois ninguém falara com ele.
Houve, de facto, clubes interessados. A Académica continuava com as suas pretensões de me ter no seu plantel na época seguinte. E eu autorizara Jorge a negociar uma primeira proposta. O Estoril entrou na corrida e até o Badajoz de Espanha se mostrou com interesse.
A minha transferência começou a tomar proporções prejudiciais ao meu desempenho no Paúle. Por isso, através de Jorge, abortei as negociações e agendei-as para depois do final da época.
A campanha do Paúle na Serie C da III Divisão, melhorara ligeiramente, colocando-nos a seis jornadas do fim, acima da linha da despromoção. Porém, essa posição ainda não estava garantida.
A meio da tarde da véspera de Sexta-Feira Santa, lá estava eu encostado ao meu carro, sentido o Sol primaveril a aquecer-me. Nunca passara por um Inverno tão rigoroso e com temperaturas tão baixas. O Sol não era muito forte e a temperatura dava, naquelas primeiras semanas de Primavera, os primeiros sinais de calor.
Tinha o carro estacionado no largo em frente à estação ferroviária do Carregal do Sal. Olhava para o relógio e aguardava pacientemente a chegada do comboio.
Raquel regressava de Coimbra para passar a quadra com a família. Já não nos víamos havia algumas semanas. Jamais esqueceria a forma como me ajudara a tentar ultrapassar a morte de Camila.
Sentia que partilhávamos uma amizade profunda. A sua constante preocupação, os telefonemas para saber como eu estava, as suas vindas a Paúle ao fim-de-semana... Só nestes últimos, Raquel esteve ausente devido aos exames.
Ouvi o som do comboio aproximar-se e vi-o entrar na estação. Poucos minutos passados, Raquel surgia vinda do interior da estação, elegante e linda. Continuava a recusar-me a vê-la como mulher bonita e amável que era, para a continuar a encarar como amiga por quem nutria uma enorme fraternidade.
Caminhei ao seu encontro e peguei na bagagem que trazia. Raquel abraçou-me com saudade e beijou-me a face com ternura.
─ Que saudades! ─ exclamou, sorrindo-me.
Continuava a ver o brilho dos seus olhos ao contemplar-me. Nunca me escondera os sentimentos em relação a mim. Porém, respeitara sempre a minha vontade de não irmos além da amizade.
Colocando tudo no porta-bagagens, perguntei:
─ Como correram os exames?
─ Os resultados só devem sair para a próxima semana.
─ Queres ir tomar um café ou levo-te já para casa? ─ dei-lhe a escolher.
─ Um cafezinho sabia bem. Mas a minha mãe está à minha espera.
Meia hora depois, estava parado junto aos portões da Casa de Paúle.
─ Não queres entrar? ─ convidou.
─ Desculpa, mas não. ─ recusei. ─ A tua mãe...
─ Compreendo. Queres sair logo à noite? A noite parece que vai estar agradável e podíamos conversar um pouco.
─ A que horas queres que passe para te vir buscar?
─ A seguir ao jantar.
Os portões abriram-se e vi um empregado vir buscar a bagagem.
Beijei-lhe a face macia e fiquei a vê-la afastar-se, acompanhada pelo individuo que carregava as duas malas. Raquel acenou-me umas duas vezes até eu partir.
A noite amena mostrava-se bastante agradável para quem, pela primeira vez na sua vida, suportara temperaturas negativas naquele Inverno.
Raquel e eu estávamos sentados na esplanada de um café, em Oliveira do Hospital, mesmo à frente do jardim municipal.
Não conseguia evitar a sensação que a sua beleza, a elegância da sua roupa me provocava. Raquel estava cada dia mais bonita. E eu notava que não conseguia ficar indiferente a ela, como outrora.
─ Os jogos têm corrido bem? ─ indagou.
─ Nem por isso. ─ respondi, lembrando-me do décimo quinto lugar da equipa no campeonato. ─ Estamos à beira de voltar aos distritais.
─ Pelo menos, derrotaram o Benfica.
─ Essa veia sportinguista.
─ Quando é que é a final? Tenho de ir ao Jamor ver-te. ─ disse com entusiasmo. Seguidamente, segurou-me a mão e disse ─ Tenho sentido muito a tua falta
─ Eu também. ─ confessei, colocando a outra sobre a dela.
─ Ivan...
─ Sim.
─ Não, desculpa! ─ arrependeu-se, desviando o olhar.
─ Diz lá!
Raquel voltou a confrontar o meu olhar:
─ Ivan, eu continuo apaixonada por ti! Não, espera! Não digas nada. Sei que concordámos em não abordar o assunto, mas... ─ O seu olhar seguro rebaixou-se na direcção da mesa, tentando esconder a vulnerabilidade.
Com carinho, segurei-lhe o queixo e levantei-lhe a face para que não receasse encarar-me. Não era capaz de recusar o seu amor porque eu próprio começara a amá-la.
─ Eu amo-te, Ivan! ─ exclamou.
A frase saíra-lhe com a certeza de outras tantas vezes, quantas aquelas em que o seu amor embateu no cubo de gelo que era o meu coração.
Segurei-lhe o rosto com ambas as mãos e puxei-a suavemente para mim. Toquei-lhe os lábios com os meus e fi-la sentir que o seu amor era finalmente correspondido.
─ Podemos continuar esta conversa em tua casa? ─ sugeriu, sorrindo com enorme felicidade.
Fiz sinal ao funcionário do café para que trouxesse a conta.
─ Bolas!
─ Que se passa, Ivan? Esqueceste-te da carteira?
─ Não. Deixei o telemóvel em casa. Não gosto de sair sem ele. Estou sempre na esperança de que o Jorge me telefone com notícias.
A porta de casa embateu ruidosamente na parede. Sabendo que os meus sentimentos por ela haviam mudado, Raquel beijava-me apaixonadamente, não me largando um segundo.
Mal tinha fechado a porta, já ela me despia esfomeada por mim.
Subitamente, um bip soou pela casa, fazendo-nos parar todo aquele clima de paixão.
─ Que é isto? ─ perguntou.
─ É o telemóvel a avisar que tenho uma mensagem.
─ Vês depois! ─ ordenou ela, atirando-se ao meu pescoço e continuando a beijar-me frenéticamente.
─ Pode ser importante. ─ lembrei.
─ Deixa isso. Nada é mais importante que aquilo que vamos fazer.
Acabei por ceder e levei-a para o quarto. Atirámo-nos para cima da cama e eu despi-a, ansioso por conhecer o seu corpo, tocá-lo, acariciá-lo.
Raquel revelava os mesmos objectivos. Despi-a e toquei-lhe os seios, apertando-os e dedilhando os mamilos até começar a sugá-los. Sentia as suas mãos acariciarem-me e dirigirem-se aos meus pontos mais íntimos.
O ambiente era quente, tórrido mesmo. Por momentos, desviei a atenção sobre ela e apressei-me a procurar um preservativo. Tinha que a penetrar. Naquele instante, esse era o meu único objectivo.
Vasculhei tudo, desviando-me das mãos dela que me puxavam constantemente para si, mas não encontrei nada.
─ Temos de parar. ─ disse ao seu ouvido.
─ Porquê? ─ interrogou, frustrada.
─ Não tenho preservativos.
─ Não faz mal. ─ argumentou. ─ Eu tomo precauções.
Hesitei. Contudo, desejava-a tanto. E havia tanto tempo que não o fazia com ninguém...
Penetrei-a com toda a força do desejo que sentia, fazendo-a vibrar de paixão. Movimentei-me sobre ela, acariciando-lhe o corpo nos locais que mais a faziam delirar.
Toda a força da paixão que partilhávamos, naquele momento, explodiu num fluxo quente que a inundou por dentro e nos fez cair, um sobre o outro, esgotados.
Acordei na manhã seguinte, sentindo um arrepio de frio na espinha. Raquel permanecia num sono profundo, enroscada a mim e embrulhada na roupa da cama.
Afastei-a com ternura e levantei-me da cama. Caminhei até à sala e fiquei a pensar nesta mudança de relacionamento com Raquel. Tinha sentimentos contraditórios. Se por um lado estava feliz pelo seu amor, por outro, continuava com dúvidas em relação ao meu por ela.
A noite fora maravilhosa, fizéramos amor como dois amantes insaciáveis. Porém, parecia faltar algo naquela relação. Não era como fora com Camila, mas Camila estava... Recusei-me a recordá-la dessa forma.
Lembrei-me do telemóvel e da mensagem que não chegara a ler na noite anterior. Ficara sobre a mesa da sala, lugar onde o fui buscar. Marquei o número do voicemail e aguardei.
─ Marque o seu código pessoal, seguido de *! ─ disse a gravação.
Marquei os dígitos e carreguei no botão que ela dissera.
─ Tem uma mensagem nova.
Nesse instante, a campainha de casa tocou. Desloquei-me numa passada lenta, continuando a ouvir a voz no telemóvel:
─ Recebida às 22 horas e 33 minutos.
Levei a mão ao trinco da porta.
─ Olá, Ivan! É o Jorge. Não imaginas o que aconteceu. ─ dizia a mensagem com a voz do meu empresário.
Abri a porta e fiquei petrificado. A voz prosseguiu:
─ A Camila está viva! Parece incrível, mas é verdade.
Nem me conseguia mexer, pois tinha diante de mim a própria Camila.
A voz de Jorge continuava, sentindo-se a euforia nas suas palavras:
─ Está viva e mor... desejosa de te ver. Vamos para aí amanhã de manhã. Um abraço.
Camila abraçou-se a mim e apertou-me com toda a força.
─ Que saudades, Pedro.
─ Camila? Como...? ─ interroguei eu, abraçando-a.
Subitamente ouvi o ranger da porta do meu quarto. E, logo de seguida, a voz de Raquel:
─ Quem é, amor?
Senti a força do abraço de Camila esmorecer e começar a largar-me. Afastou-me automaticamente, mantendo o olhar atrás de mim.
Voltei-me para trás e vi Raquel com uma camisa minha vestida, não deixando a mínima dúvida do que se tinha passado naquela noite.
Quando me direccionei novamente para a porta, Camila já lá não estava. Vi que descia as escadas e fui atrás dela.
─ Camila espera! ─ pedi, segurando-lhe o braço.
Camila parou e voltou-se para mim. Os seus olhos deixavam escapar uma lágrima e o seu lábio tremia.
─ Foi um erro, ter cá vindo. ─ disse ela, limpando a gota que escorria pelo rosto.
─ Não, Camila! Não foi. ─ contrapus. ─ Não imaginas como estou feliz por saber que estás viva. Não imaginas o quanto eu desejei isto.
─ Não parece, pelo que vi ali em cima.
Estávamos ambos, frente a frente, a meio das escadas. Vi Jorge que ficara junto ao carro, aguardando.
─ Camila, há quase quatro meses que te julgo morta. Não imaginas como sofri.
─ E eu, Pedro? Podes imaginar o que eu passei e o que sofri?
─ Não Camila, não sei. ─ concordei. ─ Mas gostava de saber o que te aconteceu. Entra, por favor! ─ pedi.
─ Não! ─ recusou firmemente. ─ Não entro ali!
─ Tudo bem, falamos aqui. ─ sugeri.
Camila aceitou. Fez uma pausa. E durante essa pausa, vi Raquel junto à porta por breves instantes. No entanto, o frio fizera-a regressar ao interior.
─ A viagem estava a correr bem. ─ começou Camila. ─ Devíamos estar a cerca de uma hora de Lisboa, talvez menos. De repente, as hospedeiras começaram a pedir às pessoas que pusessem os cintos de segurança e se mantivessem calmas. Diziam que era uma medida de precaução, mas acho que o aparelho estava com problemas técnicos.
Fez uma pausa, tentando recordar os momentos seguintes:
─ Não passaram muitos minutos, até ao momento em que o comandante nos informou que estavam com problemas e que iriam tentar aterrar em Ponta Delgada. Segundos depois, iria tentar aterrar... ou melhor, amarar de emergência em pleno oceano. Mandaram-nos vestir os coletes salva-vidas e colocarmo-nos em posição.
Reparei que Camila tentava ser o mais fiel possível no relato, como se a recordação a ajudasse a compreender melhor o que acontecera.
─ Nunca esquecerei aqueles momentos. Ouvia-se o zumbir dos motores tentando aguentar aquele gigante que caia a uma velocidade vertiginosa. O despenhamento na água foi fortíssimo, as luzes apagaram-se e o avião partiu-se em dois. Vi-o rachar-se umas três filas atrás de mim. A força do impacto deve ter matado logo alguns dos passageiros. E os que ficaram na outra metade, não tiveram tempo de escapar, pois a água começou a entrar e a única saída que tinham ficou tapada pela água.
Uma nova lágrima apareceu no seu rosto.
─ Nós ficámos ao contrário. A parte do avião aberta ficou virada para cima e a água entrava pelos vidros partidos. Algumas pessoas começaram a saltar para o mar, sem medo do temporal e das ondas enormes. Eu aproximei-me da abertura, mas quando tentei saltar, alguém me empurrou e eu bati com a cabeça. Não me lembro de mais nada.
─ Como te salvaste?
─ Há menos de uma semana, acordei no Hospital de Ponta Delgada. Segundo me contaram, estive mais de três meses em coma. Ao que parece, acabei por dar à costa inconsciente. Dizem que foi um milagre, talvez o tenha sido. Os pescadores locais levaram-me para o hospital. Ninguém sabia quem eu era até despertar do coma.
Tinha vontade de a abraçar, mas notei que ela se mantinha distante e fria.
─ Fica uns dias comigo, aqui. ─ pedi.
─ Não, Pedro! Vou voltar para Lisboa e tentar recuperar a minha vida.
─ Mas nós...
─ O “nós” já deixou de existir há muito tempo, Pedro. ─ lembrou desprendida. ─ Tu acabaste com ele e, ao que parece, já deste rumo à tua vida.
─ Camila, aquilo não é o que estás a pensar.
─ Não? ─ interrogou furiosa. ─ Então o que é? Vais dizer-me que não dormiram juntos?
Não tive argumentos para ela.
─ Desculpa, Pedro. Eu não tenho o direito de te censurar. Tu não me deves explicações de nada. ─ E desceu o que restava das escadas.
No entanto, após o último degrau, disse:
─ Sabes a única coisa que me lembro, durante o tempo que estive em coma? A minha mente dizia constantemente “deixa que o amor seja a tua energia”. Lembraste dessa época, não?
Corri pelas escadas até ela, segurei-a com força pelos braços e exclamei:
─ Eu amo-te Camila!
Camila baixou o olhar e confessou:
─ Quem me dera acreditar nisso. Hoje, pensando em tudo o que passámos e as decisões que tomaste, começo a pensar se alguma vez me amaste realmente.
Desprendeu-se das minhas mãos e refugiou-se no interior do carro.
Jorge veio ter comigo e disse:
─ Vou levá-la. Depois telefono-te.
Tentei falar novamente com ela, mas Jorge travou-me, dizendo:
─ É melhor não, Ivan! Dá um tempo para ela se acalmar. Terão tempo suficiente para falar.
Abanei a cabeça, concordando com ele e pedi:
─ Cuida dela.
Jorge assentiu com a cabeça e dirigiu-se para o carro.
Fiquei a vê-los afastarem-se, sentindo uma dor enorme. A alegria de ver Camila viva, desvanecera-se com a tristeza de a perder mais uma vez.
Ao regressar a casa, Raquel estava sentada no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos e com a cabeça caida sobre as mãos. Sentei-me a seu lado e fiquei em silêncio. Raquel olhou para mim e perguntou:
─ Quem era?
─ Penso que sabes tão bem como eu. ─ respondi. ─ Era a Camila.
─ Mas tu disseste que a Camila tinha morrido!
─ Foi o que pensei, nestes últimos quatro meses. ─ disse, mantendo o olhar distante.
─ E agora?
Olhei para ela e repeti:
─ E agora? Agora o quê?
─ Como ficamos nós?
─ Não sei, Raquel.
Raquel virou-se para mim e questionou:
─ A noite passada não significou nada para ti? Vais voltar para a Camila?
─ Não sei nada, Raquel! ─ exclamei, sobrecarregado de ideias e a tentar compreender o que se estava a passar.
Ela não conseguiu esconder a lágrima que lhe escorria na face. Levantou-se do sofá e sugeriu:
─ É melhor eu ir-me embora.
Não respondi e deixei-a sair dali sem uma palavra para a impedir.
Camila regressou, nesse mesmo Sábado a Lisboa, talvez no exacto momento em que eu jogava mais um jogo do campeonato pelo Paúle. Decidira, antes do início do jogo, regressar a Lisboa e tentar falar com Camila.
Infelizmente, o jogo correu pior que mal. Para além da derrota, eu lesionei-me num choque com um defesa adversário, o que me obrigou a repouso total durante uns dias.
Após a Páscoa, Raquel regressou a Coimbra sem me dizer uma sílaba. E eu sabia o quanto ela estava magoada comigo pela indiferença a que a votara, depois de rever Camila.
A minha preocupação principal passou a ser Camila e ter a oportunidade de voltar a falar com ela e tentarmos reatar, aquilo que o acidente interrompera.
Esquecera completamente Raquel e tudo o que ela fora para mim, ao longo daqueles meses. Esqueci a sua ajuda, os bons momentos, tudo, até o sexo que fizéramos.
Naquele último ano, a minha vida levara voltas e mais voltas e continuava sem rumo, nem estabilidade.
A lesão quase colocara em perigo a minha presença no Jamor, mas fizera-me ausentar dos últimos jogos do campeonato. O Paúle conseguiu a manutenção no último jogo, após uma vitória sofrida no terreno de um dos concorrentes directos à manutenção.
Os festejos prolongaram pela noite dentro até ao amanhecer.
Quando regressei a casa, para minha surpresa, encontrei Raquel à porta da minha casa.
─ Raquel? Julgava-te em Coimbra. ─ disse, mantendo a curiosidade na sua presença.
─ Precisamos de conversar. ─ avisou com frieza.
Fiquei apreensivo. Que razão teria feito Raquel vir de propósito a Paúle? Abri a porta e convidei-a a entrar.
Raquel entrou e sentou-se no sofá. Eu segui atrás de si.
─ Queres beber alguma coisa?
─ Não, obrigado.
Sentei-me a seu lado e aguardei o que tinha para me dizer.
─ Nem sei com dizer isto, Ivan. Era a última coisa que queria que acontecesse... Aliás, nem sei como aconteceu.
─ E que aconteceu, Raquel?
─ Vou contar-te porque acho que tens direito a saber. ─ prosseguiu. ─ Mas, não exijo nada de ti. Não sintas qualquer obrigação...
─ Por favor, Raquel! Estás a preocupar-me. Que se passa?
─ Estou grávida!
─ De mim? ─ interroguei estupidamente.
─ Não. É do padre Inácio! ─ respondeu com ironia. ─ Achas que se não fosse teu, eu estaria aqui a contar-te?
─ Tens razão! Desculpa!
─ Ouve, Ivan! ─ pediu Raquel. ─ Eu tenciono ter a criança, mas não quero nada de ti.
─ Mas, Raquel...
─ Não, Ivan! Nada de “mas”. Eu decidi e não mudo de ideias. Só quis ser eu a contar-te a verdade. Não quis que o soubesses por outras pessoas.
Tentei dizer mais qualquer coisa, mas não me saiu nada. Raquel levantou-se e dirigiu-se à porta. Fui atrás dela.
Antes que chegasse à porta, a campainha tocou. Passei por ela, que regressou à sala, e fui abrir. Dei de caras com Augusto transtornado.
─ Que foi, Augusto?
─ Anda, Ivan! Aconteceu uma tragédia.
Houve, de facto, clubes interessados. A Académica continuava com as suas pretensões de me ter no seu plantel na época seguinte. E eu autorizara Jorge a negociar uma primeira proposta. O Estoril entrou na corrida e até o Badajoz de Espanha se mostrou com interesse.
A minha transferência começou a tomar proporções prejudiciais ao meu desempenho no Paúle. Por isso, através de Jorge, abortei as negociações e agendei-as para depois do final da época.
A campanha do Paúle na Serie C da III Divisão, melhorara ligeiramente, colocando-nos a seis jornadas do fim, acima da linha da despromoção. Porém, essa posição ainda não estava garantida.
A meio da tarde da véspera de Sexta-Feira Santa, lá estava eu encostado ao meu carro, sentido o Sol primaveril a aquecer-me. Nunca passara por um Inverno tão rigoroso e com temperaturas tão baixas. O Sol não era muito forte e a temperatura dava, naquelas primeiras semanas de Primavera, os primeiros sinais de calor.
Tinha o carro estacionado no largo em frente à estação ferroviária do Carregal do Sal. Olhava para o relógio e aguardava pacientemente a chegada do comboio.
Raquel regressava de Coimbra para passar a quadra com a família. Já não nos víamos havia algumas semanas. Jamais esqueceria a forma como me ajudara a tentar ultrapassar a morte de Camila.
Sentia que partilhávamos uma amizade profunda. A sua constante preocupação, os telefonemas para saber como eu estava, as suas vindas a Paúle ao fim-de-semana... Só nestes últimos, Raquel esteve ausente devido aos exames.
Ouvi o som do comboio aproximar-se e vi-o entrar na estação. Poucos minutos passados, Raquel surgia vinda do interior da estação, elegante e linda. Continuava a recusar-me a vê-la como mulher bonita e amável que era, para a continuar a encarar como amiga por quem nutria uma enorme fraternidade.
Caminhei ao seu encontro e peguei na bagagem que trazia. Raquel abraçou-me com saudade e beijou-me a face com ternura.
─ Que saudades! ─ exclamou, sorrindo-me.
Continuava a ver o brilho dos seus olhos ao contemplar-me. Nunca me escondera os sentimentos em relação a mim. Porém, respeitara sempre a minha vontade de não irmos além da amizade.
Colocando tudo no porta-bagagens, perguntei:
─ Como correram os exames?
─ Os resultados só devem sair para a próxima semana.
─ Queres ir tomar um café ou levo-te já para casa? ─ dei-lhe a escolher.
─ Um cafezinho sabia bem. Mas a minha mãe está à minha espera.
Meia hora depois, estava parado junto aos portões da Casa de Paúle.
─ Não queres entrar? ─ convidou.
─ Desculpa, mas não. ─ recusei. ─ A tua mãe...
─ Compreendo. Queres sair logo à noite? A noite parece que vai estar agradável e podíamos conversar um pouco.
─ A que horas queres que passe para te vir buscar?
─ A seguir ao jantar.
Os portões abriram-se e vi um empregado vir buscar a bagagem.
Beijei-lhe a face macia e fiquei a vê-la afastar-se, acompanhada pelo individuo que carregava as duas malas. Raquel acenou-me umas duas vezes até eu partir.
A noite amena mostrava-se bastante agradável para quem, pela primeira vez na sua vida, suportara temperaturas negativas naquele Inverno.
Raquel e eu estávamos sentados na esplanada de um café, em Oliveira do Hospital, mesmo à frente do jardim municipal.
Não conseguia evitar a sensação que a sua beleza, a elegância da sua roupa me provocava. Raquel estava cada dia mais bonita. E eu notava que não conseguia ficar indiferente a ela, como outrora.
─ Os jogos têm corrido bem? ─ indagou.
─ Nem por isso. ─ respondi, lembrando-me do décimo quinto lugar da equipa no campeonato. ─ Estamos à beira de voltar aos distritais.
─ Pelo menos, derrotaram o Benfica.
─ Essa veia sportinguista.
─ Quando é que é a final? Tenho de ir ao Jamor ver-te. ─ disse com entusiasmo. Seguidamente, segurou-me a mão e disse ─ Tenho sentido muito a tua falta
─ Eu também. ─ confessei, colocando a outra sobre a dela.
─ Ivan...
─ Sim.
─ Não, desculpa! ─ arrependeu-se, desviando o olhar.
─ Diz lá!
Raquel voltou a confrontar o meu olhar:
─ Ivan, eu continuo apaixonada por ti! Não, espera! Não digas nada. Sei que concordámos em não abordar o assunto, mas... ─ O seu olhar seguro rebaixou-se na direcção da mesa, tentando esconder a vulnerabilidade.
Com carinho, segurei-lhe o queixo e levantei-lhe a face para que não receasse encarar-me. Não era capaz de recusar o seu amor porque eu próprio começara a amá-la.
─ Eu amo-te, Ivan! ─ exclamou.
A frase saíra-lhe com a certeza de outras tantas vezes, quantas aquelas em que o seu amor embateu no cubo de gelo que era o meu coração.
Segurei-lhe o rosto com ambas as mãos e puxei-a suavemente para mim. Toquei-lhe os lábios com os meus e fi-la sentir que o seu amor era finalmente correspondido.
─ Podemos continuar esta conversa em tua casa? ─ sugeriu, sorrindo com enorme felicidade.
Fiz sinal ao funcionário do café para que trouxesse a conta.
─ Bolas!
─ Que se passa, Ivan? Esqueceste-te da carteira?
─ Não. Deixei o telemóvel em casa. Não gosto de sair sem ele. Estou sempre na esperança de que o Jorge me telefone com notícias.
A porta de casa embateu ruidosamente na parede. Sabendo que os meus sentimentos por ela haviam mudado, Raquel beijava-me apaixonadamente, não me largando um segundo.
Mal tinha fechado a porta, já ela me despia esfomeada por mim.
Subitamente, um bip soou pela casa, fazendo-nos parar todo aquele clima de paixão.
─ Que é isto? ─ perguntou.
─ É o telemóvel a avisar que tenho uma mensagem.
─ Vês depois! ─ ordenou ela, atirando-se ao meu pescoço e continuando a beijar-me frenéticamente.
─ Pode ser importante. ─ lembrei.
─ Deixa isso. Nada é mais importante que aquilo que vamos fazer.
Acabei por ceder e levei-a para o quarto. Atirámo-nos para cima da cama e eu despi-a, ansioso por conhecer o seu corpo, tocá-lo, acariciá-lo.
Raquel revelava os mesmos objectivos. Despi-a e toquei-lhe os seios, apertando-os e dedilhando os mamilos até começar a sugá-los. Sentia as suas mãos acariciarem-me e dirigirem-se aos meus pontos mais íntimos.
O ambiente era quente, tórrido mesmo. Por momentos, desviei a atenção sobre ela e apressei-me a procurar um preservativo. Tinha que a penetrar. Naquele instante, esse era o meu único objectivo.
Vasculhei tudo, desviando-me das mãos dela que me puxavam constantemente para si, mas não encontrei nada.
─ Temos de parar. ─ disse ao seu ouvido.
─ Porquê? ─ interrogou, frustrada.
─ Não tenho preservativos.
─ Não faz mal. ─ argumentou. ─ Eu tomo precauções.
Hesitei. Contudo, desejava-a tanto. E havia tanto tempo que não o fazia com ninguém...
Penetrei-a com toda a força do desejo que sentia, fazendo-a vibrar de paixão. Movimentei-me sobre ela, acariciando-lhe o corpo nos locais que mais a faziam delirar.
Toda a força da paixão que partilhávamos, naquele momento, explodiu num fluxo quente que a inundou por dentro e nos fez cair, um sobre o outro, esgotados.
Acordei na manhã seguinte, sentindo um arrepio de frio na espinha. Raquel permanecia num sono profundo, enroscada a mim e embrulhada na roupa da cama.
Afastei-a com ternura e levantei-me da cama. Caminhei até à sala e fiquei a pensar nesta mudança de relacionamento com Raquel. Tinha sentimentos contraditórios. Se por um lado estava feliz pelo seu amor, por outro, continuava com dúvidas em relação ao meu por ela.
A noite fora maravilhosa, fizéramos amor como dois amantes insaciáveis. Porém, parecia faltar algo naquela relação. Não era como fora com Camila, mas Camila estava... Recusei-me a recordá-la dessa forma.
Lembrei-me do telemóvel e da mensagem que não chegara a ler na noite anterior. Ficara sobre a mesa da sala, lugar onde o fui buscar. Marquei o número do voicemail e aguardei.
─ Marque o seu código pessoal, seguido de *! ─ disse a gravação.
Marquei os dígitos e carreguei no botão que ela dissera.
─ Tem uma mensagem nova.
Nesse instante, a campainha de casa tocou. Desloquei-me numa passada lenta, continuando a ouvir a voz no telemóvel:
─ Recebida às 22 horas e 33 minutos.
Levei a mão ao trinco da porta.
─ Olá, Ivan! É o Jorge. Não imaginas o que aconteceu. ─ dizia a mensagem com a voz do meu empresário.
Abri a porta e fiquei petrificado. A voz prosseguiu:
─ A Camila está viva! Parece incrível, mas é verdade.
Nem me conseguia mexer, pois tinha diante de mim a própria Camila.
A voz de Jorge continuava, sentindo-se a euforia nas suas palavras:
─ Está viva e mor... desejosa de te ver. Vamos para aí amanhã de manhã. Um abraço.
Camila abraçou-se a mim e apertou-me com toda a força.
─ Que saudades, Pedro.
─ Camila? Como...? ─ interroguei eu, abraçando-a.
Subitamente ouvi o ranger da porta do meu quarto. E, logo de seguida, a voz de Raquel:
─ Quem é, amor?
Senti a força do abraço de Camila esmorecer e começar a largar-me. Afastou-me automaticamente, mantendo o olhar atrás de mim.
Voltei-me para trás e vi Raquel com uma camisa minha vestida, não deixando a mínima dúvida do que se tinha passado naquela noite.
Quando me direccionei novamente para a porta, Camila já lá não estava. Vi que descia as escadas e fui atrás dela.
─ Camila espera! ─ pedi, segurando-lhe o braço.
Camila parou e voltou-se para mim. Os seus olhos deixavam escapar uma lágrima e o seu lábio tremia.
─ Foi um erro, ter cá vindo. ─ disse ela, limpando a gota que escorria pelo rosto.
─ Não, Camila! Não foi. ─ contrapus. ─ Não imaginas como estou feliz por saber que estás viva. Não imaginas o quanto eu desejei isto.
─ Não parece, pelo que vi ali em cima.
Estávamos ambos, frente a frente, a meio das escadas. Vi Jorge que ficara junto ao carro, aguardando.
─ Camila, há quase quatro meses que te julgo morta. Não imaginas como sofri.
─ E eu, Pedro? Podes imaginar o que eu passei e o que sofri?
─ Não Camila, não sei. ─ concordei. ─ Mas gostava de saber o que te aconteceu. Entra, por favor! ─ pedi.
─ Não! ─ recusou firmemente. ─ Não entro ali!
─ Tudo bem, falamos aqui. ─ sugeri.
Camila aceitou. Fez uma pausa. E durante essa pausa, vi Raquel junto à porta por breves instantes. No entanto, o frio fizera-a regressar ao interior.
─ A viagem estava a correr bem. ─ começou Camila. ─ Devíamos estar a cerca de uma hora de Lisboa, talvez menos. De repente, as hospedeiras começaram a pedir às pessoas que pusessem os cintos de segurança e se mantivessem calmas. Diziam que era uma medida de precaução, mas acho que o aparelho estava com problemas técnicos.
Fez uma pausa, tentando recordar os momentos seguintes:
─ Não passaram muitos minutos, até ao momento em que o comandante nos informou que estavam com problemas e que iriam tentar aterrar em Ponta Delgada. Segundos depois, iria tentar aterrar... ou melhor, amarar de emergência em pleno oceano. Mandaram-nos vestir os coletes salva-vidas e colocarmo-nos em posição.
Reparei que Camila tentava ser o mais fiel possível no relato, como se a recordação a ajudasse a compreender melhor o que acontecera.
─ Nunca esquecerei aqueles momentos. Ouvia-se o zumbir dos motores tentando aguentar aquele gigante que caia a uma velocidade vertiginosa. O despenhamento na água foi fortíssimo, as luzes apagaram-se e o avião partiu-se em dois. Vi-o rachar-se umas três filas atrás de mim. A força do impacto deve ter matado logo alguns dos passageiros. E os que ficaram na outra metade, não tiveram tempo de escapar, pois a água começou a entrar e a única saída que tinham ficou tapada pela água.
Uma nova lágrima apareceu no seu rosto.
─ Nós ficámos ao contrário. A parte do avião aberta ficou virada para cima e a água entrava pelos vidros partidos. Algumas pessoas começaram a saltar para o mar, sem medo do temporal e das ondas enormes. Eu aproximei-me da abertura, mas quando tentei saltar, alguém me empurrou e eu bati com a cabeça. Não me lembro de mais nada.
─ Como te salvaste?
─ Há menos de uma semana, acordei no Hospital de Ponta Delgada. Segundo me contaram, estive mais de três meses em coma. Ao que parece, acabei por dar à costa inconsciente. Dizem que foi um milagre, talvez o tenha sido. Os pescadores locais levaram-me para o hospital. Ninguém sabia quem eu era até despertar do coma.
Tinha vontade de a abraçar, mas notei que ela se mantinha distante e fria.
─ Fica uns dias comigo, aqui. ─ pedi.
─ Não, Pedro! Vou voltar para Lisboa e tentar recuperar a minha vida.
─ Mas nós...
─ O “nós” já deixou de existir há muito tempo, Pedro. ─ lembrou desprendida. ─ Tu acabaste com ele e, ao que parece, já deste rumo à tua vida.
─ Camila, aquilo não é o que estás a pensar.
─ Não? ─ interrogou furiosa. ─ Então o que é? Vais dizer-me que não dormiram juntos?
Não tive argumentos para ela.
─ Desculpa, Pedro. Eu não tenho o direito de te censurar. Tu não me deves explicações de nada. ─ E desceu o que restava das escadas.
No entanto, após o último degrau, disse:
─ Sabes a única coisa que me lembro, durante o tempo que estive em coma? A minha mente dizia constantemente “deixa que o amor seja a tua energia”. Lembraste dessa época, não?
Corri pelas escadas até ela, segurei-a com força pelos braços e exclamei:
─ Eu amo-te Camila!
Camila baixou o olhar e confessou:
─ Quem me dera acreditar nisso. Hoje, pensando em tudo o que passámos e as decisões que tomaste, começo a pensar se alguma vez me amaste realmente.
Desprendeu-se das minhas mãos e refugiou-se no interior do carro.
Jorge veio ter comigo e disse:
─ Vou levá-la. Depois telefono-te.
Tentei falar novamente com ela, mas Jorge travou-me, dizendo:
─ É melhor não, Ivan! Dá um tempo para ela se acalmar. Terão tempo suficiente para falar.
Abanei a cabeça, concordando com ele e pedi:
─ Cuida dela.
Jorge assentiu com a cabeça e dirigiu-se para o carro.
Fiquei a vê-los afastarem-se, sentindo uma dor enorme. A alegria de ver Camila viva, desvanecera-se com a tristeza de a perder mais uma vez.
Ao regressar a casa, Raquel estava sentada no sofá com os cotovelos apoiados nos joelhos e com a cabeça caida sobre as mãos. Sentei-me a seu lado e fiquei em silêncio. Raquel olhou para mim e perguntou:
─ Quem era?
─ Penso que sabes tão bem como eu. ─ respondi. ─ Era a Camila.
─ Mas tu disseste que a Camila tinha morrido!
─ Foi o que pensei, nestes últimos quatro meses. ─ disse, mantendo o olhar distante.
─ E agora?
Olhei para ela e repeti:
─ E agora? Agora o quê?
─ Como ficamos nós?
─ Não sei, Raquel.
Raquel virou-se para mim e questionou:
─ A noite passada não significou nada para ti? Vais voltar para a Camila?
─ Não sei nada, Raquel! ─ exclamei, sobrecarregado de ideias e a tentar compreender o que se estava a passar.
Ela não conseguiu esconder a lágrima que lhe escorria na face. Levantou-se do sofá e sugeriu:
─ É melhor eu ir-me embora.
Não respondi e deixei-a sair dali sem uma palavra para a impedir.
Camila regressou, nesse mesmo Sábado a Lisboa, talvez no exacto momento em que eu jogava mais um jogo do campeonato pelo Paúle. Decidira, antes do início do jogo, regressar a Lisboa e tentar falar com Camila.
Infelizmente, o jogo correu pior que mal. Para além da derrota, eu lesionei-me num choque com um defesa adversário, o que me obrigou a repouso total durante uns dias.
Após a Páscoa, Raquel regressou a Coimbra sem me dizer uma sílaba. E eu sabia o quanto ela estava magoada comigo pela indiferença a que a votara, depois de rever Camila.
A minha preocupação principal passou a ser Camila e ter a oportunidade de voltar a falar com ela e tentarmos reatar, aquilo que o acidente interrompera.
Esquecera completamente Raquel e tudo o que ela fora para mim, ao longo daqueles meses. Esqueci a sua ajuda, os bons momentos, tudo, até o sexo que fizéramos.
Naquele último ano, a minha vida levara voltas e mais voltas e continuava sem rumo, nem estabilidade.
A lesão quase colocara em perigo a minha presença no Jamor, mas fizera-me ausentar dos últimos jogos do campeonato. O Paúle conseguiu a manutenção no último jogo, após uma vitória sofrida no terreno de um dos concorrentes directos à manutenção.
Os festejos prolongaram pela noite dentro até ao amanhecer.
Quando regressei a casa, para minha surpresa, encontrei Raquel à porta da minha casa.
─ Raquel? Julgava-te em Coimbra. ─ disse, mantendo a curiosidade na sua presença.
─ Precisamos de conversar. ─ avisou com frieza.
Fiquei apreensivo. Que razão teria feito Raquel vir de propósito a Paúle? Abri a porta e convidei-a a entrar.
Raquel entrou e sentou-se no sofá. Eu segui atrás de si.
─ Queres beber alguma coisa?
─ Não, obrigado.
Sentei-me a seu lado e aguardei o que tinha para me dizer.
─ Nem sei com dizer isto, Ivan. Era a última coisa que queria que acontecesse... Aliás, nem sei como aconteceu.
─ E que aconteceu, Raquel?
─ Vou contar-te porque acho que tens direito a saber. ─ prosseguiu. ─ Mas, não exijo nada de ti. Não sintas qualquer obrigação...
─ Por favor, Raquel! Estás a preocupar-me. Que se passa?
─ Estou grávida!
─ De mim? ─ interroguei estupidamente.
─ Não. É do padre Inácio! ─ respondeu com ironia. ─ Achas que se não fosse teu, eu estaria aqui a contar-te?
─ Tens razão! Desculpa!
─ Ouve, Ivan! ─ pediu Raquel. ─ Eu tenciono ter a criança, mas não quero nada de ti.
─ Mas, Raquel...
─ Não, Ivan! Nada de “mas”. Eu decidi e não mudo de ideias. Só quis ser eu a contar-te a verdade. Não quis que o soubesses por outras pessoas.
Tentei dizer mais qualquer coisa, mas não me saiu nada. Raquel levantou-se e dirigiu-se à porta. Fui atrás dela.
Antes que chegasse à porta, a campainha tocou. Passei por ela, que regressou à sala, e fui abrir. Dei de caras com Augusto transtornado.
─ Que foi, Augusto?
─ Anda, Ivan! Aconteceu uma tragédia.